A sala de interrogatório da equipe de segurança ficava em um lugar completamente isolado. Sua principal entrada ficava abaixo da Casa Geral,

a residência oficial do governo de Orb, pois também era usada como um bunker em caso de ataque. Para o uso normal, havia uma entrada

adjacente há alguns quarteirões, da Casa Geral.

Sado Yasutora, Chefe de Segurança e guarda-costas da Representante era um homem calmo e quieto. Não costumava falar muito, mas era

seguro e firme em suas decisões e, por isso, era bem quisto por todos, sempre pregando que a calma era a melhor qualidade de um guarda-

costas, afinal são eles que tinham que ter a cabeça no lugar e sacar seus patrões vivos, preferencialmente ilesos. E caso fosse impossível

deveriam eliminar o atirador sem hesitação.

Já sua designação como chefe do Serviço de Segurança tornava necessária uma atitude diferente, se o perigo envolvesse a nação, tornava-se

enérgico, determinado e prático. Por diversas vezes, entrou sob fogo inimigo para debelar um assalto complicado ou algo do tipo, simplesmente

por estar perto e não ter paciência para esperar a polícia agir. Ele era fiel à Orb, e gozava de total confiança por parte da representante.

Isso explicava o porquê muitas vezes a tratava quase paternalmente, embora não fosse tão mais velho do que ela. Por isso, tentou evitar que

ela estivesse em contato com a suspeita, afinal, ela é uma chefe-de-estado e não precisa passar por isso, mas a sempre ativa e teimosa Cagali

discordava do fato. Portanto, cabia a ele escoltá-la até o setor de interrogatórios.

- Eu já disse que vou ficar bem, Sado. Eu não sou nenhuma menina – fungou Attha.

- Nessa época, você fugia de casa – respondeu imediatamente.

- O quê esta tentando dizer com isso?

- Que você faz as coisas de seu jeito.

- Ahhhhh – exasperou-se – você sempre tem uma resposta para tudo?

- Não... mas sei o que você diria se eu tentasse impedir você de fazer o que quer.

- Olhe só você falando assim, faz parecer que eu sou uma garota mimada que só faz o que quer!

- ...

- Mas a verdade é que com tantas responsabilidades administrativas, eu preciso de um tempo para poder ver o lado humano, senão não tem

sentido a promessa que fiz de proteger Orb.

- ...

- E se a suspeita tiver realmente participação no caso, ela será severamente punida, assim como Shinn. Não importando o meu passado ou a

relação dele com Atthrum.

- Sim.

- Eu odeio quando você faz isso, sabia? – disse a garota, meio irritada, meio risonha. Ele sempre a fazia sentir-se como se voltasse à sua

adolescência, se justificando perante um adulto. Ela nunca percebia o quanto detestava essa atitude, nem o quanto sentia falta dela.

- Sim, eu sei.

Chegando à sala 7, Yasutora gentilmente colocou-se à frente da Representante. Isso era necessário para que ela se acalmasse e tomasse foco,

deixando assim, a Cagalli sorridente, mulher simples que gosta do contato com a realidade de seus súditos e voltando à implacável figura que

ela representa para aqueles que infringem a lei em Orb, como gostava de dizer.

- Vamos! – disse enérgica. Em seguida entraram.

A sala media praticamente uns 9 metros quadrados em um quadrado perfeito. No centro da sala havia uma mesa com três cadeiras ao todo. Em

uma das paredes havia um vidro espelhado que fazia com que as pessoas que estivessem dentro dela vissem apenas o ambiente à sua volta,

mas para aqueles que estivessem na sala adjacente teria uma tela para a outra sala tornando-a um palco perfeito para a atuação dos

interrogadores. Por esse motivo, era chamada de 'a caixa', porque depois que um perito saia dela, era só embrulhar o suspeito para presente e

entregá-lo em uma prisão para esperar a sentença.

Em uma das cadeiras da sala, Kyla Stwart tentava se manter calma. Embora tenha sobrevivido à custas de pequenos crimes, não precisou

passar por uma experiência dessa enquanto esteve presa, já que foi pega em flagrante, descarregando mercadoria roubada, à qual Sai tinha

identificado como de sua propriedade. Agora ela estava regenerada e como disse ao médico ainda esta semana, ela trabalha agora em favor de

Orb, mas não tinha a menor idéia do porquê estava nessa situação. Ela não fora presa ou algemada, o que era um bom sinal, ainda assim, fora

pega fora de suas funções como psicóloga do Corpo, atuando como oficial de radar. Isso poderia atrapalhar sua situação, pois não tinha a

menor idéia do que estava acontecendo, mas se a insígnia dos homens que a prenderam era verdadeira, ela tinha se metido em uma grande

enrascada, mesmo que não soubesse como havia se metido.

A porta se abriu e a princesa de Orb fez valer sua presença. Agora sim, minha situação foi de mal à pior, pensou Stwart. Definitivamente aquela

semana não sairia da sua cabeça jamais. Quem diria que uma simples psicóloga que atua com refugiados iria conhecer, na mesma semana, um

herói de guerra e almirante do país e, agora, como surpresa maior, ela estava cara-a-cara com a maior mandatária do país. Nisso, se lembrou

que esta não era uma visita de cortesia. Kyla decidiu esperar pelo primeiro movimento. Mesmo assim, levantou-se e cumprimentou-a

militarmente.

- À vontade – disse Cagalli – Sente-se.

- Seu nome é Kyla Stwart, correto? – perguntou o acompanhante da princesa, revelando uma voz profunda e harmoniosa, quase musical –

Número 4445728 de inscrição nas Forças Militares de Orb. Atuação como Psicóloga a serviço do Corpo de Boas-Vindas e Recepção aos

refugiados de Orb. Antigamente, vivia de golpes à praça até que foi presa e, graças á um acordo com o queixoso, pegou uma pena sócio-

educativa e como ainda não atingira a maioridade penal, terminou com sua ficha limpa, condicionada à não se envolver com nenhum tipo de

crime. Depois de cumprir a pena, acabou por conseguir uma bolsa de estudos e cursou psicologia, integrando assim o trabalho como voluntária

em diversos centros de reabilitação de vítimas de guerra e seu trabalho no Corpo. Confirma estas informações?

- Sim.

- Deixe-me conduzir isso, Sado-san. Onde está Kira Yamato?! – impacientou-se a princesa.

- Quem? – perguntou Kyla.

- Cagalli! – disse o homem – Não aja precipitadamente.

- Desculpe, mas podem me explicar o quê exatamente eu estou fazendo aqui?

- Nós fazemos as perguntas. Qual sua relação com Shinn Asuka? Há quanto tempo se conhecem?

- Conheci Shinn Asuka há uma semana, quando este chegou junto com um comboio de refugiados. Ele foi processado no sistema e aceito,

segundo o procedimento. Em seguida foi encaminhado para a entrevista psicológica com abordagem A-16, para pegar o objeto de estudo com

baixa guarda, como o especificado no protocolo de avaliação psicológica das Forças de Orb.

- Como explica o fato de ter sido confiado a avaliação dele à você?! – disse Attha, elevando o tom.

- Por causa do perfil do indivíduo, o sargento Hisagi acreditou que eu era a pessoa com maior possibilidade de sucesso em fazê-lo se abrir.

- E o que você achou dele? – perguntou Yasutora.

- Um caso difícil, que precisa de supervisão constante para evitar que se meta em encrencas. Ele possuí uma grande raiva e tende a se

auto-destruir, caso não controle a mesma. Parte de sua raiva é para com Orb, mas ainda assim, resolveu tentar a vida aqui como maneira de

honrar seus pais mortos. Fiquei sabendo também, que, mesmo descobrindo que sua casa ainda estava de pé e sendo habitada por uma família

de refugiados, ele cedeu à essas pessoas a posse da casa, apenas retirando alguns pertences pessoais. Acredito que ele seja uma boa

pessoa, um tanto perdida, mas que possui um caráter forte e determinado, além de diversas habilidades. Por caracterizar-se como um perigo

para si mesmo ou outrem, foi inscrito para participar, obrigatoriamente, de oficinas de controle de raiva no C.I.R.O. conforme o protocolo antes

mencionado.

Enquanto ouviam isso, a mente de Cagalli tentava fazer algumas conexões. Ele ainda carregava o celular da irmã. Ainda odiava seu pai,

definitivamente. Mas comparecera ao casamento de Atthrum, e agora com a possibilidade de recuperar boa parte dos bens da família, além de

pedir uma indenização à Orb, ele simplesmente deixava de lado? Se ele voltou para destruir a nação, não importaria a casa? Mesmo assim,

porque procurar os Zalla se isso poderia, facilmente, ligá-lo à qualquer atentado? E mais, como Miriália sabia como encontrá-lo?

Por outro lado, Sado Yasutora estava expectante. Sua conversa fazia com que ela contestasse os fatos que já sabia, esperando que ela caísse

em contradição em algum momento, mas isso não ocorrera. Provavelmente ela teria ensaiado para isso, mas todas as pessoas sempre deixam

escapar algum detalhe. Teria que jogar um pouco mais pesado com ela.

- Fale de sua relação com o Senhor Asuka, nesses primeiros dias.

- No começo ele foi tão frio e resistente como qualquer refugiado. Essas pessoas normalmente perderam tudo o que tinham, e muitas delas

chegam aqui desesperadamente precisando de carinho e conforto. No entanto, há alguns deles que desconfiam de tudo e todos. Shinn se

enquadra nessa última categoria. Ele não só rejeitou qualquer tentativa de contato, como também descobriu a natureza da análise. Ainda assim

me contou o que aconteceu com seus pais. Depois eu o encontrei 24 horas depois, parecia que havia entrado em uma briga. Naturalmente eu o

conduzi para o hospital da zona nordeste e...

- Zona Nordeste? O quê ele fazia ali? Como você o encontrou ali? No seu relatório diz que você mora quase 30 km à leste. – espantou-se Attha.

- Eu estava ali, próximo ao parque renascentista, para fazer exercícios na minha folga e também porque, como dita o protocolo, eu coloquei um

broche sinalizador em Shinn e quando eu vi seu sinal ali perto, resolvi investigar melhor. O que ele fazia lá era desconhecido.

"O mesmo parque onde eu o encontrei", pensa a princesa. Isso significa que ele esteve em contato com Atthrum antes do que ele me contou. A

trama se intrinca mais e mais.

- Assim que ele foi liberado, ingressou no C.I.R.O. onde recebo relatórios diários de suas atividades no centro. Esses relatórios indicam que ele

possui habilidades técnicas como mecânico e técnico em eletrônica, além de uma habilidade esportiva excelente. O problema, no entanto, era

sua inabilidade social mas, no dia seguinte, passou a receber visita. Uma delas foi a de uma jovem e a outra, acredito foi de alguns de seus

agentes de segurança, segundo os informes que tive.

Mais uma vez ela passara sem falhas. Em seu ponto eletrônico, Yasutora recebia a informação que o Scanner corporal não indicava nenhuma

reação. Isso apenas confirmava suas suspeitas iniciais. Contudo, ainda tinha um teste para fazer.

- Como acha que Shinn Asuka passou no sistema como refugiado? – tornou incisivo.

Kyla não sabia como definir essa pergunta, então sorriu um sorriso infantil, do tipo que acompanham as pessoas quando elas pensam "por que

diabos vocês acham que eu deveria saber disso?". Ela sabia que estaria sendo totalmente estúpida pela resposta que daria, mas era isso ou

agüentar aquelas pessoas insinuando que ela sabia algo que nem sabia se realmente sabia.

- Que tal sendo um refugiado? – respondeu Kyla.

- Como alguém pode ser um refugiado e um Militar de Z.A.F.T.? – rugiu Cagalli. Se o que ela dizia era verdade, como o sistema não

identificaria? Isso significava que ele teve ajuda. O sistema deveria alertá-los da presença de pessoas-chave da última guerra, entrando em Orb

como civis.

- Shinn é de Z.A.F.T.?! - perguntou Kyla, tremendamente surpresa. Agora o quadro da semana mais bizarra de sua vida estava completo. Mas,

ainda assim, começava a fazer sentido. Ou pelo menos, tanto sentido como algo em sua semana fazia. Mas não dava por certo mais nada, a

única coisa que sabia era que o motivo que a trazia à esse lugar era um refugiado que de refugiado não tinha nada, mas não sabia qual era a

motivação. Se fosse um espião, porque faria tanto esforço para ser detectado? Afinal, ele deixava suas pegadas pelo Spartan´s, pelo hospital e

pelo C.I.R.O. Não fora ele que havia sido preso há alguns dias pela mesma equipe de agentes que a prendeu. Por que eles não o fizeram

confessar, se esse era o caso? – Mais uma semana dessas e minha vida acaba! – completou, suspirando.

- E você vai dizer que não sabia disso, correto?! – exigiu Cagalli. Sua paciência estava por um fio. Detestava ficar por fora da coisa.

- Vou, mas pelo visto não vão acreditar nisso. Aliás, me pergunto: por quê eu deveria saber?

- E vai negar essa informação, também?! – gritou a princesa, jogando uma pasta em direção à garota. Ela pegou a pasta a procura da tão

famosa informação que ela nem fazia idéia do que era, mas quando achou-a, descobriu que a semana ainda tinha surpresas para ela. E mesmo

tentando parecer séria, começou a notar que lágrimas desciam por sua face.

- Isso... é uma brincadeira, certo? – sussurrou a jovem – Não... as coisas não acontecem... assim... no... mundo real... Isso não faz sentido...

não faz sentido... Isso não é verdade!!

Os dois expectadores se assustaram com a troca da reação da interrogada. Se em um momento ela parecia temerosa e confiante, como

qualquer pessoa que é chamada para depor, no outro ela decaíra completamente em suas atitudes, parecendo confusa e em leve estado de

negação. Após alguns minutos em que ela chorou sozinha, abraçando-se, novamente focou a situação, enxugou as lágrimas e substituiu a voz

alquebrada, por um tom que, embora demonstrasse emoção, não era nada comparado com a de segundos atrás.

- Me desculpem, mas eu não reconheço os dados nesse relatório como verdadeiro. Sei quem sou, sou Kyla Stwart, filha de Ann Stwart e Claude

Stwart. Acreditem em mim ou não, não conhecia Shinn Asuka até uma semana atrás e se realmente senti alguma empatia por ele, foi porque

encontrei algumas semelhanças entre nossas histórias, pois ambos somos órfãos. Aceitem isso ou não, essa é a verdade!

Cagalli saiu de seu lugar e pegou-a pelo colarinho. Contudo, ela não foi adiante por dois motivos: o primeiro foi a mão de seu guarda-costas

que impedia a mão esquerda da Representante de baixar o punho, enquanto a direita sustentava a garota pela camisa. A segunda coisa que a

fez titubear foi o olhar ferido que a garota mostrava. Um olhar que ela carregara na primeira guerra, quando soube que Heliópolis construía em

segredo cinco Móbiles Suits de ponta.

- Desculpe-me. Costumo agir por impulso – tentou esconder seu semblante abaixando a cabeça de maneira que a jovem não visse sua

vergonha. O que foi impossível.

- Digamos que eu acredite em tudo isso – Sado disse, compreensivo – o quê você fazia na sala de radar da base naval de Onogoro?

- Estava em uma função especial, outorgada pelo Almirante Zalla. Não tenho maiores informações sobre isso, além do que ele me disse – disse,

friamente.

- E imagino que ele possa confirmar essa informação? – perguntou a Representante.

- Sim, senhora.

- E ele lhe disse que essa informação era confidencial?

- Não. Disse-me apenas, que precisava de gente de confiança. Isso significa que a confidencialidade está implícita. Mesmo porque eu acho que é

melhor vocês contatarem ele. E explicarem o porquê eu não estou cumprindo a tarefa que me foi designada.

Uma chamada e meia hora de espera onde um café foi servido á Kyla e a entrada do Almirante Zalla traz novo tom de dramaticidade à cena.

- Kyla! - diz o almirante, esquecendo as honrarias militar. Nesse momento, percebendo que ela não esta sozinha na sala, presta continência à

líder da nação - Representante, pode me explicar o que a soldado Stwart está sob um interrogatório?

- Esperávamos que ela nos desse respostas sobre o desaparecimento de Kira Yamato e a natureza da estada de Shinn Asuka. Respostas estas

que podem ser iniciadas por você, Almirante Zalla – respondeu friamente. Sempre que se encontravam profissionalmente, nunca sabiam como

deveriam se por, então ambos terminaram por adotar uma postura profissional e séria.

- Por que acha que Kira Yamato está desaparecido e por que acredita que Shinn tem uma ligação com isso tudo?

- Porque Lacus me disse que Kira estava desaparecido. Não em silencio de radar, não incomunicável, mas desaparecido. E, de repente um

homem que deveria estar preso, no Armory 1 até amanhã, está andando livremente pelas ruas de Onogoro. Coincidência demais não?

- Contudo, pode haver uma outra explicação. E se ele veio até aqui por conta própria?

- Estamos falando de um homem que salvou você de queimar na reentrada atmosférica, destruiu metade da frota naval de Orb, quase

matou Kira, destruiu o Freedom, quase lhe matou e quase me matou. É um jogador muito forte para ficar solto como se não tivesse um

lar!! – vociferou Cagalli

- Shinn fez tudo isso? – sussurrou assustada Kyla.

- Também falamos do homem que salvou sua vida e a minha, durante a confusão do Armory 1, que ajudou a impedir que os fragmentos de

Junius Seven destruíssem a vida na Terra, que salvou milhares de pessoas no caminho à Carpentária, depois de que Orb entregou a

Minerva aos Leões, fechando a porta e expondo-os à um ataque massivo da Aliança. Também falamos de um homem que impediu o

Destroy na Eurásia e mais 3 na base do Alasca, lembra-se? E, já que é para se lembrar, lembre que ele está servindo fielmente Kira

Yamato há mais de um ano, na Equilibrium - respondeu no mesmo tom, Atthrum.

- Shinn fez isso? – tornou a perguntar Kyla, dessa vez, recebendo um sinal afirmativo de Sado Yasutora.

- Kira foi quem destruiu o Destroy na Eurásia – colocou-se na defensiva, a princesa de Orb.

- Eu não disse que ele destruiu o Destroy da Aliança. Ele fez contato com a extended que pilotava aquele monstro e tentava tirá-la dali, quando

Kira a destruiu. Foi por isso que ele vingou-se do Freedom.

Nessa hora, o sinal do celular de Yasutora soou, ele ouviu com sua calma habitual o relatório, mas as notícias não são boas. Ele se vira para os

interlocutores e diz:

- Acabo de receber um relatório dos agentes que mandei ao C.I.R.O. Eles chegaram a prender o alvo e estavam trazendo ele para cá, mas um

caminhão de lixo bateu neles e enquanto estavam atordoados, um grupo de homens, entrou no carro e levaram Asuka dali.

- Você está vendo? Aí está a prova!! Os comparsas de Shinn foram resgatá-lo. Isso indica que ele estava envolvido o tempo todo! – gritou

Cagalli.

- Cagalli, você não entende!! – exasperou Atthrum, mas manteve baixo o tom de sua voz – Shinn não era o seqüestrador. Shinn estava aqui

para descobrir o que aconteceu e resgatar Kira e os outros.

- O que você quer dizer com os outros? – perguntou Kyla. Ela não sabia quem eram aquelas pessoas, mas isso ao menos conseguia fazer com

que sua cabeça doesse menos. Não conseguia entender como as coisas tinham virado tanto, mas uma coisa já notara: que Shinn era uma boa

pessoa.

- Me refiro aos nossos representantes na reunião de depois de amanhã. Desconfiamos que Mwu e Murrue foram seqüestrados, assim como Kira

e Luna. Motivo ao qual trouxe Shinn à essa missão: salvar Luna. Quando chegamos à conclusão de que poderia ser uma organização terrorista

agindo secretamente como Ong de auxílio à refugiados, resolvemos agir infiltrados e, secretamente estávamos investigando, com a ajuda de

alguns amigos.

- E quando você pensaria em me contar tudo isso? – gritou a Representante, não só irritada, mas frustrada pela pessoa que amava. Sabia

que não poderia contar com seu coração somente para ela, mas esperava que ainda estivessem juntos nos assuntos relacionados à nação.

- Primeiro: não pensávamos em contar para você. Justamente porque essa era uma missão secreta e, não se ofenda Yasutora-san, mas seus

agentes não são exatamente sutis. Segundo: sabemos que você é tão esquentada quanto o homem que persegue e, que mesmo que

estivéssemos errados quanto ao palpite da Ong, se você tivesse a par de tudo, já teria agido e tomado alguma decisão que, além de alertar os

seqüestradores, teria feito com que a revolta da massa refugiada tornasse em seu governo, uma marca que levaria anos para ser dirimida. O

que queríamos é alguém que se misturasse à malandragem, conhecesse o terreno, estivesse motivado para encontrá-los e que passasse

perfeitamente por uma pessoa que perdeu tudo. Com tudo isso, Shinn era o candidato perfeito.

- Quando você diz, queríamos, você se refere à quem? – perguntou Kyla.

- Me refiro à Lacus Clyne, presidente de PLANT e eu. Nós demos total liberdade de ação para Shinn, porque sabíamos que ele só recorreria à

mim se sentisse que tinha o comando da missão. Por isso, eu coloquei Kyla para ser a oficial sob tutela, pois sabia que ela é tão obstinada e

persistente quanto ele e Shinn não a colocaria em perigo.

- Então você sabe da ligação entre eles? – perguntou Sado.

- Que ligação? Eu só escolhi a melhor! – respondeu Zalla.

O elogio fez efeito na alma da garota, que recuperou parte da energia natural. Interrompendo a discussão, disse:

- Olhem só vocês... Não é hora de perguntar quem fez o quê, mas se temos pessoas para salvar, devemos salvá-las. Depois vocês podem

perder tempo discutindo a culpa. E algo me diz que podemos descobrir onde eles estão se descobrirmos onde está Shinn. Vou fazer umas

ligações, com a sua permissão Almirante.

- Não é necessária tanta coisa, Shinn estava desconfiado de Phisto.

- Maldito Phisto! Como poderemos achá-lo, Senhor?

- Você estava monitorando o radar, certo? Aquele foi um aparelho construído por Shinn para registrar uma assinatura específica, mesmo sob

rocha sólida.

- Espere um pouco, Atthrum. O que podemos fazer para ajudar? – perguntou Cagalli.

- Você não fará nada, Representante. Essa é a função do exército e nós podemos cuidar dela, além do mais você já fez demais. O ataque aos

agentes de segurança indica que possivelmente eles já sabiam não só da ordem de prisão, mas também de para onde o estavam levando –

disse Zalla, tentando não soar irritado com aquela mulher que não sabia como lidar. Foi, contudo, detido por uma enorme mão.

- Sinto interromper seu discurso, mas vou com vocês. Isso pode representar perigo aos cidadãos de Orb, tornando assim, minha missão

também – disse Yasutora, com pinta de quem não ia desistir.

- De acordo. Pode vir.

- Senhorita Stwart, peço-lhe desculpas. Poderia esperar aqui enquanto providencio alguns papeis, sem os quais, não podemos permitir a sua

saída desta instalação?

- Sim senhor – respondeu Kyla.

Enquanto o Almirante e o chefe de segurança saíam em direção ao escritório, ambas as mulheres se encararam por tensos segundos, até que

coube à princesa quebrar o gelo.

- Kyla, poderia me explicar quem ou o que é Phisto?

- Mellon Phistopollos é o presidente de uma Ong de auxílio à refugiados, chamada Mão Invisível. Não sabemos muito dele, mas ouvimos que ele

é respeitado no submundo da cidade como um homem de palavras macias e gestos bruscos. Do tipo de gente que quebra braços em vez de

deixar recados na secretária eletrônica, mas como nunca pudemos provar nada, ele continua a receber seus subsídios livremente.

Ela apertou seus punhos com raiva e impotência, pronta para explodir, mas desistiu. Não havia sentido. Sua voz parecia cansada demais para

fazer alguma coisa.

- Sabe o quanto é desgastante você desistir de todos os seus sonhos adolescentes em prol de uma responsabilidade e um belo dia, essa

responsabilidade te supera? Quanto eu perdi... eu já nem sei, mas enquanto Orb estiver segura, livre e feliz... mas, isso agora... meu próprio

irmão está desaparecido e tudo o que eu fiz para ajudá-lo foi colocar os agentes atrás de um homem que está em um lugar que odeia para

ajudar meu irmão. Eu me sinto tão desprezível!

- Sabe, você se cobra demais. Não sou tão inteligente ou talvez não tenha tantas responsabilidades quanto você, mas uma coisa é certa: cada

um de nós à seu próprio modo, teve que fazer essa escolha sobre sonhos e responsabilidades em algum momento da vida. Você não é especial

por isso, é especial por carregar um país, mas culpada por esquecer de si própria. Seus pais não iriam querer isso. Para ser plenamente feliz,

você deve entender que sua vida como Representante é apenas uma parte sua. Você é uma mulher, irmã, chefe-de-estado, amiga; muitas em

uma. Não pode esperar ser feliz se satisfaz apenas uma parte de você.

E então, Cagalli Yula Attha, princesa e Representante da casa principal da família governante de uma das mais prósperas nações do planeta

entendeu o que faltava para ela ser feliz. Isso aliado às palavras de Meyrin entraram em seu coração, fazendo com que ela despertasse a

adolescente cheia de energia e vontade de mudar o mundo.

Quando os homens chegaram, havia um brilho diferente no olhar da Representante geral Attha. Um brilho que o jovem almirante não via há

anos. O brilho de decisão.

- Atthrum Zalla, eu juro em nome da memória de meu pai, Uzumi Attha, que irei com vocês até a sala de radar para descobrir melhor o que está

se passando nessa nação ou meu nome não é Cagalli Yula Attha!

Sem argumentos válidos, o Almirante olhou para a Representante que dirigia-se à jovem soldado de 2º classe e deu-lhe um surpreendente

abraço. Meio torpe, a garota acabou por regressar o cumprimento.

- Obrigada por abrir meus olhos, Kyla. Agora vamos, que nossos amigos precisam de ajuda.


Bueno, Como promessa é dívida... e dívida, a gente empurra com a barriga, mas um dia tem que pagar... aqui está o capítulo da semana... nossa

história está chegando na reta final e de agora em diante... eu não vou fazer Spoiller!

Capítulo escrito à base de jingles, como "ducha corona" "varig" e guaraná antártica" sim... não tenho nada na cabeça!

Nos lemos,

Fan Surfer