"'Querem'?" – repeti. –"'Querem' quem?" – franzi o cenho, surpreso por ter alguém por trás daquilo.
"Oras, alguém está disposto a tirá-lo da rua menino. Parece que conseguiu um benfeitor..." – o homem sorriu mais docemente. Certamente me achou uma gracinha e ele próprio era bem interessante, por assim dizer. – "Sou Saga, garoto. E por hoje serei seu acompanhante e instrutor. Têm uma reserva o esperando no Athena's palace, quarto presidencial. Permita-me levá-lo."
"Uhm..." – concordei então, tudo o que eu poderia fazer era fugir, caso fosse mesmo outra enrascada. –"Prazer moço. Iria achar legal dizer nome, mas só me chamam de Di."
Ele me olhou por um momento e então, em meio a um sorrisinho ladino ele me disse:
"Sabe, estão te chamando de 'pequeno Afrodite', à boca pequena. E ao fim das contas combina com você, com esse rosto de anjo caído."
"Afrodite?" – perguntei confuso. Já tinha ouvido esse nome antes... Era algo de mitologia grega, à qual meu pai adorava, mas não podia me lembrar do que era.
"A Deusa do Amor de da Beleza." – ele ergueu as sobrancelhas em ar apreciativo. – "Tem à ver com você. Afrodite..."
"Estranho ser comparado com mulher. Mesmo essa sendo Deusa. Deusa grega, né? Meus pais gostavam de mitologia grega, mas só lembro disso." – comentei à meia-voz, sem perceber que com a forma perfeita do homem falar, eu mesmo me esforçava para tentar falar bonito, mesmo que só um pouco. Sempre aprendi rápido.
Fomos então ao hotel. Um bel o exemplo de edifício, do tipo que eu passava o mais longe possível por conta dês seguranças pouco amigáveis que sempre agiam como se eu fosse roubar algo.
E a parte mais estranha é que fui bem-recebido, provavelmente por conta da figura bonita, loura, limpa e de terno que me acompanhava.
E quando subi, haviam rosas vermelhas e brancas em grandes buques e roupas novas para mim e Saga me disse que estava lá para o que eu precisasse.
"Que tal um banho de banheira? Creio que será revigorante depois de todo o episódio da delegacia." – ele perguntou solícito, ao que tive de pedir para que preparasse a banheira por mim.
"Não sei mexer direito nesses troços..." – justifiquei.
Mas ele riu e me levou ao banheiro, me ensinando então a preparar o banho de banheira e quando tirei os trapos que usava e entrei na banheira, um tanto receoso, ele educadamente virou o rosto na direção oposta à minha, um tanto corado.
Foi aí que eu entendi que, diferentemente de Aldebaran, ele me desejava. Se envergonhava disso, mas desejava.
"Não quer entrar?" – perguntei, apoiando-me à borda da grande banheira logo que finalmente relaxei na água morna e cheirosa.
"Hum?" – percebi que ele se sobressaltara, mas no fim gostei de vê-lo desconcertado.
"Sei o que precisa e o que quer e preciso de alguém pra lavar minhas costas." – comentei em meio a um sorrisinho malandro.
"Péssima idéia garoto..." – ele respondeu rapidamente, meneando a cabeça veementemente. Eu o tinha assustado. – "Tome banho com calma e cuidado que eu estarei lá fora caso precise, sim?"
Suspirei conformadamente, vendo-o sair em direção ao quarto. Mas aquele lugar enorme e suntuoso me assustava, não queria ficar sozinho.
Fiz o que ele disse e me lavei com um cuidado e vaidade que não me era usual na época, corpo cabelos, dentes... Tudo escovado, limpo e brilhante da maneira mais satisfatória possível. E então fui para o quarto completamente nu, tendo tido apenas o cuidado de secar corpo e cabelos com a toalha.
Acho que dizer que ele se surpreendeu é até repetitivo, não?
Ele levantou depressa da cadeira próxima à sacada onde estava e me fitou exasperado. O que o deixou ainda mais interessante ao meu ver.
"O que pensa que está fazendo garoto?" – murmurou então, espantado.
"Eu não quero ficar sozinho..." – murmurei então, percebendo que era eu que corava agora. – "Por favor? Fica comigo essa noite... Eu sei que você quer, vi isso no teu olho! Saga... posso te chamar de Saga, né? Eu..." – comecei a pensar se fazia algum sentido à ele e me desesperei com s perspectiva de ficar sozinho de novo. – "Eu não quero... Ficar sozinho..."
E quando percebi, em meio a meu discurso sem nexo, eu me aproximava dele, ignorante à forma profundamente sensual que meu corpo tomava quando eu andava. Só tive esse conhecimento muito tempo depois.
Eu era apenas um garoto de rua esmolando atenção. E a única atenção que conhecia era o sexo.
Vi-o suspirar ansiosamente, seus lábios tremiam levemente de desejo – "Vai me levar ao inferno assim pequeno... pequeno Afrodite. Me seduzindo com uma ingenuidade infantil para algo que não deve acontecer."
"Se acontecer... Vai trair alguém?" –perguntei incerto e curioso, nunca tinha visto alguém ter uma crise de consciência por conta de parceiros antes.
"... Quem me dera." – ele sorriu fracamente, provavelmente achando graça da pergunta. – "Certo pequeno Afrodite... Estou aqui para servi-lo, de qualquer forma..." – cedeu então, num suspiro conformado. Um homem de fibra ele, negando até não poder mais algo que desejava.
Não lhe dei chance de voltar atrás em sua resposta e beijei-o, como apenas tinha feito com Milo até então. Sua boca era instigante, máscula como a do Milo e tinha um gosto gostoso e refrescante de pasta.
Adorei aquele gosto, a paixão máscula que sentia em seus lábios e língua, que facilmente tomavam vida junto aos braços fortes e me dominavam docemente. Incitava ele a fazê-lo, sem sequer tentar questionar seu domínio charmoso, viril e instigante.
E a medida que mãos e pele se faziam mais e mais necessários, ele distribuía beijos e lambidas excitantes por cada novo centímetro livre de pele enquanto ouvia-o suspirar aquele novo apelido que veio a se tornar meu novo nome, até descobrir o meu verdadeiro: Afrodite, Afrodite, Afrodite.
Transar com ele era algo único. Como uma dança secreta e delicada que toma velocidade e força em seus novos movimentos sensuais. Cada minuto mais firme e delicada. Era diferente de Milo, mas era muito bom. Ele queria meu prazer e mesmo que não conhecesse cada ponto fraco meu , como meu amigo conhecia, era gentil carinhoso e aquilo era positivamente maravilhoso. Diferente da afobação natural de Milo. Completamente diferente de qualquer cliente, sempre preocupado com o próprio gozo.
Tivemos a sorte de te camisinhas à vontade na gaveta da mesa de cabeceira e as usamos quase todas, tal nosso entusiasmo um com o outro. E depois, quando estávamos cansados e satisfeitos, ficamos sobre a cama deitados, eu sobre ele, conversando sobre bobagens.
Acabei descobrindo que aquele "quem me dera" se devia ao fato dele ser apaixonado pelo melhor amigo, que além de sequer fazer idéia disso ainda era monopolizado por uma garotinha horrivelmente mimada a quem dava aulas particulares de clarinete.
"Aiolos é sempre bonzinho demais com ela. Tem dó por ter sido criada apenas pelo avô, que é dono de uma rede de hotéis, incluindo esse. Diz que o velho é muito empenhado no serviço e que isso a torna carente, mas ele não é nada dela e ela o trata como objeto." – ele disse em meio a uma careta de desagrado a certa altura.
"Por que nunca falou pra ele? Como se sente?" – perguntei então, pensando no que esse tal de Aiolos estava perdendo, mas Saga apenas sorriu, pousando a mão na minha com a graça e o carinho de um irmão mais velho
"Ele é sempre tão distraído... Já tentei demonstrar como me sinto, mas apesar e eu saber bem que todo mundo já sacou, ele continua alheio. E agora com uma platéia tão grande e presente, não tenho coragem de dizer. Ainda mais porque sei que ele tem conhecimento do fato de eu viver por aí com outros. Troco de companhia constantemente... Ele até brinca, dizendo que se fizesse metade do sucesso que eu faço estaria muito bem, mas se ele tivesse noção de metade das pessoas que gostam dele entraria em pânico. Sei que ele detesta fazer pessoas sofrerem e por isso se aliena e que coragem eu poderia ter de dizer exatamente isso a ele? Ainda mais após tanto tempo?... Sinceramente, pensar em dizer-lhe 'eu te amo', não é algo que me atrai."
"Soa submisso, não? Humilhante para se dizer depois de tanto tempo..." – murmurei então, encarando-o.
"É." – ele concordou meio surpreso. – "É exatamente isso pequeno..." – e riu divertidamente, acariciando minha cabeça. – "Sabe, gosto de você garoto. Não pensei que fosse gostar tanto de prestar esse favor a um amigo."
"Então você foi mandado por um amigo?" – foi minha vez de ficar surpreso então, me apoiando em seu peito para melhor olhá-lo.
"É." – ele concordou em ar ameno. – "Mas isso, acho que você descobrirá depois."
Suspirei em concordância. Não costumava correr atrás de respostas que não queriam me dar, em consideração à minha integridade física.
Creio que ele ficou lá mais dois dias comigo, quando então teve de ir embora, voltar para sua vida normal e trabalho, afinal tinha de sobreviver também.
Sei que quis chorar. Tinha me afeiçoado a ele e sinceramente naquela época eu me assemelhava muito a um filhote de animal, tremulo e carente. Mas ele me deu seu número de telefone e reafirmou mais uma vez que me queria bem e que eu podia contar com ele quando precisasse.
Falo com ele até hoje, tendo ele me auxiliado com exames médicos, suplência e o curso de fotografia que fiz. Dormi com ele também outras vezes, mas hoje ele está com seu amigo e tão tem olhos para mais ninguém há meses. Fico contente por ele, mesmo que sinta falta das mãos grandes e quentes pressionando sugestivamente minhas coxas enquanto sussurrava. Será que ele faz isso com seu parceiro? Ele era um amante e tanto...
Depois de Saga, ironicamente, voltei às mão de Aldebaran, que saiu da polícia por questões que nunca me explicou. Foi contratado como meu guarda-costas.
Ele demorou um bocado para se acostumar com minha homossexualidade. Não que fosse preconceituoso ele, mas eu sempre dizia coisas indecorosas a ele sobre lembranças de antigos clientes ou de Milo, o que sempre o deixava enrubescido e exasperado.
"Garoto, assim não dá pra acompanhar..." – ele me disse certa vez naquela voz forte e confusa, em uma das vezes que comentava sobre o que tinha acontecido no motel com o empresário. E invariavelmente o que houve depois com meu amigo.
"Mas é verdade." – eu reafirmei indiferente à surpresa dele, estava concentrado naquelas lembranças horríveis. – "O que aquele cara fez... Como me pegou na terceira, não tinha nada a ver com as anteriores! Como um cara te pega assim? Você falou que é estupro isso? Meter nos outros contra a vontade? E ele se divertia com isso, parecia achar graça no medo que eu senti, ou no sangue que arrancou, me comendo como estava. Ele devia ter problemas, entende? Pinéu." – completei convicto, cruzando os braços.
"Te comeu...?" – ele repetiu, assentindo com a cabeça, obviamente me repreendendo.
"... Achei que dizer me fodeu era pior." – expliquei, fazendo-o fechar os olhos consternado.
"Sim, é pior..." – ele concordou pondo a mão grande sobre o rosto. – "Você já percebeu que tudo o que você fala gira em torno de sexo?..."
Encarei-o surpreso com essa constatação. – "Mas eu só estava contando..." – murmurei então um pouco constrangido, ao que ele riu e passou a mão na minha cabeça.
"Eu sei garoto..." – ele murmurou gentilmente, exibindo um sorriso que pouco tinha a ver com seu tamanho, mas que lhe era extremamente usual, descobri depois.
"É que..." – encarei-o um tanto chateado, apoiando os cotovelos sobre a mesa que ocupávamos, apoiando-me nas mãos. – "Eu vivia disso Aldebaran! O que mais posso contar, além disso? Fiz isso por seis anos da minha vida. O que mais teria para falar? Não tenho casa, família, passeios e carinhos pra lembrar. Quer dizer, eu abraçava o Milo. Beijava sua testa e ele também fazia isso, mas o que mais podíamos fazer além do resto?... Queria ele aqui. Queria falar com ele e saber o que aconteceu! Será que ele tá bem? Por que não tava onde sempre dava pra encontrar ele?" – minha voz começou a empastar à medida que me lembrava dele e senti uma raiva imensa. Raiva de tudo. De não ter ido ainda atrás dele. E se ele estivesse com problemas?
"Ele deve estar bem garoto..." – o grandalhão disse um bocado comovido com a minha mudança de discurso, mas tudo o que fiz foi olhar raivoso pra ele, enxugando os olhos nas costas das mãos.
"Como eu posso saber?" – eu disse quase alto demais, levantando de um pulo da cadeira que estava acomodado. Todos os sons à minha volta pareciam ter sumido e tudo o que eu conseguia ouvir era o batimento violento do meu coração, alimentando minha fúria sem sentido. – "E se ele estiver na rua? Se estiver precisando de mim e eu estiver aqui?! E se ele estiver com problemas?? Onde é que eu vou estar? Onde ele vai estar?!?" – senti a trilha quente de lágrimas descer meu rosto enquanto soluços travavam a moinha garganta. – "Ele nunca sairia de lá Aldebaran...!"
E quando não consegui mais agüentar desmoronei num choro frenético, desesperado, e não chorava apenas por aquilo. Chorava por tudo que jamais chorei. A morte dos meus pais, o frio das ruas, os maus tratos dos clientes, o nojo... A falta que sentia de Milo e minha preocupação com ele. Tudo aquilo doía. Doía como a peste!
Ele esperou que eu me acalmasse um pouco. E então começou a falar em tom suave para eu acreditar que ele estava bem, o Milo, e que não era pra eu ficar assim.
"Olha, não sei se consigo algo com isso, mas vou falar com o meu chefe. Aquele que te protege, para que ele venha a você. Para se revelar" – ele disse quase num sussurro enquanto eu soluçava fracamente.
"E que diferença isso faz?" – eu perguntei desanimado, mas na verdade sempre quis conhecer quem fazia aquilo tudo por mim. Mas o grandalhão some olhou e sorriu amigavelmente.
"Talvez toda, meu filho." – disse de maneira indefinível enquanto se levantava da mesa com um pouco de dificuldade. – "Boa noite."
Ao fim da semana, quando voltava de um passeio em busca de coisas pessoais que agora faziam muita diferença, mas que antes não pareciam inúteis, como tênis, pente de cabelo, elásticos, carteira, cuecas... Tive uma surpresa e tanto quando entrei no apartamento e vi, sentado displicentemente sobre o sofá, de costas para mim, uma figura de longos cabelos loiros e cacheados, muito bem vestida numa camisa negra de seda e um jeans de lavagem escura, ambos destacando suavemente a pele bronzeada tão uniforme e visível, mesmo da distância que estava.
Não ousei acreditar no que via.
(TBC)
