Ainda que com lentidão, o breu da noite em um bosque denso se aproximava impiedosamente sobre o lugar. O frio que fazia a pele arrepiar, o medo que tornava a respiração um ato tão caótico e irregular. Tudo mudava, a iluminação cedia à sua própria falta, o bosque verde mais parecia ser negro. Tudo mudava. Menos minha própria e penosa situação.
Por mais que nada acontecesse até aquele momento, o meu medo não se esvaía, muito menos diminuía, tendo como única opção apenas fazer aumentar. Um vento soprou; encolhi-me ao sentir meu corpo, pouco agasalhado para se proteger de tal hora gélida, arrepiar-se. Por mais que isso possa me custar a segurança que tive até agora, pensei, preciso sair desse lugar. Preciso tentar encontrar o caminho de volta, ou Ed. E foi isso que eu fiz. A sombra negra das árvores no chão pouco me deixavam contemplar o próprio solo. Tal cegueira era frustrante e parecia estar servindo justamente para tornar a passagem muito mais perigosa e tenebrosa.
- Ed... – sussurrei para o vazio enquanto corria, arfando, com o coração batendo descompassado contra o peito e o nó na garganta que mal me permitia conter lágrimas. Do mais puro e verdadeiro medo – Ed... Al... Alguém, por favor...
Era como se eu sentisse já ter passado por aquela provação perigosa. O pesadelo tido menos de uma semana atrás se fazia completamente vivo em detalhes na minha cabeça. Era praticamente a mesma coisa, porém no cerne de uma floresta; eu sentia como se algo estivesse à espreita, ou até mesmo em meu encalço.
Continuei correndo durante todo o tempo. Arfava, sentia as pernas cansando, tropeçando e muitas vezes sendo machucadas por arbustos que eram invisíveis na escuridão que a floresta adotara, mesmo antes do sol sair por completo. Não muito tempo depois, ouvi algo que me faria congelar. Ruídos de movimento tornavam-se audíveis no espaço, os sons de ramos sendo quebrados a cada passo e moitas sendo agitadas para saírem do caminho. Os sons não perdoavam. Sentia que aquele era o meu limite. E realmente era o meu limite, tanto psicológico quanto físico.
Afinal, já me era impossível acelerar o passo. Fui parando aos poucos, e me apoiei em uma árvore. Respirar era muito difícil. Tentei respirar fundo, porém, no ato de expirar, meu corpo já pedia por mais ar. Não era mais possível segurar as lágrimas. Três delas rolaram pelo meu rosto. Insisti em me manter o mais normal possível, fiquei em pé, aos poucos tentando normalizar o ritmo do coração e do ar que entrava e saía dos pulmões. Mas não era tão fácil, era quase impossível; minhas pernas já não mais seguravam meu peso, e logo meus joelhos foram de encontro a terra, e senti todas as dores, os espinhos que neles tinham se encravado. Era o meu fim.
Apoiei as mãos no chão, sentindo ali uma pedra fria. Estava eu desistindo? Sim, eu estava. Já não era mais possível fugir. Eu sufocava, olhava com aflição para todos os lados, e os ruídos que ainda assim seguiam próximos a mim estavam me atormentando. Grande parte, ou totalmente, eles poderiam ser fruto de minha imaginação, à proporção de serem reais.
Pergunto-me se tudo aquilo fazia parte do medo de morrer.
Sim. Pelo menos provavelmente. Era o medo que seguia conforme os movimentos e ruídos à minha volta pareciam ficar cada vez mais próximos. E eu ali permanecia, ajoelhada na relva negra pela falta de iluminação de um início de noite; eu estava há mais de hora ali, perdida, sentindo minhas mãos trêmulas ainda apoiadas ao solo frio. À espera.
Seria isso certo? Aquela pergunta ali ecoava, no silêncio de tão apreensiva e agonizante indecisão. Comecei a me erguer. Até ficar totalmente ereta. Não parava de olhar, alarmada, para todos os lados.
Mais sons de passos.
Meu coração já parecia explodir...
- Winry! – congelei. Um som distante, uma voz desconhecida, exclamava o meu nome. – Senhorita Winry! Viemos te buscar.
Dirigi-me ao lugar de onde ouvi aquela voz. Minha salvação. Estava tudo bem. Fui quase correndo, ansiosa, alerta, apreensiva. Mas um movimento atrás me fez parar. Perto demais.
Ao olhar para trás, a silhueta estava extremamente próxima. Fez com que o meu coração parasse por uns momentos e minhas pernas amolecessem a ponto de quase cederem novamente ao solo terroso. O medo que sumira quase completamente com a voz que gritara meu nome voltava com toda a força.
Fechei os olhos e abri a boca para gritar, mas o som foi abafado antes mesmo que saísse por uma mão quente que tapou a minha boca. Meu coração acelerou, a ponto de sentir dor a cada batida intensiva. Palavras me eram barradas também pela mão, meu corpo tremia violentamente e eu me recusava a abrir os olhos e ver aquela pessoa que ali estava. Por favor, pensei. Não os envolva nisso, por favor...
- Ei... Winry...? – aquela voz... Tinha algo errado. A mão quente deixou de tapar a minha boca e segurou meu ombro, juntamente com outra; e a do ombro esquerdo era extremamente dura. Fui sacudida. Aquela voz tornou-se mais preocupada do que antes – Winry! Abra os olhos! Está tudo bem!
Abri os meus olhos assim como ele pediu. E, quando fiz isso, a primeira coisa que vi foi um par de olhos dourados. Suspirei longamente, e trêmula. O coração descompassado se acalmou, e eu me deixei cair novamente no chão, sentindo as dores nas pernas por conta da quantidade de feridas pelos espinhos e tombos naquele lugar. – Eu... – sussurrei, quase impossível era para eu mesma escutar – Eu...
Edward se abaixou rapidamente, e segurou meu rosto. – Idiota! – foi tão rápido, e bradou aquilo com tanta força, que me senti extremamente culpada e assustada. Baixei o olhar, e ele continuou – Por que se afastou? O que você... Pensa... Que fez? Por isso que eu não...
Ele não continuou. Deixou a frase começada morrer, e soltou o meu rosto.
- Desculpe, Ed – sussurrei – Desculpe. Desculpe...
Eu me sentia cruel. Extremamente cruel. Embora tal revolta contra si fosse apenas desnecessária; mas, além de tudo, eu tinha sido um monstro com Edward. Aquilo não era a primeira vez. E, agora, eu subjugara os perigos citados por ele e inflara o meu ego com excessivo e insano otimismo. E ali eu estava, naquele estado, deixando-o em um estado ainda pior. Se tal situação fosse apenas para pagar por esses meus erros, eu não me importaria tanto. Todavia, aquilo fazia com que ele também sofresse. Demais.
O pior era que eu nada poderia fazer além de me arrepender.
- Pare de se desculpar – murmurou ele, sentado ao meu lado no meio da relva – Você foi idiota. E não tem idéia do quanto isso foi... Esqueça. O mais importante nesse momento, é saber que você está bem – ele me abraçou com força – É saber que você está salva.
Aquilo apenas fez piorar a forma na qual eu me encontrava emocionalmente. Algo subia pelo meu peito... Correspondi o abraço com força urgente, precisava daquilo naquele momento e não mais tarde. Lágrimas que insistiam em cair, eu não mais contive. Há tempos em que lágrimas não caíam por mim, e sim pelo que eu teria feito não só com Edward, mas também com Al. Os soluços me sacudiam nos braços dele. Fiquei ali, chorando como uma criança nos braços quentes. Talvez eu eternamente seria uma criança mimada, maldosa, egoísta. Uma criança que só mede as conseqüências de seus atos depois que eles já feriram a tudo e todos. Uma criança que ainda teria que aprender muita coisa.
Eu não ouvia nenhuma palavra proferida de sua boca, apenas sentia-o silencioso enquanto me envolvia. Queria apenas poder ficar ali, pedindo desculpas novamente. Mas sabia que ele não queria que eu pedisse. Por isso, me mantive quieta.
E assim permaneceu por um bom tempo. Tempo que não contei, apenas senti passar. Até que ele – com certa dificuldade – se soltou do meu aperto. Sequei as lágrimas que permaneceram em meu rosto e meus olhos, e observei Edward, que se agachara à minha frente – Suba. – mandou ele. E eu obedeci.
Ele se erguia sem dificuldades da relva, me levando em suas costas. Finalmente eu estava me sentindo tranquila em tão simples aconchego. Apoiei a cabeça em seu ombro e suspirei lentamente enquanto ele avançava. – Algo errado? – ele perguntou.
A pergunta me fez erguer levemente a cabeça – Não, nada. – respondi, voltando à posição – Apenas sinto-me cansada.
- Você não pode dormir ainda. Aguente até chegarmos... – Edward começou a falar, porém, subitamente interrompeu tanto o caminho quanto a própria fala. Tentei mirar os olhos dourados, porém, a posição não me permitia contemplá-los. - ... Lá. – baixou a cabeça por um momento antes de completar a frase, mas logo tornou a erguê-la – Estou confundindo as coisas... – murmurou em um tom quase impossível de se ouvir, para si mesmo.
Não perguntei nada. Eu mesma sei a resposta, pensei. E no pensamento permaneci durante pouco tempo no qual olhava – ou pelo menos tentava enxergar o caminho com clareza. Edward, que antes interrompera o percurso agora já voltava a segui-lo. E eu, em suas costas, sacolejava muito levemente conforme seus passos.
A hesitação é a mais visível consequência de uma alma padecida.
Era sempre assim. Silêncio. Que apenas não era absoluto pelo som de grilos em meio à flora imaculada. Todavia, entre eu e Edward era isso, novamente. Silêncio. Uma relação não estabelecida, um assunto inacabado, uma promessa descumprida. Percebia naquele momento o quanto esse convívio era abalado por oposições que quase se transformam em catástrofes.
Aquelas consequências que tanto me deixavam exausta. Da realidade.
Repentino, Edward acelerou o passo – Consegue ver mais à frente? – perguntou. Esforcei-me para ver, pequena iluminação que era quase completamente barrada na sombra das árvores. Ainda assim, deixei escapar uma exclamação surpresa. Edward completou – Estamos chegando à cidade.
Não respondi, apenas encarei aquela pequena existência de luz. A luz no fim do túnel. Depois, sua resposta entusiasmada; sorri automaticamente. A tormenta tinha se acabado. Por enquanto. – Ei, Ed – dei-me conta de um pequeno detalhe. – Onde estão Alphonse e os militares?
- Nos esperando na saída dessa floresta – respondeu – Que por sinal é depois desse muro quase derrubado.
Eu, que teria desviado minha atenção, demorei a perceber estarmos parados no caminho novamente. Logo à frente, pedras cinzentas, pedaços do muro que ainda desfalcado mantinha-se em pé, separando a floresta e a cidade cinzenta como seu corpo que se estendia.
Edward me colocou ao chão com cuidado. As dores em minhas pernas já não eram mais incômodas, apenas comichões que denunciavam feridas pequenas causadas pela natureza onde me encontrava. Admirava aquele muro que tentava se manter em pé à minha frente como uma salvação. Um paraíso e, de certa forma, era uma linha de chegada.
Comecei a caminhar sendo seguida de perto pelo ambarino. Meus passos sobre as plantas que se estendiam perigosamente para tropeços eram extremamente calculados para evitar novos machucados e quedas. Apenas alguns passos e eu já trespassava a fenda de pedra no muro e chegava ao outro lado.
Assim que olhei para aquele novo ambiente, foi uma espécie de transformação repentina. Com o tempo em que passei dentro da floresta, meus devaneios já eram perdidos em meio ao verde e ao solo marrom e macio. Agora, tudo o que eu via era o céu do crepúsculo, as estrelas começando a brilhar timidamente na abóbada. Sob meus pés, novamente sentia o duro e cinzento asfalto. As árvores irregulares se transformaram em prédios minuciosamente enfileirados no espaço.
E, à minha frente, militares e Alphonse, esperando que eu e Edward voltássemos da mata densa.
No momento em que eu os avistei, já me sentia completamente em paz. Al viera correndo em nossa direção. – Winry! – exclamou. Sorri fracamente em resposta à armadura gigantesca. – Por favor, você nos deu um susto que não dá nem para ter noção. Todos nos ficamos preocupados.
Baixei a cabeça, com total ciência do que tinha feito. Não iria, naquele momento, dramatizar. – Eu sei, eu sei. – respondi entre suspiros. – Desculpe. Depois eu falo melhor com você.
- Adivinhou meu pensamento – ele comentou logo depois. – Eu quero falar com você também, Winry. É sobre... – dito isso, ele apontou com a cabeça levemente em direção a Edward.
Fitei-o surpresa com a intimação repentina.
Mas não tive tempo de continuar falando, já que Edward e os oficiais se aproximaram – Vamos voltar para o hotel – disse Edward. Logo depois, ele me observou de cima a baixo com um misto de preocupação e intensidade, que me fez agradecer pela escuridão que se formava ocultar minha face ruborizada. Seus olhares se demoraram nas pequenas feridas dos espinhos. – Você está precisada de um banho e de curativos, Winry.
Sorri levemente constrangida, enquanto todos então voltaram a caminhar em direção ao hotel.
Aquecida sob cobertores grossos eu estava, em uma cama, olhando para o teto do quarto iluminado apenas pelo abajur na mesinha de cabeceira ao meu lado. Meus cabelos ainda molhados estavam esparramados sobre o travesseiro, também estava completamente solitária naquele momento. Sentia os pequenos curativos feitos em minhas pernas. Não sentia mais que algumas horas antes me sentia entregue à morte, perdida, a escuridão gélida que as árvores proporcionavam por suas extensões.
Fechei e abri os olhos demoradamente, respirei fundo algumas vezes. Não mais depois da volta eu tinha falado claramente com Edward. Sentia em seu olhar, agora que eu já estava aparentemente segura, que ele me cobrava pelo que eu tinha feito. O olhar dele passou a me intimidar quando antes tentava me proteger. Eu sabia e não me sentia culpada. Eu era mais do que culpada e não precisava dessa sensação. Mas uma coisa me intrigava; Alphonse não teria me procurado ainda depois daquele pequeno ultimato na divisa da cidade com o bosque.
Acho que eu ainda estou com medo. Pensei por fim. Mas agora o medo era outro. Se antes eu tinha o medo de morrer, agora eu tinha mais medo ainda do que estava por vir. A investigação havia apenas começado...
Virei a cabeça para o lado, mirando a lâmpada fraca do abajur. Sentia meus olhos pesados... Quando vi, estava me recordando da saída da mata.
- Você não pode dormir ainda. Aguente até chegarmos lá. – Edward havia dito enquanto me carregava nas suas costas sem grande dificuldade. Mas ao dizer isso ele havia hesitado durante certo momento e comentou estar confundindo as coisas.
Logo depois me vi em um cenário muito parecido. Também estava na mata densa sendo carregada por Edward. Minha visão estava turva. Às vezes era tomada por um lampejar negro seguido de vertigem.
A farda azul de Edward assumia um forte tom de vinho. Por seu próprio sangue que escorria livremente das feridas profundas de todo o seu corpo. Senti uma dor terrível por ele, e me sentia extremamente alarmada com o que via; se demorasse, eu poderia acabar matando-o por perda de sangue.
- Ed – apertei seu ombro delicadamente enquanto sussurrava – Não se force desse jeito, você não precisa fazer isso. Me deixe aqui... Eu quero dormir...
Sua voz, em resposta, saía com dificuldade tremenda. – Você... Não... Pode... Dormir... Ainda. Aguente até chegarmos... Lá.
Meus cabelos não eram loiros, e sim, negros. Eu não procurava a cidade, e sim, fugia dela. Meu nome não era Winry, e sim, Charlotte.
Abri meus olhos estupefata com esse pensamento, visão, seja lá o que tenha feito para que tudo isso passasse pela minha cabeça de forma assustadoramente repentina. "Acho que estou confundindo as coisas", Edward tinha dito naquele momento. Eu sabia que teria entendido, apenas não lembrava totalmente.
Às vezes me sentia realmente desconfortável com o tanto que aquela menina ficara gravada em sua memória. E depois disso me sentia um monstro por pensar em coisas tão estapafúrdias. Afinal, aqueles acontecimentos assombrariam Edward, provavelmente por toda a sua existência por mais que ele superasse. Eu, particularmente, nunca saberia como compreendê-lo por nunca ter passado por tamanhas provações horrendas.
Fitei o teto novamente. Perguntava-me sobre em quais outros momentos aquela perda sentida poderia repercutir. Ouvi a porta ranger ao ser aberta – Ainda acordada, Winry? – a voz doce de Alphonse se fez ouvir. Não olhei para aquele que entrava, apenas assenti sem tirar os olhos do teto do quarto. – Se incomoda se eu entrar? – ele perguntou logo depois.
Ergui-me na cama, sentando. – Claro que não! – exclamei educadamente, sorrindo de leve. – Pode entrar, Al.
- Você sabe... Eu queria falar com você sobre hoje. – disse ele. Distinta seriedade que me fez fitá-lo atentamente – Não sei explicar direito, o que senti, na verdade. Ao ver a reação do Nii-san quando demos por sua falta. Afinal, Winry... O que lhe fez se distanciar do grupo?
Engoli em seco, piscando algumas vezes e desviei o olhar. A reação do Nii-san quando demos por sua falta... Perguntava-me dessa reação. Do quanto minha dúbia distração o teria feito mal. – Eu encontrei rastros no chão e os observei por tempo demais. – respondi, fiz uma pausa para respirar fundo – Foi pura distração, burrice. Eu sei... Chega a dar raiva saber que foi por isso, não? Saber que apenas isso foi capaz de deixar a todos preocupados. Já pedi desculpas, mas é algo tão inútil de se fazer que não pedirei novamente, Al.
- Não foi só o Nii-san, todos ficaram preocupados, até mesmo os militares. – Al prosseguiu no mesmo tom - Claro que eu também. Não quero lhe dar um sermão, nem algo do tipo, mas saiba que você não voltará mais àquele bosque. Não é nem porque eu não queira, mas depois disso, Edward é capaz de amarrar você nessa cama para que não saia. Se bem que eu prefiro também que você fique aqui, pela sua segurança e pela sanidade do meu irmão.
Abri a boca para contestar, sentindo-me irritada de certa forma, mas logo fui interrompida por uma pergunta – O que aconteceu enquanto Edward não chegava?
Fechei a boca, ajeitei-me na posição de lótus sob as cobertas e fitei as próprias mãos – Eu corri para tentar encontrar vocês, mas não conseguia. – olhei para baixo, onde estariam minhas pernas se não fossem os cobertores. – Tropecei várias vezes, mas isso não é nada. Gritei por ajuda. Eu senti mais medo por lá do que nunca senti em momento algum... O medo de acabar morrendo. Mas acho que era mais por ele do que por mim, algo como, "o que ele faria, se eu morresse aqui?". Eu não sei... – ergui a cabeça e fitei a fenda dos olhos da armadura – O que você disse que ele fez quando deram por minha falta?
Alphonse hesitou em me responder. Apenas encarei, esperando para satisfazer meu questionamento. – Também acabamos errando em não prestar mais atenção em você, onde estava, e mantê-la mais protegida entre nós – explicou, ainda que tais palavras apenas introduzissem vagamente a resposta que eu esperava. – De certa forma, a culpa não foi sua. Quando um dos oficiais perguntou sobre você acabamos nos apercebendo de sua ausência. O primeiro a erguer um dedo depois de tudo isso foi o Nii-san. Quando eu olhei para ele, vi uma face que não conhecia no meu irmão.
"A face do medo mórbido, talvez a face de um soldado sobrevivente de uma guerra. Ele estava morrendo de medo, preocupado com você ou sobre o que teria acontecido com você. Assim como todos nós estávamos. Mas era fácil de ver quem era, de longe, o mais apreensivo.
"O Nii-san chamava pelo seu nome baixinho, às vezes. Como se esperasse que daquela forma você respondesse e diria onde estava. Passamos um tempo, todos procurando alarmados por você. Ninguém nem ao menos fazia ideia sobre em qual momento você teria se afastado, Winry.
"Logo começou a escurecer, e o Nii-san mandou todos para o caminho de volta e passou a te procurar sozinho. Quando ele nos mandou voltar, quando ele mandou até mesmo que eu voltasse, ele deixava claro, que não queria esperar nem mais um minuto para encontrar você. Nisso eu nunca, mas nunca vi o Nii-san com um rosto tão marcado por tal medo. Pergunto-me se não é uma face que você mesma conheça."
Nem ao menos tinha me dado por conta do fim daquele monólogo difuso, perdida em meus próprios devaneios, minha mente tentando reproduzir o semblante tão terrivelmente açoitado. Meu olhar era fixo ao nada. Já, sentia meu coração tão ciente de tudo. Minha condição de monstro era algo que ultrapassava os limites.
Pergunto-me se não é uma face que você mesma conheça.
Meus lábios quase se movimentavam, proferindo silenciosamente cada palavra enquanto processei mentalmente aquela frase. Recordava-me dos olhos; a principal forma de expressão de Edward. Ah, aqueles olhos.
Eles denunciaram a Winry aquela parte de Edward que o mesmo denominou assassino. Aqueles olhos que lhe fizeram a mais bela declaração. Aqueles olhos que lhe ajudaram a se acalmar quando parecia não haver mais formas. Aqueles malditos olhos que teimavam em não desistir das causas mais impossíveis. E por fim... Aqueles olhos cujas lágrimas grossas já rolaram à sua frente uma vez, quando Edward admitia tanto a si mesmo quanto a Winry sobre o verdadeiro medo que sentira no campo de batalha, e ainda ecoava em sua mente ainda que já não mais estivesse lá.
Uma fincada em meu peito. Como se o mesmo me chamasse, mais uma vez, de monstro. Ultimamente aquele era um apelido que me caía perfeita e ironicamente bem.
- Entendo... – murmurei por fim – Eu sei do que se passa. Eu conheço aqueles olhos. Acho que... Por mais que eu não queira... A única coisa útil que posso fazer para impedir que algo pior aconteça é que eu mesma faça o que você disse que Edward seria capaz de fazer. Se for preciso... Eu mesma me amarro ao pé dessa cama para que eu não cause problemas.
Alphonse riu baixo por um momento. – É bom ouvir isso de você. – disse por fim antes de erguer-se – Está tarde. É melhor que você descanse. Vou indo.
Assenti vagamente com a cabeça. Embora eu soubesse que tinha feito a coisa certa em afirmar que ficaria, no fundo, não estava satisfeita com o permanecer. Afinal, eu teria vindo com eles ao leste para me manter próxima e não era isso que eu estaria fazendo se ficasse parada em meio à espera agonizante. Mas eu deveria fazer isso. Por minha própria segurança, e por eles também.
- Que horas vocês sairão amanhã? – perguntei antes que Al deixasse o quarto.
- Não sei ao certo, mas parece que será pela manhã logo depois que chegarem os outros – a resposta da armadura me deixou levemente confusa. – Está para chegar mais um grupo pequeno para ajudar nas investigações. – abriu a porta do quarto – Boa noite, Winry.
Despedi-me de Al e voltei a olhar para o teto assim que ouvia o ranger da porta e o leve baque da mesma ao fechar.
Cerrei meus olhos e respirei fundo. Depois desse pequeno ato tornei a abri-los. Não sei se esperava sonhar fazendo isso. As coisas pareciam sempre ir contra minhas vontades. Sempre.
Adormeci com essa palavra em minha mente, totalmente gravada. Como se fosse marcada por chamas ardentes.
- Você fica – a voz firme deixava claro ser uma ordem e não um pedido.
Olhei com total tranqüilidade para os olhos dourados que brilhavam como fogo, assentindo lentamente. Inesperado. Seriedade total era quebrada pela surpresa causada por minha fácil submissão. Pois ele não sabia de minha conversa com Alphonse. Que isso já estava decidido. Mas, por fim, seus lábios abriram um sorriso calmo.
Eu mal havia pisado na sala onde todos estudavam as evidências em jornais e bolavam estratégias, Edward já erguia a cabeça e proferia a mim aquela ordem. Depois, me dei conta de que o grupo estava maior. Eram cerca de doze novas faces por ali.
Três delas me observavam minuciosamente. Senti um arrepio percorrendo meu corpo.
Oi!
Esse cap na verdade é uma conclusão do que aconteceu e introdução do que acontecerá no 16 x.x e eu realmente tive que me esforçar para escrever esse capítulo, não sei o que aconteceu mas ele NÃO SAÍA ç_ç
O 16 é o capítulo que eu mais quero escrever, comecei imediatamente após terminar o 15. Hoje mesmo vou passar a tarde, dormir e passar a outra tarde na casa de minha amiga por causa de uma reunião, mas levarei o meu "caderno de estimação" que sempre carrego quando estou longe do computador e tenho uma ideia para minhas histórias, e certamente vou escrever um pouco por lá :D
Vou tentar fazer o possível para que ele fique muito bom, até porque acho que, na minha opinião, ele promete ser um dos melhores da história. *-*
O 17 e o último capítulo não serão mais problemáticos do que o 16, pretendo terminar essa fanfic PELO MENOS ANTES DA METADE DE AGOSTO, já faz mais de um ano que eu escrevo Sentimento e Sentimento II, quero escrever outras histórias, nossa D:
Enfim, espero que gostem do cap e deixem review!
