Capítulo 14

Cheguei ao consultório, estava nervosa. Fazia muitos anos que eu não ia a um médico trouxa. A secretária pediu que eu aguardasse, me serviu chá. Depois de dez minutos, a secretária pediu que eu entrasse na sala. Entrei.

"Só um minuto!" Disse o médico de costas. Estava guardando alguma coisa num armário atrás de sua mesa. A sala era grande, e bem decorada. Finalmente o médico se levantou e veio me cumprimentar.

"Bom dia Srta. Granger, eu sou o Dr. Richard Baker."

Ele tinha no máximo trinta e cinco anos. Seu currículo era de dar inveja. Formou-se em medicina em uma das melhores faculdades da Escócia, e era formado em psicologia pela Universidade de Oxford. Tinha inúmeros trabalhos publicados em revistas médicas. Ficava mais segura com pessoas inteligentes. Ele era alto, um pouco mais baixo que Ron. Tinha uma expressão madura, mas juvenil. Tinha os cabelos pretos, assim como os olhos e a barba cerrada.

"Fique a vontade." Ele disse me apontando um sofá. Ele sentou-se em uma poltrona na minha frente, apoiou a canela no joelho da outra perna, deu um clique em sua caneta e voltou a olhar para mim. "Então, Srta. Granger, por que está aqui?"

Não tinha me dado conta como era difícil explicar o motivo da consulta. Eu respirei fundo. "Estou com amnésia." Respondi sabendo que não era exatamente o que ele queria saber, e que não teria como fugir da real resposta. E estava certa, ele continuava a me olhar, mas não dizia nada, esperava que eu continuasse. "Ah. Eu... fui estuprada e quase morta." Disse tão rapidamente que nem consegui me entender.

Ele olhou para mim com outros olhos, mas continuou em silêncio.

"Eu não me lembro de nada. Nem gostaria de me lembrar..." Disse com lágrimas nos olhos e a voz trépida. "Mas é a única maneira de descobrir quem fez isso comigo."

"Ok. Já demos um passo importante." Disse ele sorrindo e eu levantei uma das sobrancelhas sem entender. "Já sabemos que você não quer se lembrar, mas também sabemos que você tem um motivo para tentar, acho que precisamos primeiro trabalhar esse motivo." Explicou ele. "Por que você quer descobrir quem fez isso com você?"

"Como por quê? Porque ele tem que pagar pelo que me fez!" Respondi exaltada. Mas depois que terminei a frase algo aconteceu. Nunca fui vingativa. A verdade era que não queria que Ron cotinuasse se sentindo culpado. O Dr. Baker continuava me olhando e podia ver o que acontecia na minha cabeça. "Meu noivo, ele acha que é culpa dele." Respondi e ele acenou com a cabeça. E novamente eu parei para pensar. Como uma explosão a resposta veio na minha cabeça: eu não queria que ninguém mais passasse pelo que passei. "Não posso deixar que ele ataque novamente."

Agora ele sorria. "Então, você continua não querendo se lembrar?"

Entendi o que ele tinha feito. Era impossível não querer me lembrar agora. Compreendendo que outras podiam passar pela mesma coisa, ou pior, eu tinha que fazer tudo que podia para impedir que isso acontecesse. "Não, eu preciso me lembrar. Por mais doloroso que isso seja." Eu estava exausta. Os quinze minutos que tinha passado dentro do consultório pareciam ser horas.

Dr. Baker pareceu entender. "Você pode se deitar se quiser." Disse ele levantando e trazendo um copo de água. Ele me entregou o copo e nossos dedos se tocaram, e eu corei.

"Vou te explicar como vamos fazer isso." Disse ele depois de se sentar novamente. Eu ainda continuava sentada, bebendo o copo d'água.