Amy ficou olhando para Miss Mild por um momento. Então passou as mãos pela cabeça, puxando os cabelos para trás.
– Por que eu disse isso? Por que eu disse "Helen"? – e deixou as mãos caírem em um gesto de desespero – Veja só! Estou louca! Estou imaginando coisas! Fico vendo coisas que não estão ali. Primeiro era só o papel de parede, mas agora são cadáveres! Estou ficando pior. É evidente!
– Não tire conclusões apressadas, minha querida...
– Ou então é a casa. A casa é assombrada ou enfeitiçada ou algo assim... Vejo coisas que aconteceram lá... ou que ainda vão acontecer lá, e isso é ainda pior. Quem sabe uma mulher chamada Helen vai ser assassinada lá... O que não entendo é que, se é a casa que é assombrada, eu não deveria ver essas coisas terríveis quando estou longe dela. Então acho que sou eu, na verdade, que estou ficando maluca! E o melhor a fazer é procurar um psiquiatra imediatamente, nesta manhã mesmo.
– Bem, é claro, minha querida Amy, você sem dúvida pode recorrer a isso quando esgotar todas as maneiras de abordar o problema, mas eu mesma sempre acho que é melhor examinar primeiro as explicações mais simples e corriqueiras. Deixe-me esclarecer bem os fatos. Ocorreram três incidentes bem definidos que a perturbaram. Um caminho no jardim que foi coberto por plantas, mas que você sentiu que estava lá, uma porta que havia sido emparedada e um papel de parede que você imaginara corretamente, e em detalhes, sem tê-lo visto. Estou certa?
– Sim.
– Bem, a explicação mais natural e mais fácil seria que você já viu essas coisa.
– Em outra vida, a senhora quer dizer?
– Não, querida. Quero dizer, nesta vida. Quero dizer que essas lembranças podem ser reais.
– Mas eu nunca estive na Inglaterra até poucos dias atrás, Miss Mild.
– Tem plena certeza disso, querida?
– É claro que tenho! Morei em Boston toda a minha vida.
– Você nasceu lá?
– Não, nasci na Califórnia. Meu pai era professor de matemática e minha mãe, arqueóloga. Acho que com uns três anos, nos mudamos para Boston, para ficar perto da Grace, minha avó. Meus pais morreram quando eu tinha sete anos de idade. Desde então, fiquei com a minha tia-avó, mas ia para a casa da minha avó nos finais da semana, ambas as casas em Boston. Minha avó morreu há pouco tempo.
– Você se lembra da viajem da Califórnia para Boston?
– Muito pouco, quase nada. Deixe me ver... Meu irmão ainda não tinha nascido – Amy disse, apertando os olhos para ver se vinham lembranças. – Lembro, muito vagamente, de estar em um avião e de dor de ouvido e de uma aeromoça ruiva cheia de sardas. Me lembro porque ela ajudou a melhorar a minha dor de ouvido deixando eu brincar com um broche de avião dela. Mas é tudo muito fragmentado.
– Você se lembra de alguma babá?
– Eu me lembro da Margareth. Lembro que ela ficou comigo por um bom tempo, até meus cinco anos. Sim, ela também estava no avião. Ela fazia recortes de papel para eu me distrair porque tive medo da aeromoça loira.
– Ora, isso é muito interessante, querida, porque, veja, você está misturando duas viagens diferentes. Numa a aeromoça era boa e ruiva e na outra era loira e você tinha medo dela.
– Sim – Amy refletiu –, pode ser que eu esteja confundindo.
– Parece-me possível que seus pais tenham trazido você para a Inglaterra, primeiro, e que você tenha mesmo morado nessa casa, Lily's Mansion. Você me disse, não é mesmo, que sentiu que a conhecia assim que a viu. E o quarto que foi escolhido para você dormir, foi provavelmente o seu quarto de criança.
– Era um quarto de criança mesmo. A grade da varanda é mais alta que a das outras.
– Está vendo? E ele tinha esse papel de parede bonito e vistoso com lírios brancos e laranjas. Crianças costumam se lembrar muito bem das paredes de seus primeiros quarto. Nunca me esqueci das margaridas das paredes do meu primeiro quarto, e acho que ele teve o papel de parede trocado quando eu tinha apenas três anos.
– E é por isso que logo pensei em bonecas, porta-retratos da família e o hededrom de fadinhas?
– Sim.
Amy afirmou, pensativa:
– É verdade que eu parecia saber, desde o começo, o lugar exato de tudo. E eu não tirava da cabeça que havia uma porta entre a sala de jantar e a cozinha. Mas de fato é quase impossível que eu fosse vir para a Inglaterra e realmente visitasse a mesma casa que morei tanto tempo atrás.
– Não é impossível, minha querida. É apenas uma coincidência espantosa, e coincidências espantosas vez por outra ocorrem. Não, não é absurdamente impossível. No caso de que a casa fosse apenas, como se costuma dizer (talvez corretamente), uma casa mal-assombrada, você teria reagido de forma diferente, penso eu. Mas você não teve nenhuma intuição de violência ou repulsão, a não ser, como você me disse, num único momento isolado, aquele que você estava mal começando a descer a escada, olhando para hall.
Os olhos de Amy voltaram a expressar um certo pavor. Ela disse:
– Você está querendo dizer que... que Helen... que isso é real também?
Miss Mild afirmou, com muita delicadeza:
– Bem, é o que eu penso, minha querida... acho que precisamos encarar o fato de que, se as outras coisas são memórias, isso é uma memória também.
– Então, eu realmente vi uma pessoa assassinada, estrangulada e estirada lá, morta?
– Não creio que você tivesse consciência, quando criança, de que ela fora estrangulada. Isso foi sugerido pela peça de ontem à noite e diz respeito à sua suposição adulta de que um rosto azulado, de expressão convulsionada, costuma indicar. Acho que uma criança muito pequena, descendo a escada sorrateiramente, depreenderia violência e morte e maldade e associaria essas coisas a uma certa série de palavras, pois acho que sem dúvida o assassino disse de fato aquelas palavras. Seria um choque tremendo para uma criança. Crianças são criaturinhas muito esquisitas. Quando se assustam demais com alguma coisa, especialmente com algo que não compreendem, elas não falam sobre o que houve. Elas se fecham. Aparentemente, talvez esqueçam depois. Mas a memória continua lá, bem no fundo.
Amy respirou fundo.
– E você acha que foi isso o que aconteceu? Mas por que não me lembro de nada agora?
– Não podemos lembrar de tudo, mesmo que nos esforcemos. Muitas vezes tentamos e a memória se afasta ainda mais. Mas acho que há algumas indicações de que foi isso o que aconteceu mesmo. Por exemplo: quando você me falou, há pouco, sobre o que se passou ontem à noite no teatro, você usou uma combinação de palavras muito reveladoras. Você disse que parecia estar olhando "através da balaustrada", mas não é comum que alguém olhe para o piso inferior através da balaustrada. O normal seria olhar por cima da balaustrada. Só uma criança olharia através dela.
– A senhora é realmente muito perspicaz.
– Esses pequenos detalhes são muito significativos.
– Mas... quem era Helen? – Amy perguntou, ainda perplexa.
– Me diga uma coisa, querida, você continua tendo certeza de que era "Helen"?
– Sim... e isso é terrivelmente estranho, porque não sei quem é essa "Helen", mas ao mesmo tempo sei... o que quero dizer é que era "Helen" que estava lá no chão... Como poderei ir além disso?
– Bem, acho que a coisa mais óbvia a fazer é descobrir se alguma vez você já esteve na Inglaterra quando criança, ou se é possível que tenha estado. Consultar algum parente.
– Como eu disse, meus pais morreram quando eu tinha sete anos e minha avó há pouco tempo. Não vejo quem mais poderia me dizer alguma coisa à respeito... – Amy murchou.
– E a sua tia-avó?
– Nós estamos sem nos falar e eu duvido que ela me diga alguma coisa.
– Então você tem que procurar alguém que já cuidou da casa quando era criança. Há alguém antiga o bastante que possa ter trabalhado lá há mais de doze anos atrás?
– Sim, acho que sim. Assim que eu voltar para lá, vou perguntar para a sra. Hudson ou até mesmo para Andy. Ah, muito obrigada, Miss Mild! A senhora foi incrivelmente atenciosa. E espero mesmo que seja verdadeira a sua hipótese. Porque, se for, bem, estará tudo certo. Quero dizer, não será nada sobrenatural.
– De nada, querida. Espero que a solução seja essa que imaginamos. Vou visitar uns parentes meus no norte do país amanhã. Volto a Londres, de passagem, dentre mais ou menos três dias. Se você e o seu namorado estiverem por aqui, ou se você tiver voltado a Devon e descobrido alguma coisa, terei muita curiosidade em saber qual foi a conclusão.
– É claro, Miss Mild! De qualquer jeito, queria que a senhora conhecesse Ian. Ele é uma graça. E poderemos conversar bastante a respeito do assunto todo.
O ânimo de Amy já estava renovado a essa altura. Rose Mild, porém, parecia imersa em pensamentos.
Povoooo!
Mais um capítulo fresquinho, saído do forno da minha imaginação! - hurg! Isso foi horrível podem dizer...
Pois é, me apressei um pouquinho - e a minha criatividade, consequentemente - já que hoje eu vou pra casa da minha tia e vou ficar lá até o sábado. Acho que não vou conseguir acessar a internet de lá :( - não, minha tia não é uma caipira brejeira (nada contra as caipiras brejeiras..), mas eu acho que a gente vai ficar passeando o dia inteiro, indo pra praia, comendo pizza ou batendo perna no shopping, e de noite eu já vou estar tão morta de cansaço que não vou nem conseguir ligar pros meus pais pra desejar boa noite.
Mas, de qualquer modo, e como eu não sou uma boba nem nada, estou levando meu celular para maiores comunicações e acessos à internet! Yes!
Beijinhos de pizza de marguerita que eu pretendo comer hoje à noite! - sem miojo, Thata, please! Eca!
Ah, espero que tenham gostado do capítulo! :*
