A chegada!
Como todo lugar atingido pela última guerra, a baia de Onogoro tinha se desenvolvido das cinzas novamente e quase 2 anos após o Neo-Gêneses era um vibrante centro urbano, como havia sido nos tempos anteriores à primeira guerra.
Contudo, para Shinn Asuka, recém-chegado de PLANT, a similaridade com seu passado era ainda mais incômoda. A sua colocação em um vôo de comercial de rotina fora feita pela presidente de antemão, como se ela já soubesse que ele iria aceitar. As informações sobre seu período em PLANT estavam codificadas. Para todos os efeitos ele era um sobrevivente de guerra que voltava para tentar refazer sua vida. E esse era seu pior disfarce.
A primeira parada fora em um hospital militar onde de praxe, imigrantes e refugiados de guerra que voltavam, deveriam se registrar, passar por exames e receber novas informações sobre quais as providencias que o governo principal e a Representante Attha estavam tomando para assegurar que suas boas vidas voltassem à normalidade. Ou como pensava o jovem oficial, mentiras.
- Olá – disse alegremente uma jovem, oficial de Orb – posso ajudá-lo?
- Olá. E eu duvido que você possa fazer essa fila sumir – tentou ser simpático – então só me resta esperar na fila.
- Sou a soldado Kyla Stwart dos Emirados Unidos de Orb, prazer em conhecê-lo – disse a oficial, estendendo a mão.
- Shinn Asuka – apertou a mão firmemente – refugiado, maltrapilho com uma vida toda na mochila.
- E tristeza no olhar – disse oportunamente Stwart – Desculpe.
- Não é necessário pedir desculpas. Você não falou nada errado – completou Asuka, tentando retirar a importância do assunto. Como esperado, não deu certo. O trabalho de Kyla era justamente esse, começar uma avaliação psicológica nos refugiados, dando a eles algo que muitos não tiveram durante a guerra: segurança. Sua alegria e expansividade natural, faziam com que ela fosse destacada para os piores casos, pessoas extremamente amargas e voláteis. Ou se preferirem Shinn Asuka.
- Desculpe se eu me intrometo demais na sua vida, mas a maioria das pessoas costumam estar felizes por conseguirem recomeçar suas vidas. Você está triste por estar aqui?
- Sim. Por que não puxa minha ficha entre esses papeis que você tem na prancheta e verifica qual o meu caso, ou prefere que eu conte para poder fazer seu relatório e me deixar em paz – disse o jovem visivelmente incomodado com a presença feminina. Quanto mais tempo ela passasse com ele, maiores seriam as chances de seu disfarce ser descoberto... sem falar no fato que aquela garota de cabelos marrons rebeldes, iguais aos seus, mais parecendo uma pilha ambulante pulando e sorrindo sem parar, estava lhe dando dor de cabeça.
Kyla se mostrou surpreendida pela percepção do rapaz. Ele não só tinha desconfiado da casualidade dela, como também descobriu que era parte de sua função avaliá-lo. Na sua ótica, só alguém realmente desiludido de qualquer situação se isolaria daquele jeito, o que dava nela vontade de redobrar seus esforços.
- Como você descobriu? Eu não percebi você olhando para minha prancheta? – perguntou curiosa.
- Desenhei uma palmeira nas costas da folha. No alto da palmeira um único coco. Quais as chances de você ter outro desenho igual e não ser o meu? Fora que eu reconheço minhas obras. Com licença – disse o jovem se aproximando do guichê de formalização de estada. Passado isso, poderia sair daquele hospital e começar a procurar pistas.
- Certo, Sr. Asuka, eu gostaria de saber sua história por você. Por que essa tristeza no olhar? – tentou novamente a garota.
- Você não sabe quando desistir, não é? – disse o jovem, pegando seu visto de permanência e encaminhando-se à saída.
- Não. Eu quero ajudar você a lidar com a sua dor. Por favor me conte a sua história. Eu pago um café.
- Não é necessário, não vou levar um minuto contando minha história para você. Há quase 5 anos atrás, minha família e eu tentávamos evacuar do campo de batalha que se formou nessa maldita ilha. Minha irmã deixou seu celular cair e eu fui buscar, antes que ela fizesse uma besteira por aquilo. Nisso, um daqueles robôs acertou onde eles estavam. De minha irmã sobrou o braço. De meus pais, muito pouco. Como sou um coordinator, fui mandado para PLANT onde passei por dezenas de lares adotivos, mas não me encaixei em nenhum deles. Sumi por um tempo, trabalhei meu sustento e vim pra cá. Conheci você que não pára de me perguntar porque eu tenho os olhos tristes. Posso ir agora?
A garota viu a coleção de emoções negativas que ele guardava dentro de si. Isso, segundo a crença popular, provavelmente ia envenená-lo pouco a pouco, tornando-o uma ameaça à outras pessoas ou a si mesmo. E pelo bem da sociedade, ela tinha o dever de desarmar aquela bomba. Era isso que seus mestres de Psicologia esperariam de sua melhor aluna. Sem pensar muito, ela pegou um broche com um chip localizador, assim ela podia fingir casualidade e esperar que fora do ambiente militar, ele se abrisse.
- Sei que nada que eu falasse, adiantaria muito. Por isso, quero que aceite esse broche como prova de amizade e leve meu cartão. Quando precisar de alguém para conversar é só me ligar – entregou o cartão e colocou o broche na lapela do garoto – Antes de ir, só mais uma pergunta: Por que voltar agora?
- Meus pais gostavam daqui e... eu não me encaixei em nenhum outro lugar... eles merecem que eu tente refazer minha vida... além do mais, a Terra é um lugar grande. Aqui é tão bom quanto qualquer outro lugar.
Shinn virou as costas e caminhou para fora do campo de visão da garota. Saiu do hospital militar e foi direto á uma cabine telefônica e discou para o telefone de seu amigo Youlan, que finalmente saíra do controle de danos e fora para telemetria.
- Youlan, sou eu – disse assim que o outro atendera.
- Shinn! Te deixaram ligar da prisão?
- Não importa. Qual a situação aí?
- Então os boatos já chegaram à PLANT? De Qualquer forma, e-está tudo bem por aqui...
- Ponta da praia, em 20 minutos.
- Entendido – disse o dono do aparelho, já desculpando-se com seus companheiros de trabalho e saindo de fininho.
Meia hora depois Youlan Razard chega até a ponta da praia adjacente ao cais, onde a Equilibrium está ancorada. Primeiro, tenta olhar contra o sol para procurar a silhueta de seu amigo. Se ele não dissesse algo tão específico, poderia jurar que era uma pegadinha direto da cadeia. Não demorou muito, uma sombra projetou-se junto à sua.
- Shinn? – estranhou Youlan.
- Qual a situação na Equilibrium?
- O ataque foi na saída da nave e capitão e Luna estão desaparecidos. Nenhum contato foi feito e a informação não vazou para Orb. O Comandante está hospitalizado, mas não sai da ponte da Equilibrium. Se você não se apresentou, isso significa que sua visita tem a ver com isso, certo?
- Errado! Não há visita nenhuma. Eu estou preso lá no Armory 1, como o capitão La Joule ordenou, por desacato.
- Entendo. Tem alguma pista do paradeiro?
- Não. Nos vemos.
- Ei, Shinn. Tem uma arma?
- Não conseguiria passar pela alfândega se tivesse uma, certo? Nos vemos.
Enquanto seu amigo ficava para trás, Shinn ia pensando na inutilidade da coisa toda. O mandaram só porque ele nascera e crescera aqui. Isso não era muito diferente do que os naturais diziam sobre os coordinators. Isolado aqui por ser de lá e mandado nesta missão por ser daqui; isso é o que ele chamava de ironia. Chamando seu amigo pra fora, conseguiu descobrir que a própria fabrica de fofocas da nave nem especulava sobre isso. E que com, o Comandante ferido, a prioridade seria a defesa da nave e não a investigação.
Como precisava de um teto, o tentente disfarçado resolveu que iria ao bosque onde crescera, pois sabia que por ser um ambiente ermo, com poucas casas, um andarilho passaria desapercebido por ali. Não foi uma decisão fácil, mas era aquilo ou nada. Ele sabia que seria na próxima noite ele ficaria em um dos albergues para refugiados, mas essa noite ele precisava exorcizar seus demônios e planejar como ganhar informações. Duas horas mais tarde, a noite começava a cair quando ele teve uma surpresa.
- A casa... intacta?
Não havia dúvida. Sua casa resistira a duas guerras e continuava com o mesmo aspecto acolhedor, um pouco mais velha e precisando urgentemente de uma reforma, mas seu pai a havia feito para durar. Só quando chegou mais perto, notou que havia algo incomum. Pegadas ao redor da casa.
Como se fosse uma resposta à suas perguntas, o gatilho de uma arma foi ouvido atrás dele.
- Quem é você? E porque esta aqui? – uma voz velha e outra cansada perguntam, com rispidez. Isso significa que são, ao menos duas pessoas, possivelmente de uma mesma família.
- Eu sou Shinn Asuka. Reconhece o nome na caixa de correspondência? Isso significa que os invasores são vocês. – diz o jovem se virando e encarando seu oponente. Após um segundo, o homem tira o dedo do gatilho e baixa a arma.
- Desculpe garoto. Encontramos essa casa abandonada há alguns meses e como era afastada de tudo, pensamos que seus ocupantes tinham morrido na guerra. Sou John Lehnman. Essa é minha esposa Lídia.
Rapidamente, o clima melhora quando descobrem que ele também é um refugiado de guerra e que, como eles perdera tudo o que tinha. Já estavam tomando um café com os filhos do casal, Jebediah e Ruth, quando veio à tona o assunto:
- Não se preocupe, garoto. Somos pobres, porém honrados. Amanhã procuraremos outro lugar para ficar – disse o chefe da família.
- Isso não será necessário. Eu jamais conseguiria morar nessa casa novamente. Vocês a encheram de alegria, transformaram ela em um lar novamente. Ela é de vocês. Só vou tomar alguns pertences deles e amanhã irei embora.
- Mas seus pais trabalharam duro para conseguir essa casa. Não seria justo...
- Meus pais trabalharam duro para construir um lar. Enquanto eu morar aqui, ela jamais será um lar novamente. Eu só quero alguma coisa para ter de recordação e...
Shinn não pode terminar de falar, pois foi envolto em um abraço emocionado por parte do casal. Eles, mais do que ninguém sabiam que certas dores só podiam ser curadas com o tempo, mas que o carinho e a felicidade eram um começo. A caridade de um estranho é muitas vezes algo que a maioria das pessoas sequer ouve falar em um mundo tão caótico.
Era madrugada e ele não conseguia dormir. Os olhos inchados denunciavam o quanto chorou no quarto dos pais e da irmã. Meia hora sozinho em cada um foi mais do que suficiente, mas ainda não conseguia dormir. Sabia que sua vida agora era em PLANT e Z.A.F.T. fazia parte do que ele era agora, mas não podia deixar de pensar: se eles tivessem ficado em casa, estariam à salvo? Ou aí seria a casa arrasada, deixando posteriormente, os Lehnman sem abrigo novamente? Com todos esses pensamentos em mente, nem sequer ouviu John se aproximar.
- Não consgue dormir, garoto?
- É muita coisa para assimilar. Às vezes eu penso, será que se nós tivéssemos ficado em casa, ela seria destruída? Ou se nós tivéssemos saído minutos antes ou depois o laser teria nos atingido? Essa casa suscita memórias, muitas boas e muitas ruins.
- Entendo, mas quero que saiba que sempre poderá contar conosco. Enquanto vivermos, essa sempre será a sua casa também.
- Obrigado. Significa muito pra mim. Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro! – disse o velho.
- Aonde eu posso ouvir coisas que não devo? Qual seria o lugar que eu deveria evitar?
- Qual é sua verdadeira história, garoto? Você fica com uma arma apontada pra você e não treme. Que parte da história você não nos contou?
- Minha namorada é repórter e veio para Onogoro investigar uma história sobre atividades ilegais e desapareceu dois dias depois. Nós tínhamos brigado por que eu não queria vir para cá e por isso, só me avisaram que ela havia sumido ontem. E eu vim pra cá sem um plano, só com desculpas furadas, esperando a sorte me dar alguma pista.
- Há alguns meses, um bando de refugiados descontentes se encontravam no Spartan´s, um bar que fica a meia hora do centro da cidade. Mas, vou lhe avisando: o local ali é barra pesada.
- Não se preocupe, John. Eu sei me cuidar.
Como sempre, a coisa paga fogo!
Embora não exista nenhum review, espero que um dia, quando alguém leia (momento chantagem emocional!), consiga entender os erros do meu português ruim e perdoá-los.
Para aqueles que sabem espanhol, ou querem aprender, recomendo duas xcelentes histórias, Gundam Seed Fortress e Gundam Seed Discordia! Histórias sublimes que me fizeram pensar em muitos modos de melhorar essa história!
Nos lemos.
Fan Surfer
