Amy já se encontrava na casa dos primos de Ian. Havia chegado lá antes de anoitecer.
James West e sua esposa fizeram de tudo o que podiam para que a jovem namorada de Ian se sentisse à vontade. Não era culpa deles, mas Amy os encarava com certa desconfiança. James, com sua aparência estranha, que lembrava a de uma ave de rapina, com seu corte de cabelo e seus jorros súbitos de conversação incompreensível, deixava Amy nervosa e assustada. Ambos, ele e Melissa, pareciam falar uma língua que só eles conheciam. Amy nunca penetrara antes numa atmosfera de alta cultura, e praticamente tudo o que eles diziam era estranho.
– Queremos levar você para ver alguns espetáculos – disse Jim, enquanto Amy bebia uma latinha de energético e pensava que o bom mesmo, tendo chegado de viagem, seria tomar um copo de água ou de suco.
Amy se animou imediatamente.
– Hoje vamos ao balé no Sadler's Wells, amanhã vamos comemorar o aniversário da minha tia Rose vendo A duquesa de Malfi e na sexta nós não podemos perder Sem amanhã, traduzido do francês. É sem dúvida o drama mais significativo desde os anos 1940. Está em cartaz no Witmore, um teatro pequeno. Aposto que você nem vai sentir falta do Ian.
Amy ficou muito agradecida por esses planos de diversão. Afinal, quando Ian voltasse, sairia com ela para ver musicais e coisas do gênero. Torceu o nariz, a princípio, para o que leu sobre Sem amanhã, mas achou que pudesse acabar gostando - apesar de saber que era uma tragédia, um melodrama, em que a mocinha ia atrás do amor de sua vida, e que era o que ela menos precisava.
– Você vai adorar minha tia Rose. Todos adoram ela – disse Jim. – Ela é do tipo que eu descreveria como uma perfeita relíquia. Vitoriana até a medula. Todas as mesinhas da casa dela têm as pernas enfaixadas com chintz. Mora numa vila, o tipo de vila em que nada jamais acontece, como num lago estagnado.
– Mas algo aconteceu lá uma vez – Melissa disse, de forma seca.
– Um mero draminha passional, grosseiro, sem maiores sutilezas.
– Você se divertiu um bocado com aquilo, na época – ela lembrou, com uma piscadela.
À luz clara da sala, Amy teve a oportunidade de observar a sua anfitriã com atenção pela primeira vez.
Era bonita, a Melissa. Uma mulher encantadora e belíssima. Os longos cabelos castanhos escuros, ondulados, arrumados com perfeição em cachos num coque, denotavam a sua vaidade. Tinha a tez clara, um nariz garboso e os lábios pintados em um forte tom de vermelho. E no seu rosto brilhavam os olhos mais raros que Amy já vira - de tons quase dourados sob longos, curvados e escuros cílios.
Se o nome tinha a ver com a pessoa, Amy não sabia, mas tinha certeza de que não poderia haver melhor nome para a mulher à sua frente. Melissa, do grego mel, parecia perfeito para a moça cujo os olhos possuíam aquela cor extraordinária.
Ficou a olhá-la por um longo tempo sem perceber. A sua beleza impressionava – mais do que isso, hipnotizava. Reparou em como até o seu marido, cheio de presunção, se derretia quando ela falava com ele. Reparou também no seu modo determinado e nos seus olhos inteligentes e ágeis. "Combina o rosto da mais encantadora das mulheres com o espírito do mais determinado dos homens" lembrou-se da frase que descrevia Irene Adler, 'a mulher', segundo o próprio Holmes.
E lá estava ela, sentada e quieta, observando as metades perfeitas de uma união: a mulher encantadora e determinada que dominava e fazia com que o homem frio se tornasse um doce.
Porém, foi obrigada a voltar à realidade.
– É que eu gosto de jogar um críquete rural às vezes – falou Jim, num tom sério, como se tivesse sido ofendido com o comentário da esposa. Melissa não pareceu se abalar.
– De qualquer jeito, a tia Rose se destacou com aquele assassinato.
– Ah, ela não é nada boba. Adora problemas.
– Problemas? – perguntou Amy, pensando automaticamente em aritmética.
Jim fez um gesto no ar com a mão.
– Qualquer tipo de problema. Por que a mulher do padeiro levou o guarda-chuva a um encontro na casa de chá numa tarde de tempo bom. Por que o vidro do palmito em conserva foi encontrado onde estava. O que aconteceu com o secador da cabeleireira. Tudo interessa, tudo é lenha para a fogueira dela. De modo que, se você tiver algum problema na vida, Amy, consulte a tia Rose. Ela terá a resposta.
Ele deu uma risada. Melissa revirou os olhos, mas com os lábios abertos num meio sorriso. Amy riu também, só que de forma mais contida.
"Ela terá a resposta"...
Foi apresentada à tia Rose, também conhecida como Miss Mild, no dia seguinte. Miss Mild era uma senhora atraente, alta e magra, com as maças do rosto rosadas - segundo ela, culpa do trabalho no jardim - e com vivos olhos azuis. Comportava-se com muita gentileza, e parecia bastante irriquieta. Seus olhos azuis cintilavam.
Jantaram cedo e brindaram à saúde de tia Rose, e depois foram todos para o His Majesty's Theatre. Se juntaram a eles mais duas pessoas. Uma prima de Melissa, que devia ter uns dezenove anos - mas que a beleza não chegava a um milésimo da de Melissa -, e um amigo de Jim. A prima de Melissa deu atenção a Amy. O amigo de Jim se dividia entre Melissa e Jim. No teatro, porém, o arranjo se inverteu. Amy sentou-se no meio da fila, entre o amigo de Jim e Melissa.
As luzes foram se apagando devagar... Amy amava aquele momento... o mundo lá fora se apagava junto com as luzes, seus olhos iam se abrindo e daqui a pouco ela nem se lembraria de que estava ali. Lá ela iria conhecer um monte de pessoas novas, um monte de problemas que ela não poderia resolver, apenas eles. Faltava saber como e quando. Estava começando...
Os atores estavam soberbos. Amy se deleitou. Ela não estava acostumada a ver espetáculos de primeira categoria.
A peça se aproximou do fim. Chegou num momento de puro terror, no clímax. A voz do ator, trágica e torturada, vinha do palco com a força expressiva de uma mente doentia.
– Cubra o rosto dela. Meus olhos se ofuscam, ela morreu jovem...
Então Amy deu um grito. Levantou-se de um salto do assento, abriu caminho entre os espectadores no escuro, correu pela passagem até a saída, subiu as escadas e foi para a rua. Mesmo fora do teatro não parou. Caminhava rápido, quase correndo, num pânico cego. O ar espesso de Londres estava frio e da sua boca saiam rufadas de ar quente. Foi quando viu um táxi sem passageiros passando por ela. Fez sinal, entrou no táxi e deu o endereço da casa.
Na hora de pagar o taxista, tirou o dinheiro da carteira com as mão tremendo.
Subiu as escadas da casa. A criada que lhe abriu a porta demonstrou grande surpresa.
– A senhorita voltou cedo. Não estava se sentindo bem?
– Eu... não, sim... eu... senti uma fraqueza.
– Quer tomar alguma coisa? Um copo de água?
– Não, nada. Vou direto para a cama.
Correu escada acima para fugir de mais perguntas.
Tirou as roupas, largou-as no chão, amontoadas, e se enfiou na cama. Seu corpo deitado tremia. O coração batia forte. Ela ficou olhando para o teto.
Não ouviu o som de gente chegando no andar de baixo. Uns cinco minutos depois a porta se abriu e Rose Mild entrou no quarto. Trazia duas bolsas de água quente embaixo do braço e uma xícara na mão.
Amy sentou-se na cama, tentando parar de tremer.
– Ah, Miss Mild, sinto muito, foi terrível. Não sei o que houve... dei um vexame. Eles ficaram muito chateados comigo?
– Não se preocupe, minha querida – disse ela. – Você só precisa se esquentar um pouco com estas bolsas.
– Eu não preciso de bolsas de água quente – Amy disse, teimosa e um tanto irritada. Estava cansada daquilo! Qualquer coisinha que acontecia já vinham lhe trazendo um 'chazinho'.
– Ah, você precisa sim – ela falou, firme, e Amy se sentiu obrigada a aceitar. – Isso mesmo. E agora beba essa xícara de chá...
O chá estava bem forte, muito quente e adocicado demais, mas Amy foi obediente e bebeu tudo. Os tremores já estavam mais brandos.
– Deite-se, agora, e durma – disse Miss Mild. – Você passou por um choque. Vamos conversar sobre tudo que houve amanhã de manhã. Não se preocupe com nada. Apenas descanse.
Ela cobriu Amy, sorriu, deu tapinhas nas cobertas e saiu.
No andar de baixo, James, irritado, falava com Melissa:
– Que diabo houve com a garota? Ela se sentiu mal ou o quê?
– Jim, meu querido, eu não sei, de repente ela deu um grito! Acho que a peça era um pouco macabra demais para ela.
– Bem, Webster é um autor meio sinistro mesmo. Mas não podia passar pela minha cabeça que...
Rose Mild apareceu na sala e ele interrompeu o que dizia.
– Ela está bem?
– Sim, acho que sim. Ela só passou por um choque muito forte.
– Um choque? Só de ver um drama seiscentista?
– Acho que deve haver um pouco mais do que apenas isso – disse Miss Mild, com ar pensativo.
Genteeeeeee!
Pois é... feriado, sem escola, sem tarefas e eu aqui aperreando vocês!
Sobre o capítulo, espero que você tenham gostado!
Que tal os primos de Ian? E a tia Rose? E o próprio Ian? Que apesar de não ter aparecido nesse capítulo, eu quero saber o que vocês acham que ele tá fazendo em Surrey. :P E quanto a Amy? Será que ela ficou doida mesmo, lelézinha da cuca? O que aconteceu para ela reagir daquela forma? Ou será que pode ser algo colocado em seu alimento? õ.O Será alguma conspiração com a nossa mocinha tímida dessa novela melodramática? E então, pessoas felizes, alguma sugestão...?
Reviews, então?
Beijinhos e bom restinho de feriado para todos vocês! ;D
