Capítulo 4
Madeleine sabia que, assim como a mãe, seu pai era extremamente metódico, mas esperar-lhe na biblioteca estava ficando insuportavelmente entediante. Já havia trocado de posição infinitas vezes, testou todas as posições possíveis de se estar sentada, ou quase. Quando sua 'dança das cadeiras' atingiu o ápice da chatice estirou-se no tapete caro da sala de leitura. Limitou-se a abrir os braços e encarar o lustre no teto, estreitou os olhos tentando conferir a excessiva limpeza do adorno. Levantou de a cabeça ao ouvir o barulho da porta se abrindo. Encarou o pai entrar, tranquilo, como se medisse cada passo, cada movimento. A hiperatividade e falta de paciência da menina falaram mais alto.
"Você demorou" levantou o tronco e sentou-se sobre os calcanhares "Muito!" deu ênfase ao final da oratória.
"Eu disse que estaria aqui depois do anoitecer" A menina levantou uma sobrancelha enquanto ele se aproximava "Você quem decidiu aparecer pouco depois do por do sol" Só agora a menina reparou no que o pai carregava.
"Que diferença faz? Anoitecer, por do sol é a mesma coisa!" respondeu com uma pitada de raiva na voz.
"Para um vampiro" Ele depositou a taça de cristal fino na mesa de centro perante a menor, viu os olhos de Madeleine seguir cada um de seus movimentos "Faz toda a diferença" Sorriu ao completar a tulipa com um líquido vermelho pulsante que saía quase vivo pelo bocal da garrafa.
A menina limitou-se a desviar o olhar e fazer careta de aborrecida.
"Beba" Alucard pegou um cavalo preto do jogo de xadrez perfeitamente organizado sobre o tampo da mesa. Sentou-se em uma das poltronas rodando a peça favorita entre os dedos.
A menina o encarou com dúvida.
Alucard soltou um suspiro morto, por que tinha que explicar isso sempre?
"Vai deixá-la mais forte, não é o que quer?" encostou o cotovelo no braço da poltrona de couro, observando mais de perto o cavalo negro.
Observou, por rabo de olho, as orbes azuis da filha brilharem em vermelho vivo enquanto ela bebia do líquido quente. Achou no mínimo interessante. Madeleine terminou a bebida e ficou encarando-o, como se esperasse algum comentário ou ensinamento. Ficou olhando-o em silêncio por segundos que lhe pareceram terríveis horas.
"Não vai falar nada!?" Quebrou o silêncio irritada, mas foi surpreendida com outra pausa sem som.
Alucard apoiou os cotovelos nos joelhos e curvou o tronco para aproximar-se mais da filha sentada no chão. Ele fez questão de fazer outra pausa dramática. A menina abriu a boca para falar algo, mas foi interrompida.
"Um vampiro é paciente" comentou olhando, desafiador para os olhos azuis da mais nova.
"Isso é algo que você nunca teve!"
Pai e filha voltaram o rosto para encarar a origem da voz cínica feminina. Integra estava encostada no batente da porta aberta, com as expressão de claro escárnio.
"Madeleine" Adotou a seriedade "Está tarde, amanhã você tem aula, lembra-se?" a Hellsing entrou mais na sala, observando a pequena morena levantar-se, bufar, andar a passos largos até a porta, bufar novamente, todavia mais alto, e tomar seu rumo corredor adentro.
O Vampiro, por sua vez, sorrateiramente, ergueu-se e aproximou-se, até de mais, de sua mestra.
"Sou muito paciente, minha mestra, a final, esperei mais de dez anos para tê-la" prendeu a cintura da mulher com um dos braços e aproximou seu rosto do dela com a intenção de beijá-la, não conseguiu mais do que um breve roçar de lábios.
"Então pode esperar mais algumas horas" Ela sorriu maldosa ao se afastar dele, ainda de olhos semi-cerrados.
O mais alto fez uma careta de insatisfeito enquanto ela se aproximava das poltronas observando a taça vazia.
"O que estavam fazendo?" perguntou virando-se para encará-lo.
O moreno deu seu sarcástico sorriso de sempre e lançou o cavalo negro para a mulher que desastradamente o pegou no ar. Aloira, ao olhar a peça e o único desalinho no tabuleiro. Abriu a boca para falar, mas o outro já havia desaparecido. Com certeza a Hellsing não entendeu direito a resposta.
Integra suspirou vencida, sabia que Alucard tramava algo, na verdade sempre o fazia, mas dessa vez a filha estava envolvida, sabia que nada de bom poderia sair da união desses dois. Apertou a peça em sua mão esquerda. Amaldiçoou-se mais uma vez por não ter afastado a jovem dele quando bem pequena. Talvez tenha sido melhor assim. Largou o cavalo de qualquer jeito sobre a mesa de centro.
"Por que o cavalo?" Madeleine questionou sentada em sua cama com roupas de dormir.
"Apenas gosto dessa peça" Alucard desprendeu-se de uma das paredes.
"Por quê? Ela está presa á uma única movimentação, só pode andar em 'L'" Questionou sentindo-se com toda a razão do mundo "A melhor peça é a rainha, é livre e pode mover-se de qualquer maneira que o jogador desejar" empinou o nariz com orgulho do que acabara de dizer.
"É ai que se engana, menina" Ele puxou a cadeira da penteadeira para próximo à cama da filha "A simplicidade pode ser um grande trunfo!" Respondeu com ar enigmático que só ela conseguia fazer, por fim, sentou-se de pernas abertas com o encosto do acento de frente para si.
"Ha!" Riu com escárnio enquanto ele apoiava os braços no encosto da cadeira "Sendo assim, a melhor peça do jogo seria o peão" completou a criança com incredulidade.
"Não exagere!" Ele fez uma pausa depois de sorrir "Não deveria estar dormindo?"
"Vampiros não dormem de noite" Respondeu cheia de si e o pai balançou a cabeça positivamente em resposta "E você..." Ele levantou uma sobrancelha para ouvi-la "Não deveria estar correndo atrás da mamãe?"
Ele riu.
"Ela me deu um fora dessa vez" Ele processou a pergunta que lhe foi feita "Você não é muito nova para saber desses... assuntos?" Ele fez uma cara divertida.
"Vocês poderiam mudar-me de quarto, ou pelo menos fazer menos barulho, essas paredes são finas, sabia!?" reclamou séria cruzando os braços.
Alucard não pode evitar uma gargalhada alta e exagerada, a menor só o olhava com a cara fechada, esperando o fim do teatro que o pai era acostumado a fazer.
"Poderia colocar-te no porão, ainda iria ouvir uma agulha cair no chão com sua audição privilegiada" Terminou com seu pequeno show e voltou a encará-la.
A menina resmungou enfiando a cabeça no travesseiro, ficou assim por cinco segundos que no seu interior pareceu cinco dias.
"Estou ansiosa" resmungou com a cara ainda colada no tecido "Você não vai me ensinar nada? Estou ficando nervosa!" Fazia voz de choro forçado, com a esperança de que seu drama surtisse algum efeito no vampiro.
"Esse é o problema" comentou frustrado.
"O quê?" Ela largou o travesseiro para encará-lo.
"Suas emoções humanas interferem na suas capacidade sobre-humanas" Respondeu sério "Controle suas emoções e talvez possa ficar mais forte"
A criança entortou o nariz, sentou-se na cama com um pé apoiado em cada coxa, endireitou as costas, botou os braços dobrados próximos ao corpo e respirou profundamente fechando os olhos.
"O que diabos está fazendo?" Alucard só pode perguntar assistindo a cena bizarra.
"Meditando" Respondeu séria "As pessoas mantêm o equilíbrio assim"
"Não dura dois minutos quieta" Ele retrucou levantando da cadeira.
"Onde vai?" Ela perguntou abrindo um dos olhos para vê-lo.
"Integra disse para eu esperar um pouco, já passou uma hora" Ele colocou a cadeira de volta em seu lugar, próxima à penteadeira.
A menina desistiu da posição e jogou-se na cama.
"Eu disse" Alucard desapareceu por uma das paredes depois do comentário.
"Foi um minuto e cinqüenta e sete segundos!" Gritou a menina para o vazio "Isso é quase dois minutos!" Falou baixo fazendo biquinho.
Revirou-se na cama, seu pai estava certo, precisava controlar melhor suas emoções humanas para aperfeiçoar as demais. Sentou-se novamente para pensar. A sensação que teve ao tomar o sangue daquela tulipa é diferente de qualquer outra. Sentia-se mais atenta, mais leve, na verdade parecia que a taça não tinha peso nenhum, parecia que ela flutuava em seus dedos. Abriu um sorriso. Não sabia o por quê, mas estava feliz e esperançosa para com o seu novo 'treinamento', todavia uma ressalva prendeu-lhe a atenção. O que sua mãe diria sobre isso? Com certeza ficaria furiosa, profanaria algumas palavras e descarregaria a arma em Alucard.
Madeleine, de bruços, jogou a cabeça e os ombros para fora da cama, tendo uma visão de ser quarto de ponta cabeça. Justo sua mãe, Integra Hellsing, que caça vampiros e os aniquila como insetos. Madeleine se sentia uma traidora. Quase em um susto pô-se sentada na cama novamente. Como sua mãe pode ser tão hipócrita? Afinal, foi ela quem se deitou, e se deita, com a espécie que mais detesta, a espécie que seus antepassados caçaram e ela segue caçando. Madeleine deitou-se novamente. Seus ancestrais devem contorcer-se no túmulo. Debateu-se em sua cama resmungando e dando gritinhos histéricos. Não aguentava mais ficar naquela cama.
