Na manhã do dia seguinte, Amy já estava acordada, com um pouco de sono evidente e constantes bocejos. Haviam voltado para seus quartos apenas à uma da manhã. Bem tarde para um casal que acabara de oficializar o namoro. Isso se oficializar pudesse condizer com o fato de ganhar um anel mesmo que apenas eles soubessem do namoro.
Amy ainda estava tentando terminar de ler o livro - nunca em sua vida ela havia demorado tanto para ler um livro - quando alguém bateu na porta. Ela sorriu até porque já sabia quem era e já sabia também que não conseguiria terminar mais uma vez aquele livro naquele momento. Ela foi abrir a porta que já estava sendo arranhada por Buddy.
– Oi.
– Bom dia – Ian desejou, educado como sempre. Quer dizer, agora ele estava sendo genuinamente educado. – Tudo bem, Buddy? – ele falou com o cão.
– O que você está fazendo aqui? Será que não dá pra você deixar eu terminar de ler este livro que eu estou enganchada a uma semana? – ela brincou.
– Prometo que não vou lhe decepcionar. Você pode terminar de ler depois, ele não vai sair correndo, eu prometo. Venha. Quero lhe mostrar uma coisa.
– O que é dessa vez?
– Uma surpresa.
– Outra? – Amy perguntou, brincando, ainda que um pouco curiosa. Já havia tido tantas surpresas em tão pouco tempo vindas dele. Girou inconscientemente o anel recente que se encontrava no anelar direito. Na noite de ontem, mesmo, havia recebido a nomenclatura de namorada além de boas risadas em um jantar quase romântico, que teria acontecido se Ian não tivesse derrubado toda a comida no chão. Na tarde anterior ele havia tocado e cantado para ela uma música que não podia ser mais adequada. E agora, com um intervalo de apenas uma noite, lá estava ele lhe falando de outra surpresa.
Ian deu um risinho.
– Acontece que essa eu não planejei. Foi surpresa até pra mim. Vamos.
Eles foram, deixando Buddy, a muito contragosto, dentro do quarto.
– Se lembra que ontem você me disse que seria bem melhor se tivesse um caminho que descesse ali e cruzasse o jardim?
– Sim.
– Resolvi seguir o seu conselho e mandei o sr. Foster tirar aqueles arbustos dali e veja só o que ele achou.
Eles estavam no jardim e ela olhou os degraus de pedra polida. O jardineiro, que ali se encontrava, deu uma pequena risada.
– Parece que a senhorita vai voltar aos velhos tempos – o sr. Foster brincou, sorridente. Ele era simpático. Um pouco idoso e talvez um pouco sentimental demais com as plantas. Tinha apertados olhos azuis.
– Velhos tempos? Como assim? – ela perguntou confusa.
– Eu encontrei uns degraus antigos. Veja, é bem por aqui que eles passam, bem como a senhorita queria. Mas alguém cobriu tudo e plantou em cima.
– Foi uma ideia estúpida. Quem não ia querer ter uma vista do gramado e do mar na janela da sala?
Foster não entendeu direito qual era a importância da vista, mas assentiu, relutante.
– Veja, não estou dizendo que não vai mudar para melhor... A senhorita ganha a vista, e os arbustos estavam mesmo deixando a sala escura. Mas eles estavam uma beleza, nunca vi forsítias tão viçosas. Os lilases não são grande coisa, mas as weigelas custam caro, e veja, elas estão velhas demais para replantar.
– Ah, eu sei. Mas assim está muito, muito melhor.
– Bem – Foster coçou a cabeça –, talvez esteja.
– Faz mais sentido assim – Amy falou, assentindo com a cabeça.
Eles se despediram do sr. Foster e voltaram para a casa.
– Realmente, ficou bem mais claro aqui dentro – Ian falou satisfeito com a sugestão de Amy. – Ficou ótimo – ele disse sorrindo para ela.
Era engraçado. Amy não se sentia uma estranha na casa. Era como se ela fosse parte dela. Não queria ter se metido naquilo, ficava parecendo que ela era tão dona da casa quanto Ian - e ela não era. Sabia bem o seu lugar lá. Mas não havia aguentado simplesmente ficar calada enquanto aqueles arbustos tiravam um ótimo espaço para um caminho ao mar...
– Vamos dar um passeio? – Ian sugeriu.
– Vamos. Já estou fora do meu quarto mesmo – ela ironizou.
Ian riu.
Eles andaram pelo jardim de mão dadas, despreocupados, com aquela cara besta, boba, característica de quem está apaixonado. Acabaram por parar embaixo de um grande e pomposo carvalho. Sentaram-se em sua base e ficaram ali, conversando, abraçados.
– Poderíamos ter trazido Buddy – Amy argumentou.
– Poderíamos, mas não conseguiríamos ficar assim, abraçadinhos como estamos agora.
– É verdade – ela concordou, com um leve sorriso no rosto.
Permaneceram ainda um bom tempo calados, observando a natureza, apreciando a companhia um do outro. Foi Ian quem quebrou o silêncio.
– Sabe, estava pensando, poderíamos ir a Londres.
– Londres? – ela perguntou, fazendo uma careta.
– Sim, Londres. Você nunca conheceu, é uma cidade bonita e eu, particularmente, não aguento mais ficar nessa casa.
Amy permaneceu em silêncio, pesando os prós e contras. Aquele lugar era realmente monótono, mas ela gostava tanto dali. Ela nunca havia conhecido Londres, mas era onde Isabel morava. Era uma cidade grande, mas era a cidade de Isabel. Critério de desempate: Seria mais fácil Isabel lhe matar ali ou em Londres? Resposta: seria fácil em qualquer lugar.
– E então? Vamos?
– Não sei, Ian... Eu gosto daqui, gosto mesmo.
– Bom, se quiser ir, nós iremos. É o lugar que a Natalie mais ama no mundo. Nós ficaríamos na casa de uns primos meus, seria legal, bom para você – ele a olhou nos olhos. Amy pôde perceber que seus olhos estavam preocupados e ela sabia porque. Porque a dois dias atrás ela havia ficado fora de si, totalmente perturbada. Será que ele achava que ela estava louca? Amy abaixou os olhos.
– Ian, não se preocupe comigo. Eu estou bem. Não sei o que aconteceu naquele dia, mas agora eu estou bem. Aquilo foi apenas um momento ruim e ele passou.
– Você tem certeza, Amy? Tem certeza de que está tudo bem? De que realmente passou? De que não quer sair daqui, nem que seja por um final de semana?
– Sim, eu tenho. – Ela tentou dar um sorriso, que saiu meio amarelo. – Não vamos falar sobre isso, tá?
– Você quem sabe.
Ele a deu um beijo na testa.
– Vamos voltar para a casa? – ela sugeriu.
– Vamos.
Levantaram e se encaminharam devagar, sem pressa.
– Vai terminar de ler o livro? – ele perguntou com um sorriso brincalhão.
– Vou tentar. Se você deixar e não aparecer por lá dizendo que tem mais uma surpresa, aí eu finalmente termino.
– Certo. Prometo não lhe interromper – ele brincou, colocando a mão do lado direito de peito.
Eles riram.
-xXx-
"Finalmente" Amy pensou, em um quase alívio. Finalmente havia acabado o livro e Ian não havia lhe interrompido dessa vez. Sorriu ao lembrar do jeito cômico que ele havia lhe prometido não interromper. Mas que final surpreendente! Quem diria que havia sido ele que havia matado o velho ranzinza! "Quem jamais poderia imaginar que aquele velho guardasse tanto sangue dentro de si" ela lembrou da frase do livro, frase original, porém de Macbeth, de Shakespeare.
Levantou-se da cama, triunfante, satisfeita com o maravilhoso quebra-cabeça formado por Agatha Christie. Ergueu o livro num sinal de vitória. Agora devolveria à Andy, afinal o livro era dela.
Já pronta para sair, sentiu algo puxando sua calça. Buddy lhe olhava com aqueles enormes olhos pidões e azuis. Parecia dizer: "Vai sair de novo e me deixar sozinho aqui?"
– Querido, já volto. Eu prometo – disse a ele, fazendo um carinho.
Saiu do quarto e seguiu caminho para a cozinha, onde provavelmente estaria Andy cozinhando. Podia ir falar com Ian depois. Dessa vez poderia ser ela que o convidaria para um passeio. Ou quem sabe ler outro livro? Isso mesmo, pediria à Andy outro livro mesmo que não fosse para ler naquele momento.
Chegando ao fim da última escada, caminhou rapidamente em direção à parede a sua direita e de repente parou, com uma exclamação aborrecida. Já era a terceira vez que fazia isso. Ela parecia pensar que conseguiria chegar à cozinha atravessando a parede.
Fez o caminho certo. Saiu para o hall da frente e dobrou na cozinha. Era uma volta longa e aquilo a incomodava. Por que dificultar se podia facilitar?
"Não vejo motivo", Amy pensou consigo enquanto desprendia a maçaneta da porta da sua blusa que havia prendido sem querer, "não vejo motivo para não abrir uma passagem na parede que separa a sala de jantar da cozinha."
– Oi, Andy – Amy falou, ainda um pouco chateada.
– Oi, querida – Andy respondeu, levantando o rosto da massa de pão que ela amassava.
– Agora você está ocupada, né?
– Estou, mas o que você quer?
– Nada. Na verdade vim devolver seu livro. Ele é ótimo. E queria também lhe pedir para me emprestar algum outro livro, se você puder.
– Claro. Daqui a pouco eu levo para o seu quarto. Não, tenho uma ideia melhor. Vou lhe mostrar a biblioteca daqui. Você vai amar!
Andy continuava a amassar a massa com gosto e Amy continuava a olhar, parada, raciocinando consigo mesma. Nem mesmo havia ficado empolgada com o notícia de uma biblioteca lá.
– Que foi? Está chateada com alguma coisa? Posso lhe ajudar, querida? – Andy perguntou, reparando que Amy continuava lá com aquela cara emburrada.
– Não é nada. Não passa de uma besteira.
– Mas parece que uma besteira bem grande está lhe aperreando muito agora. O que é?
Nesse instante, a sra. Hudson entrou lá e começou a preparar um chá para si. Já estavam perto de cinco horas da tarde e a sra. Hudson não largava o hábito por nada.
– Tudo bem, querida? Precisa de alguma coisa? – ela perguntou a Amy.
– Não, nada. Só estava conversando um pouco com Andy.
– Quer um chá?
– Não, obrigada.
A sra. Hudson continuou entretida com a água para ferver no fogo e qual sabor de chá escolheria. Parecia querer que Andy tivesse feito o pão a um tempo atrás para ela poder comer com geleia, acompanhando o seu chá.
– Então? – Andy voltou a perguntar, já que Amy não continuou a sua narrativa.
Amy bufou.
– Acontece que já umas três vezes eu desço a escada e, em vez de seguir em frente para ir para o hall e só então dobrar e chegar à cozinha, eu viro na parede à minha direita e bato com a minha cabeça nela, achando que sou um fantasma e atravessarei ela – ela falou, um tanto aborrecida.
– Interessante... – Andy pensou alto.
– O quê? – Amy retrucou.
– Eu disse que é interessante porque, se não me engano, já teve uma porta naquela parede que dava exatamente para a cozinha.
– Teve? – ela perguntou estupefata.
– Acho que sim. A Betty deve saber, ela está aqui há bastante tempo. – e virando-se para a sra. Hudson, Andy perguntou – Betty, já não houve uma porta na parede à direita da escada, dando para a cozinha?
A sra. Hudson, que acabava de se decidir entre o chá de jasmim ou o de frutas vermelhas, pegou o de jasmim e colocou-o dentro da água quente.
– Ah, sim... Sim! É claro que teve. Já houve uma porta ali antes, no lugar que fica hoje o quadro de … o quadro de Picasso. Sim, acho que é Picasso. E até ouso dizer que era bem mais fácil do que ter que arrodear tudo isso. Mas um dia alguém não quis mais ela e mandou fechar. Não me lembro ao certo quem foi, mas talvez tenha sido... – ela continuou falando, absorta.
Porém, foi uma surpresa para Amy. "É extraordinário", ela pensou, "que eu estivesse com uma sensação de que sempre houve uma porta ali." Lembrou-se de como caminhava até ela sem pensar, sem hesitar. Lembrando-se disso, sentiu, de súbito, um pequeno arrepio de desconforto. Pensando bem era algo realmente esquisito... Por que motivo ela teve tanta certeza de que havia uma porta ali? Saiu da cozinha, deixando a sra. Hudson relembrando os velhos tempos, e voltou o caminho, parando exatamente onde ela sempre tentava passar pela parede, bem em frente ao quadro de Picasso. Não havia nenhuma marca. Ela alisou a parede. Nem mesmo estava áspera ou em níveis diferentes. Como ela adivinhara - como ela soubera - que havia uma porta bem ali? É claro que seria bem conveniente ter uma passagem para a cozinha, mas por que ela sempre se dirigira de maneira tão decidida para aquele ponto específico da parede? Qualquer espaço da parede que separava a sala da cozinha poderia ter uma passagem, mas ela sempre correra automaticamente, pensando em outras coisa, para o exato local em que realmente houve uma porta.
"Espero", pensou Amy, com desconforto, "espero que eu não tenha algum dom clarividente ou algo assim..."
Nunca lhe ocorrera nada que fosse minimamente paranormal. Ela não era esse tipo de pessoa. Ou será que era? Aquele caminho lá fora, descendo do terraço e atravessando os arbustos até o gramado. De alguma maneira ela sabia que ele estava lá, quando insistiu para fazê-lo naquele lugar específico?
"Talvez eu seja um pouco sensitiva para essas coisa", Amy pensou, com desconforto novamente. "Ou será que é algo relacionada com a casa?"
Por que ela perguntara a Henry, naquele dia, se a casa era mal-assombrada?
Não era assombrada! Era uma casa adorável! Não podia haver nada de errado com a casa. Ora, Henry ficou até um tanto surpreso com essa ideia.
Será que houve um tom de reserva, de cautela, em seu modo de agir?
"Meu Deus do céu, estou começando a imaginar coisas!", ela pensou, incomodada.
Gente!
Para fechar esse final de semana, postei esse capítulo! Pois é, estava inspirada e ele ficou bem grandinho. E então, gostaram? Não gostaram? Algum comentário...? Não sei se vocês perceberam o clima de mistério, mas o tão esperado está começando e mais um pouquinho vocês vão começar a entender o resto - ou não... ou, quem sabe, complicar mais um pouquinho! Amo essas coisas assim, bem bizarras! Mas acho que deu pra perceber! ;)
Reviews please! Obrigada, queridos leitores!
Beijinhos!
