- Homem branco, 20 anos. Coordinator, múltiplas perfurações de balas no tórax, braço, perna e abdômen. Perda maciça de sangue – gritou a
enfermeira, na porta do hospital.
- Coloquem-no no Trauma 07 – disse um médico – duas bolsas de sangue O- universal. Alguém tem alguma informação desse homem? – gritou
aos paramédicos.
- Aquelas duas chegaram com o rapaz. Elas vieram a bordo de um Zaku de Z.A.F.T. – respondeu um dos homens. Encaminhando-se para as
duas mulheres a fim de conseguir informações pertinentes para o atendimento, o cirurgião do Pronto Socorro resolvera mandar um dos
novatos tomar conta do caso.
- Boa noite, sou o Doutor Argille. O que podem me dizer do rapaz que deu entrada há pouco? – perguntou para as mulheres que faziam a ficha
do recém-chegado.
- Sai? – perguntou a mulher mais velha.
- Murrue-san... você não havia sido seqüestrada? Qual o nome do paciente?
- Shinn Asuka – respondeu uma drenada Lunamaria Hawke.
- Se você está aqui, devo supor que Shinn conseguiu encontrá-los. Enfermeira, por favor separe a ficha do paciente nº 6749982 e adicione os
dados da ficha de entrada.
- Entendido – respondeu a enfermeira. Enquanto isso, o médico não parava. Pegando seu telefone, discou um número que estava conhecido
desde os últimos dias na memória de seu celular.
- Atthrum? É Sai, Shinn deu entrada no hospital com ferimentos de bala... certo... providencie o histórico dele na Equilibrium. Tudo certo.
Qualquer mudança ligo. Encontro você mais tarde – desligando o telefone, dirige-se para a enfermeira – um rapaz trará a ficha médica do
Senhor Asuka em 10 minutos. Você poderia me informar qualquer anormalidade na ficha dele?
- Doutor Argille? – chamou Murrue.
- Pode me chamar de Sai, Murrue. Não se preocupem, estou a par de tudo. Atthrum e Yzak estão vindo aqui com a ficha médica de Shinn. Agora
preciso trabalhar.
- Murrue, ele é?... – perguntou Luna.
- Um amigo de Kira. Ele foi uma das pessoas que acabaram presas na Archangel – respondeu tranqüilamente. Agora não havia nada que
pudessem fazer para ajudar o tenente.
- Vocês estão em toda parte? – sorriu Luna.
- Parece que sim – respondeu com um sorriso.
Uma hora mais tarde, a sala de espera contem parte da maior força militar combinada entre Orb e PLANT. Atthrum Zalla e Yzak Joule chegaram
um pouco depois da ligação do médico e como esperado, trouxe uma extensa ficha médica. Assim que Kira e Mwu chegaram, Sai pediu que
eles, Murrue e Lunamaria fossem submetidos à um exame de corpo de delito e medicados contra a alguns sintomas de desnutrição. Após esse
exame, Meyrin chegou e ficou ao lado da irmã como se ela fosse a mais velha, sacando assim, um sorriso da tenente. Foi nesse clima, que o
médico passou seu primeiro informe.
- A condição do senhor Asuka é crítica. Os tiros perfuraram o abdômen, pernas braços e peito, fazendo com que ele perdesse muito sangue e
nós precisamos repor esse sangue. Nesse momento ele passa por uma cirurgia para suturar esses pontos hemorrágicos.
- Você disse que Shinn tinha recebido tiros em seu abdômen e pernas? Mas nós só vimos os tiros em seu braço e peito – perguntou Mwu.
- Ele estava nos enganando o tempo todo – disse Murrue abraçando o marido – Ele nos contou que durante o tiroteio no corredor ele havia
recebido mais "um ou dois tiros", mas que com a Seed, não se preocupou muito com isso. A dor que demonstrou naquele momento era
equivalente aos ferimentos abdominais e o tiro no braço.
- Sai, você não diria a respeito da necessidade de sangue se não houvesse um problema, certo? O que há de errado? – perguntou Atthrum.
- Realmente o tipo sanguíneo de Shinn Asuka é O-, o que o torna um receptor muito raro, por si só.
- E quanto à sua irmã? – pergunta Yasutora, atraindo o olhar de todos.
- A irmã de Shinn morreu há 3 anos – contestou Kira.
- Me refiro à meia-irmã. Então é verdade que ele não sabia da existência dela? – comenta mais para si.
- Você sabe onde encontrá-la? – pergunta Luna.
- Ela saiu da Equilibrium com Cagalli, há duas horas atrás.
- De qualquer maneira, há também o fator Seed. Quando um usuário do fator Seed recebe sangue, se este, mesmo que com a mesma tipagem
genética e o mesmo fator Rh, o sangue natural atacará o novo sangue, à menos que ele possua o fator Seed. Shinn deixou alguma bolsa de
sangue na nave?
- Houve um acidente em October 3 e mandamos nossos estoque para lá – respondeu Kira.
- Poderíamos trazer algum sangue de PLANT? – perguntou Dearkka.
- Não daria tempo. Se não conseguirmos repor satisfatoriamente o sangue dele, ele morrerá em 30 minutos, no máximo 1hora.
- Sangue O-... Kira, você está pensando em quem eu estou pensando? – disse o Almirante, ao notar o olhar de seu velho amigo.
- Ele vai nos matar por isso. Você sabe – respondeu com um tímido sorriso.
- Mas ele vai estar vivo para isso – interpelou o outro. Sob olhos expectantes de todos, Atthrum saca seu telefone e disca um número.
- Atthrum e eu sabemos de alguém que possui as mesmas características sanguíneas de Shinn. Atthrum está telefonando para ela agora - responde Yamato para a pequena platéia.
- Ela chega em 10 minutos, já estava a caminho quando liguei.
Uma cirurgia de 7 horas foi necessária para salvar o jovem coordinator das portas da morte. O nível de seus ferimentos seriam descritos em
seu relatório médico como "extremamente incomuns" um jargão médico para nunca visto. Além de seus ferimentos à bala, seu corpo contava
com diversas lacerações, luxações, distensões e feridas causadas por estilhaços ou pela utilização demasiada das capacidades físicas do gene
Seed em combate corpo-a-corpo. Durante a operação, o coração de Shinn Asuka parara duas vezes e necessitou de estimulação cardíaca. Sua
namorada teve que ser sedada em um determinado momento da madrugada e foi para a casa dos Zalla, em companhia da irmã e de Murrue.
Após esse incidente, quase todos foram descansar em suas casas ou no quartel, exceção feita para Kira Yamato e Atthrum Zalla, que ficaram
até a saída de seu amigo da sala de cirurgia.
- E então Sai, como foi a cirurgia? – perguntou o capitão Yamato.
- Kira, me pague um café e eu contesto tudo – respondeu Sai.
Dado o início da manhã, os três foram para uma padaria próxima ao hospital, que funcionava 24h. O sabor amargo desceu pela garganta do
médico até o estomago, dando-lhe novo animo para contar como foi o final de seu turno, na sala de cirurgia do hospital.
- Basicamente, nós tivemos um trabalhão para remontá-lo – começou o médico – Shinn se esforçou-se tanto que chegou a estourar alguns de
seus músculos femurais, além de outros ligamentos como o menisco, por exemplo. A verdade é que ele talvez necessite de mais uma cirurgia
porque, quanto mais olhávamos, mais achávamos alguma coisa em que mexer. Se querem minha opinião, ele deve receber o novo título de
"homem que torna o impossível possível" de Mwu. Se o que vocês contaram que ele não só sobreviveu depois de três tiros no peito mas
também estava consciente e combatendo, ele elevou a condição de milagre à um novo patamar.
- Ele teve tanta sorte assim? – perguntou Kira.
- Não entendeu mesmo, não é? Ele não teve apenas sorte. Ele fez o impossível. Deixe-me conceituar melhor: uma das balas que foi atirada
contra seu peito foi direcionada para a aorta, a veia principal que leva o sangue ao coração. Contudo, a bala desviou no aparelho celular de
Shinn, explodindo a bateria, o que o salvou da morte instantânea. As outras duas balas não acertaram a aorta, mas perfuraram seus pulmões.
Isso faria com que alguém morresse em instantes, aliado aos estilhaços da bala e do celular. A sorte dele acabou aí: de algum modo, Shinn
conseguiu utilizar a Seed em total acordo com suas glândulas supra-renais que inundaram seu sangue com adrenalina. É o primeiro caso que
se tem notícia que a pessoa sobrevive.
- Como assim, Sai? – perguntou interessado, Atthrum.
- Pesquisas mostraram que em pessoas portadoras do gene Seed, as glândulas supra-renais são 32% menores, porque ambas não podem
entrar em funcionamento simultaneamente. Caso isso aconteça, em tese o usuário ficaria mais rápido e mais forte que qualquer outro, mas na
prática, ninguém agüentou mais do que dois segundos antes que o coração explodisse. Literalmente. Shinn é o primeiro caso que se tem
notícia de um usuário ativo e consciente da Seed (que por si só já é uma anormalidade) que utilizou a supra-renais em conjunto e sobreviveu.
- Você acha que Shinn é um outro coordinator definitivo? – quis saber seu amigo.
- Eu acho que ele teve é uma tremenda sorte disso não tê-lo matado. Se querem minha opinião profissional, ele é tão cabeça dura que
esqueceu que deveria morrer e continuou lutando até chegar ao hospital. Nunca vi ninguém com tantos músculos estirados, rompidos e
luxados quanto os dele.
- É... isso parece mais com ele – respondeu Kira, com um sorriso que foi acompanhado por Atthrum Zalla.
"Abra os olhos e encare a sua verdade". Esse foi um dos primeiro pensamentos de Shinn Asuka quando começou a recobrar a consciência
depois da operação. Ele não se lembrava de muita coisa antes... sua mente estava embotada por algo que não lembrava. Fazendo um esforço
hercúleo, o garoto conseguiu descolar suas pálpebras e viu sentada a seu lado, uma figura loira que ressonava levemente na cadeira ao lado
de sua cama. Não conseguiu ver seu semblante, mas havia pensado nela firmemente desde que recebera o tiro. Jamais passaria por tamanha
dor novamente. Sua missão estava cumprida e ela estava ali para ele. Conseguindo mexer o braço, depois de muito esforço, tocou-a
levemente, despertando-a. então ela notou o braço e virou-se para ele.
- Seja bem-vindo, Shinn... nos deixou muito preocupados nessas duas semanas – sussurrou a loira. A mente de Shinn deu um salto. Duas
semanas. Estava aqui há duas semanas? E que tipo de inferno foi reservado para ele que, ao invés de estar com sua família, amigos e ela;
deixaram como cicerone do inferno a Representante de Orb.
Não sabia no quê acreditar. Se estava no inferno, esperava que Dullindal, Djibrill, os Seran ou mesmo Sting e Auel estivessem aqui para
recepcioná-lo. Mas até onde sabia, Attha estava viva. Então isso significava que estava vivo ou apenas que o inferno era ainda pior do que
pensava.
- Shinn, se puder me entender, um dos efeitos colaterais de seus remédios é a sua incapacidade vocal, mas isso é temporário. Pisque uma vez
para sim e duas vezes para não, entendeu? – pediu, recebendo a confirmação com uma piscada – Seu nome é Shinn Asuka e você é um
coordinator. Os coordinators são pessoas... – estava pronta para continuar quando notou que o rapaz rolou os olhos, num claro entendimento
que ela estava bancando a idiota – Ei! Os médicos disseram que você acordaria confuso e que quem estivesse aqui, teria que ajudá-lo à se
lembrar... de qualquer maneira, você veio para Orb para investigar o seqüestro de Kira e Luna, que aconteceu na saída da base militar de
Onogoro, onde a nave estacionou. Você se infiltrou em uma organização chamada Mão Invisível, onde acreditava que estavam os
seqüestrados. Você os encontrou nessa base secreta, mas não sabia onde era a saída e quando estava resgatando-os, recebeu vários tiros.
Por sorte, conseguimos arrancar todos dali – agregou quando os olhos do jovem arregalaram com a lembrança – não se preocupe, Luna está
bem... ela ficou a madrugada inteira com você, apesar de nós estabelecermos turnos entre ela, Murrue, Meyrin e eu – completou ao sentir uma
olhar interrogatório do paciente – Kyla vem sempre que pode, mas com sua promoção, sempre está entre um lugar e outro.
Satisfeito parcialmente com o rumo das coisas, Shinn fechou os olhos longamente como se meditasse essas revelações. Ao abrir os olhos
novamente, pôde sentir um novo interesse da loira por sua pessoa.
- Se conheço você, deve estar se perguntando o porquê de eu estar aqui, certo? – perguntou, recebendo uma piscada como resposta – Eu
causei alguns empecilhos em sua missão. Misturei sentimentos pessoais e deveres oficiais para justificar uma desconfiança de você. E se o
socorro demorou a chegar, também tenho culpa nisso. Portanto foi de consenso geral que eu deveria tomar parte na vigília, sabe porquê? -
perguntou a jovem, recebendo duas piscadelas do jovem coordinator – porque é parte do meu dever como regente de Orb zelar pela saúde e
bem estar de todos os cidadãos. Mesmo aqueles que, como você, não acreditam que eu levo meu trabalho à sério. – completou serenamente –
Quando você puder me responder, conversaremos. O turno de Lunamaria começa em 10 minutos. Durma um pouco e faça uma surpresa para
ela. Será tremendamente romântico se você despertar de um coma para ela – ri suavemente, deixando a sala.
Ao sair, encontra um velho amigo, esperando-a no corredor. A Princesa regente sorri e vai de encontro à ele.
- E então, como foi o seu primeiro contato amigável com um refugiado que prometeu matar Orb, depois de descobrir que ele salvou seu país de
uma instabilidade internacional? – perguntou acidamente.
- Sai, às vezes você é desprezível! – contestou alegre – ajudou muito o fato dele não poder falar e por falar, entende-se gritar, esbravejar e
ofender em duas de cada três palavras. Só espero que ele tenha essa mesma dormência quando puder falar.
- Isso pode ser arranjado. Não se esqueça de que eu sou médico – diz o doutor, que recebe um tapa amigável no braço – Cagalli, porquê não
disse toda a verdade, digo sobre a transfusão? – interessa-se o médico.
- Ele é muito arredio à mim. Se quero conquistar sua confiança, tenho que ir com calma.
- Soa como se fosse um animal selvagem – cutuca o médico.
- Não é muito diferente disso – retruca a loira.
- Pelo que me lembre, você também não.
- O quê disse? – esquadrinhando seu amigo com a mirada, Cagalli tentou ver aonde Sai queria chegar com isso.
- Agir por impulso, esquecer que temos a capacidade de separar razoes e emoções. De sentir um e agir de acordo com o outro. Desse modo,
somos diferentes dos animais que operam sob um instinto pré-determinado. Quem viu você, então com 16 anos agir como quem quer mudar o
mundo, apenas por achar que seu pai era um traidor, não via você muito diferente de um animal agindo por um instinto. Você teve que crescer,
mas a maturidade alcançou você à pouco tempo, certo? De modo que, todos nós somos assim como Shinn e como você, mas maturar significa
mais do que crescer. Significa transcender um estado para entrar em outro.
- Fale a verdade, você só queria dar uma lição de moral, não é? – disse Cagalli, imitando desprezo.
- Essa é a função dos amigos – disse, socando o ombro de sua amiga.
- O quê vocês estão dizendo? – vociferou Shinn Asuka. Segundo o médico, o paciente não podia sofrer estresse, sob risco de seus pontos
abrirem. Contudo o médico também havia dito que demoraria mais alguns dias para que o paciente tivesse suas cordas vocais em condições de
uso. Por isso, Kira e Atthrum acharam que, se conseguissem manter Shinn imóvel na cama, não haveria problema em contar quem havia doado
sangue para ele. Ledo engano. Eles não contavam com a raiva do coordinator e agora suas chances de escaparem ilesos estavam oficialmente
encerradas.
- Shinn, o médico disse que você não pode se mexer. Seus pontos podem abrir e... – o almirante das forças Militares de Orb sequer viu a mão
que o trouxe a altura dos olhos do paciente. Olhos carregados com ira! Definitivamente, deveriam ter contado quando estivessem perto da
porta.
- O que você quis dizer com a frase "... e Cagalli fez uma transfusão de sangue"? – contestou pausadamente o paciente, como que fazendo um
grande esforço para não socar alguém.
- A idéia foi do Kira! – acusou Zalla.
- Ei! Também não foi assim... você estava junto nessa – disse Yamato, retrocedendo á uma distancia segura do leito de hospital – veja bem,
Shinn... o seu sangue não iria aceitar ninguém que não fosse Cagalli. Ela era a única pessoa que possuía a mesma tipagem sanguínea e Rh,
com o Seed entre nós. Se os médicos tivessem colocado um sangue igual ao seu tipo sem a Seed, o resto do seu sangue teria coagulado por
entender o outro sangue como um tipo de organismo invasor e você teria morrido por isso.
- Já pararam para pensar que eu talvez tivesse preferido isso?
- Ora Shinn, sem drama! – calou-se ao ver a veia na testa do garoto crescendo enormemente – tá legal, tá legal. Não falo mais nada – calou-se
o Almirante.
Shinn não estava feliz; se não houvesse o perigo para seus pontos, ele se levantaria e acabaria com a raça dos dois, agora era oficial, ele não
sabia quando. Nem como. Mas sabia o porquê mataria aquelas duas pessoas. Sempre vivera sozinho desde Onogoro. Demorou tempo, mas
conseguiu finalmente estabelecer relações na Academia de Z.A.F.T. Primeiro com o sempre estóico e calado Rey, depois com Luna, Youlan e
Meyrin. Mas depois de muito tempo, apenas Luna permaneceu como parte de sua família e por ela, tinha aceitado a missão. Quando chegou a
hora, aceitou a possibilidade de morrer defendendo-a. Nunca, porém aceitou a possibilidade de receber sangue de uma pessoa como Attha. Ele
fora sincero, meses atrás no parque. Não tinha interesse em voltar para Onogoro, nem na amizade dela, mas se ele ouvisse uma única
cantada de galo da garota, ele passaria com o Destiny por cima daqueles dois.
Nessa hora, Meyrin Hawke fez uma aparição surpresa e aproximando-se da cama hospitalar tirou seu esposo do alcance do paciente, pelas
orelhas.
- Ai, ai, ai, ai, ai. O que eu fiz agora? – perguntou o chefe de família, convertido em vítima.
- Eu lembro de dizer claramente que nada no mundo evitaria que Shinn estourasse seus pontos para bater em vocês – disse, apontando para
a mancha vermelha no lençol imaculado até a pouco – que vocês não deviam exaltá-lo! Mas vocês me ouvem? Não. Além do mais, eu não
esqueci da sua cena de ciúmes semanas atrás.
- Mas amor... foi idéia do Kira – tentou justificar o Almirante.
Meyrin parou seu ataque e virou-se para o coordinator definitivo. Com uma sobrancelha levantada, disse:
- Lacus cuidará dele mais tarde – começou friamente – de você, eu cuido!
- Meyrin-chan... não acha que Lacus anda com muita coisa na cabeça? Para que preocupá-la com este mal entendido – sorria galante, numa
tentativa desesperada de evitar que sua noiva soubesse disso. Ela também fora contra contar ao paciente sobre a transfusão por enquanto.
- Bela tentativa Kira. Mas nem toda mulher cai aos seus encantos. E você mocinho – disse, novamente atacando a orelha de Atthrum –
continuaremos nossa conversinha em casa.
Acompanhando o casal, o capitão Yamato avisou à enfermeira que os pontos do paciente haviam se aberto e que para a segurança de todos,
era uma boa idéia que o sedassem para refazer os pontos. Na saída, encontrou Yzak e Dearkka que observavam uma cena melhor que o pôr-
do-sol: uma jovem esposa com 1,69 metros levar um herói de guerra e Almirante das Forças de Defesa pela orelha.
- Sabe, dá até vontade de realistá-la em Z.A.F.T. como instrutora. Imagine se ela conseguisse fazer uma geração de cadetes temê-la como
Zalla o faz? – gracejou Elsmann.
- Você fala como se fosse muito difícil colocá-lo na linha! Ele é um fraco, com uma sorte absurdamente grande! – disse Joule.
- E o quê você achou da Conferência, Yzak? – perguntou Kira. A conferência de paz havia ocorrido como planejado, pois no dia marcado, o
representante da Federação Atlântica Said Ahmed e seu guarda-costas Louis Pichard juntaram-se aos delegados de Z.A.F.T. e Orb. No final,
nenhuma prova conclusiva sobre novos Móbiles Suits havia sido encontrado de ambos os lados. Uma nota oficial foi emitida pela Presidente
Clyne, negando que tanto PLANT como a Federação Atlântica e Orb estejam fabricando novos Móbiles Suits como divulgado através da rede.
Um comunicado à imprensa da Representante Attha de Orb condenou as notícias infundadas, reiterando que o objetivo dessa geração de
habitantes era a paz duradoura.
- Ahmed pode ser um sobrevivente da Dominion, mas há alguma coisa que não me cheira bem nele! – respondeu Yzak – Se eu acreditasse em
premonições, ficaria com um olho nesse homem.
- Shinn... você devia ficar de repouso... isso não tem nada a ver com eu ficar deitada com você – disse Luna, evidentemente feliz, mas
lembrando-se da condição de seu namorado.
- Ter você aqui do meu lado é meu melhor remédio, Luna – respondeu, enquanto beijava sensualmente o pescoço da garota, que ronronou
inconscientemente.
- Ara, ara... incomodamos? – disse uma voz na porta e toda a velocidade de Luna em levantar-se e alisar sua roupa não passou despercebido
por Lacus, com um ramalhete de rosas, acompanhada de Kira e o casal Flaga, que entraram em seguida, mas fizeram barreira para o casal
Zalla e a Princesa de Orb.
- Imagine, Lacus-san – disse a garota, dando uma leve cotovelada em seu namorado, que grunhiu de dor – desculpe, Shinn. Me esqueci de
suas costelas – sorriu apenada.
Todos olharam a cara envergonhada da jovem e a cara iracunda do rapaz e souberam naquele minuto, que interrompiam algo. Após colocarem
as rosas em um vaso, Lacus arrastou Lunamaria junto com Meyrin, Murrue e Cagalli para um café, deixando Mwu, Kira e Atthrum conversando
com o paciente.
Enquanto esperavam o lanche, Lunamaria estava contando para as outras sobre as mudanças que o relacionamento deles tinha sofrido desde
que Shinn despertara, há 3 dias.
- Honestamente, o jeito como ele me olha às vezes... eu sinto que podia pegar fogo à qualquer minuto – comenta corada.
- Ele teve muito tempo para pensar nisso, com você sumida – disse sua irmã – além do mais, eu meio que tenho uma culpa no cartório –
contou, culpada.
- Como assim, Mey? – levantou uma sobrancelha, a mais velha, numa clara demonstração de que queria que ela continuasse.
- Quando ele me contou que vocês foram seqüestrados, eu meio que falei algumas coisas sem pensar – tentou tirar a importância do assunto.
- Coisas como, onee-san? – continuou a garota.
- Eu talvez tenha dito que você merecia mais do que um meio homem, que não é capaz de esquecer o passado – entregou, esperando a
morte.
- Você o quê?! – gritou a garota de cabelos curtos – tem noção do quanto ele sofreu com aquela história do Destroy? – soltou. Ela já havia
passado pela fase de ciúmes de Stellar, mas entendia os sentimentos de Shinn por ela, tanto quanto possível. Foi necessária a intervenção de
Cagalli para evitar um fratricídio.
- Sinto discordar de Meyrin, mas não acho que seja isso. Ele estava completamente resoluto em não pisar mais em Onogoro. No entanto, veio
até aqui e enfrentou muitos de seus problemas apenas para lhe salvar – disse a loira.
- Concordo com Cagalli-chan. depois de contar para ele sobre seu desaparecimento, a única coisa que ele disse foi "quando eu parto". Você
tem tanto espaço no coração dele quanto ele no seu. Ele arriscou a vida por você, da mesma forma que você arriscou a vida por ele ao escudá-
lo com seu corpo – disse Lacus.
- Foi romântico e aterrador ao mesmo tempo – disse Murrue – O importante é que vocês estão bem e essa mudança foi sem sombra de dúvida
para melhor.
- É mas... os médicos ainda não falaram nada para ele das seqüelas. Eu não sei como ele vai aceitar isso... na verdade, eu tenho medo que ele
caia em depressão ao perceber que ficará dependente de uma bengala.
- Se acontecer algo com ele, o que você fará? – perguntou serenamente, Lacus.
- Ficarei com ele, até o fim. – respondeu como se nunca tivesse pensado outra coisa.
- Então ele será feliz – respondeu com um sorriso, a presidente de PLANT.
No quarto, os jovens conversavam amenidades, até que o Falcão de Edinmion resolveu acertar as contas com o enfermo.
- Durante a batalha final do Gênesis, eu interceptei um disparo do canhão principal da Dominion, que destruiria a Archangel. Depois da primeira
guerra, uma nave com alguns sobreviventes da Aliança me encontrou e fizeram lavagem cerebral. Deixei de ser Mwu La Flaga para me tornar
Neo Roanoke, comandante da Phantom Pain e líder do esquadrão Extended da Aliança que roubou os Móbiles Suits Gaya, Abbys e Chaos do
Armory 1. Quando você me trouxe Stellar, eu havia prometido colocá-la em segurança, mas havia o problema do medicamento à que eles eram
condicionados para obedecerem a ordens. Sem esse medicamento, eles morreriam. Eu já tinha antes tentado, sem sucesso, retirar o
medicamento. E como Djibrill controlava a distribuição do medicamento entre os Extended, o máximo que pude foi colocar Stellar no lugar mais
seguro que encontrei. Se não podia tirar ela da batalha, que ela ficasse no lugar mais seguro. A grande ironia disso é que o Destroy era uma
grande bravata. Se nenhum Móbile Suit atirasse contra ele, ele passaria por cima da Eurásia até Carpentaria, onde se daria a luta. Mas ao
atirarem nele, isso enfureceu Stellar que retaliou e o resto você sabe. Naquele dia, fui abatido, preso e levado para o interior da Archangel,
onde o amor e o tratamento de Murrue começou a despertar memórias. E quando eles me libertaram nas vésperas da batalha de Onogoro e
eu subi em um Ski Grasper novamente, me lembrei de parte de quem eu era e atuei como Mwu La Flaga novamente. No fim da guerra, fui
tratado como membro da Facção Clyne em um hospital de PLANT, onde recuperei o resto da memória.
Shinn ficou pensando sobre o relato do homem. Parecia muito improvável, mas não era impossível que uma facção que fez lavagem cerebral em
crianças para chegar aos extended, fizesse lavagem cerebral em um homem adulto. Decidiu aproveitar a boa chance que teve e dar as coisas
por encerradas.
- Flaga... deixemos o passado para trás, mas se me chamar de garoto de novo, quebrarei seu braço em tantas partes, que precisará de uma
tala para segurar um copo – disse presumido.
- Que bom, Shinn. Attrhum e eu sabíamos que você entenderia as coisas.
- Ainda quero a cabeça de vocês pela transfusão.
- Será que não pode estender sua compaixão para mais alguém? – disse Lacus, entrando no quarto e empurrando uma figura loira à frente.
Todos sentiram a tensão no ar. Sabiam que esta confrontação deveria vir e que se esperassem algo diferente do que o clima que aparentou
era impossível. Quando a loira ia começar a falar, o impaciente Asuka contra-atacou:
- Se falar alguma coisa sobre a transfusão, morre. Antes de Zalla. Antes de Yamato. Assim que puder levantar dessa cama!!
- Até parece que eu tenho medo de você! – rugiu a garota.
- Deveria ter, porque até onde me lembro, foi Yamato que salvou sua pele, da última vez que brincamos à sério!
- Shinn Asuka!! – começou Lunamaria – Eu não acredito que você é tão infantil a ponto de começar a brigar com quem não quer brigar com
você! A única coisa que você quer é não escutar o lado de Cagalli-sama e continuar com seu joguinho de "eu odeio Orb". Pois preste
atenção, é melhor você calar a boca antes que eu meta mais uma bala em seu corpo!
- Jesus amado – sussurrou Kira para Mwu – agora eu sei porquê Meyrin traz Atthrum sob cabresto. É de família – comenta, recebendo um pisão
no pé, de Lacus.
- E ainda fala de mim – comenta Meyrin com Murrue.
- Desculpe – pede Shinn, completamente sem palavras. Tinha consciência que sua namorada estava certa. Sabia que ela lhe conhecia bem,
mas não precisava conhecê-lo tanto.
- Como eu estava tentando dizer – começou a Princesa – desde que eu te conheci, sua raiva contra Orb e meu pai me tiraram o sono. Como
Atthrum disse certa vez, você não conseguiria ver através de sua perda. O problema foi que eu nunca percebi que eu também não o fiz. Eu me
enterrei em uma montanha de responsabilidades e esqueci a mulher Cagalli, a humana Cagalli. Depois que a guerra acabou, nos encontramos
no parque na madrugada do casamento de Meyrin e Atthrum e eu vi você enumerar suas perdas. Conversamos civilizadamente pela primeira
vez em anos, mas quando ofereci minha amizade, você a rechaçou. Fiquei magoada, claro, mas pelo menos você foi sincero em suas palavras e
suas intenções de não voltar à Orb. E confesso que fiquei aliviada, pois você era um elemento complicador na equação chamada Orb. Quando
vi você aqui, conversando com Miriália, não pude parar de me perguntar o porquê você estaria aqui, quando não deveria estar, pois não estava
na lista da Equilibrium. Conhecendo seu gênio – Shinn tentou interrompê-la, mas foi silenciado por um olhar de sua namorada – sabia que você
seria fiel à sua promessa de não voltar. E se você estivesse disposto à quebrá-la seria por um grande motivo. E ninguém me apresentou um
motivo suficientemente plausível. Uns disseram que você pediu baixa, outros disseram que você viera tratar de um espólio de família. – disse
tomando ar.
- Daí, eu resolvi investigar você com o serviço secreto, mas as coisas saíram do controle. Os rapazes acabaram descontando em você e mais
uma vez você desconfiou de mim e não acreditou em minha amizade. Depois eu liguei para Lacus, que disse que Kira estava desaparecido. Não
incomunicável, desaparecido... e eu, uma vez mais, desconfiei de você e de Kyla, sua irmã. E mandei o serviço secreto prender você. O quê eu
não sabia é que meu gabinete estava grampeado, pois Mandy, minha secretária estava sendo chantageada por algumas pessoas que a
obrigaram a passar informações e, desse modo, os membros da Mão Invisível souberam do plano de prender você e resolveram te resgatar.
Depois que Atthrum finalmente explicou a natureza de seu plano e Kyla me abriu os olhos para a tola que eu tenho sido através dos anos,
preparamos a equipe de reforços, mas o serviço secreto achou por bem destruir o aparelho que você construiu sob suspeita de ser uma
bomba, procedimento padrão. Só nos restou pedir ajuda à Yzak que estava na Equilibrium esperando a conferência e Youlan que sabia a
freqüência de seu rastreador S.I.A.I. Com isso, acabamos por atrasar o apoio e por isso, você teve que fazer o resgate sozinho. Seus
ferimentos são uma conseqüência da minha presunção e meus preconceitos em relação a você e eu sinto muito por isso – termina a loura, com
a cabeça levemente arqueada, em sinal de humildade. Após um minuto de absorção do relato, Shinn resolveu falar.
- Você realmente acha que um "sinto muito" iguala as coisas?! Ao não me dar o benefício da dúvida e mandar me prender, os caras que
resolveram me resgatar, abalroaram o carro com um caminhão de lixo, mulher! Quase arrancaram minha cabeça nessa batida! Se eu tivesse
entrado pela porta da frente, com uma pessoa monitorando o radar, vocês saberiam onde ficaria a entrada e vidas poderiam ser salvas. A idéia
era fazer uma operação furtiva! Não começar uma guerra mundial! Isso sem falar que a situação da Mão Invisível só chegou ao ponto que
chegou porque você não conseguiu ser uma Representante ligada às necessidades de seu povo. Pelo amor de Deus! Eu fiquei uma única
semana em Onogoro e aprendi mais sobre o povo e refugiados que metade de seu gabinete! Concordo que você não deve ignorar suas
necessidades físicas, emocionais e espirituais; só eu sei o que acontece quando você varre tudo para debaixo do tapete, mas se não dá para
estar ali todo o tempo, arrume gente de confiança! Não ministros, não políticos, gente de sua confiança integra e intransferível e mande-os
circular entre as pessoas! E não retiro o que disse há 3 anos. Se você causar uma guerra contra PLANT, serei eu que destruirei Orb!
Direto, denso, pesado e cruel! Nada que não esperassem de Shinn Asuka. Em sua sinceridade, falara coisas acertadas e outras que seriam
motivos para autocrítica da loira por um bom tempo. Realmente, o perdão não era universal, pensou Cagalli amargamente quando saia. Nesse
instante, foi parada por uma voz.
- Attha... existe uma família, os Lehnman. O chefe da família, John, está desempregado e não tinham onde morar, por isso eu dei minha antiga
casa para eles. Se você cuidar para que eles tenham uma vida segura e feliz, nossos problemas estão quites.
- Shinn... – começou a censurá-lo, Atthrum, mas foi parado por um sinal da Representante.
- Se eu fizer melhor, quero dizer: se ao invés de cuidar apenas deles, cuidar que todos os refugiados possuam mais oportunidades de
recomeçar a vida, nosso acordo estaria de pé? – perguntou esperançada.
- O país é seu, Attha. Faça do jeito que achar melhor – respondeu Shinn, dando de ombros. Isso não era claro, tão tortuoso quanto os
sentimentos adolescentes de Shinn, em relação às pessoas, mas eles haviam chegado á um consenso.
- Isso é um começo de uma amizade? – perguntou Cagalli.
- Não força a barra, Attha. Isso significa que não somos estranhos, apenas – sentenciou Shinn. Após meditar um pouco, teve um estalo mental
– agora, que tal me dizer que história é essa de Kyla ser minha irmã? – perguntou inquisitorialmente. E todos sabiam que essa seria uma longa
tarde.
Kyla Stwart estava literalmente em pânico naquele momento. Não que sua vida fosse um mar de rosas, mas tinha sofrido muitas reviravoltas
no espaço de um mês. Culpa dele... de seu irmão. Saber disso foi um choque, não só pela notícia, mas também pelo modo como veio. Ela sabia
que fora fruto de um relacionamento antigo de sua mãe e ela havia, por vontade própria, cortado qualquer tentativa de conhecer o pai
biológico, por acreditar que assim, estaria atentando contra a soberania de seu pai de coração. Embora o tenha visto rapidamente, uma crise
de choro impediu qualquer tentativa de conversa e então, veio a guerra. De certa forma, os acontecimentos da guerra foram um alívio para a
garota por um tempo, pois ninguém tinha muito tempo para pensar nessas coisas.
Agora sua chefe ligara para seu celular e com a frase: "Shinn espera uma visita sua" fazia seu mundo dar mais uma volta. Pensando nisso,
pegou o caminho mais longo ao hospital, passando por toda Onogoro, e em especial, pelo apartamento que dividira com Sai Argile. Não
importava se não estivessem mais juntos, ele sempre seria seu cavaleiro em armadura brilhante. Ele a salvara de tantas formas que ela nem
tinha certeza quantas e era sua referencia de porto seguro, independente de estarem juntos ou não. Mas agora, ela tinha família. Será que
tinha? Como Shinn estaria encarando isso? Pensando nisso, Kyla parou na porta do quarto de Shinn. Para azar da garota, ela não passou
despercebida.
Surgindo de trás da garota, Cagalli e Sai, cada um, pegando-a pelo braço, obrigando-a a entrar. Apesar da princesa ter largado a garota em
pouco tempo, o médico demorou um pouco mais para fazê-lo. Infelizmente tudo isso passou batido, pois o paciente só tinha olhos para sua
namorada.
- Ei vocês, arrumem um quarto – brincou Sai, pegando os dois de surpresa.
- E o quê é isso aqui?! – respondeu o paciente de má vontade. Notando uma presença não usual, Shinn cumprimentou-a – Olá Kyla, é bom vê-
la de novo.
- Olá Shinn – sorriu sem jeito, a garota. Cagalli pegou Luna e levou-a até a cafeteria. Aproveitando a folga dos cuidados de sua namorada, o
paciente perguntou ao médico.
- Sai, como vai minha recuperação? Quais os efeitos permanentes?
- Do quê você está falando?
- Eu tomei 3 tiros no peito, mais um no braço, dois na perna e um no estômago. Quais as chances de não ter tido uma seqüela? É só uma
questão de pensar um pouco.
- Lunamaria pediu para não falar sobre isso por enquanto – respondeu o médico.
- Luna não é o paciente. Ela provavelmente acha que eu entrarei em depressão caso saiba que vou ficar com seqüelas, mas para mim, mais
importante que as seqüelas é ela estar aqui comigo. Segura! Anda logo, doutor: quais as seqüelas?
- Você sofreu duas paradas cardíacas durante a operação de retirada das balas. Como você estava dopado, não pudemos constatar um
derrame muscular em sua perna esquerda. Por essa razão você precisará, provavelmente, de uma bengala pelo resto da vida e poderá ter
algumas dores por conta disto. Além disso, você teve um pouco do estômago comprometido, e por isso, não poderá pegar um restaurante
"coma o quanto puder" por um ano. No mais você estará tão saudável ao sair, quanto da primeira vez que entrou aqui, mas com sua mão
intacta – completou.
Após o relato médico, Shinn soltou um suspiro há muito contido. Uma bengala. Não era tão ruim quanto poderia, mas ele continuaria pilotando
seu Destiny? Sentia-se ligado ao Móbile Suit por uma corrente invisível, precisava dele para poder proteger aqueles que não poderiam fazê-lo
por si próprio. Eles precisavam de proteção e Destiny estaria lá. Com ou sem dores, ele pilotaria o novo Destiny novamente.
- Shinn? – perguntou Kyla – Você está bem com isso?
- Não se preocupe, não é como se eu estivesse morto. Além do mais, um probleminha desses não me abateria.
- Por um segundo, pensei que você ficaria frustrado com isso, quero dizer, usar uma bengala depois de vida tão intensa quanto à que você
teve. Mas isso não parece acontecer.
- Eu entendo o que você quer dizer, mas isso não era empecilho para ajudar as pessoas. O piloto do Destiny ainda voará para ajudar pessoas.
Ainda lutará sua batalha definitiva e voltará voando para sua amada. É assim que me sinto.
- Compreendo. Shinn, temos que conversar sobre o relatório que Cagalli me mostrou. Eu acredito que você gostaria de algumas respostas,
mas eu não sei como começar... – confessou a garota.
- Que tal começarmos pelo começo? Boa tarde, eu sou o tenente Shinn Asuka, do corpo militar de Z.A.F.T. – disse, saudando-a militarmente.
- Eu sou a soldado Kyla Stwart, membro do Corpo de boas-vindas ao recém-chegado de Orb e secretária da Representante Attha.
- Attha? Ela lhe contratou como sua secretária?
- Sim, eu e ela tivemos uma longa conversa sobre suas responsabilidades diferentes para os diferentes papeis que uma pessoa encontra
durante a vida. E como ela soube da traição de sua secretária, acabou me contratando. Eu continuo com as minhas funções no Corpo, mas
ganho melhor e tenho uma chance mais efetiva de ver as causas e efeitos da posição que o governo tem em relação aos refugiados.
- Nossa! Estou orgulhoso de você!
- Obrigado! É muito trabalho, mas vale a pena. Eu tenho uma carta e acho que você deveria ter algumas explicações. Enquanto você estava em
coma, eu procurei em minhas coisas por algo que explicasse, confirmando ou desmentindo o relatório de Cagalli. Mas, ao invés disso, encontrei
essa carta de minha mãe.
Shinn retirou a carta, com cuidado. Sabia que isso poderia ser valioso para ela tanto quanto o telefone e Mayu fora para ele. Fora tão valioso
que acabara por salvá-lo da morte.
Kyla
Meu anjo, se estiver lendo isso provavelmente estarei morta. A guerra que se aproxima pode mudar muita coisa, mas jamais mudarão o amor que
sinto por você. Lembre-se de sorrir sempre. Procure ser feliz, criativa, alegre, plena. É assim que quero pensar em você: como a garota de energia
inesgotável que me enche de orgulho.
Se eu não estiver aqui, eu gostaria que você procurasse pela família Asuka. Eles tomarão conta de você. Sei que isso deverá ser um pouco difícil para
você, mas Shinno Asuka é o nome do homem que apresentei à você aquele dia. É o nome de seu pai biológico.
Conheci Shinno na academia, aos 14 anos. Éramos colegas de sala e acabamos com um trabalho em que tínhamos que criar um ovo até ele eclodir.
Bom, o ovo germinou e nós nos apaixonamos. Sei que quando você for uma adulta isso vai parecer um clichê, mas os clichês são verdades que sempre
se repetem. Shinno e eu ficamos juntos até os 20 anos, quando eu saí de Orb para um trabalho na Alemanha; nosso fim foi difícil e por isso decidimos
que não manteríamos contato. Contudo, eu não sabia que ele tinha me dado um último presente: você. Acredite: Shinno jamais me deixaria ir se
soubesse que eu estava grávida. Nem eu partiria tampouco. Mas agora não dava para mudar as coisas e resolvi cuidar de você sozinha. Seria duro,
mas eu conseguiria. Foi quando eu conheci um jovem garçom chamado Claude Stwart; no começo ele era uma das muitas pessoas com quem
compartilhava meus dias, depois começamos a apresentar afinidades comuns. Logos, nos tornamos amigos, bons amigos e finalmente, saímos juntos
um dia, quase de farra. Ele sabia de minha gravidez, mas nunca se importou com isso. Sempre me disse que se gostasse de mim, gostaria também de
meu filho.
Ele tinha razão, vocês se deram tão bem que jamais deixaram de se considerar como pai e filha e em verdade vocês eram, se não em carne e sangue,
em alma e coração. Por isso, ele não ficou abalado quando voltamos a viver em Orb, ele confiava em seu amor por você. E por isso, resolvi procurar
Shinno. Logo soube que ele estava casado e era um bom pai de duas crianças lindas. Como esperado, ele não aceitou bem a notícia que era pai de uma
adolescente que jamais havia visto. Para evitar má interpretações, fiz questão de conversar com sua esposa e explicar minha situação para eles. Ele
quis te conhecer, mas teimosa como só você é, não encarou a situação de um modo bom para ninguém. Acho que você ficou com medo de não ser
bem interpretado, por Claude. Por isso Claude e Shinno conversaram durante muito tempo, e decidimos dar um tempo para que você se acostumasse
com a idéia. Mas o tempo não pára e seu pai nos deixou em um acidente de carro. Sofremos juntas, choramos juntas, mas como sua mãe, meu dever
é procurar zelar por você e seu bem-estar. Se eu não puder fazê-lo, conto com Shinno e Mayurion Asuka. Seja boa com eles e lembre-se: que nós te
amamos e onde quer que estejamos, estaremos presentes em cada sorriso, cada suspiro, cada mostra de vida que você der por toda sua vida.
Para sempre,
Ann Stwart (com muito orgulho).
Isso explicava as coisas, realmente. Agora tinham confirmado a conexão entre eles. Isso acertava as coisas. Ou não?
- Shinn, o quê você acha disso? – perguntou Kyla.
- Eu sempre pensei em meu pai como um pai comum. Não imaginei que tivesse um passado, nem nada. Saber disso me torna mais próximo de
Shinno do que nunca. E quanto à você, Kyla?
- Não sei o que pensar. Eu nunca tive muito e o que tive sempre fora dividido com outros. Agora eu tenho algo que nunca tive, um irmão. Ou
meio-irmão. Sei lá. E eu não sei como me sentir em relação à isso.
Shinn olhou para a garota, com simpatia ainda maior do que antes. Mas não sabia o quê sentir também em relação à isso. Mayu morrera diante
de seus olhos, junto com seus pais. Mas agora parecia que o destino lhe dera uma oportunidade para ser um irmão melhor. Destino... como
seu Móbile Suit. Foi então que ouviu em sua mente, a voz de seu pai: "cuide bem de sua irmã, Shinn". E então ele sabia o que fazer.
- Kyla... neste momento, você é uma mulher feita, com um futuro promissor e um médico possivelmente apaixonado por você – disse, vendo a
cara de assustada da moça – Você quer um irmão agora?
- Shinn... eu não sei... não sei se vou me acostumar com isso, um dia.
- Então, não sejamos irmãos. Sejamos amigos até que possamos nos encontrar e conversar sobre isso sem o impacto da coisa toda. Que tal?
- Uau! Parece muito sábio para alguém que pode ser meu irmãozinho – disse aliviada, a jovem psicóloga.
- Eu tenho meus momentos. Agora é melhor eu ter uma conversinha de homem para homem com o doutor Argile. Sabe como é, se vou ter que
bancar o irmão menor, vou aproveitar e pedir algumas regalias aqui com a comida.
- Você é terrível, Shinn – disse envergonhada.
- Foi você que começou.
A calma da cena fraternal foi interrompida por uma gritaria generalizada, seguida por alguns disparos de arma de fogo. A primeira reação do
tenente foi levantar-se para averiguar a ocorrência, mas sua perna não respondeu tão bem quanto estava acostumado e este caiu no chão.
Coube a Kyla ajudá-lo a se levantar e investigar o ocorrido e, quando se preparava para sair, uma dezena de enfermeiras e médicas, invadiu o
quarto em busca de abrigo. Após acalmar as mulheres e solicitar reforço, a garota acabou sendo sedada a pedido do irmão, para que não se
colocasse sob risco. A equipe da polícia cuidaria disto.
Contudo, a visita surpresa de seu oficial comandante criou um clima tenso no local.
- Shinn... é Phistopolles. Está vivo e pegou Cagalli como refém... ele exige sua presença em até 20 minutos ou a matará.
Como sempre, mais um capítulo postado com uma certa dose de atraso, já que estou postando na madrugada de quinta-feira e não na noite de quarta
como costumo fazer.
Milagorsamente decidi dar uma olhada na folhinha e descobri que faltam exatamente 7 dias para o natal agora. Isso é bom, pois mais um ano chegou
ao fim; e ruim, porque se eu tiver que postar na noite de 24 de dezembro, será o pior natal ficwritter da minha vida. e vocês terão que esperar até o dia
26 para o mundo voltar ao normal para lerem o último capítulo da história. Sacanagem comigo e com vocês...
Para evitar isso, a fic se encerrará na madrugada do sábado. Sem falta!! E dessa vez é de verdade. Considerem um presente de natal (bem pobrinho)
da minha parte. e fiquem ligados à minha nova empreitada.
Como disse semana passada, eu tenho um projeto que adoraria discutir com vocês: a trilogia do maldito; nada mais é que uma tentativa de oferecer
uma visão diferente do Shinn que a maioria dos fãs de Gundam têm dele. Cansei das fics onde ele pira, morre ou não tem o devido valor reconhecido
só porque não desertou para o lado da Archangel. Especialmente porque a situação dele era completamente diferente de Kira ou Atthrum na história.
Gundam Seed & Destiny se trata não só da sequência de Gundam Seed, mas dos frutos da guerra: a geração que perde tudo na guerra e é forçada a
começar do zero, muitas vezes se nenhum amparo. Especialmente os orfãos. Nessa situação, Shinn age como um refugiado que, se levarmos em
conta o que acontecem em nossos conflitos atuais, vemos que ele não é tão diferente de qualquer refugiado de guerra ou orfão que possamos
encontrar na vida e o fato de sua lealdade à Plant e à Z.A.F.T. equivale à gratidão por quem deu-lhe a mão em sua hora mais negra. Esse é o modo de
compartilhar minha visão de Shinn com o mundo: a trilogia do maldito ( embora com esse nome, deveria ser uma homenagem ao Yzak, rs).
Após essa fic, postarei um One-shot e pretendo encerrar minha humilde participação temporariamente no Universo Gundam om uma terceira história
que ainda está sendo escrita, mas que será uma fic de, no máximo, 6 capítulos.
Então se virem uma fic do Fan Surfer, já sabem: tem Shinn... Destiny... ou uma pitada de humor ácido deste que vos escreve.
Danizinha
Pois é minha flor, a história está chegando ao fim e sempre pude contar com voccê para me incentivar e dar idéias. Espero poder contar com seu apoio
neste emocionante fim e em minhas outras histórias. acredito que elas serão meio... controversas... para dizer o mínimo e, se alguns fãs de GSD
resolverem me pegar na esquina com tochas, ancinhos e forcados (sério, preciso parar de ver filmes de terror antigos) conto com sua ajuda para falar
coisas bonitas no meu funeral, rsrsrs.
Como você percebeu, o amadurecimento é uma coisa que vem com o tempo para todos e é disso que essa fic trata, do amadurecimento de Shin.
Também admito que muitas vezes aquela posição de ódio do mundo enchia o meu saco, como de todo mundo que viu o anime, mas entre os 3
elementos principais da historia, ele é o que ficou em pior situação: era o mais novo, estava em um lugar onde parecia que a guerra não o atingiria e
perdeu toda a família em um único golpe. Não dá para ficar bem sendo adolescente e orfão, sem figura aprobatória, motivo pelo qual Dullindal pôde
utilizar sua necessidade de aprovação. Kira sempre teve Caridad ao seu lado e Atthrum teve Patrick Zalla que, se não foi um pai modelo, pelo menos
serviu para o papel de estopim da rebeldia do filho. Por isso, acredito que na continuação da série no tão falado filme, talvez vejamos Shinn pelnsando
por si próprio.
Quanto à sua opinião sobre Atthurm e Cagalli, eu comento no final do próximo capítulo. Sim, sou mau!!
Nos Lemos,
Fan Surfer
