"Você é o responsável por isso, não?" – disse, ainda que minha voz tremulasse. Não podia crer naquilo. – "Pelo hotel, pelo Aldebaran..." – continuei, enquanto me aproximava e ao ver a figura pôr-se de pé, ainda que de costas para mim, tive certeza de que não tinha como estar enganado. Era ele.
"Estamos..." – fechei os olhos, sentindo um nó se formar na minha garganta quando ouvi aquela voz tão familiar. – "... providenciando um apartamento de boa localização para instalá-lo em breve. Um hotel não pode servir para casa, ainda que seja um ótimo hotel."
Senti uma lágrima escorrer de meus olhos enquanto o ouvia tão emocionado e distante como estava. Onde ele tinha aprendido a falar tão bonito?
"Milo..." – acabei por chamá-lo sem perceber e quando ele se virou para mim, a dor que senti, tal o alivio e o desconforto, era forte demais.
Vi seus olhos extremamente brilhantes por lágrimas contidas e ele acenou suavemente com a cabeça. – "Boa tarde." – disse então, sem se mover um milímetro enquanto eu me aproximava.
Queria perguntar como aquilo era possível, o que havia acontecido? Queria saber como ele estava e abraçá-lo se possível, mas ele estaca tão inalcançável, parado ali dignamente à minha frente, que tudo o que fiz foi encará-lo. Questionando a tudo com o olhar. Quem é você? Eles diziam. O que te faz tão distante de mim?
Mas ele se afastou àquele olhar. Começou a andar pelo quarto e falar, primeiro calmamente, depois com urgência. Dizia coisas sem nexo sobre eu ser livre agora e poder começar de novo. Sobre ele ser parte de meu passado e que este era algo ruim e que devia ser esquecido e mais um monte de coisas que não saberia por em diálogo, tal a confusão que senti ao ouvi-las.
Mas depois de ouvir tudo, depois de ele exprimir sua ultima palavra sobre isso, não me impedi de jogar-me sobre ele, abraçando-o desesperado. – "Não! Não vá embora! Não me deixa sozinho irmão."
Choramos juntos e ele me abraçou também, dizendo para eu não fazer isso com ele. Para não fazê-lo depender mais ainda de mim.
"Você não precisa de mim Di." – ele falou baixinho, passando os dedos pelos meus cabelos. –"Sei que o Aldebaran te considera muito. E o Saga também. Sei que dormiu com ele, ainda que ele não tenha dito nada, mas senti esse cheiro de rosas nele e eu sabia que se vocês escolhesse um cheiro, seria esse. E não to te bronqueando, tá? Até eu dormiria com ele." – ele riu quando fiz menção a abrir a boca, sua voz mais familiar e carinhosa.
Respirei fundo ao sentir seus lábios e minha testa, o cheiro cítrico do perfume me sua pele, misturado-se ao seu cheiro parecia irresistível. Coloquei-me a ele sem realmente perceber o que fazia, envolvendo seus ombros com meus braços, que, livres de marcas roxas e sujeiras, pareciam ainda mais pálidos sobre a blusa negra.
"Eu preciso de você sim Milo..." – murmurei contra seu peito, meu rosto afundado nele como se seu cheiro fosse o único ar que eu respirasse. Ele estava lindo demais, os cabelos tão cacheados e loiros e a pele tão lisa e uniforme. E o corpo, sempre forte e definido, agora parecia ainda mais bem torneado, com a boa alimentação. Ele suspirou.
"Você tá lindo Di. Sempre foi, mas agora tudo faz jus a você. Realmente um anjo, mas em ascensão agora. Nunca pensei que ficaria tão bem numa camiseta, calça e colete, como ficava com as coxas de fora. Mas o tecido caro faz elas parecerem misteriosas, suas pernas, e me fazem querer arrancá-lo para poder vê-las de novo."
"Faça então." – eu disse, espalmando minha mão direita sobre seu peito enquanto a esquerda se enganchava no cós baixo do jeans dele. Oferecia-me.
Senti a intensidade dos seus olhos como nunca antes e sabia que entre nós não haveria nenhum pudor, como houve com Saga. Nossa relação estava acima disso.
"Você que está pedindo, lembre-se disso." – ele avisou, outra vez tão culto, falando bonito. Mas diferente de vez anterior, ele me sorriu aquele sorriso safado que tão bem conhecia.
E então se colocou contra mim, seus braços em minha cintura enquanto sua boca tomava a minha, mais afoita e excitante do que me lembrava.
Lembro da sensação que tive, estar nos braços dele depois de tanto tempo, mas descrevê-la me parece artificial, ainda que vá tentar mesmo assim.
Senti que tudo era como tinha de ser. Tudo estava bem e aquele lugar luxuoso não era mais estranho. Era como se sempre estivéssemos ali e tudo parecia aconchegante e propício para acabarmos com aquilo.
A saudade aumentava o desejo e sentia como se fosse explodir e todo toque parecia exasperante e imprescindível.
Quando consegui arrancar a camisa dele, desabotoando desajeitadamente cada botão com uma pressa digna dele, ele já cumprira o que desejava, deixando-me apenas de roupa intima e camiseta. O colete perdido em algum lugar do percurso do sofá à cama.
Era quase divertido, ter de tirar todas aquelas peças, não fosse tão exasperante. Queria o corpo dele, as coxas roliças de penugem suave loira e o bumbum firme em méis dedos. E quando consegui abrir o botão de seu jeans, ele próprio o arrancou junto à roupa-de-baixo, ficando nu sobre mim.
Lancei um olhar cobiçoso a ele e, quando meus dedos arranharam suas coxas, ele gemeu ansioso e arrancou minha boxer pouco delicadamente.
"Milo..." – suspirei, desesperado por mais e quando ele rasgou minha camiseta, sequer pensei nela. Apenas desejava suas mãos e boca e sexo. Desejava sua pressa e seu gosto e a dor e o prazer. Os gemidos...
Ele mal me deixava respirar, tomando minha boca com sua língua atrevida e então explorando meu pescoço e tórax, sempre mordiscando e afagando meus mamilos que a essa altura estavam rijos e avermelhados.
E quando ele avançou sua exploração, chegando perigosamente perto de meu baixo-ventre, não pude conter um gemido longo e indecente. Provavelmente a cena por si só valia um contrato com empresas de entretenimento adulto.
Eu era um garoto perdido em êxtase outra vez, e a idade agora parecia tornar o prazer mais intenso e aumentar o desespero.
Ouvi-o gemer suavemente ao olhar melhor para mim e sorriu quando minhas pernas se enroscaram nele.
"Não podia lembrar que você é tão gostoso Di..." – ele riu entre um beijo e outro na minha barriga. – "Soube que toa te chamando de Afrodite. Parece que o apelido pegou."
Suspirei entre um beijo mais malicioso em meu umbigo e tentei encará-lo, levemente intrigado. – "Nenhum repórter tenta chegar perto, por que ainda sou notícia?" – perguntei não tão claramente quanto desejava, quando sua língua tornou a serpentear próximo à minha intimidade para então invadir outra vez meu umbigo, causando espasmos involuntários.
"A segurança não deixa eles se aproximarem." – disse calmamente, enquanto substituía a exploração com seus lábios por carícias com seus dedos, por toda a minha intimidade, ainda que propositalmente ignorasse minha necessidade pulsante. – "Tem o Aldebaran na tua cola e mais uns 5 seguranças que fazem a proteção indireta... Fora... que o carinha lá anda dando shows o bastante para entreter o pessoal." – ele riu.
Me surpreendi com isso. Ele era rico agora? Mas os dedos malandros acariciando meu saco escrotal obliteraram qualquer pensamento, dúvida ou certeza. Teria me esquecido do meu nome naquele momento, caso o soubesse.
Mas ele próprio não agüentava mais a própria necessidade intocada. Queria me tomar, eu sabia.
"Gaveta. Segunda de cima para baixo." – murmurei ou arfei, não saberia dizer, apontando com a cabeça para a mesa de cabeceira que contornava a cama com gavetas brancas e bem-acabadas.
Não pude ver ele pegar o que quer que fosse na gaveta que eu indicara pois no movimento que ele fez para alcançá-la, ocupou minha vista com sua barriga definida e seu órgão rijo e convidativo. Sequer me importei com a posição pouco propícia, apenas tomei aquele sexo pulsante nos dedos, arrancando um grito viril e desesperado de Milo.
Ele sequer se deu ao trabalho de pegar camisinha, já fizemos sem em condições de higiene menos propícias. Ao invés disso tomou nos dedos apressados uma bolinha de lubrificante que eu ganhara num sex shop da atendente como "cortesia da casa" pela compra de um conjunto de vinil que consistia numa camiseta regata, cueca tapa-sexo e luvas daquelas que parecem de motociclistas. Mas quando comprei apenas tinha visto a camiseta e as luvas.
Ele a abriu tão afobadamente que cheguei a pensar que a derrubaria e então tomou parte do lubrificante nos dedos, sorrindo malicioso.
"Posso...?" – ele pediu, a voz tremula de desejo, me pondo de quatro de frente a si. E então roçou os dedos contra a entrada, lubrificando-a por fora, para depois introduzi-los, espalhando o resto, me levando a loucura.
Levantei então, fazendo-o me encarar em ar de duvida.
"Espera aí cavalão..." – eu sorri, minha voz também falha, rouca. Vi-o se arrepiar ao ouvi-la. – "É minha vez agora."
Ele sorriu de novo, sentando-se então de maneira graciosa e esperando minha ação. – "Vem então Dite. Mostra porque estão te chamando de a deusa do amor..."
Eu ri então. Dite soava divertido e lembrava aquela forma como ele costumava me chamar. –"... E da beleza." – completei em meio a um sorriso maroto.
"Isso não precisa mostrar... Tá na cara." – ele respondeu, os olhos brilhando admirados. Fazia eu me sentir divino, aquele olhar. Como se realmente fosse um anjo que estivesse lhe prestando seus dotes naturais.
Realmente não fazia idéia de como era bonito, mesmo que olhasse no espelho e pensasse isso. Porque a beleza não estava apenas no corpo e rosto, mas também nos movimentos languidos e na forma de falar e quando me apercebi disso, mais poderoso fiquei. E com o poder, mais e mais bonito fiquei. Sou extremamente narcisista, tenho que admitir, mas talvez por ser tão capaz de ver minha própria beleza, enxergo bem demais a beleza alheia.
Mas voltando à história, fiquei apaixonado por aquele olhar. Senti-me grande, forte e isso fez com que gostasse mais ainda dele. Como se o enxergasse mais grandioso também por enxergar aquela grandeza em mim, meu Milo.
"Você que está pedindo, lembre-se disso..." – repeti sua fala em meio a um sorrisinho de escárnio ao qual uso muito num geral, mas raramente com ele. Disse isso e coloquei-me ao seu colo como costumava fazer, meu corpo roçando ao dele sensualmente.
Ele riu entre um suspiro estrangulado. – "Você e esse teu jeitinho feminino..."
"Jeitinho afeminado..." – corrigi-o, mas soou-me tão mal quanto o anterior. – "Aliás, apenas sensual mesmo. Não acho que pareça com uma mulher..."
Ele me encarou de forma divertida, circulando minha cintura com aquelas mãos firmes e quentes. '"Só em partes... Você tem o melhor dos dois sexos..." – disse então, num sussurro provocante. – "Vi sobre isso... Chamam de androginia. Você, Afrodite... O anjo andrógino." – e beijou meu pescoço, provavelmente marcando-o, não tenho certeza.
Não percebi naquele momento, mas era a primeira vez naquela loucura toda que me sentia realmente livre. E mesmo sem perceber a sensação, era incrível e me fazia querer aproveitar tudo o que pudesse, não por tristeza ou necessidade, mas sim por saudade e alegria.
Por que dizer então o que houve depois...? Eu sobre Milo, ele em mim, nosso prazer sincronizado e afoito, nossos corpos suados, o gozo? Descrevendo parece sempre igual. Os atos, o ápice... Mas quando se está lá, quando é a sua pele que parece em chamas e seu corpo prestes a se detonar com um desejo tão palpável, apressado e até mesmo desengonçado, as coisas parecem um pouco diferentes, não? Menos iguais... Mais interessantes. Por isso gosto dos livros da Anne Rice, não há carne, mas o êxtase está lá o tempo todo. A sensualidade...
E quando estávamos lá, exaustos, deitados juntos sobre a grande cama, ele me contou por alto como foi encontrado por um homem jovem e ainda assim rico, que fugia de um encontro marcado por seus pais com quem seria sua futura esposa e o encontrou por acaso. Claro, jovem e empolado, tentou evitá-lo, mas ao se dar conta que haviam três homens bem mais intimidadores que o jovem jogado à entrada de um casebre, observando, resolveu ir pelo percurso próximo a ele.
(TBC)
