Era como uma ferida, destinada a eternamente permanecer no corpo padecido em forma de triste cicatriz. Ou, se vista de maneira imaculada, inocente, uma espécie de traiçoeira anestesia onde um resultado é incerto após o efeito passar. Era como se eu me submetesse a esta anestesia antes de saber sobre a viagem, sobre a ligação com a guerra, sobre os perigos. Na hora, não senti nada além de espanto e vontade de estar próxima deles, o que me fizera abrir uma discussão curta, na qual eu venci. Indiferente a qualquer sentimento, com destaque ao medo.
Um sentimento humano e comum, e não senti-lo seria insano da parte de alguém. Aquela nuvem negra e pesada que tomava formas no interior da mente ainda não estava sozinha. Minhas vontades iniciais permaneciam e, com o fim dessa estranha anestesia dos acontecimentos, apenas se fortaleciam em meu coração. Ao lado do medo agora caminhava outro sentimento. Algo às vezes tomado como dúbio, interpretado – e muitas vezes usado – no puro fingimento, desacreditado, desprezado até por mim. Mas tão valoroso como os outros... Eu me sentia indignada. O destino me provara mais uma vez ser injusto com as pessoas. Porém, as formas de expressão usadas em meu pensamento, me deixavam dúvida.
Seria realmente certo dizer que o destino é injusto? O que a justiça é, afinal? No mundo em que vivemos, ela é uma utopia, e muitas vezes as pessoas são hipócritas ao citá-las em discursos.
Isso não seria apenas uma troca equivalente? Amestrinos que tiravam vidas inocentes, perdendo vidas inocentes, sofrendo com a vingança de um povo... Injustiçado. É tão crível ao mesmo tempo em que incrível, como tudo o que eu pensava era capaz de chegar a conclusões já esclarecidas e definidas. Ou seria culpa da própria justiça.
Não me importavam aquelas respostas. Não era a resposta sobre a verdadeira justiça, a que eu buscava. Não era a resposta sobre troca equivalente que eu buscava. Era apenas por que Edward tinha que ir. Por que Edward, isso sim, era o que me preocupava de verdade. E eu não queria uma resposta certa para essa pergunta. Apenas sentia meu coração implorando para chorar de medo. Como uma criança açoitada pelo medo da escuridão da noite.
Mas lágrimas não mudariam a minha situação. Minha? A situação deles. Os problemas que Ed e Al estariam passando. Provavelmente eu só era uma figurante em toda aquela história.
Todavia, tal pensamento não seria suficiente para repensar minha decisão.
No alto da escuridão da noite, o frio soprava fortemente. Tremia de leve diante da luz fantasmagórica de uma vela, que era melhor do que a luz do quarto de hotel estar acesa naquela hora. Sentei-me à cama ao lado de Edward, e Al estava de pé à nossa frente. O silêncio era estranho; estavam todos próximos, mas nenhuma palavra era proferida.
- Está tão frio – comentei baixinho, quebrando aquele silêncio, por acaso que parecia tão gélido quanto o clima – Imagino se no leste está tão frio assim...
Edward desviou o olhar, e eu fitei seus punhos se fechando. Encarei o rosto que me ignorava com seriedade. Até que ele bufou – Winry... – disse em um resmungo, mas logo depois, seu tom de voz mudava – Pense melhor na sua decisão. Você não sabe o quanto pode ser perigoso se você estiver...
- Eu sei dos perigos – interrompi imediatamente, fechando meus próprios olhos. – Já disse e posso repetir até que você canse de ouvir, eu vou até o leste com vocês, eu não vou mais esperar. E nada do que você disser irá me convencer disso. Eu sei o que estou fazendo.
Ed dava um suspiro longo, fitando o chão. Al, que estivera apenas observando naquela hora, se manifestou – Sei que muitas vezes o Nii-san erra com você – olhei para ele, quase rindo quando o ambarino erguera um olhar indignado à armadura que se pronunciava – Mas dessa vez ele está mais do que certo, Winry. Será melhor se você ficar na Central ou em Rizempool. Podemos nos prevenir dos perigos que lhe rondariam... Não quero parecer pessimista, mas é o que está acontecendo por lá atualmente e você sabe muito bem disso.
Não. Eu não aceitava aquelas palavras por mais que carregassem alguma verdadeira probabilidade desastrosa. Não queria... Ou aquilo, ou agonizar mais não se sabe quanto tempo até que Edward e Alphonse estivessem sãos e salvos diante de mim.
Baixei o olhar para minhas próprias mãos – Parem de tentar me obrigar a fazer o que eu não quero – murmurei. E ergui o olhar, olhando para Edward – Você, pare de tentar resolver tudo sozinho! Vocês dois, na verdade... É além de algo que eu quero, eu preciso ir com vocês. Eu sei dos perigos, eu vou me cuidar. E não sou só eu que tenho que me cuidar, sabe?
Implorei. Encarei o fundo daqueles olhos dourados buscando por aceitação. Tentando dizer que era o fim daquela discussão. No fim, ele apenas desviou o olhar, não dando resposta. Senti-me derrotada ao mesmo tempo em que vitoriosa; o que só me fez irritar, mas resolvi deixar a discussão morrer naquele silêncio que se fez.
Mas antes disso, um pequeno assunto a tratar emergiu em minha cabeça; murmurei surpresa, fazendo Ed e Al se voltarem para mim novamente. Olhei para o mais velho, séria novamente, e exigindo resposta – O bilhete – lembrei em uma quase exclamação – O tal do bilhete que disseram estar com a menina que morreu... O que ele dizia?
Minha pergunta provavelmente fosse a que Alphonse evitava fazer apenas por temer perturbar o irmão. Coisa que eu não me dei conta a tempo e acabei por perguntar. Ao ver o semblante mudar por um pequeno tempo, me arrependi da pergunta. Mas aquele que fora questionado ergueu a cabeça com forte expressão.
O olhar era distante enquanto Edward recordava dos detalhes – Eram frases, às vezes turvas, com rimas simples. Não lembro tudo – murmurou, e novamente perdeu-se em pensamentos ao tentar resgatar as frases – "Aquilo que à força perdemos, não nos esquecemos. Eram nossos grandes bens, que por vingança, tiraremos aqueles que tu tens. Você também será atingido, não adiantará implorar, nem dizer estar arrependido."
Aquilo que à força perdemos. Minha cabeça perdia-se no sentido que as frases faziam. Eram nossos grandes bens. Começava a justificar as ligações encontradas por Edward entre as mortes e a guerra. Você também será atingido. Depois da última frase, não vagava em minha mente mais nenhuma dúvida sobre tal fato inegável. A profundidade das frases irônica e temerosamente rimadas causava-me um arrepio na espinha. Despertavam lembranças que eu preferia deixar morrer. Mas lembranças que eu sabia que não conseguiria esquecer.
- Isso me lembra Ishval... – murmurei tão baixo que nem mesmo Edward, sentado ao meu lado, conseguira ouvir.
Tal que ele se aproximou ainda mais – O que você disse? – perguntou surpreso.
Suspirei – Que isso é como Ishval – repeti, dessa vez em volume normal. Os olhos dourados cintilaram e sua expressão tornou-se mais séria. Era como se me estudasse – Uma guerra onde pessoas perderam seu território, perderam familiares e ficaram eternamente marcados. E foi uma guerra que me trouxe preocupações extremas, e lágrimas incontroláveis. E curiosamente, uma alma vingativa está agindo e tentando trazer uma equivalência nessas conseqüências da perda.
Fechei os olhos, e sorri tristemente.
"Confesso estar muito perdida nessa história toda. Nessas horas, ter pais por perto seria tão... Bom. Eu me sentiria mais segura, menos perdida... Mais tranqüila. Realmente, por mais que estejamos acostumados, não termos os pais por perto faz falta, não é?"
- W-Winry... – dessa vez, era a voz do mais novo que se pronunciava. Abri os olhos e prestei atenção nas palavras da armadura– Você... Ainda sente a perda dos seus pais?
- Aprendi a conviver com essa perda, na verdade – disse – Não pode esquecer-se de pessoas assim. Faz tanto tempo... Às vezes eu me imagino com eles. Tem vezes que sinto mais falta, tem vezes que é apenas lembranças distantes. E tão boas. – tornei a sorrir, e passei a olhar para Edward – Mas não digam como se vocês também não sentissem falta de seus pais. Vocês sentem. Mas sempre escondem isso, sempre escondem as fraquezas e os medos que atormentam vocês. Isso me frustra.
Mais uma pausa se fez. Edward me olhava com um misto de pena e surpresa. Pena... Não queria que ele sentisse pena de mim. Por isso, me mantive forte. Não seria motivo para me desfazer em grossas lágrimas de saudade e dor. Aquilo já não me era mais necessário. Pessoas que perdemos sempre nos farão falta.
Nesse tempo, Ed fechou a cara e desviou novamente o olhar – Eu sinto falta da mamãe – não pude deixar de sorrir. Ele falava dela com tanto carinho, com tanto amor... Mas logo depois seu tom de voz mudava – Mas aquele cara pode continuar onde bem está.
Sorri. Talvez fosse preciso muito mais do que retornar ao convívio para desfazer a impressão terrível que Edward tinha de seu próprio pai, por conta de ressentimentos passados que moldaram opiniões duras e aquele relacionamento irregular de pai e filho. No fim, ele certamente se daria por conta do quanto tal companhia lhe será necessária. E com certeza, se Edward escutasse meus pensamentos, responderia secamente "isso nunca chegará a acontecer."
- Acho que eu vou dormir agora – disse logo após um bocejo rápido, levantando-me da cama de Edward e saindo do quarto dos meninos – Já está ficando muito tarde. Não demore a ir dormir também, Ed.
Ele me olhou com descrença – Não preciso, e nem queria ter que ouvir isso de você! – exclamou com indignação. Segurei o riso e apenas lhe dei uma piscadela enquanto fechava a porta do quarto.
Logo fui caminhando pelo corredor iluminado até a porta de meu quarto, que ficava apenas um pouco mais à direita, em um canto externo. Entrei e me atirei na cama, no canto do quarto. Sentia-me muito cansada. Os dias estavam correndo com velocidade tremenda e me sobrecarregavam com a quantidade de notícias que vinham, todas embaralhadas, porém com ligação; um quebra-cabeça insuportável de desvendar sozinha.
Estava na hora de dar um descanso para a mente...
Frio. Era o frio que tocava o meu corpo trêmulo em meio à escuridão de uma noite sem lua ou estrelas. As ruas da cidade de terra e pedra estavam completamente vazias. Apenas encontrava-se parada no meio dela a minha própria silhueta.
Tinha andando ao meu lado a estranha e desconfortável sensação de muitos pares de olhos, que seguiam cada um dos meus passos confusos e sem rumo. Olhava para os lados, para trás, mas não via nada. E a sensação continuava. E incomodava. Demais.
Algo me dizia para correr. Algo me dizia que eu estaria mais segura se eu corresse. Mas era tão incerto... Eu poderia acabar correndo em direção àqueles que me observavam. Eu poderia acabar em um perigo maior enquanto tentava me livrar dos perigos que já me ameaçavam.
Resolvi correr.
Parecia-me tão tentador...
Dobrei em muitas ruas, segui em linha reta, sempre abraçando a mim mesma enquanto corria sem parar e muitas vezes retrocedendo em meu caminho. Mas no fim, acabei parando arfante no meio de uma rua desconhecida.
Como se fosse apenas para que o meu medo aumentasse, a sensação estranha continuava. E parecia mais forte. Não muito tempo depois...
... Ela provou não ser apenas fruto da minha imaginação.
Passos tornavam-se audíveis, não muito longe de onde eu estava. Um arrepio subira pela minha espinha, e me arrependi amargamente de ter ido até ali. Arrependi-me amargamente de minha escolha insensata.
Olhei em volta, precisava me esconder. Nenhum lugar ali parecia bom o suficiente, mas não me restava tempo para sair da rua de muros altos sem ser percebida.
Era o meu fim.
Pelo menos assim que me parecia naquele momento.
Uma pessoa se aproximava, mas eu ainda não conseguia ter um vislumbre de seu rosto. Não conseguia mais conter o meu medo. – Quem está aí? – me arrisquei a perguntar. Minhas mãos suavam, minha voz soava trêmula e pouco audível. O ser chegou mais perto. Dei um passo para trás.
A pessoa cuja visão do semblante não me era concebida aproximou-se com mais rapidez. Lágrimas já rolavam pelo meu rosto, e meus pés já não mais estavam firmes no chão. Caí desajeitadamente no asfalto frio, e apenas consegui me arrastar em uma tentativa de fugir dele.
Tarde demais.
Com ainda mais velocidade, senti meu tornozelo esquerdo ser agarrado. Gritei de dor pela força do aperto, e também de medo. Tentava me segurar no próprio calçamento, enquanto era carregada daquela maneira, que machucava minha pele. Soluçava descontroladamente – Me solta! – tentei gritar entre o choro inacabável.
Mas fui completamente ignorada, e a pessoa seguiu seu caminho. Vi claramente que a intenção era exatamente o que me viera na cabeça: matar-me.
Ao pensar nisso, a sensação que tive era como sucumbir a um abismo negro. Meu rosto quase se acalmou, mas o desespero era o mesmo a todo o momento; tal que me fez gritar a plenos pulmões a única coisa na qual eu poderia confiar naquela hora.
- EDWARD!
Abri os olhos e fitei o teto escuro do quarto do hotel. O ar me faltava; tentava inspirar com real desespero. As sensações que me tomaram naquele pesadelo eram demasiadamente verdadeiras. Todo o meu corpo tremia, e quase desabei em lágrimas. Mas não seria preciso tanto.
Porém, uma coisa era certa: eu não dormiria mais naquela noite. Muito menos pretendia permanecer sozinha naquele quarto. Sentei na cama com certa dificuldade, os movimentos errantes por conta do tremor incontrolável. Ficar em pé parecia ser uma coisa impossível, e meus passos saíram cambaleantes em direção à porta do quarto.
Quando a abri, senti um alívio tremendo. Mas ao mesmo tempo, ir àquele corredor que permanecia iluminado me era um desafio; o compartimento era completamente vazio se não havia portas de quartos.
Parei em frente à porta do quarto de Ed e Al de novo. Engoli em seco, sentindo oscilações entre alívio e muito medo. Dei duas batidas fracas na porta – Al, pode abrir? – sussurrei.
Pude ouvir um som metálico que vinha de dentro da porta trancada – Winry? – chamou Al com sua voz doce. Meu coração ainda descompassado começava a se acalmar. Não respondi, mas logo pude ouvir o som da porta sendo destrancada e logo depois aberta – Winry, são três horas da madrugada. O que você faz acordada? – ele censurou.
Não me importei, nem ao menos me desculpei. Uma incrível sensação de paz tomara conta de mim apenas ao som da voz de Alphonse. Dei um passo para dentro do quarto. – Vou ficar aqui pelo resto da noite, certo? – sussurrei, com os olhos fechados. Ansiava desesperadamente por conseguir afastar as imagens que sobrevoavam tão detalhadas na minha cabeça.
Houve certa hesitação da armadura em responder. – Winry – disse por fim, o tom de voz visivelmente mais sério. – Aconteceu alguma coisa que você não quer me dizer.
- Não exagere! – exclamei incrédula. Depois, me acomodei no sofá do quarto escuro. Al fechou e trancou a porta novamente, se aproximando. Mais uma vez, as lembranças do sonho vieram. Abracei meus joelhos – Foi apenas um pesadelo terrível, que me amedrontou.
Ele não respondeu. E eu preferia assim, pois não queria ter que contar tudo aquilo que acontecera no sonho. E, se eu contasse, seria um motivo que faria com que tanto Edward quanto Alphonse voltassem a me obrigar a não ir ao leste com eles. Além de tudo, o sonho não tinha sido o suficiente a me parar. Acho que eu prezo muito por outras coisas antes de sentir medo disso. Pensei por fim. Não terei mais tanto medo das coisas. É isso que eu espero.
Na verdade, tentar convencer a mim mesma com aquelas palavras era mais tormento do que apenas tentar esquecer tudo em silêncio. Olhei para Alphonse, que ainda me encarava com aquele elmo feroz demais para sua verdadeira personalidade – Talvez eu te conte melhor sobre isso um dia – disse, esboçando um sorriso quase invisível – Afinal, se eu contar tudo agora, aquele ali vai acordar.
Enquanto uns permaneciam acordados, Edward dormia profundamente em sua cama. Certamente, se ele estivesse perturbado por sonhos naquele momento, seriam coisas felizes. Ou simplesmente nada conseguiria tirá-lo daquela cama, como qualquer coisa parecia não conseguir. Pelo menos, pensei. Ele pode descansar verdadeiramente em paz. Acho que é o que mais precisa disso, afinal.
- Você está com olheiras terríveis, Winry.
Isso foi uma das primeiras exclamações de Edward ao acordar. – Não dormi direito – resmunguei em resposta. Já estava vestida, sentada no sofá do quarto, a cabeça pendendo para o lado e os olhos semicerrados.
- Bem – começou novamente o ambarino, parando em frente ao sofá, se espreguiçando – Já estamos nos aproximando da viagem, e... Se você começar a dormir mal, acho melhor que você não vá conosco – ergui um olhar ácido para cima dele quando disse aquilo. Edward continuou dando desculpas esfarrapadas – Você precisa de descanso.
Aquela frase me irritou mais profundamente do que qualquer outra desculpa que ele desse – Você realmente não entende, não é, Edward? – ergui o tom de voz, e levantei do sofá, encarando-o de frente – Por favor, pare com essas tentativas de me convencer a ficar. É tão difícil entender que eu não vou ficar aqui esperando como sempre?
Os orbes dourados arregalaram-se de susto. Apenas continuei o encarando secamente, e acredito que as olheiras provenientes da falta de descanso deixavam meu olhar um tanto assustador naquela manhã. Ed recompôs sua expressão, ficou sério e se afastou. Eu baixei o olhar; quando essas discussões breves aconteciam, percebia que estava sendo insensível e desagradavelmente egoísta. Pois estava apenas me preocupando com o que eu sentiria, e acabava ignorando completamente o fato de que a minha ida o preocupava verdadeiramente. Todavia, ele parecia não entender o quanto aquilo estava sendo terrível para mim. Ao mesmo tempo, talvez eu não entendesse que minha própria persistência era algo que o deixava pior.
E, no fim, eram duas pessoas agindo apenas de forma que se sentissem melhor. Ambos os seres egoístas.
Depois daquilo ninguém mais falou. Tão deprimente era a cena na manhã; o sol mal se esgueirava entre as janelas, e eu apenas encarava o vazio com olhos cansados, enquanto Edward fazia o mesmo. E Al apenas fazia assistir àquela cena monótona. Aquele gelo deixado no meio, algo que acontecia com muita freqüência nos últimos dias, me incomodava. Deixavam coisas a serem resolvidas entre todos. Ergui o olhar novamente para os dois irmãos – Por favor, digam alguma coisa – pedi, irrequieta – Não gosto quando há esse silêncio todo durante muito tempo.
- Se eu fosse dizer algo, nesse momento – Alphonse, que antes se mantivera inativo na discussão, pronunciou-se – Seria concordar com o meu irmão. É perigoso a extremos que você não faz idéia, Winry.
- Já disse, não adianta! – retruquei, encarando Al com certa indignação – Eu já me decidi! Quantas vezes eu ainda terei que dizer isso? É uma tarefa tão demasiado difícil entender o que eu lhe disse?
Edward trincou os dentes – Winry! – exclamou com a voz alterada. De forma que me fez quase encolher – Eu também estou cansado de discutir isso com você. Chega. Eu... Eu vou... Acostumar-me com a idéia de que você irá conosco. E... Que você correrá riscos.
Depois de dizer isso, desviou o olhar, fazendo com que eu perdesse de vista os olhos ambarinos. Por mais que Edward tivesse, de certa forma, cedido a meu pedido, isso não era algo que me deixava satisfeita, aliviada ou feliz. Apenas preocupada. Eu entendia um pouco o medo dele, principalmente depois de me lembrar de todas as coisas que me permitira ouvir sobre a guerra. Mas ele tinha mais medo de que acontecesse alguma coisa séria comigo do que com ele ou com Al. Mais uma vez, ali estava, o tão terrível medo.
Edward se preocupava demais.
Isso era o suficiente para justificar insistente recusa. Uma lembrança se fez presente em meus pensamentos. As duas lágrimas derramadas pelos mesmos olhos quentes e dourados como o sol que naquele momento, a vista me era barrada. As duas lágrimas cheias de medo.
E ali, vendo-o aceitar à força, ocultando o rosto e o desejo de exclamar algo importante – o que era mais do que perceptível -, eu acabava por perceber novamente o quanto humanos podem ser insensíveis pelos seus caprichos.
Dessa vez, o tão detestável silêncio durou até o dia da viagem. Nada mais do que três dias depois.
As malas nas mãos, um elmo inexpressivo, um garoto de expressão torturada e uma garota apreensiva. Da vista de fora de nosso estranho trio, poderíamos ser definidos dessa forma. Não conseguia, por mais que estivesse animada, de certa forma, era impossível esconder aquela desagradável sensação de nervosismo. Aquela expressão parecia gravada no rosto de Edward. O semblante que prevalecera junto à calmaria do silêncio. Todavia, ele não indicava calmaria e sim tempestade.
Nada era dito, mesmo quando estávamos sentados no vagão e o trem já começava a andar. Eu estava sentada ao lado de Edward e de frente para Alphonse. Apenas fiz admirar a paisagem, já que palavras me faltavam, assim como também faltavam a eles.
E assim permanecera até pouco tempo depois – Youswell não fica muito longe dessa cidade que nós vamos, certo, Al? – perguntou Edward, sem muita emoção em sua voz.
- Na verdade eu não faço idéia, Nii-san – respondeu a armadura, e eu passei a voltar minha atenção à conversa – Queria passar por lá e ver como estão as coisas atualmente.
Edward assentiu em resposta, e o silêncio voltou. Senti que seus olhos ambarinos se voltavam para mim e encarei em resposta, sentindo-me inconscientemente irritada com tal ato, pois algo fazia com que supunha que a causa do silencio era eu mesma. E também, era como se a face séria de Edward escondesse seu real desejo de dizer alguma coisa. Aquela irritação inconsciente apenas fez crescer. Fitei o chão e respirei fundo antes de voltar a encará-lo – Qual é o seu problema? – perguntei amargamente. Mais do que pretendia, e queria, na verdade.
Sua face mudou, surpreendida – Não é nada com você, Winry – murmurou, outra vez sério. Olhava para as próprias mãos e mantinha um ar perdido. – Na verdade... Você está no meio, mas, apenas como um motivo. Não é nada. Eu apenas me sinto frustrado comigo mesmo.
- Nii-san... – Al tentou dizer.
Eu apenas fiquei olhando. Mas a sutil profundidade daquelas palavras era muito bem capaz de me deixar confusa e aguardando uma resposta. Que logo viria – Não é de hoje – Edward prosseguiu. Fechou os punhos. -, que eu sinto que não tenho controle sobre absolutamente nada. As mortes que não pude impedir, as situações que eu e Alphonse já vivenciamos, muitos motivos me fazem pensar assim. Eu mal consigo controlar minhas próprias ações, às vezes. E agora... – voltou a me encarar. Seus olhos já não eram sem emoção – Eu nem ao menos consegui convencer você a ficar!
Continuei olhando para ele. Por mais que eu tentasse compreendê-lo, aquele motivo me parecia muito fraco para tanto. Ele arfou novamente – Eu juro – recostou-se no banco, tentando se acalmar- Que se algo acontecer com você... Eu não vou me perdoar.
Não, Winry. Pensei, sorrindo. Tal motivo parece pouco para você, por conta de nunca ter vivenciado tais situações perigosas. Segurei o punho direito de Edward, a mão mecânica, que estava fortemente fechada enquanto seu dono parecia tentar se conter. Fui abrindo-a lentamente – Não vai acontecer nada – respondi por fim – Eu confio em você e no Al. E eu vou me cuidar. Não vai acontecer nada. E não se culpe pelas coisas que acontecem à sua volta. Não é motivo para que tudo tenha sido por sua causa.
- Mesmo assim – murmurou, dessa vez, quase impossível era a tarefa de se ouvir – É perigoso demais. Não sabemos o que pode acontecer nesse lugar.
Suspirei – Eu disse, não disse? – continuei sorrindo da mesma forma. – Não vai acontecer nada. Confie em mim. E em você mesmo.
Depois daquilo, o trem andou durante mais algumas horas. O leste chegava cada vez mais perto, era quase possível sentir as mudanças climáticas que tais avanços traziam. A paisagem mudava lentamente, o trem balançava suavemente durante o avanço. E tudo isso parou por um momento, quando chegamos à estação.
A cidade cinzenta onde desembarcamos não era muito movimentada, mesmo que aquele não fosse o horário de risco para os cidadãos devido às ocorrências de assassinatos sombrios e invisíveis. As pessoas estão com medo. Pensei engolindo em seco. O ar carregado de tensão das ruas parecia tomar conta de mim.
Olhei para Ed e Al – Onde devemos ir? – perguntei.
Todavia, ambos pareciam concentrados demais em coisas distintas. Alphonse olhava para todos os lados como se buscasse encontrar algo ou alguém. Edward olhava para um ponto fixo no horizonte.
Acompanhei a direção dos olhos dourados e então me dei por conta. Circundando a cidade, ao longe estavam aquelas que provavelmente seriam as mais densas florestas de Amestris. Olhei novamente para Edward e coloquei a mão em seu ombro – Vamos? – perguntei, mas não tive resposta. Sacudi levemente o ombro que eu segurava – Ed!
Pareceu despertar, olhando-me confuso, perdido. Repeti a pergunta, recebendo um aceno positivo como resposta. Al também parou de olhar para todos os lados – Vamos por aqui – disse ele, nos levando por um caminho à esquerda da saída da estação.
O silêncio das ruas parecia algo completamente inimaginável. Se fosse uma cidade ou vila interiorana, aquilo seria completamente trivial. Porém, era uma cidade. Completamente antagônica à Central, ou Rush Valley. Não havia pessoas, carros. Apenas janelas fechadas e prédios de uma coloração cinza-escura e envelhecida pelo tempo.
No fim de uma esquina, meus olhos captaram a única coisa que não era cinza naquele lugar; as fardas azuis de cerca de seis militares. Era verdade; a missão era verdadeira e perigosa. Mas então, por que apenas seis militares? Sentia-me confusa.
Ao nos aproximarmos, todos bateram continência. – Irmãos Elric – disse um dos militares, que depois me encarou com olhos penetrantes. Encolhi-me. – E senhorita. Acompanhem-me até os dormitórios, por favor. A polícia local também estará nos esperando por lá.
Ninguém nada fez além de seguir o homem alto de cabelos castanho-claros. Fui junto, sentindo-me minúscula e estranha em meio aos militares. O grupo seguiu pela rua até um prédio maior no meio de algumas lojas. O militar abriu a porta e seguiu em frente, ignorando o recepcionista, que fez o mesmo.
Entramos em uma sala aos fundos, onde estavam cerca de mais dez militares e alguns representantes da polícia. Engoli em seco, e sentei timidamente em um sofá no canto da sala escura. Estava para começar uma reunião de planos.
- Eles certamente estarão por lá – a figura de fortes distinções, vestida em seu paletó negro, estivera introduzindo sobre as investigações já feitas anteriormente. – Pela floresta.
Aquela conversa demorara uma hora inteira. E seu resultado fora nada menos do que todo o grupo de militares e agentes da polícia adentrando a floresta, seguindo Ed e Al. Depois de alguma insistência, todos concordaram em me levar junto.
Eu não teria viajado com Edward e Alphonse para ficar esperando-os preocupada em um dormitório. Se eu simplesmente ficasse, qualquer esforço que eu tivesse feito para chegar até onde eu estava teria sido em vão.
E agora eu caminhava, dispersa em pensamentos entre as tão grandes e verdes árvores, aos arredores da cidade. Percebia o quanto elas eram parecidas com as do lugar descrito por Edward sobre a guerra. E também não deixei de perceber que tal paisagem era nostálgica e dura de ser vista por Ed.
Paramos em uma clareira em meio às árvores. Um dos policiais que segurava um mapa, observara-o por alguns instantes. Nesse meio tempo, encontrei pequenos rastros, aparentemente de animais, abaixo das folhas no chão aos meus pés. Olhei distraidamente e não prestei atenção na ordem de seguir em frente, e Edward também não notara que eu não tinha obedecido.
Isso foi um erro estranho.
Ao erguer a cabeça e encontrar a todos avançando muito mais à frente, senti uma espécie de pânico. Logo tratei de correr até onde eles estavam. Não gritei, pois uma das ordens dadas mais cedo pelo homem de terno preto, era manter-se em silêncio durante as caminhadas e investigações.
Mas eles estavam longe demais para que eu alcançasse. Logo os perdi de vista entre as árvores e comecei a correr para qualquer lado, tentando encontrar o grupo novamente. – Ed... – chamei baixinho – Onde é que...?
Eu estava com uma sensação estranha.
Curiosa sensação de estar sendo observada.
Sério, juro que nem sei com que cara eu apareço aqui. ç_ç
Tipo, desculpa mesmo pela demora, ela estava completamente fora de meus planos. :/
Sabe, a temporada de provas acabou faz mais ou menos duas semanas, ou seja, meio tempo do que demorou. Só pude escrever o cap nesse outro meio tempo entre o fechamento das notas e entrega dos boletins. Isso me custou inspiração, e muito, mas muito esforço. Antes dos treinos de futsal e depois do handebol sempre me sentava na biblioteca do colégio e escrevia um trecho desse capítulo para que pudesse adiantar as coisas. :/
Mesmo assim, trouxe o maior capítulo de toda a fic, com exceção do flashback do cap 10, pra vocês. Espero que o tamanho e os acontecimentos, e a história no geral compense a furada dessa ficwriter aqui. Nas minhas promessas a situação tá mais precária do que as de político -n AEHSOIHESOI
Bem... JURO que vou fazer de tudo pra encurtar o tempo em que vou escrever o cap 15. Vou mesmo. Odeio atrasos, mas não consigo contê-los. E agora FAREI DE TUDO MESMO para conter :/
Espero que tenham gostado do capítulo, e olha, tá ficando tenso AHSEOIAEHSOAEHSO q
Beijos pra vocês
