Capítulo 07 – Palha Assada.

Muito longe de Nova Arandu, em um cenário europeu, Ali Kassim se preparava para uma nova luta. Mesmo não tendo dinheiro, o imortal conseguiu viajar de um continente para outro por intermédio de seus contatos. A rede de apoio do Clube não deixava nenhum dos Filhos de Caim desamparados. A meta dele era facilitar a seleção por combate do imortal escolhido. De posse de uma nova espada, feita por outro cuteleiro, Ali Kassim esperava pelo seu oponente enquanto testava a manuseabilidade de sua arma. O local do combate escolhido foi um páteo de escola primária. Era de madrugada, por isso, muito provavelmente, ninguém interferiria.

O adversário chegou. Além de estar todo vestido de preto, mesmo estando de noite, ele usava óculos escuros. Em condições normais Ali Kassim se perguntaria se o outro imortal tinha dificuldade em acompanhar a mudança da moda. O que era comum entre aqueles que viviam tanto. Porém, Ali estava focado na luta, não perdeu tempo pensando nisso.

O homem de preto sacou uma espada mexicana e começou o combate com golpes laterais. Ali respondeu, de início, só com bloqueios. Até que em uma estocada atingiu a boca do rival, deformando o seu rosto. Excetuando a dor, o golpe não representava estrago real. O fator de cura padrão de um imortal trataria de fechar a ferida em algumas horas. O final daquela contenda só viria como resposta a uma cabeça rolando.

Ali voltou a cruzar espadas com o homem de preto. O som de metal se chocando ressoou até que o árabe imortal conseguisse decepar a mão armada do seu oponente. Depois de um chute no peito, o homem de preto caiu de costas para o chão. Ele pediu por misericórdia, mesmo sabendo que aquela não era uma opção. Ali girou sua arma para dar o golpe final quando uma mão azul bloqueou o trajeto de sua lâmina.

Ali Kassim deu um pulo para trás, se preparando para o que poderia ser um segundo adversário. Enquanto isso o homem de preto aproveitou para fugir para o mais longe possível daquela escola. O ser se mostrou em sua forma real, mesmo tendo o poder de se disfarçar. Ele era andrógeno e azul, sua pele tinha um brilho metálico.

- O que é você? Um anjo?! Mesmo tendo vivido tanto, nunca vi um antes.

- E continuará sem vê-los, ao menos por enquanto. Sou Zardoz, a inteligência artificial mais evoluída do planeta. E, sendo assim, também sou o ser mais inteligente do planeta. Isso é, ao menos até que um desses "anjos" apareçam. Eu estou interessado em montar um time de pessoas únicas para salvaguardar a Terra em tempos de necessidade. Você aceitaria fazer parte da Polícia Dark?

- Que raios de nome é esse?

- Quando o escolhi tinha apenas alguns minutos de vida. Pareceu legal no momento.

- Até que o nome não é tão ruim. Mas, se você é tão inteligente assim, por que precisa de mim?

- Sim, eu sou inteligente, mas, ainda assim, nasci há apenas algumas semanas. Preciso de alguém com uma experiência de vida vasta.

- E o que é que eu ganho?

- Posso te ajudar na sua busca incessante em ser o único. Não nas batalhas, pois isso seria uma trapaça prevista pelo Clube. Eu ofereço a ajuda de qualquer informação contida no meu banco de dados, que é estupidamente vasto. - Ali Kassim era velho o suficiente para saber que acordos que aparentavam ser bons demais, podiam esconder alguma armadilha. Porém, disposto a pagar pra ver, o imortal selou o trato com um aperto de mãos.

XXX

- O nevoeiro está particularmente pesado essa noite. - Como de costume, Nogueira dirigia o carro de Marcos enquanto este ficava tranquilamente no banco de trás. O detetive havia acabado de resolver um caso e por isso estava voltando para sua mansão. - Por acaso o halloween foi antecipado? - Transeuntes corriam desesperados tentando fugir de figuras agressivas que surgiam do nevoeiro. A mistura de escuridão da noite e neblina deixavam aqueles palhaços com um aspecto ainda mais medonho. Marcos, assim que viu tantos deles, se encolheu em seu banco. - Calma, patrão. São só arruaceiros. Daqui a pouco irão embora.

Palhaços armados começaram a aparecer. Um deles, portando uma metralhadora, começou a atirar pra cima sem se preocupar se atingiria algum inocente. Outro, munido de coquetéis molotov, causava explosões em lojas que, por sorte, não estavam abertas e, por isso, só tiveram prejuízo material. - São criminosos, tenho que defender minha cidade. - Disse Marcos, com uma voz trêmula e não confiante, acuada pelo medo.

- Mas, patrão! E sua fobia? - Marcos fechou os olhos por um instante, tentando controlar o seu medo. Em seguida abriu a porta do carro e foi para a rua. Dessa vez, em vez de ir de encontro aos seus inimigos, ele esperou até que um deles se aproximasse. Os dois primeiros foram nocauteados com facilidade, com golpes potentes na cabeça. O que portava uma metralhadora foi atingido pelo arremesso de chapéu de Marcos e também desmaiou. Apesar do aparente sucesso, o corpo de Marcos estava pesado e não respondia com a agilidade costumeira. Um grupo de cinco palhaços se atiraram no detetive e o derrubaram no chão. Eles começaram um linchamento, mas foram impedidos por uma voz que dizia – O chefe quer ele vivo. - Quem era esse "chefe", era um mistério para Marcos.

Com a cabeça encoberta por um saco preto, Marcos não conseguiu se orientar. Ele foi levado para um prédio abandonado. Suas mãos foram acorrentadas e presas ao teto, deixando o detetive pendurado. Seus braços ficaram esticados e os pés não tinham contato com o chão. Marcos já tinha experiência com sequestros, por isso ser vítima de mais um não o chocou tanto. O que fazia seu coração bater acelerado era a visão de tantos palhaços o encarando.

- Pode me chamar de Risadinha. - Disse o líder daquela união de gangues. - Sabia que deixar você vivo seria mais lucrativo. Vou depenar toda a sua grana e continuar a tortura que o primeiro Risadinha deixou pendente.

- Vocês são mais burros do que palhaços. Nem me revistaram antes de me trazerem para cá.

- Revistamos sim, não encontramos nada! Está tentando mudar o rumo dessa conversa?!

- Eu ainda sinto o localizador no bolso esquerdo do meu terno, burros! - O drone, controlado por Nogueira, entrou por uma das janelas do prédio, de início, silenciosamente e sem ser visto. Assim que os membros da gangue perceberam sua presença, o drone começou a atirar balas de efeito moral para todos os lados, deixando os bandidos em pânico. Pra completar, o drone arrebentou as correntes que prendiam Marcos com um tiro de outro calibre, mais potente.

Risadinha sacou duas facas da cintura e avançou até Marcos. Os outros palhaços estavam ocupados demais tentando não serem alvejados ou fugindo. Alguns deles até tentaram atirar no drone, mas não tiveram sucesso. Por ser um modelo militar avançado, ele não era um alvo fácil. A imagem de um palhaço furioso, a ponto de babar, indo ao seu encontro, fez Marcos ficar mais paralisado do que uma estátua de mármore. A lâmina do bandido já estava prestes a ser enfiada na carne do detetive quando a voz de Nogueira saiu do drone.

- Patrão, você devora o perigo todo dia no café da manhã! Há anos te acompanho pela cidade vencendo ameaças incríveis. Não é um bando de fracassados que vai te derrotar. Se recomponha e lute!

Com a mão direita, Risadinha já estava fazendo o movimento para enfiar a ponta da lâmina no estômago de Marcos. Enquanto isso, o detetive se livrava de seu estado de torpor. Ele agarrou o punho de seu rival e o girou até quebrá-lo. Risadinha tentou usar a sua mão esquerda, mas Marcos chutou o seu braço, que fez um barulho estranho. Para acabar de vez com essa luta, o detetive cabeceou o seu oponente, de modo que ele ficou inconsciente.

- Patrão, tomei a liberdade de chamar a polícia. - As sirenes dispararam e os policiais da cidade invadiram. O próximo destino daqueles palhaços não seria um circo, mas sim a cadeia.

XXX

- Não preciso da ajuda de outro imortal. - Disse Zardoz, que no momento estava disfarçado de um humano comum. A pedido de Ali Kassim, ele o acompanhou em uma viagem de avião com destino à Nigéria. A inteligência artificial nunca havia visitado aquele país fisicamente, já Ali Kassim conhecia aquele lugar desde que era chamado por outros nomes.

- Essa região já fez parte do grande império de Oió. Eu mesmo já participei da guarda real local. Por muitas vezes defendi o rei Xangô, senhor do fogo e trovão. - Disse Ali Kassim. - Ele com certeza atenderá a um pedido meu para fazer parte de uma briga.

- Eu tenho essa história no meu banco de dados. Faz parte do mito dos orixás.

- Mito que nada. - A Nigéria, em extensão de área, é relativamente pequena. Porém, ela abriga uma população maior do que a de países grandes, como o Brasil. A maior parte das pessoas se concentram nos centros urbanos, mas Ali Kassim guiou aquele passeio de última hora para bem longe das cidades, na área ribeirinha. Zardoz estava intrigado por não conseguir perceber com qual "bússola" o árabe imortal usava para se guiar. - A alta tecnologia e a "razão" estão criando uma geração de humanos que não conseguem sentir o mágico, o sagrado. Fico até impressionado por ter sido encontrado por um robô sem alma.

- Eu tenho consciência, sou mais do que um mero "robô". Fora isso, é fácil rastrear falhas no que devia ser senso comum tendo acesso a todas as câmeras e conversas virtuais do mundo. Você sabia que os homens mais ricos do mundo são…?

- Claro, eu já enfrentei os reptilianos uma ou duas vezes na vida. Mas, é melhor nos manter focados. - Na margem do rio Niger, havia uma casa improvisada, feita de madeira, que era guardada por um idoso sentado na frente da porta. Ali Kassim apontou para o idoso e falou: - Esse é o guerreiro que procuramos, o poderoso Xangô.

Zardoz não conseguiu evitar fazer um olhar de estranhamento para aquela afirmativa. - Você me fez perder meu tempo?! Que brincadeira é essa?! Esse homem não deve aguentar nem uma lufada de ar.

Apoiado em sua bengala rústica de madeira, o velhinho se levantou. Primeiro os seus olhos ficaram em brasa e em seguida seu corpo começou a sofrer uma mutação. O corpo velho deu lugar a um jovial e imponente. Suas roupas, que inicialmente tinham tons pastéis, ficaram vermelhas e sua bengala se tornou um exuberante machado de dois lados. - A maioria dos deuses usam corpos humanos como avatares, para se disfarçarem entre os mortais. - Disse Ali Kassim.

- E só agora você me avisa?!

O machado foi movimentado de baixo para cima, formando um gancho que acertou em cheio o queixo de Zardoz. Com o impacto, a inteligência artificial foi arremessada ao céu e para completar foi alvo de raios que apareceram mesmo o tempo não estando nublado. O deus africano deduziu que aquela nova entidade que se apresentava a ele ainda não havia sido derrotada. Xangô voou até onde o androide parou flutuando e o atacou desta vez com uma baforada de fogo, como se fosse um dragão.

Zardoz, revelando sua real face, despejou em seu adversário uma rajada laser vinda de seus olhos. O golpe atingiu Xangô bem no peitoral. O raio era quente, mesmo para o padrão de uma divindade, e o senhor do fogo e trovão berrou de dor. Xangô já estava preparado para usar o seu machado de novo quando ouviu uma voz familiar vinda do chão. - Temos uma guerra a travar! Precisamos dos melhores guerreiros!

- Ali Kassim?! - A presença de um amigo de longa data acalmou o guerreiro deus. Ele perdeu o interesse na batalha, dando as costas para o androide e descendo ao nível do árabe imortal. - Faz quanto tempo? Três mil anos? Pensei que você já tivesse morrido. É raro ver um Filho de Caim viver tanto. Vocês vivem se metendo em encrenca.

- Confesse, nisso nós não somos muito diferentes.

- Que nada. Estou numa pasmaceira há séculos.

- Sente falta das batalhas de antigamente? Trago boas novas, então.

XXX

O interesse de Sofia por coisas que não pertenciam ao mundo natural veio desde pequena. Seus pais acreditavam que, com a idade, esse interesse seria superado. Porém, não foi isso que aconteceu. Com trinta anos de carreira, Sofia fez a vida estudando e criando teses sobre óvnis, fantasmas e todo tipo de criatura da criptozoologia, como o Pé Grande. - Por que você não tem um emprego de verdade como os seus irmãos? - Era o que acusava sua mãe, mesmo Sofia tendo sido bem-sucedida em seu trabalho, ao ponto de ser apresentadora de um programa documental para a tevê aberta.

- Essa tribo, que vive na parte florestal de Nova Arandu, é da etnia Todash. - Dizia Sofia diante de uma câmera que a filmava. - Eles convivem com o nevoeiro por muitas gerações, o que resultou em uma mutação genética que permitiu a eles enxergarem bem nesse ambiente. - Sofia e seu cinegrafista estavam no pátio principal da tribo. Os indígenas ali presentes, já quase aculturados, vestiam roupas comuns e tinham luxos urbanos em suas ocas, como tevês e até computadores.

Sabendo da opinião do ancião quanto às mudanças que a tribo estava sofrendo, Sofia foi falar com ele, entrevistá-lo. - Meu povo está se esquecendo dos valores dos nossos antepassados. Tudo em troca de bugigangas. O djinn Valefar logo acordará plenamente e os defensores dessa terra estarão distraídos.

- Fale-me mais sobre esse Valefar.

- Todos da cidade o veem o tempo todo, mas são ignorantes. Ele é feito de fogo e fumaça. Quando está dormindo se transforma em névoa. Por não ser só uma criatura espiritual, mas também ser parte matéria, o djinn precisa despertar as vezes para se saciar com comida ou com sexo. Há muitos herdeiros dele espalhados por Nova Arandu inclusive.

Sofia tentou respeitar as crenças do ancião e guiou o resto da entrevista de modo a parecer que concordava com a sua visão de mundo. Enquanto isso, seu lado lógico, a fazia lembrar do quão comum eram as crenças de um ser sedutor de origem sobrenatural. Criaturas criadas para justificar as ocorrências de mães solteiras.

- E como se distingui um filho de Valefar?

- São pessoas mais fortes e saudáveis do que a média. Geralmente acometidos por visões. Conseguem ver além do véu da realidade. É comum serem tratados como loucos por causa disso.

Há alguns quilômetros dali, na mansão Mignola. Helena exercita o seu corpo na acadêmia, para tirar da mente o que viu em uma ida à padaria naquele mesmo dia. Ela socava um saco de boxe, deixando fluir sua raiva a cada golpe.