b Flashback /b

Tédio. Não havia palavra melhor para descrever o sentimento de Draco desde que chegara à Ordem da Fênix: tédio. Talvez tivesse sentido um pouco de alívio, por ter sido retirado daquela masmorra imunda e fétida. Com certeza sentiu certa raiva por estar sendo cuidado pelas pessoas que mais odiara no mundo e, principalmente, pela pessoa que mais desprezava, simplesmente por ser o extremo oposto dele mesmo; por ser nascida trouxa: Hermione Granger. Mas, sem dúvida nenhuma, era tédio o que ele sentia naquele momento, enquanto caminhava pelos cômodos pobres e mal decorados da Toca, procurando por um dos membros da Ordem para dar um recado, que ele mal se lembrava mais qual era.

Era assim a vida de Draco agora. Ele havia se tornado um aliado da Ordem. Não que tivesse tido escolha. Se não se tornasse um aliado seria considerado um prisioneiro. Um informante em potencial para o lado das Trevas. E aí só Deus saberia dizer de que maneira ele seria tratado, ou onde seria jogado. Ele nunca vira nada parecido com uma prisão ou masmorra na Toca, por isso seu medo só aumentava. Temia que, recusando-se a ajudar, os bruxos "do bem" usassem um feitiço de memória nele e o deixassem livre para ir embora. E fora da Toca ele nunca sobreviveria, porque assim que os comensais soubessem que ele estava vivo, o perseguiriam para refazer o estrago que Hermione havia consertado.

Hermione... Toda vez que ele se lembrava que ela havia tocado nele, com suas mãos de sangue-ruim, e que tratara dele, com o mesmo cuidado com que trataria de qualquer um de seus amigos, ele sentia-se enjoado. Não conseguia entender como aquelas pessoas conseguiam olhar para a cara dele, cuidar dele, e não, simplesmente, deixá-lo morrer, depois de tudo que ele já fizera para elas.

Ele não entendia porque não fora criado assim. Não poderia compreender ser bem tratado pelas pessoas que humilhou sempre que teve oportunidade, quando seu próprio pai o jogou numa cela só por ter decidido ficar neutro nessa guerra. Ele nunca cuidaria de Harry se lhe pedissem, muito menos de Hermione. Ela, com certeza, ele deixaria morrer. Seria um sangue-ruim a menos no mundo...

Ele sorriu com esse pensamento, imaginando o quanto Rony sofreria se ficasse sem Hermione e o quanto ele, livre da presença dela, se sentiria bem. Ela o irritava. O incomodava. E ele odiava perder seu tempo pensando em meios de não cruzar com ela pelos corredores, principalmente porque ele agora devia sua vida a ela. Ele devia ser agradecido a ela, e ele odiava ter que agradecer por qualquer coisa. Por isso, se Hermione fosse morta durante uma missão da Ordem, ele estaria livre de qualquer obrigação, de qualquer incômodo, para sempre.

Ele já havia subido e descido escadas, entrado e saído de cômodos, aberto e fechado portas, amaldiçoado mentalmente aquela casa por ter adquirido tantos corredores para ser a sede da Ordem, mas não conseguia encontrar a maldita pessoa. Todo seu devaneio sobre como seria boa sua vida sem Hermione havia desaparecido para dar lugar ao velho e conhecido tédio. Ele prometera a si mesmo que olharia só em mais um corredor, depois desistiria, pois ele não era um garoto de recados.

Foi então que, quando entrou monotonamente no último corredor que percorreria, decidindo que ele era comprido demais para ser vasculhado até o fim, ele ouviu uns barulhos estranhos, vozes baixas e estalos molhados. Sua curiosidade se atiçou.

Ele não era do tipo que gostava de espiar casais apaixonados, ele preferia fazer parte da cena, mas, naquele momento, para tentar por alguma distração em seu dia, ele acharia ótimo dedurar alguém, visto que já haviam proibido diversas vezes os namoricos em horário de trabalho. Com um sorriso endiabrado, Draco caminhou até o fim do corredor, onde havia uma porta entreaberta, de onde saía uma claridade fraca, e espiou lá dentro.

Que vontade de derrubar aquela porta e acabar com aquela pouca vergonha. Que raiva ele sentiu quando os viu ali dentro, namorando confortavelmente, enquanto ele estava andando feito barata tonta atrás de alguém que ele nem se lembrava mais quem era. Que vontade de fazê-la sumir, e com ela toda aquela sensação estranha que tomara conta dele.

Hermione estava dentro daquela sala, um armário, na verdade. Deitada no chão sobre um colchonete surrado. Os cabelos rebeldes esparramados, formando um desenho engraçado ao redor de sua cabeça. O botão e o zíper da calça abertos, e a blusinha levantada até as costelas, onde a mão de Rony brincava, enquanto seus lábios a beijavam, e sua língua explorava a boca dela.

Draco estreitou os olhos para aquela cena. Era repugnante, inaceitável. Ele notou os dedos de Rony subirem lentamente em direção ao seio direito de Hermione. Achou que ela ia pará-lo, mas ela apenas sorriu sem desgrudar os lábios dos dele. Foi a gota d'água.

Muito bonito! – ele exclamou, escancarando de vez a porta e encostando-se ao batente, sem olhar para dentro do cômodo.

Malfoy?! – Hermione gritou, assustada, abaixando a blusinha e sentando-se de uma vez.

Pu&¨#¨&, Malfoy! O que você quer aqui?! – Rony xingou, levantando-se com tanta pressa que bateu a cabeça na base de um armário suspenso. – Ai, merda!

Então é isso que os braços direitos do Potter fazem enquanto todos os outros estão arriscando suas vidas por aí. – falou com desdém, virando-se de frente para eles, agora que estavam numa posição menos comprometedora e rindo ao ver Rony massagear a cabeça.

Não tem ninguém arriscando a vida hoje, Malfoy! – Rony respondeu. – E isso não é da sua conta!

Aconteceu alguma coisa? – Hermione perguntou, mais calma que Rony. – Você quer falar comigo?

Não, Granger. – ele fechou a cara ao falar com ela. – Vim até aqui procurar o... – ele olhou para o alto, dando-se conta do esquecimento.

É melhor nem terminar, Malfoy! – Rony falou, irritado. – Você é péssimo para inventar desculpas!

Não é uma desculpa, Weasley! – Draco retrucou. – Eu estava mesmo procurando alguém, mas esqueci quem era.

Sei! – Rony duvidou.

Pode ser verdade, Rony. – Hermione defendeu. – Nós não sabemos que tipo de feitiços ele recebeu. – ela fechou a calça. – Algum deles pode ter afetado o cérebro.

Então ele já nasceu sendo enfeitiçado. – Rony riu.

Draco fez menção de sacar a varinha, mas Hermione o interrompeu.

Tem certeza de que não se lembra? – ela se aproximou, preocupada. - Quem foi a última pessoa com quem você conversou hoje? – ela parou perto dele, sacou a varinha e, com a ponta iluminada, mirou nos olhos dele. – Está com dor de cabeça?

Draco ficou meio perdido com aquela preocupação, hesitando um pouco antes de responder: - Eu não estou com nada, Granger! – então se afastou dela. – Era o Gui Weasley! Era ele quem eu estava procurando! – ele respondeu logo. – Sabia que era alguém insignificante. – sorriu torto para Rony.

Seu... – Rony começou, mas Hermione apaziguou de novo.

Está na hora da sua poção. O Gui está na garagem com a Fleur. Vamos até a enfermaria e depois você vai atrás dele. – falou.

Mas Mione! – Rony protestou.

Já era para eu estar na enfermaria, Rony. – ela virou-se para o namorado, tentando se explicar. – Mais tarde nos vemos de novo. Em outro lugar. – ela piscou para ele.

Ok, ok... – ele respondeu mais conformado. – Vou ver se acho o Harry por aí. – ele pegou a blusa no chão e a beijou, antes de sair.

Certo. Depois procuro vocês. – ela sorriu.

Rony ainda deu um esbarrão proposital em Draco, que fez uma careta de dor, que não passou despercebida por Hermione.

Ainda dói? – ela perguntou.

Eu estou bem. – ele respondeu, tentando disfarçar.

Não devia mais doer, Malfoy. – ela disse, preocupada. – Se ainda tem alguma marca...

Tem um monte de marcas, Granger! O que você esperava se eu fui tratado por uma incompetente como você?! – ele foi rude, sentindo de novo aquele incômodo por vê-la preocupada.

Vá falar com a mme Pomfrey então. – ela recomendou, paciente. – Agora vamos. Já passou da hora de você tomar a poção. – ela passou pela porta e ficou esperando que ele se mexesse.

Os dois caminharam em silêncio até a enfermaria. Hermione um pouco na frente, meio que o guiando. Ele ia atrás, observando o modo como ela andava, como enrolava os cabelos com as mãos, num coque meio bagunçado, como era sempre cumprimentada por todos que passavam. Teve vontade de sorrir, mas tratou logo de esmagar essa vontade com a raiva que sentiu de si mesmo e dela por fazê-lo se sentir tão diferente do que ele era normalmente.

b Fim do flashback /b

i "O que será que ela está fazendo agora?" /i– Draco pensou, enquanto dobrava, cuidadosamente, uma camisa para por na mala que preparava. – i"O que será que o Weasley está fazendo agora?"/i – ele pensou, com raiva, amassando a gola da camisa como se fosse o pescoço de Rony.

Ele jogou a peça na mala, de qualquer jeito, tornando inútil o trabalho que tivera para dobrá-la. Levantou-se, com raiva, e caminhou até o armário para pegar alguns sapatos.

Eles não estão fazendo nada! – respondeu para si mesmo. – i"Pelo menos não juntos. Hermione não teria coragem de me trair. Mesmo que estivesse morrendo de raiva."/i – ele concluiu, muito seguro.

Suspirou alto, jogando os sapatos ao lado da cama e retornando para pegar alguns cintos, meias, cuecas, enfim. Depois se sentou novamente, sentindo-se muito mal.

Ela é bem melhor do que eu... – murmurou. – Ela não age por impulso. Não é uma completa idiota como você, Draco Malfoy! – ele baixou a cabeça e a segurou com as mãos, apertando-a como se pudesse arrancar de dentro dela as lembranças confusas da noite em que esteve com Sophie.

Se, pelo menos, eu tivesse certeza do que fiz. – esfregou os olhos, com raiva.

i"Não adiantaria de nada." /i – sua própria voz, vinda de dentro de sua cabeça, lhe respondeu. – i "O que os olhos não vêem o coração não sente. Se ela não souber de nada, vai ficar tudo bem." /i

Pode ser... – ele concluiu. – i "E depois eu já estou arrependido. Não é o que basta para uma pessoa ser perdoada?" /i – ele endireitou a postura e voltou a guardar seus pertences na mala, sentindo-se melhor. – i "Talvez eu devesse escrever avisando que estou indo." /i – continuou conversando consigo mesmo. – i "Não. Vou fazer uma surpresa! Vai ser bem melhor!" /i– sorriu.

Terminou de guardar tudo, fechou o zíper da mala e ficou olhando-a, pensando se não estava esquecendo nada. Olhou em volta, pelo quarto. Percebeu que tinha pegado tudo de que precisava. Bastava partir para a estação e estaria ao lado da sua família, ao lado de Hermione.

Um aperto de arrependimento dilacerou seu peito novamente. Por mais que tentasse, a imagem de Sophie vestida de vermelho, toda insinuante, visitava seus pensamentos sempre que ele se lembrava de Hermione. Ele tinha vontade de socar a si mesmo pelo que fizera, e tentava não imaginar como seria ficar frente a frente com a esposa depois do ocorrido. Não sabia se conseguiria dissimular, fingir que nada de mais havia acontecido naqueles poucos dias em que estavam longe um do outro. Uma pontada de insegurança o invadiu. Ele hesitou, olhou para a mala sobre a cama, pensou nela outra vez, balançou a cabeça tentando convencer a si mesmo. Pegou sua pequena bagagem e saiu do quarto, rápido como uma bala, para não correr o risco de se acovardar e não ir.

hr

Esse jogo é chato! – Apus, em mais uma de suas crises de mau-humor, reclamou.

Só porque você não entende o jogo não quer dizer que é chato, Apus! – Helena defendeu. – Hum, hum! – ela fez, olhando para a mão de Harry sobre o tabuleiro.

Hei! – Rony fez. – Você está jogando comigo ou com ele?

Desculpe, tio Rony! – ela cobriu a boca com as mãos.

Harry piscou para ela, contente, e arrumou, a tempo, a jogada que faria. Ele, Rony, Hermione, Luna, Gina, Apus e Helena, sentada no colo de Rony, estavam todos ao redor de uma mesa no jardim, assistindo uma das tradicionais partidas de xadrez entre Rony e Harry.

Mãe, vamos embora. – Apus pediu, completamente entediado.

Daqui a pouco nós vamos. – Hermione falou. – Além disso, não tem ninguém na casa da sua avó. Vamos fazer o que lá?

Aqui ta chato! – ele protestou.

Você está com sono, não está? Vem aqui. – ela chamou, paciente, com medo que ele começasse a ficar mal-educado e lembrasse demais ao pai.

Apus, contrariado, deu a volta na mesa e sentou-se no colo da mãe, com as pernas para fora do banco. Encostou a cabeça no peito dela e fechou os olhos.

Eu quero voltar para casa, mãe! – falou, com a voz molenga, mas ainda autoritária.

Nós vamos voltar depois do casamento. – ela respondeu evasiva.

Rony olhou para ela, de soslaio, ela olhava atentamente para o tabuleiro. Era a vez de Harry novamente.

Preste atenção, Harry! – ela falou, de repente, sobressaltando os demais.

Assim não é justo! – Rony reclamou. – Todos vão ajudar o Harry agora?

Você não precisa de ajuda nesse jogo, Rony! – Luna afirmou, enlaçando o braço do noivo.

Humpf! Desde quando você sabe jogar, Hermione? – ele perguntou, desconfiado. – Nunca teve interesse em aprender a jogar.

Draco me ensinou. – ela respondeu.

Foi ele quem me ensinou também, tio Rony! – Helena completou. – Papai é ótimo em xadrez, não é mãe?

É sim. – Hermione respondeu, sem emoção, apenas para não contrariar a filha.

Eu tentei te ensinar xadrez várias vezes, mas você nunca aprendeu. – Rony falou, meio ressentido.

Hum... Você não tem muita paciência para ensinar, não é? – ela falou, cuidadosa. – Não é um jogo simples. Você não me dava tempo de pensar.

Não consigo imaginar o Malfoy, pacientemente, te ensinando a jogar xadrez, Hermione. – ele duvidou.

Acho que ninguém aqui tem dúvida de que o Malfoy mudou muito, não é? – Luna interferiu, enciumada. – Aliás, Hermione, faz dias que você está aqui e ainda não teve notícias dele.

Ele deve estar muito ocupado, como sempre. – ela respondeu, nervosa.

Você não vai escrever? Está menos ocupada que ele. – Luna comentou.

Luna! – Rony ralhou.

A tia Luna tem razão, mãe! – Helena falou, então.

Eu to com saudade do papai, mãe! Quero ver ele! – Apus sentou-se direito, parecendo despertar a simples menção do nome do pai.

Acho que a gente devia escrever para o papai, mãe! Eu também estou com saudades! – Helena enfatizou.

Eu escrevi para ele quando chegamos, e ele não respondeu! – Hermione teimou. – O que vocês querem que eu faça?

Ele deve estar chateado, Hermione. – Luna justificou. – Sabe como são os homens. Odeiam ser contrariados!

Mas eu posso ser contrariada, Luna? – ela mudou o tom. – Eu tenho que fazer tudo do jeito dele?

Hum... Hermione... – Gina começou, timidamente. – Você sempre soube que o Malfoy é assim... Hum... Mimado.

Meu pai não é mimado! – Apus defendeu.

Humpf! Isso não está certo! – Hermione retrucou.

Também acho, Hermione! – Rony se intrometeu. – Se ele não quis vir com vocês o problema é dele!

Não fala assim, tio Rony! – Helena pediu. – Eu vou escrever uma carta para o meu pai! – ela pulou do colo de Rony.

Eu vou com você! – Apus pulou do colo da mãe.

Onde tem pena e pergaminho, tio Rony? – Helena perguntou.

Não sei. – Rony fechou a cara e voltou-se para o jogo.

Eu sei, crianças. Levo vocês até lá. – Luna levantou-se, satisfeita, segurando na mão de cada um e guiando-os para dentro da Toca.

Hermione suspirou, inconformada. Internamente uma luta se travava entre o orgulho e a culpa. Ela sabia que Gina estava certa. Casou-se sabendo que nesse relacionamento ela seria obrigada a ceder muito mais que ele. Além disso, havia os filhos. Era natural que sentissem falta do pai, afinal, Hermione tinha que admitir, ao contrário de todas as suas expectativas, Draco era um bom pai.

Ai! Pode deixar, Luna. – ela se levantou. – Eu tenho na minha bolsa!

As crianças olharam para ela, contentes, tanto quanto Luna, que voltou para a mesa para se sentar ao lado de Rony.

Só vou escrever essa carta! – Hermione avisou os filhos. – Se ele não responder eu não escrevo mais.

Ele vai responder, mãe! – Helena falou. – Aposto que ele está morrendo de saudade de você! – ela abraçou a mãe pela cintura enquanto caminhavam para dentro da casa.

hr

Uma coruja parda, e bem menor do que qualquer outra, aproximava-se no horizonte. Sophie, sentada, desde cedo, atrás de sua escrivaninha, com as pernas sobre a mesa e olhando para a paisagem atrás de si, sorriu ao vê-la se aproximar. Antes mesmo que a pequena ave chegasse ao parapeito da janela, Sophie a abriu e esperou, pacientemente, pelas boas notícias.

Ela não precisava realmente ler o bilhete trazido pela coruja para saber do que se tratava. Seu sorriso aumentou mais ainda ao ler a única palavra escrita no papel. Ela apontou a varinha para o mesmo que começou a se queimar instantaneamente, apagando as letras que formavam a palavra FEITO e, com elas, qualquer prova de seu envolvimento no caso.

Fazendo sua melhor cara de dondoca desinformada, Sophie saiu de seu escritório para tomar um copo de água. Sorriu internamente ao ver o alvoroço que se fazia pelos corredores da empresa. Curiosa, foi até a secretária de Draco.

O que está havendo aqui hoje, srta Marins? – perguntou, educadamente.

A secretária olhou para ela com olhos faiscantes de raiva. – i"Como alguém pode ser tão desinformado?" i O carregamento de miolos de varinha que salvaria essa empresa foi roubado noite passada, srta Guttenberg! Impossível a srta não estar sabendo!

Pois eu não estava. – ela respondeu, indiferente. – O Dr... sr Malfoy já foi avisado?

Não, srta. O sr Malfoy tirou férias, e o diretor...

A empresa está em crise e um dos homens mais importantes dela tirou férias?! Isso é um absurdo, srta Marins! – ela se indignou.

Mas o sr Malfoy não tira férias a...

Não me interessa! É o patrimônio dele também que está em jogo! Mande uma coruja para ele agora mesmo!

Mas o diret...

Então mando eu! – Sophie girou sobre os calcanhares, parecendo ofendida. Entrou em seu escritório batendo a porta atrás de si.

hr

Lutando contra toda insegurança que crescia dentro de si quanto mais se aproximava a hora de viajar, Draco esperava na estação pelo trem que sairia em alguns minutos. Ele não parava de repassar em sua cabeça o que faria quando reencontrasse Hermione. O medo de deixar escapar qualquer coisa que o denunciasse fazendo-o quase desistir da viagem. Foi quando ele avistou uma coruja das torres, com o anel azul da empresa preso à pata, aproximando-se.

O que será agora?! – bufou.

A coruja aproximou-se e pousou em seu ombro, esticando a pata na qual vinha preso um pequeno bilhete. Draco não precisou nem ler o remetente para saber de quem era. Aquele perfume era inconfundível, além de ser a única pessoa na empresa que lhe mandaria um bilhete perfumado. Seu coração disparou ante a perspectiva de descobrir de uma vez por todas até onde chegara na noite anterior.

MÁS NOTÍCAS, MEU CARO. INFELIZMENTE TERÁ QUE ADIAR O REENCONTRO COM SUA QUERIDA ESPOSA. O CARREGAMENTO DE MIOLOS DE VARINHA FOI ROUBADO NOITE PASSADA. SUA PRESENÇA É FUNDAMENTAL PARA RESOLVER MAIS ESSE PROBLEMA. SINTO MUITO. S.G.

Droga! – Draco socou o ar, assustando a ave que ainda estava pousada em seu ombro. – Eu não acredito! – ele olhou o bilhete novamente, e dele para a mala ao lado de seu pé. – Justo agora! O que é que eu faço?

Internamente ele já sabia a resposta. Não iria. Era a desculpa ideal para adiar o encontro com Hermione. Pelo menos até sentir-se seguro quanto a como agiria com ela. Num misto de pesar e alívio Draco voltou para casa. Estava decepcionado consigo mesmo, por sua covardia, e preocupado com a situação da empresa depois de mais esse baque. Estava agradecido por ter decidido não escrever para Hermione avisando que iria.

Tory! – ele chamou, assim que atravessou a porta.

Sim, mestre! – um elfo aparatou na frente de Draco.

Leve essa mala para o meu quarto e pegue minha maleta. Houve uma mudança nos meus planos. – ele estendeu a mala para o elfo.

Tory pegou a mala, relutante, morrendo de vontade de perguntar ao mestre porque havia desistido de visitar a esposa. Queria poder ter liberdade para persuadir seu mestre a continuar em frente, mas sabia que não tinha esse direito. Com uma leve reverência, e penalizado, apesar de tudo, com o semblante carregado de Draco, Tory aparatou para voltar em seguida com a pasta dele.

Draco deu meia-volta quando o elfo lhe entregou a pasta e saiu sem dizer palavra.

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Oh! Eu não posso acreditar, Ludmila! Isso não pode estar acontecendo conosco!

Draco chegou na empresa a tempo de ver a secretária da presidência debruçada sobre a mesa de sua própria secretária, e lamentando.

Pois é isso mesmo, Gretta. Estamos perdidas. Será o fim da empresa. Acho bom começarmos a procurar novos empregos. Nem mesmo o sr Malfoy poderá resolver essa situação.

Mas ele é tão influente, Lu! Será mesmo que ele não consegue mais prazo?

Ele já conseguiu muito mais prazo do que qualquer cliente daria. Além disso, ele está com problemas de família e...

Que diabos deu errado dessa vez? – ele parou atrás das duas, fingindo não ter ouvido nada. – Achei que tínhamos contratado aurores para acompanhar o carregamento.

Infelizmente não, meu caro! – sr McCoy respondeu, antes mesmo que alguma das secretárias pudesse abrir a boca. – Volte a seu posto, Gretta. Não é hora para fofocas.

Sim senhor. – a secretária respondeu com as bochechas vermelhas.

O que faz aqui, Draco? Achei que já estivesse longe! – ele perguntou, guiando Draco para sua sala, ignorando as secretárias.

Estava prestes a pegar o trem quando recebi o aviso de Sophie. Mas que diabos, McCoy! Por que você dispensou os aurores? – ele perguntou, revoltado.

O Ministério não deu permissão para que eles acompanhassem o carregamento. São funcionários públicos, não podem fazer trabalhinhos particulares!

Bobagem! Quantas vezes eu paguei aurores para fazer coisas muito menos relevantes?!

Shiiii! Ninguém mais precisa saber, meu rapaz! – o homem o fez sentar-se. – O fato é que estamos num beco sem saída, mas já coloquei todos para pensarem numa solução. Não queria que isso o atrapalhasse. Você precisa rever sua família.

Ah... Nem me fale, McCoy. Estou morrendo de saudades deles, mas...

Mas o que, homem? – McCoy bateu com os punhos fechados na mesa, encobrindo o ranger da porta, por onde Sophie agora escutava a conversa. – Se essa empresa falir sua família será tudo que restará! Mas se você a deixar em segundo plano para salvar a empresa, então só restará seu dinheiro!

Hermione entenderá, McCoy. – ele falou, inseguro.

Mas ela não precisa entender! – ele respondeu. – Mulher nenhuma aceita ficar em segundo plano por causa de dinheiro. Ouça o que eu digo, Draco! Olhe para mim! – ele apontou a si mesmo com as duas mãos. – Podre de rico, mas sozinho! No máximo com alguma acompanhante, muitos anos mais nova, interessada apenas no cachê que receberá quando for dispensada.

Por favor, McCoy... – Draco fez uma careta, enojado.

É verdade, meu caro! Deixe a empresa para os outros 500 funcionários cuidarem. Dê-se um tempo, cultive sua família, Draco!

Ele suspirou. Sabia que a presença dele ali, diante de uma crise, faria pouca diferença. Ele era influente sim, como as secretárias haviam dito, mas não era o mais influente. Outros sócios poderiam resolver aquilo, para variar, mas ele ainda se sentia culpado, e aquela crise parecia uma ótima desculpa para adiar o reencontro com Hermione. Ele havia perdido o jeito para dissimular. Ela havia baixado suas guardas. Havia conseguido transformá-lo.

Draco. – McCoy chamou, vendo que Draco havia ficado pensativo.

Draco olhou para o homem, sem saber o que dizer. Sem coragem de admitir a verdade por trás daquela relutância. Foi então que ele viu, se aproximando da grande janela daquele escritório, uma coruja branca, como há muito ele não via.

Acho que você tem correspondência. – disse apontando para fora.

Hum? – o homem se levantou e abriu a janela.

A coruja branca adentrou o escritório e passou direto por ele, indo pousar no joelho de Draco. Com um aperto no coração Draco soltou a carta da pata daquela coruja. Já a conhecia. Sabia exatamente de quem ela era, e imaginou que a carta só podia ser de...

Hermione...

Bingo! – McCoy exclamou.

OI DRACO. COMO É QUE VOCÊ ESTÁ? VOCÊ NÃO RESPONDEU O PRIMEIRO BILHETE QUE LHE ENVIEI, ENTÃO RESOLVI ESCREVER OUTRO. OU MELHOR, AS CRIANÇAS ME OBRIGARAM A ESCREVER OUTRO, PORQUE EU AINDA ESTOU MUITO CHATEADA COM VOCÊ. AINDA ASSIM ACEITEI DAR O BRAÇO A TORCER E PEDIR, MAIS UMA VEZ, QUE VOCÊ VENHA PARA CÁ. FICO ESPERANDO UMA RESPOSTA DESSA VEZ. UM BEIJO. H.M.

OI PAPAI! PUXA VIDA, VOCÊ DEVERIA ESTAR AQUI! OS AMIGOS DA MAMÃE SÃO SUPER LEGAIS E TODOS GOSTARAM MUITO DE NÓS. PASSAMOS O DIA TODO NA TOCA E NOS DIVERTIMOS A BEÇA, MAS SERIA MUITO MAIS LEGAL SE VOCÊ ESTIVESSE AQUI! ESTOU COM MUITA, MUITA, MUITA, MUITA, SAUDADE DE VOCÊ! VENHA PARA CÁ, PAPAI, POR FAVOR! UM MILHÃO DE BEIJOS. H.M. PS: TE AMO MUITO, PAPAI!

EU QUERO IR EMBORA DAQUI! TÁ TUDO MUITO CHATO! ELES NÃO TÊM VASSOURAS LEGAIS, NEM EQUIPAMENTO DE QUADRIBOL, NEM NADA! VENHA ME BUSCAR, PAPAI, POR FAVOR! QUERIA QUE VOCÊ ESTIVESSE AQUI, SERIA UM POUCO MENOS PIOR. TCHAU. A.M.

O APUS É UM BOBO! TUDO QUE ELE DISSE É MENTIRA, MENOS A PARTE EM QUE ELE QUERIA QUE VOCÊ ESTIVESSE AQUI, PORQUE EU TAMBÉM QUERO, E A S MAMÃE /S TAMBÉM! BEIJO!

Draco sorriu ao terminar de ler a carta. Não estranhou nem um pouco que Apus não estivesse gostando da viagem. E imaginou o quanto Helena deveria estar se divertindo. Ela era uma criança ótima, muito diferente dele e de Apus, e se dava bem com todo mundo.

Ficou contente também ao ver que Hermione estava, ao menos, tentando, mas também ficou triste por ter que decepcioná-la de novo, mas percebeu que não estava pronto para encará-la ainda.

Será que posso usar sua pena e pergaminho para responder? – ele perguntou ao sócio, que aguardava o término da leitura com os olhos arregalados de curiosidade.

Por favor! – o homem empurrou tinteiro e pergaminho para Draco. – Diga-lhe que vai ainda hoje. Nós resolveremos tudo.

Eu não posso McCoy. – ele falou, arrasado, molhando a ponta da pena e começando a escrever.

Como não pode?! – o homem se assustou.

Eu fiz uma besteira muito grande, McCoy, e ainda não estou pronto para encarar Hermione.

Uma besteira? – o homem desconfiou. – Ah, Draco... Não me diga que foi outra mulher!

Sophie retesou o corpo e apurou os ouvidos.

Eu estava com raiva! Te falei que ela fez essa viagem para ver o ex-namorado?

Não era para o casamento de um dos amigos? – o homem perguntou, confuso.

Sim! Ele é quem vai se casar!

E você está preocupado com isso?! – McCoy riu. – Se o rapaz vai se casar e ainda a convidou é porque não sente mais nada por ela!

Você não entende? A relação dos dois foi muito intensa no passado. O Weasley nunca se conformou por eu a ter tirado dele, e Hermione está decepcionada comigo. Ficou estranha desde que recebeu a carta. Acho que ela... Que ela ficou com ciúmes...

E você a está entregando de bandeja ficando aqui, homem!

Eu nunca conseguiria encará-la, McCoy. Pelo menos não ainda! Se, pelo menos, eu me lembrasse! – ele colocou o ponto final na carta e a amarrou na pata de Edwiges.

Se lembrasse do quê? – McCoy perguntou.

Ah... De tudo que aconteceu... – ele respondeu, então soltou a coruja, para que ela voasse de volta para casa. – Eu não me lembro até onde cheguei com ela, entende? Quando acordei estava jogado no sofá do meu escritório, em casa, mas apenas com uma vaga lembrança daquela noite, mas nada que revelasse se eu realmente dormi com ela, ou se desisti antes.

Oh, meu rapaz! Mas por que você foi fazer isso? Tinha que ter agüentado, homem! – ele abriu os braços, inconformado.

Eu sei... – Draco baixou a cabeça, envergonhado. – Mas agora já foi... O pior é que... Quais as chances de não ter acontecido nada?

Você havia bebido?

Sim. Estava revoltado com Hermione.

Então, meu caro, as chances de você ter ido até o final são grandes. Ela era bonita?

Muito. E há muito tempo andava se insinuando para mim.

Xiiii! Esse é o pior tipo de mulher! A que se insinua mesmo sabendo que o cara é casado! Elas não desistem facilmente!

Percebi...

O que é que eu posso te dizer, Draco? Nós somos assim! Uns fracos! Não que seja justificável, mas é da nossa natureza. E é da natureza das mulheres perdoar. Vá atrás dela enquanto você tem tempo, Draco. Seja um marido melhor daqui para frente, e não pense mais nessa aventura que você teve! Hermione nunca precisará saber disso. E se você está mesmo arrependido...

Estou sim, McCoy. Muito!

Ótimo. Então vá atrás dela!

Eu ainda não posso. Sinto que me entregaria ao primeiro olhar. Hermione me lê como um livro aberto! Não posso encará-la e fingir que não aconteceu nada. Eu preciso de um tempo.

Se você tem certeza... – o homem suspirou, desistindo. – Só não demore muito!

Só o tempo de remediarmos essa situação. O trabalho vai me ajudar a pensar melhor, a descobrir como agir quando chegar a hora.

É você quem sabe, Draco... – ele bateu as mãos na mesa. – Bem! Já que está aqui! Vamos trabalhar, certo?

Certo!

McCoy apertou a mão de Draco e este se levantou para sair. Sophie, que escutara toda conversa estupefata, correu para longe da porta e entrou no primeiro corredor que encontrou. Ficou lá até ter certeza que Draco estava longe o bastante.

i "Ele não se lembra?!" /i – perguntou-se, ofendida. – i "Estava tão bêbado que nem se lembra!" /i – esbravejou em pensamento. – i "Mas, espere... Isso pode ser bom!" /i – ela sorriu. – i "Que melhor maneira de me vingar daquela humilhação do que acabar com o casamento de Draco por algo que ele nem chegou a fazer? Ah Draco... Se você soubesse que ia acabar assim!" /i

hr

Já era tardezinha quando Edwiges retornou à Inglaterra, exausta, e bicou a janela da sala da casa dos pais de Hermione.

É ela, mamãe! Papai respondeu! – Apus deu um pulo do tapete quando avistou a ave.

Eu não disse que ele ia responder?! – Helena comemorou, seguindo o irmão até a janela.

Hermione estava realmente surpresa. Seu coração deu um pequeno salto em seu peito, diante da expectativa da resposta. Será que ele iria? Será que estava realmente disposto a engolir seu orgulho e ir ver a família? Ao invés de ficar imaginando, Hermione foi até a janela e a abriu. Tirou a carta da pata de Edwiges e a dispensou. Então, sentou-se no sofá, entre Apus e Helena, e começou a ler.

QUERIDA HERMIONE. NÃO SABE COMO FIQUEI FELIZ COM SUA CARTA. DESCULPE NÃO TER RESPONDIDO A PRIMEIRA, MAS AINDA ESTAVA UM POUCO CHATEADO. ESTOU COM MUITA SAUDADE DE VOCÊS TRÊS TAMBÉM, MAS INFELIZMENTE NÃO PODEREI REVÊ-LOS TÃO CEDO. OS PROBLEMAS NA FIRMA APENAS AUMENTAM. EU JÁ ESTAVA DE MALAS PRONTAS QUANDO RECEBI UM RECADO URGENTE E TIVE QUE ADIAR TUDO. EU SINTO MUITO MESMO.

APOSTO COMO HELENA E APUS ESTÃO COM VOCÊ, LENDO TAMBÉM A CARTA, ENTÃO: QUE BOM QUE ESTÁ SE DIVERTINDO, PRINCESA. IMAGINEI QUE VOCÊ IA ADORAR TODOS POR AÍ, E TINHA CERTEZA QUE TODOS ADORARIAM VOCÊ. IMPOSSÍVEL NÃO SE APAIXONAR POR VOCÊ A PRIMEIRA VISTA, PEQUENA. E APUS, DÊ MAIS UMA CHANCE A ELES. NÃO ACREDITO QUE VOCÊ NÃO ESTEJA GOSTANDO DE NADA, EMBORA EU TE ENTENDA...

ESPERO REVÊ-LOS EM BREVE. AMO TODOS VOCÊS. D.M.

Aahhh. – Helena e Apus fizeram ao mesmo tempo.

Que droga! – Apus xingou.

Eu tinha certeza que ele viria correndo, mamãe... – Helena suspirou.

O pai de vocês tem coisas mais importantes a fazer, meninos. – Hermione falou alto, embora sem querer. – Mas não fiquem tristes com ele. – ela se corrigiu. – Logo vocês o verão de novo. Agora vão se arrumar para o jantar, ok?

Tá... – os dois responderam cabisbaixos.

Sempre a empresa, Draco... – Hermione sussurrou olhando para a carta. – Você ama mais essa empresa do que a mim. Eu devia ter escutado o Rony quando tive chance... – uma lágrima solitária borrou as iniciais de Draco. Chateada, Hermione subiu as escadas, para também se preparar para o jantar.