Um tiro soou bem próximo, e ainda mais alto do que o normal por causa do silêncio completo que caía sobre a rua escura.
Quase no mesmo instante Olivia sentiu que alguém se jogava sobre ela, a agarrava, a pressionava contra o muro áspero da fábrica desativada. Ela ofegou. Flashes de um outro ataque passar por sua mente. O porão. A sensação de ser roubada, forçada... Ela começou a entrar em pânico, esticou o braço para baixo para alcançar a arma. Só mais um pouco, só mais alguns centímetros... mas seu captor era forte demais. E a estava segurando pelo pulso agora, fazendo-a se virar para ele... e então... ela relaxou. Reconheceu o cheiro dele. Os braços dele, e a voz que falava com ela:
"Liv!", Elliot sussurrou, respirando acelerado, e ela sentia o coração dele batendo muito forte em suas costas. "Você está bem?"
"Tudo, tudo bem", ela sussurrou de volta e se virou para ele.
Sim, tudo bem, ela pensou sentindo o nível de adrenalina em seu sangue baixar apesar do corpo masculino próximo ao seu. Fosse qualquer outro ela ainda estaria em pânico mas com Elliot... ela se sentia segura. Ele ainda percorreu o rosto dela com os olhos atentamente e, quando se convenceu de que ela não havia sido ferida, a soltou rapidamente. Rapidamente demais. Quase como se o contato com ela o queimasse.
Como se estivesse irritado com alguma coisa, ele girou nos calcanhares, empunhando a arma, e caminhou em direção à rua.
*
O caso havia terminado bem, o culpado havia sido pego em flagrante, antes que pudesse causar prejuízos a mais uma vítima e, ainda assim, Elliot estava ali, sentado com a cabeça entre as mãos, havia pelo menos uns dez minutos. Não que fosse novidade nos últimos dias. Ele andava estranho, angustiado, evitando falar com ela qualquer coisa mais que o necessário. Como conseqüência, ela também se sentia angustiada - porque vinha cada vez mais se tornando obcecada por uma idéia. Talvez fosse hora de acabar com aquela angústia e encarar os fatos de frente.
Ela puxou uma cadeira e se sentou bem de frente para ele.
"Você não está bem", aquela não era uma pergunta.
Ele ergueu a cabeça, surpreso, talvez por ela estar ali, talvez por não tê-la ouvido chegar, de tão perdido ele estava em seus próprios pensamentos. Perdido era um bom adjetivo, Olivia pensou ao olhar para os olhos dele. Azuis, doces e perdidos. E quando ele sacudiu a cabeça, confessando que não estava mesmo bem, ela sentiu um aperto no peito ao pensar que suas suspeitas estivessem mesmo corretas. Ela permaneceu calada, apenas o observando, deixando-se hipnotizar por ele - Elliot a olhava de volta com tanta intensidade que chegava a assustar.
Então, ele tornou a baixar a cabeça e sua voz saiu meio abafada quando ele murmurou:
"Até onde uma pessoa pode agüentar?"
É, era aquilo.
Ela tocou de leve o braço dele com as pontas dos dedos, o incentivando.
"Você não tem que agüentar pra sempre, El. Ninguém tem."
Bem, ninguém talvez exceto ela - porque o trabalho era tudo o que ela tinha. Até mesmo ele estava indo, agora... escorrendo por entre seus dedos. Não que Elliot jamais tivesse sido seu, mas... Ele ergueu a cabeça outra vez. Confuso.
"Eu vou... vou entender se você... finalmente se for", ela disse, tentando disfarçar a voz embargada.
"For?", ele perguntou, e piscou. "Do que é que você está falando?"
Ela ergueu e baixou os ombros, tentando parecer indiferente, tentando não demonstrar o quanto aquela hipótese simplesmente a matava um pouco por dentro. Mais provavelmente, muito.
"É isso, não é? Você está pensando em sair. Você está... diferente, El. Não é como quando as coisas não vão bem, você sabe... com a Kahty, então eu pensei..."
Ele piscou outra vez, deu um sorriso que durou meio segundo e negou outra vez com a cabeça, confuso mais uma vez.
"Não, não tem a ver com isso."
"Não?"
"Não."
Olivia sentiu que poderia chorar naquele mesmo segundo, de alívio e felicidade. Relaxou um pouco. Tornou a analisá-lo. Ele respirava bem depressa, agora, e sua testa estava franzida e seus punhos, fechados. E seus olhos intensos e um pouco assustados quando ele olhou para ela outra vez - apenas por um segundo, e depois os desviou para a parede e disse:
"Estava pensando naquele caso do mês passado. Do Scott."
Ela relaxou ainda mais. Aquele havia sido realmente um desfecho traumático e ela compreendia perfeitamente as atitudes estranhas dele. Não que fosse a primeira vez em que ele via alguém morrer, mas cada caso afetava a pessoa de uma maneira diferente.
"Já pensou em procurar ajuda, El?"
Ele sacudiu a cabeça e deu um sorriso estranho, e continuou:
"Foi mais o que ele me disse."
Ela deu um sorriso compreensivo. Se deixar abalar por palavras era típico de Elliot, e era tão raro ele se abrir com ela... Olivia o incentivou a desabafar.
"E o que foi?"
"Ele amava a mulher."
Olivia assentiu:
"Vingança."
"É. Mas não foi só isso. Ele nunca...", ele se interrompeu, tomando fôlego. "Nunca contou a ela", ele sussurrou, e tornou a olhar para ela.
De maneira mais intensa do que nunca.
"Ah", foi tudo o que Olivia conseguiu dizer.
De repente, seu estômago estava se contorcendo outra vez.
Ela achou melhor pisar em terreno firme antes de decidir o que pensar sobre aquilo.
"Mas Kathy..."
Ele deu um outro pequeno sorriso - desta vez, levemente cínico, quando disse:
"Está nos votos matrimoniais."
"Mas você ainda a ama, El. Olha, não sou a melhor pessoa pra dar conselhos nessa área mas talvez... talvez vocês devessem..."
Elliot suspirou parecendo levemente culpado e algo mais que ela não sabia como identificar, conformado, talvez, quando a interrompeu:
"Ela sabe. Pode fazer algum tempo que ela não ouve, mas ela sabe."
"Ah", foi tudo o que Olivia conseguiu dizer outra vez.
E ele continuava a encarando.
De maneira significativa. Da forma como ela havia imaginado apenas naqueles delírios mais secretos da madrugada. E aquele era exatamente o problema. Talvez ela tivesse sonhado tanto com aquilo que agora estava confundindo seus devaneios com a realidade.
"Me desculpa, então, mas não faço a menor idéia do que você está falando", ela disse, preparando-se para ficar de pé.
O coração acelerado bombeando sangue para que seu corpo estivesse pronto para a fuga.
"Não?", ele perguntou suavemente, e seus olhos estavam, outra vez, tão doces.
Doces e intensos e significativos.
Por um segundo ela sentiu as pernas amolecerem.
Ele sussurrou o nome dela e foi como se seus sonhos mais loucos estivessem realmente acontecendo - mas ela ainda não queria acreditar.
Porque ao mesmo tempo em que sonhava ela se apresentava uma porção de razões pelas quais aquilo jamais poderia se tornar real. Primeiro, ele não apenas era casado como levava seu compromisso muito a sério. Claro. Houve uma época em que ele e Kathy estavam separados, e essa foi a mais difícil. Porque ele nunca tentou nada. Porque, se tentasse, exatamente o que ele fazia agora, ela não sabia como reagiria. Tinha medo de ser fraca demais e se entregar e... perdê-lo para sempre. Ah, porque ela abriria mão alegremente de se envolver romanticamente com Elliot em troca de tê-lo para sempre. Porque ela precisava dele em um sentido muito mais amplo do que simplesmente ter um caso. Até porque Olivia Benson não era exatamente a pessoa mais sortuda no amor. Porque ela o amava tanto que queria, acima de qualquer coisa, evitar colocá-lo outra vez numa situação de escolha. De forma que ela havia se sentido um pouco aliviada quando ele finalmente voltou para Kathy, porque não havia mais o risco de alguma coisa impensada e fatal. Era seguro. Mas então, de repente, ali estava Elliot, ainda com Kathy, dando a entender... que... não. Seu corpo se sacudiu num arrepio.
Ela não queria pensar sobre aquilo.
Ele estava lentamente esticando o braço na direção dela.
Olivia segurou-o pelo pulso, com firmeza.
"Não, El."
Ele pareceu confuso outra vez.
"Mas..."
"Não. Eu não quero saber", ela pediu, e foi doloroso notar o desespero em sua própria voz.
Talvez ainda mais nos olhos dele.
Elliot sacudiu a cabeça.
"O que é que há? Não vou machucar você, Liv", ele sussurrou, cuidadoso e insuportavelmente doce.
Ela sentiu seu corpo tremendo com a possibilidade, outra vez real, de nunca mais ter Elliot em sua vida.
"Por favor não. Não continue."
"Qual o problema?"
"Simplesmente não insiste, tá bem? Não diga mais nenhuma palavra sobre isso", ela disse com firmeza, quase acusadora.
Ele franziu a testa parecendo quase ultrajado. Pálido. Uma ponta de raiva ameaçando surgir.
"Tudo bem, não vou insistir, não posso te obrigar..."
Metade dela queria ir em frente e gritar que ele insistisse porque não havia nada que ela quisesse mais do que aquilo, do que o contato mais profundo, o contato que finalmente os fundiria em um só e ela jamais seria metade outra vez - mas completa. E que por favor ele insistisse, só um pouco mais porque ela jamais tomaria qualquer iniciativa - porque era tudo muito mais seguro exatamente como estivera até o último mês. Abrir mão do amor pela estabilidade.
Mas havia um lado nela que era muito, muito fraco e que se entregaria ao menor sinal dele.
"... não vou insistir", ele continuou, "mas eu não entendo o que tem de tão... errado, tão..."
Havia, também, o lado forte e racional e que buscava, acima de tudo, a sobrevivência. E Elliot Stalber era seu item essencial de sobrevivência. Seu único item.
"Sabe o quê?", ela perguntou, finalmente ficando de pé.
Ele a olhou, erguendo uma sobrancelha.
"Eu já sei. Você já desabafou, e não corre mais o risco de terminar como Scott. Está tudo bem", ela disse, dura e sarcástica.
Ele pareceu confuso outra vez.
"Mas... eu não disse..."
"Por favor, El", ela gemeu, e bateu a porta, tanta era sua pressa em sair dali.
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eu devia me envergonhar de postar micro-capítulos meio subdesenvolvidos. mas to numa fase em que prefiro FAZER alguma coisa do que ficar enrolando pra sempre por causa do meu perfeccionismo doentio :P
(ainda mais porque to com vááárias idéias pra fics E/O na cabeça... quero finalizar o máximo que eu conseguir :D)
