- Em termos simples foi assim que aconteceu. Eu estava no lugar errado por assim dizer, na hora errada. Não sabia de

nada do que você e os outros aprenderam. Se bem que às vezes penso que foi ao contrário, considerando o quanto

ganhei no final das contas.

- Como assim?! Você nunca tinha nem visto um Móbile Suit antes? – perguntou espantada a jovem prisioneira.

Eles tinham perdido a noção de tempo, mas acreditando que passaram-se 3 ou 4 dias desde que respiraram o ar com a

suave brisa marinha do porto de Onogoro. O ar viciado da prisão era o menor de seus problemas se não achassem uma

saída logo, mas seus captores, fossem quem fossem, não estavam facilitando em um mínimo. Suas refeições eram servidas

através de uma porta fechada e sem possibilidade de ver o rosto do carcereiro. Uma vez por dia, segundo seus cálculos,

eram sedados com gás e levados para fora para exames médicos. Os curativos indicavam isso. Acordavam nas mesmas

condições das quais tinham dormido anteriormente, mas pelo tipo de curativos, chegaram a conclusão de que

provavelmente mostras de sangue eram sacadas diariamente. Os motivos permaneciam misteriosos.

Por isso, eles sabiam que a diferença entre viver e morrer, poderia estar em seus reflexos. Politicamente eram um risco,

afinal estavam ali para uma reunião secreta. Os seqüestradores sabiam disso, mas Kira não revelou nada no interrogatório

e Luna não sabia da missão. Por conta disto, não esperavam uma operação de resgate; isso foi um golpe para ambos, de

maneiras diferentes, porém. Para Kira, pensar que sua noiva sacrificaria seu amor para manter à vista os sonhos de paz

dos dois era um triste consolo; para Luna, a dor de não poder ver seu namorado novamente era sufocante, não só pelas

palavras não ditas, mas também pela forma com que se despediram: um curto beijo e um 'nós vemos em uma semana'.

Tendo isso em mente, eles começaram a treinar duas vezes por dia, na esperança de uma chance de escapar e para

manter a sanidade mental, conversavam sobre tudo que pudessem pensar. O que nos leva à pergunta de Luna sobre

como ele se envolvera na guerra anterior.

- Já vira na televisão, mas ao vivo, nunca A equipe da qual Atthrum fazia parte resolveu roubar os novos Móbiles Suits que

a Aliança desenvolvia no espaço e foi aí que conheci Cagalli-san, Murrue-san e, literalente, acabei caindo no Strike. De

quebra tive que reescrever todo o código dele, mas consegui fazê-lo algo manobrável.

- Agora eu sei por que o presidente Dullindal te tratava como se fosse um super-homem – comenta a tenente.

- Não é que eu esteja orgulhoso dessa habilidade, mas se puder usá-la para proteger as pessoas que não tem essa

capacidade.

- Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas – sussurrou contemplativa Hawke.

- O que você disse? – perguntou Kira.

- Shinn me disse isso depois da guerra. Disse também que sempre será uma questão de justiça de quem ganha, mas se

ele pudesse, daria sua vida para proteger os mais fracos.

A menção do colega, causou um silencio constrangedor. Se essa frase fosse verdade, era mais uma das conquistas de Kira

em relação ao piloto. Ele não mais se deixaria influenciar por palavras alheias e escolheria suas próprias palavras. Para

Luna, ela sabia disso, pois lembrava-se do tapa que Atthrum desferira em Shinn, quando este dizimou uma companhia

inteira da Aliança para poder salvar os nativos de uma ilha, que haviam sido escravizados. E como ele sempre a protegia,

mesmo quando ela não precisasse de sua proteção. Isso a fazia se sentir querida, segura e amada. Decidida a romper o

gelo, voltou a perguntar:

- E como começou sua história com a presidente Cline?

- Sabe que ela prefere ser chamada por Lacus – pontuou o capitão.

- Especialmente por você – riu gostosamente a garota, obtendo o mesmo de seu companheiro de cela. Eles sabiam que

tais momentos eram raros e deviam ser aproveitados.

- Uma nave fora atacada para incriminar a gente e esta lançou uma cápsula de salvamento no espaço. Quando eu e a

Archangel recolhemos a cápsula foi uma surpresa de saber que a ocupante era uma garota da minha idade, lindíssima,

doce e...

- Noiva prometida de Atthrum Zalla, que estava tentando matar vocês desde a colônia – sorriu Luna para seu capitão.

- Exato. A primeira coisa que pensaram era que nós usaríamos como moeda de barganha para escaparmos, mas ao fim de

muita discussão acabei entregando-a para Atthrum levá-la para casa.

- Mas já estava apaixonado por ela?

- É difícil dizer. Eu estava muito confuso, não só pela guerra e a nova condição de arma, mas havia mais gente envolvida

emocionalmente nessa confusão: Flay, Sai, Atthrum... com tudo isso, não queria aceitar o tipo de sentimento puro que ela

me oferecia, mas ela, com o tempo, conseguiu me convencer que existe uma outra saída para tudo. E foi conquistando

minha amizade, confiança e amor inabalável. Sem ela do meu lado, eu preferiria a morte.

- Isso é lindo. Melodramático, mas lindo! É quase um conto de fadas moderno. E o que diriam as paredes dos dormitórios

da Archangel se falassem? – assumiu tom de picárdia, a voz da garota.

- Não sei do que você está falando. Lacus e eu nunca fizemos nada a bordo da Archangel! – rosnou envergonhado,

Yamato.

- Então você e Flay... – espetou a garota.

- Sim, eu e Flay mantivemos relações a bordo da Archangel, satisfeita?

- Ah sim. E muito.

- E o que as paredes da Minerva e da Equilibrium falariam se elas tivesse boca, hein dona espertinha? – se vingou o

capitão.

A pouca luz da cela permitiu ao homem ver várias tonalidades de vermelho passando pelo rosto da jovem, mas a

expressão de tristeza era constante em seu semblante. Por fim, ela disse:

- Não se preocupe, capitão. Entre Shinn e eu não se passou nada desse nível. Não é que eu não queira ou não sonhe com

isso, mas toda vez que eu tomo a iniciativa, ele se torna muito esquivo, dizendo que talvez fosse melhor esperarmos um

pouco e coisas assim. Eu sei que ele gosta de mim, mas eu preferiria se ele não me respeitasse tanto...

Kira não sabe como ajudar a garota, então se cala. Para ajudá-la, necessitam sair das garras de seu algozes sozinhos.

Isso se tornava difícil sem saber nada sobre eles, nem quantos eram. Sabia da existência de pelo menos, 10 pessoas

diferentes pelas vozes, mas o resto era um grande mistério. Perdido em pensamentos, Kira notou uma voz grossa e

autoconfiante que vinha da cela ao lado por um buraco pequeno, próximo ao chão da cela.

- Ora, ora senhorita. Seu problema é de fácil solução. Se o garoto perdeu o pai aos 14 anos, provavelmente ninguém teve

uma conversa com ele sobre abelhas e flores. Nada que um pouco de autoconfiança e um papinho amigável sobre o que as

mulheres gostam para dar jeito!

Um relâmpago passou pelo cérebro de Kira Yamato e ele preparava-se para tentar descobrir se sua teoria estava certa,

quando uma segunda voz, notoriamente feminina, pronunciou-se na cela vizinha.

- E você acha que é especialista no que as mulheres gostam. Certas partes do corpo feminino você não encontraria, nem

se eu desse um mapa para você – disse com jovial ironia.

- É mas, quando eu as descobri, você queria que eu marcasse território todo santo dia – burlou-se a primeira voz.

- Eu sei que a sua memória é fraca – respondeu sarcasticamente.

- Essa foi golpe baixo – queixou-se o homem.

- Mwu-san? Murrue-san? – perguntou Kira, como se duvidasse de seus ouvidos.

- Ora, ora. Se não é nosso padrinho de casamento. Aquele que nunca aparece e é Lacus-san pra cá, Lacus-san pra lá –

ironizou o falcão de Edinmion.

- Não ligue para ele Kira-kun, somos nós mesmos. Pelo jeito, você também foi capturado?

- Sim, acredito que tenha alguma coisa a ver com o que nós sabemos sobre os boatos.

- E essa mocinha a seu lado, imagino que não é a senhorita Clyne, estou certo? – pergunta jovialmente Mwu.

- Eu sou Lunamaria Hawke. – se apresentou a garota – Há quanto tempo vocês foram seqüestrados?

- Acordamos aqui ontem a noite, mas estávamos amordaçados e presos de costas. Depois de um gás estranho, acordamos

há meia hora mais ou menos, mas como a conversa de vocês estava alegre eu esperei Murrue acordar para intervirmos.

- Calculamos que fomos seqüestrados há pelo menos 4 dias. Murrue-san, pode verificar se seus braços possuem marcas de

agulhas? – perguntou Yamato.

- Sim. O mesmo aconteceu com vocês? – perguntou Murrue Ramius, capitã da Archangel.

- Exatamente. Um dos objetivos deles é o nosso sangue ou deve estar no nosso sangue. Mas o que temos em comum em

nosso sangue?


Acho que até segunda eu consigo postar mais um capítulo... aguarde e confie, como diria Didi Mocó!

Nos lemos,

Fan Surfer