Mwu estava diante da fechadura há mais de 10 minutos. Conseguira alguns avanços, mas estava deveras enferrujado e, há anos, não fazia

manutenção em sua nave, perdendo assim, a perícia necessária para o plano. Após uma pausa, ouviu o comentário de Murrue:

- Amor, Luna está perguntando se você pretende fugir antes do nascer do sol. O quê eu digo à ela?

- Diga-lhe que se ela continuar com isso, vai ficar trancada mais uma hora... junto com todos nós!

Murrue conhecia seu marido como ninguém, por isso, propositalmente informava-lhe os comentários de Luna, Kira e outros, de autoria própria,

mas cedida à outras pessoas. Sabia, por experiência própria que, quanto mais desafiado, mais motivado ele se tornaria para cumprir o objetivo.

Faltava apenas, o tiro de misericórdia.

- Ela lhe disse para não se cansar e desistir pois, pelo visto é impossível.

Como se fosse uma mensagem condicionada, Mwu La Flaga se concentrou e encostou-se na porta e, 3 minutos e meio depois, ele sorria

abertamente.

- Meu amor, poderia dizer à nossa vizinha de cela, que eu sou o homem que torna o impossível, possível?!

- Você conseguiu? – perguntou, falsamente admirada. Adorava aquela faceta confiante do marido, mas já conhecia a maneira como fazer valer

sua posição como fêmea alfa do núcleo casal. Era necessário que ele se sentisse o macho vitorioso. E isso era algo que fazia com que a relação

deles funcionasse. Ambos conheciam as fraquezas e gostos do parceiro.

Com esse empecilho eliminado resolveram que, primeiramente, Mwu sairia e avaliaria a situação. Encontraria o carcereiro e, se possível, pegaria

a chave da outra cela. Murrue ficaria controlando a porta para alguma eventualidade.

Enquanto saia, o casal compartiu um breve beijo, carregado de emoção. E, finalmente, o Falcão de Edinmion chegou ao corredor. Após alguns

minutos para acostumar-se com a luz, começou a investigar o local, em busca da saída. Ao virar à esquerda de sua cela, descobriu que o

corredor terminava em uma parede. Virando-se de costas, começou a seguir o corredor na direção oposta e chegou à um cruzamento. Decidindo

tentar novamente o lado esquerdo e, aproveitando-se da semi-escuridão do local, moveu-se furtivamente. De repente, viu uma única figura que

dormitava a 2 metros de onde se encontrava. O homem que, provavelmente fazia a guarda não seria um desafio para um soldado treinado, de

acordo com a constituição corporal do homem. Parecia que estava na casa dos 35 anos, com uma prenunciada barriga de cerveja. Se Mwu

pudesse escolher entre classificar o homem como carcereiro ou alcoólatra profissional, fatalmente estaria tentado à segunda opção. Com isso,

restava ao militar a decisão irrevogável de eliminar o homem antes que ele pudesse fazer alarde sobre a possibilidade de fuga. Essa decisão foi

tomada com pesar, mas sabia que era algo que teriam que fazer. Aproximando-se do homem, tapou sua boca para evitar um grito, enquanto

quebrava seu pescoço acima da quarta vértebra cervical, matando-o. Em seu bolso possuía uma carteira, além de um molho de chaves que,

dado a seu formato e aparência, pareciam pertencer às portas das celas. Junto dele, havia uma submetralhadora. Pegando tudo, Mwu arrastou

o corpo até a cela que compartia com Ramius. E enquanto ela liberava Kira e Luna, ele resolveu investigar o lado direito do corredor. Encontrou

um depósito apenas, junto com algumas facas de combate.

Juntando-se aos outros, distribuiu as facas e seguiram pelo corredor, pegando mais algumas pistolas de outros homens que foram abatendo

pelo caminho. Já podiam ver o final do corredor e contavam com duas pistolas e uma submetralhadora, além das facas, quando um dos

guerrilheiros, que não aparentava mais do que 20 anos entrou pelo corredor acendendo as luzes.

- Que inferno, não sei por que esses idiotas apagam as luzes – comentou enquanto seus olhos tentavam acostumar-se às luzes.

Com o clarão, todos ficaram imediatamente cegos, acostumando sua visão ao novo ambiente. O jovem, viu imediatamente quatro vultos

borrados e havia algo de errado com eles, mas não estava ali para pensar nisso, pois nem tinha certeza se eram frutos da claridade ou não.

Contudo, do outro lado, Murrue não teve dúvidas de seu cérebro, apenas do que o garoto levava nas mãos, mas como não poderia arriscar,

preparou sua faca de combate para um arremesso. Tanto sua visão, quanto a do jovem clarearam no mesmo instante. O jovem teve,

aproximadamente, 5 segundos de terror enquanto via a faca de combate girar em direção à seus olhos. No sexto segundo, sentiu uma dor

agonizante, mas não conseguira expressar sua dor e, no sétimo segundo, tombava seu corpo, junto com as bandejas de alumínio onde

carregava o jantar para os homens que faziam a guarda.

O barulho atraiu outras pessoas para investigarem e de quebra, rirem da idiotice do novato, mas invés de encontrarem um idiota caído,

encontraram um corpo sem vida. Aturdidos pela informação, deram o alarme ao ouvirem um disparo da bala que levou mais um dos seus ao

solo. Com isso a batalha estava iniciada. O corredor não oferecia muita proteção para Luna e os outros, que aproveitavam-se da falta de perícia

dos outros para tentar fazer suas balas valerem. Enquanto isso os membros da Mão Invisível, embora inexperientes na arte da guerra,

compensavam em superioridade numérica. Basicamente sua estratégia estava baseada no fato de que seus inimigos estavam em um beco sem

saída. Não poderiam resistir por muito tempo. Cubrindo-se mutuamente, Murrue, Kira Mwu e Luna tiveram que ceder terreno para os

guerrilheiros e começaram a recuar até o depósito. Um destacamento de 12 homens foi enviado para derrotá-los. A estratégia de Mwu era

simples: o depósito tinha vários abrigos para que pudessem se proteger. Ao afunilar seus inimigos em um estreito corredor, os números seriam

indiferentes e, se conseguissem abatê-los, conseguiriam mais armas e munição para agüentar uma segunda investida. Com mais balas, sua

experiência de combate faria diferença ou pelo menos esperava. Lembrava-se daquela estratégia de suas aulas da academia, só esperava que

tivesse mais sorte que os espartanos que criaram a estratégia.

Cada bala contando e cada segundo podia definir suas vidas, mas Kira Yamato estava firmemente determinado a não matar. Tinha sofrido

demais na guerra, tinha crescido e defendia a justiça, mas não conseguia matar. Não mais. Por isso, usava sua perícia para atirar nas armas do

adversários, enquanto Murrue aproveitava para eliminar os adversários desarmados.

- Sem balas! – avisou Luna.

- Sem balas! – avisou Kira, acompanhado por Ramius. Tudo estava nas mãos do homem que fazia o impossível, possível e ele não decepcionaria

sua esposa e seu padrinho de casamento. Contudo, quando pegou o segundo pente de balas, notou, tarde demais que o este estava

danificado e causou o engasgo da arma. Para potencializar o terror da situação, havia mais 4 oponentes e apenas uma faca. Preparado e

sabendo que depois do arremesso terá de improvisar, mas quando ele preparou-se para arremessar, teve a faca arrancada de sua mão por

uma bala. Um dos homens conseguira definir sua posição ou acertou por sorte, não importava. Eles estavam oficialmente desarmados.

Os 4 homens restantes pararam o ataque, enquanto um deles ligava para Phistopolles.

- Sim, estamos com eles na mira... não, eles não sabem onde estão... certo... certo... imediatamente. Certo, homens... Ei, seus malditos...

adivinhem só... vocês não são mais necessários... Agora iremos mostrar para vocês a dor da retribuição.

Andando em linha reta, eles renderam os quatro militares e os levaram para uma parede vazia. Todos sabiam qual era o ritual que se seguiria.

O pelotão de fuzilamento. O veredicto dos covardes. Eles haviam lutados por liberdade, pela vida de outras pessoas, pela paz e ideais que à

essas pessoas não importavam, pois significavam dor e dano para suas vidas. Não interessa que seja um oficial de comunicações ou um

membro da infantaria móvel. Para eles, só importava uma coisa: se vestissem uniformes, deveriam ser mortos. A anarquia pela vida. A vida pela

anarquia.

Quando se preparavam para seus últimos instantes de vida, um dos soldados chegou até Murrue e apontando para a testa dela, disse: "nada

pessoal, Madame", com um sorriso, que morreu ao receber uma bala no cérebro que explodiu sua cabeça, espalhando sangue e massa cinzenta

entre todos os expectadores. Ao olharem em direção à porta, viram um jovem correr em direção deles, com uma pistola em cada mão, os braços

cruzados em forma de "X" à frente do corpo e acelerando ao notar-se observado. As vestes deles não diferiam nada de qualquer pessoa

comum, uma calça creme, com vestígios de sangue e uma jaqueta preta. A cabeça coberta por um boné, impedia a identificação, mas suas

intenções eram claras. Por isso, os membros da Mão Invisível não duvidaram em abrir fogo contra o atacante, que se movia de forma

impressionante. Desviou de duas balas, foi atingido de raspão no braço, mas não deteve sua corrida, disparando sua arma na mão direita e

atingindo no meio da testa do homem à esquerda. Ao ver o homem à seu lado caído, outro guerrilheiro atirou duas vezes seguidas, enquanto

seu aliado recarregava sua pistola. Os tiros fizeram com que seu atacante rolasse no chão apenas para trocar a pistola sem balas que tinha,

pela faca militar que Mwu usara e arremessou no pescoço de seu oponente. Quando o último membro da Mão Invisível terminou de recarregar

sua arma, levantou seus olhos para mirar, mas encontrou a sola da bota de seu inimigo, que atingiu seu peito, mandando-o de encontro à

parede. O jovem homem chegou até ele e colocou sua pistola sob o queixo do guerrilheiro. Este ouviu aterrorizado as palavras de seu executor.

- Sinto muito. Não é nada pessoal! – disse com evidente sarcasmo na voz, enquanto puxava o gatilho, manchando a parede de vermelho e

cinza.

Quando o homem virou, viu-se sob a mira de 4 pistolas que pertenceram aos homens que matara. Sem deixar isso tornar-se um empecilho,

deixou que seu comandante perguntasse:

- Quem é você?

- Enquanto perde tempo com questões frívolas, eles devem estar mandando reforços.

- Shinn? – perguntou, enquanto tirava o boné do homem e deparava-se com os olhos vermelhos aparentemente vazios, marcando que Shinn

Asuka estava em modalidade Seed. Apesar da aparente surpresa, uma pessoa não se deixou convencer e, enquanto todos abaixavam as

armas, Lunamaria Hawke continuava com a sua arma empunhada contra a cabeça de seu salvador.

- Luna... - sussurrou Kira.

- Capitão. Shinn esta preso! Em PLANT! Não sei qual é o plano deste homem, nem porque ele parece tanto com Shinn, mas não vou me deixar

enganar.

- Entendo... então você quer uma prova? – sussurra Shinn, enquanto agarra com velocidade e ao mesmo tempo delicadeza, a mão de sua

namorada. Surpresa, ela não pode fazer nada enquanto ele a traz junto a si e a beija apaixonadamente. Ela se tenciona inicialmente, mas

corresponde o beijo com alegria e excitação, enquanto este dura. Ao se separarem para receber o precioso ar que tanto necessitavam, ele diz:

- Pelo visto, seu corpo ainda se lembra.

Sorrindo, a jovem o abraça fortemente. Sem querer quebrar o clima de reencontro, Mwu diz:

- Bom trabalho aqui, garoto.

Imediatamente ao ouvir aquela voz, o corpo do jovem tenente entra em modo de combate e empunha sua arma contra o Falcão de Edinmion.

- Neo Roanoke!! –cuspiu seu ódio ao dizer essas palavras – Não sabe o quanto eu queria encontrá-lo!!

- Na verdade, sou Mwu La Flaga... acredite essa história é complicada, mas devemos nos preocupar em escapar primeiro – contemporizou o

homem. Sempre soube que havia o risco de seus pecados como Roanoke o cobrassem nesse período de paz. Era um risco a mais que o Falcão

assumira desde que ganhara este rótulo, mas faria o que fosse necessário para tirar sua esposa dali. Mesmo que depois tivesse que acertar

contas com Asuka.

- Shinn... ele diz a verdade... deixe o passado para trás – pediu docemente Luna, enquanto entrava na frente da arma de seu namorado,

servindo de escudo para proteger Flaga. Diferente de Shinn, Luna passara bastante tempo antes do casamento de sua irmã com Atthrum Zalla,

o que a permitiu conhecer não só algumas pessoas da Archangel, como ouvir o lado da famosa tripulação sobre a primeira e segunda guerra.

Contudo, não comentou nada com Shinn pois sabia que ele agiria como agiu agora. Sem pensar nas pessoas do outro lado.

- Quando isso acabar! – sentenciou, enquanto Murrue abraçava seu marido. Ela sabia melhor do que ninguém sobre os pesadelos de seu

período como Roanoke.

- Shinn, onde está o resto da equipe? – perguntou Kira, desesperado para aliviar a situação. Porém, de todas as respostas que esperava,

jamais pensou que ouviria isso:

- Não há equipe. Eu vim sozinho.

- Sem reforços? – perguntou Mwu.

- Nossos reforços dependem de Zalla não ser o imbecil que eu acho que ele é! – respondeu friamente.

- Mas, pelo menos, você sabe onde está a saída, certo? – perguntou Yamato.

- Eu vim para cá desmaiado. Cortesia de sua irmã.

- E qual seu plano, agora? – perguntou Murrue.

- Matar quem entrar no meu caminho, pegar o chefe dessa operação como refém e tentar sair daqui. Ou matar todo mundo e esperar que

encontremos a saída. Ainda estou decidindo o que é melhor. Vamos. - todos se encaminharam para a porta, mas Shinn dobrou-se sob seu peso

e emitiu um grunhido de dor, cuspindo sangue. Logo, Kira e Luna estavam checando seus sinais vitais e fazendo um torniquete em seu braço.

Após um minuto, completamente recuperado, o jovem tenente levantou-se e liderou o grupo corredor à fora.


- Mell, temos problemas – um de seus homens entrou falando. Nesse momento, Mellon Phistopollis sabia que seu dia iria para o buraco.

- O que é? – perguntou friamente.

- Os prisioneiros escaparam. O que devemos fazer? – perguntou aparvalhado o homem.

- Onde eles estão?

- Ainda no corredor próximo às celas.

- Ótimo. Encurrale-os esperem até que eles fiquem sem bala e detenha-os.

- Sim Senhor – respondeu o homem, saindo em seguida para montar um grupo para a operação.

- Problemas no paraíso? – questionou pícaramente Said, através da teleconferência.

- Do quê está falando?

- Não acha coincidência demais, Asuka estar aqui e acontecer uma rebelião e fuga dos prisioneiros? – perguntou Pichard, dividindo a tela, com o

árabe.

- Do que estão falando? Eu estou vendo Shinn daqui! – disse Mellon, olhando para a janela, onde vê Stevie e Shinn se protegendo dos

disparos, junto com outros homens.

- Talvez ele não esteja envolvido, mas isso não quer dizer que não seja mau presságio – disse sabiamente, o francês.

Dez minutos depois, um telefonema toca e a informação que Phisto esperava.

- Sim... ótimo... quando eliminarem eles.... sim... imediatamente e, não admito falhas... certo.

Olhando para a tela, disse-lhe aos homens: - Não se preocupem, tenho tudo sob controle.

- Esperamos que sim, pelo seu bem.

Cinco minutos depois, um outro membro da Mão invisível veio até o escritório do grego.

- Senhor, os prisioneiros estão vivos. Fomos traídos por um dos nossos!

- Quem?

- O garoto que trouxeram hoje. Alguns de nós o vimos entrar na ala prisional com uma equipe e agora ele está combatendo junto com os

prisioneiros. A equipe não responde ao chamado.

- E Steve?

- Foi encontrado desmaiado dentro do refeitório.

- Você dizia? – perguntou Said.

- Vocês tinham razão, satisfeito? Agora mandem os reforços que prometeram.

- Agora que temos o que viemos buscar, nosso contrato acaba de expirar. – disse o francês.

- Não se preocupem, vocês serão lembrados pela causa – sorriu o árabe – por um mundo puro e limpo.

- Seus malditos... então eu fui apenas um peão em seu tabuleiro? – perguntou irritado, Phisto.

- Não se menospreze, você nos foi útil. – disse Pichard, desligando a comunicação.

O líder da Mão invisível ficou olhando impassível por alguns momentos. Ele esperava estar usando aqueles homens, mas fora o contrário.

Precisava pensar, planejar. Mas trataria disso depois. Primeiro tinha que se livrar de 4 militares e um traidor da causa.


- Shinn, o quê foi aquilo? – quis saber Lunamaria.

- Não se preocupe, Luna. Foi apenas um dos efeitos colaterais do Seed.

Todos calaram, enquanto pensavam nas implicações. Depois da primeira guerra, começou-se uma série de estudos sobre um componente do

genoma que evoluíra parcialmente: o gene Seed. Embora as chances de manifestação do gene fossem 1 em 2 bilhões, poucos cientistas tiveram

acesso à pessoas portadoras do gene Seed. No mais, não souberam das principais utilidades do gene até o final da segunda guerra. Ainda era

envolto em controvérsias, especialmente porque só era ativado sob enorme estresse físico e mental. Não era segredo, entre o grupo, que Kira

e Atthrum, eram portadores, mas nunca pensaram que o piloto do Destiny também o seria. E quando caminhavam pelo corredor, viram o

resultado da ativação do gene seed. Enquanto eles 4 tinham eliminado, um total de 12 homens naquele corredor, Asuka sozinho, eliminara 15

homens no corredor que, junto, aos outros 4 do depósito, totalizariam 19 pessoas. Nada mau para alguém que estava lutando como um

exército de um homem só até agora.

- Você também é portador da Seed? Se ambos lutássemos com a Seed, poderíamos evitar mortes! – disse-lhe sério, o capitão Yamato.

- Você nunca usou a Seed em combate corpo-a-corpo, certo? Não venha pensando que é a mesma coisa que pilotar um Móbile Suit.

- Está dizendo que prefere usá-la para matar? – enfrentou Kira.

Pegando-lhe pelo colarinho, Shinn encostou seu capitão na parede. Seus olhos cintilavam de raiva, e Mwu fez menção de separá-los, quando

sua esposa colocou a mão em seu ombro e apertou-o, num claro sinal de que aquela confrontação deveria acontecer. Ela, mais do que ninguém

sabia da disposição de Kira Yamato em não matar, mas aquela não era uma situação realista. Tinha que mandar ao inferno os bons modos de

seu padrinho de casamento, se quisesse sair dali com vida. Sua postura quase tinha custado a vida de todos, lá atrás.

- Sabe aquilo que viu lá atrás; um homem caído, gemendo de dor e cuspindo sangue? Isso é o menor dos efeitos colaterais de se usar a Seed

em um combate de infantaria. Você sempre achou que era um piloto superior de Móbile Suit, por causa da Seed? É ao contrário... a cabine de

um Móbile Suit é a única chance que você tem de sobreviver em uma batalha. Sem essa proteção, jamais passaria de 5 minutos no campo de

batalha.

- O quê você quer dizer? – perguntou o piloto do Strike Freedom, enquanto corria-lhe à mente que se isso fosse verdade, ele dependera mais

da máquina do que ela è ele.

- A dor que você me viu sentir ali atrás era referente ao tiro de raspão em meu braço, mas ao invés de senti-la quando deu-se o impacto, eu a

senti quase 2 minutos depois. Porquê? Cada músculo do seu corpo age tão rápido que o sinal de dor de um ferimento passa tão rápido pelos

seus neurônios que demora muito mais tempo para senti-lo e como a resposta sináptica não ocorre, o estímulo continua a percorrer todos os

receptores de dor e quando você sente a dor, finalmente, ela não se dá no lugar do ferimento, mas em todos os receptores de dor que você

tem no cérebro. TODOS!. Agora imagine que você é um animal que depende da caça para sobreviver. Imagine apenas que você tem como

estratégia a velocidade, a aceleração a tal ponto que uma vez iniciada o arranque, sua noção de ponto cego se converte em um borrão e você

tem pouco mais de um minuto para pegar sua presa, antes que seu próprio corpo entre em colapso e seus órgãos, se explodam

voluntariamente. Agora imagine apenas que suas sinapses não reconheçam o sinal de parada, porque você está tão rápido que ele mal

conseguem ler o impulso inconsciente que seu corpo manda para mover-se. E pense porquê em um ambiente pressurizado com uma única tela,

do cockpit de um Móbile Suit e toda a informação sensorial que você tem provindo de uma máquina, porque seu corpo se forçaria ao máximo?

- Mas...

- Eu ainda não terminei. Olhe para esse lugar, olhe para essas pessoas. Para elas, deixamos de ser seres humanos há muito tempo, quando

vestimos nossa primeira farda. Elas não estão atrás de justiça. Estão atrás de vingança, travestida de justiça. Eles não irão parar até que nós

estejamos mortos. Todos nós. E depois de nós, irão atrás da Equilibrium, da tripulação da Archangel, da sua irmã, de Clyne. De pessoas que

eram pequenas demais na época da primeira guerra para entender, mas que estão na academia atualmente. De todas as pessoas que vestem

um uniforme. Essa é a extensão da vingança que querem. Fazer todos sofrerem a perda que sofreu. Um olho por olho que no final, deixará a

todos cegos!

- Eu não posso matar. Isso me destruía cada vez que eu fazia...

- Não me venha com hipocrisia, maldito! Ou vai me dizer que quando lutamos próximo ao litoral da Escandinávia, você não mirou meu cockpit?

Você tentou me matar! Eu tentei matar você! Nós tentamos nos matar. Isso é certo! E porque você tentou me matar? Porque você é um

monstro, que mata pessoas para comer no café-da-manhã? – disse, com evidente sarcasmo – ou porque você é humano. Com fraquezas,

sonhos e amores? Talvez toda essa história de coordinator definitivo tenha-lhe subido à cabeça e feito esquecer que é tão humano quanto

qualquer um de nós e, se pretende ver Lacus Clyne novamente, é melhor escolher com cuidado suas prioridades!

Enquanto isso, Kyla e Cagalli estavam no escritório da Representante, á espera de notícias. Esperava que todos estivessem bem; mais do que

amigos, Kira, Murrue e Mwu, juntamente com Atthrum e Meyrin, mais recentemente, eram sua família. Um tipo especial de família, aquela que é

formada por associações, independente das imposições da vida. Ela sabia que todo o apoio para seus sonhos, esperanças e objetivos que

precisasse por toda a vida, conseguiria naquelas pessoas. E também já havia esmurrado as paredes em busca de uma maneira de extravasar a

raiva e a impotência de ter colocado Shinn na linha de fogo, sem possibilidade de fuga. É certo que o odiou por um tempo, e também que se

feriu ao fazê-lo, especialmente depois daquela conversa civilizada que tiveram no parque, mas devido à sua própria incapacidade em conhecer

as pessoas, não conquistara a confiança dessas pessoas em suas ações, como em suas palavras. Sua cunhada não confiou nela para dizer que

seu irmão fora seqüestrado e não podia tirar a razão dela, pois teria agido infantilmente, e agora sabia disso. Igualmente não tinha condição

para esperar informações na Equilibrium. Agora ela estava em seu gabinete, onde só podia esperar... e rezar por todos.

Kyla Stwart estava como acompanhante da Representante, pois era sabido que em condições normais ela tentaria se meter na linha de frente

da operação de resgate. Surpreendentemente, não o fez. Apenas olhou para Atthrum e Sado, depois olhou para Dearkka e Izak e disse: "por

favor, dêem o seu melhor para trazer todos vivos!" e saiu. O almirante com um olhar, demonstrou para Kyla que o quê a garota necessitava

agora era de uma amiga. Alguém que não a julgasse pelos seus erros, mas estivesse disposta à ouvir seus objetivos. Alguém neutro... alguém

como ela. No caminho, conversaram sobre tudo o que ocorrera em suas vidas, nos motivos de cada uma ser como era e estavam girando em

torno disso há 30 minutos, quando Cagalli falou:

- Tem uma coisa que eu não entendo... como os homens da Mão Invisível sabiam que eu dera voz de prisão para Shinn?

- Isso só pode ocorrer de duas maneiras, Cagalli-san. Ou seu telefone foi grampeado ou eles têm algum espião em suas fileiras.

- O quê você acha? – perguntou a loira.

- Acho que se fosse um grampo ou escuta no seu gabinete, Yasutora-san já o teria encontrado. O mais provável é que um agente biológio

tenha passado a informação – disse focada.

- Será?

- O quê você pode dizer sobre os agentes do serviço secreto?

- Não muito – respondeu a loira – apenas que foram escolhidos por Sado-kun e treinados por ele. A maioria era de militares de carreira e

fuzileiros.

Isso quer dizer que dificilmente um deles trocaria de lado. Especialmente porquê, se já o tivessem feito, Sado Yasutora já o teria notado.

- Supondo que, o informante não fosse do serviço secreto, quem poderia ser? Cagalli-sama, quem poderia tê-la ouvido dar voz de prisão para o

senhor Yasutora?

- Eu recebi o relatório de Mandy, minha secretária e logo depois de dar uma olhada, me encontrei com Sado.

- Isso significa que sua secretária poderia ter ouvido?

- Sim, eu confio em Mandy. Ela está comigo há mais de 1 ano – afirmou Cagalli.

- Mas o quê você conhece dela? Sua vida, sonhos, realidade?

- Entendo o quê quer dizer. Vamos tirar isso à limpo agora!

- Isso quer dizer agora, agora? Às dez da noite? Você quer dizer, ir à casa dela?

- Sim. É isso mesmo que eu quero dizer – disse encaminhando-se para a porta – Você vêm ou não?

- Tá certo, tá certo.

Espalhados atrás de uma parede e algumas caixas, o casal La Flaga, Shin e Luna fazia cada bala valer. Kira estava obviamente inseguro de

tudo o que seu tenente lhe havia dito, mas dispararia e incapacitaria o maior número de pessoas que pudesse. Se tivesse que matar para

salvar algum de seus amigos o faria. No mais se os incapacitasse, e eles não pudessem voltar para combater isso não seria tão diferente do

que fazia no Freedom.

- Munição - pediu Luna, recebendo de Mwu, um pente para a submetralhadora que estava em suas mãos. Carregou-a e apontou para onde

vinham os inimigos.

Enquanto isso, Shinn alvejava com pontaria invejável, com duas pistolas atacando os guerrilheiros e ao mesmo tempo cobrindo o resto de sua

equipe, enquanto o casal Flaga recarregava suas armas.

- Ei Shinn! – gritou alguém de trás da trincheira inimiga. – Sabemos que você está aí! Não é necessário fazer esse suspense.

- O quê você quer Mell? – respondeu o jovem, para espanto de seus companheiros - Veio me dizer que vocês se rendem?

- Engraçado, eu ia dizer o mesmo à você! Se bem que ambos sabemos o quê irá acontecer se o fizer. Antes de qualquer coisa, você é

realmente Shinn Asuka?

- Ah sim, sabemos. E não se preocupe, sou realmente Shinn Asuka, filho de Shinno e Mayurion Asuka. Também perdi tudo na guerra e fui

tão refugiado quanto qualquer um de vocês. É por isso que eu gostaria de dizer à seus homens que se eles se renderem agora, eles serão

tratados com justiça e imparcialidade. Não estamos em tempos de guerra. Podemos fazer a coisa de maneira diferente agora.

- Acha mesmo que podemos confiar em um militar? – gritou um deles.

- Não acreditamos em suas mentiras. Você é só mais um cachorrinho dos malditos Attha. Você é um cachorrinho do governo – gritou outro.

- A única diferença entre eu e vocês, foi que quando fiquei órfão, quando perdi tudo... ao invés de encontrar a Mão Invisível como vocês, a

única instituição que me deu a mão foi Z.A.F.T. Eu estive onde vocês estão hoje. Sei o que vocês passaram e digo que podemos impedir

que a coisa seja ainda pior para todos: para Orb, para vocês, para PLANT. Vocês decidem.

Enquanto o silêncio de suas palavras ecoava, todos olharam para o jovem tenente com novos olhares. Para Luna, já parecia incrível encontrá-lo

quando tinha perdido a esperança, mas ouvi-lo falar com estas pessoas, de maneira tão firme era um alívio. Murrue e Mwu sabiam por alto da

história do piloto e, ao ouvirem em primeira mão, perceberam o quanto as pessoas poderiam mudar e se ele mudara tanto, poderia perdoar o

passado e seguir em frente, assim como eles fizeram. Já Kira, estava orgulhoso do processo que seu amigo realizara em sua vida. Não estava

iludido e sabia que ele ainda era Shinn Asuka e seria esquentado por natureza, mas ele também amadurecera pela vida e escolhera um

caminho pelo qual poderia enfrentar os dissabores da vida como um homem.

- Hehehehehe... – foi o que ouviram da voz do grego – então, no final você é um idealista? Aposto que quem o mandou aqui não lhe contou,

ou pior, não sabe que o homem que você tem ao seu lado é a pessoa que lhe fez mais dano na vida!

Shinn olhou para o loiro, que fez novamente cara de confusão. Ele fora Neo Roanoke, mas isso não era surpresa para ninguém. E Shinn sabia

disso agora.

- Do quê diabos você está falando agora, Mell? – perguntou Shinn.

- Como não adiantaria falar para você eu lhe mostrarei esse vídeo. Parte de nossos recursos, são investidos em dar respostas para as

pessoas – disse Mellon Phistopolles em tom burlesco. – veja essa tela ao lado do computador alo lado da parede em que você está

escondido. E sinta-se à vontade para verificar a autenticidade. Eu não lhe mostraria o vídeo antes de ler o relatório psicológico que

fizeram de você no C.I.R.O.

- Você denunciou nossa posição - sussurrou Mwu para o garoto.

- Fizemos isso quando resolvemos trocar tiros com eles – respondeu Murrue.

Um vídeo começou a passar pelo monitor. A data do vídeo: 15 de junho do ano 71 da Era Cósmica. As imagens: Móbile Suit Forbidden Gundam.

O vídeo mostrava a visão do ataque à ilha há 4 anos, vista da câmera do Gundam pilotado por um dos primeiros extended. A sucessão de

imagens mais familiares para Kira Murrue e Mwu; já Shinn não vira a luta deste ângulo. Estava ocupado demais procurando sobreviver. Todos

assistem atônitos, a troca de tiros entre o Freedom e outro Gundam, Calamity. A situação está em um impasse. O Calamity está em terra, mais

precisamente em uma floresta. O Freedom está no céu. De repente, o Calamity atira com seus dois canhões em direção ao inimigo. O Freedom

responde com seu sistema Dragoon. Ambos evitam o disparo, mas uma explosão ocorre próximo a um navio que recolhia refugiados. A batalha

prosseguia, quando Shinn teclou na tela, pausando a gravação.

- Shinn? – perguntou Lunamaria, preocupada com a cara que o tenente fez.

- Computador, focalizar, quadro N 18. ajustar foco. Zoom aumentado em 800 vezes – comandou o computador. A imagem ficou no nível do navio

– voltar 7 segundos. Avançar quadro-à-quadro.

Todos viram a explosão atingir a terra e, após a melhora no zoom em mais 80%, puderam ver que algumas pessoas foram atingidas pela

Dragoon. Em seguida um jovem sobrevivente levanta-se e vê a imagem de seus parentes mortos. Todos olham impactados para tela, mas dela

se esquecem quando o jovem, até então seu salvador, aponta friamente a pistola para Kira Yamato.

- Shinn! Não faça isso! – implora Luna.

- Ei garoto, ele está querendo te confundir. Nem sabemos se essa gravação é verdade – entrou em defesa de seu padrinho, o Falcão de

Edinmion.

- Eu estava lá, lembram-se? – disse ausente.

O moreno era o mais impactado. Jamais imaginou que ainda haveriam pessoas na ilha. Jamais

imaginou que justamente o tiro que ele errara atingiria vidas. E, especialmente, jamais imaginou que ele enfrentaria uma de suas vítimas na

figura de Shinn Asuka. Pensando nisso, Kira Yamato resolve colocar sua vida nas mãos do destino. Para a surpresa de todos, o jovem de olhos

vermelhos, coloca o dedo no cão de sua pistola e coloca-o de volta a seu lugar de origem, cessando a ameaça. Em seguida, vira-se para o

grego.

- Ei Mell... essa foi muito boa. Quase perfeita. Normalmente eu iria ficar tão puto, mas tão puto, que mataria o safado aqui mesmo e depois

me jogaria de cabeça contra você. Aí um tiro e duas ameaças fora de alcance. Um plano muito bom, mas você não previu uma coisa: eu

não estou aqui para salvar Kira Yamato. Estou aqui para salvar a mulher que eu amo. Dele eu cuido depois. De você eu cuido primeiro!

Todos ouviram esse rugido territorial do garoto. Kira e o casal Flaga olhou de Luna para Shinn e, novamente para a garota. Ela estava vermelha

até não poder mais e olhava assustada para o garoto que gracejou:

- E não era você que reclamava que eu não me expressava em público?

- Você está me dizendo que tem um caso com Lacus Clyne? – perguntou incrédulo, Phistopollis.

- Você é um idiota! Pegou a mulher errada. Pelo visto, não reconheceria Lacus Clyne nem se ela esbarrasse em você.

- Entendo – disse o grego e a seguir, um tiro e um gemido mudo foi emitido de onde os membros da Mão Invisível estavam – É realmente uma

pena, Shinn. Apesar de ela não ser Clyne ela está aqui e não podemos deixar nenhum de vocês vivos. E como você nos traiu, iremos

descontar em sua namoradinha. Iremos encher todos os buracos dela de porra até que ela deseje estar morta. É justamente isso que

faremos nela e o melhor: você e ela morrerão sabendo que a culpa disso é sua!

- Yamato – sussurrou o tenente com a cabeça baixa – tire-a daqui. Eu vou segurá-los e eliminar o maior número deles que puder.

- Shinn... não faça isso... eu não sei viver sem você! – implorava Luna, mas notando que seus olhos tornavam-se novamente ausentes, sabia do

que ele estava se propondo.

- Assumam uma posição elevada. Eu levarei comigo o máximo que puder.

- Não morra, garoto! Vamos dar um jeito – disse Mwu. Por experiência própria ele sabia que se alguém quisesse fazer o mesmo com sua

esposa, ele estaria no lugar do garoto.

- Tenho 37 balas e um pente. Eu darei cobertura para vocês.

- Shinn... eu te amo... – soluçava a tenente.

Sem responder, o jovem sai do abrigo à uma velocidade impressionante. Com seus músculos à toda, encara o tiroteio de maneira como nunca

encarou, mesmo estando no Impulse ou no Destiny. Cada bala que atingia um homem equivalia à um homem que não chegaria perto de sua

namorada. Cada parte de sua mente estava focado em maximizar suas balas, menos uma. Essa parte se dividia entre rezar pelo apoio

prometido por seu cunhado e praguejar a maldita demora. Não esperava sair dessa, mas se saísse mataria ele com suas próprias mãos.

A armadilha estava montada e o alvo caíra nela com sucesso, pensou o grego. Agora era só uma questão de tempo para eliminar a maior

ameaça. Se mantivessem esse ritmo, a má alimentação da última semana logo cobraria dos outros seu preço. Além do fato que eles não

conheciam o terreno, eram ratos em um labirinto. Já o filho de seu finado amigo estava em situação oposta. Ele conhecera a base com Steve e o

tirou do caminho. Estava bem alimentado e pronto para o combate. Só esperou que ele fosse mais refugiado que militar para cair em uma

ameaça óbvia dessas. E como esperado ele estava descontrolado. Ainda assim era um excelente atirador e tinha matado 10 de seus homens e

incapacitado outros 5 em um acesso de fúria, mas logo sua sorte acabaria. Abrindo uma caixa de armas ali perto, Mellon Phistopollis pegou um

rifle de precisão PSG-1 e preparou a mira. Com o nível de movimento corporal do jovem Asuka comprometia um tiro na cabeça, decidiu por atirar

no peito. Outros dois soldados estavam com miras laser em suas pistolas e estariam atentos aos movimentos do coordinator. E no exato

momento em que parou o ataque para tocar o pente de balas, Shinn recebe três tiros no peito e desaba no chão, formando lentamente uma

poça de sangue.


"Tango caiu". A mensagem ecoou através de um comunicador até a nave Equilibrium de Z.A.F.T. Na telemetria, Atthrum Zalla, Yzak Joule e

Youlan Razzard. A voz que porta a má notícia é de Dearkka Elsmann.

- Dearkka, qual a situação? – pergunta imediatamente, o comandante Joule.

- Trocando para sensor de batimento cardíaco. Confirmado. Tango está ferido. E está entre 4 pessoas à 20 metros atrás dele e 60 pessoas, 20

metros à frente.

- Mire nas 60 pessoas – ordenou o capitão, sob olhar de Zalla – Yasutora, em posição?

- Sim.

- Fogo! – gritou o capitão.

- Espero que ele esteja vivo quando o reforço chegar – disse Youlan.

- Não espere demais. Suas chances não são boas – retorquiu o outro militar de Z.A.F.T.

- Yzak! – apressou-se em dizer o almirante, mas foi detido pelo amigo.

- Isso não quer dizer que eu não queira que ele tenha chance, maldito! Alguém tem que fazer o advogado do Diabo e falar as coisas como elas

são. Não interessa que você ache que só porque sobreviveu à explosão de um Móbile Suit isso aconteça com todo mundo!

Uma das sensações mais engraçadas da vida de Shinn Asuka fora tomar 3 tiros no peito. Sim, vira a bala se aproximar e não a evitou,

simplesmente porque não pôde. Assim que tomou o primeiro tiro, seu corpo foi para trás e, graças ao movimento, viu outros dois homens que

agiam em seu ponto cego, mirando seu peito. Disparou nos dois e atingiu-os na cabeça, mas sofreu o impacto e caiu. Suas pálpebras

começavam a pesar, enquanto ele pensava "sem dor? Droga de Seed. Agora estou em dúvida se vou morrer antes de sentir o impacto".

Uma explosão ocorreu próximo à ele e imediatamente atrás das trincheiras dos membros da Mão Invisível.

- Antes...tarde... do...que... nunca... Zalla – sussurrou, enquanto fechava os olhos.


Paz. Apenas isso. Não ouvia nada até prestar atenção em uma voz suave. Quase musical que o chamava.

- Shinn... Shinn – era a voz de uma deusa, pensara o garoto. Ao abrir os olhos, uma cabeleira loura mostrou-se presente. Os olhos da garota

eram tão densos quanto os seus mas de um vermelho mais suave, como se identificando a diferença de gêneros entre eles. Mas quando ouviu

sua voz novamente, chamando seu nome, não precisava de mais nada para saber que é a garota.

- Stellar, é bom ver você novamente; – sorriu o jovem de volta. Olhando para o lugar, estava em um campo bonito; uma paisagem agrícola que

lembrava muito Junius Seven, antes do Bloody Valentyne – dessa vez eu morri, mesmo?

- Apenas se você quiser, meu filho – uma segunda voz feminina fez-se presente.

- Mãe?

- Porque a surpresa, meu pequeno? Sempre estivemos aqui, olhando por você.

- Você cresceu muito meu filho. Deixou-nos orgulhosos, mas também preocupados – disse uma voz forte.

- Pai?

- Sim, meu filho... eu estou aqui. Você se tornou um homem forte, Shinn.

- Isso não é verdade, pai. Eu jamais superei a morte de vocês. Eu fui um fraco.

- Um fraco que vai até o inferno pessoal para proteger os amigos? Um fraco que quebra as regras para ajudar a mulher que ama? Quem dera

se todos os fracos fossem iguais à você... irmão – diz uma jovem um pouco mais afastada.

- Mayu... Mayu... Mayu! – diz o garoto, chorando no ombro de sua irmã. O mesmo ombro que fora arrancado dela em sua vida. Ela afaga sua

cabeça com serenidade e diz:

- Não se preocupe, Shinn. Não foi sua culpa. No fim, era só um celular.

- E você se culpou por sobreviver, meu filho. Todos nós sofremos muito com isso. Nós queríamos que você pudesse sorrir de verdade, mais uma

vez. E foi assim que conhecemos Stellar – diz sua mãe, sorrindo abraçada à loira - Ela nos foi como ter parte de você conosco, e juntos,

formamos uma família.

- E agora, nós estamos juntos de novo – sorriu o jovem.

- Apenas se você quiser, meu amor – disse Stellar.

- Como assim... eu não morri?

- Ainda não, Shinn. Você está na terra do desejo. Um lugar intermediário entre os vivos e os mortos, onde as possibilidades não existem além

dos desejos. Esse lugar é reservado a um tipo de gente muito especial – disse Mayu.

- A verdade, meu filho – disse Shinno – é que todas escolhas trazem conseqüências. Sua decisão individual afeta aqueles que orbitam ao seu

redor. Você deseja conhecê-las antes de tomar sua decisão? – perguntou, recebendo um olhar de aprovação de seu filho – Excelente. Não

esperava menos de você.

O lugar escureceu-se e paisagem agrícola deu lugar para a mansão Zalla, onde a preocupação de Meyrin com sua irmã e o ciúme de Cagalli,

estalam em uma briga doméstica que acaba quando os policiais chegam ao local.

- Atthrum Zalla culpou-se por não enviar reforços a tempo e passou a se dedicar ao trabalho em tempo integral. Com seu comportamento

distante e a preocupação com Lunamaria, Meyrin acredita que ele tem um caso com Cagalli. Essas brigas o levarão a um processo litigioso que

os devastará – disse Shinno. A seguir, a imagem muda para uma Onogoro em clima de guerra civil.

- Cagalli é outro exemplo de culpa. Após o acidente, ela começa a fechar a fronteira para determinados grupos, o que causa a desconfiança das

boas intenções do governo de Orb. Logo, acusações infundadas são levadas a público por grupos opositores e em contra-ataque ela decretará

lei marcial enquanto o povo não se acalmar. Isso marcará o período de seu governo, que terminará com a destituição e exílio dela em PLANT.

Todas as pessoas ligadas a ela anteriormente, serão declaradas traidoras do novo regime e terão que fugir ou morrerão fuziladas – observa

Mayurion Asuka. Novamente, a imagem muda para um tribunal militar.

- Youlan resolve que será o piloto do Destiny como uma homenagem à você. Digamos que ele se atrapalhou com os comandos durante um

exercício de combate e disparou contra uma nave cargueira da Federação Atlântica. Para evitar uma nova guerra, Z.A.F.T. achou melhor

entregá-lo para ser fuzilado. E o Móbile Suit Destiny teve sua destruição decretada em troca da boa vizinhança entre a Terra e PLANT – comenta

Mayu. A imagem muda para uma casa quebrada, onde uma Murrue Ramius mantém seu marido a distancia com uma garrafa de whisky

quebrada.

- Mwu La Flaga e Murrue R. La Flaga tiveram sua quota de dor, quando os pesadelos de Mwu como Neo Roanoke voltaram e ele tentou

afogá-los na bebida. Isso fez com que eles perdessem o bebê por nascer em um acidente que marcou a relação deles. Eles ainda tentam

continuar juntos, mas o medo e a desconfiança deles próprios e dos parceiros, terminará matando a relação – sentencia o patriarca Asuka. A

imagem mostra agora, um asilo de veteranos, um verdadeiro depósito humano. E Lacus chorando em frente de uma tumba.

- Kira sente-se culpado pelo que viu no vídeo e acreditando-se um assassino, resolve cortar os laços com Lacus por acreditar não merecê-la. Ela

o seguirá por um tempo, mas depois de dois longos anos de decepção, ela o deixará. Jamais amará outra pessoa com o fez com ele e virará

uma política de carreira. Logo tornar-se à tão fria e dissimulada quanto os demais membros do Conselho Supremo e pouco à pouco, esquecerá

dos ideais que seu pai morrera para defender. E um dia, quando se lembrar da vida que poderia ter tido, desejará poder trocar de lugar com

Meer Campbell. Kira Yamato terminará seus dias vivendo da pensão militar em um asilo para veteranos – disse Mayu. A imagem mostra agora o

alto de um prédio, com uma garota aparentando desnutrição, dança perigosamente na borda do parapeito.

- Lunamaria Hawke nunca se recuperou da sua morte. Com o tempo, caiu em forte depressão, tornando-se dependente de remédios. Largou

Z.A.F.T. Sumiu pelo mundo. Quando os medicamentos deixaram de surtir efeitos, ela optou pelas drogas. Aos 23 anos, drogada e prostituída, a

mulher Lunamaria Hawke salta para morte de um prédio de 130 andares. Como única parente, Meyrin herda suas dívidas de drogas, que farão

com que a ex-senhora Zalla trabalhe como prostituta para pagar uma dívida que nunca será paga – contesta Stellar.

- Tudo isso por quê eu morri? – pergunta incrédulo.

- Você percebe que seu destino interage em maior ou menor grau com o destino de todas essas pessoas? Se você decidir voltar, além da dor da

vida, não existe certeza que estas coisas não acontecerão. Se você ficar aqui, elas acontecerão certamente. A decisão é sua, meu filho – disse

Mayurion.

- Não há escolha então. Eu prometi proteger Luna, como prometi proteger Stelar. Eu tenho que voltar, mas como eu faço? – perguntou o jovem.

- É só desejar... bem forte...como se sua vida dependesse disso. Por que adivinha: ela depende! – disse alegremente, Mayu.

- Stellar, eu... – foi interrompido pelo dedo indicador da loira, que colocou sob seus lábios.

- Sim, eu sei... e não se preocupe. Se você for feliz, nós seremos felizes.

- E cuide de sua irmã – disse Shinno Asuka, enquanto o filho ia perdendo a consciência.


Ao abrir os olhos, Shinn sente uma inesperada pressão sobre seu peito. Quando resolve investigar, nota uma jovem de cabelos curtos,

pressionando fortemente seu peito com o casaco de seu uniforme.

- Shinn, fique comigo meu amor. Você precisa ser forte. Não me deixe assim – rogava a garota.

- Lu... na... – sussurrou o jovem – sai... daqui.

- Shinn... eu não vou sair daqui e se você quiser me tirar daqui, terá que andar e sair daqui comigo!

Olhando ao lado, viu como um dos homens se aproximava deles. Tentou avisá-la, mas sua voz falhou. "Mexa-se corpo. Mexa-se corpo. Mexa-se

corpo. Ela não pode morrer. Mas eu já estou com a Seed. Mexa-se. Você não é uma Seed. Você é um homem. E como homem, irá proteger a

mulher que ama. Mexa-se agora!".

Contra todos os prognósticos, uma onda de energia percorreu o corpo baleado do coordinator que sentiu sua palma fechar-se em torno da

empunhadura da . Olhando fixamente para o homem, acertou-o no peito. Um tiro limpo e perfeito.

- Shinn – observou a garota. Ele tinha atirado ou aquilo era sua imaginação? Um apertão forte em seu ombro foi a confirmação de sua opinião.

- Luna... me ajude a levantar – disse com inesperada energia. Cada fibra da garota queria ver aquilo acontecer. E uma vez mais seu salvador

não desapontou-a. Servindo de apoio tirou o jovem do caminho, sendo coberta por seus amigos e alguns dos soldados de Yasutora.

- Como ele está? – perguntou Murrue.

- Ele está vivo e melhor do que eu esperava – respondeu Yasutora, que havia ajudado a garota a carregá-lo – mas perdeu muito sangue.

Shinn luzia pálido pela perda de sangue, mas tinha energia suficiente para manter sua pistola em punho, mesmo que fosse um ato reflexo. Uma

rápida olhada em sua condição revelaria o milagre que consistia o simples fato de ele não ter morrido até agora.

- Precisamos removê-lo para um hospital, imediatamente – disse Mwu.

Assentindo, o homem forte de Orb pegou seu comunicador.

- Elsmann, que tal uma ajuda humanitária? Precisamos levar tango até um hospital e você é a carona mais próxima. Linha livre á 5 metros da

minha posição.

- Dearkka? – perguntou espantado, Kira.

- Roger – respondeu o comunicador. Em seguida uma segunda explosão aconteceu pelo teto. Apesar da força da explosão, como na primeira

vez era apenas força concussiva. Em seguida um braço vermelho gigantesco atravessou o buraco alargando-o

- O Beam Zakku – exclamou feliz Luna. Depois de ser designada para o Impulse, Lunamaria jamais havia subido novamente no cockpit de seu

antigo Ms, mas adorava vê-lo no hangar. Mais do que Impulse. Mais do que Leggend. Mais do que Destiny. Ela sempre se sentira

completamente entregue e focada na batalha quando estava pilotando aquela máquina.

Com cuidado subiram o garoto em sua mão e o acompanharam Murrue e Luna. Kira e Mwu resolveram ajudar a prender os membros da Mão

Invisível, apesar dos protestos de Sado Yasutora.


Bom, normalmente eu pediria desculpa por não ter postado o capítulo do fim de semana, mas dessa vez foi de caso pensado.

Decidi que como falta apenas mais 2 ou 3 capítulos, vou postar um por semana e segurar a fic até o natal.

Quero agradecer a todos que continuam lendo esta fic, apesar da irresponsabilidade de seu autor com os horários de postagem.

Especialmente para a Danizinha, que sempre comenta e para o Thienry Harry que, nas sábias palavras de Yzak Joule é um maldito! Apenas pelo princípio.

Também convido aqueles que gostaram da fic, para continuarem aqui e seguirem com um projeto meu que eu conto depois.

Escrito ao som do Tema do Esporte Espetacular. Sim, sou estranho. Eu sei.

Postado ao som de "Eu quero ver o ôco" - Raimundos.

Nos Lemos,

Fan Surfer.