Capítulo V

REMINISCÊNCIAS

Ele a beijava ferozmente, como se quisesse, através dos seus lábios inchados pela voracidade de sua carícia, sugar-lhe a alma, transportar-se de seu corpo para o dela, como uma transmigração de alma. Ela, por sua vez, o enlaçava com força, pendurada ao pescoço masculino, em pontas de pé para alcançá-lo, umas vez que ele era bem mais alto que ela. O rapaz, sensualmente, a abraçava pela cintura, apertando-a contra si, sua boca passando pelo rosto delicado, pescoço, ombros, de onde as alças do frágil vestido já haviam baixado, os olhos fechando-se de sofreguidão e volúpia.

- Ikki... - sussurrou ela, quase sem voz, num resfolegar continuo para encontrar de novo o fôlego. - Não para, por favor...

- Parar? - ele a puxou pelos cabelos, numa atitude de autoridade, mas com certa delicadeza - Se eu parar agora eu morro, Esmeralda!

De repente, um flash vindo não se sabe de onde, iluminou, com uma claridade ofuscante, todo o ambiente obscurecido pela penumbra, por um momento e cortou, deixando o casal completamente aturdido. Após recuperar a visão, Ikki e Esmeralda olharam através da janela, de onde supostamente havia vindo a luz e ele teve um acesso de raiva, acesso esse que não passou de um profundo suspiro enquanto contava até dez, quando viu as caras apatetadas de Shun, Seiya, Hyoga y Shiryu, além de Eiri, do lado de fora da casa de campo que eles haviam alugado para as férias de verão. Esmeralda controlou-se para não sorrir.

- Vocês estão ai fora? - Ikki perguntou com ironia. - Estavam espionando a gente? Não têm algo mais interessante pra fazerem, não?

- Entrem, vão ficar ai feito bobos? - disse a loirinha abrindo a porta, depois de ajeitar o vestido - Está uma linda noite, não?

- Interrompimos algo? - perguntou Shun - Boa noite, Ikki...- sorri amarelo para o irmão.

- E o que tem de boa? - rosnou o mais velho dos irmãos. - E sim interroperam algo!

- Não se preocupem, era só um beijo...- apressou-se a dizer Esmeralda.

- Não seria só um beijo se vocês não tivessem chegado! - rosnou Ikki.

- Aliás, um lindo beijo, você não devia ter tirado a foto, Seiya! - repreendeu Eiri.

- Ora, ao menos agora eles terão o beijo para sempre! - defendeu-se.

- Deixe-me ver! - pediu Esmeralda - Meu amor, ficou lindo! Eu quero esta foto, quero fazer um poster gigante e pregar na parede do quarto!

- Feliz aniversário, amiga! - disse Eiri, abraçando-a.

- Obrigada!

- E olha, eu toruxe um vinho...- disse Shiryu - O melhor vinho grego, safra 1870!

- E eu preparei algo da culinária russa, para que vocês possam experimentar! - Hyoga segurando uma bandeja - Preparados? Eis aqui! - tirando o pano que cobria.

- O que são? - perguntou Seiya, erguendo uma sobrancelha.

- Panquecas russas, feitas especialmente por mim para a aniversariante! - entregando a badeja a Esmeralda.

- Não sabia que você cozinhava! - comentou Eiri, olhando o loirinho de forma carinhosa.

- Muitas coisas que você ainda não sabe! - respondeu ele, também olhando-a.

- Obrigada, Hyoga! - Esmeralda recebeu a bandeja, olhando de forma insinuante os dois amigos - Nossa, amigos, música, uma casa de campo, vinho, tenho tudo o que preciso, não posso pedir mais nada!

- Ah, então, já que você tem tudo que precisa, meu presente vai ficar pro proximo ano!

Ikki aproximou-se da namorada, fazendo cara matreira, de menino travesso, as mãos nos bolsos. Esmeralda o fitou curiosa.

- Que presente? - sorriu. - Me dá, Ikki!

- Não, você já tem tudo do que precisa, não precisa do meu presente, não é galera?

- Justo! - disse Shiryu, sorrindo.

- Ah não, meu amor! - fez carinha de me dá; Ikki tira do bolso uma pequena caixa de veludo negro - Me falta isso ai que está na sua mão!

Esmeralda tentou alcançar o minúsculo embrulho, mas Ikki, levantando a mão, não a deixou se aproximar. A garota se jogou em cima dele, em ponta de pé, tentando alcançar a mão que ele havia erguido, até que, desistindo, Ikki lhe entrega a pequena caixa, que ela pega com avidez e alegria. Esmeralda, com um sorriso doce nos lábios, abre o presente e seus olhos, de um verde claro, encara o namorado, o sorriso desaparecendo, dando lugar a uma feição espantada e ao mesmo tempo encantada.

- Ikki... É lindo!

E virando a caixa na direção dos amigos, mostra um anel de prata, com uma bela pedra verde, uma esmeralda, a pedra do seu nome.

- Investiu, hein, Amamiya! - comentou Seiya. - Tem algum significado?

- Quem me vendeu disse que sim! - respondeu Ikki.

- E eu posso saber qual é? - perguntou Esmeralda, virando-se para ele.

- É um anel que afasta as coisas ruins e traz somente a felicidade! - disse Ikki, acariciando-a nos cabelos cacheados.

- É um anel da sorte! Já ouvi falar! - disse Shiryu.

- Eu não acredito muito nisso, mas achei tão bonito e diferente, além de ter a sua pedra, que comprei pra você!

E pegando a caixa das delicadas mãos, Ikki retira o pequeno objeto e poe no dedo da namorada. Esmeralda levanta a mão direita:

- É na mão esquerda, me falaram! - disse Ikki.

- Ah, bem...

Olhou sorrateiramente para Eiri e esta, fazendo um leve gesto de cabeça, sorriu como se dissesse: "Até que enfim!" Após colocar o anel, Ikki beija a pequena mão.

- Agora não me falta mais nada! - disse Esmeralda - Me beija, Ikki!

E ele a beijou, profundo, sereno, doce, como se nunca mais fossem se ver novamente. Não importava quem estivesse ali, os amigos baixaram os olhos, pigarrearam, começaram a se espalhar, mas os dois seguiam no apaixonado beijo, molhado, quente, aconchegante, tão cheio de carinho e de ternura que agora, passado um ano daquele episódio, uma vez que havia sido no início do namoro, ainda lhe enchiam os olhos de lágrimas. Esmeralda, deitada na cama, levantou a mão esquerda e observou, por um longo instante, aquele anel, que jamais saíra do seu dedo. E o beijou, diversas vezes, como se isso pudesse trazer aquela noite de verão de volta, como se pudesse trazer Ikki de novo para os seus braços.

o.O.o

Diante de um imenso espelho, ricamente moldurado, uma jovem olhava-se de todos os ângulos, seus olhos focalizados no ventre ainda plano, coberto de roupas devido ao clima hostil do outono alemão. Atrás de si, uma criada atarefada organizava a enorme cama.

De repente a porta se abriu e uma senhora entrou, com seu ar doce, porém forte, e ainda que o rosto fosse já amadurecido pelos anos, ainda era soberbamente parecido ao rosto jovial da garota que, preocupada, observava-se com atenção diante do espelho.

- Mutti! - exclamou a menina ao vê-la entrar.

- Ingrid, saia, preciso conversar com a minha filha!

A empregada fez-lhe uma reverência de cabeça e saiu, fechando a porta.

- O que está fazendo? - perguntou a senhora, com sua voz delicada, um ar de riso no rosto pálido - Está se admirando no espelho?

- Mamãe, já dá pra notar que eu estou grávida?

A boa senhora deu uma gostosa gargalhada, aproximando-se da filha, sua imagem também sendo refletida no espelho. Olharam-se através do vidro bem polido.

- Ainda não, filha, você só tem dois meses de gestação!

- Dois não, quase três! - exclamou a jovem.

- Quando eu engravidei de você, minha barriga só veio aparecer quase com 5 meses! Queria morrer! Você já contou a ele?

- Ainda não! - ela encarou a mãe - Estou preparando o terreno, mãe, é uma notícia difícil!

- Ele não desconfia de nada? Não percebeu que você não ficou menstruada estes três meses?

- Eu disse a ele que tinha menstruado, comprei absorvente na frente dele, para ele ver mesmo!

- Pandora! Uma hora você vai ter que contar!Vai esperar o que? Que a criança nasça?

- Semana que vem é o aniversário dele, penso em fazer uma surpresa, um jantar a dois, à luz de velas, o que a senhora acha? Seria uma ocasião tranquila, não?

- É uma ótima idéia, precisarão mesmo conversarem sozinhos, sem ninguém para interromper! Mas já não atrase este momento, Pandora, quanto mais passa o tempo, mais difícil será!

A garota tentou sorrir, mas terminou por sentar-se na cama. Sua mãe a acompanhou, sentando-se ao seu lado.

- Está triste, filha? Isso não é motivo de tristeza, e sim de alegria! Confesso que quase infartei quando você me contou que tinha engravidado de um rapaz que conhecia só há seis meses, mas, o que está feito, feito está, não se pode mais chorar sobre o leite derramado! Essa criança não tem culpa de nada!

- Não estou triste, mamãe, estou com medo!

- Medo de quê? Do Radamanthys? Esse é o nome dele, não é? Quando vai me mostrar ao menos uma foto dele?

- Tenho medo de como ele vai reagir! Foi algo que aconteceu sem que esperássemos, sem que quiséssemos, uma fatalidade, um acidente, tenho medo de como ele vai encarar esta situação!

- Mas, Pandora, vocês se gostam? Porque quando há sentimento, todo o resto perde a importância!

- Mãe, não é tão simples assim! A gente sai, namora, mas não é nada sério, ele nem mora em Berlim! Está aqui fazendo um curso e agora em dezembro volta pro país dele, ele é de Londres! Nunca falamos em ter uma relação séria ou o que vai passar quando ele tenha de ir embora, jamais falamos em casamento ou que quer que seja, entende? Me sinto perdida!

A mãe a acariciou nos cabelos negros e de repente uma buzina a fez saltar da cama e correr para a janela do dormitório. Voltou de lá com um imenso sorriso.

- É ele! - arrumando-se no espelho - Já estou indo pro curso, mãe! Eu venho almoçar! Beijo!

Deu um beijo rápido na bochecha materna e saiu pelas escadas abaixo numa rapidez que mais parecia um furacão. A senhora Heinstein ali ficou, pensativa, já imaginando aquela nova doçura pulando no seu colo e toda sua pessoa se encheu de um novo frescor.

Pandora abriu o portão da propriedade que estava na sua familia há geraçoes. O jovem de cabelos loiros e olhos azuis a esperava, em cima da moto, o casaco negro de napa o vestia explendidamente e o capacete o deixava ainda mais sexy. Quando a viu assomando, desceu do veículo e a recebeu em seus braços, fazendo-a girar diversas vezes e tudo terminou num longo beijo.

- Vamos, sobe! - disse ele, parecia apressado.

- O que houve?

- Houve o meu desejo, que está a ponto de explodir! - dando a partida, enquanto ela se acomodava atrás.

- Desejo? São às 8 da manhã e temos aula, não há tempo para desejo! - ela sorriu cínica.

- Pois que a aula fique pra outra hora, agora vou te levar pro meu apartamento!

Sua mão encontrou a pele branca do delicado rosto e a acariciou. Ela apertou sua mão, detendo o carinho e levando-a aos lábios, a beijou. Encontrando os cabelos femininos, que caiam como um tapete negro pelas costas nuas, ele os segurou com força e os puxou, fazendo-a levantar o rosto, encarando-o. As bocas quase se tocando, as respiraçoes confundindo-se.

Finalmente ele abaixou a cabeça, encontrando os lábios da mulher a sua frente, tão ávidos quanto os seus. Um de seus braços a apertou fortemente pela cintura enquanto ela lhe arrancava, sofregamente, seu casaco e camisa de baixo. Ele afastou-se um pouco para lhe facilitar o trabalho, mas tão logo viu-se livre das peças, puxou-a para si com violência. Ela suspirou forte, apertando os músculos rígidos do namorado.

- Pegue-me pra você! - pediu ela - Faça-me sua outra vez e prometa que nunca mais vai me deixar!

Ele a fitou. A mulher pôde ver um desejo crescente perpassar pelos olhos sensuais que lhe encaravam com ardor.

- Beije-me...- disse ela.

Mas ele não lhe obedeceu. Cravou seus dentes no pescoço cálido, de tal forma que ela fechou os olhos, agarrando-se aos cabelos dele com força, com vontade.

- Como pode ser tão má? - dizia-lhe o homem num sussurro - Queria tê-la aqui para sempre, não sabe o meu desespero quando chega a noite e me encontro sozinho, sem ninguém para compartir minha cama!

- Castigo por ter de me abandonar no final do ano...

Disse ela enquanto ele retirava, violentamente, os objetos de cima da mesa da cozinha e a sentava, abrindo a própria calça com sofreguidão. Passou a sugar os pequenos seios, as suas esperientes mãos encontraram a reentrância das coxas femininas. A lascívia reverberava por cada poro daquela mulher e comunicava-se a ele.

De repente ela lhe puxou pelos cabelos, como ele havia feito antes, e o fez olhá-la dentros dos seus misteriosos orbes violetas, escurecidos pelo prazer.

- Faz-me tua mulher, como da primeira vez...- pediu num murmúrio. - Radamanthys...

Ele obedeceu com um sorriso cínico nos lábios. Penetrou-a com toda a fome daqueles meses de em que vinham se relacionando. E enquanto a possuía, ali, na mesa da cozinha, em meio a uma forte nevasca que caía gelada na cidade de Berlim, o sabor do perigo e da paixão afloravam nele, fazendo-o respirar forte, gemer, enquanto ela, puxando-o mais para si, aprofundando mais a penetração, mordia os lábios no ápice do torpor.

Ele pendeu sobre ela, ofegante. A pequena morte, como chamava. Nunca consiguira separar o instante da satisfação plena da sensação de morrer. Pandora o enlaçou com seus braços nus, também resfolegante. Gotículas de suor se haviam acumulado entre os corpos. Ela sorria, acariciando-lhe as mechas claras. Radamanthys, apoiando-se na mesa, encarou-a.

- Agora, se você quiser, podemos ir para aula!

Essas e outras lembranças lhe chegavam aos borbotoes dentro do peito, enquanto ela, sentada no sofá da república estudantil de Havard, já preparada para dormir, a sala escura, deixava-se perder em pensamentos, em ilusoes, em tantas crenças que se haviam feito em pedaços. Respirou fundo, limpou a garganta, já não chorava, aprendera a ser forte, a não se comportar como a menina ingênua que um dia se havia entregado ao amor e havia sido abandonada pela covardia.

O rodar do trinco a tirou de seus devaneios. Marin entrava abarrotada de livros. Jogou a bolsa em cima da mesa, os livros também e só então percebeu a presença da amiga. Talvez a cara de Pandora não era das melhores, porque a ruiva franziu o cenho e disparou:

- Está um frio terrível lá fora! - encarou-a - Aconteceu alguma coisa?

- Não, estava só pensativa! Relembrando algumas coisas que ás vezes é melhor esquecer, mas não conseguimos!

- Você é sempre tão misteriosa, Pandora, fechada, nunca fala em si, como se ocultasse algo! Eu notei que desde que recebeu aquele último telefonema, que você tem andado chateada, triste e deprimida! Quem é esse homem de voz sensual que liga pra você? Algum namorado?

- Ex-namorado! - respondeu a jovem pálida de olhos negros - Já estávamos separados havia dois anos quando vim pros EUA, não sei porque resolveu aparecer agora nem sei como conseguiu o telefone daqui!

- Você não sente mais nada por ele? - Marin a encarou com seriedade - Pra ter ficado tão abalada por seu telefonema, alguma coisa você sente por ele ainda, nem que seja ódio!

- Talvez seja exatamente isso que eu sinta, Marin, ódio, ódio pelo o que ele me fez passar, por sua covardia, por sua fraqueza, ódio, ódio... - saiu de si, levando as mãos à cabeça e deixando que uma lágrima escorresse.

- Não quer se abrir comigo? Ás vezes conversar, botar pra fora o que nos atormenta, nos ajuda a superar, tenho certeza que você se sentirá melhor quando o fizer!

- Você tem tempo para escutar um conto romântico idiota, cujo final já estava escrito no começo? - irônica, sorrindo entre lágrimas.

- Tenho todo o tempo do mundo para ajudar a uma amiga! Sou toda ouvidos, pode começar!

- Bem, então te contarei o que aconteceu há dois anos!

o.O.o Flashback o.O.o

O mês de outubro finalmente terminava e o outono havia chegado com tudo, frigidíssimo, congelando lagos, rios e os galhos nus das árvores. O apartamento no centro da capital alemã estava obscurecido, iluminado apenas pela luz de algumas velas vermelhas espalhadas pelo ambiente aconchegante, aquecido pela calefação. Em cima da mesa, pratos, copos e talheres estavam arrumados para um jantar romântico e depois...

Ela sorriu, correndo até a cozinha e dando uma olhada no belo assado que havia feito e no bolo de chocolate que havia encomendado. Era o aniversário dele, o primeiro que passavam juntos e como existia a possibilidade de que ele fosse embora em dezembro, Pandora queria fazer aquele dia simplesmente inesquecível, e o faria, pois estava disposta de presenteá-lo com o seu segredo. Com certeza ele se emocionaria e decidiria ficar ou levá-la consigo, afinal, era um rapaz rico também, de uma das mais bem conceituadas famílias londrinas.

A porta abriu-se. Radamanthys não esperava nenhuma surpresa. Havia recibido uma encomenda de seus pais e também os cumprimentos de muitos amigos, ingleses e alemães, mas não, definitivamente não esperara o que encontrou ao cruzar a porta de entrada. Sorriu, tirando o casaco e jogando-o em cima do sofá. Pandora veio recebê-lo com um beijo profundo.

- Então? Gostou? - perguntou ela - Queria que tivesse um dia inesquecível!

- Você já torna meu dia inesquecível, sua mentirosa! Dizendo que precisava passar o dia com a sua mãe, eu bem que imaginei que fosse preparar algo, mas jamais poderia imaginar isso! Adorei a surpresa!

- Tem fome? - ela retirou o cachecol do pescoço masculino - Eu mesmo fiz nosso jantar, espero que esteja bom, nunca fui boa na cozinha, na verdade, sou uma verdadeira nulidade no fogão!

- Bem, se você me matar, meus pais saberão onde procurar minha assassina! Está um cheiro ótimo, tenho certeza que seja lá o que você tenha feito, está comestível!

Sorriram. Sentaram-se a mesa e jantaram tranquilos, uma múisca ao fundo para recepcionar os solitários convidados. Sorriam, brincavam, trocavam carícias, como dois esposos em plena lua de mel. E nessas pequenas delícias, ela sentia mais quente e mais sincero o sentimento que sentia por aquele jovem que só conhecia há tão só seis meses e sentia reciprocidade. Radamanthys por sua vez, pensava em sua viagem, dali a dois meses, na sua responsabilidade frente ao patrimônio de sua família, as empresas do pai, o próprio pai, que esperava seu único filho e herdeiro para substituí-lo no cargo de chefia. Mas preferiu afastar estes e outros pensamentos negativos e só pensar naquele momento mágico, que terminaria para sempre.

Veio a torta. Cantaram o "parabéns para você" em ambos idiomas, ele soprou a velas e ela lhe passou uma espátula, a fim de que ele pudesse cortar o bolo.

- Adivinha pra quem vai o primeiro pedaço? - brincou ele.

- Deixa eu adivinhar? - ela fez cara pensativa - Para o seu hamster? - indicando o pequeno ratinho na sua gaiola.

Brindaram e por fim, ela se levantou, veio até ele, sentado na cadeira degustando de um bom vinho. Pandora se abaixou, agarrou-lhe nas mãos, retendo a atenção do jovem loiro que a encarou risonho, um lindo sorriso iluminando seu rosto másculo de inglês.

- O que houve? - perguntou ele, já meio bêbado, sorrindo como um tonto.

- Queria te dar o meu presente! - disse ela, um sorriso maior ainda no seu rosto pálido - Radamanthys eu... - sorriu mais largo - Eu estou grávida!

Por um instante a sua cabeça girou 360 graus, o vinho tinha começado a fazer efeito. Radamanthys seguia sorrindo feito bobo, como se não houvesse entendido, mas gradativamente seu sorriso foi se apagando, lentamente, seus olhos focalizando com insistência a cara de felicidade de sua companheira. De repente o rosto masculino tronou-se completamente sério, engolindo em seco, seus lábios fechados, como se houvesse recebido a notícia de uma morte repentina e seu cérebro estivesse lento demais para processar as palavras.

- Está feliz, meu amor? - Pandora seguia sorrindo, apertando-lhe as mãos. - Está feliz?

- Parabéns!

Foi o que ele pôde articular, após um longo minuto de silêncio no qual buscou as palavras na cabeça, mas só pôde encontrar aquela, seca, sem vida, mas que expressava bem seus sentimentos naquele momento. E foi com irritação que disse aquilo, fazendo o rosto de Pandora anuviar-se, como uma rosa que se fecha a noite. Radamanthys tentou levantar-se, mas ela o reteve.

- Radamanthys, precisamos conversar!

- Conversar? Não temos nada para conversar! Você planejou tudo isso, não foi? Pensou em tudo sozinha, a notícia no dia do meu aniversário, tudo!

- Do que está falando? - ela também alterou a voz.

- O que você tá querendo? Sabe que vou voltar pra Inglaterra e quis me prender! O que pretende, que eu me case na marra? Não!

- Radamanthys, não é isso que eu quero, só aconteceu, eu juro que não planejei nada, eu... - suas mãos tremiam.

- Aconteceu! Semana passada mesmo eu te perguntei se estava tudo bem e você disse que estava, mas já estava grávida, Pandora! - ele gritava aos quatro ventos.

- Essa criança é uma parte nossa, nós fizemos juntos, deve nos unir, não nos afastar...

- Chega! - berrou ele - Essa história não dará certo comigo, Pandora! Acha que sou idiota?

- Que história? Do que tá falando? - ela irritou-se.

- Essa história de gravidez! Você terá de escolher: ou ele ou eu!

- O que você quer dizer?

- Que você vai ter que tirar essa criança!

Pandora o encarou colérica e partindo pra cima dele, começou a bater-lhe, mas ele a segurou pelos braços.

- Eu estou esperando o filho teu, como pode me pedir uma abominação desta?

- Meu não, seu! Você quis, você planejou, agora dane-se! Eu não tenho nada a ver com essa história!

- Não chame o nosso filho de história! - berrou a garota, era uma cena realmente lamentável.

- Não diga que ele é meu filho, eu te proibo de dizer a quem quer que seja que eu sou pai!

Ela descontrolou-se e levantando a mão, desferiu um tremendo tapa no rosto masculino, que o fez encarar aquele rosto pálido com todo o ardor que lhe adentrou no peito, avermelhado pela raiva súbita.

- Canalha! - rosnou ela entre dentes - Você é muito canalha!

Radamanthys a encarou, lívido, furioso, mas não fez nada. Pegou o casaco, o cachecol, abriu a porta com fúria e saiu, batendo a mesma violentamente. Pandora explodiu em pranto, deixou-se cair de joelhos e tapou o rosto com as mãos. Terminou adormecendo sentada na cadeira, a cabeça afundada nos braços e estes apoiados sobre a mesa. Radamanthys voltou madrugada alta. Entrou no apartamento e fechou a porta devagar. Tirou o casaco e aproximou-se dela, despertando-a com delicadeza. Pandora o olhou, já não chorava, mas o rosto estava inchado e os olhos vermelhos. Radamanthys se encontrava da mesma forma. Ela teve a certeza de que ele também havia chorado.

- Radamanthys...- disse ela sonolenta, tentando se situar.

- Eu sair daquela maneira para pensar um pouco... - disse ele, sentando-se numa cadeira, próximo a ela.

- E o que você decidiu?

- Pandora, eu... Eu vou voltar pra Londres, eu vou embora daqui! Eu sinto muito!

Alguns dias depois, Pandora saia do curso que frequentava, sobre a história da arte alemã. Fazia um frio atroz e apertou mais o sobretudo em volta do corpo. Desde que haviam discutido, fazia já 3 semanas que não via Radamanthys, nem sequer uma notícia, não sabia se ainda seguia em Berlim. De repente, ao cruzar uma avenida movimentada, mãos fortes e puxaram pelo braço, fazendo-a voltar-se para trás, assustada pela interferência. Era ele!

- Podemos conversar? - pediu.

Ela não respondeu, deixou-se levar através de uma rua mais calma até chegarem em um restaurante. O jovem a guiou até uma mesa, ao fundo do ambiente, mais escuro e por isso mais tranquilo. Sentaram-se. Foi ele que, após um silêncio, em que os olhares se degladiavam, disse:

- Estou voltando pra Inglaterra amanhã!

Pandora sentiu-se desfalecer, mas não demonstrou. Olhou-o ainda mais altiva, erguendo bem o rosto onde os olhos brilharam pelas lágrimas que começaram a se acumular. Mas não choraria, não mesmo!

- Eu só queria te entregar isso! - continuou ele, retirando um envelope de dentro do casaco e entregando a ela.

A jovem exitou, mas recebeu. Seria uma carta de despedida? Quando a reteve em suas mãos, sentiu um certo volume em seu interior e encarou seu interlocutor com olhos perscrutadores, interrogativos, como se perguntasse se era realmente o que ela estava pensando. Não podia ser! Com certeza estava enganada! Seria muito cafajeste da parte dele fazer isso!

- É tudo que ainda me restava aqui em Berlim e mais alguma coisa que pedi que o meu pai me enviasse, disse que queria ir a Bélgica e ele me mandou um pouco mais!

Ao escutar isso, ela abriu, sôfrega, o sobre. Era dinheiro, várias notas de 100 euros desfilavam diante de seus olhos indignados. Não ousou encará-lo, sentia-se estremecer de raiva e se o olhasse, certamente o mataria.

- É uma boa quantia, Pandora...- seguiu Radamanthys, atentando no aspecto da companheira - Não quero que pense que é uma esmola, como deve está pensando, é só o que eu acredito ter por obrigação pela situação em que estamos... Não me sentiria bem indo embora sem ter ao menos feito algo por você...

Ela o olhou finalmente e controlando a voz, disse:

- Eu tenho pena de você! Agradeço pela sua bondade e preocupação, mas eu não necessito seu dinheiro, também sou rica, muita rica, tanto quanto você, não faltará nada ao meu filho, até mesmo porque, farei o aborto que você tanto deseja!

Não era o que iria fazer, mas queria que ele pensasse que sim, e finalmente se livraria dele para sempre. Havia sido uma linda história de amor e nada mais.

- O dinheiro é seu, use como quiser, eu só achei que era o que você tinha direito, ou melhor, o que o...o bebê tinha direito, só isso!

Ela levantou-se.

- Ainda tem mais alguma coisa para dizer?

- Não! Só que realmente desejo que vocês fiquem bem e que um dia você entenda meus motivos! E se por acaso você tirar, saiba que estará salvando sua própria vida, será menos um problema para você e menos um remorso para mim!

- Obrigada pelos conselhos, agora volte ao seu país e nunca mais apareça na Alemanha, faça esse favor a nós dois! Nunca mais quero voltar a ver a sua cara!

- Assim será! - disse ele, engolindo em seco - Acabou!

Pandora reteve seu olhar ainda por um momento no rosto impassível do jovem, até que lhe deu as costas e saiu rapidamente dali. Radamanthys alisou os cabelos, impasciente. Levantou-se e tomou as ruas, dirigindo-se ao seu apartamento. Seu vôo, com destino a Londres, sairia nas primeiras horas da manhã.

o.O.o Fim do flashback o.O.o

- E você fez o aborto? - perguntou Marin, abismada por aquela história, sentada agora ao lado de Pandora.

- Não, claro que não! Eu tive minha filha, ela está com meus pais em Berlim, enquanto eu vinha estudar aqui, em Havard! Meus pais me deram todo apoio, não sei o que teria sido de mim sem eles!

- Como se chama sua filha? - a ruiva sorria pela revelação.

- Ninna! - disse Pandora, com uma doçura na voz - Vai completar dois anos no fim de abril! É linda, é um anjo, é a coisa mais importante que já passou na minha vida!

- E ele sabe que a filha segue viva? - Marin ergueu uma sobrancelha.

- Não! Ele realmente acredita que fiz um aborto! Na verdade, quando começou a me ligar aqui, ele nunca perguntou pela criança, como se não houvesse passado nada! Fui eu quem deixou claro que havia feito o procedimento!

- Fez bem, ele não tem direito a nada, é só um canalha que te abandonou quando você mais precisava dele!

- Mas eu ainda penso nele, Marin, realmente penso, nunca pude esquecê-lo...

- Mas vai esquecer e eu vou te ajudar! - Marin levantou-se - Você tem um verdadeiro deus ao seu lado, ainda não se deu conta?

- De que Deus você está falando? - pandora a encarou com olhos brincalhoes.

- O Ikki, aquele amigo do Aioria que dormiu aqui naquele dia! Acha que não notei como vocês se olham?

- Marin! - Pandora levantou-se indignada - É um tipo soberbo, que acha que é a última coca-cola do deserto!

- Última ou não, não é de se jogar fora! Se não fosse o Aioria...

- O que deu em você? Não estou interessada nele, ok! Nem muito menos ele por mim, é comprometido, ele mesmo disse, lembra? - caminha na direção do quarto de dormir. Marin a segue, eufórica.

- A namorada está a dezenas de quilômetros daqui, todo homem fica carente, tem suas necessidades masculinas...

- O que a leva a pensar que estou disposta a ajudá-lo com suas necessidades masculinas? - Pandora a encara cínica, na porta do quarto.

- Não digo ajudar, digo conquitá-lo! Vocês fariam um casal lindo e eu sinto uma tensão sexual muito forte entre vocês!

- Bobagens! Vai dormir que eu acho que os cadáveres do necrotério estão mexendo com seus neurônios!

Pandora fechou a porta, sorrindo e Marin, também sorrindo, um brilho feroz nos olhos, entrou no seu quarto. Finalmente teria com que ocupar a cabeça. Juntaria aqueles dois nem que fosse a última coisa que fizesse.

o.O.o Esparta o.O.o

Dezembro passou, chegou o natal e Esmeralda, com seu vestido florido, acariciava a enorme barriga sentada numa cadeira, enquanto observava o movimento na rua. Já era meia noite e o seu pai, como fazia todos os anos, ceiava na mesa de algum bar, enchendo a cara. Desde que sua mãe os deixara, que ele, todos os natais, realizava aquele ritual. Bebia até embriagar-se e voltava para casa, como um cachorro de rua. Havia sido num dia de natal em que ela, por alguma razão, havia se abalado com outro homem abandonando marido e filha. Suspirou.

Havia recebido, naquela mesma noite, uma chamada de Ikki e descontrolou-se, chorou, e sentiu que a voz dele, sempre tão séria, estava também embargada pelas lágrimas. Mais uma vez ele lhe havia prometido que iriam casar dentro de dois anos e contou dos seus novos amigos, das provas, da vida na América e de um emprego que estava batalhando para ver se podia apressar mais o reencontro dos dois.

E durante todo o momento, entre as lágrimas grossas e o sorriso feliz que se abria nos seus lábios, esteve a ponto de dizer tudo, contar-lhe seus sofrimentos e pedir-lhe que viesse, com seu amor, salvar-lhe daquela via crucis na qual se encontrava. Mas, mais uma vez calou-se, engoliu as palavras e disfrutou daquele rápido momento em que ainda podia escutar a voz dele. levantou-se e caminhou ao seu quarto, pesada, sentindo-se enorme e absolutamente inchada naquela última etapa da gravidez. Os bebês não davam folga, agitados, quase não a deixavam dormir e já andava despenteada, relaxada, sem forças e até respirar tornara-se um exercício desgastante.

O dia amanhecera pálido, nebuloso, uma fina neve caindo naquele fim de ano gelado do mediterrâneo. Como fazia todos os anos, Guilty retornou, bêbado, mas já um pouco sanado. Estivera caminhando toda madrugada, pensando num motivo pelo qual havia sido tão degradantemente abandonado, humilhado, ferido em sua honra. Queria olhar outra vez aquele rosto branco, de cabelos loiros e ai, então, matá-la, sim a mataria, se a visse outra vez, com certeza a mataria...

Chegou diante da porta da sua casa e após um longo momento, decidiu-se a entrar. Havia um envelope no chão, com certeza haviam posto por debaixo da porta. Pegou-o em suas mãos levemente trêmulas pelo álcool e leu o remetente. Era uma carta de Atenas, da amiga de sua filha, que dividia o apartamento com ela. Sem escrúpulos, ou por está alterado pela bebida, abriu-a e foi com surpresa nos olhos que encontrou outra carta dentro, num envelope diferente, um selo diferente, onde na direção dizia: cambridge, massachusetts, USA.

Largou a carta anterior ao chão e prestou atenção nesta, apalpando-a, cheirando-a e abriu um sorriso cínico no rosto suado. Finalmente o cachorro tinha mandado algo de dinheiro. E Pôs-se a ler, tranquilamente, a missiva de Ikki Amamiya.

o.O.o Continua... o.O.o