Hermione não se conformava com a dificuldade que estava encontrando para escolher presentes para seus amigos. Nos oito anos em que conviveram isso foi tão fácil, mas agora parecia impossível saber o que agradaria um ou outro.

Ela e os filhos estavam passeando pelo Centro Bruxo de Recreação Alemão, uma espécie de Beco Diagonal, mas ela passara por diversas lojas e, simplesmente, não encontrara nada.

Olha aquela vassoura! – Apus exclamou, de repente. Soltou-se da mão de Hermione e atravessou a multidão para admirar uma vassoura de última geração.

Já pedi para não correr desse jeito, Apus! – Hermione o seguiu, assustada.

Compra para mim, mãe?! – ele pediu, esperançoso.

Você ainda não pode ter uma vassoura, Apus! – Helena retrucou.

Eu não falei com você, sua enxerida! – ele respondeu.

Não fale assim com sua irmã! – Hermione ralhou. – Mesmo porque ela está certa!

Puxa vida! – ele resmungou. – Estamos andando há horas e a senhora ainda não comprou nada, mãe! Não custava me comprar uma vassoura, não é?

Tirando a parte da vassoura, eu tenho que concordar com ele, mãe. Já estou me cansando e, para falar a verdade, já estou ficando com fome.

Hum... – ela olhou o relógio. – Vocês têm razão. – ela falou. – Façamos o seguinte: vamos escolher a roupa com que vamos ao casamento e depois comemos um lanche bem gostoso, que tal?

Eu posso comprar um sorvete flutuante? – Apus se animou.

Depois que comer, sim.

Legal! Então vamos logo!

Os três passaram por diversas lojas de roupa de festa, mas assim como no caso dos presentes, Hermione não conseguia se decidir quanto a que roupa usar. Na verdade ela tinha uma série de modelos incríveis em casa, não precisaria comprar um novo, mas, sem saber por que, ela queria estar incrível na festa.

i "Não é todo dia que um melhor amigo se casa, não é? Principalmente o Rony!" /i – ela olhava uma arara enorme cheia de vestidos de vários modelos e cores. – i "Nossa. Nem acredito que o Rony vai se casar, mas com quem? Não me lembro dele estar namorando quando eu vim embora." /i – pegou um pretinho básico, mas achou sério demais. – i "O Draco disse que sabia que ele estava noivo, mas como eu não sabia?" /i – indignou-se, com um vestido amarelo na mão. – Credo! Esse não! i "Será que ele a ama mesmo, ou será que vai se casar para... Ah, que besteira! Depois de sete anos? É lógico que ele a ama, senão não se casaria, não é? Ninguém se casa sem estar realmente apaixonado, ou se casa?" /i

Eu quero esse, mamãe! – Helena interrompeu os pensamentos de Hermione, empolgada, com um lindo vestidinho lilás nas mãos.

Esse é lindo, querida! – Hermione se surpreendeu com o bom gosto da filha. – Você já o experimentou?

Ainda não! Vou experimentar, você me ajuda?

Claro! Vamos lá. – ela acompanhou a filha até o provador. Deu uma pequena vasculhada na loja e viu Apus brincando com umas gravatas que faziam nó em si mesmas. Sorriu e deu atenção a filha ou, pelo menos, parcialmente.

i "Será que a moça está grávida? Hum... Deve estar. Rony vivia dizendo que não se casaria tão cedo. Ela só pode estar grávida!" /i – pensava.

Você está abotoando errado, mãe! – Helena gritou, de repente.

Opa! Desculpe, querida. – ela sorriu, envergonhada. – i "Para de pensar nisso, sua tonta! O Rony vai se casar, e isso é ótimo!" /i – sorriu, convencida. – i "Como vai ser quando nos encontrarmos? Faz tanto tempo..." /i

Que tal, mamãe? – Helena virou-se de frente para a mãe com os braços abertos.

Ficou lindo! - Hermione sorriu. – Você gostou?

Gostei.

Ótimo! Então se troque e peça para a vendedora separá-lo. Eu vou escolher o meu.

Ainda não escolheu?! – Apus abriu a cortina do provador. – Não é a toa que o papai não gosta de fazer compras com você!

Apus! Não abra a cortina desse jeito, menino! – Hermione fechou a cortina e saiu do provador. – Mamãe já volta, querida. – falou para a menina. – Você já escolheu, por acaso?

Não. Eu tenho um monte lá em casa, mãe! Não gosto de experimentar roupa!

É, mas você cresceu bastante desde a última festa a que fomos. Tem que comprar um traje novo. Venha. Vai ser rápido.

E de fato foi. Apus era tão objetivo quanto o pai. Escolheu o traje infantil mais caro, mas muito elegante. Provou, achou que ficou bom, e entregou a vendedora. Depois voltou a brincar com as gravatas, ou encher o saco da irmã enquanto Hermione se decidia entre um frente única vermelho ou um verde musgo com uma fenda até a coxa. Ficou com o vermelho.

Quando terminarmos vou colocar vocês numa chave de portal e vou continuar andando. Não quero chegar lá sem um presente. Principalmente o do Rony, afinal ele vai se casar, não é?

Eu queria te ajudar a escolher, mamãe. – Helena reclamou.

Eu já quero ir embora há muito tempo! – Apus protestou.

Então eu mando você para casa e Helena e eu ficamos. – Hermione sugeriu.

Legal! – ele comemorou e deu uma bela mordida em seu hambúrguer.

Hermione? – uma voz feminina chamou a atenção dos três.

Oh! Sophie, como vai? – ela se levantou, educada, e deu dois beijos na conhecida.

Olá, crianças, como vão?

Bem, tia Sophie. – responderam, em coro.

Oh! Tia não, por favor! – ela pediu.

Almoça conosco, Sophie? – Hermione convidou, achando graça da reação da mulher.

Não incomodo?

Nem um pouco. – ela respondeu.

A mulher tomou lugar à mesa e fez seu pedido. Enquanto esperavam aproveitaram para colocar um pouco da conversa em dia, já que fazia um tempo que elas não se viam.

E todas essas sacolas? – perguntou.

Um amigo da mamãe vai se casar e nós viemos comprar as roupas para ir a festa. – Helena respondeu.

Que gostoso! Adoro festas de casamento. – ela respondeu. – Mas porque o Draco não veio junto? Ele não me parece do tipo que deixa terceiros escolherem por ele.

E não deixa mesmo, mas ele não vai.

Ora! Por quê?

Shiii! – Apus fez.

Longa história, tia, quer dizer, srta Sophie. – Helena completou.

Problemas? – Sophie perguntou a Hermione, compreensiva.

Terminei, mãe. Posso comprar meu sorvete? – Apus perguntou.

Pode. Vá também, Helena, se já terminou. – ela tirou um galeão da bolsa e o entregou a filha.

Terminei. – a menina pegou o galeão. – Podemos brincar ali onde estão aquelas crianças?

Podem, mas não se afastem, hein?

Certo! – responderam em coro e correram para a loja de sorvetes.

E então? – Sophie insistiu.

Draco e eu não estamos muito bem, sabe? – falou, triste.

Não me diga! – ela se espantou. – Vocês formam um casal tão bonito.

Obrigada. – ela respondeu. - O fato é que será o casamento de um grande amigo, mas que já foi meu namorado, e Draco nunca se deu bem com ele, antes mesmo de imaginarmos ter alguma coisa, entende?

Hum... Mas isso só prova que ele está com ciúmes de você. Eu não diria que isso é uma crise.

Mas não é só isso. – ela completou. – Ele anda tão distante. Sai cedo de casa, chega tarde... Ele diz que está com problemas na empresa, mas não conversa comigo.

Problemas na empresa? – ela perguntou.

Sim. – Hermione se surpreendeu. – Vocês não estão com problemas na empresa.

Hum... Na verdade... Não sei. – sorriu, encabulada. – Sabe como é? Minha parte na sociedade é apenas com o capital. Quem cuida de tudo mesmo é o Draco.

Mas, justamente por isso, você deveria ser a primeira a saber que há problemas lá, não?

É. De fato. Mas ele não me disse nada a respeito.

Será que ele está mentindo para mim, Sophie? – ela perguntou, angustiada.

Está pensando em quê, querida?

Oh... Não sei. Não quero tirar conclusões precipitadas.

Sei do que está falando... – ela afirmou.

Sabe?

Sei... – abaixou a cabeça. – Eu já fui casada, sabe? Sei exatamente quais são as dúvidas que nos assolam quando nossos maridos começam a agir estranhamente. – ela suspirou – Começam a sair cedo, chegar tarde, reclamam do trabalho, mas não nos contam qual é o problema. Aí ficam irritadiços, não nos procuram mais na cama, não dão mais satisfações de nada e não aceitam nenhum tipo de pergunta. Então, quando começamos a mostrar desconfiança, eles ficam subitamente carinhosos, e até presentes nos trazem. Humpf!

É exatamente assim que o Draco anda agindo! Só não me trouxe um presente... – Hermione se surpreendeu.

Ainda! – ela completou. - Hum...

Hum o quê?

Não estou dizendo que é uma regra, querida, mas no meu caso...

Uma amante?!

Você já estava desconfiada?

Bem... É a primeira coisa que nos vem à cabeça, não é?

De fato.

E o que você fez?

Arranquei até as calças dele! O deixei sem nada! – falou, decidida.

Não sei se teria coragem de fazer isso com ele. – falou, abalada.

Acredite, querida, se o pegar com a boca na botija, terá coragem para muito mais!

Mas o Draco... – ela mexeu nos cabelos, nervosa. – Ele não faria isso, quer dizer... Tem as crianças e... Outro dia mesmo... Ele disse que me amava.

Homens dizem qualquer coisa para... Oh! Desculpe, querida! Pode ser que ele esteja realmente com problemas no trabalho...

Por que ele não te diria isso então? Você é sócia dele!

Eu não devia ter te falado nada, querida. Agora você corre o risco de arruinar seu casamento por causa de algo que aconteceu comigo. – ela balançou a cabeça, culpada. – Draco não é esse tipo de homem, tenho certeza!

O que eu vou fazer agora? Não vou poder confiar nele.

Pode não ser nada.

Mas...

Esqueça esse assunto, querida. Façamos o seguinte! Eu vou averiguar se há mesmo problemas na empresa e te aviso, ok? Tenho certeza que ele está apenas estressado. Ele te ama, não é mesmo? Ele disse isso, não foi?

Disse, mas...

Sabe o que eu acho? Dê um tempo para ele! Homens são assim mesmo! Nunca sabem o que querem, principalmente se tiverem tudo na mão. Faça essa viagem, reveja seus amigos e deixe-o sentir um pouco sua falta. Você vai ver como tudo vai mudar quando você voltar.

Você acha?

Tenho certeza!

Não sei... Agora eu fiquei com a pulga atrás da orelha...

Em todo caso, se ele realmente tiver uma amante, querida, você já vai estar preparada para isso.

Eu nunca vou estar preparada para algo assim, Sophie.

Ora! Valorize-se, querida! Se ele tiver outra é porque não te merece! E você é tão linda! Aposto como arruma outro homem num instante.

Oh Sophie...

Mas é claro que isso é uma hipótese apenas, não é?

Não sei... Realmente não sei...

hr

Aaah droga... – Draco esfregou o rosto com as mãos, curvou-se para trás, cansado. Na verdade, exausto e preocupado. – i "Como tudo chegou a esse ponto? Eu tentei fazer tudo direito! Não entendo o que deu errado." /i – pensava.

Ele estava fechado em seu escritório desde que chegara ao trabalho. Sua mesa estava abarrotada de relatórios, fichas de devolução, multas e até amostras de miolos de varinhas, ou varinhas inteiras. Ele havia passado o dia lendo e tentando entender o que estava dando errado. Com os olhos cansados de tanto ler ele decidiu fechar as cortinas e ficar um pouco na penumbra para ver se seus pensamentos se organizavam dessa forma, mas não estava dando certo. O ranger da porta o fez imaginar o que mais o esperava.

Nossa! – uma voz feminina exclamou. – Que escuridão!

O que é agora, Sophie? – ele perguntou, aborrecido. – Mais problemas? Deixe para amanhã, ou passe para outro departamento, não agüento mais.

Hum... Se é um problema eu não sei... – ela caminhou até a escrivaninha dele e sentou-se na cadeira que ficava em frente a ela. – Mas se for, tem que ser resolvido com você mesmo. – sorriu.

O que foi agora? – perguntou, sério.

Não vai adivinhar quem eu encontrei fazendo compras hoje. – ela cruzou as pernas, provocativa, fazendo com que sua saia curta mostrasse mais ainda suas pernas torneadas.

A rainha da Inglaterra? – ele respondeu, impaciente, depois de se remexer um pouco na cadeira.

Não, seu bobo, sua querida esposa e seus adoráveis filhos! – sorriu mais ainda.

Você falou com eles? – perguntou.

Óbvio! – ela respondeu. – Não ia deixar de cumprimentá-la. Tão simpática ela, não? – ficou observando a reação dele, que se manteve, aparentemente, impassível. - Ela me pareceu muito chateada, sabe? Mas, ao mesmo tempo, muito empolgada com a possibilidade de rever um amigo... – provocou. – Quer dizer, uns amigos!

Se você está tentando me irritar, Sophie...

Estou conseguindo, não é? – ela se levantou, satisfeita, e foi encostar-se de frente para ele, na escrivaninha. – Eu acho que ela está desconfiando de você, Draco. – ela sentou-se de vez, Draco afastou a cadeira. – Disse que você não conversa com ela, anda chegando tarde em casa... Hum... Eu acho que você vai perdê-la, meu querido! – ela tocou a ponta do nariz dele com o dedo.

Não vou perdê-la para ninguém, Sophie! Muito menos para o idiota do Weasley! – ele se levantou, revoltado.

É esse o nome dele? – ela perguntou, interessada. – Não sei não, hein? Ela está achando que seu interesse pelo trabalho usa saias, entende?

Está achando ou você a deixou desconfiada? – ele a olhou, severo.

Eu? – ela fez cara de inocente, descendo da escrivaninha e indo até ele. – Claro que não!

Eu disse para ela que estava com problemas, por isso fico tanto tempo aqui! – ele ficou bravo. – E você pode confirmar isso, afinal você também trabalha aqui.

Moi?! – ela provocou. - Como se eu não estou sabendo de crise nenhuma na empresa?

Sophie! – ele se descontrolou. – O que foi que você insinuou para ela?!

Nada, Draco! Nada que ela já não estivesse imaginando, mas é claro que eu não me incluí na história. Fiz-me de amiga, compreensiva. Até falei do flagrante que eu armei para o Armand, meu ex-marido. – ela riu. – É claro que eu não mencionei o fato de ter sido armação, não é?

Se eu tiver problemas com minha esposa por sua causa, Sophie...

Por minha causa, querido? – ela perguntou, cínica. – Você não precisa de mim para ter problemas com ela. Basta que a trate do mesmo jeito que está me tratando agora!

Você é impossível, sabia? – ele voltou para a escrivaninha e pegou sua capa. – É bom que fique longe da Hermione e dos meus filhos, Sophie! Não quero você envenenando as cabeças deles!

Não vai demorar muito, amor, e eu nem vou precisar fazer esforço. – ela cruzou os braços, brava. – Você está agindo exatamente como um homem adúltero agiria, querido, e sua esposa não precisa de mim para perceber isso!

Não se meta com ela, Sophie! – ele pegou sua pasta e caminhou até a porta.

Você já a está perdendo, meu bem. E quando ela reencontrar esse tal ex-namorado, vai se arrepender de tê-lo deixado para ficar com você! – afirmou.

Por que tem tanta certeza?! – ele perguntou, perturbado.

Eu sou mulher também, Draco. Sei como é isso! Você é uma decepção para ela, não é mais o mesmo... Aposto como as palavras dos amigos dela vêm martelando em sua cabeça nos últimos dias.

Ela não me deixaria... – falou, inseguro.

Deixaria sim. – ela sorriu. – Mas se você não suportaria a humilhação, deixe-a primeiro! – ela caminhou até ele e o segurou pelas mãos, massageando-as. – Já conversamos sobre isso...

E eu já disse que não há a menor chance, Sophie!

Mas Draco... – ela choramingou.

Até amanhã, Sophie. – ele soltou-se das mãos dela e aparatou em seguida.

hr

i "Ele não faria isso comigo..." /i – Hermione pensava, enquanto embrulhava os presentes que levaria para todos. – i "Não faria... Não pode estar fazendo isso..." /i – uma lágrima quis rolar por seu rosto, mas ela não permitiu. – i "O amor que ele dizia sentir por mim não pode ter acabado desse jeito." /i

b Flashback /b

Ela não tinha a menor idéia de há quanto tempo estavam ali, deitados sobre a grama molhada, debaixo do sereno da noite, correndo o sério risco de pegar um resfriado. Ele fazia isso com ela: a deixava completamente alheia a todo o resto. Principalmente quando a beijava daquela forma, como se fosse a última vez, ou como se fosse um sopro de ar para quem se afoga.

Ela adorava sentir seu gosto, sentir o toque da língua dele na sua, simultâneo ao toque das mãos dele em seu corpo, que a fazia sentir coisas indescritíveis. Um misto de alegria e desespero, desejo e medo, conforto e ansiedade, tudo ao mesmo tempo. Assim como um desapontamento incrível quando os lábios dele deixavam os seus.

Que foi? – ela perguntou, descontente e ofegante.

Nada. – ele sorriu, divertido. – Só precisava respirar um pouco. Você não?

Hum... Não! – ela levantou o corpo e tomou os lábios dele novamente.

Nunca imaginei que você fosse assim, sabia? – ele comentou ao fim de mais aquele beijo.

Assim como? – ela se rendeu à necessidade de respirar de vez em quando.

Assim tão... Fogosa! – concluiu.

Draco! – ela olhou para os lados, preocupada que alguém pudesse ouvi-lo, como se já não fosse perigoso que eles fossem vistos.

E não é verdade? – ele riu da timidez dela. – Tão certinha como sempre foi. Difícil imaginar que haja espaço para um outro tipo de Hermione que não a estudiosa, responsável ou tensa.

Você ainda não viu nada! – ela provocou.

Ainda tem mais? – ele brincou.

Só depende de você! – retrucou.

Ele a fixou nos olhos, tentando adivinhar se aquilo era apenas um blefe, ou se ela era realmente capaz de ir ainda mais longe.

Não me olhe desse jeito! – ela pediu, novamente encabulada.

Eu sabia que você não agüentaria. Primeiro provoca, depois foge?

Não estou fugindo, é só que... Às vezes você me olha de um jeito. – ela ajeitou a roupa, completamente deslocada em seu corpo, e prendeu os cabelos novamente.

Não posso evitar, Mione. – ele se defendeu. – Você me deixa louco!

Então vá com calma. – ela sorriu. – Eu não estou acostumada a todos esses arroubos de desejo!

Sempre desconfiei que o Weasley não dava conta de você! – ele se gabou.

Quem disse que não dava? – ela provocou, ele olhou feio. – Foi você que começou! – se defendeu.

Humpf...

Acho que está na hora de entrar, não é? – ela se levantou e bateu nas próprias pernas, para se livrar das folhas que haviam grudado nelas.

Você não respondeu a pergunta que fiz... – ele levantou-se também, mas muito mais sério.

Ela o fitou dessa vez, e não pode deixar de sorrir da insegurança dele. – Você tem certeza de que quer mesmo isso?

Por que não teria? – ele retrucou, começando a ficar irritado com a demora da resposta.

Você não vai poder voltar atrás, Draco Malfoy. – ela enrolou mais um pouco.

E quem disse que eu vou voltar atrás? – ele cruzou os braços e começou a sacudir uma das pernas.

Você me promete?

Se você não quer fale de uma vez, Granger! – ele se enfezou e deu meia volta, em direção ao número 12 do Largo Grimmauld.

Hum... Cheguei ao seu ponto crítico! – ela brincou. Correu atrás dele e o fez parar, abraçando-o pela cintura. – Achei que minha resposta havia ficado clara com aquele beijo, seu bobo!

Ela sentiu-o respirar aliviado. Então ele se virou, mantendo sua pose de ofendido. – Por que tudo com você tem que ser tão complicado?

É o meu jeito! – ela respondeu. – Achei que você gostasse. – sorriu.

Seria mais simples não gostar. – ele respondeu. Passou o braço pelas costas dela e a conduziu de volta a casa.

Seria mais simples, mas muito menos interessante.

Humpf...

Eu não entendo por que... – ela sentiu o olhar confuso dele sobre si. – Mas eu te amo.

É bom mesmo que ame! – ele respondeu.

Draco!

Eu também te amo, Hermione. – ele falou, sério. – E isso nunca vai mudar. Eu prometo. – ele aproximou o corpo do dela, e beijou-a novamente, como se nunca mais fosse tocar aqueles lábios.

b Fim do flashback /b

O que foi que mudou? – Hermione se perguntou.

Pai! – ela ouviu ao longe.

Pai! Que bom que você chegou cedo! – Helena completava a comemoração.

Depois de segundos de hesitação, Hermione secou o rosto, respirou fundo e saiu do quarto. Desceu as escadas silenciosamente e espiou a sala, onde as crianças brincavam em meio a uma bagunça de brinquedos de todos os tipos e tamanhos. Draco estava sentado no chão, junto com eles.

Olha o desenho que eu fiz, pai! – Apus gritou, empolgado.

Não! Olha o meu primeiro! – Helena protestou, pulou em direção ao pai com seu desenho na mão.

Eu falei primeiro, Lena! – Apus retrucou, empurrando-a.

Hei!

Hei, digo eu! Vou ver dos dois ao mesmo tempo, afinal eu tenho dois olhos, não?

Ah, pai! Não dá para ver dois desenhos ao mesmo tempo! – Helena desconfiou.

Claro que dá! – ele riu.

Hum... Dá nada! – Apus concordou.

Aposto como dá. – Draco desafiou.

Ah é? – Helena entrou no jogo. – Vamos ver então! Vai até aquele canto, Apus!

Apus seguiu para um lado da sala, Helena foi para o lado oposto.

Olha os dois desenhos agora, pai! – Apus mandou.

Sem mexer a cabeça! – Helena impôs.

Puxa! Não é que vocês têm razão? Não dá mesmo... – ele concordou. – Então vejamos... – ele fez cara de pensativo. – Eu vou ver primeiro o desenho daquele que conseguir fugir de mim! – levantou-se de um salto e começou a correr atrás deles pela casa.

Hermione não conseguiu segurar a risada, embora mal acreditasse no que via. Até alguns elfos pararam para espiar o que estava acontecendo, com a cara mais incrédula que poderiam fazer. Mais confusa ainda, ela voltou, tão silenciosamente quanto havia chegado, para o quarto, mas não passou despercebida por Draco, que a viu subir as escadas, e notou que havia, realmente, algo errado.

Continuamos depois, crianças. – ele falou de repente. – Vou ver a mãe de vocês.

Ah pai! – Apus protestou.

Não reclama, Apus! – Helena mandou. – Vai sim, pai!

Draco subiu as escadas ensaiando, mentalmente, algo para dizer, mas nada satisfatório lhe surgia. Quando se deu conta já estava com a mão na maçaneta da porta, e viu que teria que improvisar. Girou-a e abriu a porta.

Oi. – disse apenas.

Oi. – ela respondeu. – Chegou cedo.

Tenho chegado mais cedo todos esses dias. – ele falou. Atravessou a porta e a fechou.

Mas hoje chegou mais cedo ainda. – ela parou com os embrulhos e ficou de frente para ele, tentando estudar suas reações.

Você achou ruim? – ele perguntou, o mais calmamente que conseguiu. – Porque você vinha reclamando que eu chegava tarde, agora não parece contente em me ver em casa mais cedo! – falou.

Eu só não estava esperando... – ela falou, indiferente.

Draco respirou fundo, segurando-se para não provocá-la e começar uma discussão. Colocou a mão no bolso da capa e tirou de lá um saquinho de veludo vermelho. – Trouxe um presente para você. – estendeu o pacote para ela.

Presente? – ela desconfiou. – Mas nem é meu aniversário, nem nada. Por que isso?

Por nada. – ele respondeu. – Vi numa loja, na hora do almoço, e pensei logo em você.

Hum... Obrigada. – ela abriu o saquinho e se deparou com uma delicada corrente de ouro. – É linda! – disse sinceramente.

É como você. – ele emendou.

Está tentando me agradar, Draco? – ela perguntou, desconfiada.

Estou. – ele disse, apenas. – Não posso?

Pode, mas por que?

Por que tem que ter um motivo? – ele começou a se irritar.

Hum... – ela sacudiu os ombros. – Besteira minha. – disse, controlada. – Põe para mim?

Claro. – ele respondeu.

Hermione ficou parada em frente a ele, com os cabelos levantados, esperando que ele prendesse a jóia em seu pescoço. Draco sentiu seu perfume doce e uma saudade imensa de tudo que havia deixado para trás aqueles dias.

Mione, eu... Será que eu posso te pedir uma coisa?

Depende. – ela respondeu.

Depende? – ele se espantou. Fechou a correntinha e ela, imediatamente, se afastou dele. – Por que, depende?!

Peça de uma vez, Draco, então eu decido se vou fazer ou não. – ela voltou a embrulhar os presentes.

Humpf... O que é tudo isto? – ele apontou para os pacotes.

Presentes para os Weassley, meus pais, o Harry, o presente de casamento do Rony e as roupas que eu e as crianças vamos usar na cerimônia. – ela disse, calmamente. – Tem certeza de que não vai?

Absoluta! – ele se chateou. – Aliás, ia te pedir o mesmo. – ele sentou ao lado dela, tomando o cuidado de não amassar nenhum pacote, afinal, seria algo estúpido se o fizesse.

Já me decidi, Draco. – ela respondeu. – Fiquei contente do Rony ter se lembrado de mim, é lógico que eu vou!

Ficou... – ele esbravejou, mas então se acalmou. – Mas, Mione... O casamento é daqui a três semanas. Você não precisa ir agora, precisa? – ele insistiu.

Preciso. Assim haverá tempo de rever todos com calma, colocar a conversa em dia. – ela começou a guardar os pacotes, agora prontos, em uma das malas que levaria. – Você já se deu conta de que eu costumava vê-los todos os dias e já faz sete anos que não o faço? Eu já escrevi para a Gina avisando que vamos chegar antes.

Vocês não têm mais assunto em comum, Hermione. Vocês vão falar sobre o quê? Filhos? – ele se indignou. – Que eu saiba nenhum deles tem. Quadribol? Você odeia...

Não odeio quadribol, Draco!

Você não tem mais assunto com eles. Já faz tempo demais. Eles já devem ter uma outra "melhor amiga" no seu lugar, Hermione. Você só vai se decepcionar!

Decepcionada eu já estou, então não vai fazer diferença! – ela respondeu, magoada, pronta para deixá-lo falando sozinho no quarto.

Hermione...

Eu vou, Draco! – ela gritou. – E suas palavras ferinas não vão me fazer desistir disso! Pense que vai ser bom para você. – ela o encarou, com raiva. – Não vai ter que se preocupar em chegar cedo em casa, porque não vai ter ninguém te esperando. Vai poder trabalhar sossegado, sabendo que não vai ter para quem explicar nada, você vai ficar livre de nós, i de mim /i , por três semanas!

Eu não quero me livrar de você, Hermione! Nunca disse isso! – ele gritou de volta.

Nunca disse isso e nem o contrário! Você nunca diz nada! – ela se controlou para não chorar. – Deve ter alguém bem mais interessante com quem falar lá na empresa, não é? Porque se meus amigos não têm mais assunto comigo, você também não! – ela diminuiu o tom. – Ultimamente eu só tenho assunto com Apus e Helena. Minha vida se limitou aos dois e eu nunca imaginei que seria assim. Você me fez acreditar que não seria assim, mas olha o que me restou!

Mas Hermione... – ele tentou.

Eu vou, Draco, e ponto final! – ela concluiu. – Vai ser bom para nós dois. Um pouco de distância, já que a convivência não está mais dando certo...

Você está falando em...

Divórcio? – ela perguntou, ele sentiu um arrepio horrível. – Não... – ela suspirou. – Talvez uma... Uma separação, entende, só por uns dias... Para ter certeza de que ainda vale a pena continuar com isso.

Mas...

Eu vou fazer o que for melhor para as crianças, primeiro, depois para mim, Draco.

Nossa separação não pode ser boa para eles, Hermione! – ele falou num tom quase desesperado. – Você... Você não pode...

São apenas três semanas, Draco. Eu disse e repito: vai ser bom para nós.

Vai ser bom, uma ova! – ele afastou-se e deu uma pancada na penteadeira. - Só se for bom para você, porque para mim vai ser horrível! – ele não a olhava. - O que acha que eu posso imaginar se você me pede um... Um tempo as vésperas de rever o...

Não diz besteira, Draco... – ela não pode deixar de rir, embora tentasse não deixá-lo perceber isso. – Se você não quer que eu vá por causa do Rony, sinto muito. Vai ter que arrumar argumentos melhores. – ela disse, estranhamente satisfeita. – As crianças e eu partimos amanhã cedo. Se quiser nos acompanhar até o Ministério aposto que elas vão gostar. – disse. – Vou pedir para os elfos prepararem o jantar. – e saiu, sem olhar para trás.

Você vai se arrepender disso, Hermione. – ele sussurrou, com raiva. – Vai se arrepender de me deixar aqui sozinho.