- Ah... gente, não falta alguém nessa mesa? – perguntou Kyla, enquanto um médico e um almirante faziam seus pedidos.
Enquanto o médico optou por uma deliciosa foto de um spaghetti, Zala resolveu pedir algo que contivesse carne,
encarando um strogonoff de frango.
- É mesmo? Eu acho que todos estamos aqui. – sorriu cinicamente Argile.
- Tudo bem, agora chega! Onde está o seu paciente, doutor Argile? – fuzilou como se conhecesse aquele sorriso.
- Ele é um paciente e eu sou um médico. Já pensou se todas as pessoas que eu tratasse me seguissem por aí? Eu teria
uma verdadeira legião ao fim do dia – rebateu gostosamente o médico.
- Tanta gente assim? – perguntou Zala – Acho melhor mandar um ofício para Cagalli informando disso. Ela pode redistribuir
a área de atuação do hospital.
- Não é por aí, Atthrum. Todos os hospitais da região estão com gente saindo pelo ladrão. O certo seria contarmos com
mais alguns hospitais nas ilhas próximas, o que faria com que os moradores mais próximos não se deslocassem para
Onogoro e nos deixasse aqui com os moradores tradicionais e refugiados que chegam. Embora ainda seria corrido,
poderíamos atender com qualidade a todos sem problemas.
- Falando nisso Kyla, qual a média de refugiados que vocês atendem? – tornou a perguntar o oficial.
- Não existem números oficiais, mas atendemos nessa última semana, algo em torno de 500 refugiados vindos da terra e
outros 120 vindos de PLANT. O quê me lembra, onde está Shinn?
Por um momento, o almirante olhou com o cenho franzido como se estivesse em uma batalha. Entrava tanta gente assim
por semana em Orb? Isso tornaria a função de Shinn mais difícil, isto é, se ele estivesse certo. Teria que se esforçar ao
máximo para sacar informações. Após a avaliação, descontraiu o rosto e respondeu a pergunta.
- Ele foi para o centro de refugiados. Disse que ainda não tinha se registrado lá e queria uma boa cama.
- Ele por acaso dormiu na sua casa, Almirante? – perguntou Kyla.
- Não, eu o encontrei no hospital. Ele dormiu no bosque onde morava com a família. Ao que parece, a casa em que viveu
sobreviveu aos ataques com poucos danos.
- Então ele tem casa? Mas porque ele foi para o abrigo?
- Ele encontrou uma família de refugiados na casa. Então cedeu os direitos de posse da casa a eles – disse Sai, folheando
calmamente uma revista.
- Isso não faz sentido! Ele tem a chance de conseguir algo em que se apoiar para o futuro e entrega isso para outra
pessoa?
- O que não é tão diferente do que você faz, Kyla. Ou do que eu faço. Ou do que Atthrum faz. Cada um de nós procura a
seu modo ajudar outras pessoas.
- Além do mais – continuou Atthrum – ele jamais conseguiria vender a casa. Tampouco morar nela. Ele não poderia
construir um lar ali. Recordações demais.
A garota começou a arrumar suas coisas para sair. Precisava se certificar que aquele garoto estava onde realmente disse
que estava, pois ela tinha um pressentimento. No entanto, havia algo que não se encaixava no quadro. Ela nunca soubera
de uma pessoa que tivesse tamanho ódio contra um lugar e não estivesse preso a ele por uma espiral de autodestruição.
Com isso em mente, preparava-se para sair quando uma mão delicadamente a impediu.
- Dê-lhe um pouco de tempo e desfrute desse almoço – sorriu o almirante – Como você acabou no exército, Kyla?
- E... eu agia como engenheira social, depois que conheci Sai, acabei cursando a universidade e um tempo depois que
terminei meus estudos, ouvi falar que estavam recrutando gente para auxiliar aos refugiados.
- Desculpe-me, mas o que vêm a ser engenharia social? – perguntou Zala.
- Trambiques – respondeu calmamente Sai, recebendo uma mirada ferina da garota.
- Isso não é verdade. Eu fazia isso, apenas para não morrer de fome... – defendeu-se a garota, ganhando um olhar de
censura do médico – e...também quando queria comprar alguma coisa – continuou recebendo o olhar - ...quando não tinha
nada melhor para fazer... – ainda sentindo o olhar queimando dentro dela – eu era muito boa no que fazia, tá legal!? Isso
era como um vício, cada dia era uma aventura. Sempre bancando a esperta, sempre lucrando em cima da estupidez alheia.
Enquanto assistia a confissão da garota, que agora parecia envergonhada de seu passado, Atthrum Zala percebera que
nunca pensou mais profundamente sobre toda a sua vida. Ele nascera em uma família rica e tivera tudo, menos a
companhia de sua mãe, mas esta lhe foi privada por um míssil nuclear que atingiu Junius Seven. Depois disso treinou até
sair na missão com Dearkka, Ysak, Nicol e os outros. Nunca se perguntou se o que fez foi correto, pois sabia que sim, mas
depois de conhecer a tripulação da Archangel mudou radicalmente de idéia. No fim da guerra, parecia que tudo estava
destinado a ficar com Cagalli, mas novamente a coisa mudou de figura e ele acabou lutando ao lado de Z.A.F.T.
novamente. Retornou à Archangel e lutou pela terra contra o plano de Dullindal, logo voltou para Orb, namorou Meyrin e
casou-se e tornou-se almirante. Quase 10 anos de vida entre Orb e PLANT e nunca pensou em como se sente um
refugiado comum, aquele que perde suas coisas e tem de recomeçar do zero uma e outra vez, tantas quanto forem
necessárias.
- Atthrum, está bem? – perguntou Kyla, expressando sua preocupação. Apesar das histórias fantásticas que já ouvira na
base, o almirante Zala resultava em uma pessoa calma e tranqüila, tanto que se não o conhecesse, jamais o diferenciaria
de uma pessoa comum.
- Só estava pensando em sua história – respondeu o jovem – passei por várias coisas na minha vida, mas nunca soube
nem de perto o que é passar o que você ou qualquer refugiado passou. Não se envergonhe do seu passado, ele faz parte
de você. Não concorda, Sai.
- Sim. Além do mais, se você não fosse desse jeito nós nunca estaríamos aqui nesse momento – disse tranqüilamente.
- O quê nos leva à uma pergunta: como vocês se conheceram? – perguntou o almirante, olhando por um momento como os
jovens se olhavam e sorriam, ainda que timidamente.
- Ela me deu um golpe... – disse Sai.
- Eu limpei seu apartamento... – riu Kyla.
- Mas eu a rastreei e chamei a polícia... – alfinetou o médico.
- E eu fui presa. No julgamento, adivinha quem foi livrar minha cara...
- Eu fiz um acordo com o juiz. Ela teria a ficha limpa se prestasse serviços comunitários no hospital e na clínica em que
trabalhava...
- É mas, ele me fez trabalhar o dobro! – queixou-se a garota.
- No começo, foi quase uma deliciosa vingança, mas quando fomos nos conhecendo...
- A coisa começou complicada, ele tinha seus traumas e eu também...
- Flay? – perguntou Atthrum ao amigo, assustando Kyla.
- Entre outras coisas. Mas acabamos por nos acertar primeiro com nos mesmos e depois, um com o outro. – terminou o
médico.
- Vocês perceberam que completaram as sentenças um do outro? – perguntou Atthrum, maliciosamente – Um casal tão
sintonizado assim é raro de se ver.
- E como anda você e Cagalli? – perguntou Sai, completamente envergonhado.
- Notícia velha. Estou casado com outra mulher e ela casada com Orb – brincou Zala, mas com uma ponta de verdade.
- Uau! Você e a Representante Attha? Eu jamais imaginaria isso! – pulou de alegria Stwart.
- Sim, mas isso é notícia velha. Não vale a pena entrar no caso. Kyla como vocês tem controle dos movimentos dos
refugiados que chegam à esse país?
- A premissa da constituição de Orb dá a cada indivíduo a liberdade dentro da legalidade, mas temos localizadores nos
indivíduos potencialmente perigosos. Estes, tomamos cuidado para que não entrem em contato com outros indivíduos
igualmente perigosos. Ou tentamos...
Droga! Isso dizia que não dá pra ser uma célula terrorista organizada por refugiados. Shinn precisa saber disso, pensou
Zala.
- ...porque ele parecem ter descoberto que são vigiados e muitos deles tem desaparecido do radar por horas, dias, até
semanas. É quase como se eles estivessem em um lugar onde o radar não pudesse achá-los – completou Kyla,
descontraídamente.
- Qual o tipo de artefato sinalizador vocês usam? – perguntou o médico.
- Um sinalizador comum por microondas, por quê?
Sai escutava o relato com interesse que a garota pensou ser em relação à ela, o que não era de todo mentira, mas sua
mente trabalhava freneticamente em busca de respostas. Sabia por experiência própria na ponte da Archangel que poucas
coisas passariam desapercebidas pelo radar, mas que tipo de coisas... água e rocha sólida, talvez. Sim! Os radares são
configurados para excluírem esses elementos, especialmente radares de terra. Se eles estivessem fora do radar,
provavelmente estavam cercados por alguns desses elementos. O problema é que Onogoro é uma ilha e água e rocha
sólida são coisas evidentemente em abundância por aqui.
- Olha, o papo ta bom, mas tenho que voltar e salvar algumas vidas, cortar calos, extirpar verrugas... essas coisas –
completou o médico, pagando a conta do almoço – Kyla, se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar. – retomou,
beijando-a próximo à junção dos lábios - Atthrum, boliche amanhã à noite?
- Estarei lá – disse, aturdido pela ultima menção do médico – te ligo mais tarde e acertamos os detalhes – conclui o rapaz
acenando, enquanto o médico já havia virado as costas e ia em direção ao hospital.
O almirante olha para a cara sonhadora de sua oficial. Ela estava em um turbilhão de emoções, claramente estupefata e
em choque, mas também corada e com um sorriso bobo nos lábios e a mão onde ele a havia beijado. Após um minuto
deliciando-se do desconcerto da jovem, resolveu trazê-la de volta à realidade.
- Acho que vou abaixar seu soldo, só de sacanagem – disse suavemente.
- Tudo bem, não se preoc... – a garota parou no meio da frase, dando-se conta do que ele tinha falado e do que tinha
respondido.
- HAHAHAHAHAHAHA – Atthrum gargalhava enquanto ela se avermelhava mais ainda, dada a vergonha de ser pega mirado
abobada seu ex-namorado.
- Isso não teve graça – respondeu Stwart.
- Teve sim, e muita – disse o rapaz, limpando uma lágrima do olho esquerdo – Afinal, porque vocês terminaram?
- Porque fui uma estúpida – disse ela tristemente.
Desculpe o atraso, mas tive contratempos. Nada como um blecaute quando você está inspirado para escrever fanfics, para fazer você criar a boa e velha vergonha na cara.
Este capítulo foi escrito ao som de Rock in the jail, do famoso Elvis "the pelvis" Presley.
Quinta feira, dia 11/09/08 eu pretendo atualizar todas as minhas fics. Se não rolar novos problemas técnico.
Nos Lemos,
Fan Surfer
