Elliot Stabler era um homem previsível.
"Imagine que você a ama desesperadamente."
As coisas em sua vida costumavam seguir um padrão.
"Você a ama. Você precisa dela. Quando ela não está por perto você... você não se sente vivo o suficiente. Não se sente completo. Tudo o que você mais quer é sentir...", o homem no chão gemeu de dor, passou a mão pela testa suada e tudo o que conseguiu foi deixar o rosto ainda mais vermelho, mas sua ânsia de falar era tanta que mesmo visivelmente sem forças ele se obrigou a continuar: "Simplesmente tocá-la. Tocar seu rosto com os dedos e... e dizer o quanto a ama. Dizer..." então, suas forças o abandonaram por completo e o ele fechou os olhos, suavemente, como se estivesse apenas adormecendo - numa poça de seu próprio sangue. Deitado a seu lado, porque o espaço era pequeno demais, Elliot precisava mantê-lo acordado até que a ambulância chegasse.
"Nada justifica um crime. Nada" - incluindo o fato de ter a mulher de sua vida estuprada e morta. Nem mesmo aquilo justificava a vingança no melhor estilo 'olho por olho' que Scott Saddler havia cometido.
Saddler abriu os olhos, deu um sorriso cínico, e continuou:
"Imagine que por algum motivo, preguiça, covardia, talvez, você nunca tenha dado o primeiro passo. Deixa pra depois. Não quer estragar as coisas. Não quer arriscar. Sabe o que quero dizer?"
"Hm."
"Ela nunca soube. Então, de repente, ela não está mais lá. Está morta. Por que... porque... um filho-da-mãe..."
O homem gemeu outra vez e Elliot, com esforço por causa do tiro que havia levado no ombro direito, tirou seu próprio sobretudo e o dobrou, colocando-o debaixo da cabeça do homem.
"Você já perdeu alguém que ama?"
Elliot hesitou um pouco antes de responder o correto, qualquer coisa sobre Kathy, sua esposa, duas vezes. Pensou consigo mesmo que a segunda havia sido mais arriscada, era fato, mas a primeira, talvez, tivesse sido mais dolorida. Porque até então ele a amava incondicionalmente e acreditava, ainda, que pudessem ter um casamento sólido e duradouro - exatamente o que ele havia se prometido ao ver o casamento de seus próprios pais desmoronar.
"Imagine então que você nunca confessou a ela."
Elliot preferiu não comentar.
"Você fica pensando no que poderia ter dito. Que poderia ter feito ela feliz. Em tudo... tudo...", o homem tossiu e cuspiu mais sangue. "Dor. Imagine sentir isso todos os dias, até o fim da sua vida. Arrependimento. A culpa, te assombrando até o fim."
Elliot começou a dizer qualquer coisa genérica sobre a dor passar com o tempo e o tratamento certo. Mas Saddler se aproveitou da distração e do braço imobilizado do detetive e alcançou o revólver, e ainda disse, "espero que nunca sinta", antes de puxar o gatilho e atirar contra a própria cabeça.
Uma das piores coisas naquele trabalho era perder uma vida quando se deveria está-las salvando.
As conseqüências eram culpa, sensação de impotência, incompetência, frustração e raiva. Mas o que mais o vinha perturbando desde então não era nenhum desses sentimentos - estranhamente, nem mesmo tanta raiva Elliot sentia. Da mesma forma, o que mais o havia marcado não era o sangue do homem em suas roupas. Mas a dor e o arrependimento em seus olhos. A tragédia que havia sido sua vida. E suas palavras.
É, ele conhecia aquele padrão, conhecia bem demais. Uma palavra na hora certa, e então, ele abria os olhos para o que realmente era importante em sua vida.
Mas agora, ele não correu pra casa como sempre tinha feito. Antes de qualquer coisa, precisava parar e pensar e recolocar tudo em seu lugar. Era perigoso até mesmo confessar para si mesmo que as coisas em sua mente estavam bagunçadas. Fora do lugar. Assim como era perigoso tentar seguir a lógica: Imagine então que você nunca confessou a ela. Não quer estragar as coisas. Assumir a desordem em seus pensamentos assim como a lógica, na qual Kathy não se encaixava, era assumir que... droga, não. Não havia nada para se assumir ali, o que é que estava acontecendo com ele?
Era claro que havia sido em Kathy que ele pensara. Ela era sua mulher, mãe de seus filhos e aquela que ele amava. Perdê-la havia doído, havia-o destruído. Quanto àquilo, Elliot estava certo. Ele respirou aliviado. É. Tudo de volta a seu lugar - desde que ele ignorasse certas palavras.
Mas se Scott Saddler jamais as havia dito, por que ele estava tão abalado?
E se ele a perdesse?
A possibilidade o atingiu de repente e a angústia que tomou conta dele foi mais forte do que qualquer tentativa de mascarar o que havia sentido, em quem havia realmente pensado. Ele segurou com tanta força a borda da mesa que os nós dos dedos empalideceram. Não apenas o 'nunca mais', mas também, 'o que poderia ter sido'. Elliot jamais havia analisado as coisas daquela forma, porque o tempo todo estava gastando suas energias em 'fingir que não existia'.
Se não existia, porque, outra vez, ele estava tão abalado?
Sem pensar no que fazia, seus olhos se voltaram para ela. Ele estremeceu ao se dar conta de como era grande e poderoso o que passara tanto tempo fingido não existir. Ofegou ao imaginar se repetindo para sempre aquele momento quando pensou que ela estava morta, anos atrás. Ele sabia exatamente o que Saddler havia sentido porque tinha sido exatamente o que ele mesmo sentiu naquele dia. Durou apenas alguns segundos, e ele sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés e o arrependimento o esmagar. E agora, ele sabia como era conviver com aquela culpa para o resto da vida. Ela estava ali, bem na sua frente, agora, viva, embora imóvel, a cabeça inclinada para baixo enquanto terminava seu relatório. Uma ruguinha de concentração entre as sobrancelhas. Colocando e recolocando para trás da orelha o cabelo liso e escuro que teimava em cair em seu rosto. Usando o mesmo pingente que usava há anos e o qual ele não fazia a menor idéia do que significava, quem havia dado a ela. Uma xícara de café frio esquecida na mesa.
Então, ela ergueu de repente os olhos escuros e o encarou, sem piscar, sem dizer uma única palavra. Ele podia dizer, não podia? Podia fazer diferente. Podia abrir a boca naquele instante. Fazê-la feliz. Outro sentimento que ele vinha lutando para ignorar era o dela. E era tão óbvio, ainda mais que o dele mesmo.
Talvez Olivia não mentisse para si mesma.
Ela baixou os olhos de volta para o relatório. O trabalho. A segunda razão porque ele jamais tentara ou tentaria coisa alguma. Ela era a melhor parceira ou parceiro que ele já havia tido. Talvez... talvez fosse a melhor pessoa que já tivesse tido por perto, mas Elliot havia voltado ao padrão do 'não pensar', sempre aquele padrão. Ele não queria ter de confrontar uma escolha outra vez. Não queria ter de se obrigado a encarar à força a escolha que faria - ele tinha um palpite muito bom de qual seria... e aquilo não era o ideal numa relação de trabalho; se ele assumisse, teriam de dar um jeito, teriam de se separar e ele... ele não se sentia completo o suficiente quando ela não estava por perto. Não. Ele respirou fundo enquanto lutava para recolocar tudo em seu devido lugar. Trabalho. Parceira de trabalho. Esposa. Talvez estivesse finalmente na hora de ir pra casa. Elliot ficou de pé e apanhou o sobretudo nas costas da cadeira. Resolveu que era em Kathy, sim, apenas nela que havia pensado, porque a estava perdendo pela terceira vez, porque as coisas entre eles estavam piores do que nunca mas ele ia lutar. Com mais comprometimento do que nunca. Olivia era... era apenas alguém com quem compartilhava o objetivo comum de ver a lei ser cumprida. Seus passos o levaram em direção à porta.
Mas e se ele a perdesse?
Sem nunca dizer a ela?
O arrependimento outra vez o esmagando como um soco na boca do estômago, expulsando todo o ar de seu corpo, fazendo-o perder o equilíbrio.
"Liv", ele ofegou e se voltou rapidamente para ela.
"O quê?", ela perguntou, erguendo os olhos para ele outra vez.
Kahty, Kathy, Kathy.
Suas próprias promessas a si mesmo de fazer diferente de seus pais.
O trabalho.
"Nada", ele respondeu.
Ela sacudiu a cabeça, deu um pequeno sorriso, e voltou a atenção para o relatório, e ele fechou a porta suavemente quando saiu, para não atrapalhá-la.
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well. do jeito que as coisas estão entre esses dois, olivia e elliot, dez anos e nada, acho que só alguma coisa bem extrema/chocante resolve. sabe, acho que tem que ter algum gatilho que faça alguém tomar uma atitude. se não, tudo vai continuar exatamente na mesma (eu não acredito muito que um belo dia, do nada, um dos dois vá acordar resolvendo fazer diferente simplesmente porque sim). e quer melhor gatilho do que inverter um pouco as coisas e usar exatamente o mesmo tipo de situação que levou elliot de volta pra casa tantas vezes? :D
provavelmente vou escrever mais um capítulo desta. talvez dois ;D
não expliquei muito bem a cena do começo, com a vítima/culpado ferido e caído no chão, elliot baleado, porque nem é tão importante assim - o que conta aqui é a situação trágica fazendo elliot pensar.
