"Gostou?" – ele perguntou, retoricamente é claro, uma vez que já vira claramente minha resposta. – "Bem-vindo à sua casa, Afrodite..."
Respirei superficialmente e abracei-me a ele e beijei cada pedaço de pele que estava descoberto, causando pequenos risos e arrepios naquele corpão maravilhoso dele. Então afastei-me e sorri malicioso e encantado.
"Vêm! Vamos estrear a cama Mi!" – eu disse e sorri novamente, pegando em sua mão e arrastando-o para onde deduzi ser o quarto. E acertei o de hospedes. E então ele me pegou no colo como a uma noiva, me levando em meio a risos para o quarto principal com uma delicadeza não usual.
"Esse é o seu quarto..." – ele me corrigiu quando nos jogou sobre a cama e logo suas mãos já se embrenhavam pelos botões da minha camisa junto a pequenas risadas próximas ao meu ouvido.
Suspirei satisfeito e me abracei a ele, afundando meu rosto em seu peito e quando murmurei um obrigado sincero e emocionado ele soou extremamente abafado e infantil, o que causou mais risos languidos de sua parte. Risos que foram morrendo em sua garganta quando me coloquei em seu colo em ar grato, fazendo-o me fitar surpreso e embevecido.
Os cachos dele estavam desalinhados e espalhados por seus ombros de uma forma interessante que lhe roubava a aparência altiva e correta que ele adotara, mas que lhe dava o ar de astro do rock que lhe combinava tanto.
A verdade é que ele sempre estava lindo, fosse como fosse. Ele é realmente muito bonito.
Mas quando beijei seus lábios rapidamente e acariciei seus cabelos, ele riu desconsolado. – "Deve ter desfeito todos os cachos..." – ele murmurou, tentando lançar um olhar sobre os ombros, como se pudesse olhar seus próprios cabelos assim.
"Eu riria dessa sua vaidade se não fizesse exatamente o mesmo... Mas você não devia se preocupar. Está lindo." – respondi baixinho, ainda mexendo nos fios loiros. Seus cabelos eram e não eram parecidos com os meus. Seu loiro mais escuro é mesclado à mechas mais claras num efeito que é procurado por muitas pessoas em salões, mas que nele era natural, criando efeitos de movimento nos cabelos já cacheados e repicados. Mesmo parado, seus cabelos pareciam se mexer.
Em compensação os meus são claros, de um louro quase prateado, mas visivelmente louro. E levemente ondulados.
Gosto de cachos. São coisinhas graciosas e delicadas e - contra o gosto de Milo -, divertidíssimos de desfazer. Por isso me divirto tão completamente com os cabelos dele, seja puxando-os ou desgrenhando-os, ou seja quando ele se deita sobre mim e eles se espalham à minha volta numa cascata dourada.
Tudo com ele é muito visual, além de tátil. Ver os músculos torneados, os cabelos lindamente espalhados sobre mim, os olhos tão azuis brilhando de desejo...
Era sempre assim, não bastava tocar a pele morena e deixar o prazer dominar meus sentidos, eu tinha de vê-lo. Me prender nos olhos azuis, acompanhar o suor descendo por seu pescoço marcado, ver os vergões avermelhados que deixava com minhas unhas em suas costas.
Acho que isso é algo que nunca disse a ele, algo que ele descobrirá aqui, com essa entrevista. Mas simplesmente não posso evitar olhá-lo. Fechar os olhos para beijar é bonitinho, comum até, mesmo porque não há muito a se ver quando o rosto do outro está tão próximo ao seu. Mas quando o contato corporal é maior e se pode ver tudo o que já disse, quando se trata de Milo, é quase como ver um show particular. Não há como não querer ver.
De todas as pessoas com quem já transei - até mesmo Saga, que também é alguém muito bom de se olhar -, apenas Milo causa essa vontade em mim.
Com os outros, olhar é um adicional. Com Milo é parte integrante e indispensável do ato. Fechar os olhos é quase o mesmo que uma heresia.
Por que digo isso? Porque ele simplesmente é tão bonito que seria tolice não olhá-lo. Porque quando ele se dispõe a fazer sexo, cada movimento: jogo de pernas, posição das mãos, estocadas de quadril, parece perfeito e controlado em sua pressa habitual e assistir a cada um desses detalhes é importante para se entender que é como uma doença. Incurável. E como uma dança também... Há técnicas descobertas e por nós treinadas durante anos, mas há paixão também. A entrega do momento.
É como descrever uma apresentação de tango. Há malicia em cada movimento, mas também há o lirismo.
Bom, talvez isso explique em partes o número de pessoas que obstruíram a pista de dança de uma dessas casas noturnas uma das vezes que Milo sofreu uma crise de auto-estima devido ao seu caro problema corriqueiro ao qual nada mais comentarei.
Nesse dia acabei levando-o só para beber, paquerar e esquecer, mas após bastante bebida e várias tentativas de assédio ao meu par naquele lugar fumacento, não tive o menor problema em dançar provocativamente para ele e ele não teve problemas em vir a mim colando seu corpo sensualmente ao meu em meio a música e, depois, invadir a pista vip para os dançarinos e me tomar ali mesmo. O que pareceu maravilhosamente libertador e genial no momento, mas que nos custou uns vídeos de má resolução em sites adultos, aos quais ainda se ouve falar, mesmo que os tenha tirado de circulação legalmente.
E que nos renderam alguns convites para interpretar novamente frente às câmeras em filmes pornôs... Claro, não aceitamos por conselho de Saga, que nesse quesito se mostrou muito mais maleável para se conversar que Camus, que apenas se mostrou contra e nada mais quis argumentar. Éramos brinquedo novo no mercado ainda. Eu como modelo e Milo como ator de teatro ainda. E isso marcaria nossa carreira e o desenvolvimento dela, o que poderia atrapalhar-nos.
Hoje sou famoso o bastante para poder posar na G-Magazine sem maiores comentários além de: Esse mês é Alexander Ekberg que posará. Será que pelado ele é tão bom quanto de roupas?
E é engraçado saber que apesar de ser assumidamente homossexual, meu numero de fãs feminino é consideravelmente grande. Elas comprariam a revista também...
Mas acho que com sua carreira cinematográfica o início, a probabilidade de Milo aceitar hoje em dia é mínima.
Mas tornando a história do apartamento...
Sinto ter fugido à narrativa, este dia em específico foi um dia especial, regado à "danças" e carinhos. E hoje sei que se houve um momento em que me vi mais perto de pensar amá-lo, foi aquele dia, com seus lábios avermelhados pousando em meu rosto com um carinho tão grande que quase poderia esquecer que aquela cama, aquele quarto e aquele apartamento agora eram meus e apenas me perder em seus carinhos despretensiosos, agora eu nossos corpos estavam cansados e satisfeitos o suficiente.
Me acomodei melhor ai seu lado, lembro bem, pois meu braço estava começando ficar dormente e quando meus movimentos mais bruscos ocasionaram um roçar de quadris em sua perna, ele riu levemente e me encarou em ar malandro e sonolento.
"Que cueca era aquela Di?" – ele perguntou enquanto se afundava mais ao travesseiro, sem deixar de me fitar.
Acabei sorrindo também. – "Sex Shop. Comprei o conjunto, que era ela, uma regata e luvas. Nem tinha visto ela quando comprei..."
"Bom..." – ele começou, tentando não rir. – "Logo percebe-se o porquê."
"Você não estava reclamando até agora a pouco..." – tornei dubiamente, ao que ele alargou o sorriso, me puxando mais para ele.
"Difícil reclamar dela, principalmente depois de ver o quão interessante é te ver só com ela." – ele disse e piscou em ar maroto, para logo depois por seus lábios aos meus num beijo suave, apenas um roçar prolongado de lábios. – "Hum! Será que trouxeram o que eu pedi? Mandei trazerem pra cá uma garrafa de champanhe para brindarmos pelo apê, mas na animação do momento até esqueci. O que acha?"
Adorei a idéia quando a ouvi. Um brinde era exatamente o que faltava e estava com a boca definitivamente seca de tanto gemer e gritar seu nome...
"Você pega?" – perguntei em ar pedinte, imaginando se eu próprio não perderia o ânimo da comemoração se tivesse de descobrir naquela situação onde era a cozinha.
"Com você fazendo esse biquinho sexy como posso dizer não, hum?" – ele respondeu num sorrisinho e então se levantou, dando-se ao trabalho apenas de arrumar os cabelos displicentemente antes de ir, nu, buscar nosso brinde.
Suspirei satisfeito ao vê-lo sair despido pela porta do quarto e me acomodei melhor entre os travesseiros, pensando então como devia retribuir a surpresa em algum outro dia. Mas um barulho estranho, vindo do monte de roupas pertencentes a ele - que as arrancara todas de uma vez em sua pressa habitual -, me despertou num sobressalto.
Engatinhei até a beira da cama, me debruçando ligeiramente então, o suficiente para alcançar o aparelho moderno azul petróleo e constata que se tratava de Camus.
Por um momento senti-me profundamente ofendido por ele estar ligando exatamente na minha noite especial, mas respirei fundo e atendi o aparelho num suspiro satisfeito, evidenciando o que ocorrera.
Ele foi rápido e polido e pediu para avisar à Milo que ele deixara algumas coisas para ele em seu apartamento. Depois se despediu e desligou, num espaço de um minuto antes de Milo voltar com duas taças vazias e um balde de gelo com a dita garrafa dentro.
Nunca avisei sobre a ligação. Ele saberá pela entrevista, se muito, e terei de torcer para que não se zangue comigo por algo que sequer chegou a ser importante em sua vida. Afinal, só quis preservar aquela noite e sabia o que ocorreria se tocasse naquele nome.
E mesmo o sorriso fácil que se formou em seu rosto, ao me ver jogado na cama como um menino travesso, me desencorajou a falar um "a" sobre aquilo.
Ele se aproximou felinamente, colocando o balde gelado propositalmente perto de mim, como se a idéia de roubar o calor do meu corpo lhe divertisse um pouco e depois colocou as taças no tampo polido da mesa de cabeceira para, então, dignar-se a abrir a garrafa. Sem pressa, aproveitando a sensação de arrancar o lacre e então a armação para segurar a tampa com firmeza e começar a arrancá-la.
Analisei a força que ele empregava nisso. Vi os músculos torneados e deliciosos daqueles braços se retesarem ligeiramente pela força empregada, ainda que não fosse força o suficiente para alterar a expressão contente e concentrada de seu rosto bonito.
Mas, talvez por perceber minha análise silenciosa, ele se voltou para mim, me fitando tempo o suficiente para perder parte de sua atenção à garrafa, que expeliu a tampa com violência, assustando-nos com o barulho de pressão e de algo quebrando.
Ouvi-o falar algo num murmúrio ininteligível - provavelmente um palavrão -, e olhamos na direção do barulho. Era apenas um vaso quebrado. Um vaso decorativo, até então sem flores para adorná-lo.
Não pude conter o riso àquela cena, ainda que não houvesse nada para rir então, a não ser, talvez, o susto. Mas ele entendeu. Entendeu e riu também murmurando um "saúde" em meio a um sorriso infantil.
E por algum motivo meu riso morreu na garganta, se tornando uma expressão contemplativa e silenciosa enquanto ele servia a bebida translucida nas taças compridas e esguias.
Nos cobrimos parcamente com os lençóis, apenas para não desviarmos a atenção do brinde e bebemos das taças enquanto nos olhamos em meio a sorrisinhos ladinos e erguidas de sobrancelhas.
"Definitivamente." – ele falou de repente, me fazendo encará-lo em ar questionador.
"O quê?" – beberiquei mais da bebida e ele sorriu.
"Você passa por mulher fácil fácil, Di." – ele murmurou um tanto roucamente, provavelmente lembrando do cara que ficou me olhando no restaurante.
"Não sei se isso é muito encorajador..."
"Hum... Faz sucesso no Japão... Eles tem umas bandas de rock onde os caras se vestem de um jeito bem impactante... E alguns se vestem de mulher." – ele comentou entre um gole e outro da taça e me fitou longamente antes de dar de ombros.
Até fiquei levemente curioso sobre isso naquele momento, mas em bem da verdade pouco me importava o Japão, a Suécia, a Europa ou o mundo. Me importava apenas olhar em seus olhos azuis e sorrir de suas expressões divertidas.
Deve estar perguntando onde exatamente isso importa e devo dizer que provavelmente em lugar nenhum. Mas me pareceu importante dizer que conversamos sobre coisas adversas e rimos e nos olhamos por tanto tempo que parecia que nunca havíamos nos visto antes.
E que depois deitamos - um pouquinho altos de champanhe -, na cama, eu sobre ele, e apenas ouvimos as respirações um do outro até ele ter a idéia de ligar a TV do quarto, parando num filme qualquer.
Era bonito, o filme, mas não me lembro do nome ou mesmo da história direito e tenho a impressão de que adormeci em seu colo entre o começo e o meio do filme, acordando para o final. Depois dormimos mesmo, indo apenas escovar os dentes por hábito com as escovas novas que havia no banheiro antes disso.
Então deitamos e trocamos beijos frescos de pasta com uma calma que só o sono poderia nos emprestar e voltamos a nos acomodar para finalmente encerrarmos aquele dia.
É exatamente aqui que minha narrativa trava. Não quero contar sobre as aulas que tive ou sobre o curso que fiz, bem como não quero contar sobre meus casos e minha vida bela e brilhante.
Pulo, então, tudo isso e chego na parte importante novamente. O que fez com que você viesse a mando de seus superiores e o que me impeliu a narrar minha vida: a morte.
(TBC)
