Como sabem Sailor Moon não me pertence, pertence sim a Naoko Takeuchi.

E esta linda história também não me pertence, pertence a Tuca Hassermann.

Espero que gostem de a ler como eu gostei. Quero simplesmente a da-la a conhecer mas com os nomes dos meus personagens favoritos.

O Príncepe e a Plebéia

Enjoi.

CAPÍTULO 3

— A informação extra-oficial que nossa redacção recebeu foi de que o ladrão levou apenas uma colecção de jóias que nem havia sido colocada à venda ainda. São peças em estilo oriental, com pedras enormes, com lapidação e cravação exclusivas. Há quem diga que o mistério do roubo da Joalheria Davidovitch não passa de golpe de marketing. Se for, convenhamos, foi uma excelente tacada. A joalharia nunca foi tão procurada como agora, embora goze de óptima reputação há mais de trinta anos, e todos querem saber quem é a artista responsável pelas peças orientais. Zoicite Davidovitch, o proprietário, não revela sua identidade de modo algum. Mas em off nos disse que a designer, por si só, é uma preciosidade.

Mamoru apertou a tecla mute do controle remoto da tv.

— Aposto um dente da frente que eu sei muito bem quem é a desenhista das jóias! Até que enfim! — apanhou o celular e ligou para Luna. — Mamãe? Sou eu. Encontrei Maata! Pegarei o primeiro avião para Nova York. Deseje-me sorte!

— Filha? É mamãe.

— Olá, meu amor! Espere só um segundo, sim?

Maata pagou ao motorista, do táxi, apanhou seus pacotes do supermercado, saiu do carro e entrou no prédio. Pôs o telefone no ouvido outra vez e chamou o elevador.

— Pode falar, mamãe.

— Tudo bem com você, querida?

— Comigo, sim. Mas… aconteceu alguma coisa? Eu ia ligar para você mais tarde, como sempre — chegando a seu andar, saiu do elevador e se dirigiu a seu apartamento.

— Seu irmão acaba de me telefonar. Ele viu uma reportagem na televisão falando…

— …do roubo na joalharia — Maata procurava a chave na bolsa. — Bem, um dia ele ia ter de me achar, não é? Sinceramente, mamãe, se Mamoru tivesse de ganhar a vida como detective…

— Maata, não importa o que você faça, mas Mamoru ainda não pode voltar para Nakabir.

— Eu sei. Os rebeldes estão cada dia mais ousados. Ah, mamãe, será que terei de deixar Nova York? Gostei tanto daqui…

— Você é inteligente, saberá o que fazer para manter seu irmão longe de Nakabir.

— Isso quer dizer "vire-se"?

— Exactamente.

Maata sorriu e enfiou a chave na fechadura.

— Imaginei que sim. Pensarei em alguma coisa, mãezinha. Depois nos falamos, está bem?

— Certo, meu doce. Salaam aleikum.

Salaam aleikum, amor.

Ela trancou a porta e acendeu a luz. E por um triz não deixou suas compras se espatifarem no chão. Em seu sofá, uma bela loira de olhos claros a encarava com um sorriso no canto dos lábios.

Usagi Baker se levantou de um salto e foi ajudar Maata com os pacotes. Automaticamente, a jovem princesa a seguiu até a cozinha em estilo americano.

— O que… Como… O que… Como…

Usagi arqueou uma sobrancelha, achando graça da gaguez de Maata.

— O que faço aqui e como entrei?

— É — Maata cruzou os braços e a encarou, zangada. — Foi você mesma quem roubou a joalharia, não foi? O que veio fazer em minha casa? Oh, que pergunta boba… Devia estar dando uma busca para apanhar mais peças, e eu a surpreendi. É isso, tenho certeza. Pois eu vou chamar a polícia. Invasão a domicílio é crime. O que tem naquela mochila?

— Meu Deus, garota, fique quieta um segundo!

— Eu estou na minha casa, e você não me dá ordens. Era só o que me faltava!

Usagi abriu a geladeira e começou a guardar o que ia tirando da sacola.

— O que… Como…

— Ah, por favor! Você parece um disco riscado! — Usagire tornou a sorrir. — Fique tranquila. Não tenho intenção alguma de lhe fazer mal.

— Que sorte a minha! Invasora e ladra, sim, mas nem um pouco violenta. Estou a ponto de convidá-la para um chá!

— Prefiro uma cerveja.

Maata começava a se enfurecer com tamanha petulância. Num gesto intempestivo, fechou a porta da geladeira, quase prendendo a mão de Usagi.

— Façamos o seguinte: se você sair daqui agora mesmo, prometo esperar meia hora até chamar a polícia e fazer a denúncia. Isso lhe dará algum tempo para fugir.

Usagi foi lavar uma maçã na pia. Enxugou-a e a mordeu.

— Façamos o seguinte: você prepara um lanche para nós duas e ouve a proposta que tenho a lhe fazer. Se não concordar com o que pretendo, espera meia hora para chamar a polícia. Isso me dará algum tempo para fugir — e piscou para Maata, de um jeito cúmplice.

— Proposta? O que eu poderia querer com uma pessoa como você?

— Como eu, como?

— Moça, você é uma criminosa!

— Anjinho, essa é uma palavra muito forte.

— E muito adequada, também.

— De fato, eu transgrido a lei. Mas, até onde fiquei sabendo, nunca prejudiquei quem quer que fosse.

Maata pôs as mãos na cintura.

— Você é uma ladra!

— Sim, sou.

— E diz isso assim, como se não fosse nada de mais?

— É uma profissão que requer muito preparo, técnica e nervos de aço. Não é para qualquer um.

Maata engasgou.

— Sem dúvida você é uma pessoa muito útil para a sociedade. O que seria de nós, bons cidadãos, sem os ladrões?

Usagi terminou de comer a maçã, jogou o talo e as sementes no lixo e retomou ao sofá.

— Entendo sua indignação, mas tentar me ofender não levará a nada. Mesmo porque não dou a mínima para sua opinião a meu respeito. Vim até sua casa me oferecer para devolver suas jóias, contanto que você me faça um pequeno favor.

O coração de Maata deu um salto. Amava cada pequena peça que fazia, e imaginar que algum sujeito sem escrúpulos àquela altura poderia estar destruindo sua criação quase a levava às lágrimas. Por esse motivo, serviu-se de um copo d'água, procurando se acalmar, e foi se sentar diante de… da… daquela mulher.

— Pensei que já tivesse se livrado delas.

— Pensou errado — respirou fundo. — Meu nome é Usagi. Usagi Baker. Tenho verdadeiro fascínio por jóias, e por isso me especializei em roubá-las. Além de ganhar um bom dinheiro com elas, acabo aprendendo mais e mais. Por isso com um simples olhar sei avaliar uma jóia de valor. E as suas são espectaculares. Está de parabéns, Maata, que designer excepcional você é.

Maata se esforçou para não demonstrar a imensa satisfação que o elogio de uma profissional tão abalizada — embora nem um pouco recomendável — lhe causava. Contudo, o leve rubor que tingiu suas faces a denunciou.

— Obrigada. Mas não a entendo… No cofre do sr. Davidovitch havia muito dinheiro e pedras preciosas, mas você resolveu pegar só as minhas peças. Por quê?

Ocorreu a Maata que talvez Usagi soubesse quem ela era e pretendesse chantageá-la de alguma forma. Bem, se fosse assim, não iria facilitar as coisas para aquela meliante.

— Minha intenção era esvaziar o cofre de nosso bom joalheiro. Mas eu o ouvi conversando com a esposa, falando de um problema muito sério de saúde em família, e então desisti de lhe impor tal prejuízo. Por isso apanhei suas jóias e deixei o resto para trás.

Maata engasgou de novo.

— Deixou de levar quinhentos mil dólares e mais uma fortuna em pedras porque teve pena dele?

— Menina! Ladrões também têm coração, sabia?

— Não, não sabia. Nunca conheci um antes.

— É, mas foi o que aconteceu.

Maata cruzou as pernas e pôs as mãos sobre o joelho.

— Muito bem, srta. Usagi Baker, em que posso ser útil para sua tão nobre pessoa?

Usagi se inclinou para a frente, ficando com o rosto bem próximo ao de Maata.

— Esse seu cabeleireiro é excepcional. Eu poderia jurar que a cor de seus cabelos é natural.

— E é.

— Jura? Que raridade, uma morena de olhos claros! — Usagi virou um pouco de lado a cabeça. — Você tem nome árabe, mas é branca demais para ser do Oriente Médio.

— Não tinha uma proposta a me fazer?

Usagi tornou a se recostar.

— Uma moça objectiva. Gosto disso. Muito bem, Maata, eu devolverei a você todas as suas jóias se me ajudar a descobrir se o filho adoptivo de Zoicite Davidovitch é o meu irmão.

Usagi contou a Maata como fora sua vida — entrando o menos possível em detalhes — desde que ela e Shingo perderam os pais. Ao fim do relato, a princesa não só nutria grande simpatia por ela como a julgava uma mulher interessantíssima.

— …e não vou descansar enquanto não encontrar meu irmão.

— Juntos montaremos uma joalharia. Você poderia ser nossa sócia, Maata — Usagi sorriu-lhe com doçura.

Maata limpou os lábios com o guardanapo. Preparara para elas o lanche que Usagi solicitara: pão com presunto e queijo, e chá quente. Usagi preferiu beber água.

— Pronto. Agora você já sabe de tudo o que tinha de saber sobre mim. O que me diz? Vai me ajudar a saber se Ivan Davidovitch é Shingo?

Maata ficou de pé.

— Dê-me um instante, preciso ir ao banheiro. Com licença.

Uma pessoa esperta e vivida como Usagi Baker poderia ser uma bênção para alguém como Maata, que àquela altura já esgotara sua criatividade para se manter fora do caminho de Mamoru. Sua mãe a avisara de que ele vinha vindo.

Na certa, no dia seguinte, naquele mesmo horário, seu irmão estaria tocando a campainha de seu apartamento e lhe ordenando que voltasse para casa, em Nakabir.

A bem da verdade, Maata estava farta de ir de um lado para o outro, como vinha fazendo durante meses. Não era essa sua ideia de diversão. Queria se estabelecer, criar raízes, montar sua loja. E isso jamais aconteceria enquanto aquela sua missão durasse.

Contudo, não podia desapontar os pais. Eles queriam Mamoru fora do alcance dos rebeldes, e confiaram nela para alcançar esse intento.

Foi quando uma ideia genial lhe ocorreu. Aquela moça bonita em sua sala, cheia de talentos que Maata nem sonhava um dia vir a ter, podia ser a aliada perfeita. Lamentava ser obrigada a mentir para Usagi, mas era por uma boa causa. Além disso, quando chegasse a hora, saberia como recompensá-la.

Lavou o rosto e sorriu para si mesma no espelho. A começar por Mamoru, todos os seus irmãos iriam descobrir que as mulheres eram o máximo!

— Usagi, você se abriu comigo, e quero fazer o mesmo — Maata tornou a se sentar na poltrona. — Deve ter notado meu sotaque inglês.

— Sem dúvida.

— Meu pai é árabe, minha mãe, inglesa. Nasci em Londres e aos dezesseis anos me casei com um árabe. Fomos viver no Oriente, e meu inferno começou. Meu marido, Mamoru, me obrigava a usar o xador, aquela roupa que nos cobre da cabeça aos pés. Enfim, todos já ouviram falar de como as mulheres são tratadas em alguns países orientais, não é?

— Sim.

— Eu não estava acostumada com aquilo. Fui criada na Inglaterra, com todo o carinho, e jamais vi meu pai maltratar minha mãe. E de uma hora para outra…

— Não falou com seus pais sobre o que estava acontecendo?

— Não, não queria magoá-los. Mas, com muito jeito e me fingindo de submissa, acabei conseguindo fugir de meu marido e vir para cá. Tudo ia muito bem até que a imprensa deu destaque ao roubo da Joalheria Davidovitch.

— Não me diga que seu marido a encontrou.

Maata fez que sim.

— Tenho amigos que trabalham na alfândega, e eles me avisaram que Mamoru chegou aos Estados Unidos. Em poucas horas estará batendo em minha porta.

Maata respirou fundo e a encarou com a expressão mais súplica de que foi capaz.

— Agora que nos tomamos amigas, quero lhe fazer a minha proposta.

— Diga.

— Eu a ajudo a descobrir se Ivan Davidovitch é o seu irmão e você me ajuda a manter Mamoru longe de mim. Ele quer me levar de volta para o Oriente, mas tudo o que quero de meu marido é o divórcio. Porém, como é um homem muito violento, morro de medo de encontrá-lo.

— Quer mantê-lo distante até conseguir se divorciar?

— Isso mesmo. Nós nos casamos pelas leis inglesas, portanto posso conseguir o divórcio sem anuência dele. Então, uma colabora com a outra. E em vez de você me devolver todas as minhas jóias, eu lhe dou de presente a metade delas, a sua escolha. Que tal?

Usagi sabia que Maata estava mentindo. Entrara no apartamento pelo menos quarenta e cinco minutos antes de a jovem chegar e dera uma boa olhada em tudo. Seus documentos diziam que ela nascera em um lugar chamado Nakabir.

Seu pai era árabe, e a mãe, inglesa, de fato, e desse modo, devia ter dupla cidadania. Sim, nada disso dizia que o tal marido malvado fosse invenção. Mas Usagi sabia, melhor que ninguém, que todos os que mentem o fazem por um motivo.

De todo modo, alguém estava atrás de Maata, era do sexo masculino e a garota queria se livrar dele. Em troca, faria de Usagi uma mulher rica, lhe daria uma mão para encontrar Shingo e tiraria a polícia de vez de seu encalço; Maata não sabia disso, mas Usagi não perderia aquela oportunidade única. Sendo assim, por enquanto, ela faria de conta que ignorava aquele simples pormenor. Uma carta na manga nunca era demais.

Usagi se levantou e foi para o quarto de Maata.

— O que está fazendo?

— Vamos arrumar as malas, moçinha. Se não quer que o troglodita a encontre, terá de sair daqui.

— Será tão fácil ele me achar num hotel…

— Você não irá para um hotel — Usagi se virou para ela. — Apresse-se! Não queremos ter um desagradável encontro com aquele maluco, não é?

— Quer dizer que vai me ajudar? O que pretende fazer?

Usagi abriu a porta do armário e começou a tirar algumas roupas lá de dentro.

— Ainda não sei ao certo, mas uma coisa lhe garanto: eu a colocarei tão longe do alcance de seu marido que você nem imagina.

Não foi difícil para Mamoru conseguir o endereço de Maata. O fotógrafo que acompanhou o repórter que fez a matéria do roubo na Joalheria Davidovitch estava com quatro mensalidades da faculdade atrasadas, e, após dois segundos de relutância, concordou em colaborar. Num momento de distracção do jornalista, na redacção, deu uma busca no computador de seu chefe e encontrou o que procurava. Mamoru preencheu um cheque gorducho, e todos ficaram felizes.

Sem demora, o príncipe entrou em um táxi e foi directo para o prédio onde sua irmãzinha rebelde residia.

Era um edifício de apenas quatro andares, sem porteiro, mas com elevador, Mamoru pode ver pelo vidro da porta. Para entrar era necessário usar o interfone e se identificar.

— Ora, ela não se atreveria a não permitir minha entrada.

Mamoru tocou diversas vezes, mas ninguém o atendeu.

Um rapaz chegou, de bicicleta, e sorriu-lhe.

— Com licença — e enfiou a chave na fechadura.

— Por gentileza, você mora aqui?

— Sim. Está procurando alguém?

— Conhece uma jovem morena, de olhos claros, que mora no 407?

O sorriso do jovem se alargou.

— Refere-se a Maata? — suspirou. — Como é linda aquela garota!

Mamoru sentiu uma pontada de ciúme.

— Saberia me dizer se ela está em casa?

— Eu a vi sair ontem com uma amiga, tão bonita quanto ela, mas loira. Elas levavam malas. Devem ter ido viajar.

— Entendo. Será que alguém poderia me dizer para onde Maata foi?

O moço o encarou, desconfiado.

— Quem é você?

— Apenas um amigo. Queria fazer uma surpresa, mas ela parece estar sempre um passo adiante.

— Lamento. Não tenho ideia de quem teria mais informações a lhe dar. Se me der licença…

O rapaz entrou e fechou a porta.

Mamoru respirou fundo.

— Não se irrite. Isso é tudo o que ela quer. Sua irmã é especialista em tirá-lo do sério desde que era bebé. Você é um homem adulto, controlado e senhor de si. Portanto, muita calma nesta hora.

Não adiantou. Seu sangue continuava quente.

— Aquela pirralha me paga!

A única coisa que fazia Mamoru aceitar deixar de lado sua posição e sair pelo mundo no encalço de sua irmã adolescente era que jamais se atreveria a desobedecer uma ordem do sheik. Gente de sua estirpe podia ranger os dentes, mas tudo o que seu soberano dizia era lei. O fato de o sheik e seu pai serem a mesma pessoa não o isentava de seu dever.

Mas é tão humilhante tudo isso! Há tanto o que fazer em meu país, e eu aqui, para baixo e para cima, bancando o idiota! Certo, o dever para com o sheik não era a única coisa que o obrigava a seguir em frente. Havia também a genuína preocupação com Maata.

Aquela cabeça de vento! Fazia parte da vida de todos os seus ancestrais cuidar e proteger as mulheres. E, muito embora elas tivessem em Nakabir um respeito e um valor que eram raríssimos em outros países do Oriente Médio, era impossível para Mamoru esquecer o quão frágeis eram. Ou ao menos fingiam ser.

E ao ver o sorriso bobo do vizinho de Maata, lembrou-se uma vez mais do risco que corria uma garota inexperiente e tão linda em terras estrangeiras.

Em Nakabir ninguém se atrevia a colocar as mãos em uma mulher sem o total consentimento dela. As leis eram rigorosíssimas, e não havia complacência com estupradores. Assim, as mulheres podiam andar por todo lado, com a certeza de que nada de mal lhes aconteceria. Mas ali não era Nakabir, e sua adorada irmã resolvera se atirar na cova dos leões.

— Assim que voltarmos, vou arranjar um marido para ela. Nada como o casamento para manter ocupada uma menina mimada.

Antes disso, porém, teria de achá-la.

Do outro lado da rua havia um café, e Mamoru decidiu ir até lá para comer algo e pensar um pouco.

A jovem garçonete que veio atende-lo se mostrou bastante solícita. Não era sempre que um homem tão belo e imponente vinha a seu estabelecimento.

— Bom dia. O que vai ser?

— Um café bem forte e um sanduíche de queijo quente, por favor.

Ela fez a anotação e lançou-lhe um sorriso incandescente.

Mamoru achou graça, mas não deu mostras.

Então Maata viajara. A primeira providência seria descobrir se ela deixara o apartamento de vez ou se pretendia voltar. Se sua irmã tivesse se mudado, tudo começaria de novo. Se fosse voltar, no entanto, dessa vez iria ter uma grande surpresa.

No entanto, para pôr em prática o que pretendia, Mamoru ia precisar de ajuda. Saíra em viagem sem os funcionários que costumavam acompanhá-lo, mas havia o piloto de seu jacto, que permanecia a sua disposição.

— Ele vai ter de servir.

Mamoru tomou seu lanche, pediu a conta e retomou ao prédio. Naquele momento, um homem de meia-idade limpava a portaria e abriu-lhe a porta.

— Bom dia. O senhor poderia me informar se há algum apartamento para alugar aqui?

— O senhor terá de se informar com a administradora — o faxineiro tirou do bolso do macacão um cartão de visitas. — Aqui estão o número do telefone e o endereço.

— Muito obrigado.

E Mamoru retomou à calçada, pela primeira vez em meses com a sensação de que, enfim, conseguiria resolver aquele impasse.

Caminhou algumas quadras, chamou um táxi e retomou ao hotel.

— Decepcionada?

Maata observava a sala do apartamento de Usagi sem conseguir disfarçar o espanto.

— Não é isso. Mas, para ser sincera, eu imaginava que você morasse em um lugar bem luxuoso.

Usagi deu risada.

— A ostentação é o que costuma levar muito profissional de ponta para trás das grades, Maata. E, como eu lhe falei, não sou movida por uma ambição desmedida. O que faço é muito arriscado, mas eu não quero perder tempo. Já sofri muito nesta vida. Agora, vou aproveitar meus talentos para levantar fundos e me dar tudo o que mereço: um negócio próspero, uma casa muito confortável e, acima de tudo, achar Shingo. Nossos pais foram irresponsáveis demais, e fomos nós, eu e meu irmão, que tivemos de arcar com as consequências disso.

— Diga-me uma coisa. E se Shingo for mesmo Ivan Davidovitch? O que você fará?

— Em primeiro lugar, descobrir se ele foi bem tratado, se sua família adoptiva o ama. Se Shingo estiver feliz, talvez eu siga com minha vida e o poupe de saber que sua irmã não é exactamente flor que se cheire. Mas se meu irmãozinho estiver infeliz, vou levá-lo comigo para bem longe de tudo isso.

O telefone tocou, e Usagi foi atender.

— Sim?

Era Seiya, o receptador das peças que Usagi roubava.

Ele não gostava nem um pouco daquela mania de Robin Hood de Usagi — como Seiya costumava chamar, por falta de comparação melhor —, que evitava "subtrair recursos" de pessoas em dificuldades. Contudo, como era ela a melhor de toda sua equipe, Seiya fazia vista grossa. Contanto que não atrapalhasse seus negócios, Usagi podia fazer o que quisesse.

— Ficando famosa, hein?

— Como assim?

— O roubo da Joalheria Davidovitch é coisa sua. Quem mais deixaria uma fortuna no cofre, além de você? — ele riu. — O que foi dessa vez? Um pobre velhinho precisando fazer tratamento dentário?

Usagi detestava Seiya. O sujeito não tinha escrúpulos, e provavelmente havia uma pedra no lugar do coração dentro daquele peito mirrado.

— O que você quer, afinal?

O de sempre, minha querida. Onde estão as jóias que você pegou? Ouvi dizer que são espectaculares. Menina esperta!

Usagi fez um sinal para Maata, pedindo licença, e foi conversar com ele no quarto a portas fechadas.

— Elas não estão à disposição, Seiya.

— Como assim?

— Tenho um assunto muito sério para resolver, e precisarei delas.

— Não ligo a mínima! Meus contactos me informaram que as pedras dessas peças são valiosíssimas, e você não vai me passar para trás!

— Claro que não, acalme-se. Você as terá, Seiya. Dê-me apenas um tempo.

— Usagi, até hoje nós nos demos bem porque você sempre demonstrou que sabia com quem estava lidando. Será que esqueceu?

— De modo algum. Não me ameace, Seiya. Nunca lhe dei motivo para desconfianças.

— Até este momento. Eu lhe dou vinte e quatro horas. Se até amanhã, neste mesmo horário, eu não tiver em minhas mãos as jóias que você roubou, sua vida não valerá mais nada, Usagi Baker! — e ele desligou.

Seiya Riscoe não costumava fazer ameaças vãs. Muitos dos que acabaram indo parar na lista de desaparecidos do FBI tinham tido encontros bastante desagradáveis com ele instantes antes de sumir. Seiya era um mafioso, por assim dizer, e ele não admitia erros.

Usagi sempre fez as coisas a seu modo, e Seiya não se incomodava muito com isso porque os lucros que conseguia com ela eram excelentes. Mas Usagi não tinha nenhuma ilusão quanto à realidade: bastaria uma simples escorregadela para que seu lindo pescoço tivesse um trágico destino.

Teria de dar um jeito de sumir do mapa. Caso contrário, jamais encontraria seu irmão. Na verdade, não viveria para tanto.

— Tudo bem? — Maata quis saber assim que a viu de novo na sala.

— Não. Mas vai ficar. Sente-se aqui, meu bem. Tenho um óptimo plano em mente, que beneficiará nós duas.

Irónico que elas se vissem na mesma situação, pensou Usagi. Ambas fugiam de homens violentos, e uma acabou no caminho da outra. Bem, a sorte não costuma sorrir por muito tempo se não aproveitamos as oportunidades que ela resolve disponibilizar. E Usagi não iria deixar aquela chance lhe escapar.

De jeito nenhum.

— Acha mesmo que isso vai dar certo?

— Alguma sugestão melhor?

Maata sentia um frio na barriga. O plano que Usagi arquitectara era óptimo. Daquela vez, Mamoru não conseguiria encontrá-la de jeito nenhum.

— Você é uma mulher muito inteligente, Usagi. Alguma vez pensou em usar seus dons para o bem?

— Nunca — apanhou a bolsa. — Marquei hora para nós duas no melhor cabeleireiro de Manhattan. Gastaremos uma pequena fortuna, mas vai valer muito a pena.

Maata se levantou da poltrona e desligou a tv.

— Mais tarde eu lhe mostrarei minha loja.

— Não sabia que tinha negócio próprio. Um honesto, quero dizer.

Usagi a fitou de soslaio.

— Não se iluda. Ele faz parte de meu disfarce.

— Sei…

— Chega de conversa. Hoje seremos apenas duas garotas soltas em Nova York, dispostas a mostrar aos marmanjos deste mundo que não estamos para brincadeiras.

Rindo como velhas amigas, Maata e Usagi saíram para dar início àquilo que se tornaria em breve a maior aventura de suas vidas.

Glossário:

Salam Aleikum – é uma saudação árabe que significa "a paz de Deus esteja contigo"

Xador - é uma veste feminina que cobre o corpo todo com a exceção do rosto.