Eram aproximadamente, 8h40 quando a porta da mansão dos Zalla foi aberta por uma espantada empregada. Apesar de não estar na casa há

muito tempo, ela sabia que seus patrões eram importantes ao povo, mas a ponto da governante máxima do país aparecer para tomar café

como se fosse da família?

Meyrin as recebeu na sala, enquanto se preparava para começar o seu dia de trabalho. Embora estivessem bem financeiramente, ela sempre

fez questão de continuar trabalhando, como se formara em telecomunicações em PLANT, conseguirá facilmente uma vaga de executiva em uma

empresa que dava suporte militar para a frota naval de Orb e, apesar de sua relação com o almirante, ela trabalhava duas vezes mais que sua

equipe para provar que merecera o posto.

- Cagalli! Miriália! Que surpresa ter vocês aqui para o café. Espero que não se importem de um café da manhã simples, mas feito com carinho!

- Obrigada, Meyrin. Eu vou aceitar, porque faz muitos dias que eu não sei o que é um café da manhã – responde a loira.

- Eu já tomei, mas acompanharei as duas com um suco de laranja – completa a castanha.

Ao chegarem à cozinha, encontram-se com o dono da casa que as cumprimenta amigavelmente. Um minuto de silêncio é dado enquanto

aquelas 3 pessoas, ligadas por um fio invisível se olham. À parte disto tudo, a repórter só observa, enquanto o silencio é quebrado pela dona

da casa.

- Cagalli, experimente esse bolo. Receita secreta da vovó Hawke.

- Uau! Isso é incrível, Meyrin-chan. você sabe que eu adoro as receitas da vovó Hawke – dizia a política, enquanto se sentava e desfrutava do

bolo.

- Você poderia se deliciar mais das receitas secretas se passasse mais tempo com seus amigos – reclamou sua interlocutora.

- Mas se ela passar tempo demais conosco, Orb não se auto regulamentará sozinha – pondera Atthrum – E você Miri, por onde tem andado?

- Ando fazendo muita coisa da vida, Atthrum. Como sempre, a vida de um repórter não é nada fácil. Muitas injustiças para se registrar.

- Um mês atrás, encontrei Dearkka. Ele me disse que vocês se cruzaram em uma dessas reportagens – comentou despreocupado. Sabia que ela

ainda sentia algo pelo amigo e que o sentimento era mútuo. Só precisavam achar uma brecha nas carreiras e nas teimosias de ambos.

- É... isso foi nostálgico! – sorriu a jovem – Pena que a matéria acabou logo, mas ficamos de jantar juntos quando as agendas derem uma folga.

Deve rolar em um ano ou dois – riu da própria piada, acompanhada pelos demais.

- Ah... Atthrum. Encontrei Shinn agora de manhã em um café. Você sabe o que ele esta fazendo por aqui? – perguntou Cagalli, como quem não

quer nada.

A tensão percorreu a cozinha. Todos sabiam da impetuosidade de Cagalli, que quando colocava alguma coisa na cabeça, era quase impossível

dissuadi-la. Se ela soubesse da missão de Shinn, ela iria querer ajudar, mas da maneira errada, mobilizaria todo seu pessoal de confiança para

obter informações sobre o paradeiro de Kira e Luna. Isso seria ainda pior pois, como almirante, Atthrum sabia que esses tipos não eram nada

sutis e acabariam por estragar as chances da missão.

- Não – tentou dissimular – Ele não veio junto com o pessoal da Equilibrium?

- Você sabe que não! – olhou acusadoramente, Cagalli – Viu os registros da nave, assim como eu!

- Nesse caso, eu não sei o quê ele está fazendo aqui. – contestou suavemente, sem olhá-la nos diretamente.

- Eu sei que você está mentindo. A pergunta é porque, meu almirante mentiria para mim?

- Talvez porque não tenha a ver com você? – disse Zalla, comprando o desafio.

- Se acontece em Orb, tem a ver comigo. Especialmente se um homem que disse que se Orb devesse queimar, ele o faria!

- Cagalli! – se exaltou Atthrum.

- Chega!! – disse Meyrin – Cagalli, você sabe que Shinn disse isso como bravata. E Atthrum, embora Shinn tenha pedido para você guardar

silencio sobre isso, não vale a pena tudo isso. Shinn pediu baixa de Z.A.F.T. e veio fazer a vida dele aqui. Agora podemos terminar o café em

paz?

- Se isso é tudo, porquê não me disseram antes? – perguntou a loira.

- Porque eu sabia que você desconfiaria dele e ele já sofreu demais – ponderou o almirante.

O resto da conversa permaneceu amena, mas evidentemente fria. Após algumas recomendações mútuas, as duas mulheres saíram. Coube à

Meyrin Zalla, acompanhá-las até a porta.

- E lembrem-se: nossa casa também é de vocês. Venham quando quiserem – sentenciou com um sorriso.

- Meyrin... eu ainda não desisti... você sabe – sussurrou a loira, enquanto voltava seu rosto para o lado, evidentemente envergonhada da

confissão.

- Sim, eu sei... e como disse antes... que isso não nos impeça de sermos amigas – contestou a ruiva, com um sorriso. Miriália estava olhando a

situação em choque, sem saber o que dizer.

- Em guarda! – disse Cagalli.

- Em guarda! – respondeu Meyrin.

Ao entrarem na limusine oficial, a repórter não se conteve e perguntou:

- Cagalli-san... o que foi isso agora há pouco?

- É melhor que eu lhe conte do início – suspira Attha.

Início do flash back

A noite estava agitada no salão de festas em Orb. Afinal, nem todo dia, um herói de guerra contrai matrimonio. Apesar toda a confusão e

compromissos, a noiva percebe uma movimentação de uma de suas convidadas, buscando exatamente um terraço para descansar de tudo

aquilo e fugir de sua própria dor.

Se desculpando com a multidão, a noiva se aproxima em silêncio de sua convidada, mas o suficiente para perceber seus soluços. Sem dizer

nada, ela envolve fraternalmente seu ombro em um abraço silencioso. Esta se vê presa em uma desagradável situação e tenta escapar,

dizendo o óbvio.

- Snif...Meyrin... foi uma..snif.. linda cerimônia...snif – completou, fungando entre lágrimas.

- Sim, é verdade Cagalli, mas algo me diz que essas lágrimas não são só de alegria, estou certa?

- Você veio até aqui para tripudiar de mim? Faz uma idéia do quanto é duro para mim estar aqui? – disse, encarando a noiva. Esta somente

sorriu, concordando.

- Realmente não deve ter sido fácil, mas independente de Atthrum, eu gostaria de pensar que está aqui porque também é minha amiga.

- Você não entende, não é mesmo? Eu estava me segurando na cadeira para não roubá-lo do altar e você vem me dizendo que somos amigas?

Como você pode querer ser amiga de alguém assim? – enfrentou a loira.

- Você não o fez, não é? – suspira a ruiva – Entenda isso, Cagalli: se meu casamento dar certo ou não, não será uma decisão minha, mas de

Atthrum e eu. Da mesma forma que, se meu casamento afundasse porque a soberana de Orb roubou o noivo no altar, seria uma decisão de nós

3. Não se culpe por querer ser amada pelo homem que ama; eu só desejo mostrá-la que nem tudo é preto e branco... a vida sempre está mais

para o cinza – sorriu a senhora Zalla.

- Meyrin, isso... – começou Attha, mas foi interrompida pela amiga.

- Ele ainda gosta de você. Não sei como ele gosta ou o quanto gosta, mas ele não lhe é indiferente – suspirou, como se estivesse dizendo um

segredo macabro – No entanto, eu porei tudo de mim para que ele esqueça de você, como mulher e eu aconselho você a fazer o contrário. Não

sejamos inimigas por gostar do mesmo homem. O resto, será decidido por Atthrum Zalla. E o futuro será decidido por nossas atitudes.

- Você não pode estar me pedindo isso! Quer realmente que eu seja uma usurpadora de maridos? – gritou Attha, chamando um pouco de

atenção para o terraço. Após dissimularem um pouco, e tornarem-se novamente anônimos, ou o quão anônima a noiva pode ser, a ruiva

respondeu.

- Eu apenas quero lhe dizer que você deve lutar para ser feliz. Se sua felicidade ainda não chegou, deve lutar com mais afinco, para poder

saboreá-la quando chegar. Não é isso que fizemos na guerra? Não foi isso que queríamos durante sua ausência de Orb? Não foi por isso que

Atthrum recebeu o Infinite Justice, Kira voltou com o Strike Freedom, eu desertei de Z.A.F.T. e seu pai lhe deixou o Akatsuki? Para que

pudéssemos ter a oportunidade de sermos felizes? Eu sou feliz por esse momento, mas jamais poderia negar a possibilidade dessa felicidade,

para alguém que eu gosto e respeito tanto...

Meyrin Zalla não pôde terminar seu discurso pois estava sendo fortemente abraçada por uma emocionada Cagalli Yula Attha, que compreendeu

o tamanho do presente que recebera da amiga. Enquanto esta se desfazia das lágrimas, ela chamou o garçon, que veio com duas taças de

champanhe.

- An gardé – disse Meyrin Zalla.

- An gardé – disse Cagalli Yula Attha – Agora vamos voltar para a festa, senão dirão que eu monopolizo a noiva! – disse sorrindo..

fim do flash back

- Uau! Cagalli, isto é incrível. Quem imaginaria que ela faria algo assim?

- Sim, Meyrin é muito especial. Eu demorei para aceitar este presente, mas agora que o aceitei, vou lutar pelo que eu acredito. Para poder ser

feliz – completou em um sorriso.

- E o quê fará em relação a Shinn – retomou Miriália, preocupada que a reação de Cagalli colocasse a missão em risco.

- A única coisa que posso fazer no momento. Yasutora-san, contate seus agentes e digam para comparecerem no C.I.R.O. e deterem Shinn

Asuka. Duvido que ele irá cooperar, mas tentem não o machucar demais

- Sim, Cagalli-sama – respondeu o guarda-costas.

- Cagalli, isso é mesmo necessário? – retomou a castanha.

- Meyrin disse isso e bate com a informação que você me deu, mas nunca soube que eu e Shinn tivemos uma conversa, depois do casamento

dela com Atthrum

Início do Flash back

Na madrugada seguinte ao casamento de Atthrum e Meyrin, Cagalli não conseguia dormir e fora andar um pouco pelo parque próximo de sua

casa. Dispensou os guardas, pois ainda nem amanhecera e não havia sinais de perigo. O parque era seguro e iluminado, projetado para que

pessoas que quisessem ficar sozinha ou praticar esportes tivessem cada um, um pedaço do parque à sua disposição.

Ela estava se aproximando de um banco, próximo ao lago, quando notou um homem sentado, portando um elegante smoking que não

combinava com seu cabelo, evidentemente rebelde e que, aparentemente era fruto de uma tentativa frustrada de penteado e uma noite de

festa. O homem segurava em sua mão direita, uma lata de cerveja, contrastando com a elegância do traje formal. Cagalli se surpreendeu,

observando fixamente o desconhecido e corou ao pensar que aquele era um excelente espécime de homem. Alguém que podia comparecer em

uma reunião formal com um traje que lhe cairia bem, mas que não esquecia suas origens simples, tomando uma cerveja e pensando na vida. A

jovem levou um susto ao ouvir a lata ser aberta, já que ele a segurava por vários minutos sem qualquer menção de abri-la.

- Aos amigos ausentes. – sussurrou, enquanto tomava um gole da bebida – Capitã Gladys... Rey... Mayu... mãe... pai... Stellar – enumerava suas

perdas, enquanto tomava um gole de cerveja para cada um deles. Foi só nesse momento que Cagalli começou a reconhecer o homem. Lógico,

não era nada anormal que ele estivesse ali, até porque a casa de Meyrin e Atthrum, onde estava hospedado era alguns quarteirões mais longe

que a sua, mas nada muito distante. E ele também fora criado em Onogoro. Sem perceber, sussurrou o nome dele para se certificar se era

verdade.

- Shinn? – ao proferir essas palavras, a loira percebeu que saíram mais alto do que esperava, atraindo a atenção do jovem.

- Quem está?... – perguntou surpreso, olhando para trás – Ah... é você. O que quer, Attha? – contestou, ausente.

- Shinn... eu não queria espiar você, mas não conseguia dormir e vim para dar uma volta... pelo visto, assim como você. –respondeu a garota,

rapidamente.

O jovem a olhou, percebendo as olheiras inchadas, marca da insônia dos últimos dias e o fato que ela levava um malha esportiva, de maneira

indistinta. Como se ela tivesse se vestido às pressas.

- Entendo... vai ficar de pé aí?

- Está me convidando a sentar, Shinn?

- O parque é de Orb e você é governante daqui. Faça o que achar melhor.

Aceitando o "convite", ela se sentou e iniciou uma conversa.

- Quando você volta para PLANT?

- Amanhã.

- Pensei que você ficaria mais alguns dias, para...

- Para o quê? – interrompeu o jovem piloto.

- Sei lá... afinal, você cresceu aqui. Deve ter alguma coisa que você queria rever, alguns de seus amigos, por exemplo.

- Eu só vim aqui por Meyrin. Eu disse que viria à seu casamento e que o faria por ela e Luna. Mas não poderia andar por aí como um turista feliz,

depois do que aconteceu com meus pais – disse, com melancolia.

- Shinn, eu... também perdi meu pai naquela batalha. Eu entendo um pouco o que você sentiu e sente.

- Seu pai... como aconteceu? – perguntou, levemente curioso.

- Ele decidiu que iria queimar junto com Onogoro, para que as mortes de pessoas como seus pais não fossem em vão.

- Me desculpe, mas não é a mesma coisa. Seu pai, como governante decidiu assim. Os meus lutaram desesperadamente por escapar. Não dá

pra comparar essas coisas.

O sol começou a despontar no horizonte, como se mostrasse para Cagalli aquela conversa como sendo um limiar entre um sonho e a realidade.

Ela estava tendo uma conversação tranqüila com um homem que prometera que destruiria Orb e que quase a matou, mas que também deu

tudo de si para salvar o planeta e salvou milhares de inocentes, mesmo quando fazê-lo não era o que esperavam dele. Ele, que sempre lhe

destilou veneno em sua voz, agora contrastava essa raiva com uma capa de indiferença. Mesmo sem parecer uma mudança promissora, já era

uma mudança e, onde há vida, há esperança;

- Entendo que pense assim, mas não pode negar que eu sofri a morte dele como você sofreu a de sua família. E isso fez com que eu quisesse

proteger pessoas como vocês.

- Coisa que você acabou não conseguindo, na segunda guerra. Mas, de certa forma, eu tenho tanta culpa nisso como você. Eu também não

pude evitar isso.

- Mas salvou muita gente.

- E matei muita gente. Minhas mãos estão manchadas de sangue – disse o jovem, olhando para as mãos. Eles ficaram alguns minutos em

silêncio, observando como o sol anunciava um novo dia, novas possibilidades e esperanças. Nisso, o jovem se levantou e se encaminhou para a

saída do parque, antes procurando uma lixeira e colocando a lata para reciclar. A jovem governante resolveu segui-lo e aproveitar uma escolta

de volta para a Mansão Attha, sua residência oficial. Quando chegou no portão de sua casa, retomou sua voz:

- Shinn, eu sei que você ainda sente muito a morte de sua família, mas se algum dia estiver disposto a esquecer e tentar ser feliz, eu gostaria

de ser sua amiga e que considerasse Orb uma opção para se viver.

- Attha, entenda uma coisa: Eu jamais porei os pés em Orb novamente. E não se engane sobre mim. Se Dullindal estivesse aqui novamente, eu

o mataria pelo sofrimento que causou às pessoas. Se Uzummi Attha estivesse aqui, eu o mataria pelo sofrimento que me causou. Eu sou um

cão de guerra e isso é culpa de Dullindal, mas parte disso é culpa de seu pai, que falhou em proteger inocentes.

Cagalli olhou por um momento, o homem dar-lhe as costas e caminhar como se não tivessem conversado há poucos minutos. Ele não fora hostil,

somente sincero. Não queria sua amizade e isso a entristecia, mesmo que não entendesse o porquê. Mas, como governante estava contente

que aquele canhão desgovernado que eram os sentimentos do jovem piloto de Móbile Suit estavam saindo definitivamente de Orb.

Fim do Flash Back

- Ele jamais voltaria para cá, para recomeçar a vida. Um ano atrás, ele não conseguira passar 3 dias aqui. Vocês estão encobrindo ele, você não

me conta o que há, Meyrin e Atthrum também não contarão a verdade. Não me resta outra oportunidade de descobrir o quê está acontecendo.


Danizinha,

Minha fiel escudeira nessa história... passei um pouco do dia mas aqui está!

Agradeço de coração suas reviews que sempre me incentivam para continuar.

Em sua homenagem o próximo capítulo estará nas bancas (rss) no próximo fim de semana!!

Nos Lemos,

Fan Surfer