"Vi que ele tava encrencado. Aqueles três não tinham dó de maltratar quem roubavam." – ele me contou um meio a um sorrisinho bobo. –"Então chamei ele baixinho e disse pra se fazer de cliente meu. Claro, ele nem entendeu, mas eu tinha um acordo com um dos caras, que gostava de me ver nessas situações intimas e ele concordou em nem chegar perto dos meus clientes. Tentei até explicar rapidinho pro cara, enquanto ele mantinha certa distância. Eu tava limpo até, tinha ido pro albergue tomar banho no dia anterior, então quando o convenci a se aproximar ele não pareceu ter nojo, se bem que provavelmente isso tenha sido efeito do temor pelos caras mesmo...

'Ei, ' eu disse pra ele. 'Te levo pra outra rua e tu vai embora moço. Esses daí não tão de brincadeira. '

E apesar de parecer meio desconfiado, ele veio comigo e eu fiz o que disse, mantendo uma distância para que ele não pensasse em se preocupar com carteira ou coisa assim.

Até é divertido agora, pensar que ele deve ter ficado surpreso com isso, talvez não seja muito comum moleque de rua ter palavra, sei lá. Mas quando eu ia voltar pro ponto lá, ele me agradeceu e ofereceu seu relógio." – ele estendeu o pulso, onde pude vê-lo então. Peça linda ela, de prata entalhada. – "Sabe, fiquei com vergonha de aceitar uma coisa tão cara e ostentosa como aquilo só por ter levado ele pra longe de uns arruaceiros... Recusei então e disse que só aceitava presente de cliente, mas ele não entendeu e quando expliquei melhor ele pareceu horrorizado! Não comigo... Mas com a idéia em si...

Ele foi embora então. Mas voltou na tarde seguinte e me mandou subir no carro dele.

'Aonde cê vai me levá moço?'- perguntei com receio de aquele cara no fim das contas ser só mais um almofadinha louco como o veado que te atacou. Mas ele me olhou sério e disse pra confia nele. Que estava me tirando das ruas em definitivo.

Ele é maior de idade, mesmo tendo 18 há pouco tempo e, não sei como, mas já tá noivo.

A mulher é um avião, mas ele é não liga a mínima pra ela. Me disse uma vez que isso tudo é só esquema de família e que preferia não ter que fazer parte disso, mas tô me adiantando na história.

Fui com ele e fiquei aqui nesse hotel mesmo. Ele me comprou um monte de coisas e me arrumou documentos de verdade, como quero fazer com você. Tô fazendo aulas agora, pra aprender o que já devia ter aprendido... Suplência é o nome...

É isso... Sabe, acho que to gostando dele.

Ele me tirou da rua sem nem pensar duas vezes, o que provavelmente deve ser ilegal, e me ajudou a ajudar você. Tudo é ele que paga com o dinheiro que ganha na empresa do pai dele e com os livros que escreve... E me deu o relógio dele como queria." – ele olhou de uma forma muito afetuosa para o relógio ao dizer isso, o que me incomodou um bocado. Definitivamente eu estava enciumado.

Mas o homem, um francês de família tradicional e rica, não demonstrava qualquer interesse duvidoso por ele, segundo o próprio Milo me disse.

Camus me foi descrito por Milo como sério e por vezes frio, mas ao fundo sensível e generoso. Homem de bom gosto e boas conversas, sincero e, por vezes, irritante, fez questão de acrescentar.

Foi um choque para mim, saber que meu amigo era capar de "gostar" de alguém. Não entendia na época, mas estou acima disso no que se refere a ele.

...Bom, claro que se ele e Camus viessem a se entender, eu automaticamente estaria fora de cena, creio, mas o homem hoje em dia é casado e tem um filho pequeno e mesmo que viesse a ter algo com meu Milo, seria apenas um casinho extraconjugal, o que jamais lhe daria direito a ter meu amigo exclusivamente.

Hum... Em bem da verdade, creio que seria difícil para o próprio Milo, a idéia de exclusividade. Fomos condicionados pelas circunstancias a sermos dados a vários casos paralelos, o que tornaria essa questão de fidelidade um tanto complicada, mesmo que apenas por falta de costume.

Devo dar uma descrição mais ampla da história? Nomes serão alterados, sei bem, está no contrato... Mas terá algum mal em discorrer mais sobre o homem bonito e caridoso que ao fim apenas ajudou-nos sem quaisquer más ou segundas intenções?

Ele é bonito, como já disse. De porte intelectual e sério. Vi-o de óculos por uma ou duas vezes, mas não sei se necessita deles em tempo integral. Sua esposa tem saúde frágil e é aparentemente doce e insossa e seu filho recém-nascido é mais criado pela babá do que por eles, ainda que ele tente dedicar-lhe algum tempo que seja. É loiro e de olhos azuis, o bebê, por conta da mãe, mas apesar destes detalhes seus traços são quase que integralmente do pai.

O menino nasceu na Rússia, em uma viagem da esposa à família. Um susto que tiveram - fonte de orgulho à família da mulher e de desgosto à dele... Todas estas informações serão alteradas não? Locais, nomes...? Pergunto à toa, sei que serão, mas sempre descrevo demais e receio que fazendo apenas isso ainda assim fique perfeitamente entendível de quem falo.

Apenas Milo sabe da entrevista e sei que nunca gostou da idéia. Deixou claro que era para tomar cuidado e não deixar que nenhuma das boas ações das quais fomos alvo venham a ser mal interpretadas. Para não citar nada que pudesse afetar negativamente nenhum deles, nem a mim mesmo.

"Tenha cautela" ele disse. Mas nunca fui cauteloso. E definitivamente Milo me matará se a entrevista for publicada em natura, pois ele saberá tudo o que meu amigo esconde dele. Mas o que poderia fazer? Talvez isso até mesmo ajudasse. Ou acabasse com a vida de meu Milo.

E quanto a Saga, bom Deus...?

Bem, mas os relatos já estão feitos. Apenas me resta pedir ajuda para fazer o possível para que ninguém jamais saiba mais que o necessário.

Tornando à história... Milo permaneceu comigo uma semana e então foi-se, sumindo por mais uma. E quando voltou, trouxe-me a chave do que seria meu novo apartamento escondida entre uma camisa de seda azul petróleo e uma calça que, a julgar pelo modelo, logo percebi que marcaria minhas coxas e bumbum.

"... Isso é brincadeira, não?" – eu perguntei em choque quando encontrei o molinho de chaves dentro do bolso da camisa.

Ele riu. – "Não não é." – afirmou com gosto, beijando minha boca de maneira alegre. – "Vamos comemorar jantando fora! Já tem reservas pra nós e o lugar é pertinho. Vamos de carro e o motorista leva a gente. E você vai usar essa roupa aí." – e piscou malandro, me soltando de seu abraço.

Sorri para ele então. Aquela roupa parecia provocante demais para apenas um jantar. O tecido da calça marcaria qualquer roupa intima que escolhesse, à exceção da de vinil, que não passava de um tapa-sexo mesmo.

Guardei essa constatação para mim. Iria surpreender Milo naquela noite, realmente ia. E ele merecia a surpresa, eu sabia.

Mas a surpresa foi minha quando me vi vestido para aquela noite.

A calça marcava perfeitamente o contorno do meu quadril, bumbum e coxas, mas não parecia vulgar mesmo com a aparência de não ter nada por baixo. E a camisa cobriu parte da saliência perfeita e perigosa, velando o erotismo da calça, tornando-me algum tipo de sedutor de classe, não o prostituto vulgar que era antes.

"Como estou?" – perguntei para ele quando desci para o bar do hotel, onde ele me esperava.

Ele suspirou e riu ao mesmo tempo, chegando próximo ao meu ouvido e murmurando com aquela voz aveludada e rouca:

"Juro que se não tivesse de me manter longe de encrenca, te jogava no balcão do bar agora mesmo Di..." – e então se afastou, disfarçando aos me dar um beijo rápido no canto dos lábios.

Vi que um cara no bar nos viu, mas apesar da aparência séria e... abastada, ele nos sorriu suavemente e ergueu seu copo de uísque, como se nos desejasse uma boa noite

Nunca cheguei a saber quem era esse homem. Mas era bonito, com seus olhos verdes e cabelos castanhos um tanto longos para alguém de aparência tão importante... Porém não dei real importância para aquilo naquele momento.

Fomos ao restaurante. Muito bonito, aliás... Realmente possuía o ar de um local que merecia reserva.

"... Má idéia Mi." – eu sussurrei então. Simplesmente não sabia me portar à mesa. – "Vou aprontar uma cena homérica aqui..."

Mas ele riu com gosto, baixinho, mas divertido ao extremo e segurou minha mão na sua discretamente. – "Besta... Acha que reservei que mesa? Peguei a parte reservada para casais, lá ninguém fica prestando atenção em você. Ou pelo menos não deve, por surpor-se que esteja acompanhado."

Ele me guiou para a recepção, confirmando a reserva em seu próprio nome: Milo Kiriakakys. E Fomos guiados então pelo garçom para dentro de restaurante.

Ao inicio, parecia que Milo tinha razão e ninguém parecia minimamente preocupado conosco, deixando-me à vontade o suficiente para empregar o que Aldebaran me ensinara e terminar a refeição quase que dignamente, ignorando os pequenos risos de meu amigo aos meus erros e eu próprio rindo dos dele. Mas à hora da sobremesa percebi que havia um homem que não parava de olhar para a mesa, cenho franzido levemente, como se tentasse entender algo.

Percebi então que o caimento de minha roupa acentuava a androgenia, como Milo dissera, de meu corpo e meus cabelos e feições passavam-se facilmente por femininas.

"Ei." – chamei meu amigo então. – "Eu pareço uma mulher?"

"Não muito mais que o normal na verdade, por quê?" – ele respondeu num sorrisinho ladino, me analisando então.

"Porque o homem da mesa à direita não para de olhar pra cá." – eu respondi e quando percebi o ar de descaso que começava a tomar o rosto conhecido acrescentei: - "Principalmente pra minha bunda."

Mas ele só riu então, segurando minha mão como que se desculpando. – "Pô, você queria o quê? Tá uma delícia com essa calça, até eu não consegui parar de olhar! E olha que conheço o material há uns bons anos... Aliás, você está sem cueca? Porque ela nem tá marcando muito nada e eu sei por experiência própria que sem cueca, marca muito o volume na frente." – ele tornou despreocupado, aliás... ele falava em ar maroto, olhando vez ou outra para a área a qual discorria.

"Vai ter que esperar pra ver 'gregão'." – eu não pude não provocar e, aproveitando o fato de a grande toalha de mesa não permitir aos demais que vissem o que havia embaixo da mesa, recostei minha perna na dele maliciosamente, esfregando-a de leve contra ele, causando um arrepio.

"Continua provocando pra ver se não te pego aqui mesmo e mostro pro cara lá que tu é homem..." – ele disse, descuidando do vocabulário só por um momento, mas aquilo me fez suar frio e desejar que realmente o fizesse.

"Adoraria que fizesse mesmo. Que me tomasse e afagasse aqui mesmo e provasse para ele que sou homem e que não tenho pudor algum." – eu disse numa risadinha provocante e o encarei. Sabia que Milo era capaz de fazer aquilo e em bem da verdade não poderíamos ser considerados exatamente discretos, já armamos pequenos shows nessas baladas noturnas onde só se bebe, transa e se droga. Éramos acostumados à platéia.

"Vamos pro carro." – ele disse com urgência. –"Falo pro motorista levantar a divisória do carro e nós fazemos lá mesmo."

Eu ri à sua proposta. Parecia interessante, deixar o motorista louco com os gemidos e arquejos. Suspiros e berros... Mas queria provocá-lo naquela noite. Provocar até que ele não tivesse o menor problema em me pegar de jeito, mesmo que à força. Não tinha medo de extremos e sabia que a brincadeira seria um adicional a longa lista de truques que tínhamos.

"Podemos pensar nisso..." – sussurrei. Meus olhos brilhando, tinha certeza. – "Vamos sair logo então, antes que mude de idéia e me jogue aqui eu mesmo."

Não poderia dizer como foram nossas provocações veladas pelo percurso restante, mas quando entrei no carro, estava duro já. O volume perceptível até demais dentro do tecido da calça. Vi que ele percebera, e que não estava lá muito diferente.

Ele sentou ao meu lado, olhando-me numa intensidade tal que era como se já me tivesse nu. Sei bem, arquejei àquele olhar.

O motorista tratou de subir a bendita divisória enquanto Milo se punha sobre mim, me beijando. Provocante, dominante.

Deixei que ele abrisse minha camisa antes que eu o empurrasse para trás e abrisse suas calças, abaixando-as junto à cueca apertada e branca, que dava uma visão e tanto do que tinha por baixo, despontando.

"O que você vai fazer?..." – ouvi-o perguntar em meio a um sorrisinho malandro. Sabia que ele gostava quando reagia assim, dominador.

"Adivinha 'Gregão'? Você despertou minha fome e vai pagar com o corpo." – disse e espalmei a mão em seu peito, forçando um beijo faminto enquanto provocava reações com meus dedos, tomando seu prazer.

Não sinto vontade de entrar em maiores detalhes sobre o que fizemos até a chegada ao meu novo prédio. Somente que engolfei-o e deixei-o engolfar-me e que o motorista deve ter se sentido realmente abalado com nossas atividades barulhentas pois o caminho foi feito de forma rápida e eficiente, sempre seguindo por ruas paralelas ao invés de ir pela lotação natural das vias principais.

Não foi exatamente fácil, mas nos recompomos minimamente e subimos pelo elevador, certamente dando uma pequena palha do que éramos capazes a quem quer que visse os vídeos de segurança referentes ao elevador.

Procuramos às cegas a porta referente ao novo apartamento enquanto meu amigo marcava meu pescoço com gosto e sensualidade e entramos. E me deparei com o lugar mais adorável que poderia imaginar.

Tive de tapar meus lábios com as mãos, atônito, para então virar-me para ele, que olhou a volta por um momento antes de suspirar satisfeito.

(TBC)


Significado de Homérico:

adj. Relativo às obras de Homero ou às que lhe são atribuídas: poemas homéricos. Que tem característica de Homero: tempos homéricos. Épico, fabuloso, lendário.