Capítulo 2
Estava aliviada por poder voltar a fumar, nove meses sem os cubanos parecia um castigo eterno. Claro que só pode devolvê-los a sua rotina porque a criança recém nascida parecia recusar-se a tomar leite, seja materno ou não, só conseguiram alimenta-la quando Seras teve a brilhante e óbvia ideia que adicionar sangue a mistura de leite infantil.
Soltou a fumaça acre. Como aquilo lhe fez falta. Mesmo que novas regras, criadas por Walter, tenham entrado em vigor, estava bem mais contente. "Apenas dois charutos por dia", "Nunca em espaços fechados" a voz do mordomo parecia pregar sua mente como um martelo e um prego. Apagou o que estava fumando, hora de conferir as necessidades do pequeno ser em seu quarto. Depositou a mão sobre a maçaneta da porta de vidro de sua varanda. Levantou uma sobrancelha para seu reflexo no vidro. Walter conseguiu o que queria: faze-la voltar ao peso ideal depois da gravidez.
A gestação de um híbrido exigiu muito de seu fisco, no primeiro mês após o parto um alheio que a visse chutaria anorexia no lugar de gravidez. Seu mordomo empenhou-se ao máximo no quesito, invocou o espírito de pai e guardião que Integra não via desde a adolescência. Riu da lembrança abrindo a porta.
Ao entrar, voltou sua atenção para o berço, seu conteúdo parecia dormir em perfeita calma. A mãe apoiou os braços no berço para observar melhor a criança. Tinha o rosto rechonchudo e bochechas rosadas, os curtos cabelinhos eram quase tão claros quanto os da mãe. Nasceu de olhos abertos, grandes e azulados, mas não tão cristalinos quanto os de Integra.
Suspirou.
Eram feições tão angelicais que nem parecia cria do mais cruel dos não humanos e da mais dura mulher da Inglaterra. Cria do mais cruel dos demônios. Cria do vampiro que voltava de uma missão coberto por sangue e com aquele maldito sorriso. Nunca entregava seus relatórios escritos, mas quando os fazia, com sua letra cursiva antiga e invejada, não deixava esquecer um único detalhe de quanto sanguinário era o oponente e o quanto ele provara ser ainda pior ao derrotá-lo. Integra podia imaginá-lo sorrindo satisfeito ao lembrar de sua missão bem sucedida.
Pelo o que a moça conhecia da história do seu servo, ele nunca teve a oportunidade de ser pai em vida. É claro que ela não espera que ele seja um pai amoroso, exemplar ou coisa do tipo, talvez ele nem saiba como tratar a cria, acabaria que ela terá de inventar meias verdades para criança quando essa for maior, evitando seu convívio com Alucard talvez facilite as coisas, afinal, não é muito saudável para uma pequena criatura saber que o pai mataria qualquer um sem pensar duas vezes, apenas para se divertir ou se alimentar.
Lembrou-se de uma das histórias sobre o passado de Alucard, Arthur Hellsing adorava colecionar manuscritos delas, algumas o vampiro confirmou ser reais, outras jurou falsidade.
Quando era apenas Vlad III e sua fama de empalador não o havia agraciado possuía uma espécie de namorada que Integra acabou por deduzir, mesmo ainda bem nova, que a moça não passava de uma concubina favorita, pois bem, Vlad e a jovem cigana de cabelos negros e curvas desejosas se engraçavam em quase toda parte do castelo e mesmo que seja duvidoso, o príncipe acabou por nutrir algum sentimento sério pela moça.
Bastou encontra-la na cama com um de seus soldados para que o desejo de ter-la em seus braços se tornou no desejo de vê-la morta. Assim o fez, a moça teve a cabeça decepada, corpo torturado e pendurado a uma estaca, já seu amante teve o rosto brutalmente deformado e foi morto enforcado e pendurado debaixo de uma ponte para servir com exemplo. O príncipe sabia que aquele era um dos melhores guerreiros, mas tocar o corpo de sua 'amiga' favorita era traição, mesmo que a mulher fosse só uma prostituta. O ciúme do vampiro sempre foi um ponto fraco.
A Hellsing sabia disso mais do que qualquer outro, o ciúme que Alucard nutria por si sempre acabava por tirá-lo de seu centro. Como da vez em que ele quase matou um nobre perante toda a corte britânica. Ele e a mestra estavam em um baile qualquer de um duque que só queria promover a filha na comemoração de 18 anos. Alucard recebeu a ordem de acompanhar sua senhora, como se ele não tivesse gostado da tarefa, principalmente por ter a oportunidade de passar a noite toda a vê-la naquele vestido branco sem decote na frente, mas com as costas completamente a mostra, céus como ele amava aquele vestido.
A questão é que além do seu servo outro infeliz pareceu enfeitiçado por sua imagem, mais infeliz ainda foi a ideia do rapaz de tentar obrigar a Hellsing a dançar. O resultado disso foi um vampiro furioso e enciumado rosnando como um cão enquanto segurava o jovem pelo pescoço erguendo-o do chão uns trinta centímetros, a cada segundo apertava vai a garganta do homem com o punho. Integra estava com ódio do homem, por isso demorou alguns longos segundo antes de ordenar soltura para seu cãozinho.
Balançou o móbile de estrelas brilhantes que foi pendurado acima do berço da criança. Escutou o tilintar as pedrinhas douradas e prateadas como se fosse a última composição do mundo.
Seu servo sempre ansioso de mais. Podia notar isso perfeitamente em seus beijos, como a vez em que estavam completamente bêbados, ela pelo álcool e ele por seu sangue que parecia ferver em suas veias. Ambos bêbados pelo desejo. O homem tomava-lhe os lábios como se fosse morrer se não o fizesse, como se fosse morrer pela segunda vez, de forma definitiva. Alisava-lhe a cintura e as costas como se nunca tivesse tocado uma mulher. Integra riu. Ele era velho e experiente de mais para essa hipótese. Talvez o vampiro só achasse que nunca poderia tocá-la.
Estavam aos amassos no escritório. Ela sentada na mesa e ele de pé entre suas pernas. O homem explorava, com as mãos, o que podia do corpo da outra, que por sua vez puxava-lhe os logos cabelos negros. Gemeu alto quando a mão dele tocou o vão entre suas pernas. A Hellsing deu um riso envergonhado e abaixou a face ruborizada ao se lembrar do que passaram. Voltou à idéia inicial, Alucard tão cruel, tão ansioso, tão ciumento, tão frio e ao mesmo tempo tão quente.
A criança abriu os olhos e ameaçou um choro estridente, evitando o pior Integra a pos no colo.
"Na cama, sempre tão bom" escapou pelos lábios
"O que é tão bom na cama, minha mestra?"
Alucard sentiu um punhal de prata atravessar-lhe o pulmão direito quando atravessou uma das paredes do aposento.
