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SEMELHANÇAS


Não sei bem que reação eu esperava que ele tivesse. Era a primeira pessoa para quem eu verbalizava a suspeita, portanto talvez todo mundo fosse me olhar daquela maneira que fazia com que eu me sentisse um réu no tribunal, sendo ele o promotor.

– Tem certeza? Porque Jacob não me pareceu exatamente desse tipo.

– Ele é homem, não é? – devolvi, com amargura.

– Ai! – murmurou Edward. – Nem todos os homens traem, Bella. Alguns de nós são dignos de confiança.

Suspirei e tentei tirar o tom amargo de minhas palavras.

– Bem, neste momento eu não tenho certeza de nada – admiti.

– Então você ainda não falou com ele? Não tem nenhuma prova substancial?

Aquele homem vinha assistindo a muitos dramas de tribunal… ou escrevendo-os.

– Não. Ainda não conversamos. Ele só volta amanhã.

– Então o escute, antes de tudo – começou Edward, soando bem mais razoável do que eu esperava. – Dê a Jacob a chance de contar o lado dele da história.

Assenti relutantemente, mas era o que eu já havia decidido fazer. A voz dele se tornou mais leve, tentando trazer algum alívio muito necessário à situação.

– E então, se ele andou mesmo aprontando por aí, posso lhe dar algumas dicas sobre como cometer o crime perfeito.

– Vingança amarga de novo?

Ele pareceu agradavelmente surpreso de saber que eu conhecia a trama de seu romance de estreia.

– Você leu?

Assenti, e antes que ele começasse a pensar que eu comprara o livro por causa de minha curiosa conexão com ele (o que, claro, era exatamente o motivo), acrescentei:

– Não há como evitar a leitura de todo tipo de coisas estranhas quando se trabalha em uma livraria.

– Ai de novo! – brincou ele, fazendo uma careta, que o rejuvenesceu instantaneamente. Então ficou em silêncio por um bom tempo, e parecia estar me estudando até que perguntou, hesitante: – O que vai fazer agora? Está tarde. Tem algum plano?

Me torturar com a imagem das duas pessoas em quem eu mais confiava me traindo não parecia uma confissão muito admirável.

– Vou para casa – respondi.

– Vou verificar um lugar não muito longe daqui, para minha pesquisa. Por que não vem comigo e me ajuda a descobrir a melhor maneira de me livrar de um corpo em um lago?

Ele deve ter notado a indecisão em meu rosto, porque acrescentou:

– Pode vir a ser útil, caso você decida embarcar em uma carreira de assassina.

Esse estímulo veio acompanhado de olhos nitidamente verdes e brilhantes.

– O que está acontecendo aqui, Edward? O que isso significa? De verdade: por que você está aqui?

Ele poderia ter se escondido atrás da necessidade de se desculpar da atitude que tomara na casa dele, naquela noite, ou do artifício da pesquisa, mas sua expressão se tornou séria, e eu soube que ele percebera que nenhuma daquelas respostas iria emplacar.

– De verdade? – repetiu Edward, e eu fiz que sim com a cabeça, antes de ele continuar: – Então terei de ser franco e dizer que eu mesmo não sei ao certo.

Tive a sensação de que não estar certo dos próprios motivos era algo que Edward estava achando um tanto desconfortável.

– A melhor maneira que encontro para explicar é que parece cedo demais para ir embora, apenas. Eu me sinto ligado a você de uma forma que é totalmente desconcertante e bastante ilógica. É quase como se o que começou na noite do acidente ainda não tivesse chegado ao fim. Há algo em relação a tudo isso que parece não resolvido, como se fosse um negócio inacabado – concluiu.

Não era uma explicação muito esclarecedora, mas, estranhamente, compreendi o que Edward quis dizer, pois sentia o mesmo que ele.

– E então, o que acha? Quer me ajudar a planejar um crime?

Era, sem dúvida, um dos mais loucos e mais sedutores convites que eu já recebera, e talvez exatamente a distração de que eu precisava.

– Ora. Por que não?

Ele pôs a mão forte e condutora na base das minhas costas e me guiou até onde seu carro estava estacionado, em um dos compartimentos para carga e descarga vazios.

– Aposto que é assim que as heroínas burras são assassinadas em seus livros – declarei, acomodando-me no banco do passageiro depois de ele abrir a porta para mim.

Ele riu e puxou meu cinto de segurança, para que eu o prendesse na trava. Para um homem que estava alegremente discutindo a melhor maneira de matar alguém, ele era de fato bastante preocupado com segurança. Enquanto seguíamos para um dos lagos que faziam parte do livro que eu vendera a ele, eu examinava as páginas de papel acetinado e espesso e me sentia mais fascinada pelas anotações que ele rabiscara nas margens com uma grossa tinta preta que pelo texto em si. Sua letra era elegante, levemente inclinada à direita, e com um traço firme.

– "Desmembramento? Tempo de decomposição? Possibilidade de autópsia?" – citei, fechando o livro e deixando-o descansar em meus joelhos. – Você nunca pensou em escrever algo mais alegre?

Ele riu e tirou os olhos da estrada por um momento, encarando-me.

– Morte vende – explicou, encolhendo os ombros de forma irresistível.

Imaginei que ele soubesse do que estava falando: os últimos três livros de Edward tinham, todos, chegado ao topo da lista de mais vendidos.

– E sexo, é claro. Isso também vende muito – emendou.

Eu enrubesci, o que era inacreditável. Eu era uma mulher adulta e havia alegremente renunciado à minha virgindade havia mais de uma década. Ainda assim, sentira calor e adquirira um tom rosado na face só de ouvi-lo dizer a palavra sexo.

Encontramos o lago com facilidade, e só foi preciso parar uma vez, em um minúsculo povoado rural, para pedir informações a um senhor que caminhava com seu cão. Enquanto o homem explicava a melhor rota, com palavras acompanhadas de enérgicos movimentos dos braços que mais pareciam as pás de um moinho de vento, pude perceber que seu forte sotaque regional era em grande parte indecifrável para Edward. Ao nos afastarmos do simpático aposentado, Edward sorriu e acenou para ele, agradecido, dizendo baixinho na privacidade do carro:

– Puxa, aquele homem precisa de legendas. Não faço a menor ideia do que ele acabou de dizer. Ele estava falando a nossa língua?

Eu ri e, sem pensar no que estava fazendo, estendi a mão e dei tapinhas em seu antebraço bronzeado, enquanto respondia:

– Não se preocupe, Edward. Eu entendi.

Aquele devia ter sido um gesto totalmente irrelevante, porém alguma coisa estranha aconteceu quando minha mão tocou o braço de Edward, sob a manga enrolada. Cada terminação nervosa entrou em sobrecarga sensorial quando sua pele de pelos escuros e macios se conectou com a ponta dos meus dedos. Foi uma reação puramente involuntária, da qual eu não tivera nenhum controle. Talvez muito semelhante à que levara àquele nosso quase beijo. Vi os nós dos dedos de Edward apertarem por reflexo o volante, em reação ao meu toque, mas ele próprio não disse uma única palavra sobre isso.

O lago era um ponto conhecido na região por sua beleza e, francamente, era bonito demais para ser o lugar de desova de um corpo. Era cercado por uma densa mata com árvores e vegetação rasteira, exceto em uma das extremidades, onde uma área plana, de grandes rochas lisas, formava uma plataforma levemente inclinada que levava à beira da água.

Edward estacionou o carro em uma trilha estreita e seguimos por uma vereda de pitorescas setas pintadas à mão, que nos conduziram ao lago. Uma brisa leve circulava à nossa volta quando deixamos a trilha lado a lado, acertando nosso passo em direção à água delicadamente ondulante. Coberto de musgo, o solo sob nossos pés era macio e irregular, e eu aceitei agradecida o braço que Edward me estendeu quando me viu em dificuldade com meus sapatos de salto.

– Desculpe – falei, apontando meu calçado – Normalmente uso saltos mais altos para passear pelo campo.

– Sem problemas – disse ele, olhando para baixo e então franzindo a testa ao ver os saltos do meu sapato afundando na terra, que ainda estava alagada da tempestade recente.

Ele gesticulou com a cabeça na direção das pedras planas, que estavam a uns vinte metros de distância.

– Vamos para lá, tudo bem?

Arranquei um pé da terra, movimento que foi acompanhado de um ruído que se assemelhava a um arroto abafado.

– Foi o meu sapato, não eu – esclareci.

O sorriso de Edward foi delicadamente provocador e fez com que ele de repente aparentasse bem menos que seus 34 anos.

– Claro que sim – respondeu.

Seguimos com dificuldade por mais alguns metros, enquanto eu concentrava todo o meu esforço em não cair de cara na lama.

– Seria mais fácil se eu carregasse você – ofereceu Edward, depois que eu agarrei seu braço ao me desequilibrar.

– De jeito nenhum – falei, erguendo os olhos brevemente do solo lamacento. – Eu consigo.

Edward balançou a cabeça.

– Você é teimosa – observou enquanto eu lutava com o terreno sob os meus pés.

– É o que dizem – comentei, apoiando o primeiro pé nas sólidas pedras à margem do lago.

– Eu peço desculpas. Não pensei em toda aquela chuva recente. Os sapatos estão estragados?

Antes que eu pudesse responder, ele se agachou à minha frente e deslizou uma das mãos por meu tornozelo.

– Tire-os – pediu.

Seria minha imaginação ou sua voz soara um pouco mais grave e rouca que o normal?

Fiz como ele pediu, e apoiei as mãos em seus ombros enquanto ele me livrava dos sapatos enlameados. Depois que os tirou, foi até a borda do lago e mergulhou os saltos na água, realizando movimentos circulares. Ficou de costas para mim enquanto se ocupava da tarefa. Quando terminou de limpá-los e voltou para onde eu estava, todos os vestígios de lama e intimidade haviam desaparecido dos meus sapatos e do rosto dele. Ficamos de pé lado a lado, observando o lago enquanto o sol começava a descer por trás das árvores, trazendo um misterioso brilho avermelhado à superfície da água. Por um segundo, o lago pareceu um medonho mar de sangue, e eu estremeci involuntariamente diante daquela imagem. Edward se voltou para mim com uma expressão preocupada.

– Está com frio?

Balancei a cabeça, negando. Embora a brisa estivesse forte o bastante para fazer cada folha falar em sussurros com a árvore vizinha, o ar não estava nem um pouco frio.

– Não. Estou bem.

– Quer voltar para o carro? Posso vir aqui sozinho depois.

– Não. Não seja bobo. Estou bem. Além disso, você não sabe falar a língua local, então duvido que encontraria este lugar outra vez.

Ele riu, e o som reverberou pela clareira como um bem-vindo eco.

– Faça o que tiver que fazer… Ficarei feliz sentada aqui, esperando.

Pareceu que ele ia protestar, mas a luz começava a diminuir, e isso talvez tenha feito que ele se decidisse. Edward me deixou por algum tempo e voltou carregando uma câmera profissional. Na outra mão, tinha uma manta xadrez, que estendeu na superfície plana e rochosa. Aquilo se parecia um pouco demais com uma cama para o meu gosto, então a ignorei.

– Não vou demorar mais que alguns minutos – prometeu. – Só quero andar em torno do lago e tirar algumas fotos.

– Tenha cuidado: não vá cair! – recomendei, advertindo-o, quando ele começou a se afastar.

Ele parou e se virou para me olhar.

– O que você faria se eu caísse?

A resposta brotou nos meus lábios sem que eu pensasse, ligando-me a ele de maneiras que eu não conseguia nem começar a compreender.

– Eu o salvaria, é claro. Exatamente como você fez comigo.


Na verdade, Edward demorou bem mais que alguns minutos, e eu por fim acabei mesmo me sentando na manta xadrez, enquanto o observava avançar ao longo do perímetro do lago.

O lugar era tranquilo, e o silêncio só era rompido pelo farfalhar da natureza e o chamado ocasional de algum pássaro. Mas seria preciso mais que um local sereno para me libertar da turbulência em minha mente. Minha cabeça estava cheia de perguntas sem respostas, dispostas em um espectro que ia de Meu noivo andou mesmo dormindo com minha melhor amiga? a Como é possível amar um homem e ao mesmo tempo se sentir tão misteriosamente conectada a outro? e Será que me sinto assim porque Edward salvou minha vida?

Em meio a essas questões complicadas, havia outras pequenas joias, como: Alice teria suspeitado de alguma coisa entre Jacob e Rosalie? e Que diabo vou fazer se minhas suspeitas se confirmarem?

A exploração que Edward fez do lago foi tão completa quanto uma manobra do exército. Apesar da superfície molhada e escorregadia, ele se mostrou o tempo todo firme e seguro enquanto atleticamente andava de um lado para outro na margem, elaborando algo que eu tinha certeza que um dia reconheceria nas páginas de seu próximo livro.

Embora estivesse longe demais para que conseguíssemos conversar, eu gostava da maneira como de vez em quando ele parava e olhava para mim, dando-me um sorriso ou um aceno de mão. Mesmo quando não estava ao meu lado, ele tinha um jeito curioso de fazer com que eu sentisse como se estivesse próximo. Ele tirou muitas fotografias do lago e da vegetação circundante, antes de voltar para a plataforma rochosa e se juntar a mim na manta.

– Conseguiu o que queria? – perguntei. – Vai usar este lugar no livro?

– Talvez. Depende. Terei de ver aonde a história vai me levar.

– Você sempre quis ser escritor? – perguntei e de imediato dei uma risadinha. – Todo o mundo lhe faz essa pergunta?

Ele sorriu.

– Sim. Essa e "eu vou aparecer no seu próximo livro?"

– E então? Eu vou?

Ele riu, e eu gostei do eco caloroso naquele som.

– Terá de esperar e ver por si mesma.

Mudei de posição na manta, desfrutando a sensação do sol de fim de tarde no meu rosto.

– E quanto às suas esperanças e sonhos de carreira? – perguntou, devolvendo-me a pergunta.

– Isso é pesquisa para a sua trama ou você está genuinamente interessado?

– Genuinamente interessado, é claro.

E talvez estivesse mesmo, porque ouviu com atenção enquanto eu falava de meu antigo trabalho, que me levara de Londres a Washington, abrira meus olhos para experiências novas e me deixara ávida por viajar mais.

– Você deve sentir falta. O trabalho na livraria deve ser bastante sossegado, em comparação com o antigo.

Considerei minha resposta com cuidado antes de dizer:

– Sossegado, sim. Mas certamente não monótono. Trabalhar com Victoria jamais poderia ser monótono.

Edward riu, e vi o brilho divertido em seus olhos enquanto ele claramente recordava a figura muito excêntrica de minha chefe.

– Bem, ela decididamente poderia ser uma personagem de meu livro – afirmou.

Sorri afetuosamente.

– Devo muito a ela. Tem sido mais uma mãe do que uma chefe para mim, neste último ano.

Edward apanhou uma pedra que estava por perto e habilmente a atirou sobre o lago, conseguindo que ela desse três impressionantes quiques antes de desaparecer sob a superfície vítrea.

– Aconteceu alguma coisa específica à sua mãe, para que você voltasse? – sondou ele, delicadamente. – Se você não se importa que eu pergunte.

Eu estava confusa. Pensei que já tivesse explicado tudo a ele.

– Entendi sobre a doença dela, mas você não poderia ter permanecido em Londres e mantido seu emprego? Parece ter sido um sacrifício grande demais…

Alguma coisa naquela pergunta fez que eu ficasse um pouco na defensiva, embora soubesse que ele não pretendera ser indelicado.

– Eu não deixei o marketing para sempre – garanti, embora pudesse ouvir uma voz que ecoava dentro de minha cabeça e provocava: É mesmo? – Só precisava estar aqui, mais imediatamente acessível, por ora. Na verdade, foi mais por meu pai que por minha mãe. Ele é teimoso e orgulhoso, e não pede ajuda. Nem minha, nem de Jacob, nem dos médicos. Ele até tentou manter os sintomas de minha mãe ocultos de todos pelo maior tempo possível. Então, no ano passado, aquilo tudo foi demais e ele acabou indo parar no hospital.

O semblante de Edward transmitia simpatia e preocupação.

– Pensamos de início que fosse um infarto, mas, felizmente, não era. Só que poderia ter sido. Isso aconteceu em um sábado; na segunda de manhã entrei no escritório do meu chefe e pedi uma licença.

– Foi uma atitude corajosa.

– Não me sinto corajosa – admiti, baixinho. – Mas, se alguma coisa acontecesse a qualquer um dos dois, eu não poderia viver com as consequências de ter ficado em Londres. Ao menos agora posso ajudar diariamente, e Victoria é incrível. Nenhum emprego em Londres teria me permitido um horário tão flexível.

Edward assentiu, demonstrando que entendia o que eu estava dizendo.

– Sabe o que é mesmo muito doido em relação a tudo isso? – perguntei, ciente de que estava prestes a partilhar com ele algo que nunca antes havia admitido. – A pessoa que ficaria absolutamente horrorizada com o que fiz, com o que deixei para trás, é minha mãe. Bem, mamãe como ela era, não agora. Ela acreditava em ir o mais alto que fosse possível, aproveitando ao máximo o próprio potencial e sempre buscando a próxima grande meta. Foi isso que fez dela uma professora tão fantástica.

Nesse ponto, minha voz se tornou mais triste.

– Acho que ela ficaria decepcionada se soubesse como as coisas terminaram.

– Não creio que alguém pudesse ficar decepcionado com você – disse Edward. – Você colocou as necessidades das pessoas que ama antes das próprias necessidades. Você dá, em vez de receber e o faz tão sem esforço que não acho que se dê conta de quanto isso é grandioso.

Muito possivelmente, aquela fora uma das coisas mais bonitas que alguém já me dissera, mas eu me sentia aberta e exposta ao holofote de seu escrutínio. A Bella que ele descrevia soava como uma santa ou uma mártir, e eu certamente não era nem uma nem outra.

– Não sou nem de perto tão altruísta nem tão boa quanto você acha que sou – disse a ele. – Bem ao contrário, na verdade.

Ele me dirigiu um sorriso ao dizer:

– Bom saber disso.

Ele mudou de posição ligeiramente na manta, ficando mais próximo de mim, de modo que todas as vezes que inspirava, seu ombro esbarrava no meu. Olhávamos o lago que escurecia, perdidos em nossos pensamentos.

– Então vamos lá, vamos ao ponto: o que exatamente aconteceu entre a noite de terça e agora, que fez você questionar seu noivo? – perguntou.

Suspirei profundamente. Tinha esperanças de que ele não perguntasse, mas deve ter sido em parte culpa minha, por ter mencionado o fato, em primeiro lugar.

– Nada aconteceu nos últimos dias, não especificamente. Eu só juntei um monte de coisas que não faziam sentido e agora… bem, agora acho que fazem.

– Então me conte – pediu.

Inspirei profunda e purificadoramente, tentei organizar os pensamentos e, pelos vinte minutos seguintes, contei tudo a ele. Foi catártico e esclarecedor, e ouvir de meus lábios o desenrolar da história fez com que eu me convencesse ainda mais de que havia chegado à única conclusão lógica possível. Surpreendentemente, Edward tinha uma opinião diferente.

– É isso, então? Isso é tudo o que você tem?

– Hein?

– Um número de telefone, algumas fotografias, um pedido de desculpas truncado e um sonho muito estranho. E foi isso que a fez concluir que eles estavam tendo um caso.

– Eu, bem… eu… sim. Isso não basta? Parece bastante conclusivo para mim.

Edward balançou a cabeça devagar.

– Não posso acreditar que eu esteja dizendo isso, porque… e vou ser sincero… seu noivo não me deixou a melhor impressão do mundo até aqui, mas não acho que você tenha o suficiente para enforcá-lo. Está longe de ter.

Franzi a testa, sentindo-me dividida. Eu queria que Jacob fosse inocente, é claro que queria. Mas não conseguia me livrar da sensação de que tinha chegado à conclusão certa, à única conclusão possível, mesmo que, para chegar até ela, eu tivesse dado um salto.

– Honestamente, Bella, isso não é nem de perto tão preto no branco quanto acho que você acredita que seja. Tudo o que você tem é uma série de pistas que você costurou para formar um quadro, mas as peças poderiam ter se combinado de uma centena de formas diferentes, e você teria um cenário inteiramente diverso. Pistas não provam nem culpa nem inocência de ninguém, e às vezes não há nenhum sinal a desvendar nem a ignorar.

Ele apanhou outra pedra e a lançou sobre o lago.

– Às vezes, a coisa dá errado, só isso – refletiu.

Dei um leve suspiro, com o qual pretendia expressar minha empatia. Certo, tinha entendido: não estávamos mais falando sobre a minha situação, falávamos sobre a dele.

– Tanya? – perguntei, hesitante, e senti seu ombro mover-se bruscamente, como se ele tivesse sido queimado. – Importa-se se eu perguntar o que aconteceu? Você não precisa me dizer, porque compreendo totalmente que algumas coisas…

– Voltei para casa mais cedo de uma turnê de divulgação de um livro e a encontrei com meu melhor amigo.

Inspirei bruscamente diante da maneira amarga e brutal como ele relatou.

– No chuveiro do nosso quarto – acrescentou, como se o lugar fosse relevante.

Procurei por um momento o que dizer, tentando encontrar o tom certo de empatia ou simpatia. Então, só Deus sabe o que me deu para que eu dissesse:

– Nunca fiz sexo no chuveiro.

Houve um momento de perplexidade, que preenchi gemendo repetidamente em minha cabeça Eu falei mesmo isso?. Mas, no fim, aquela veio a ser a resposta perfeita, porque nada mais naquele momento poderia ter feito com que ele se virasse para mim com aquela expressão de surpresa, nem teria feito que Edward risse tanto que na verdade parecia que ele estava se curvando de dor. Quando por fim se controlou, ele disse:

– Faz muito, muito tempo que ninguém consegue me fazer rir tanto quanto você fez hoje. Você é uma mulher interessante, Bella Swan, e não para de me surpreender.

Mordi o lábio, sem saber como responder àquelas palavras. Felizmente, ele não parecia esperar que eu o fizesse.

– Pelo seu bem, eu espero de verdade que isso que a está preocupando com relação a Jacob e a Rosalie não tenha nenhuma semelhança com a minha situação, que tudo seja apenas um grande mal-entendido.

Uma súbita onda de pânico me tomou quando ouvi as palavras de Edward. De uma forma ou de outra, eu deveria ter a resposta no dia seguinte.


Peço perdão à quem estiver lendo (Oiii, Paty! Quanto tempo!), tive tempos difíceis. Corri atrás da saúde e cá estou eu, bem de novo (mas ainda à espera da cirurgia), e tudo logo vai melhorar de vez. Estou postando hoje, posto o próximo na sexta e o terceiro no domingo. Vamos tirar esse atraso!