Ele veio a mim e tenho certeza que teria tentado algo de mau se eu não estivesse junto ao meu guarda-costas.
Por causa desse encontro eu digo: ele é definitivamente louco.
Disse-me na maior cara-dura que desejava sinceramente que eu morresse na cirurgia e quase fez com que Aldebaran partisse para cima dele de tão indignado que ficou com o que ele dizia.
Mas apesar do peso daquelas palavras eu apenas ri e disse-lhe que, se eu morresse mesmo, o aguardaria no inferno para fazer com que pagasse por tudo.
"Demônio." – ele me disse com asco. – "Devia ter cortado sua garganta com aquela tesoura. Logo que te vi eu sabia que não passava de uma coisinha ruim, revestida nessa carne bonita só pra destruir a todos. Tenho nojo de você."
"Nojo?" – eu apenas ri mais, respirando fundo a fim de me controlar, ao lembrar da humilhação daquilo tudo. Do medo. O que me sujeitava no passado era o que eu mais desprezava no presente. Eu não permitiria mais que quem quer que fosse tentasse me rebaixar. – "Não foi o que pareceu. Estava bem animadinho com o putinho de rua, 'miserável e medíocre', como disse... Sabe? Quem merece o inferno é você, que é incapaz de admitir que foi a sua estupidez que me colocou onde estou e que o desmoralizou como desmoralizou. Incapaz de admitir que hoje sou tão melhor que você, que isso o incomoda. O demônio aqui é você, baixo o bastante pra atacar um garotinho, se aproveitando por ser mais forte. Patético."
Não posso esquecer do ódio dele, das imprecações, das ameaças, da cólera de meu segurança e do profundo ataque de riso que me acometeu. Lembro do vazio que senti depois de tudo e de como aquelas lágrimas ocasionadas pelo riso tornaram-se amargas e como as engoli forçadamente.
De como a lembrança do que eu disse me soava perfeita. Era tudo o que gostaria de ter dito.
Mas jamais seria capaz de me manter indiferente às palavras dele. Aquele desejo sincero de que tudo desse errado e que eu morresse. Que tudo acabasse e eu pagasse por tudo o que sequer fiz.
Talvez seja bobagem contar isso... De alguma forma, tudo isso me soava mais importante antes de ser dito. Mas foi com isso em mente que fui até Milo mais uma vez. Senti-me arrasado por algum motivo e tudo o que mais queria era vê-lo e sentir seu cheiro.
"O que o trás aqui há essa hora...?" – ele questionou assim que me atendeu, lá pelas dez da noite. Estava só de toalha e logo percebi que havia alguém lá dentro.
"Dispensa quem quer que seja agora" – disse apenas, entrando naquele lugar conhecido como se realmente morasse ali e encontrando um rapazinho consideravelmente bonito, a quem ignorei sem o menor receio.
Fui direto para seu quarto, sem o menor interesse em saber como ele faria para dispensar o rapaz, mas pouco me importava também... Ficar sozinho me incomodava e aquela sensação horrível de ser menos que um objeto logo me tomou, amarga e inverídica. Respirei fundo, percebendo a cama bem feita e limpa. Aparentemente eles não tinham aproveitado nada... Pobre Milo.
"Tá, o que que houve?" – ele perguntou, se escorando no batente da porta e cruzando os braços daquela forma irritante.
Mas eu apenas tentei enxergá-lo realmente, enquanto meus olhos embaçavam mais e mais. Sei que ele caminhou até mim, mas não consegui ver.
Senti raiva daquela vontade louca de chorar, repulsa, mas não sabia o que fazer se não chorasse só daquela vez.
"... Di..." – seus dedos quentes tocaram meu rosto e me forcei a vê-lo ali, preocupado.
Sabe, agora pensando... Deve ter sido até engraçado, a forma súbita com que arranquei aquela droga de toalha ou como o empurrei para a cama, bruscamente.
Ele ficou realmente surpreso. Tentou sentar novamente, mas o impedi, colocando-me sobre ele e fitando-o desolado e assustado como a muito não me sentia.
Eu tinha medo e não queria morrer. E saber que realmente haviam pessoas desejando isso tão profundamente me atingiu então, através da brecha do medo.
"Di..." – ele sussurrou e colocou sua mão quente sobre meu rosto, acariciando-o em conjunto ao seu olhar. – "Você é meu, Di. Não vou deixar nada acontecer contigo entendeu? Nunca."
Senti a primeira lágrima escorrer pateticamente por meu rosto e segurei sua cintura pouco delicadamente com uma das mãos, enquanto dobrava-me nos cotovelos para poder enterrar-me em seu pescoço e ter finalmente seu cheiro.
Pude sentir então seus dedos abrindo os botões de minhas roupas e com calma o ajudei a se livrar delas e quando estava novamente sobre ele, nu, ele estava inegavelmente excitado. Mas não havia malicia quando tocou minha cintura também.
Foi uma sensação boa, gostosa, quando senti-o roçar aquele nariz lindo dele no meu pescoço com calma e carinho e quando seus lábios tomaram lugar nas carícias, senti-me arrepiar.
Ou quando ele inverteu as posições e pôs-se sobre mim, mais ou menos como eu havia me posto sobre ele. Seus cabelos, ligeiramente mais longos, logo se espalhando à minha volta como tanto gostava.
"Nem vou perguntar o porquê de você estar assim, mas não quero que isso se repita nunca mais, viu?" – ele murmurou enquanto acariciava minhas bochechas, limpando parte das lágrimas que ainda escorriam. – "Não existe nada que as mereçam Di."
Respirei fundo e concordei. Sentia-me novamente um molequinho de rua, não o homem que me tornei. Mas de alguma forma aquilo não parecia ruim ali, com meu amigo por testemunha.
Deixei seus dedos acariciarem meu pescoço e rosto com cuidado e então tomei uma daquelas mechas cacheadas nos dedos, ouvindo-o rir aquela risada gostosa que só ele tinha.
"Por que você sempre me descabela?" – ele inquiriu sem real intenção de receber qualquer resposta.
"Somos da mesma laia... não é...?" – murmurei por nada, levando então aquele único cacho aos lábios, sentindo então a textura sedosa daqueles fios com a pele sensível. Ele riu um pouco mais.
"Somos sim. Exatamente da mesma laia..." – ele sussurrou numa voz doce e delicada e roçou seu nariz perfeito na minha bochecha, acompanhado por um beijo suave. – "Farinha do mesmo saco..."
Suspirei satisfeito ao sentir aquela boca quente em minha testa num beijo casto e tive de rir ao senti-lo sair da posição na qual estava e deitar-se ao meu lado com um sorriso de contentamento nos lábios generosos. Ri porque entendi que o que ele queria naquele momento não era sexo, era me confortar e acalmar. O que posso dizer que conseguiu assim que senti-o comigo.
Ficamos deitados juntos. Abraçados e silenciosos. Depois nos olhamos mais uma vez, para depois nos descobrirmos de novo.
Tudo foi muito gentil e lento. Os toques eram leves e reconfortantes e a falta de malícia por trás deles nos levava a algum tipo de exploração infantil à qual nunca atinamos, uma vez que nunca pudemos ser infantis, mesmo quando crianças.
... Sabe? Depois de dizer isso tudo, acho que entendo um pouco o que parece. Soa meigo, não? Romântico...
Talvez eu mesmo esteja errado. Não temos o que chamam de amizade. Há uma irmandade nisso tudo. Uma cumplicidade e familiaridade que vai além de tudo isso.
Mas creio que dizê-lo como um irmão seria arriscado, já que em nome da ética e da moral, dois irmãos não podem se conhecer intimamente como eu e ele bem nos conhecemos.
E isso me deixa sem definições melhores e acabo sem ter como explicá-lo. Me restando apenas sentir.
De resto, poderia apenas citar sintomas, exames, preocupação e outros momentos - dias ou noites -, com meus hábitos...
Talvez tenha a citar uma noite solitária há alguns dias, quando me tranquei em pequenas lembranças do que foi minha família,antes de tudo o que já contei.
Eu havia procurado e encontrado coisas referentes aos Ekberg... Não tinha parentes vivos.
Havia conseguido fotos e documentos. Jornais e depoimentos acalorados de supostos amigos de meus falecidos. E com tudo o que consegui, montei uma lembrança física: uma grande caixa de madeira envernizada e antiga, onde guardava cada uma daquelas lembranças.
Sei que estava sentado perto da sacada, olhando uma foto onde eu aparentemente corria em torno do homem que foi meu pai, enquanto a esposa se aproximava apressada, provavelmente sem perceber que o tempo da máquina se esgotara.
Meu pai fora bonito, mais até que a esposa, com seus olhos expressivos e boca fina. Mas ela, minha mãe, possuiu um nariz pequeno e bem proporcionado ao qual herdei aparentemente, em contraste ao dele, maior e mais marcado, mesmo que combinasse tão bem com ele.
E percebi que aquele menininho, aquele eu, parecia feliz. Leve. Satisfeito em apenas correr e correr em volta do homem, bem como um pateta.
Foi então que percebi: Esse menino era Alexander Ekberg, não eu. Talvez Alexander fosse aquele que eu deveria ser, mas não era eu. Eu não era inocente há muito tempo. Eu não sorria puramente mais e em minhas lembranças, na verdade, sequer fizera isso um dia!
Tudo referente àquela vida havia sido apagado e no lugar colocou-se um órfão. Menino de rua e prostituto que, daquela vida, só sabia o cheiro das rosas e o que se lembrava vagamente da escola.
Será que eu teria sido amado se fosse tudo diferente? Será que teria um futuro brilhante e sequer um dia pensaria na fome, no frio? Na miséria? Será que eu teria uma namorada, ou talvez fosse um pai de família?
E percebi então que não valeria a pena, ser feliz e alheio ao sofrimento dos outros. Ser verdadeiramente medíocre, fútil. Não conhecer a vida. Não saber apreciar os toques firmes e possessivos de um homem. Não conhecer Milo. Não estar pronto para os baques e as rasteiras que a vida te dá. Me desesperar com nada e sofrer por masoquismo ou falta de preparo. Afinal, as pessoas que sempre tiveram tudo não sabem lidar com a perda.
Talvez... eu mudasse tudo, caso pudesse, mas talvez eu enfrentasse tudo de novo uma vez mais.
Acho que seria a escolha certa a se fazer, não é? Como acho que foi a escolha certa, vir aqui e contar tudo isso e fazer, talvez, que alguém entenda que ninguém que tem mais que nada é realmente infeliz.
... Acho... que meu "desapaixonado e vazio" é isso. É alcançar essa nova visão de mim. Entender que jamais seria eu se fosse diferente.
E assim até o terror da morte parece menor... Mais fácil de enfrentar, afinal ainda há muito pela frente e eu que não quero perder isso.
Acho que Milo conseguirá me agüentar mais um pouco, por que não? Acho que existem pessoas demais que passam por isso ou similares e estão aí... Acho que estou pensando demais e que isso nada tem a ver com minha entrevista.
Mas creio... Que seja isso... Não um ponto final, mas uma vírgula.
Uma pequena memória da minha vida.
(T.E)
Obrigada a quem leu essa história e sinto muito pela demora filhadaputa para publicar o ultimo capítulo (terminado a mais de um ano e publicado no Nyah... Ah, desculpem mesmo, foi ridiculamente cretino isso!).
Espero que mesmo infinitamente tarde, ainda assim alguém se lembre dela e leia esse final, pois realmente deixá-la em aberto foi cretino na minha parte. Não peço reviews exatamente por isso, não tenho esse direito depois de tanto tempo, mas espero que leiam.
Desculpe por isso e mil beijos para vocês viu?
Nunca mais farei isso, digo em minha defesa! xD
beijos!
