Capítulo II
Meu corpo doía demais e quase não conseguia respirar por causa das lágrimas, mas alguma coisa em mim pareceu gritar quando vi que ele começava se vestir pra sair.
"Cadê do dinheiro?" – perguntei num tom baixo e rancoroso recebendo uma risada irônica por resposta, enquanto ele só colocava a camisa e a gravata com calma.
"Pelo quê? Você que devia me pagar." – ele respondeu com ar de nojo. – "Miserável e medíocre... Uma boneca inflável é mais participativa que você. Pagar, pagar, pagar... Puto. Pago merda nenhuma."
Senti um ódio incontrolável crescer dentro de mim ao ouvi-lo. O que ele pensava que era? Me bateu, humilhou, assustou, forçou, fodeu e arregaçou, certo? O mínimo que poderia fazer era pagar e ainda se recusava?
Foi como se algo explodisse dentro de mim. Simplesmente quebrei o vasinho decorativo do quarto na cabeça dele, berrando como um louco algo que eu mesmo não entendia enquanto me precipitava para cima dele, agarrando aquele fio de pano pendurado em seu pescoço. Estava completamente fora de mim quando tentei sufocá-lo, apertando aquele tecido caro contra seu pescoço, mas meu corpo doía demais para conseguir puxar o bastante e quando senti que ele iria conseguir se soltar e me bater mais, apanhei uma das roupas do chão e fugi apenas com o contentamento de saber que aquela garganta ficaria marcada.
Já era para lá de madrugada quando cheguei naquela esquina onde costumava fazer ponto e era lá que Milo me esperava, ansioso e assustado, e quando viu o estado que eu estava, correu na minha direção, a tempo de me amparar antes que eu caísse, exausto e machucado.
Senti as lágrimas verterem de meus olhos quando me senti acolhido em seu peito e contei, em meio a soluços débeis, tudo o que acontecera num rancor terrível. Mas não podia evitar, sentia-me inútil, fraco, burro. Aquele cara poderia ter me matado e Milo jamais saberia o que aconteceu. Mas enquanto eu chorava, ele só me consolava, dizendo que estava tudo bem. Que ele estava ali.
Logo ele foi atrás de curativos, e quando voltou com alguns remédios para dor também, eu já sabia que ele tinha afanado da entrada da farmácia, daquela forma discreta e certeira que ele tinha. Senti-me mal por isso. Eu sabia que ele não gostava de roubar.
Lembro também de uma velhinha, passando apressada, parando um momento e nos olhando com dó - provavelmente pensando, como todos, que éramos irmãos, ou me confundindo com uma menina.
Milo não pensou um instante antes de ir para cima dela em um desespero que eu sabia não ser típico dele e implorou para a senhora qualquer bandagem que ela pudesse arrumar. O que ela fez, bondosa e comovida.
Fomos então para dentro daquela construção condenada e lá ele logo começou a desinfetar umas mordidas mais profundas nas minhas costas com um resto de cachaça que sobrara do ultimo presente que recebemos.
Aquilo ardia como a peste, mas impedi-me de gritar, como castigo pela burrice.
"Desculpa mano... Desculpa mesmo... Desculpa..." – murmurava repetidamente enquanto ele limpava os machucados e cobria com as bandagens da velha.
"Shiiiii..." – fez ele em ar condescendente, parando por um momento para beijar minha testa. – "Fica quieto que deve tar doendo."
"... Transa comigo?"
"Tu tá louco Di? Deve é tar todo arregaçado aí!" – ele reclamou enquanto se afastava, mas segurei seu braço fracamente, sentindo o nó que se formava em minha garganta me sufocar.
"Por favor..." – murmurei num fio de voz, que logo se partiu. – "Me sinto sozinho..."
É engraçado pensar em como me lembro de cada detalhe daquela noite. O medo que sentia, a temperatura, a dor, os sons, o carinho, os toques... Tudo.
Ele mordeu os lábios com vontade e me abraçou. – "Sacanagem, viu? Como posso nega fogo pra um moleque cheiroso?" – ele respondeu numa risada meio sem-graça, enquanto tirava a camiseta surrada. – "Viu? Também to cheirozinho. O viado lá deu banhinho e tudo..." – suspirou superficialmente e sorriu aquele sorrisinho torto que já conhecia tão bem, antes de continuar. – "Mas vai te que dá conta, já que vai me comer."
"Vou?" – perguntei em ar de deboche, mas logo parei. Sorrir doía por cauda dos socos que aquele filho-da-puta tinha dado.
"Vai dispensa comer meu rabinho cheirosinho de sabão?" – ele riu, já engatinhando na minha direção.
Não me dei ao trabalho de responder, só fui em direção a ele e beijei sua boca pela primeira vez nos seis anos de rua juntos. Algo ali doía nos meus lábios, mas não hesitei em continuar.
Sua boca cheirava a pasta e cigarro e sua língua malandra não se contentou em serpentear junto a minha, disputava o espaço livre entre nossas bocas e depois me atraía para a sua boca, onde chupava minha língua, me excitando.
Mas quando quebramos o contato provocativo, vi em seus olhos a expressão mais afetuosa. E ele fez aquilo de novo, beijou minha testa como minha mãe costumava fazer e sorriu outra vez. Os dentes limpos brilhavam bastante e isso deixou ele ainda mais bonito.
Então a dor que sentia na boca fez sentido. Meus lábios estavam partidos.
Pensei então nas marcas roxas junto aos cortes dos dentes do carinha do motel. Nos socos... Meu rosto tava inchado? Não tinha como saber...
"Cê tá com aquela cara." – ele sorriu e me olhou de um jeito bobo, acariciando o que restara dos meus cabelos.
"Que cara?" – perguntei, tentando erguer a sobrancelha, mas isso também doía.
"Cara de coitado." – riu alto dessa vez, ainda mexendo nos meus cabelos. – "Foi o merda lá que fez isso?"
Balancei positivamente a cabeça. Entre todas as cenas de pânico que aquele cara me fez passar, essa era a mais assustadora e revoltante para mim.
"Que que ele fez?" – perguntei um tanto raivoso, pensando então nos longos cabelos que tinha quando me vi no espelho do banheiro do motel.
"Até que nada... O frutinha lá tinha jeito pra ser cortador de cabelo..."
Olhei para a cara dele, com certeza descrente do que ele dizia, mas ele deu outro sorriso torto e sussurrou naquele tom vulgar que a gente usava pra atrair cliente. – "Tá até parecido com o moleque que encontrei por aí há uns anos... Um moleque gostoso pra porra e com cainha de mina..." – senti-o emaranhar seus dedos no que restara dos meus cabelos quando disse isso, se oferecendo. – "Com carinha de anjo..."
Não esperei ele se aproximar mais, só fui na direção dele, sentando em seu colo como costumávamos fazer, arrancando um gemido abafado dele. Ele sempre se excitava muito rápido.
"Hey! Sô eu que dou hoje, lembra?" – ele murmurou um tanto corado. Talvez estivesse envergonhado, não sei.
"... Eu sei que você prefere comer." – respondi simplesmente, ondulando meu corpo por cima dele. Não vou negar, doía. Mas a expressão incontida naquele rosto bonito parecia fazer valer a dor.
"É..." – ele ofegou. – "Mas é porque esses daí num comem direito. Te ensinei direitinho, aposto que vai bem..."
Deve estar se perguntando o que estava acontecendo... Bem, entre Milo e eu existia um tipo de hierarquia não-oficial onde ele era o macho e eu simplesmente ia. Ativo e passivo, sabe? Ele nunca falou isso e eu nunca questionei, mas sei que aquilo foi uma mudança.
Ele não gostava de dar porque cliente nunca come direito, só quer saber do próprio gozo. Já eu, sempre tive ele pra me mostrar o que vinha depois da dor. Então nunca questionei. Gostava de dar pra ele. Não doía muito e ele sempre achava algo lá dentro que me enlouquecia.
Mas ele devia imaginar que estava todo machucado e com certeza pensou naquilo pra decidir simplesmente que ia.
"Sei não..." – gemi baixinho, só para provocar. – "Mas dá pra tentar se quiser." – sim, tudo doía, mas era bom demais, depois de todo aquele terror, ouvir aquela voz arfante e vê-lo me olhar daquele jeito safado. Era nossa brincadeira, desde os dez até os dezesseis, era assim que a gente se divertia.
"Ah, eu quero..." – senti o ar sumir dos meus pulmões quando ele meteu a mão com gosto entre as minhas pernas, segurando meu sexo teso entre os dedos hábeis. – "Quero todo esse cacete dentro de mim... Vai logo Di, me come..."
Olhei-o intensamente, ao que ele apenas corou e riu mais um pouco, abaixando então suas calças e invertendo as posições.
Senti minha ereção roçar na entrada apertada (pois devido à fuga apressada, eu mesmo me encontrava sem) e ver ele se oferecer daquele jeito me deixou alucinado.
Passei a mão desejoso pelo seu sexo, o que pareceu derretê-lo também, porque ele simplesmente colocou-se em mim, fazendo-me invadir sua entrada um pouco rápido demais, em meio a gritos roucos e gemidos. A sensação foi tão intensa que por um momento pensei ter morrido, com meu sexo todo esmagado naquele corpo estreito.
"Por que dessa vez... a dor tá parecendo tão boa...?" – ele perguntou num suspiro languido, já se mexendo então sobre mim, apressado como era.
"Tu é apertado..." – tentei dizer, mas acabou sendo uma sucessão de suspiros quando o senti rebolar com mais gosto.
"... Sô mesmo." – concordou em um gemido baixo. – "Faz... parte do pacote. Gostoso, apertado e de pau grande." – ele provocava descaradamente e a gente ralava e rolava.
Adorei a sensação de posse. O poder que ficar por cima dava. E os gemidos altos dele me enlouqueciam enquanto ele gemia indecências e espalmava as mãos em meus cabelos.
Obviamente eu não tinha certeza do que fazia, afinal toda minha experiência se resumia ao ato passivo, mas até que me saí bem, tentando vagamente lembrar de como ele fazia e me baseando naquilo...
Sim, existem pessoas que realmente acreditam que é mero instinto. Que seu corpo se move sozinho e pronto. Não é assim.
É como beijar, não adianta saber simplesmente que se tem que enfiar a língua dentro da boca do outro se não souber tirar proveito de como faz isso.
Lembro bem, ele gemia aquele apelido que por tanto tempo foi meu nome, ou o gritava, quando eu o estocava fundo. E para mim tudo parecia intenso demais. Era uma primeira vez de novo, tudo igual e tudo diferente com estava. Claro... Os goles desconsolados de bebida em meio à história ou mesmo os remédios que tomara inadvertidamente assim que ele os trouxe ajudavam muito, por si só, na profundidade e complexidade da cena. Eles e os instintos sexuais, que sempre foram bem aguçados em nós.
E logo tudo terminou e recomeçou. Milo não me deixou sair de dentro dele, queria me sentir crescer dentro dele e voltou a rebolar e se contrair sobre mim, descarado e oferecido como o puto que era. Como o ser sensual e irresistível que é. E tudo o que eu podia fazer era cravar minhas unhas na pele bronzeada. Arranhando a carne sem dó. Ele gostava disso.
"Gostoso..." – ele murmurou com a voz carregada de desejo, enquanto espalmava a mão sobre meu quadril, na parte onde não estava roxa. – "Eu falei que dava conta... Dava sempre se soubesse que comia tão bem Di..." – e riu debochadamente das próprias palavras, mas eu sabia que falava sério.
"Te comia sempre se soubesse que é tão apertadinho..." – respondi em meio a um sorrisinho safado, dando um pouco de atenção àquele pescoço liso e bonito.
"É pra se pensar..." – ele concordou num suspiro languido, enquanto jogava a cabeça para trás, facilitando meu acesso à pele morena. – "Jornada dupla."
Sorri outra vez ao ouvi-lo. Apenas sorri e beijei suas costas suavemente, recebendo outro suspiro, este mais fundo, em resposta.
Ele me parecia lindo ali. De todas as formas. E o carinho que senti por ele pareceu sufocante ali, quase demais para se agüentar.
Tornei a beijar suas costas, assustado com aquela sensação de apreensão que sentia. Seria uma premonição de algo ruim? Ou eu poderia estar me apaixonando pelo meu único amigo sem saber? Mas aquilo era complexo demais para uma mente entorpecida, como estava a minha naquele momento.
"Obrigado..." – ouvi-me murmurar então, baixo e incerto e definitivamente emocionado.
"Pelo que Di?" – ele perguntou em meio a outro suspiro quando o beijei repetidas vezes e virou seu rosto bonito para mim.
"...Tudo..." – respondi simplesmente sentindo como seria difícil por em palavras aquele "tudo". Que era grato pelo pão de seis anos atrás, por ele ter me acolhido e me dado tudo o que eu tinha, mesmo que esse "tudo" não fosse grande coisa. Pois seria um milhão de vezes pior sem ele ali.
"Tu é irmão." – sua voz soou séria, ainda que trêmula de desejo e ele tentou olhar nos meus olhos. – "É tudo o que eu tenho."
"E eu tenho tudo... Até nome." – forcei minha voz a sair pelo nó que se formava na minha garganta, pois bem que sentia uma vontade enorme de chorar que jamais externaria ali, com ele sobre meu sexo teso. Por isso para desviar sua atenção do brilho absurdo dos meus olhos, tornei a afagá-lo, fazendo-o se contrair sobre mim e causando um gemido estrangulado.
Fizemos isso durante horas e quando a surra, os remédios, a bebida se juntaram ao torpor pós-sexo, tudo o que pude fazer foi dormir como uma pedra nos braços dele.
Mas quando acordei, foi aos trancos, sendo puxado grosseiramente por dois guardas que berravam pra eu não me mexer, que tava preso. Na hora não entendi nada, mas senti que tinha a ver com o episódio do motel e só berrei para Milo, queria ajuda, precisava de ajuda.
Mas um terceiro guardinha já tava em cima dele, torcendo seu braço enquanto ele praguejava e berrava pra eu fugir.
Não pensei que realmente aquela sensação ruim era um pressentimento. Eu havia dado adeus ao Milo na noite anterior sem sequer saber.
Tentei fugir e me debati o máximo que pude, mas ainda assim fui levado e jogado em uma cela num lugar estranho - que era a cela da própria delegacia, soube depois -, sendo tratado também como criminoso e maior de idade. O que eu não era.
Foram estúpidos ao me explicar mais ou menos o porquê de eu estar ali, depois de eu ficar ao menos uma hora inteira berrando como um animal, implorando explicações.
Odiei aquele lugar. Odiei a cela vazia na qual me colocaram, ao lado de outra, repleta de bêbados e arruaceiros miseráveis que ficavam berrando por mim coisas que hoje sei que são obscenas e de mau-gosto, mas as quais eu ouvia muito. Coisas como: "Vêm delícinha que te ponho pra mamar gostoso", ou outros chamamentos pouco atrativos, de qualquer forma.
Mas, em meio àquilo tudo, fiz uma espécie de amizade com um dos guardas. Um que costumava ficar nos turnos noturnos na delegacia. Um guarda grandalhão e um tanto assustador, logo assim de cara, o Aldebaran.
Ele costumava ficar de vigia perto das celas, olhando os detidos. Turnava com um outro guardinha lá e sempre mandava os detidos que apareciam diariamente lá e varavam a noite para serem soltos na manhã seguinte calarem a boca.
Sei que me ouvia chorar toda noite, praguejando contra a injustiça de tudo e da saudade que sentia dar ruas. Do Milo.
Uma noite, talvez três ou quatro dias depois de minha permanência ali, ele me chamou discretamente com um "psiu" baixo e, quando me aproximei das grades da cela, ele me estendeu um doce açucarado.
"Soube por alto o porquê de você estar aqui, franguinho." – ele falou baixo e rápido, para que ninguém mais o entendesse. – "Está sendo acusado de ter tentado matar um empresário famoso, por isso está aqui, mesmo sem provas. Não deu sorte filho."
"Hum..." – murmurei amargurado. – "Ele bem que merecia morrer... Aquele filho-da-puta quis programa e depois não quis pagar. Bateu em mim, mordeu, forçou, marcou, meteu a tesoura no meu cabelo, e eu que vô preso? Merecia mesmo..."
O grandalhão guardou silencio por um tempo e depois falou, meio surpreso:
"O que você tá dizendo é grave baixinho. E estupro e agressão. Quantos anos você tem?"
"... 16" – respondi.
"Filho, você não pode fazer isso! Vender seu corpo assim... Esses caras que te procuram os serviços estão cometendo um crime. Isso é pedofilia!"
"Cê fala muito tio. E num entendo metade. Por que não posso faze programa se ganho grana?"
Ironicamente, não me lembro de muito daquela noite, apenas sei que ele me deu praticamente uma aula de direito. E o mais engraçado foi ver que ele estava sendo bom pra mim a troco de nada.
Ele me fez companhia na maior parte das noites naquele lugar. Obviamente não fazia mais idéia de quantos dias se passaram e quando finalmente fui liberto, descobri que ficara muito mais tempo que o necessário.
Corri para as ruas livre e fui até a esquina onde Milo fazia ponto.
Mas ele não estava lá.
Fiquei em pânico ao não encontrá-lo e o mais assustador, foi que os homens que eu vira na saída da delegacia me seguiram apressados e me abordaram com um monte de perguntas. Me chamavam de "garoto do motel".
Eles queriam saber o que houve e ao que pude entender na hora, eu tinha fodido com a imagem do empresário.
Não fugi, mas estava positivamente assustado com tudo aquilo. Como sabiam quem eu era?
Tentei responder às perguntas que me faziam, mas eram tantas e tão confusas! E quando pensei que não agüentava mais, um outro cara apareceu e disse que me levaria para um lugar seguro.
Óbvio que tive minhas dúvidas, mesmo que o cara fosse muito bonito, e aparentemente bonzinho.
"Por que eu iria com você?" – perguntei desconfiadamente, mas o cara apenas riu e alisou os cabelos loiros e compridos.
"Fui mandado aqui, filho... Querem que eu cuide bem de você." – ele parecia se divertir com o meu receio e apoiou a mão grande no meu ombro em ar confiável.
