Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Elizabeth Oldfield, que foi publicado na série de romances "Sabrina Destinos", da editora Nova Cultural.


Capítulo 6

Grandes carros alegóricos, enormes grupos vestindo roupas multicoloridas, bateria avançando pela passarela ao som do ritmo sincopado... Juvia ergueu a câmera, focalizou o casal composto por mestre-sala e porta-bandeira e bateu a chapa.

Depois, baixando a câmera, sorriu. Os folhetos turísticos e os anúncios de televisão não faziam a mínima justiça à realidade do desfile das escolas de samba do Carnaval carioca. Tudo era muito maior, mais retumbante e mais espetacular do que ela imaginara.

Naquele domingo à noite, ela e Gray, em um dos camarotes do sambódromo, assistiam às escolas de samba passar. Eram três a cinco mil pessoas por grupo, que dispunham de quarenta e cinco minutos para se exibir na passarela do samba. E cada escola parecia se apresentar com mais energia e ambição do que a anterior. A competição pelo título de campeã do Carnaval, ela notou, era enorme.

- Eles escolhem temas relacionados à cultura brasileira - Gray explicou, emendando: - Mas às vezes, como você pode ver, não são muito fiéis.

- É apenas... "licença poética" - Juvia comentou, fascinada.

Pela avenida haviam passado cortes inteiras, com seus reis e rainhas, alas de baianas girando em seus vestidos bordados, uma homenagem aos mitos do cinema, com representações de Charles Chaplin e Marilyn Monroe...

Naquele momento, entretinham-se com imagens da Floresta Amazônica.

Palmeiras gigantescas, feitas de papel-machê, fontes mágicas e serpentes que soltavam fogo pelas ventas eram algumas das figuras que faziam parte do enredo da escola. Esta, como todas as demais, trazia no alto de seus carros alegóricos mulheres belíssimas, quase nuas.

A maioria dos participantes eram pessoas muito humildes, que trabalhavam o ano inteiro, suportando uma vida muito difícil, para se transformar, naquela noite, em figuras de sonho. Expressavam de forma mágica sua alegria, usando o canto e a dança.

Juvia olhou de relance para o lado. Não importava quão fascinante pudesse ser a parada que se desenvolvia na pista, uma parte de seu corpo continuava ligada em Gray. Reagia à presença daquele homem másculo, que naquela noite se vestia de negro. Reagia a qualquer roçar de braços ou pernas. Reagia à indiferença...

O coração de Juvia apertou-se. O comportamento de Gray era apenas polido e formal. Parecia fazer questão de deixar bem claro que contava os dias e as horas que restavam para que ela deixasse seu apartamento... e o Brasil. Ela cerrou os punhos, nervosa. Quando chegara ao país, esperava poder ao menos ser amiga dele. Mas mesmo isso parecia-lhe impossível naquele momento.

A melancolia foi interrompida pela aparição de um grupo, com fantasias que imitavam onças pintadas, que parou para fazer sua evolução bem em frente ao camarote. Todos dançavam em perfeita sincronia... homens, mulheres e até mesmo crianças. Era realmente emocionante.

- Eu poderia assistir a todos os desfiles sem me cansar - ela declarou.

- São quinze escolas, o que significa que o desfile só vai terminar pela manhã. Até lá eu posso morrer de fome... e então, o que faremos ? - ele perguntou com um muxoxo, sorrindo em seguida - Tínhamos combinado sair às onze horas para comer, e voltar mais tarde, mas já é quase meia-noite. Nem sei como agüentei até agora ! - Juvia relaxou um pouco. Aquele fora o primeiro sorriso que Gray dera desde o dia anterior, e o primeiro comentário bem-humorado que fizera desde então...

Uma pessoa tinha que ser feita de pedra para não se sentir afetada pela alegria do Carnaval. E sabia que ele não era feito de pedra. Ele era feito de carne, ossos, músculos... disso tinha certeza absoluta.

- Eu só queria ver outra escola - ela argumentou, retribuindo o sorriso - E já fiz isso. Então acho que podemos ir.

- Tem certeza ? - Gray perguntou com descrença.

Ela assentiu, meneando a cabeça. Olhou para os últimos membros da escola que acabara de passar, observando que naquele momento desapareciam na distância.

- Vá primeiro - Gray pediu, guiando-a em meio à multidão.

Antes de sair do apartamento, haviam decidido jantar em um restaurante que ficava um pouco distante. Por isso optaram por ir de carro. Mas, durante os desfiles de Carnaval, encontrar uma vaga para estacionar era quase impossível. Dessa maneira, Gray deixara o carro na garagem do prédio de escritórios de um amigo, que ficava a poucos quarteirões do sambódromo.

- Seu Gray ! Seu Gray ! - uma voz gritou no meio da multidão.

Olhando para o outro lado da rua, Juvia viu uma mulher negra, de meia-idade, acenando em sua direção. Vestia uma fantasia exuberante, em tons de verde e rosa.

- Seu Gray ! Aqui ! - a mulher gritou outra vez. Juvia esperou que ele respondesse, mas, como isso não aconteceu, virou-se para olhar por sobre o ombro. Gray vinha logo atrás, admirando-lhe o corpo como se estivesse em transe. Ela sorriu secamente. Provavelmente ele fora estimulado demais pela avalanche de nudez que tinham acabado de presenciar...

- Estão chamando você - ela informou. Confuso, Gray ergueu a cabeça.

- O que foi ? Não entendi - murmurou, franzindo as sobrancelhas.

- Do outro lado da rua - Juvia indicou, apontando na direção da mulher.

Um sorriso surgiu nos lábios dele.

- É Renata, a mulher que cuida do meu apartamento. Lembra que eu lhe disse que tinha uma amiga desfilando na primeira escola ? Pois bem, era Renata.

Depois de atravessar a rua, a mulher se aproximou, despejando uma torrente de palavras que Juvia, com seu parco português, não conseguiu entender. Mas aparentemente falavam do desfile, e sobre o Carnaval.

Tudo o que Juvia pôde entender foi um comentário de Gray, explicando a Renata que ela era a pessoa que estava hospedada em seu apartamento.

Segurando-a pela mão, a mulher abriu um sorriso largo.

- Olá - cumprimentou - Prazer em conhecê-la. Com gestos eloqüentes, Renata pediu aos dois para que ficassem juntos e sacou uma máquina fotográfica da bolsa. Queria um retrato dos dois.

- Eu não acho que... - Gray começou a protestar, mas Renata não lhe deu ouvidos.

A mulher tanto fez que acabou colocando-os juntos, e a cada pose insistia para que ficassem mais próximos. Finalmente, posicionou-os de maneira a que seus rostos ficassem quase colados. Uma sensação parecida com um estremecimento tomou conta de Juvia, que notou no olhar de Gray um brilho estranho. Um segundo depois, impulsivamente, ele a tomou nos braços e a beijou.

Foi um beijo diferente daqueles que lhe dera quando voltaram do baile. Continham um misto de desejo e agressividade. Mesmo assim, ela entregou-se totalmente à onda de prazer que, implacável, obscureceu-lhe os sentidos.

- Muito obrigada - disse a mulher, depois de disparar a máquina e registrar aquele flagrante. Naquele instante, o grupo que a acompanhava chamou-a, e Renata despediu-se sorrindo - Até logo ! - murmurou, reunindo-se aos amigos.

- Você parecia entender o que Renata falava - Gray comentou, evitando de forma clara falar sobre o beijo que acabara de acontecer.

Juvia balançou a cabeça negativamente.

- Muito pouco. Mas sabe... a cada dia que passa eu me recordo mais e mais de minhas aulas de português. Ainda preciso estudar muito, porém.

- Você fez um curso de português ?

- Sim. Era uma disciplina opcional na faculdade, e resolvi optar pela língua para me comunicar com Silver no idioma dele.

Ele olhou-a de relance, surpreso.

- Você queria agradá-lo ? - ela encolheu os ombros,

- Acho que sim. Obviamente, o português falado aqui é muito diferente daquele que é usado em Portugal. Mas Silver costumava me corrigir, ensinando as diferenças de pronúncia e vocabulário. O ideal seria que eu praticasse mais - tinham acabado de chegar à garagem onde o conversível fora estacionado - Uma das coisas que compreendi foi que Renata me chamou de "sua namorada" - arriscou com cautela.

- Natsu e Gajeel disseram a mesma coisa - Gray observou.

- Lucy e Levy também - ela acrescentou, com uma expressão desanimada - Não sei por que as pessoas acabam chegando a essa conclusão...

Os olhos negros de Gray fixaram-se nos dela.

- Eu desconfio do porquê - em seguida, virou-se e digitou um código no porteiro eletrônico. O portão da garagem foi destravado. Ele estendeu a mão para Juvia - Vamos ?

A tensão dentro dela cresceu ainda mais. Desde o dia anterior ele praticamente se recusara a tocá-la, mas agora sua atitude mudara de modo abrupto.

Andaram pela escuridão da garagem. Ele só lhe soltou a mão ao chegar ao carro e, por um minuto, permaneceu em silêncio. Então deu um passo à frente, tomando-a nos braços com arrebatamento e cobrindo seus lábios carnudos com um beijo que era puro fogo. Quando terminou, ela mal podia respirar.

- Por que fez isso ? - perguntou Juvia, tentando, sem sucesso, parecer irritada e ofendida.

- Não existe motivo. Não existe nenhum "por quê". Eu desejo você, droga ! - ele disparou, voltando a beijá-la com ardor.

Juvia começou a empurrá-lo, mas foi sentindo a resistência diminuir até chegar a zero. O toque sensual daquele homem provocava aquela reação. Não havia como suportar. Por isso, ela se entregou completamente àquele beijo. Quando, por fim, os lábios se separaram, ambos estavam sem fôlego.

Conduzindo-a pela mão, Gray tirou do bolso as chaves do carro. Juvia já fazia menção de contornar o veículo quando ele a interrompeu.

- No banco de trás.

- O quê ?

- Uma das definições de inteligência é aquela que diz que não devemos cometer o mesmo erro duas vezes, mas não posso controlar isso - ele murmurou, franzindo as sobrancelhas - Entre no banco de trás.

Juvia encarou-o, confusa. Por que aquilo ? Então, subitamente, percebeu o que ele queria. Estavam prestes a fazer amor. No carro. Naquela garagem. Devia ter lido a intenção em seus olhos.

- Eu... pensei que você estivesse com fome... - ela balbuciou.

- E estou, mas tenho fome de você. Cada vez que a vejo imagino-a nua e linda, como naquela noite - ele murmurou com voz rouca - E a desejo ainda mais - abriu a porta lentamente - Entre - pediu, afastando-se para lhe dar espaço.

Juvia encarou-o com seus límpidos olhos azuis. Queria que fizessem amor. Seu corpo também pedia por aquilo. Mas aquele relacionamento precisava ser repensado. Aquela não era a melhor forma de conduzir as coisas. O misto de desejo e de hostilidade que dominava Gray a assustava.

- Alguém pode nos ver - ela protestou.

- Está escuro, e não há ninguém aqui.

- Mas pode chegar alguém para pegar o carro... - ele entrou no automóvel. A cabeça de Juvia girava, em um lapso momentâneo de sanidade... sabia que aquilo não era prudente, mas seu corpo praticamente clamava por sexo.

- Se alguém aparecer, nós vamos ouvir - ele respondeu, puxando-a para junto de si.

Fechando a porta, inclinou-se sobre ela e voltou a beijá-la, dessa vez com mais intensidade. Despiu-a com gestos frenéticos, ao mesmo tempo em que a acariciava nas coxas e nos seios. Em poucos segundos, sem saber ao certo se devia sentir-se excitada ou ultrajada, ela estava completamente nua.

- Gray... - balbuciou, sentindo os lábios dele cobrirem seus mamilos, que a essa altura já estavam rígidos e pulsantes.

- Preciso de você - ele gemeu com paixão. Trocaram beijos desesperados, toques íntimos e ardentes, e logo Gray estava dentro dela, movendo-se com uma graça quase animal. Completando-a. Juvia arqueou o corpo, segurando-o pelos quadris e puxando-o ainda mais.

"Eu te amo", confessou mentalmente, enquanto o orgasmo se aproximava de maneira incontrolável.


Juvia olhou pela janela do carro. O burburinho do Carnaval fora deixado para trás, substituído por uma estrada calma que seguia a costa. Apenas um ou outro carro cruzava-lhes o caminho. Durante vários quilômetros ela e Gray não disseram nenhuma palavra.

Tocando levemente o colar de pérolas que usava, ela chegara à conclusão de que não podia se arrepender daquilo que acontecera no apartamento, na madrugada do dia anterior, mas não podia dizer o mesmo em relação àquela noite. Isso porque, na primeira ocasião, ainda acreditava que aquele relacionamento poderia ter algum futuro.

Como pudera ser tão tola e fútil ? Certo, o impulso sexual era forte, mas o que acontecera com sua força de vontade e com sua auto-estima ? Suas regras de conduta não tinham sido apenas ignoradas, mas sim quebradas em milhões de pedaços ! Olhou de relance para Gray. A expressão séria indicava que ele também estava absorto nos próprios pensamentos.

Sabia que, fossem quais fossem os sentimentos daquele homem, jamais deixaria de amá-lo. Soubera disso no momento em que o vira no aeroporto. Sentira que Gray Fullbuster teria um papel especial em sua vida. Mesmo que tentasse se enganar, dizendo a si mesma que tudo não passava de simples atração física, sabia que havia muito mais do que isso. Muito mais.

Deixou escapar um suspiro. Ele sempre a atraíra, mesmo quando não passava de uma adolescente. E, nos últimos dez anos, Gray sempre freqüentara seus sonhos. Sonhos de paixão e fúria. Seu coração se acelerou. Muita paixão... passavam naquele instante diante de uma praia, prateada à luz do luar. Se ficasse no Rio de Janeiro, com Gray por perto, acabaria caindo nos braços dele... estaria, portanto, condenada a um sofrimento constante. Seria melhor colocar logo um ponto final naquela situação. Podia vender suas cotas e viajar na quarta-feira, como ele desejava. Assim, restariam apenas dois dias, durante os quais tentaria controlar-se para não cometer outro erro. Quanto ao amor... bem... ela considerou friamente, se uma pessoa caía naquela armadilha, precisava achar um modo de sair. Tudo o que precisava era de um pouco de tempo.

- Eis o restaurante - Gray anunciou, sinalizando para uma construção em frente.

Era um casarão à beira-mar, com uma enorme varanda. A iluminação vinha de postes antigos, com lâmpadas de um brilho fraco e amarelado, o que tornava a atmosfera muito acolhedora.

- Ótimo - Juvia murmurou, notando que sua resposta era esperada. No fundo, porém, estava sem apetite. Principalmente depois do que acontecera na garagem.

Ao lado do restaurante havia um terreno amplo, usado como estacionamento, e Gray conduziu o carro até lá.

- Não imaginei que estivesse tão cheio - ele comentou, observando a grande quantidade de veículos parados.

Levaram algum tempo para conseguir uma vaga. Depois de desligar o motor, ele saltou, contornando o carro para abrir-lhe a porta. Ruídos surdos vinham do interior do restaurante, embora o estacionamento estivesse mergulhado em um silêncio profundo.

- Gostaria de guardar minha câmera no porta-malas - ela pediu ao descer.

- Claro.

Gray abriu o capô e virou-se para apanhar a câmera. Então, surgindo do meio das sombras da noite, um rapaz aproximou-se. Juvia piscou. O estranho tinha cabelos longos e vestia uma jaqueta de couro.

- Passe a câmera - ordenou, sorrindo, com um inglês perfeito.

Surpresa, Juvia ficou paralisada. Mas Gray foi mais rápido e aproximou-se dela, tirando a câmera de sua mão e jogando-a no porta-malas. Em seguida, fechou-o com um estrondo. O ladrão encarou-os por um momento, sem saber ao certo o que fazer, e então, com um gesto brusco e inesperado, arrancou o colar de pérolas de Juvia e saiu correndo.

- Minhas pérolas ! - ela gritou, desesperada - Ele levou minhas pérolas !

- Vou pegá-las - Gray anunciou, correndo atrás do rapaz.

Juvia continuou parada, esperando que algum milagre acontecesse. Sentia-se angustiada. Alguns segundos depois, porém, Gray reapareceu, ofegante, saindo do meio das sombras.

- Onde ele está ? - ela perguntou, aproximando-se. Ainda tentava enxergar algo em meio às trevas - Eu não consigo vê-lo.

- Nem eu - Gray examinou a topografia do lugar, concluindo que não haveria maneira de o rapaz escapar sem ser visto - Ele ainda deve estar por aqui.

Juvia tentou ouvir algum ruído. De repente, a partida de um motor quebrou o silêncio. Um segundo depois, um automóvel, com os faróis acesos, avançou na direção deles. Era um carro esporte, e ela conseguiu notar que o ladrão estava ao volante.

- Cuidado ! - gritou.

O carro passou em alta velocidade. Gray só teve tempo de saltar, empurrando-a para fora da trilha e jogando-a sobre a grama do estacionamento.

- Você está bem ? - ela perguntou apavorada. Ele ergueu-se sobre os cotovelos e balançou a cabeça rapidamente.

- Ainda estou inteiro - havia um ferimento em sua testa, do qual escorria um filete de sangue. Pegando-a pelo braço, conduziu-a de volta ao conversível - Vamos pegar aquele canalha e recuperar seu colar.

Dois minutos depois, voltavam à estrada. Atento e concentrado, Gray dirigia em alta velocidade. Por reflexo, Juvia olhou de relance para o velocímetro. Mal pôde conter um grito de espanto. Não imaginava que aquele conversível luxuoso e confortável pudesse correr tanto assim.

- Estamos a cento e oitenta por hora ! - protestou.

- A estrada está deserta. Por isso, não se preocupe.

- Deserta ? Eu não diria isso - ela comentou ao notar um caminhão no sentido oposto.

Continuaram a avançar e não encontraram nenhum outro veículo. O velocímetro agora atingia mais de duzentos quilômetros por hora. Apesar disso, a frieza de Gray fazia com que ela se sentisse estranhamente segura.

- Bingo ! - ele gritou, triunfante, fazendo com que Juvia olhasse para a frente e enxergasse as luzes vermelhas do carro esporte.

- Ele deve ter roubado aquele carro - Gray concordou.

- É uma Ferrari F-40 - informou, sem desviar os olhos da estrada - E custa uma fortuna. Sem dúvida nenhuma, um ladrão barato como aquele não teria um carro desses. Aliás, acho que existem apenas três exemplares no Brasil, e eu conheço os donos de dois deles. Você consegue ver o número da placa ?

Juvia esforçou-se para enxergar, mas infelizmente o movimento contínuo não permitia. Gray continuava acelerando o conversível, aproximando-se cada vez mais do carro esporte.

- Ah ! - ele murmurou, ao conseguir ver a placa - Não é de nenhum dos meus amigos. Então deve ser a Ferrari de Alzack Connell... - àquela altura, Juvia já estava nervosa demais para pensar.

- Tem certeza de que quer continuar com essa perseguição ? Acho melhor esquecer o colar. Não é tão valioso assim.

- Felizmente aquele moleque não sabe dirigir direito - Gray declarou, ignorando a intervenção - Estamos quase alcançando a Ferrari.

- Eu não ligo. Nossas vidas são mais importantes - ela insistiu, deixando escapar um suspiro exasperado.

Percebendo que estava sendo perseguido, o ladrão pisou mais fundo, afastando-se por um instante do conversível. Mas o rapaz não era um piloto tão bom quanto Gray, pois o carro vermelho entrava nas curvas em ângulos muito fechados, provocando ruidosos guinchos de pneus.

- Deus do céu ! - Juvia gritou, notando que Gray acelerava ainda mais - Você ficou louco ?

Ele estava com os dentes cerrados. A perseguição o excitava muito.

- Não. Fiquei furioso !

A estrada serpenteava muito naquele trecho, e Juvia encolheu-se no banco, rezando pela própria vida. O que Gray ia fazer ? Será que pretendia jogar a Ferrari para fora da estrada ? Até aquele instante evitara olhar para a frente; agora, porém, achava impossível manter os olhos abertos.

Estava prestes a fazer outro protesto quando um guincho mais alto do que os outros a fez abrir os olhos. Numa curva, o rapaz perdera o controle e a Ferrari atravessara a pista, perdendo velocidade ao deslizar por um terreno de areia e chocando-se com a cerca de uma propriedade, do lado oposto ao da estrada. Tudo aconteceu em poucos segundos, mas Gray manteve a Mercedes na pista, fazendo um cavalo-de-pau cinqüenta metros à frente, para voltar ao local do acidente. A perseguição estava encerrada.

Ele parou o conversível e, depois de desligar o motor, levou a mão direita à altura do ombro esquerdo.

- Tem certeza de que está inteiro ? - Juvia perguntou, preocupada.

- Bem... talvez eu tenha mentido um pouquinho - ele respondeu com um sorriso, saltando de imediato.

A porta da Ferrari estava amassada, e o jovem teve que forçá-la para que se abrisse. Quando finalmente conseguiu, saiu do carro mancando. Não parecia muito ferido. Será que tentaria fugir de novo ?

- Parado ! - Gray ordenou quando o ladrão fez menção de colocar a mão dentro da jaqueta de couro.

Naquele instante, Juvia gelou. Será que o rapaz estava armado ? Uma onda de pavor tomou conta dela durante o longo momento de expectativa que se seguiu. Tudo o que o jovem fez, entretanto, foi retirar do bolso o colar que roubara. Ela deixou escapar um suspiro aliviado.

- Por que não diz nada, canalha ? - Gray gritou, avançando de forma ameaçadora. Obviamente o rapaz não estava em condições de enfrentá-lo numa briga.

Depois de um instante de pavor, o rapaz finalmente falou. E voltou a se expressar em inglês.

- Olha, cara, não precisa ficar nervoso - balbuciou, encostando-se no carro - Estou devolvendo o colar, certo ?

Após o espanto inicial, Gray encarou-o fixamente.

- Quem é você, e de onde vem ?

- Meu nome é Ajeel Ramal - o rapaz murmurou - E vim de Londres.

- Londres ? - Juvia perguntou, espantada - Mas que diabos está fazendo aqui ?

O rapaz ficou calado por um momento, como se escolhesse as palavras.

- Eu... ahn... vim para cá fazer um... trabalho para um amigo, mas fiquei na mão - respondeu sem muita convicção.

Desconfiado, Gray mandou o rapaz virar de costas e colocar as mãos sobre o teto do carro. Depois revistou-o rapidamente e olhou de relance para o interior da Ferrari.

- Esse é o carro de Alzack Connell ? - perguntou com determinação.

- Não sei, cara. Eu o peguei num hotel onde estava acontecendo uma festa...

- Ele não vai gostar nada do que você fez com a Ferrari - Gray comentou, apontando para a lateral amassada.

O ladrão sorriu cinicamente.

- Ele pode comprar outra.

Juvia assistia à cena admirada. Nunca imaginaria que Gray fosse capaz de tanto heroísmo. Estava prestes a dizer algo quando o som de uma sirene chamou-lhe a atenção. Com as luzes vermelhas piscando, um carro da polícia rodoviária surgiu na curva da estrada, em alta velocidade.

- Chegaram rápido - Ajeel Ramal ironizou quando dois policiais saltaram da viatura e caminharam em sua direção. Não teve a menor intenção de fugir. Provavelmente tinha ferido a perna.

O policial mais velho, que Juvia concluiu ser um oficial, por causa do uniforme, tinha os cabelos brancos. Revistou o ladrão, tirando-lhe a carteira do bolso da jaqueta e examinando-a com atenção. Pareceu encontrar algo importante, pois deu um sorriso satisfeito.

- O que aconteceu, senhor ?

Gray explicou tudo em detalhes enquanto o policial o escutava atentamente. Observando a cena, Juvia constatava a ironia da situação. Na Inglaterra, sempre diziam que o Rio de Janeiro era um lugar perigoso, infestado de ladrões. E agora ali estava ela, em pleno Rio, depois de ser assaltada por um inglês !

O oficial, que apresentou-se como tenente Elfman Strauss, informou-lhes que Ajeel era procurado pela Interpol, a polícia internacional, por tráfico de drogas, e que seu retrato havia sido distribuído por todos os postos policiais do eixo Rio-São Paulo. Também confirmou que o proprietário da Ferrari, roubada naquela mesma noite, era o ator americano.

Juvia ouvia tudo atentamente, mas pedia a Gray que traduzisse o que não conseguia entender. No final, olhou para o inglês com desdém. Tráfico de drogas. Então aquele fora o "trabalho" que ele viera fazer para um amigo...

- Um motorista de caminhão viu a perseguição e nos avisou pelo rádio - o policial mais jovem comentou, dirigindo-se com admiração a Gray - O senhor fez um belo serviço, sr...?

- Fullbuster - Gray respondeu - Gray Fullbuster - ele tinha o rosto pálido e abatido, e continuava com a mão no ombro, como se quisesse protegê-lo. Juvia aproximou-se.

- Acho que você quebrou alguma coisa - comentou.

Gray sorriu.

- Pode ser.

- O senhor está ferido, sr. Fullbuster - o tenente Strauss declarou - Vou chamar uma ambulância pelo rádio.

- Venha e sente-se no carro - Juvia sugeriu, guiando-o pelo braço até o conversível.

- O que vai acontecer com o carro ? - ele perguntou, ansioso - Você pode dirigir de volta ao apartamento ? Ou está preocupada com o tráfego ? - quis saber, notando que Juvia o encarava com expressão aflita.

- Estou preocupada é com você. E não vou a apartamento algum. Prefiro acompanhá-lo até o hospital.

Depois de sorrir outra vez, Gray murmurou:

- Obrigado. Eu também prefiro.

Como estava ao lado deles, ouvindo a conversa, o recruta manifestou-se:

- Levaremos o carro para o senhor com o maior prazer. É o mínimo que a polícia pode fazer.

O tenente Strauss conduzia Ajeel, algemado, para a viatura. No meio do caminho, o inglês virou-se, encarando Gray.

- Você dirige muito bem, cara - elogiou.

- E você devia ter se lembrado de uma coisa, rapaz - Gray disse com firmeza, chamando a atenção de todos - Quando se trata de pilotos, os melhores do mundo são brasileiros.

Os policiais e Juvia riram. O ladrão pareceu não entender a piada. Mas ninguém se preocupou em lhe explicar o significado.


Mais tarde, no hospital, Juvia ouvia atentamente a explicação da médica.

- Um pequeno osso do ombro se quebrou, e o raio-X indicou uma pequena fissura no antebraço. Acredito que seja prudente mantê-lo em observação até amanhã. Se tudo correr bem, a senhora poderá apanhá-lo por volta do meio-dia.

- Não se esqueça de mim - zombou Gray, que, deitado na cama, também ouvia a explicação.

Juvia encarou-o com ar zangado.

- Como se eu pudesse esquecer !

- Sinto muito por tê-la feito perder o resto do desfile...

- E eu sinto por ver você nesse estado - ela murmurou com voz rouca.

Depois de um momento de silêncio, ele voltou a falar:

- Por que você gosta tanto daquele colar ? Foi presente de alguém... importante ?

Ela balançou a cabeça, concordando.

- Foi um presente de Silver.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 7.