CAPÍTULO III
SEGREDOS E MENTIRAS
– Estou grávida!
Guilty não moveu um só músculo de sua face impenetrável diante da revelação, parecia em choque. Mas gradativamente, seu semblante tomou um aspecto tão horripilante, numa cólera contida que faria qualquer um temer como se estivesse na frente do próprio demônio. Esmeralda, em sua cadeira, não sabendo se pelo medo que sentia ou ainda abismada pela coragem que a possuiu de repente, segurava o olhar bruto do pai com o seu, doce mas altivo, o peito resfolegando e a cabeça dando voltas, sem encontrar seu eixo.
Guilty a olhava como se fosse um objeto estranho. E inclinando-se, levantou-se pressurosamente da cadeira, como se tivesse se lembrado de algo importante e fosse demasiado tarde para fazê-lo. A menina assustou-se e surpreendeu-se pelo aspecto do pai, jamais o vira assim. O homem caminhou até a porta da frente e a fechou, fazendo o mesmo a janela que iluminava a sala. Em seguida, com passos firmes e pesados, retornou à cozinha. Mirava a filha de uma forma que, se algum poder possuísse, a teria certamente matado:
– Eu achava que os deuses tinham sido misericordiosos ao me enviar pelo menos uma filha para que me servisse de consolo na velhice... - sua voz era severa, baixa e brutal; a garota estremeceu.
– Pai...eu...
– Mas agora eu vejo que uma filha já é desgraça o bastante para acabar com a vida de um homem! - sua voz tornou-se tonitruante.
– Pai, me escute, por favor, tenho muito ainda a contar, e...
– O que? Fazes-me corar de vergonha! Enches a minha casa de vexame! O que dirão os nossos vizinhos, nossos conhecidos...
– (levantou-se) Pai, eu sei que errei, mas na verdade, nesse momento, o que dirão os de fora é o que menos me interessa! É com a sua opinião que me preocupo e é só dela que necessito para seguir em frente, do seu apoio...
– CALE-SE! - rosnou Guilty - COMO TEM CORAGEM DE FALAR EM APOIO NUM MOMENTO COMO ESSE? E A MIM? QUEM ME APOIA?
– Me deixe explicar! - implorava com olhos marejados - Por favor, pai, já tive dissabores demais, só necessito uma palavra...
– O que tens para me dizer eu já sei, não preciso das suas desculpas baratas e a única palavra minha que terá é "vergonha", você me envergonha! Se comportou como a mais reles das prostitutas, que se deita com o primeiro que aparece na frente! Ao menos elas ganham algo com isso, e você? A única coisa que conseguiu foi um ventre cheio de um pobre diabo que eu não sei de onde saiu!
– Me perdoe! - as lágrimas lhe desciam pelo rosto suave e avermelhado pela disputa - E por favor, não me diga essas coisas, me magoam profundamente, não mereço ser tratada dessa forma...- sua voz embargava pelo pranto - O senhor é o meu pai, é a única pessoa que me resta...
– Suas desculpas não vão trazer minha paz de volta! Suas desculpas não vão consertar a tragédia que acabou de fazer na família! Jogou meu nome na lama! Destruiu a minha reputação, a sua reputação, o respeito que eu lhe tinha ou que qualquer homem poderia ter por você, ou acha que vai conseguir um marido carregando um bastardo de outro? Ninguém vai te querer e sou eu quem vai ter de aturar as galhofas, os falatórios, o meu nome no esgoto!
– Eu sei... - concordava de cabeça baixa, lágrimas escorriam dos seus olhos - Mas pai, não busco marido, não sei o que está insinuando, eu só busco ajuda...
– Todos os sacrifícios que fiz para conseguir mantê-la em Atenas e para que? Para que você jogasse tudo fora? - Guilty estava a ponto de explodir; seus lábios tremiam; sua voz falhava entrecortada pela fúria que o tomou - Atirar tudo para o alto por causa de um qualquer! Pois, minha querida filha, um homem era o que você devia está buscando, pois uma mulher sem o apoio de um homem não é nada, ainda mais prenhe!
– Eu sei... - ainda que não concordasse completamente, afinal seu pai era rude no trato e tinha opinioes antiquadas, preferiu não contestar - Eu sei...
– Sabe? Sabe também quanto custa ter um filho? - bateu o punho na mesa com tanta força que esta quase se partiu ao meio. - Sabe quanto vai te custar botar este bastadinho no mundo?
– Pai...
– Eu sabia que mais cedo ou mais tarde irias me decepcionar, eu sempre soube, quem sai aos seus não degenera! Filha de vagabunda, vagabunda é!
Esmeralda o fitou, lívida, um olhar aceso, em chamas e os olhos verdes, que pareciam negros pela súbita cólera que a tomou, inflamaram e encararam o pai com uma surda comoção. Seus lábios tremeram.
– Vocês mulheres são traiçoeiras por natureza! Sempre me disseram que no sangue da tua mãe corria a desgraça e vejo que passou a sua descendência! Devia ter feito a idiota da tua mãe se livrar de você, pois você veio no lugar do filho que eu esperava, mas não, meu bondoso coração se arrefeceu e eu permiti que ela a criasse, maldita seja!
Guilty já não falava, grunhia; Esmeralda o olhava em prantos; Ele aproximou-se dela e a filha pôde notar-lhe nos olhos de um profundo castanho a sombra da raiva, do ódio que degladiava dentro dele, mas também lágrimas, lágrimas quentes e furiosas, que ele vertia em prol da perdição da filha.
– Tentei protegê-la da insígnia, mas aí está, seguindo o mesmo caminho! És tão vadia quanto ela o foi! - berrou; Esmeralda ficou pálida, nenhuma gota de sangue parecia habitar em seu corpo e sem medir as palavras, retrucou.
– O senhor me culpa por ela ter ido embora com outro homem! Me culpa por ela ter te abandonado, ter te traído, enfeitado a sua cabeça! Não tenho culpa se o senhor não foi homem suficiente, não tenho culpa se o senhor não a soube segurar! - a última coisa que viu antes de segurar-se a mesa para não cair, foi a mão de seu pai em seu rosto.
O tapa foi tão forte que a garota foi parar contra a parede, apoiando-se nesta para não cair.
– Quem você pensa que é para me falar neste tom? É uma fedelha mimada e arrogante! Eu deveria ter deixado que aquela vagabunda a tivesse levado quando fugiu, porque agora tu estarias exatamente no lugar onde te cabes, num puteiro!
– O senhor está me ofendendo! - disse entre lágrimas, após recuperar-se do tapa.
– Não é ofensa chamar as coisas pelos nomes que elas têm! Pois se queres respeito deverias antes respeitar os outros!
– Nunca o desrespeitei, meu pai! Jamais! O senhor sabe disso! Nunca lhe faltei com...
– ABAIXE A VOZ! A ERRADA AQUI É VOCÊ! Se acha que é respeito chegar em casa, depois de tudo que fiz por você, e simplesmente me jogar à cara: "Pai, estou grávida!" - disse imitando-a - Isto para mim não é respeito, é ingratidão! E burrice!
– Foi um acidente! - Guilty exasperou-se ao ouvir isso, partiu para cima dela.
– Eu vou te arrebentar por acidente também, aí sim você verá o que é um ACIDENTE!
Esmeralda afastou-se dele ao receber um empurrão; encostou-se na parede cobrindo a face com as mãos. Guilty parou diante dela com o semblante transtornado, encarnando a própria honra doméstica.
– Onde está o infeliz?
– Que infeliz? - perguntou ela inocente.
– Não se faça de imbecil! - berrou - Onde está o desgraçado, o canalha, o cachorro que te fez isso? Porque eu vou atrás dele nem que seja no inferno! - decretou.
– Ele não está na Grécia, pai! - disse acuada contra a parede, o medo estampado na face.
Guilty soltou um sorriso irônico.
– Foi embora! Te deixou? Abandonou-te, filha? - sarcástico. - Agora tudo está completo!
– Não, pai! Ele... - gaguejou - Recebeu uma proposta de emprego na América e como o salário era melhor, achamos que seria bom ele aceitar, por conta do bebê!
Disse por fim, assustada pela mentira; se seu pai soubesse que escondera de Ikki a gravidez, certamente a mataria e iria atrás do rapaz aonde quer que ele estivesse. Guilty aproximou-se dela e a pegou pelos cabelos com força, arrastando-a até o quarto e largando-a com força na cama.
– Vai ficar ai até eu decidir seu destino! - disse com voz alterada - Pelo menos não terei que sustentar filho de ninguém!
– Preciso ir ao médico! Preciso de acompanhamento! - ponderou sentando-se na cama, tentava falar com calma, mas era impossível; sua voz embargava-se.
– O único acompanhamento que terá será o do seu enterro!
– Pai... - soluçava - Não me abandones! - correra para ele, abraçando-lhe as pernas, ajoelhada. - Não me abandones, pai, papai...
– Levante-se! - pediu sem paciência - Lágrimas não me comovem! Você sabe que comigo jamais vai conseguir alguma coisa com lágrimas! CHEGA!
– Papai...
– Eu devia fazer com seu filho o que o meu pai fazia com os gatos que apareciam na nossa casa: afogar o filhote!
Soltou-se e saindo do quarto, bateu a porta com tanta força que com certeza pôde ser ouvido a quadras de distância.
A noite, a menina ainda permanecia em seu quarto, saindo apenas para ir ao banheiro. Não queria desagradar ao pai e evitou encontrar-se com ele, pois o olhar que ele lhe deitava era cruel e parecia julgá-la. Na hora da janta, não ousou por os pés para fora do quarto, talvez na esperança que o pai, quem sabe serenizado, a viesse chamar, mas esperara em vão. A fome apertou de madrugada, mas não quis levantar-se. Preferiu esperar até o dia seguinte.
Guilty, como sempre, acordara cedo. O certo é que não dormira naquela noite. Entrevia o falatório na rua, sua casa, que sempre fora humilde, agora tivera a honra manchada. Embora sua vontade fosse matá-la, era pai e um sentimento estranho lhe adentrou no peito ao aproximar-se da mesa e vê-la vazia. A muito custo, dirigiu-se ao quarto da filha. A porta estava destrancada, ela jamais tivera o hábito de fechá-la por dentro. Abriu-a.
Esmeralda estava deitada na cama, com a roupa do corpo, sem coberta e com o rosto voltado para a parede. Parecia adormecida. O homem, aproximando-se, encostou sua mão pesada nas costas da garota e num gesto rude e grosseiro, a balançou, fazendo-a despertar sobressaltada:
– Não é porque está doente que vai ficar na cama até tarde! - disse, dirigindo-se a cozinha - Levante-se imediatamente e vá fazer o café, estou com fome e preciso sair com urgência! Te dou 5 minutos!
– Eu não estou doente, pai! - suspirou.
Um pouco desorientada por acordar de repente, levantou-se e fez sua toalete da manhã antes ir preparar o café. Estava se consumindo de fome. Apareceu na cozinha evitando olhar o pai, virou-se para o fogão e pôs água para ferver. Guilty, sentado na mesa, partia pedaços de pão e os engolia maquinalmente. Parecia que junto descia toda a confusão do dia anterior. E soltando longos suspiros, fitava ora as costas da filha, ora a tábua da mesa. Ambos sabiam que dali por diante, a convivência seria quase insuportável.
o.O.o
O dia raiava quando o avião da American Airlines aterrisou no aeroporto internacional JFK, no estado de Massachusetts. Os passageiros desceram para os devidos portoes e os estrageiros foram encaminhados à ala de imigração a fim de apresentar seus documentos. Ikki, ainda durante o vôo, recebeu uma folha no qual deveria colocar seus dados e a razão de sua estadia no país. Agarrou a pasta com os documentos e se digiriu ao guichê. Com um inglês fluente, ainda que tivesse muito sotaque grego, conseguiu pôr em ordem toda a papelada junto ao policial e teve sua folha carimbada com a passagem livre.
Retirou suas bagagens e caminhando com um sorriso fascinado no rosto, saiu pelos portoes do JFK, sendo recebido do outro lado pelo estridente burburinho de gente e carros na movimentada metrópole mundial. Parou por uns instantes, extasiado, olhando tudo e todos e tudo lhe pareceu de um encanto ainda maior do que havia pensado durante a viagem. Sim, finalmente ele tivera sua oportunidade e a agarraria com unhas e dentes. Voltando a si, lembrou que deveria tomar um taxi até a república de estudantes da universidade e arrastando a mala, parou um taxi de cor amarela, o único disponível em toda faixa do aeroporto naquela manhã.
– Olá, senhor, eu...
Percebeu que não falara a frase sozinho. Havia se abaixado na altura da janela do passageiro a fim de perguntar se o veículo estaria disponível, mas ao mesmo tempo que fizera isso, também outra pessoa havia feito o mesmo e junto com ele, como se tivessem ensaiado, havia proferido a frase inicial. No momento que se levantou para olhar o seu "rival", ele também o fez e Ikki surpreendeu-se com a beleza do contricante.
– Desculpa, mas acho que vi primeiro! - disse ela, olhando-o com altivez.
Era uma mulher alta, branca como uma estátua de mármore, cabelos negros longos e lisos, presos num elegante coque atrás da cabeça. Vestia-se com jovialidade, ainda que elegantemente e tudo nela pareceu a Ikki algo de superior e até soberbo, diria. Encarou-a com cinismo e um meio sorriso nos lábios.
– Desculpe, senhorita, mas posso jurar que cheguei primeiro no taxi e infelizmente não poderei cedê-lo, mesmo que seja para uma bonita dama! - galanteador - Estou atrasado e necessito chegar imediatamente no meu destino!
– Mas que coincidência...- ela respondeu no mesmo tom, um forte sotaque que ele não soube identificar, mas puxava asperamente a letra "R" - Também estou atrasada e também necessito chegar urgentemente no meu destino que, com certeza, é mais importante que o seu! Acho que estamos diante de um problema, senhor!
– E desde quando ir ao shopping é importante? - rebateu Ikki, imaginando onde uma mulher como ela poderia ir tão apressadamente - Vocês mulheres têm senso de humor, aposto que correm mais dentro de um shopping que um maratonista em plena final olímpica!
– Não vou discutir com um homem tão machista e ridículo como o senhor...- irritada, botando as mãos na cintura; Ikki notou uma grande mala ao lado da garota - Aposto que seu lugar importante é a mesa de algúm botequim de quinta categoria para encher a cara!
– Minha cara, são às 6 da manhã, não costumo encher a cara a esta hora, mas se você o faz, não é problema meu!
Ela sentiu-se tremer e Ikki teve a impressão de que ela o esbofetearia naquele mesmo momento. De certo modo, estava divertindo-se com a cara irritada de sua recente conhecida. Com certeza não era americana, tinha feiçoes européias, só não conseguia distinguir de que país, Alemanha talvez.
– Escutem, garotos...- o taxista, que assistia a briga calado e surpreso, intercedeu - Para onde vão? Dependendo do roteiro, posso levar os dois e não precisarão mais brigar!
– Com certeza nossos roteiros são para lados bem opostos! - disse ela - Assim que só caberá um aí dentro!
– Se é assim, serei eu! - disse Ikki abrindo a porta, ela tomou a sua frente e a fechou.
– O senhor não é americano, certo?
– Para sua informação, não, e isso, que eu saiba, não te interessa! - abrindo a porta de novo, de novo ela a fecha.
– Logo vi, os americanos sabem o que significa a palavra cavalheirismo! - cínica.
– E você, também não é americana, é?
– Não, sou alemã!
– Logo vi, as americanas conhecem a palavra educação!
E afastando-a com um empurrão um tanto forte, abriu a porta e entrou, acomodando-se lá dentro. Sua mala ficara na calçada, pois o motorista deveria guardá-la na mala do carro. Quase explodindo, a moça fez o mesmo. Batendo o pé, correu até a outra porta, abriu-a e entrou, sentando-se ao lado de um severo homem. Ela também fechou a cara. O motorista suspirou, desceu, guardou as malas e voltou a entrar no taxi. Olhando seus dois "interessantes" passageiros pelo espelho retrovisor, perguntou:
– Para onde vamos?
E como se de novo houvessem ensaiado, ambos responderam ao mesmo tempo, olhando-se em seguida, com espanto e surpresa:
– Para a universidade de Havard!
o.O.o
No meio de setembro, quando voltava do pequeno mercado no fim do quarteirão, Esmeralda encontrou no chão, logo que abriu a porta, um enorme envelope endereçado a ela. Olhou ao redor, seu pai parecia não estar em casa e seu coração bateu mais forte ao ver que era uma carta de sua amiga Eiri. Durante todo o verão ela não havia mandado qualquer notícia. Como tinha viajado com o Hyoga, com certeza não tivera tempo de escrever. Deixando os pacotes em cima da mesa, correu para seu quarto e fechando a porta, sentou-se na cama, apoiando-se numa almofada e principiou a ler a missiva:
"Primeiramente queria dizer que junto estou mandando uma carta do Ikki que chegou há um mês. Desculpe pela demora, mas como te havia dito, passei todo mês de julho no meio do mato e morro de vontade de te contar todas as novidades. Percebi que não falara a ele da idéia de largar o curso, de modo que entendo o por que da carta estar endereçada ao nosso apartamento."
Esmeralda tirou de dentro do envelope amarelo, uma carta de seu amado. E rasgando-a, retirou de dentro uma folha de papel. Sorriu ao reconhecer a letra.
"Meu anjo, Havard tem me consumido um tempo deveras superior ao que eu imaginava. Tanto que temi que te entristecesses por não receber notícias minhas com a rapidez que te prometi. Não tenho te ligado pelas ligações internacionais serem extremamente caras, e feitas para celular, pior...Espero que entendas. Na verdade, não ando bem financeiramente. A bolsa que a universidade fornece mal chega para as refeiçoes. Bom, estou com tantas saudades que não seria capaz de expressar em palavras, e sabes que jamais fui muito bom com elas. Este fim de ano ficará impossível de ir ver-te, mas prometo-te que ano que vem, por este mesmo mês, irei visitar-te, meu amor. Farei de tudo para conseguir uma maneira de comprar a passagem. Tirando as cansativas noites de insônia e saudades de ti, tenho estado satisfeito. Nunca imaginei que fosse me adaptar ao um modo de vida tão diferente da Grécia. A república é maravilhosa e fique tranqüila, as meninas americanas são horríveis! (Esmeralda sorriu, seus olhos estavam cheios de lágrimas) Fico por aqui e não te preocupes, escreverei em breve! Um grande beijo desse recalcitrante namorado que te adora! Um bom semestre para você!
Com amor, Ikki"
Mal terminara de ler a carta, caiu numa angústia soturna, obtusa, para logo retornar sorridente, afinal, ele estava feliz e isso era o que importava. Era questão de meses até ela poder finalmente contar sua situação. Guardando a carta de Ikki dentro de uma de suas gavetas, por baixo das roupas, voltou sua atenção a missiva de Eiri, que falava sobre o acampamento, a volta a faculdade, o namoro com Hyoga, lhe dava o devido parabéns pelo seu aniversário de 18 anos no final de agosto e pedia-lhe notícias dela, pois estava ficando preocupada.
Esmeralda não demorou um minuto a responder aos dois, tendo cuidadosamente colocado na carta destinada ao namorado, o endereço da república em Atenas. Colocou dentro de um grande envelope, com instruções para que Eiri a enviasse com um selo Ateniense. E aproveitando que seu pai ainda não voltara, saiu apressadamente em direção ao correio. Guilty já se encontrava em casa quando ela voltou no final da tarde. Cumprimentou o pai e dirigiu-se a cozinha. Estava levemente corada pelo passeio. Sua cabeça doía deveras desde a noite anterior:
– Aonde esteve? - perguntou ele, entrando no recinto - A procurei por toda parte!
– Fui ao mercado e... - sentiu-se tonta, apoiando-se no balcão da pia, suas pernas estremeceram e por um momento seus olhos se apagaram, como se fosse desmaiar.
– O que foi? - indagou o pai sem mover um músculo, mas com semblante severamente preocupado. - Não se sente bem?
– Minha cabeça! - Esmeralda levou as mãos a mesma, fazia já algum tempo que vinha sofrendo de dores e vertigens. - Parece que vai explodir!
– Doendo de novo? - ela a balançou afirmativamente; Guilty suspirou e se encaminhou para o quarto - Isso é o que você merece por ter sido tão irresponsável!
o.O.o
– Mas, cadê a Esmeralda?
Desde que começara as aulas que Shun estranhara a falta da amiga, entretanto, atribuiu o atraso ao fato da viagem do irmão ainda ser tão recente. E os meses foram passando. Ikki em suas cartas não fazia nenhuma alusão a Esmeralda, de modo que nada poderia estar acontecendo nada de mal com ela, um vez que do contrário, o irmão já teria retornado. Agora, início de dezembro, Shun preocupara-se deveras com a companheira de turma e no meio de uma conversa agitada com os amigos, aproveitando que Hyoga fazia alusão ao acampamento que delimitara seu namoro com Eiri, o rapazinho disparou a queima roupa para a loirinha, que por alguns segundos não soube que dizer:
– Eiri, o que foi feito da Esmeralda? Abandonou o curso? Não a vi durante todo o semestre, nem sequer sua sombra! Não voltou a Atenas?
– A...a Esmeralda?
– Sim! - confirmou Shun - A Esmeralda, sua amiga, minha cunhada!
– Você não sabia? - rebateu de repente, uma idéia vindo súbita na sua cabeça; sorria amarelo e com certeza sua cara não era muito convincente. - Não acredito que esqueci de contar a vocês...- Shun franziu o cenho.
– Contar o que?
– Ela largou o curso, sim, mas foi por um motivo de força maior!
– Por que? - perguntou Seiya abraçado a Saori, estudante de administração e uma das maiores fortunas da Grécia.
– Ahn, o pai dela adoeceu gravemente e como filha única, ela teve que deixar tudo para ir cuidar dele! - sorriu sem graça - Vocês sabem como é, família é a coisa mais importante de nossa vida, a Esmeralda não podia confiar seu pai a qualquer um e eles não têm dinheiro para pagar uma enfermeira!
– Onde ela mora? - perguntou Saori, não conhecia a tal Esmeralda - É do interior?
– Numa cidade perto daqui... Esparta! - respondeu Eiri, levantando-se e puxando Hyoga; precisava evitar mais perguntas - Vamos, meu amor? Se não vamos atrasar! - Hyoga fez manha e se levantou.
– Aonde vão? - perguntou Shiryu, também levantando-se.
– Vamos pegar um cinema! - ponderou o loiro.
– Qual filme? - interessou-se Seiya - Nós também vamos ao cinema, mas para ver um título mais adulto...- fez cara insinuante e Saori sorriu, beijando o namorado.
– Ahn, ainda não sabemos! Vamos decidir na hora! Vamos Hyoga, vamos logo! - o loiro se despediu e seguiu a namorada com o braço em torno da cintura feminina.
– Até mais tarde! - gritou para os amigos, enquanto era arrastado por Eiri.
– Bem, acho que sobrei já que só tem casais! - brincou Shiryu arrumando-se para se retirar.
– Achei que estivesse com aquela menina, a Minu! - comentou June, dando uma mordida na orelha do namorado; Shun sorriu e a abraçou mais forte.
– Estava! Infelizmente não deu certo! Bom, vejo vocês dois em casa! Tchau, meninas!
– Tchau! - gritou June, amiga de Saori; esta estava muito ocupada no meio de um beijo. - O que você acha de irmos ao meu apartamento e fazer isso que eles estão fazendo só que mais...quente!
– Eu adoraria! - respondeu Shun - Mas antes preciso passar na farmácia! Já acabou meu estoque!
o.O.o
No cinema
– Foi impressão minha ou você ficou inquieta ao falar da Esmeralda? - perguntou Hyoga segurando um saco de pipoca - Era como se pertubesse você ouvir falar o nome dela e não é de agora!
– Por que eu ficaria inquieta ao falar da minha melhor amiga? - rebateu Eiri, acomodando-se melhor na poltrona.
– Não sei, por isso perguntei!
– Só que não gosto quando ficam especulando sobre a vida dos outros! Se ela não está na faculdade, com certeza deve ter uma razão que não interessa a ninguém!
– Desde que começou a aulas que você evita o Shun e sempre foge quando o assunto recai na namorada do Ikki! Por que você parecia tão nervosa quando Shun te perguntou sobre ela agora a pouco? Suas mãos tremiam, Eiri!
– Só achei que fôssemos nos atrasar! Preciso estudar para as provas, não posso chegar tarde hoje! Além disso, eu não sou jornal para ficar dando informação de ninguém! Se ele quer saber da Esmeralda, que peça o telefone dela pro Ikki e ligue ele mesmo! - respondeu com uma certa irritação.
– Ele só parecia preocupado, só isso! Não precisava ficar tão chateada!
– Amor, para de falar e presta atenção no filme! - fez biquinho.
– Ok! - suspirou Hyoga, mesmo que estivesse acontecendo algo com Esmeralda, arrancar de sua namorada era uma tarefa impossível
o.O.o
Esmeralda ia no 6ª mês de gravidez e tirando as fortes dores de cabeça que vinha sentindo, tudo parecia transcorrer bem. Até seu pai havia lhe dado uma trégua e a última carta que recebera de Ikki lhe deixara mais apaixonada por ele, se isso fosse possível. Naquela manhã a chuva parara. Foram dois dias de tempestades sobre Esparta. E sentada no terraço, com um vestido de rendas delicadas, observava a rua alisando a enorme barriga que se sobressaia através das pregas do vestido. Embora tivesse prometido a Eiri, o certo era que durante todos aqueles meses, não buscara o acompanhamento de um médico.
Eram tantas as coisas para pensar, se preocupar, organizar e o seu pai que não lhe dava descanso, que simplesmente pareceu-lhe ser uma idéia assaz fútil ter de ir todo mês olhar a cara de um obstetra qualquer. Além disso, o pouco dinheiro de que dispunha estava servindo para comprar o enxoval do bebê, que não era muito. Gastá-lo com outra coisa era algo que estava fora de cogitação. A única coisa que ainda a fazia sorrir era a intença movimentação em seu ventre. Eram tantos os chutes que, se não tivesse certeza que era só um, podia jurar que tinha dez jogadores de futebol dentro de si.
De repente sua vista escureceu. Fortes pontadas começaram a lhe subir pela nuca. Desde manhã que sua dor de cabeça aumentara consideravelmente, mas como a sentia há meses e depois de algumas horas ela ia embora, não preocupava-se mais. E levando uma das mãos atrás da cabeça, levantou-se indo em direção ao banheiro, um ardor no estômago lhe arrepiou todos os pelos do corpo. Apoiando-se numa das paredes, levantou a cabeça quando uma vertigem lhe veio acometer e se não fosse seu pai, que a fora socorrer, teria caído ao chão com tudo.
– Arrume-se! Vou levá-la ao médico imediatamente! - avisou Guilty, bruscamente, colocando-a sentada no sofá - Isso já está me preocupando, não é normal que uma mulher nas tuas condiçoes sinta tantas dores ou desmaios. Só essa semana você apagou quatro vezes!
– Vai me levar ao médico? - perguntou incrédula num fio de voz, recuperando-se aos poucos - O senhor, vai me acompanhar até um médico, papai?
– Se não quiser ir não vamos! - retrucou o homem de forma rude; Esmeralda levantou-se e se dirigiu ao quarto segurando-se nos móveis, precisava se arrumar.
– Fico pronta em 5 minutos, papai!
– E traga dinheiro! Ainda não vi um tostão desse seu namoradinho idiota!
No hospital
– Está fazendo o acompanhamento médico aonde? - perguntou o doutor um tanto intrigado, enquanto lhe media a pressão - Qual o médico que a vê e que tipo de vitaminas têm passado? Necessito toda a informação necessária do seu quadro clínico!
– Não estou fazendo... - respondeu corada - Na verdade, é a primeira vez que busco a um médico!
– Não está sendo acompanhada? - ponderou o médico assustado, retirando o aparelho do braço da garota - É vital ter um pré-natal! Há muitos fatores de risco que uma mulher está a mercê durante a gestação, o pré-natal serve exatamente para isso, para impedir que estes fatores se desenvolvam ou gerem alguma complicação, seja para você ou para o feto! É extremamente importante e me deixa aturdido que, com seis meses, nunca tenha visto um obstetra antes!
– Eu sei! - disse num fio de voz - São tantas coisas, confesso que pensei que não fosse tão importante assim, além disso, meu pai tem pouco dinheiro e todos os hospitais de Esparta são privados, os poucos públicos que têm, não possuem vagas e...
– Sua pressão me preocupa! Está muita alta! É algo com o qual você terá de se preocupar daqui por diante e por isso, tereio de vê-la mais vezes do que o normal!
– Quanto está minha pressão? - preocupou-se ela.
– 17/9! - exclamou o médico, dirigindo-se até um armário de vidro; abriu-o e retirou de dentro um envelope.
– Isto é muito grave? - perguntou inocente; o médico, que tinha curtos cabelos azuis e um olhar um tanto felino, a olhou perplexo.
– Sim! Tome isto! - entregou para ela um pequeno comprimido e um copo com água; ela bebeu. - Ajudará a que volte ao normal, mas deve evitar o sal a partir de hoje e conferir a pressão constantemente! Tem se alimentado bem? - perguntou, sentado-se atrás da mesa.
– Não muito para ser sincera! Tenho muitos enjôos ainda, e muita coisa me faz vomitar!
– Passarei uma dieta, ok? Mas é absolutamente necessário que procure um médico! - ela balançou a cabeça concordando; pegou o papel que ele lhe estendia - Agora me acompanhe! - levantou-se se dirigindo para a porta.
– Aonde vamos? - indagou a menina sem entender, levantando-se e acompanhando o médico.
– Vamos ver como está seu bebê! - sorriu ele; ela retribuiu o sorriso - Você poderá escutar seu coração e veremos se está se desenvolvendo bem!
– Doutor Giovanni D'Angeri? - uma enfermeira o chamou.
– Sì?
– Aquela paciente deseja vê-lo! Parece que o marido dela já chegou!
– Diga que estou indo! Vou só terminar aqui! Venha! Ahn...- voltou-se para a enfermeira. - Daphne, asppeta! - ela o olhou.
– O que deseja, doutor?
– Mantenha o Sr. Shura Sánchez distraído! Quando ele se inflama...
– Sim, senhor! Com licença!
Giovanni voltou-se para a garota.
– Está nervosa?
– Muito! - sorriu. - Mal posso esperar para vê-lo!
– Qual é mesmo seu nome? - abrindo a porta e dando passagem a ela.
– Esmeralda! - respondeu a jovem.
– Bonito nome! Entre!
A jovem adentrou numa sala com pouca iluminação, deixou a bolsa numa cadeira e esperou pelas ordens médicas. O doutor começou a digitar alguma coisa num pequeno computador, cuja tela estava na parede diante da estreita cama. Giovanni levantou-se, com seu jaleco branco e tirando de dentro de um armário um pacote, entregou a ela e apontou o quarto vizinho, separado por uma cortina.
– Pode entrar ai e se trocar, deixe a abertura para frente, a enfermeira já vem para ajudá-la!
Naquele momento, Daphne entrou e estando Esmeralda já com a bata, sem nada por baixo, a atenciosa médica a acompanhou até a mesa e a fez deitar-se, com as pernas bem esticadas, abrindo a parte da enorme barriga. Sorriu.
– Para quem tem seis meses, seu ventre está enorme! - disse a enfermeira - Com certeza seu bebê será imenso!
Esmeralda sorriu pelo comentário.
– Será parecido ao pai! - respondeu a loirinha, com orgulho - É um homem muito alto!
– Onde está o pai do seu filho? Trabalha? - perguntou o médico, querendo ser educado, mas encarando-a com o canto do olho.
– Sim...- balbuceou Esmeralda, sorrindo sem graça - Está nos EUA trabalhando e virá para o nascimento! - mentiu.
– Começemos, então!
Disse Giovanni, sorrindo para ela, enquanto sua ajudante se sentava no seu devido lugar, diante de outro computador, para anotar as informaçoes que o médico lhe ia passando. Agarrou um tubo e depositou um gel gelado sobre o ventre pálido e cheio e com uma máquina, começou a deslizar o creme e uma imagem se formou na tela diante da jovem, nervosa e entusiasmada.
– Aqui o temos! - disse o médico, sorrindo, mas de repente seu semblante se modificou, não de contrariedade, mas de espanto - Ora, ora, o que temos aqui? - um sorriso maior se abriu em seus lábios.
– O que houve? Há algo incorreto com meu filho? - perguntou Esmeralda, séria, encarando o médico como se aquela resposta decretasse seu destino.
– Nada incorreto...- disse ele - Mas tenho notícias para você! - completou, seguindo a imagem que aparecia no seu computador.
– Que notícias?
– Vê isso aqui? - perguntou, apontando a tela, Esmeralda fitou com atenção - É uma cabeça, dois braços, duas pernas...- apontou em outro ponto - Mas isso aqui também é uma cabeça, mais dois braços, mais duas pernas, entende... - ela seguia calada.
– Está querendo me dizer que eu...
– Exatamente! Parece que seu marido terá uma grande surpresa quando voltar dos EUA, a casa vai encher! Cáspita!
Nas proximidades do natal, uma atônita Eiri, relendo pela 3ª vez a carta que recebera naquela manhã de sua amiga, não acreditava. Não sabia se ria ou se chorava, tamanha era a surpresa. Por essa ela não esperava. Esmeralda, grávida de gêmeos?
o.O.o Continua... o.O.o
Oi a todos que acompanham a fic!
Como este capítulo ficou demasiadamente grande (quase dez mil palavras), eu o dividi em dois, assim terei tempo de terminar os outros.
Pode parecer que a história esteja correndo um pouco rápido demais, o que acontece é que a fanfic será dividida em 2 fases, dentro de alguns capítulos ela dará um salto de anos.
Espero que gostem e sigam acompanhando!
