Nota da autora: este é o último capítulo da presente fic e se passa um ano após a ressurreição de Saga e Kanon após a Guerra Santa contra Hades. Eles estão com trinta e quatro anos de idade. Caso queiram, entre este capítulo e o anterior, podem ler a fic "Puro sorriso", a qual conta sobre o início da ressurreição dos gêmeos - em minha visão de fics, rs.

Espero que gostem do final!

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Meu menino, meu milagre

XIII

Acordo mais uma vez, com um tênue porém cálido e agradável raio de sol a incidir sobre meu rosto. Felizmente, tenho Kanon a meu lado. No último ano, tal cena se tornou corriqueira: acordamos juntos, treinamos juntos, comemos juntos. Fazemos tudo juntos, como antes de nossa separação. Aquela amarga separação, a qual ocorreu quando eu o prendi na Cela do Cabo Sounion. Tudo é muito parecido com o que era antes dessa separação... não, não é tão-somente parecido: é muito melhor do que antes.

É melhor porque naquela época nós éramos muito mais novos do que hoje. Por incrível que pareça, é melhor ser mais velho. Ter mais de trinta anos nos dá uma bagagem de vida que na juventude extrema não tínhamos.

É melhor também porque meu irmão, em vez de ser o jovem relapso que era em sua adolescência, e o comandante cruel que era no início da idade adulta, neste momento está redimido de fato. Não tem um dia no qual ele não separe um tempo, nem que sejam alguns minutos, para ver como está Atena. Ele diz que é com frequência que ele sente falta do "cosmo gostoso e quentinho", e por isso vai lá ficar com ela. Além disso, também diz que negligenciou seus deveres como Santo de Atena por muito tempo, e que por isso agora quer cumprir com os mesmos com a máxima diligência e com o máximo rigor.

Kanon se cobra muito neste aspecto. Às vezes eu até mesmo digo a ele que está a passar tempo demais lá com a deusa, ao que ele ri e me responde:

- Está com ciúmes de Atena, Saga?! Mas não era você que me cobrava tanto devoção pela causa quando éramos mais novos?

Sorrio de volta. Ele está realmente animado! Depois de tudo o que passamos, jamais imaginei que sua conversão seria tão completa.

Por ainda se sentir muito culpado por tudo que fez no passado, meu irmão se cobra muito em relação aos seus deveres. Faz sempre questão de não tomar nada a si próprio, bem como se dedica o máximo que pode, pelo tempo que precisar, sem reclamar.

Agora, Kanon também tem seus discípulos. Ele nunca escondeu seu passado deles, pelo contrário: é recorrente que conte a eles o que lhe aconteceu, como um exemplo do que não devem fazer jamais.

Outra diferença de nossa vida de agora, em relação ao passado, é que Kanon não precisa mais se esconder dos demais. Agora, todos o reconhecem, e ele é tido como o segundo Cavaleiro de Gêmeos oficialmente. Muitas pessoas o elogiam por seu desempenho na última Guerra Santa contra Hades, mas ele não gosta de aceitar os mesmos; diz que não fez mais que a obrigação; e mais ainda, que sua dívida com Atena ainda é tão grande, que sequer se deveria falar de alguma espécie de elogio em relação a ele.

Apesar de Kanon finalmente ter uma identidade pública, em virtude de seu passado recluso e incógnito da sociedade, ele não tem muitas amizades. Permanece alguém introspectivo e não é muito íntimo de pessoa alguma. Apenas de mim e, hoje, de Atena.

Meu gêmeo inclusive fez um altar ainda maior do que aquele o qual ele possuía no Reino Submarino - o anterior acabou se perdendo quando o Templo do Mar foi submergido. A antiga inscrição dizia "A um deus desconhecido"; a de agora diz claramente, em letras douradas, grandes e floreadas: "Atena".

As coisas não mudaram somente para meu irmão. Eu também tive de me adaptar novamente à vida na Terra. Quando fiquei possuído por aquele parasita horrível, pensei que somente me livraria dele quando morresse. E foi de fato o que aconteceu. Todavia, não esperava ser revivido e ter de voltar à dinâmica da vida na Terra, a qual para mim por anos a fio foi muito difícil. Então, tenho de me re-adaptar a tudo novamente. Já faziam tantos anos que eu simplesmente não era livre, nem conseguia ter mais do que tormento na vida terrena, que simplesmente me acostumar a não ter uma voz horrenda dentro da mente, bem como poder voltar a mostrar o rosto e a identidade diante de todos, tem sido algo realmente desafiador.

É claro que é bom me sentir assim. Me ver enfim livre, sem sequelas, com a minha vida devolvida a seus eixos, sem demônios ou maiores tormentos. Mas a adaptação é desafiadora mesmo assim.

Pensei que voltar à vida seria muito mais difícil e penoso do que na verdade foi. Parte disso acontece porque estou com Kanon. Ele tem me ajudado muito na readaptação. Às vezes, as lembranças nos assombram - Atena mesma disse que a nossa penitência será lidar com as lembranças; seria muito confortável simplesmente esquecer de tudo - e meu irmão se demonstra claramente culpado por ter feito tudo o que fez, inclusive comigo; por ter auxiliado tanto o demônio a me dominar.

Se Atena o perdoou, eu tenho que perdoar também. Eu perdoo, porque eu também cometi meus erros, e não foram poucos.

Respiro fundo, ainda deitado na cama, após ter pensado tanto em todas essas coisas. Meu irmão está aqui comigo - e é apenas um ano após a minha ressurreição, bem como a de Kanon, que percebo que finalmente meu luto por ele acabou.

Sim; pois por mais que há anos eu tenha tido ciência de que Kanon sobreviveu ao castigo no Cabo Sounion, é somente agora, após sua redenção, que meu Milagre se realizou completamente.

E de fato, tal luto somente se dissolveu após um ano de nosso retorno porque precisávamos do convívio diário; daquela "certeza" de que vamos nos encontrar em casa, sãos e salvos, após nossas obrigações diárias. A cada dia que se passa, nessa rotina dura e regrada porém bastante estável, eu sinto aquela vida de antes, cheia de dores e sobressaltos, cada vez mais distante... como se não houvesse passado de um sonho ruim.

Observo o rosto de Kanon, ainda adormecido, também banhado pela luz da manhã. Eu acaricio seu rosto, e beijo seus lábios de leve. Percebo que o luto anterior serviu para isso: para valorizar o que tenho agora. Eu sei que voltei a me acostumar com sua presença diária, mas... após ter passado um período considerável da vida ao crer que não o teria novamente tão cedo, ao tê-lo outra vez, e completamente redimido, é algo que não consigo ver como algo simplesmente corriqueiro ou sem valor.

Não. É extraordinário tê-lo em meus braços novamente, e em minha vida novamente, e poder acordar e dormir a seu lado, podendo usufruir plenamente de sua presença.

Eu não esperava que demorasse tanto assim, mas aconteceu. Após tantos anos, tantas agruras, após a perda de todas as esperanças, finalmente o meu Milagre aconteceu.

Kanon não é mais um garoto; é já um homem experiente, e eu também. Já passamos por muitas coisas; porém aqui, nesta cama, juntos, com este raio de sol matutino a incidir sobre nós, eu não consigo deixar de pensar que ele, agora, se parece mais do que nunca com o "meu menino" do passado.

É mais do que isso. Ele não é tão-somente "meu menino", mas também meu maior milagre.

"Somente por amor
A vida se refaz
E a morte não é mais
Pra nós"

FIM

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E acabou! Aaaaaaaa, mais uma fic de capítulos concluída! Eis a sensação de dever cumprido, rsssss!

A estrofe final é da música que era tema de Jade e Lucas na novela "O Clone" (numa fic de dois clones, rsssss!). Sempre achei a melodia enjoada, mas a letra é fenomenal. E o casal Jade e Lucas também sempre achei um porre. Rsssssss! Eu sou muito "heterodoxa" em relação a casais.

É isso! Agora é arranjar tempo para terminar as demais fics incompletas.

Beijos a todos e todas! Até a próxima!