O Encontro
O dia de ontem ontem fora exaustivo para o tenente, mas a perspectiva de uma nova pista, mesmo que incidental, o fez
perder o sono logo de manhã. Eram 8 horas da manhã e ele estava à todo vapor, colocando seus talentos à prova em
uma das oficinas de informática do C.I.R.O. Após deixar Stwart na porta do Spartan's, fez uma ligação para Youlan. Não
sabia se haviam feito adaptação ao horário de Orb e não lhe importou ouvir seu amigo reclamar durante 10 minutos o
sonho perdido, no qual ele pilotava um Móbile Suit cercado de garotas. Assim como também não lhe importou lembrar à
seu amigo que o cockpit da arma não cabe mais que uma pessoa.
A situação da Equilibrium continuava inalterada, embora o comandante enviasse alguns informes para Z.A.F.T., nada de
concreto acontecia. Por isso, precisava de Youlan: ele precisava ficar sozinho na telemetria, o que aconteceria pela escala
de trabalho em mais seis horas. Enquanto isso, dedicava-se a construir um aoarelho e, se não era possível a finalização
deste, antes que saísse para comprar as peças, queria adiantá-lo o máximo possível. Neste momento, um dos monitores
recebe uma ligação da portaria.
- Senhor Asuka? – perguntou o instrutor.
- Só Shinn está bom – respondeu o jovem.
- Certo... Shinn, uma garota está a sua procura na recepção.
- Obrigado. Vou ver o que ela quer comigo
Enquanto atravessava o complexo, Shinn decidiu que precisaria de uma boa desculpa para Kyla. Simplesmente saíra
andando feliz e ainda por cima não se dignou a escutá-la; se bem que não adiantaria nada, ele estava convencido que se
quisesse saber do submundo, deveria voltar ao Spartan's. O bar provavelmente não estava envolvido, mas serviria de
ponto de encontro para marginais. Que lugar melhor que um bar barra pesada para se esconder? Se todo mundo ali é
durão, seria como se nadasse entre os tubarões sem fazer parte da cadeia alimentar deles. Para a surpresa dele, não era
Stwart que estava ali, mas uma completa desconhecida. Decidiu atrasar seu passo para analisar a garota: decididamente
era bela em suas formas: ela parecia ter olhos expressivos, nariz suave, lábios finos, emoldurados por um cabelo
castanho, elegantemente despenteado. Vestia uma calça caqui, com vários bolsos e jaqueta no mesmo molde, levando
uma bolsa grande, retangular com vários compartimentos. Em nenhum momento, deixara de ser elegante e jovial, mas
seus olhos pareciam vívidos à medida que o jovem se aproximava.
- Shinn Asuka? – perguntou inocentemente a garota.
- Sim, em que posso ajudá-la? – rebateu no mesmo tom. Pese sua aparente tranqüilidade, ele estava nervoso por nunca
ter visto essa garota na frente e ela não só saber onde está, como também seu nome. Será que a missão fora
comprometida?
- Meu nome é Miriália Haw e sou jornalista independente. Uma amiga em comum passou seu contato para que
pudéssemos conversar sobre a experiência do jovem refugiado, quais seus sonhos e esperanças.
A mente de Shinn trabalhava com uma velocidade espantosa, enquanto ia recebendo as informações. Ela era jornalista,
será que essa historia de matéria seria um pretexto para poder se aproximar? Ou isso teria sido uma estratégia de Kyla
para que ele se abrisse e a matéria era verdadeira? Nesse momento, lembrou-se de algo que passou desapercebido em
sua primeira investigação; seu nome.
- Por favor senhorita Haw, pode me dar alguns minutos para guardar alguns equipamentos, segundo as normas do
C.I.R.O.?
- Claro. Podemos conversar em um café próximo daqui e depois combinamos um dia para as fotos e filmagens –
respondeu a moça.
O caminho até o café foi recheado por uma conversa casual, do tipo "quais são seus planos para o futuro?" ou "como foi
sua adaptação entre Orb e PLANT?". Ao chegarem ao lugar, escolheram uma mesa que, ainda que ficasse na calçada,
estava estrategicamente fora de alcance das outras mesas, para ser iniciada a conversa.
- Bom , imagino que já tenha montado um pequeno mosaico sobre minha aparição, não é Shinn Asuka? – contestou a
jovem repórter.
- Realmente, senhorita Haw. Ou prefere Miri? – perguntou em tom sarcástico.
- Senhorita Haw está bem. Não se deve ser muito intimo com alguém que já tentou matá-la.
- Pelo visto você estava a bordo da Archangel então? – continuou como quem não quer nada, Shinn.
- Sim. Deixe-me fazer uma pergunta: qual a sensação de se tirar a vida de alguém? – perguntou acidamente, a garota.
- É quase como salvar a vida de alguém, mas sem o peso e com muito mais tapinhas nas costas. – respondeu
sinceramente – mas sou um soldado e é isso o que faço. Defendo os interesses da nação que sirvo.
- Nação essa que quase colocou o mundo sob seu domínio.
- E que está em mãos da sua amiga, atualmente.
- Porque diz que é minha amiga? – pergunta Haw.
- Porque ela também fez parte da "grande família feliz a bordo da Archangel" que eu cansei de ouvir de Zalla e Yamato. Já
lhe disse: sou um soldado e não um fazendeiro. Recebo ordens e as cumpro.
- Mesmo quando essa ordem te diz para matar um amigo seu.
- Naquele momento, sim. Mesmo que isso significasse matar Zalla. E o fato de servirmos junto, não faz de nós
necessariamente amigos.
- Por receber essas ordens, você tentou matar Kira? – estocou Haw.
- Errado. Quem tenta não põe seu total esforço para um objetivo. Eu me empenhei em acabar com Freedom. Por essas
coisas do destino, Yamato é tão cabeça dura quanto eu e não sabe a hora de permanecer morto.
- De modo que hoje terminou servindo sob ordens do homem que quase matou. Qual é a sensação disso? – continuou o
ataque.
- Se espera uma emoção de mim, esqueça; sou um soldado. O povo de PLANT confiou sua vontade e seu coração à
presidente Clyne. E ela confia em Yamato. Se essa é a decisão dela, como servidor do povo que ela governa, não tenho
muito que fazer a não ser respaldá-la.
- Então, no resumo de tudo, você está aqui porque segue sob ordens de Lacus?... Nesse caso, seja bem-vindo à facção
Clyne. – sorriu verdadeiramente a moça, fazendo com que o jovem tenente perdesse o fio da discussão.
- Isso tudo foi um teste?
- Eu não poderia confiar em alguém que nunca vi na vida. Desse modo, resolvi descobrir se você era tão confiável quanto
Meyrin disse.
- Ela me acha confiável? Que surpresa! Do modo em que ela me tratou da última vez que nos vimos, dava pra pensar o
contrário.
- Não leve aquilo em consideração. Ela estava nervosa e não sabia se você estava realmente comprometido em resgatar
Kira e Luna.
- Certo. E o que conseguiu apurar com suas fontes, senhorita Haw? – perguntou em tom pícaro, o jovem tenente.
- Realmente, há algo de errado com as organizações de apoio aos refugiados. Em sua maioria, elas parecem ser
entidades sérias e comprometidas com os refugiados, mas cada vez mais gangues de refugiados estão se transformando
nessas ongs, aproveitando da sombra de estabilidade de Orb para achacar seus comerciantes. Disso, boa parte das
pessoas ignoram, mas uma das principais "gangues institucionalidas" é justamente a...
- Deixe-me adivinhar... Mão Invisível?
- Correto, Asuka. Comenta-se que algum de seus fundadores, agora refugiados, foram servidores de órgãos militares da
antiga que caíram em desgraça. Seu atual líder, Mellon Phistopollis, tem seus boatos circulando como um antigo aliado
naval da Blue Cosmos, mas nada foi provado.
- Quando Dullindal revelou a identidade e os planos do Blue Cosmos, a população da terra fez justiça pelas próprias mãos
e matou a maioria deles. Os que sobreviveram eram do círculos menores e não tinham acesso à maiora das decisões. –
relembrou o jovem.
- Exatamente, Shinn. Por isso Phisto está livre. Há mais uma coisa a respeito dele: durante alguns meses, ele esteve aqui
em Orb, trabalhando na Inntech.
- Deixe-me adivinhar... onde trabalhou com Shinno Asuka em um projeto.
- Você sabia disso? – perguntou Miriália.
- Phisto me disse isso ontem. Ele quer que me junte à sua organização, seja lá o que significa e Kyla Stwart conseguiu-me
tempo... ou estragou meu disfarce. Quem sabe quando ela vai aparecer de novo.
- Essa desgraçada ainda existe? – irritou-se a jornalista.
- Pelo visto, vocês têm algumas diferenças de opinião – burlou Asuka.
- Pode se dizer que sim. Ela é uma pedra em meu sapato desde que a conheci.
- O que houve entre vocês duas?
- Quando eu voltei para Orb, não tinha ninguém com quem contar. Kira, estava com Lacus e não sabia aonde. Cagalli era
uma governante e não teria como chegar até ela. O resto da equipe da Archangel não tinha contato de ninguém. Mwu
estava morto e Murrue estava com Kira e Lacus. O único que me estendeu uma mão fora Sai, que sempre estivera comigo
e de quem estava em constante contato. Ele me deixou dormir em seu apartamento enquanto refazia minha vida. E sua
amiga, então namorada de Sai, fez de nossa vida um inferno, até chegar na sandice de fazer ele escolher entre nós e
tentar me deixar sem casa. Não demorou para conseguir um apartamento e um emprego com a ajuda dele, mas era tarde
demais para salvar o relacionamento deles. Isso porque ela o traiu com um amigo dele.
- Segundo Yamato, ele também fizera isso. Nada novo, mas cada vez que isso acontece é igualmente doloroso.
- Tanto como enterrar alguém que se ama, não concorda? – perguntou Miriália. Ela havia ouvido a história de Shinn ontem,
da boca de Atthrum e Meyrin, que sabiam das partes que ele não dividira com eles, mas dividira com Luna.
- Sim. Isso não é nada novo pra mim, por isso não é necessário lembrar-me. Conheço essa dor de perto. Mas acho que
ainda existe algo entre aqueles dois.
- Pode ser, mas não estamos aqui para discutir a vida amorosa dos outros. Quais são seus planos, agora?
- Aceitar o convite de Phisto. Acho que tem algo de podre lá e tenho certeza que terei algumas pistas.
A conversa neste momento, estava fluindo satisfatoriamente, mesmo com seu começo ácido. Contudo, uma pessoa
passara por aquela rua e vendo uma cena familiar, resolvera descer do carro e saudar uma velha amiga. Shinn que estava
de costas para a rua, não percebera a parada da limusine, nem a aproximação da jovem loira.
- Miriália, há quanto tempo? – cumprimentou a garota – Por onde tem andado?
- Cagalli, é bom ver você novamente – disse a castanha, levantando-se e indo abraçar a Representante de Orb. Nem é
preciso dizer que a última pessoa que Shinn queria ver em sua estada na ilha era a irmã de Kira Yamato. Por isso,
enquanto as duas trocavam amenidades, olhou em volta e procurou uma rota de fuga, em vão. Um arrepio percorreu sua
espinha quando esta lhe dirigira a palavra.
- Desculpe-me interromper vo... Shinn?! O quê você está fazendo aqui?!
- Isso é um café, certo? Pode somar dois mais dois e perceber o que estou fazendo – responde o homem, tomando um
gole de um espumante capuccino.
- Você entendeu o quê quis dizer, Shinn. O que você faz em Orb?
- Isso não é de sua conta, Attha.
Nesse momento uma pequena multidão juntava-se para ver o acontecimento, afinal, não é todo dia que a representante
máxima do país, por mais normalidade que gostasse de ostentar, parava em um café para cumprimentar uma amiga e
quais as possibilidades de um homem em seu juízo perfeito contestar uma mulher de tamanha importância daquele jeito,
quase com desprezo por sua figura.
O alvoroço não passou despercebido pelo segurança, que pegou Shinn pela camisa ao ver como ele se referia à sua
chefe. Enquanto o jovem refugiado não se fez de rogado.
- Attha, acho melhor chamar de volta seu cão de guarda, antes que ele tenha uma pata quebrada.
Enquanto os homens se mediam na troca de olhares, a loira resolvera dar um fim nisso tudo. Sabia que não conseguiria
arrancar a verdade dele e não adiantaria torturá-lo como seu chefe de segurança gostaria de fazer. Colocando uma mão
sobre o ombro do segurança, disse:
- Por favor, Yasutora-san solte-o. Pode não parecer, mas Shinn é uma boa pessoa.
Contrariado, o segurança largou a gola da camisa do jovem refugiado que aproveitou o fato para pegar uma torrada e
sinalizar como se desse um biscoito a um cão.
- Isso, bom garoto. Bom garoto. Como vocês devem ter muito a por em dia, vou cuidar da minha vida. Senhorita Haw,
mantemos contato? Tenho interesse em ver o desdobramento dessa sua história. – disse, tomando um ultimo gole de
café e saindo em direção ao centro de Onogoro.
As duas jovens o observavam sumir por uma rua próxima e, após alguns minutos de silencio, Cagalli disse à sua amiga,
enquanto a dirigia para limusine:
- Miri, pode me contar o quê ele faz aqui?
- Segundo pude apurar, ele veio tratar de um espólio dos pais deles.Parece que sua presença era demandada aqui e eu
gostaria de usá-lo como fonte em uma matéria que estou fazendo, sobre o governo de Lacus-san.
- Miriália Haw. Excelente fotógrafa, exímia jornalista, insuperável oficial de comunicações da Archangel e péssima
mentirosa. Você é uma repórter e eu sou política: sabemos quando os outros estão mentindo para nós – censurou o loira.
- Não colou, certo? – perguntou a jornalista, como se fosse uma menina, pega pelos pais junto do namorado.
- Nem um pouco.
- Nesse caso não posso falar – respondeu sabiamente a jovem.
Com essa, a representante Attha não esperava. Ela sabia do ódio de Shinn por Onogoro e sempre pensou que a melhor
coisa que Kira poderia fazer era colocá-lo sob seu comando e vigiá-lo, pelo bem de Orb. Nisso, se lembrou de que poderia
haver alguém que poderia saber sobre essa visita. Sorrindo, disse ao motorista:
- Por favor, poderia refazer a rota e ir até a casa do almirante Zalla?
- Sim senhora.
Boa notícia para quem acompanha esta fic: eu terminei de escrevê-la... se conseguir esqueer de um possível epílogo, rs...
Isso significa que eu devo queimar os cartuchos da fic semanalmente agora ( sei que digo isso ao longo dos meses, mas... agora vai... ou quase...)
Nos Lemos,
Fan Surfer
