Capítulo 16 – Sua Salvação
Onde estava meu corpo não se encontrava minha mente. Ela vagava totalmente desperta em outra parte daquele mundo enquanto meu corpo sofria com os olhos pesando e a visão ficando turva. Em minhas mãos, ferramentas que outrora eu brincava com um regular interesse agora descansavam em um cômodo tranquilo. Minha mente já não era estável em meu corpo, àquela altura.
Crível e incrível, essa mania do destino de sempre acontecer da mesma forma, de formas diferentes. Difícil de entender? Até mesmo para mim.
Porque era sempre assim, me restava esperar enquanto não fazia ideia alguma do que poderia estar acontecendo do outro lado. Minha mente que tentava chegar ao local quando tal ato estava fisicamente privado para mim. Mas isso nunca me satisfazia.
Fazia mais de uma hora que eu estava lá, sentada defronte a uma mesa de centro do meu quarto no hotel, encarando a janela, as mãos sobre a mesa, e entre as mãos, as ferramentas paradas. Quase dormindo em meio ao torpor dos pensamentos que tentavam adivinhar o que acontecia na investigação de Edward, Alphonse e os outros militares. Respostas que eu tanto queria ter, e nunca chegavam.
Eu poderia pensar em sair do hotel e ir atrás deles, mas isso me era impossível; Edward deteve três militares não para me vigiar e sim para me proteger. Mas isso significava me manter quieta e escondida no hotel enquanto ele não estava. Maldita mania de se preocupar demais. Mas eu tinha de admitir que o que ele fizera era a única coisa que me impedia de sair dali. Ele sabia do que eu era capaz, no fim das contas.
Um suspiro longo. O tédio que me consumia agora era praticamente ignorado... Pelo mesmo tédio.
Logo ouvi ruídos e vozes do lado de fora da porta. Arrumei-me em minha posição e me concentrei em ouvir o que elas diziam. Todavia, era totalmente impossível decifrar o que as vozes murmuravam do outro lado da porta de madeira do quarto que me confinava.
Mas logo depois, sons de passos se aproximavam da mesma. A porta foi aberta e do outro lado, um militar com aparência amestrina comum – loiro de olhos claros – e distinções jovens me cumprimentava, cortês.
- Sente fome ou precisa de algo, senhorita Rockbell? – perguntou.
Cumprimentei-o de volta e sorri – Obrigada – murmurei baixinho, acenando negativamente com a cabeça – Está tudo bem, por ora. Não precisa me trazer nada.
Depois disso desfiz o sorriso leve, deixei a chave inglesa deslizar de minha mão à face da mesa. Apoiei a cabeça naquele braço que estava livre e voltei a olhar através da janela aberta. Nisso, o militar que ainda estava parado à porta, pigarreou – Parece-me que você se sente solitária e entediada. – disse. Sua forma de se dirigir a mim, a cortesia que mostrava em suas palavras chegava a dar medo. Voltei a olhar-lhe com curiosidade, de canto do olho. Ele prosseguiu – Se não for demasiada intromissão, poderia fazer um pouco de companhia para a senhorita.
Por um momento, ponderei que me sentiria desconfortável com companhias naquela situação. Mas por que recusar? Talvez fosse bom conversar com alguém. – Desde que você não fale comigo de maneira tão... Correta – sorri – Não sou sua superior, apenas uma garota comum e sem quaisquer ligações com o exército. Sinta-se à vontade para sentar-se.
Ele sorriu com aparente empolgação, fez uma reverência rápida e aproximou-se em igual velocidade da mesa de centro. Acomodando-se de frente a mim, os olhos azuis me analisavam curioso – Na verdade, até me sinto estranho de falar dessa maneira, principalmente com uma garota – comentou, visivelmente mais solto. – Mas como a senhorita...
- Quando eu disse que não eram necessárias cortesias – o interrompi, sorrindo gentilmente – Também me referia a esses pronomes. Sem senhorita, ou Rockbell. Pode me chamar apenas de Winry. Ou no caso, usando "você".
Ele se desculpou – Mas como você – deu uma ênfase descontraída. Ri – é a protegida de meu superior, considerei que tratar você como minha superior era mais apropriado. A propósito, me chamo John. John Cozens.
- Agora... Você já sabe que não precisa. Até me sinto desconfortável com isso. Muito prazer – disse apenas.
Um silêncio provocado pelo fio da timidez. Passei a fitar minhas próprias mãos. Era por isso que pensei em apenas me manter quieta. John resolveu seguir – Então... – murmurou inicialmente – Apenas como um comentário, digo que o Sr. Elric tem um ótimo gosto para escolher você como a garota dele.
Corei ao perceber o que ele quis dizer com isso. Ergui o rosto novamente e o encarei envergonhada – Obrigada pelo elogio – dei um sorriso amarelo. Não sabia o que dizer.
O loiro sorriu de volta e continuou a tagarelar – O que faz nas horas vagas?
- Sou mecânica de automails. – respondi – As próteses mecânicas, sabe?
- Interessante! – exclamou com verdadeiro entusiasmo. Tal que até estranhei a reação empolgada – Por acaso foi você quem fez as próteses do Sr. Elric? – assenti meio perdida. Ele falava consideravelmente rápido. Depois que assenti, chegou a bater palmas. – Excelente trabalho você fez... Winry.
- Obrigada – respondi apenas, corada e sem jeito pela enxurrada de elogios que o jovem distribuía sem cessar sua fala.
Sentia-me razoavelmente inquieta. Ora olhava para a porta, ora olhava para a janela, depois para o jovem militar sentado à minha frente, sorrindo, com o qual não encontrava assuntos para me distrair. Abria a boca para falar, mas logo fechava, pois não sabia mais o que dizer. Eu nem ao menos queria conversar, só queria uma coisa e essa coisa seria impossível.
- Sei que você está detestando ter que ficar aqui – a voz e a postura de John ficaram mais sérias ao falar isso. Parei com meu – provavelmente irritante ciclo de olhares à porta, janela, John, porta e janela de novo. Encarei os olhos azuis assumindo a mesma postura.
Assenti – Exato. – então, baixei o olhar novamente. – Mas eu sei que... É muito mais seguro para todas as partes que eu continue escondida aqui dentro. Da outra vez, que você não estava aqui, os resultados não foram tão bons.
John conservou um semblante pensativo – Fiquei sabendo. – respondeu. Logo depois se inclinou sobre a mesinha de centro ficando bastante próximo. Engoli em seco – o Elric foi atrás de você acompanhado de outro homem. Sabia que esse homem não voltou mais?
Não, eu não sabia. E de certa forma, aquilo tinha sido por minha causa. Os resultados reais de certos erros nossos, às vezes, são recebidos como um tapa na cara ou um banho da mais fria das águas. Uma grande culpa, talvez uma reação exacerbadamente dramática, mas era o que eu sentia cair sobre mim.
- As pessoas não precisam mais morrer por você. – ouvir aquela frase chegou a me fazer gelar. Um comentário até perverso da parte dele. Olhei de soslaio para o militar; ele esboçava um sorriso solidário – E você não precisa mais agonizar neste quarto. Eu posso escoltá-la especialmente até chegarmos onde o Elric está.
Proposta tentadora. Tentadora demais. E minha vontade até aquele momento, era simplesmente quebrar a defesa feita por Edward, e estar ao lado dele. Não era dependência, nem nada. Eu simplesmente queria ser útil, queria saber os detalhes do que acontecia. Saber das coisas apenas de fachada enquanto precisava sempre estar da mesma forma passiva era algo que já me atormentava e há muito não me satisfazia mais.
Porém... Eu imaginava a reação daquele que me mantinha isolada apenas pela minha segurança. Suspirei pesadamente. – Não posso, John. Por mais que eu mesma queira muito sair daqui. – tive certeza de ter visto uma centelha de raiva no olhar dele. Muito pequena. Mas eu tinha visto. – Mas eu sei o quanto seria ruim se eu não fizesse o que ele queria que eu fizesse, e ainda mais se eu me metesse em outra confusão. E o fizesse ficar preocupado daquela maneira comigo também. Chega. Seria demais para mim, para ele, para Al ou qualquer outra pessoa. Não dá. Eu preciso aguentar e ficar aqui. Por eles. E por mim, também.
Ficou sério por um curto tempo, antes de sorrir e voltar a olhar em meus olhos. O azul dos olhos de John eram penetrantes. – Sábia decisão, Winry. – disse. Apenas assenti, enquanto ele pretendia começar um longo monólogo; se não fosse o telefone do quarto tocar repentinamente. Tanto ele quanto eu nos assustamos enquanto o objeto continuava com seu toque estridente.
Ele se levantou, oferecendo-se para atender. Não tive tempo de falar nada, pois sua mão já tirava o telefone do gancho – Aqui é do quarto da senhorita Rockbell... – disse, logo após parando para ouvir. Senti seus olhos pousando em mim, discretamente. – Sim, ela está aqui... Não. Ah, tudo bem. Já faço...
Antes que terminasse de falar, pareceu ser interrompido pela voz do outro lado, que tinha se tornado bastante elevada já que eu mesma conseguia ouvir ruídos vindos do telefone. Parecia alarmada. Engoli em seco e comecei a sentir um frio no estômago. Sim, havia algo errado.
John se voltou para mim, ainda com o telefone no gancho. O semblante perplexo que fez meu coração bater mais rápido por conta do nervosismo crescente. O que diabos estava acontecendo? – Como assim? – John tornou a falar no telefone, alterado. – Nós não ouvimos nada! O que está... Ei... O que aconteceu? Responda!
Mas ninguém respondeu. E o loiro tornou a colocar o telefone no gancho, e chegou perto de mim, me levantando – Nós temos que sair daqui. Agora! Esse lugar não é mais seguro – me conduzia à porta do quarto enquanto falava rapidamente. - Alguém entrou aqui e está atrás de você. Talvez já tenha achado o soldado que falava comigo pelo telefone. Tente não fazer barulho e seja rápida.
Caminhávamos próximos da parede no corredor largo de carpete escarlate do hotel. Meu coração batia muito rápido e mais uma vez eu experimentava daquele medo que tinha me tomado na mata. Minha vida estaria se tornando aquela aventura toda?
Em meio a pensamentos, e muita preocupação, desci as escadas. Não sabia nem ao menos qual das duas distrações que me deixavam mais desorientada. Mas meu senso de direção já parecia ter desaparecido completamente; era literalmente levada para qualquer lugar por John. Era tanto para mim que já me sentia tonta.
Chegando na recepção, meus pés simplesmente pararam de se mover e meus olhos não conseguiam mais deixar de olhar, o corpo inerte estirado ao piso de ladrilhos frios. O telefone tinha sido literalmente cortado e atirado ao chão, ao lado do cadáver, sendo totalmente destruído. O militar que tinha ligado para o quarto, ali estava, a vida já tinha sido interrompida.
Minha primeira vontade foi me esconder em um canto e chorar. Não conseguia acreditar que as coisas estivessem em um ponto tão extremo. Seria por isso que as famílias das jovens mortas passaram? Pensava em meio a tremedeira, meu coração ameaçava sair pela boca. Eu não... Aguento... Mais... Edward.
Senti uma mão puxando meu braço e fui direcionada ao lado bruscamente. – Não vamos perder tempo, ainda preciso encontrar o outro militar que estava aqui. Não sei onde ele está – disse John, indo até os corredores dos quartos térreos e arrombando a porta qualquer de um quarto vazio. Levou-me à janela, que do outro lado apenas se via um muro cinzento e escuro. Rapidamente o soldado abriu a janela e me ajudou a pular – Espere nesse beco. Eu já apareço. Não saia! – alertou antes de se virar e correr para o interior do estabelecimento.
Devo ter ficado cerca de dois minutos naquela mesma posição em que fui deixada. Não se mova, evite até mesmo respirar. Era uma reação paranóica que chegava a ser demasiado exagerada, mas era o que eu conseguia sentir. Era tudo que eu conseguia sentir.
- Isso foi mais fácil do que imaginei que seria – uma voz grave soou muito próxima. Não tive coragem de olhar para trás. Meu coração parou. – Acompanhe-nos, Winry Rockbell.
Não. Aquele não era John. Aquele não era ninguém que poderia estar ao meu lado. É o fim. A outra parte, a única em que eu podia tentar correr, era a parede do beco que se localizava apenas um pouco mais ao fundo. Do outro soava a sua voz, e eu não subiria pela janela a tempo. É o meu fim... Meus olhos já se encontravam marejados. Cada vez mais cheios. E deles então caíram as lágrimas, a última ação do meu corpo antes de me virar.
Céus, nunca me senti tão idiota e nunca havia odiado tanto uma reação minha como naquele momento. Era como se eu estivesse largando tudo, desistindo das chances de fugir. Mas não, eu realmente não tinha chance alguma de escapar daquele meio. Ao me virar, um tecido de cheiro peculiar tampava meu nariz e minha boca. O cheiro peculiar invadia meu corpo. Meu coração já havia parado de bater a um bom tempo.
Tudo ficou escuro, tudo ficou mudo, surdo, sem toque, sem nada. O mundo negro da inconsciência em que acreditamos até estarmos mortos.
Não movia um músculo. Sentia-me razoavelmente confortável. Tudo permanecia negro, calado, sem algo para tocar e parecia que não havia chão em que eu estivesse deitada. Mas tinha noção de que estava na horizontal. Teria minha vida sido interceptada por aquele que me capturava?
Não. Se eu estivesse morta não continuaria com tanto medo.
E aos poucos eu sentia voltar meus sentidos. Percebi-me deitada em alguma pilha bagunçada; conseguia ouvir vozes muito distantes, mas compreender o que elas comunicavam era impossível. Ainda assim, a nitidez aumentava gradativamente. Algumas palavras logo me eram possíveis de serem captadas. Até sentia que se eu quisesse poderia abrir meus olhos. Mas não os abri. – Ela ainda... Inconsciente... Militares... Pirralho – palavras soltas. Que daquela forma ordenadas não fariam o mínimo sentido. – Sem... Dúvida... Virá... Não... Simplesmente... Abandonaria... – um suspiro distante - ... Conseguimos...! É nosso...
- Isso mesmo. E ela certamente será a vítima mais importante dos nossos planos – outro falou, e dessa vez eu entendi perfeitamente. Não só a frase inteira, mas sobre quem falava e a que se referia.
Sentia meu coração bater, denunciando meu nervosismo, mas também confirmando o fato de estar viva. Eu não teria outro motivo além desse para estar ali e sabia muito bem disso. Continha desesperadamente a vontade de abrir os meus olhos. A vontade de me levantar do lugar onde me via estirada e correr desenfreada pelo lugar.
Aí que me dei conta... Nem ao menos sabia onde eu estava. Poderia estar em uma casa, poderia estar no meio da mata densa novamente, em um beco perdido na cidade, em uma casa... Era-me totalmente desconhecido, absolutamente incerto.
O que tornava abrir os olhos um perigo até tentador. O medo não mais vencia da curiosidade. Minhas pálpebras tremeram.
E aos poucos minha visão emergia da escuridão. Quando os abri totalmente constatei não conhecer aquele lugar. Meus olhos se encontraram com o teto e paredes de tábuas de madeira, uma janela em um estilo meio antigo, de onde entravam raios de sol entrecortados pela sombra das árvores, formando alguns desenhos sobre o chão daquele lugar – que na verdade, pelo menos onde eu me encontrava, tal chão era apenas palha bagunçada.
Quando desviei o olhar para saber sobre o que eu estava deitada, gelei. Próximo de mim se encontrava uma farda, apenas a farda, sem o corpo. O tecido azul estava manchado pelo sangue vermelho.
Com isso eu pude terminar de me dar conta de que a situação não era ao meu favor. O fato de o lugar aparentar ser amistoso apenas se dava pela claridade e por eu – por incrível que possa parecer não estava presa em nenhuma parte do meu corpo. Sentei naquele meu montinho maior de palha, onde eu estava deitada antes. A porta estava ali, fechada, próxima. As vozes que antes eu tinha ouvido pareciam vir de outra porta entreaberta de algum aposento da cabana.
Olhei novamente para a porta de entrada. Levantei-me da cama. Meus passos sobre a palha espalhada precisavam ser discretos; caminhei com cautela, mal fazendo um ruído apenas audível para mim.
Mas era óbvio que a porta estava trancada.
Meu coração começou a acelerar mesmo, foi quando fitei as janelas. Eram grandes e podiam ser abertas ou fechadas, mas do lado de fora haviam grades ornamentadas, não muito finas, mas o suficiente para trancar alguém do meu tamanho.
Não entrar em desespero era a única coisa presente em minha consciência; se eu fizesse isso minha capacidade de raciocinar poderia piorar, e então eu nunca sairia dali. Eu estava em uma situação naquela cabana que era até um absurdo de tão favorável para minha fuga. Ou assim parecia.
Algum ruído de conversa pode ser captado por mim novamente. Resolvi me aproximar da porta entreaberta.
Pela fresta, nada me era possível de se enxergar; o aposento aparentava encontrar-se em uma considerável escuridão, ao contrário do lugar onde eu ainda estava. Somente me restava tentar compreender o que as vozes sussurravam.
- Nós não sabemos o quanto pode demorar a que encontrem a mensagem! – um deles dissera. Apoiei-me na parede ao lado do vão da porta, aproximando meu rosto de forma que não pudesse ser visto, mas que me era mais conveniente para escutar sem dificuldades o que eles falavam.
Ruídos. Dessa vez, de passos. Mordi o lábio, perdida em preces mentais de que aqueles passos não se aproximassem, suspeitos, da porta. – O que faremos se não aparecerem? – outra voz perguntara. Não havia um mínimo resquício de insegurança. Como se quaisquer decisões tomadas pudessem ser aceitas. – Simplesmente mataríamos a Rockbell como qualquer outra vítima de antes?
Como se quaisquer decisões tomadas pudessem ser aceitas. Pude sentir a intensidade da descrição. Não que eu esperasse ser mais do que um objeto para obter o que queriam para aqueles sequestradores. Mas tal argumento me fizera confirmar de vez aquelas dúvidas que persistiam.
Eu estava em pânico. Mesmo sabendo que o pânico seria apenas um obstáculo desgraçado. Algo que simplesmente servia para conduzir meu subconsciente a conclusões obscuras e que obstruía a minha capacidade de pensar em soluções. Meu coração batia descompassado e minhas mãos tremiam. Se antes eu estava desconfiada, agora não mais havia dúvida. Se eu estava ali, era para morrer...
Ou para algum outro motivo que não conseguia raciocinar.
Abandonei a concentração na conversa; não mais havia necessidade. O que eles tanto falavam desde o momento em que eu recordava os sentidos, já não importava. Já sabia o que tanto precisava saber. E o que eu não queria que fosse verdade.
Passei os olhos rápida e minuciosamente sobre as estantes rústicas que havia à minha volta. Implorava por ter a sorte de as chaves estarem em um local acessível e que não atraísse a atenção daqueles que se escondiam na escuridão da porta.
Meus olhos pararam sobre a mesinha de canto que estava à minha frente. Ali, descansava um molho com apenas uma solitária chave. Sentia os orbes azuis quase lacrimejando de alívio. Todavia, em tanta sorte estava um porém.
A mesinha de canto estava do lado oposto ao que eu estava em relação à porta.
Eu teria que me deixar ser notada para poder pegar as chaves.
Tudo isso dizia que eu teria que ser rápida.
Muito rápida.
E precisa.
Mordia meus lábios com tanta força que podia sentir o gosto de sangue. Eu só tinha aquela chance. Eu tinha que me arriscar se quisesse salvar minha própria pele, ou de Edward, Alphonse e dos militares, que estariam à minha procura, talvez naquele momento.
Respirei fundo. Fechei meus olhos. As pessoas continuavam falando sobre algo que eu não compreendia; não prestava mais atenção em nada que não fosse aquela minha perigosa meta a qual eu estava sujeita se quisesse garantir a minha sobrevivência.
Em algum tempo já me sentia preparada para agir. Baixei minhas mãos que ainda estavam na parede e movi minimamente meu pé esquerdo no chão coberto por palha. Engoli em seco e dei uma olhadela para a porta. Era a hora de agir.
Em um salto parei ao lado da mesinha de cabeceira e peguei o molho. Não me importei em ser discreta, pois sabia que de nada adiantaria e apenas me atrasaria. Apenas disparei em direção à porta de entrada. Nessa altura, um dos homens já havia exclamado um "Ei!" e corria com os outros em minha direção.
Parei praticamente batendo de encontro à porta e aproximei a mão esquerda e trêmula, que segurava a chave, da fechadura. Na ansiedade, o que não poderia acontecer acabou acontecendo: o molho caiu de minha mão.
- MERDA! – eu não tinha tempo para perder; mal o molho tocava o chão e eu já o tinha pegado novamente. Mas mesmo assim não havia mais chance. O tempo perdido, por mais que mínimo, frustrou totalmente as minúsculas possibilidades de fuga.
Pois logo ao me levantar, um corpo forte se jogou contra mim. Tombei de lado no chão.
- Acho que subestimamos a senhorita – o homem que se jogara já estava em pé. Eu continuava atirada ao chão. Minhas costelas do lado direito doíam como nunca, e eu fazia caretas. Era só o que eu conseguia. A intensidade da queda foi tanta que só conseguia me entregar à dor.
Senti meus pulsos sendo agarrados, unidos e presos com uma única corda áspera. Fui erguida e levada de volta à cama de palha improvisada em meio às arfadas causadas pela dor.
Minha cabeça pendeu quando parei sentada no encontro entre as paredes de madeira. A franja cobrira meus olhos e as mechas compridas limitaram ainda mais a mina visão. Ainda assim, não levantei o olhar. Não queria. E sabia que não conseguiria.
Sentia um nó na garganta. Raiva em meu peito. E me sentia imóvel, limitada pela corda grossa em volta de meus pulsos, unindo-os em um aperto relativamente suportável. Abri a boca para falar. Queria, porém temia dizer quaisquer palavras. Todavia, não era certo nem saudável que eu me escondesse atrás de meus medos. Sentia sobre mim os olhares penetrantes dos quatro homens que pude contar. – Por quê.
Uma mão ergueu meu rosto. Um misto de raiva e espanto pode ser visto em meus olhos quando encarei o dono das mãos: John. – O que começava a dizer, senhorita Rockbell? – disse com grande sarcasmo a última parte.
Não perguntei por que ele tinha me enganado, por que ele se passou por militar para me sequestrar. Não perguntei por que eles tinham me sequestrado.
Tudo isso era algo que eu saberia se fizesse uma pergunta um pouco mais abrangente. – Por que matar as garotas dessa região?
O semblante dos quatro assumia uma agressividade rancorosa. Afinal, o motivo pelo qual assim se encontravam era... Rancor. Uma palavra pequena, mas muito esclarecedora. Rancor.
- Por quê? – um homem atarracado, a face vermelha pela raiva extrema, se manifestara – Você ainda faz essa pergunta? É tão difícil para esses amestrinos orgulhos e ignorantes simplesmente entenderem uma coisa óbvia? – ele chegava a estremecer enquanto falava. Encolhi-me mais ainda na parede. Ele prosseguiu – Porque a causa é exatamente vocês, sua vadiazinha!
Arregalei meus olhos. Foi a última reação que tive antes de sentir meu rosto sendo jogado para o lado por causa da bofetada. Gritei de dor. Meus olhos lacrimejavam.
Voltei a olhar para eles; o homem que falava e que tinha me batido era contido pelos outros três. Sua face era assassina. Mas tinha uma coisa a mais naqueles olhos. Era o olhar de quem tinha perdido tudo.
Por um momento, o tapa mais forte que já tinha recebido ou visto alguém dar, que era o que certamente estava marcado no local onde minha face formigava, não doía mais. Olhei fundo nos olhos dos outros três. Olhar de quem tinha perdido família, casa, futuros planejados e frustrados, pertences destruídos, faces ensangüentadas. Mesmo John Cozens, que tinha me enganado, ostentava aquele olhar.
Os sobreviventes da guerra tinham motivos de sobra para aqueles olhares. Mas eu ainda achava que não para fazerem o que faziam.
Eu sentia que agia contra meus instintos de sobrevivência. Se antes eu estava temendo minha própria morte nas mãos daqueles quatro, agora eu sentia vontade de questioná-los. Era insanidade de minha parte, mas era algo que ao mesmo tempo me era tentador. – Isso não explica o porquê de matar as jovens. – disse.
Dessa vez, John respondeu – Vocês nos tiraram as nossas mulheres. As nossas crianças. O futuro de nossa cidade. – disse, tão sério quanto eu, mas absolutamente mais controlado do que o homem que já se acalmava nas mãos dos três – Tiraremos isso de vocês. Até nos sentirmos com a dívida paga.
Aquelas palavras me fizeram recuar um pouco. Mas ainda assim, aquilo não fazia o menor sentido para mim. – E quem lhe garante que dar o troco na mesma moeda vai satisfazer isso um dia? – exclamei, começando a levantar a voz. – Você não acha que só fará mais pessoas sofrendo por isso?
- E o que uma criança ignorante como você entende sobre sofrer? – mais uma vez aquele homem gritara a plenos pulmões. Voltei a minha atenção a ele, que era novamente contido. A noção do que eu estava enfrentando começava a aflorar.
Todo o meu corpo estava tremendo. Sentia vontade de chorar. Algo estranho parecia trespassar meu peito. Um misto de dor e... Lembranças. Aquele homem conseguira me despertar não apenas o pânico, mas lembranças.
Meus olhos ainda lacrimejavam, e naquele momento tal ato era mais intenso. Respirei fundo, duas vezes, tentando me recompor. Não adiantava. Somente gritar me faria aliviar um pouco daquele peso. Meus lábios tremiam e eu ameaçava chorar como um bebê. Aquilo me doía.
- EU ENTENDO A DOR DE UMA PERDA MAIS DO QUE VOCÊ IMAGINA! – aquele grito gutural saía de mim como uma cascata. Se ela tivesse uma cor, seria vermelha. Vermelha como o sangue, vermelha, por ser a intensidade do significado daquilo para mim. Entre lágrimas e soluços que eu não mais conseguia segurar – MEUS PAIS TAMBÉM ESTÃO MORTOS, E FOI EM UMA GUERRA, E TAL GUERRA FOI MUITO PIOR DO QUE A DE VOCÊS! E UMA DAS ÚNICAS PESSOAS QUE EU AMO E QUE SOBROU, QUE EU PASSEI GRANDE PARTE DA MINHA VIDA IMPLORANDO PARA QUE ELA CHEGASSE BEM, DE VOLTA À MINHA CASA! VOCÊ ACHA QUE EU SOU UMA CRIANÇA IGNORANTE AGORA? O IGNORANTE É VOCÊ, QUE AINDA AGE APENAS POR UMA VINGANÇA QUE NÃO LHE TRARÁ NADA DO QUE FOI PERDIDO DE VOLTA!
O esforço feito por mim era o limite. Eu não pensei, até aquele dia, que atingiria tal limite psicológico a ponto de não conseguir falar de uma dor tão antiga, que eu acreditava ter superado. Baixei a cabeça novamente. Chorava. Soluçava. Buscava por ar. Mas o que eu recebi foi doloroso e assustador.
Outra bofetada. O homem se desvencilhara da proteção de seus três companheiros.
Apenas me senti jogada novamente enquanto o meu rosto queimava.
- Apenas aja como uma refém, não se meta mais nesses assuntos, antes que eu mate você com minhas próprias mãos, garotinha atrevida. – o homem dissera.
Instantes depois, batidas seguidas e fortes na porta de entrada foram ouvidas. – Aquele que vocês esperavam já está aqui! – ergui o olhar, não acreditando naquilo. Mesmo a voz decidida e séria estando abafada por vir de fora, era óbvio que eu sabia quem era. Edward.
Um misto de alívio e preocupação tomou conta de toda a minha alma. A porta fora aberta e ele encarava, com os olhos dourados de sempre, os quatro. Depois, seus olhos pararam e mim. Arregalaram-se. E uma raiva contida esvaía por seus olhos quando voltou a olhar para os quatro homens.
- Tudo termina aqui. – ele disse, dando um passo para o lado. Rapidamente, cerca de quinze militares entraram pelo espaço que Edward deixou, sendo seguidos por ele e depois por Al, que ajudou os militares a combaterem os assassinos que se debatiam.
Eu apenas fazia olhar a cena, imóvel. Abstraí até mesmo a aproximação rápida de Edward. Meus ouvidos somente captavam os gritos dos homens, meus olhos apenas viam a violência à minha frente. Senti-me ser sacudida, mas não reagi. – WINRY! – uma voz gritou.
Voltei à realidade e Edward se postou à minha frente. Segurava meu rosto com ambas as mãos. Seus olhos mostravam ansiedade. Seu rosto, tudo nele parecia preocupado. E eu não sabia o que sentia.
- Você está bem? – perguntou preocupado. Apenas assenti positivamente. Estava... Estranha. – Vamos para casa.
Talvez tudo aquilo fosse muito rápido e agressivo para que eu conseguisse permanecer emocionalmente estável. Mas aos poucos começava a me dar conta de que tudo aquilo estava passando. Meu coração se acalmava, o rosto parava de doer pelos tapas. Minhas mãos foram libertadas das cordas, meus cabelos afastados dos olhos, e resquícios de minhas lágrimas foram secos.
Eu sei que talvez sempre diga isso, mas eu não tenho nem palavras para esse meu hiato. Eu simplesmente não conseguia escrever. Era pouco tempo, era alguma coisa... Eu me sentia frustrada por não conseguir dar conta. Nesses últimos três meses que não conseguia escrever, não conseguia nem ao menos fazer direito nenhuma das outras coisas que eu amo. Nunca mais cantei nem para me divertir, fiquei tempos sem nem encostar nas teclas do piano, nem nas cordas do violão. Nesses três meses, me matei fazendo provas, fiz uma viagem do colégio pra fora do país, e passei por um monte de atividades externas e acontecimentos que envolviam pessoas. É. Três meses que se passaram como anos para mim. Agora as coisas acalmaram um pouco e eu fiquei a tarde inteira para terminar esse capítulo me sentindo uma miserável. Não vou pedir desculpas porque não estou nessa condição. Vou começar o capítulo 17 exatamente agora. Sentia tanta falta dessa fic... Espero que vocês gostem do cap, e não tenham desistido de mim, embora certamente devem ter feito o contrário. :/
Aproveitarei que tenho até quarta-feira livre. Escreverei o capítulo 17, tentarei não demorar. Mesmo. Cansei de prometer e sempre acontecer algo que não me faça cumprir. Agora são as outras coisas que irão esperar. E espero vocês também... Mesmo gente, peço desculpas pela demora, foi um absurdo, eu sei. Mas saibam que eu amo escrever essa história. Eu amo ver os comentários de vocês, mesmo que sejam críticas, porque elas me fazem crescer. Agora, até me sinto mais animada por poder estar postando no novamente. Porque agora, além de ter conseguido me estabilizar, estou conseguindo pensar de novo para escrever. Tô feliz, até. :)
Espero que gostem do cap e podem me xingar muito nos reviews. nnnn
Kissus da Ally
