Descobri-me "doente" a menos de um ano. Tumor renal.
Sei que divulgaram como câncer, mas não o é, ao menos até onde se sabe. Mas a idéia de doença me assusta. Aliás, me apavora. Acho que a morte não faz parte dos planos de ninguém.
Não foi algo esperado. Havia aceitado os exames de rotina por insistência de Saga ao declarar que por vezes sentia dores estranhas na região lombar. Já havia perdido algum peso acidentalmente o que andava preocupando. Saga sempre primou muito pela boa saúde.
Lembro que Milo acabou entrando na dele e me acompanhou em todos os exames, mas quando o resultado do ultra-som dos meus órgãos saiu, lembro que foi ele quem se desesperou e exigiu respostas ao médico para então ir embora da sala como um furacão.
Eu não sentia nada e não sabia o que fazer. O médico me disse que era bom o fato de ter-se descoberto isto aparentemente no início e me alertou sobre os sintomas de possível decorrência ao tumor. A perda de peso e a dor eram dois deles.
Até hoje não sei dizer direito o que foi dito, apenas sei que, diferentemente de Milo, não consegui reagir. Levantei, saí, marquei os outros exames com a secretária e me encaminhei para o carro, onde meu amigo esperava de tal forma abalado que sequer olhou para mim quando entrei o veículo.
"Mi..." – eu chamei incerto, mas ele apenas meneou a cabeça, como que para indicar que ouvia. – "Por que você ficou assim?"
Por um momento me senti ofendido com o olhar furioso que ele me lançou ao me ouvir, mas logo ele suspirou nervosamente e tornou a me olhar, desta vez aparentemente perdido. – "Isso só pode ser mentira" – ele murmurou e mordeu os lábios com vontade. – "Não pode ser verdade! Não depois de tudo Di! A gente não tá mais na rua, como você pode ficar doente? Isso tem que ser mentira!"
"Milo..." – não sabia o que dizer a ele. Na verdade eu estava decididamente apavorado com a idéia de ter algo tão errado dentro de mim.
Mas a idéia dele daquele jeito me perturbou. Por que ele tava assim? Eu realmente ia morrer? Era isso? Ele, com suas perguntas descontroladas e reações intempestivas tinha entendido algo que eu não pudera entender?
"... Eu vou morrer, é isso?" – perguntei baixo e incerto, mesmo que me controlasse para não demonstrar o pânico que senti ou as lágrimas que se acumulavam aos meus olhos e as quais aprendi a abominar.
"Você não vai." – ele respondeu absoluto. Tão convicto que soou mais uma ameaça do que uma certeza mesmo. – "Nem ouse pensar nisso, entendeu?" – e dito isso, se virou para o motorista, ordenando um desvio de rota inesperado.
"Milo, eu quero ir pra casa!" – exclamei ansiosamente ao ver o motorista pegar o retorno, para o sentido oposto ao do prédio onde morava.
"Vamos ver o Saga. Ele vai saber o que falar." – murmurou firmemente, tornando a olhar para frente como se não conseguisse mais me olhar.
Tive medo disso. E raiva também. Queria dizer então que eu o perderia? Não para amores ou brigas, mas para uma coisa que crescia descontrolada dentro de mim? Ele era capaz de enfrentar as ruas, ignorar seus sentimentos para com outro para estar ali, mas não era capaz de enfrentar o fato de eu estar com problemas?
Fui eu então que fiz questão de não olhá-lo durante o resto do percurso. E quando chegamos, desci do carro e me encaminhei à entrada do prédio sem esperá-lo. Estava possesso.
E ao fim, o fato dele sequer ter tentado me alcançar me feriu. E se eu fosse morrer? Ele realmente ia me largar, com medo de ter que ver aquilo?
Deve ter sido um tanto ridículo, mas quando - depois de tocar insistentemente a campainha -, Saga apareceu à porta, abrindo-a surpreso, simplesmente se joguei sobre ele, perdido como o garotinho que ele conhecera, não decidido e impossível como o homem que me tornara. Abracei-o fortemente, até sentir a presença dele atrás de mim, quando me soltei subitamente do corpo maior e entrei sem esperar convite.
Ele nos olhou um tanto surpreso - acostumado como estava com a dupla assanhada e inseparável que sempre encontrava -, e arqueou ligeiramente as sobrancelhas. – "Bem, a quê devo a visita?" – perguntou então, cruzando os braços e fechando a porta em um chute discreto assim que meu amigo entrou também.
"Aquela droga de médico falou um monte de bobagens lá" – Milo falou ansiosamente, ao que eu ri sarcasticamente, chamando a atenção de ambos.
"Bobagens?" – perguntei acidamente, virando-me para encarar aquele rosto bonito. – "Quer dizer que se eu vou morrer ou não, pra você é bobagem, Milo?"
"Mo...? Espere, espere... Como assim morrer...?" – ele pareceu surpreso ao ouvir aquilo e olhou severamente de Milo para mim e vice-versa algumas vezes, esperando resposta.
"Você não vai morrer, merda!" – meu amigo me lançou um olhar magoado e tornou ao mais velho, aproximando-se visivelmente nervoso. – "... Droga! Ele tá errado, né Saga? Ele não vai morrer!"
Ele pareceu congelar por um momento, Saga, olhando para algo através de mim antes de voltar a si encarar ao Milo de forma grave. – "O que está acontecendo, exatamente."
Meu Milo o olhou perdido por um momento e guardou silencio, como se lhe fosse impossível falar qual era o problema. O que realmente nunca é fácil.
"O médico encontrou algo no meu rim. Num deles." – murmurei então, percebendo o peso que aquelas palavras pareciam ter. Soavam feias. – "Disse que é um tumor e que preciso fazer mais exames para saber exatamente de que tipo e trata."
"Oh céus..." – ouvi-o murmurar para si e perder-se me pensamentos antes de tornar a si e nos indicar o sofá de sua sala para sentarmos. – "Torçamos para que seja benigno..."
Lembro da tensão geral que se instalou ali por conta daquela notícia e como comentamos pouco e guardamos longos momentos de silêncio e como essa tensão foi-se de súbito à chegada do irmão gêmeo de Saga, Kanon, a quem fomos apresentados a menos de dois meses desta cena. Ele nos cumprimentou, animado, junto a uma caixa de rosquinhas açucaradas e aquela conversa ficou enterrada em meio à descontração agradavelmente ignorante do irmão maroto do homem a quem mais respeito.
E quando fomos embora, Milo e eu, fingimos que nada havia ocorrido até então. Sem más notícias, sem discussões. Apenas ele e eu abraçados, caminhando distraidamente, chamando a atenção dos passantes, como sempre ocorria quando estávamos juntos.
No dia seguinte, acordei com música e um Milo abarrotado de rosas brancas, sentado displicentemente ao pé da minha cama.
Ele não tinha dormido comigo no meu apartamento naquela noite.
"Hey, bom dia dorminhoco..." – ele murmurou em meio a um sorriso lindo e tirou uma rosa ainda em botão do belo arranjo de fitas lilases, estendendo-a a mim. Cheiro de rosas...Ele sabia que eu adorava.
Não respondi, mas não me impedi de sorrir ao vê-lo ali com aquela mesma camisa negra de seda de quando nos reencontramos, os cabelos cascateando por seus ombros e os olhos azuis brilhando vivamente, como se vissem algo realmente especial ali.
"Vamos, levante. Temos café à mesa e depois sairemos." – ele avisou, alargando um pouco mais o sorriso.
"Para que tudo isso, Mi?" – perguntei num sussurro, vendo então aquele sorriso lindo se desfazer lentamente, substituído por um leve rubor.
"Hum... O dia tá lindo lá fora e eu acordei inspirado." – deu de ombros então, como se não fosse nada de mais.
Mas eu sabia que era por causa do dia anterior. E ele sabia que eu sabia, só esperou que eu fingisse não saber e foi exatamente o que eu fiz.
Lembro de ter levantado depressa para fazer a toalete diária, ignorando aquela bendita dorzinha, agora explicada, ao fazê-lo.
Senti-me subitamente animado com a surpresa que Milo fizera e a mágoa pelo dia anterior evaporou-se simplesmente.
Mas durante o banho rápido, não pude deixar de pensar no exame e na história do tumor. Aquilo me assustava, a idéia de doença. De, talvez, ser aberto sobre uma mesa ou mesmo submetido a qualquer tratamento agressivo. De ter que ir novamente para um daqueles lugares, tão similares ao local onde meu irmãozinho morreu.
Eu não queria nada daquilo. Eu queria continuar com aquela vidinha brilhante que me montaram depois de tudo. Queria crescer e brilhar e continuar com tudo o que tinha. Eu sabia que o céu era o limite para mim e não queria ter de largar mão de meu sucesso, vida, amores e carreira para alcançar esse mesmo céu de uma forma mais literal... Ou melhor, alcançar o inferno...
Espantei esses pensamentos ruins de mim e tornei ao quarto com a toalha nos cabelos. Não esperava encontrar meu Milo nu sobre minha cama, agora repleta de pétalas brancas, em contraste aos lençóis azuis de seda.
"Surpresa" – ele murmurou em meio a um sorriso cafajeste e bateu suavemente no colchão, ao seu lado, num convite mudo.
"Acordou inspirado, é...?" – repeti em meio a uma risada suave. Ah céus, que delícia que era acordar assim...
"Muito..." – ele concordou, deitando-se de lado então, para melhor me ver. – "Gostou?"
"Vou gostar sim, pode ter certeza..." – suspirei enquanto me punha também sobre a cama e, quando seu corpo forte cobriu o meu, não pude impedir-me de morder meus lábios suavemente.
"... Di, eu falei sério naquele dia... Vamos morar juntos?" – ele sussurrou isso, enroscando suas pernas nas minhas e não pude deixar de pensar naquele dia, quando havíamos sido interrompidos acidentalmente por Camus.
"Sacana..." – eu disse baixinho, olhando-o bobamente enquanto acariciava seu rosto. – "Vai falar disso agora, assim...? Você sabe que negar se torna algo complicado para mim nessas situações intimas..."
"Ah, fala que não ia gostar de acordar assim todos os dias..." – ele me desafiou, sorrindo ladinamente quando suspirei ao sentir sua mão quente tocar, maliciosa, a minha cintura.
"Mi..." – ainda assim tentei retrucar, ressabiado.
"Esquece o resto Di. Só... pensa a respeito, tá?" – sua voz soou um tanto pedinte ao dizer aquilo, mesmo que seu rosto não transparecesse nada. E foi então que percebi que, antes de mais nada, ele não estava agindo em sua pressa habitual, mas sim me tocava com cuidado. Devia estar com receio de me pegar de jeito depois da notícia da doença. Talvez pensando se aquilo não me causava dor, sem pensar que em nossos jogos, prazer e dor andavam de mãos dadas.
Não respondi ou perguntei nada. Somente pus meus lábios aos dele, incitando-o a tocar e dominar como sempre. Tão doce, malandro e apressado como lhe era comum.
Depois do "café-da-manhã à grega", nós comemos algo efetivamente e nos lavamos outra vez, saindo então simplesmente para ver as ruas.
Fazíamos... Fazemos muito isso, ainda hoje. Ver aquelas ruas que nos eram tão conhecidas com certa familiaridade e estranheza, andando de mãos dadas como que para não esquecermos de que tudo o que passou, que foi deixado pra trás, nós passamos juntos...
Senti-me até mesmo culpado por ter pensado que ele fugiria de mim pelo que quer que fosse, afinal depois de tudo ainda estávamos lá, caminhando de mãos dadas.
Insisto somente mais uma vez, não digo isso como se fôssemos um casal apaixonado, entenda. Vai muito além disso, o que temos e passamos.
Talvez não seja exatamente exagero dizer que somos a vida um do outro. Meu mundo não existe sem ele e talvez tenha sido essa recíproca que o tenha desesperado tanto. A idéia de acordar um dia e não saber onde me encontrar, por eu não mais estar ali. Por não mais existir...
Sei que naquele mesmo dia nos isolamos do resto do mundo. Sem trabalhos, amigos ou o que quer que fosse. Só desligamos nossos celulares e fomos a lugares baratos e medíocres para não nos esquecermos de que antes de tudo era aquilo que éramos: baratos e medíocres.
(TBC)
