Esclarecimentos:
Como sabem Sailor Moon não me pertence, pertence sim a Naoko Takeuchi.
E esta linda história também não me pertence, pertence a Tuca Hassermann.
Espero que gostem de a ler como eu gostei. Quero simplesmente a da-la a conhecer mas com os nomes dos meus personagens favoritos.
O Príncepe e a Plebéia
Enjoi.
CAPÍTULO 5
No horário marcado, Maata entrou na Joalheria Davidovitch. Zoicite, bastante nervoso, pediu-lhe que o acompanhasse até seu escritório. Não queria expor a jovem ao constrangimento de ser presa ali, diante de funcionários e clientes.
Como na véspera, Maata disfarçava o hematoma no rosto com maquilhagem e grandes óculos escuros. E aquilo só contribuiu ainda mais para que o investigador Yaten a visse como culpada.
— Deu tudo certo, sr. Davidovitch? A seguradora pagou o valor das jóias?
— Sim, senhorita. Sente-se, por favor.
Maata se sentou e viu o retrato da família dele.
— Este é seu filho, não é? Ivan, se não me engano.
Zoicite se arrepiou. Nervoso, abriu a gaveta e, sem responder à pergunta de Maata, entregou-lhe o cheque.
— Aqui está.
— Ora, é bem mais do que eu esperava.
— Assine aqui, por favor.
Maata assinou o documento de recebimento, e naquele instante a porta se escancarou, dando passagem a três homens da lei.
— Usagi Baker, você está presa por invasão, roubo, fraude a companhia de seguro e… — ele apanhou o papel onde constava a assinatura da princesa. — …uso de identidade falsa. Mas, tenho de admitir, originalidade não lhe falta. Onde arrumou um nome desses?
— Está enganado, policial. Sou Maata Faraj. Usagi Baker é uma amiga minha e…
— Sim, e eu sou George Clooney. Terá muito tempo para se explicar na delegacia, moça. Sugiro que arranje uma desculpa melhor do que "Usagi Baker é uma amiga minha".
O investigador, num gesto arbitrário, pegou a bolsa dela, vasculhou seu interior e apanhou os documentos de Usagi, que chacoalhou no ar, triunfante. Colocou as algemas em seus pulsos, leu seus direitos e conduziu Maata direto até seus superiores.
Jedite seguira de longe sua princesa até aquela viela deserta. Ele viu quando um homem magro e de péssima aparência se aproximou dela e a assustou. Os dois discutiram, o sujeito agarrou o braço de Maata. De repente, ela conseguiu escapar. Jedite deu a volta, e assim que chegou aos pés da escadaria, seu coração parou de bater por dois segundos. Ali estava Sua Alteza Real, Maata Faraj, estatelada no chão, como uma criatura qualquer, com os cabelos sobre o rosto e a cabeça sangrando.
Mas Jedite era um funcionário de confiança da família do sheik, que sempre contara com ele. Assim, obrigou-se a se refazer logo do susto e ligou para a emergência.
Resistiu à tentação de tocar a princesa e colocá-la numa posição mais confortável. Se ela tivesse quebrado algum osso — o que era mais que provável —, poderia acabar por prejudicá-la.
Assim que a ambulância virou a esquina, Jedite se afastou.
Aquela altura, uma pequena multidão já se juntara ao redor de Maata. Ele permaneceu ali apenas por tempo suficiente para ouvir para onde a princesa seria levada e retomou a seu posto de observação.
Chegando lá, pediu seu café, respirou fundo e fez uma ligação de seu celular:
— Alteza? Houve um acidente.
Foi indicado para Maata um defensor público. Atordoada, ela não fazia ideia de que atitude tomar. Poderia ao menos ter alguma orientação com o advogado.
O senhor de meia-idade, usando um temo barato e com ar bastante cansado, sorriu, estendendo-lhe a mão.
— Boa tarde, srta. Baker. Sou Kunzite Murray, e estou aqui para ajudá-la. Não tenha receio, nossa conversa é confidencial, protegida por lei. Mas, para que eu possa defendê-la, terá de me dizer toda a verdade. Em seguida, veremos que linha de defesa iremos tomar.
Maata revelou a Murray tudo o que acontecera, omitindo apenas o detalhe de estar nos Estados Unidos servindo de isca para o irmão, por conta de tirá-lo de perto dos terroristas de seu país.
O advogado a ouviu o tempo todo de cenho franzido.
— A senhorita está me dizendo que é uma princesa árabe?
— Isso mesmo.
— E veio para os Estados Unidos tentar a vida como designer de jóias, porque seus pais, um sheik e uma rainha, não a deixam trabalhar?
— Exacto.
— Compreendo. E então, por força do destino, conheceu uma ladra de jóias, muito parecida com a senhorita, vocês fizeram amizade e trocaram de identidade por conveniência mútua.
Maata, ao ouvir sua história contada por outra pessoa, se deu conta de que se metera numa grande enrascada. Até para ela mesma aquilo tudo soava inverosímil.
— Sr. Murray, acredite, estou sendo sincera. Mas sou inteligente o bastante para enxergar que neste momento não tenho como provar nada, todas as evidências apontam contra mim. Portanto, peço-lhe encarecidamente que encontre um caminho para me tirar daqui. Farei o que for preciso. E o senhor tem minha palavra de que, assim que estiver livre, receberá uma recompensa generosíssima.
Murray não perdia nenhum movimento dela, nenhuma mudança de expressão facial. Durante toda sua carreira tratara com meliantes, ladrões, traficantes. Também com gente honesta, claro, que não tinha condições de pagar um advogado.
Mas a maioria não valia nada. A vida não lhe acenara com uma chance de ascensão, por isso jamais tivera a chance de abrir um escritório próprio, como sempre sonhara. De todo modo, até mesmo dormindo seria capaz de distinguir um sujeito de bem de um malandro. E aquela jovem diante dele, sem dúvida alguma, tinha excelente carácter. Apostaria um rim nisso.
— Quanto à srta. Baker… Sabe me dizer se ela já foi presa alguma vez?
— Nunca.
Kunzite suspirou e passou a mão pela calva. Tamborilou os dedos na mesa, levantou-se, foi até o fundo da sala. Olhou para a parede, como se visse ali um quadro-negro que esboçasse toda sua linha de raciocínio.
De repente, girou nos calcanhares, retomou até sua cadeira e tirou da pasta um laptop. Digitou durante vinte minutos, sem jamais desviar o olhar da tela. Então, por fim, encarou Maata e disse:
— Muito bem, srta. Faraj. Iremos agora falar com os policiais. Ou melhor: eu falarei. Será necessário que confie plenamente em mim. Não diga uma única palavra, por mais que sinta vontade. Se seguir essa simples instrução, eu a tiro daqui hoje mesmo.
— Jura?
— Juro.
— Certo, sr. Murray. Não abrirei minha boca.
Mamoru entrou correndo no hospital, e logo avistou Jedite.
— O que houve?
— Alteza, eu segui a princesa, conforme suas ordens. Ela se encontrou com um elemento de quinta categoria, que tentou agredi-la. Quando a princesa conseguiu se desvencilhar e correr, o miserável foi atrás dela. Não sei se ele a empurrou ou não, mas ela acabou caindo de uma enorme escadaria. Chamei a ambulância, eles a trouxeram para cá. Ainda não pedi notícias, pois esperava por Vossa Alteza. Sinto muito.
Mamoru colocou a mão no ombro dele.
— Sossegue, Jedite. Você agiu muito bem esse tempo todo. Aliás, como sempre.
Mamoru foi até a recepção:
— Por favor, uma jovem acidentada deu entrada agora há pouco. Pode verificar para mim.
— Pois não. Qual o nome?
— Maata Faraj.
— Um instante — a atendente digitou no computador. — Tem certeza de que veio mesmo para cá? Não há registo de alguém com esse nome.
Mamoru chamou Jedite.
— Será que ela foi conduzida a outro hospital? Tente descobrir, enquanto procuro informações por aqui.
Jedite se afastou, e Mamoru insistiu com a moça.
— Talvez o nome tenha sido escrito errado. Não poderíamos culpar ninguém por isso, não é? Nomes orientais às vezes são difíceis de escrever.
— Senhor, nós tomamos todo o cuidado com isso. Sempre copiamos, se preciso letra por letra, do próprio documento apresentado. Não há possibilidade de erro.
— Entendo. De todo modo, houve entrada de alguma garota aparentando ter cerca de vinte anos na última meia hora?
A atendente tornou a digitar no equipamento. Vermelha e sem graça, olhou para Mamoru.
— Perdoe-me, senhor. A digitadora de fato errou. Ela escreveu "Majata Farah".
— É compreensível.
A jovem fez as correcções.
— Muito bem, a srta. Faraj deu entrada na emergência com múltiplos ferimentos devidos a queda de uma escada. O médico responsável é o dr. Fanelli. Mandarei informar que o senhor está aqui, e ele virá lhe falar assim que possível. A propósito, o senhor é da família?
— Sim. Sou irmão dela.
— Muito bem. O doutor irá encontrá-lo na sala de espera. É aquela ali.
— Obrigado.
Jedite fazia companhia a Mamoru, que andava de um lado para o outro, cada vez mais impaciente. Quando o príncipe estava a ponto de sair dali e invadir cada quarto até encontrar a irmã, o dr. Fanelli abriu a porta.
— Boa tarde. Qual dos dois é o irmão da srta. Faraj?
— Eu, doutor — Mamoru estendeu-lhe a mão. — Mamoru Faraj. Como está Maata?
— Fique tranquilo. Tudo não passou de um grande susto. Pelo que me disseram, ela caiu de uma escadaria muito alta, mas sua irmã deve ser desportista, ou então sabe artes marciais, porque seus machucados foram todos superficiais. Uma pessoa comum talvez até tivesse morrido, mas ela soube evitar se ferir com gravidade.
Mamoru ficou tão aliviado que não deu importância às demais palavras do médico. Duas frases apenas se repetiam em seu cérebro: Tudo não passou de um grande susto e …seus machucados foram todos superficiais.
— Quando poderei vê-la?
— Agora mesmo. Mas eu lhe ministrei um sedativo forte, e ela só deve despertar daqui a umas oito horas.
— Sem problemas. Preciso ver com meus próprios olhos que minha irmãzinha está fora de perigo.
— Venha comigo. A enfermeira o levará até o quarto.
— Espere-me aqui, Jedite.
— Pois não, Alte…
— Não devo demorar — Mamoru o interrompeu. Seria um prato cheio para a imprensa saber que dois filhos de sheik de Nakabir estavam lá.
No corredor, o dr. Panelli chamou uma de suas assistentes:
— Brenda, por gentileza, leve o sr. Faraj para, ver a irmã.
— Pois não. Por aqui, senhor.
Viraram à esquerda ao fim do enorme corredor, e a enfermeira Petzite parou diante da porta do quarto 406.
— Esteja à vontade, sr. Faraj. Se precisar de algo, basta tocar a campainha e eu virei em seguida.
— Obrigado.
O ambiente estava em penumbra, para que a paciente pudesse dormir com mais conforto.
Mamoru se aproximou, pé ante pé, temendo despertá-la.
— Ah, minha queridinha… — sussurrou.
E, então, a expressão de pura ternura de seu semblante se alterou para a confusão e o horror. Mamoru teria chacoalhado aquela estranha em seu leito, para que acordasse e lhe dissesse onde estava sua irmã, mas conseguiu se conter a tempo. Algo de terrível devia ter acontecido com Maata, e aquela impostora era a única que poderia desvendar aquele mistério.
Teria de esperar que passasse o efeito do remédio. Contudo, não deixaria aquela mulher a sós um minuto sequer.
Foi para longe da cama e ligou para o piloto.
— Jedite, venha até o quarto 406. Agora!
— E então, srta. Baker? Pronta para assumir a responsabilidade por seus actos?
— Reporte-se apenas a mim, Yaten.
O investigador se recostou no espaldar, muito relaxado, se achando o dono da situação. Era assim que Murray gostava. Um dos maiores prazeres em seu trabalho era quebrar a crista de policiais precipitados e preguiçosos, que se compraziam em mandar qualquer um para a cadeia — inocente ou não — contanto que tivessem um caso resolvido.
— Certo, Murray. O que vai ser destá vez? Sua menina está bem encrencada.
Kunzite tirou um gravador digital da pasta.
— Vou gravar esta nossa entrevista, Yaten. Você não se importa, não é? — sem esperar resposta, ligou o aparelho. — A partir de agora, ao se referir a minha cliente, faça-o com mais respeito.
Maata achou interessantíssima aquela mudança em Murray. Antes, a impressão que ele lhe deu foi a de um velho e sonolento são bernardo que já dera tudo de si ao mundo, e agora só queria desfrutar da merecida e gorda aposentadoria. Naquele momento, porém, o que tinha diante de seus olhos era um homem renovado, muito seguro de si, disposto a mastigar o arrogante Yaten ate que sobrasse muito pouco dele.
— Não me venha com esse seu ar de superioridade, Murray. Nós dois sabemos muito bem que sua cliente é uma ladra procurada, se fazendo passar por uma artesã. As acusações sobre ela são roubo, fraude de seguro, invasão e tentativa de chantagem.
Maata abriu a boca, mas Kunzite pôs a mão no braço dela, detendo-a. Com toda a calma, tornou a abrir a pasta e apanhou alguns papéis.
— Meu bom Yaten… Os anos passam e você continua precipitado. Não tem prova alguma de que minha cliente é a srta. Usagi Baker. Sua tese se baseia em duas coisas: a denúncia de uma fonte e um vídeo em que absolutamente nada se vê do aspecto físico da pessoa filmada, excepto que é uma mulher. Aliás, corrijo-me: talvez seja um travesti. Pensou nisso? Claro que não.
Yaten mudou de postura e parou de sorrir.
— Andei fazendo seu serviço, e pesquisei a srta. Usagi Baker. Não há a menor evidência de que essa moça seja a ladra que você diz que ela é. E bem provável que sua fonte não passe de algum desafecto da jovem querendo colocá-la em apuros. O fato de a srta. Faraj estar com os documentos da srta. Baker em sua bolsa, por si só, não quer dizer nada; ela pode tê-los pego por distracção. As duas são amigas, conforme a srta. Faraj afirmou, e ela está tomando conta da loja de Usagi, que precisou sair em viagem. Em nenhum momento a srta. Faraj afirmou ser Usagi Baker, muito pelo contrário, o que põe por terra sua acusação de falsidade ideológica. Não há uma única digital, fio de cabelo, imagem ou seja lá o que for que ligue a srta. Faraj ao roubo da Joalharia Davidovitch. Diga-me, Yaten, o fato de minha cliente ser de origem árabe teve alguma influência em sua conclusão? Cuidado com a resposta, isso poderá lhe render um processo por preconceito.
Yaten não se daria por vencido assim tão fácil.
— Ela perguntou diversas vezes sobre a família do sr. Davidovitch, em especial seu filho mais novo. Para mim, isso é muito suspeito.
Kunzite se inclinou em direcção a Maata, que cochichou a seu ouvido.
— Yaten, você também já foi jovem um dia. A srta. Faraj achou muito bonito o rapazinho, e apenas quis saber a idade dele. Aliás, sabe quantos anos tem o filho do sr. Davidovitch?
Yaten não cabia em si de irritação.
— Dezesseis.
Kunzite se voltou para Maata.
— Em minha opinião, minha cara, ele é muito nova para você.
Maata fez que sim, sempre calada.
— Como vê, Yaten, não há motivo algum para minha cliente continuar aqui, muito embora sua companhia seja das mais agradáveis — Kunzite guardou o gravador e os papéis, ficou de pé e ajudou Maata a se erguer. — Até breve, meu caro. Lembranças a Deise e às crianças.
Usagi começava a despertar, mas impediu-se de abrir os olhos, pois ouviu vozes sussurrando dentro do quarto.
— Como eu disse, o senhor pode fica sossegado. Sua irmã não sofreu ferimentos graves. Bateu a cabeça com força, mas os exames não acusaram nada. Teve apenas uma leve torção no tornozelo direito. Nem um osso quebrado — o dr. Fanelli meneou a cabeça, ainda assombrado. — Porém, pode ser que venha a sofrer de enxaqueca ou até transtorno de memória por algum tempo. Nada que deva causar preocupação, mas… Sabe como e, o cérebro ainda é um território a ser explorado.
— Quando poderei levá-la para casa?
— Assim que ela acordar, tomarei a examiná-la. Se tudo estiver bem, como espero, eu lhe darei alta.
Mamoru sorriu. Em breve todo aquele enigma estaria desvendado.
O médico consultou o relógio.
— Por meus cálculos, a srta. Faraj despertará a qualquer momento. Mande me chamarem imediatamente, sim?
— Certo. E mais uma vez, obrigado.
Irmão de Maata? Será mesmo ou o miserável do marido dela resolveu mentir? Mas, nesse caso, qual será seu propósito? Usagi preferiu esperar mais um pouco.
Alguém se aproximou do leito. Pôde sentir seu aroma — por sinal, muito bom. Um perfume que a fez ver imagens de um mundo bem diferente daquele em que vivia, repleto de magia e romance.
Deixou escapar um suspiro e não teve como disfarçar mais. Então, ergueu as pálpebras, devagar.
E deparou com o homem mais sensual — e zangado — que já vira em toda a vida.
Os olhos azuis de Mamoru chispavam.
— Está enxergando direito? Uma enfermeira tirou suas lentes de contacto. Estão ali, no criado-mudo.
— Quem é você?
— Sou eu quem faz as perguntas, mocinha. Por que foi morar na casa de minha irmã, usa os documentos e as roupas dela e até mesmo coloca lentes de contacto escuras, para disfarçar seus olhos claros? Seja rápida e convincente, ou eu chamarei as autoridades, e daqui você irá directo para a cadeia!
Usagi se fingiu de assustada e levou a mão à testa, tocando a bandagem.
— O que diz? Não estou entendendo nada. Onde estou? Como vim parar aqui? — e uma lágrima rolou por sua face.
Mamoru não contava com aquilo.
— Tudo bem, eu posso esperar mais um pouco — foi até o corredor e pediu à atendente: — Por favor, avise ao dr. Fanelli que minha irmã despertou.
E retomou ao quarto.
Usagi chorava, baixinho. O dr. Fanelli se condoeu ao vê-la assim.
— Sente alguma dor? — perguntou a Usagi.
— Não. Mas não faço a menor ideia de como vim parar aqui.
— Sabe seu nome?
Ela o encarou e chorou mais ainda.
— Não!
O médico apanhou uma lanterninha especial e analisou as pupilas dela.
— Meu Deus, isso é horrível, doutor! Como uma pessoa pode estar numa situação dessas? — Usagi agarrou a manga do avental dele. — Fui apagada de minha própria memória! É desesperador…
— Acalme-se. Você sofreu um acidente e bateu a cabeça. Se repousar bastante e se esforçar por se manter num ambiente tranquilo, em breve suas lembranças voltarão.
— Tem certeza?
— Claro. Já vi inúmeros casos como o seu, e todos chegaram a bom termo.
— Mas até lá, o que faço?
— Seu irmão está aqui. Ele cuidará de você.
— Quem pode garantir que é meu irmão? Não o reconheço.
Mamoru teve vontade de gritar com aquela farsante. Mas só ela sabia o que fora feito de Maata, por isso, tinha de ser cauteloso.
— Peça a ele que saia, doutor. Quero lhe falar a sós.
Mamoru não esperou que o dr. Fanelli lhe fizesse o pedido. Aproveitou o momento para ir beber um copo d' água e tentar apaziguar os nervos.
— Pois não, senhorita.
— Doutor, não faço a menor ideia de quem sou, nem posso garantir que esse homem seja meu irmão.
— Ele é. Os documentos que nos apresentou comprovam isso.
— Sério?
— Sim. Eu mesmo os vi.
— Qual o nome dele?
— Mamoru Faraj. É seu irmão mais velho.
Então Maata mentiu. Mamoru não é seu marido, mas seu irmão. Mas com que finalidade? Que danadinha…
— De todo modo, não me lembro, doutor. Se eu for embora com ele, talvez venha a me expor ao perigo.
— Compreendo sua aflição. Pedirei ao sr. Faraj que assine um termo, responsabilizando-se por sua integridade física enquanto você não tiver se restabelecido por completo. O que me diz?
— Óptimo. Assim ficarei mais tranquila.
— Muito bem. Agora, vamos fazer mais alguns exames. Se tudo estiver em ordem, após o almoço vou lhe dar alta.
— Não quer ir à lanchonete para comer algo? Não está com fome? — Usagi perguntou a Mamoru, entre uma garfada e outra de seu almoço.
— Eu irei assim que Jedite voltar para lhe fazer companhia.
— Não é preciso. O dr. Fanelli ainda não me deu alta.
— Sei disso. Mas de modo algum deixarei minha adorada irmãzinha a sós.
Usagi sorriu com candura.
— Começo a acreditar mesmo que é meu irmão. Você é um amor, sabia?
— Nem imagina o quanto, minha cara.
Usagi terminou sua refeição e pôs de lado a mesa móvel.
— O que aconteceu comigo?
— Você despencou de uma escada.
— Por que eu estava em cima de uma escada?
— Foi na rua. Você ia descer correndo por uma dessas escadarias antigas, que ligam vielas a avenidas, e pisou em falso em algum degrau.
— Devia estar indo pegar o autocarro.
— Ou talvez fugisse de alguém.
— Ora! De quem?
— Não sei. Diga você.
Usagi o fitou com inocência.
— Por que está zangado comigo, Mamoru? Eu poderia ter morrido, e você fica aí, me olhando com raiva. O que fiz?
Ou ela de fato perdera a memória ou era uma actriz digna de um Óscar.
— Desculpe-me. É que o susto foi grande.
Usagi tomou a sorrir.
— Eu entendo. Ah, não vejo a hora de irmos embora. Detesto hospitais.
Uma hora e meia depois, Usagi Baker recebia alta. Ela se arrumou, guardou as lentes de contacto no bolso e aceitou a ajuda de um caladíssimo Jedite, que a colocou com todo o cuidado no banco de trás do Land Rover blindado.
Quando eles entraram na garagem de um dos hotéis mais caros da cidade, ocorreu a Usagi que das duas, uma: ou aquela era a chance de ouro que brilha a cada milénio para uma alma escolhida ao acaso pela divindade; ou sua tão propalada sorte se cansara dela de vez e a atirara na toca dos leões, e então não sobraria nem um ossinho para contar a história.
Não, não podia ser a segunda opção. Àquela altura, Maata já devia ter se encrencado. Porém, ela era Usagi Baker, aquela que não deixa rastros. Assim, como sempre, previra todos os passos, e colocara um anjo da guarda dos bons para tirar Maata da enrascada. Por isso, os deuses não a deixariam na mão.
Com essa certeza em mente, Usagi relaxou. O que quer que a aguardasse, haveria de ser muito bom.
— Desça — Mamoru ordenou a Usagi, assim que Jedite terminou de estacionar na vaga.
Ela abriu a porta e saiu mancando.
A contragosto, Jedite deu-lhe o braço, para que Usagi se apoiasse, e foram todos para o elevador privativo. Subiram até o trigésimo segundo andar, e Mamoru foi o primeiro a descer. Caminhou a passos largos pelo extenso corredor e destrancou um aposento.
— Coloque-a na cama — o príncipe disse a Jedite.
O piloto o obedeceu, e em seguida Mamoru mandou que se retirasse.
— Só volte a estes aposentos quando eu ordenar, Jedite. Sob nenhuma outra circunstância.
— Sim, Alteza — Jedite fez uma breve reverência e se foi.
Usagi não conteve o riso.
— É assim que seus empregados o tratam? Você deve ser mesmo muito mandão, irmãozinho.
Mamoru trancou a porta do quarto. Não havia motivo para verificar as janelas. Daquela altura, seria impossível que sua "irmã" tentasse escapar.
Ele puxou uma poltrona para bem perto do leito e disparou:
— Pois bem. Comece me dizendo onde está Maata — ergueu a mão ao ver que ela ia contestar. — Quase caí no conto da amnésia. Mas então eu me lembrei de um pormenor que a qualquer outro menos detalhista que eu teria escapado. Pouco antes de o médico nos deixar a sós, no quarto do hospital, após ter comentado que você poderia vir a ter falha de memória, eu a vi mover a cabeça e quase abrir os olhos. Foi um segundo apenas, mas eu percebi. Então, não vamos perder mais tempo. Diga onde está Maata e talvez eu não mande prendê-la.
Usagi era uma mulher cuja personalidade fora forjada por força das circunstâncias e das necessidades. Sim, ela optou por um caminho mais fácil, mas no fundo jamais causou prejuízo real a alguém. Conheceu gente de todo tipo, relacionou-se com pessoas ricas e malandros do mais baixo extracto. Por isso, embora tivesse apenas vinte e dois anos, era mais madura do que muitas mulheres de cinquenta.
Entretanto, nem mesmo toda essa bagagem, vivência e esperteza foram suficientes para evitar que seu coração disparasse e seu sangue corresse mais forte nas veias ao ouvir aquele homem maravilhoso ali, diante dela, desmascarando-a sem titubear.
Mamoru não se permitiu enganar. Até que enfim encontrara um adversário à altura!
— Ficar me olhando fixo não vai me hipnotizar, senhorita. Você não faz a menor ideia de com quem está lidando. Sou capaz de qualquer coisa para ter minha irmã de volta. E devo avisá-la de que minha paciência está chegando ao fim.
Era um esforço considerável para Mamoru não deixar transparecer a confusão de sentimentos que lhe ia no íntimo. O medo pelo que poderia ter acontecido a sua irmã causava acidez em seu estômago. A raiva por estar diante de uma impostora — que poderia muito bem ter sequestrado Maata — era imensa. Mas toda a feminilidade daquela linda desconhecida de olhos claros o estava sufocando.
Por isso, foi abrir a janela.
— Com calor? — Usagi indagou, insinuante.
— Nada disso. Não quero ter de pagar por um vidro arrebentado se eu tiver de atirá-la lá para baixo.
Por incrível que aparecesse, Usagi não sentiu temor algum de que aquela ameaça viesse a se concretizar. Embora Maata tivesse dito que Mamoru era violento, tinha certeza de que estava diante de um homem gentil. Rigoroso, mas gentil.
— Não acha que seria um grande desperdício?
Ele tomou a se sentar.
— Onde está minha irmã?
— Eu lhe direi.
— Óptimo.
— Depois que não tiver mais dúvida de que você não lhe fará mal.
Mamoru se inclinou para a frente, com as pupilas brilhando.
— Como é que é?
— Maata decidiu fugir de você. Algum bom motivo para isso deve haver. Ela me pediu ajuda para mantê-lo longe, e é isso o que vou fazer. A menos que me dê um excelente motivo para eu quebrar minha palavra.
Mamoru ficou confuso. Por que Maata estaria fugindo especificamente dele? Como sua irmã poderia saber que viajara em seu encalço?
— Maata citou meu nome? Ela disse que fugia de mim?
— Sim. No entanto, me falou que você era marido dela; não irmão. Não sei por quê. Talvez tenha achado que surtiria mais efeito, ou tenha algum outro segredo. De todo modo, nós duas fizemos um trato. Eu o mantinha longe dela, e ela me prestava outro favor.
— Qual?
— Isso não é de sua conta.
Mamoru saiu de onde estava e se sentou na beirada da cama, segurando com força o pulso de Usagi, que, mesmo sentindo dor naquele contacto, desejou muito poder beijá-lo.
O que está acontecendo comigo?
— Não vou tolerar suas brincadeiras, moça. Você dirá tudo o que quero saber, ou irá se arrepender.
— Mesmo? O que será? Permitirá que eu me alimente apenas de pão e água? Ou pretende me torturar com óleo fervente até que eu fale?
— Não me dê ideias.
Ela humedeceu os lábios, mirando a boca de Mamoru.
— Se meu tornozelo não estivesse doendo tanto, eu lhe daria um chute num lugar muito delicado, só para lhe mostrar o que acontece quando um homem arrogante tenta falar grosso comigo.
Para espanto de Usagi, Mamoru esboçou um sorriso largo.
— Em meu país você poderia ser mandada para a forca por isso.
— Que bom que não estamos lá.
— Também acho. Um pescoço tão lindo deve ter apenas marcas de beijos.
Sem dar tempo a Usagi para alguma reacção, e sem soltar-lhe o pulso, Mamou enfiou os dedos da outra mão entre os cabelos dela e puxou sua cabeça, com firmeza, mas sem machucá-la e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha.
Usagi não conteve um leve gemido, e suas pernas amoleceram.
— Vê? E assim que costumo tratar meninas malcriadas. Quando menos esperar, você dirá tudo o que quero saber e mais um pouco.
— Este é o momento em que eu devia me indignar e mandar que você se afastasse de mim? — e Usagi aproveitou a proximidade para dar-lhe um beijo repleto de promessas. — Não me subestime. Você também não sabe do que sou capaz.
Mamoru ficou de pé. Tinha de reassumir o controle da situação.
— Descanse. Mais tarde mandarei que lhe sirvam uma boa refeição. Em seguida, nós teremos uma longa conversa, e desta vez não sairei daqui sem respostas.
— Não vejo a hora!
Ao sair dos aposentos, Mamoru ainda pôde ouvir a gargalhada debochada de Usagi.
