Draco se perguntava quando aquilo ia terminar, ou se iria terminar. Fazia dias que ele quase não dormia direito. Saía de casa bem cedo, apenas com um chá preto no estômago, para afastar o sono inevitável que o assaltava de manhã, e chegava em casa tarde da noite, sem fome, apesar de ter passado o dia inteiro sem comer muita coisa.

Para piorar tudo havia a solidão que sentia ao se deparar com a casa silenciosa, a cama vazia e fria. Se, pelo menos, Hermione estivesse ali, ele poderia conversar com ela, desabafar, quem sabe até fazer amor com ela, mesmo preocupado, mas com a certeza de que ela estaria sempre a seu lado, mesmo que a empresa afundasse e ele voltasse a ser o Malfoy falido de anos atrás.

Se eu tivesse me aberto com ela antes... – ele sussurrou, exausto, depois de mais um dia de estresse na firma.

Jogou-se na cama, de atravessado, os braços abertos, como se estivesse sendo crucificado, os olhos fechados. Sabia que ficaria assim por horas. Já havia virado um ritual. Seus pensamentos, a milhão, viajariam de Hermione, para os contratos que estavam sendo quebrados. Dos rostinhos alegres de Helena e Apus para os galeões que ele estava perdendo. Da insegurança por saber que Hermione estava a quilômetros de distância em companhia do ex-namorado, para a culpa que sentia pela noite que ele ainda não se lembrava ao certo se havia tido ou não...

E com isso o sono não vinha, a não ser horas mais tarde, quando ele já não teria tempo de descansar o suficiente antes de sentir a claridade do dia bater em seu rosto e pegá-lo, desconfortavelmente, ainda com a roupa com que chegara na noite anterior, ainda calçado. Uma cena deplorável. Então só lhe restava levantar, tomar banho, tomar o chá, pegar uma torrada, quem sabe, e aparatar para mais um dia de reclamações, berradores, devoluções, etc, etc, etc.

Você já não é nem a sombra do dr. Malfoy que entrava pela firma arrancando suspiros das funcionárias daqui, Draco. – Sophie entrou em sua sala, como sempre, sem bater na porta ou pedir licença.

Bom dia para você também, Sophie. – ele respondeu então, disposto a manter com ela o mesmo comportamento que tinha antes da fatídica noite, visto que ela mesma tinha voltado a se comportar como antigamente.

Tudo isso é saudade da sua mulherzinha, Draco? – ela caminhou até a mesa dele e sentou-se sobre ela, ao seu lado, colocando uma pilha de pergaminhos na frente dele.

O que são, dessa vez? Mais contratos quebrados? – ele ignorou o comentário dela e começou a desenrolar os pergaminhos.

Você sabe que eu estou aqui para o que você precisar, não sabe, querido? – ela falou com a voz sedutora, enquanto passava a mão em seu rosto. – Para qualquer coisa. – enfatizou.

A Olivaras S.A vai voltar a comprar de nós? – ele apenas se afastou das mãos dela, lendo com os olhos arregalados o pergaminho que acabara de abrir. – Mas... Por quê?

Percebendo que não teria, tão cedo, outra oportunidade de fazer Draco ceder aos seus encantos, Sophie fechou a cara e desceu da mesa, indo sentar-se em local apropriado, como caberia a uma sócia normal.

Parece que, mais uma vez, seu poder de persuasão surtiu efeito, Draco. – ela cruzou as pernas e ficou girando a cadeira de um lado para o outro, pouco interessada na situação da empresa. – Os relatórios que você mandou aos nossos compradores dando garantias de que a crise será superada pareceu convencê-los. Nem todos voltaram a comprar, mas também não rescindiram mais nenhum contrato. McCoy já está falando em reação. Ouvi falar até em comemoração. – ela sorriu, pouco interessada.

Não podemos nos precipitar. – Draco respondeu, abrindo um pergaminho atrás do outro e passando os olhos por suas linhas, apenas para confirmar as palavras de Sophie. – Ainda precisamos reaver os que foram cancelados, renegociar os prazos, recuperar a confiança de Gringotts Deutch... – ele recostou-se na cadeira, jogando a cabeça para trás, ligeiramente aliviado. – Ainda há muito o que fazer!

E mais uma vez você já fez demais, Draco! – Harold McCoy, praticamente, invadiu a sala dele, com um sorriso que não era visto há dias. Caminhou até ele já com a mão estendida para cumprimentá-lo. – Você conseguiu de novo, meu rapaz!

Não se entusiasme tanto, McCoy! – Draco falou, embora um sorriso também tenha se aberto em seu rosto, e ele tenha se levantado para receber os cumprimentos do patrão. – Você sabe que as coisas ainda podem mudar...

Já mudaram! – ele fez sinal para que Draco se sentasse novamente. Acenou ligeiramente para Sophie enquanto passava por ela para conjurar uma cadeira e se sentar também. – O departamento de finanças acabou de receber uma coruja de G. Deutch. Eles querem marcar uma reunião com você e rediscutir os empréstimos e prazos. Parece que a notícia de que alguns de nossos compradores ainda não desistiram de nós chegou antes a eles do que a nós! – terminou com entusiasmo.

Mal posso acreditar! – Draco levou as duas mãos à cabeça, bagunçando, aliviado, os cabelos platinados. – Acho que as coisas vão começar a caminhar, finalmente.

Acho que sim, meu amigo. – o homem respondeu.

E os aurores? Têm alguma idéia de quem roubou nossa carga, afinal? Seria ótimo se a recuperássemos também. Adiantaria muita coisa para nós. – ele sentiu-se à vontade para conjurar um bule de chá e oferecer aos demais.

Não descobriram nada, embora desconfiem de uma quadrilha de abortos que rouba carga para mandar para a América do Sul. Se eles estiverem certos, nossos miolos de varinha já estão longe demais para serem recuperados, se você quer saber!

É uma pena! – ele sorveu um gole do chá e, pela primeira vez em dias, pode realmente sentir o gosto dele. – Tanto investimento perdido desse jeito.

Temos que torcer por termos mais sorte... – então ele olhou para Sophie, como se aquela fosse a única parte da conversa que ela teria capacidade para entender. – Se perdermos outro carregamento desse falimos de vez, e aí, adeus sapatos de marca, vassouras de última geração e viagens intercontinentais! – ele deu palmadinhas na mão de Sophie, que apenas sorriu, interpretando o papel de perua ignorante.

Talvez fosse bom investir alguns galeões em segurança particular da próxima vez. – Draco falou, então.

Com certeza! Mas para isso precisamos dos galeões. E essa será a última missão que terei para você, Malfoy: conversar com os duendes da Deutch e convencê-los a nos emprestar os galeões que precisamos. Depois disso vou te colocar em licença médica se for preciso, mas você vai tirar uns dias para resolver as coisas com sua família! – ele o olhou incisivamente.

Draco suspirou, incomodado, enquanto Sophie se posicionava melhor na cadeira. Seu sorriso de perua alienada desaparecendo instantaneamente.

Você não pode mais adiar isso, Draco. Lembra-se da conversa que tivemos, não?

Claro que sim. E não pretendo adiar mais. – ele olhou para Sophie, como se quisesse realmente lhe mandar um recado. – Além disso, se não parar logo, sei que terei realmente que pegar uma licença médica! – ele debochou.

Com certeza. – o velho sorriu. – Trabalho não é tudo! Você tem que dar o devido valor a sua família! Aproveite enquanto você é jovem e tem tempo de consertar tudo.

Se vocês me dão licença! – Sophie levantou-se, de repente. Então se lembrou de sorrir. – Parece que o assunto "negócios" acabou e agora essa é uma conversa de "homem para homem". Vou deixá-los à vontade! – deu uma piscadela para McCoy e caminhou em direção à porta.

Os dois homens ficaram esperando, silenciosamente, que ela saísse. McCoy acompanhou-a com o olhar, enquanto Draco re-analisava os pergaminhos.

Hum... Foi ela, não foi? – ele perguntou, de repente.

O quê? Ela o quê? – Draco se fez de desentendido.

Você sabe! – McCoy sorriu, maroto.

Foi. – Draco admitiu, pesaroso.

E não voltou a acontecer? – ele sondou.

Errar uma vez é humano, mas duas... – Draco disse apenas.

Não posso te culpar! – McCoy sorriu, olhando para a porta do escritório como se pudesse vê-la ali. – Essa Sophie é uma mulher e tanto, mas não presta! – ele voltou-se para Draco novamente. – Você sabe do que ela fez com o ex-marido, não sabe? Não vale a pena trocar Hermione por ela. Além do mais, com todo o respeito, Hermione não perde para ela em nada! – ele sorriu.

Draco não deu atenção, apenas sorriu de volta.

Vou te deixar trabalhar. Posso dizer a srta Marins para agendar a reunião com os duendes? – ele se levantou aguardando a resposta.

O quanto antes! – Draco respondeu de imediato.

Ótimo! Vou aproveitar e mandá-la marcar sua passagem para a Inglaterra logo no dia seguinte à reunião!

Ok! – Draco sorriu para ele. – Faça isso, por favor, antes que eu me amedronte outra vez.

Nem pensar! Nos vemos então e, mais uma vez, parabéns, Draco!

Obrigado. – Draco respondeu, modestamente. Esperou até que o velho saísse de vez e aproveitou para espreguiçar o corpo, esticar as pernas e tomar mais uma xícara de chá antes de voltar, revigorado, ao trabalho.

Já em sua sala, Sophie andava de um lado para o outro, reclamando sozinha:

Velho rabugento! Por que tinha que se meter? Fazê-lo pensar naquela insossa de novo. – ela controlava o próprio tom para que ninguém a ouvisse. - Ah! E o pior é que ele concordou! Vai correr para ela novamente e não há nada que eu possa fazer, não sem arriscar meu próprio patrimônio! – ela parou ao lado da mesa e ficou batendo as unhas compridas nela, freneticamente, como se estivesse dedilhando muito rápido um piano. - Tenho que encontrar outra maneira de atrapalhar o casamento dele! Não poderei encontrar outra desculpa para não fazê-lo ir dessa vez. – os dedos pararam de repente. - Ele tem que ir... – ela voltou a dedilhar, mas muito devagar. - E eu também! – ela sorriu, maquiavélica.

hr

b Flashback /b

Apesar de estar ali, sentado naquela maca, sozinho, no escuro, ele ainda não acreditava que tinha, realmente, se decidido. Na verdade ainda não acreditava que estava, de fato, sentindo aquilo. Em seu interior ele ainda buscava razões para não fazê-lo. Discutia com seu passado em busca de algo que o fizesse desistir, cair em si e sair dali antes que ela chegasse.

i "Por que será que está demorando tanto?" i/ – ele se perguntava. – i "Talvez ela não venha..." /i – ele sorriu torto, mas só na aparência.

Por dentro ele torcia para que ela viesse, que chegasse logo e acabasse com aquela tortura. Ou seria melhor que ela não aparecesse? Não. Não era isso que seu organismo dizia. Ele estava tão nervoso. As mãos suadas, o coração acelerado, milhares de frases ensaiadas passando por sua mente, mas nenhuma satisfatória. Aquele não era ele! Ele nunca havia se sentido daquele jeito antes, e odiava se sentir tão diferente.

i"Isso nunca daria certo mesmo!" /i – ele pulou da maca em direção a porta, convencido de que aquela vontade era apenas um impulso passageiro.

Mas antes que sua mão tocasse a maçaneta, esta girou e a porta se abriu. Seu coração, que há pouco havia se acalmado, batera forte de novo. Ele olhou para quem entrava, divido entre a vontade de que fosse ela, e a esperança de que outra pessoa tivesse vindo em seu lugar.

Malfoy? – era ela mesma. – Mme Pomfrey falou que você precisava me ver com urgência. Algum problema? – ela entrou na enfermaria e, apesar de estranhar a escuridão ali dentro, sua preocupação maior era com seu paciente.

Draco ficou parado alguns segundos, olhando para ela, sem saber o que dizer ou por onde começar. Hermione olhava para ele esperando que ele dissesse o que estava sentindo, onde doía dessa vez.

Malfoy? – ela o chamou, achando que ele pudesse estar em choque ou coisa assim. – Você está se sentindo bem?

Não. – ele respondeu apenas, menos seco do que costumava ser sempre.

O que é que você está sentindo? – ela o puxou pelo braço para que ele se sentasse na maca. A maletinha de poções já aberta ao lado dele, pronta para ser usada.

Eu... Não sei direito. – ele não conseguia tirar os olhos dela.

Você está suando. – Hermione observou. – Você teve febre hoje? – ela levou, automaticamente, a mão ao rosto dele. Estava frio.

Pela primeira vez Draco não fugira ao toque. Pelo contrário, não queria interrompê-lo jamais. Sentiu um calor se espalhar por seu corpo e trazê-lo de volta ao normal. Calmo e controlado como sempre.

Eu não estou sentindo nada, Granger, e você sabe disso. – ele falou, sério.

Como assim? - Hermione perguntou, confusa, retirando a mão do rosto dele.

Faz dias que eu não sinto mais nada, pelo menos não no que se refere aos dias em que passei na masmorra da mansão Malfoy. – ele levantou-se da maca mais uma vez e parou na frente dela.

Então por que me chamou aqui? Você sabe que há outras pessoas que precisam de cuidados, Draco e que mme Pomfrey e eu ainda somos as únicas capacitadas a...

E eu sei também que, depois de cuidar de tantos homens feridos, você sabe reconhecer quando alguém está realmente doente, ou está fingindo. – ele colocou as mãos nos bolsos e continuou observando-a, friamente, analisando suas reações.

Hermione sentiu o rosto esquentar. Podia jurar que suas bochechas estavam ficando vermelhas agora. – Do que... Do que você está falando, Malfoy?

Você sabe, Hermione. – ele deu alguns passos na direção dela, encorajado pelo rubor e nervosismo que a tomaram. – Você sabe que há dias eu estou ótimo. Você fez um bom trabalho. É muito competente, mas eu não queria deixar de te ver sozinha e fingir ainda precisar de tratamento era a única maneira de podermos ficar a sós.

Por que você ia querer ficar a sós comigo? – ela se virou para a maleta de poções sobre a maca para fechá-la. – Você nunca me suportou, e nem eu a você! – ela continuou. – Só aceitei cuidar de você porque mme Pomfrey tinha pacientes mais graves de que tratar.

E eu só aceitei ser assistido por você porque fiquei sem opção, mas isso foi no começo. – ele encurtou a distância novamente, parando atrás dela e tocando de leve seus cabelos. – De uns tempos para cá eu tenho gostado da sua companhia, de ser cuidado por você... – ele aprofundou os dedos em seus cachos. – De sentir, mesmo que de leve, o seu toque quando você tratava meus machucados.

Hermione fechou os olhos e suspirou alto quando sentiu as pontas dos dedos dele tocarem sua nuca por entre os cabelos. Teve que se forçar a abri-los e se abster do toque. – Você não sabe o que está dizendo, Malfoy! – ela se afastou dele de uma vez, em direção a porta.

Eu também já tentei me convencer disso, Hermione, mas desisti. – ele não saiu do lugar, confiante de que ela ficaria curiosa, ao menos, por ouvir o resto de suas palavras. – Você não sai da minha cabeça há dias. – ele caminhou na direção dela, que estava parada com a mão na maçaneta. – Eu devo ser o primeiro paciente que fica desapontado por estar completamente curado! – ele riu de si mesmo. – E faz tempo que eu percebi que o ódio que sinto do Weasley não tem mais nada a ver com o fato dele ser amigo do Potter ou um Weasley, simplesmente. – ele a segurou pelo braço e a forçou a se virar de frente para ele. – Eu sei que você está sentindo algo parecido.

Você não sabe nada dos meus sentimentos, Malfoy. – ela disse apenas, mas sem conseguir olhá-lo. – Portanto não fique brincando com eles! – ela o olhou então. – Eu não sou uma das menininhas bobas que te achavam o máximo na escola!

Não é mesmo! – ele concordou. – Porque se fosse não teria despertado em mim isso que eu estou sentindo agora, e que eu nunca senti por ninguém. Você é diferente e foi por isso que eu me... – ele hesitou.

Será que estava se precipitando? Aquilo era tão novo para ele. Era algo com que ele não sabia como lidar. Seria muito mais fácil se ele a visse como mais uma garota bonita que merecia uma chance de ir para a cama com ele.

Hermione sorriu. – Você foi quase convincente. – ela soltou o braço da mão que ainda a segurava. – Mas mesmo que tivesse me convencido, não significaria que eu estivesse sentindo o mesmo por você. – ela abriu a porta.

Mas está! – Draco colocou-se na frente dela, empurrando a porta com uma das mãos. – Admita, Granger! Você também está apaixonada por mim, não está?

Não diga besteiras! – ela tentou forçar a porta, mas não conseguiu.

Olhe para mim quando nega! – ele exigiu, num tom mais alto do que deveria. Hermione realmente o olhou, mas surpresa com aquele tom. – Você não tem idéia do quanto isso é difícil para mim! Admitir que estou apaixonado, ainda mais por uma pessoa que eu prometi odiar desde o primeiro dia que vi. Por alguém que eu aprendi que era inferior a mim. Que nem ao menos poderia ser chamada de bruxa!

Essa é sua idéia de declaração, Malfoy?! – Hermione perguntou, irônica.

Você me entendeu, Granger! – ele quase perdeu a paciência. Aquela não era uma situação confortável para ele. – Eu estou te dizendo com todas as letras que me apaixonei por você deixando para trás tudo que um dia me convenceram de que era certo! Eu estou me abrindo para você e, mesmo que nunca tenhamos tido muito contato nesses anos em que nos conhecemos, aposto como você sabe que isso não é fácil para mim! – ele se afastou dela, pouco acostumado com aquele novo Draco. Apoiou as mãos na maca, suspirou, e notou que talvez estivesse indo pelo caminho errado. Virou-se para ela novamente e, parecendo estar fazendo um esforço e tanto para ser sincero, falou: - Eu te amo, Hermione.

Ele não esboçou o menor sorriso, não desviou o olhar, estava completamente, sério, completamente sincero. Conseguira mexer com ela. Hermione ficou olhando para ele, perdida, surpresa, confusa. Não conseguiu manter contato visual por muito tempo, mas, pelo menos, desistira da porta.

Diga alguma coisa. – ele pediu. – Qualquer coisa!

O-o que você quer que eu diga? – a voz dela saiu fraca, desnorteada. – Eu... Nunca imaginei ouvir isso... De você...

Eu nunca me imaginei dizendo isso para você! – ele voltou a se aproximar, aliviado, mais leve. – Nunca imaginei dizer isso para mulher nenhuma, mas, definitivamente, muito menos para você. – ele levantou o rosto dela, que ainda estava baixo. – Mas eu estou dizendo e, agora que eu finalmente admiti em voz alta, não tenho dúvida nenhuma de que é de verdade. – ele se animou a sorrir.

Mais uma vez era aquele sorriso sincero, tão difícil de ver no rosto dele, mas que Hermione já aprendera a reconhecer. Foi a vez dela sentir o coração bater mais forte, as mãos suarem, e ter vontade de retribuir o sorriso.

A expressão dela foi o sinal verde que Draco esperava para poder tocá-la. Com um sorriso maior e mais calmo ele tocou de leve o rosto dela, enquanto aproximava sua boca da dela. Hermione, por sua vez, esquecera-se de tudo no "mundo real". Fechou os olhos e esperou, ansiosa, o toque dos lábios dele.

E quando suas bocas se tocaram foi como se, realmente, nada mais existisse, apenas os dois. Apenas o corpo um do outro. Uma das mãos de Draco que a puxava pela cintura para mais perto, a outra mão que viajava do rosto até a cintura, para diminuir mais ainda a distância. A mão de Hermione que tocava a nuca dele, enquanto a outra tinha que se contentar em segurar a maletinha de poções. As línguas que se tocavam tão arrebatadoramente. A respiração que ia ficando mais difícil.

Draco ainda não estava contente. A queria por inteiro. Escorregou a mão pelo braço dela até encontrar a mão que segurava a maleta e então tomá-la de Hermione e jogá-la de qualquer jeito por ali mesmo. Hermione tentou protestar, mas não tinha chance contra ele, que agora a empurrava de encontro à parede. Se não tinha como resistir, ia aproveitar. Usou a outra mão para tocar também o rosto dele, as costas, os cabelos. Cabelos ruivos? Definitivamente não.

A força veio do nada, e ela pode afastá-lo então, ofegante, culpada. - Não podemos fazer isso, Draco! Não está certo! – ela correu em direção a maletinha para ter certeza que nenhum frasco tinha se quebrado, como se nada tivesse acontecido até então.

O quê? O que foi, Hermione? – Draco perguntou completamente inconformado. – Por que não podemos?!

Por quê?! – ela o olhou, atordoada, depois de ver que nada havia se quebrado. – Por causa do Rony, talvez?! – ela falou agressiva, sentindo-se mal pelo que havia feito.

Ah! Isso! – ele bateu as mãos nas pernas, respirando aliviado. – Termine com ele, oras! Diga que não sente mais nada por ele e que quer ficar comigo! – ele respondeu tranqüilamente.

Draco! – Hermione exclamou, inconformada. – Não é assim que as coisas funcionam! Eu não posso, simplesmente, dispensar o Rony para ficar com você!

Por que não?! – ele levantou os ombros, admirado.

Você só pode estar brincando! – ela se forçou a rir, incrédula.

Não estou não. – ele usou um tom mais sério. – Você não o ama mais. Vai continuar com ele por que? Termine de uma vez! Se quiser eu mesmo falo com ele...

Não! Ficou maluco?!

Eu não tenho medo dele!

Não se trata de medo! Trata-se de respeito, de amizade! Eu posso não gostar mais do Rony como antes, mas ainda gosto muito dele como amigo. Além disso, têm todos os outros... – ela apoiou a maletinha numa mesa próxima e começou a esfregar as mãos. – Ninguém vai entender...

Sinceramente? Não dou a mínima! Não devemos nada a nenhum deles!

Não é bem assim, Draco... São meus amigos. Praticamente minha família. E o Rony... Ele ainda é muito importante para mim, mesmo que não como antes.

O que você quer fazer então? Esquecer tudo que aconteceu aqui e continuar com o Weasley por pena? Por medo?

Não! – ela exclamou, revoltada. – Puxa vida! Por que é tão difícil para você entender isso?

Porque você pensa demais nos outros. – ele caminhou até ela. – E eu estou pensando em nós! – ele tentou abraçá-la pela cintura. Beijá-la, talvez, como forma de convencê-la mais rapidamente.

Não Draco! – mas ela não permitiu. – Eu ainda sou namorada do Rony e isso não é certo!

Draco suspirou, impaciente. Pouco se importava com Rony e, para falar a verdade, ele bem que gostaria que Rony pegasse os dois juntos. Seria um troco e tanto por todas as vezes que ele pegou Rony e Hermione se beijando. Mas ele já esperava por essa reação de Hermione. Ficaria espantado se a reação fosse outra.

Não vai acontecer de novo. – ela falou então, chamando para si olhos cinzentos e arregalados.

A-até você falar com ele, certo? – ele perguntou, ela não respondeu, apenas baixou a cabeça. - Você ainda tem alguma dúvida do que eu sinto por você, Hermione? Porque eu não tenho! Assim como não duvido que você sinta o mesmo por mim. Esse beijo que demos disse tudo! – ele parou para analisar a reação dela. – E beijar o Weasley nunca mais será como antes. Você sabe.

Ela baixou o rosto novamente, pensativa. – Eu preciso de um tempo... Tempo para pensar nisso tudo e... – ela o olhou. – Tempo para falar com ele...

Draco sorriu. - Ok. Sem problemas. – falou, satisfeito, mais uma vez tentando beijá-la.

Ainda não, Draco, é sério! – ela desviou dele. – Eu vou tentar... Não demorar muito... – prometeu. – Agora é melhor eu ir. Ele deve estar me procurando.

Um beijo de despedida. Só isso! – pediu.

Ela sorriu e negou com a cabeça, abrindo a porta de uma vez para que ele não se encorajasse.

Pelo menos diz o que eu fiquei esperando. – tentou então. – Para eu ter certeza de que você não vai desistir.

Hermione o olhou meio confusa, então entendeu o que ele queria. Apenas sorriu antes de fechar a porta atrás de si, deixando-o sozinho novamente. Ele não precisou de palavras. Aquele sorriso havia dito tudo. Ela não ia desistir. Talvez demorasse mais tempo do que ele gostaria, mas não desistiria.

b Fim do flashback /b

Impossível não ter lembranças naquele lugar. Aliás, era tudo que Hermione estava tendo desde que voltara a Inglaterra. Naquele momento, debruçada sobre aquela cerca velha, olhando para aquela casa assustadora, não havia como não se lembrar daquele ano, o terceiro ano em Hogwarts, em que Draco perguntaria a Rony se ele estava pensando em comprar aquela casa para morar lá com Hermione. Mal sabia ele... Ela não pode deixar de rir das ironias do destino.

Cheguei a achar que você não viria. – Rony chegara há algum tempo, mas hesitou em falar com ela de cara. Preferiu olhá-la por um tempo, tentar adivinhar os pensamentos dela. Quando viu que não conseguiria, falou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

Ela parou de rir na hora com o susto que levara. – Rony!

Não queria te assustar. Desculpe. – ele sorriu ligeiramente e parou ao lado dela, também olhando a velha Casa dos Gritos. – Do que você estava rindo?

Hum... Do susto que Harry nos deu aqui anos atrás, se lembra? Com a capa da invisibilidade. – disfarçou, embora aquela lembrança viesse atrelada à outra e também merecesse riso.

E como! Principalmente da cara do Malfoy! Apavorado, com medo do tal fantasma. – Rony riu com vontade.

Hermione sorriu ligeiramente, mas então ficou séria. Falar de Draco, exatamente naquela hora não foi uma boa. Rony percebeu o que fizera e também se calara. Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos, ambos imaginando quem daria o primeiro passo. Rony o fez, da pior maneira possível.

Também me lembro dele te chamando de sangue-ruim. – fechou a cara. – Várias vezes!

Isso faz parte do passado, Rony. – ela respondeu, ríspida. – Goste você ou não ele mudou!

Parece que é especialidade dele. Tanto que você está aqui hoje. Aceitou meu convite para conversarmos sobre nós. – ele a encarou. Sinal de que também havia mudado muito.

Exato! Então vamos falar de nós, não dele! – ela virou-se de frente para ele também.

O que... O que você decidiu? – Rony perguntou, inseguro.

O que eu decidi? – Hermione sorriu notando que, no fundo, ele não mudara tanto assim. – Eu não decidi nada. Isso não é o tipo de coisa que se decide de uma hora para outra.

Bom... Eu tenho certeza do que quero. – ele a olhou, firme. – E eu quero você, Hermione! – para em seguida abraçá-la pela cintura.

Rony... – ela não queria, mas retribuiu ao abraço, assim como não queria, mas retribuiu àquele beijo no quarto dele.

Não há tanto assim no que pensar, Mione. Você não está feliz. Qualquer um nota!

Mas e você? – ela afastou apenas o rosto para poder olhá-lo. – Você me parecia muito contente.

Eu estava. – ele respondeu, sincero. – Então fiquei confuso, mas agora estou seguro da minha decisão, Mione. – ele encostou a cabeça dela em seu peito e ficou fazendo carinho em seus cabelos. – Eu gosto muito da Luna e me dói muito fazê-la sofrer, mas vai ser melhor assim. Imagine me casar e não conseguir fazê-la feliz?

Aposto como você a faria. – ela disse.

Concordo. – ele sentiu-a se surpreender em seus braços. – Mas não sabendo que havia uma chance de voltar para você. Sabendo que você não está feliz com o Malfoy, que estaria a ponto de se separar, quem sabe? Sabendo que eu poderia te fazer feliz e deixar a Luna livre para alguém que a merecesse mais que eu.

Onde foi que esse Rony se escondeu todos esses anos, hein? – ela teve que rir, para disfarçar a culpa e a tensão do momento.

Ele sorriu de volta. – Ele nunca esteve escondido, só amadureceu.

Ela suspirou, soltou-se dele e voltou a se apoiar na velha cerca, mirando a ruína. – E se isso tudo for um engano? E se estivermos nos deixando levar pelas emoções do momento? E se no fim você perceber que não me ama realmente? Faz tanto tempo, Rony. Seria normal ficarmos balançados um com o outro depois de tudo que vivemos, mas será que isso ainda é amor? O amor que sentíamos na adolescência?

Com certeza não. É um amor mais maduro, mais consciente, mais pronto! – ele respondeu. Todo mundo sempre disse que acabaríamos juntos, Mione. Quem sabe essa é nossa chance? – ele passou a mão pelos cabelos dela.

Não vai ser tão simples... – ela suspirou, apreciando o toque dele. – Você vai se casar em menos de uma semana. O trauma vai ser grande para a Luna. E tem as crianças. Elas nunca entenderiam.

Um dia vão entender.

E você se sentiria à vontade criando os filhos dele? Porque eu nunca abriria mão dos meus filhos.

Rony pensou um pouco antes de responder. Seria muito mais fácil sem elos tão fortes com Malfoy, mas não seria impossível. – Hum... O Apus vai dar trabalho... – ele bagunçou os próprios cabelos. – Mas para não perder essa chance que a vida está nos dando eu aceito o desafio! – ele sorriu.

Falar é muito mais fácil que fazer, Rony. – Hermione sorriu também, mas alertou.

Eu não vou desistir de você de novo, Mione. – dessa vez ele colocou as duas mãos no rosto dela, acariciando-a, para, aos poucos, aproximar seus rostos.

Não, Rony! – ela o afastou. – Eu ainda sou casada, e você ainda é noivo. Vamos resolver nossa situação primeiro.

Então você se decidiu? – ele sorriu, apesar de não ter podido concluir o beijo.

Acho que sim... – ela falou, insegura. – Mas temos que fazer tudo direito, Rony. Eu tenho que conversar com as crianças, falar com o Draco...

Você não vai poder esperar até voltar para a Alemanha. Tem que falar com ele logo, antes do casamento!

Assim como você! Converse com a Luna também. E não adie muito, Rony. Se quiser vou com você.

Acho que devo conversar com ela sozinho... – ele suspirou, sentindo-se mal por antecedência.

Entendo... – ela suspirou também, imaginando como seria falar com Draco sobre divórcio.

Bom... Agora eu tenho que ir. Voltar ao trabalho. – ele sorriu, animado apesar da responsabilidade que teria. Inclinou-se para ela em busca de seus lábios, mas ela apenas se afastou. – Um beijinho de nada, Mione! – ele reclamou.

Não é certo, Rony. Você sabe. – sorriu, carinhosa.

Ok então. – ele desistiu para ficar apenas observando-a, encantado. – Quando... Quando você percebeu que sentia algo por ele... – ele começou, inseguro. – Também esperou?

Que pergunta, Ronald! – ela chiou. – Lógico! Jamais faltaria com respeito a você, à nossa amizade, assim como não vou faltar com respeito aos meus filhos e aos anos que vivi com ele.

Certo, certo. Já entendi! – ele levantou as mãos na defensiva. - Até mais tarde, então.

Até... – ela esperou que ele aparatasse, então se virou novamente para a casa e ficou observando-a ainda por um tempo. Refletindo sobre a decisão que tomara. Pensando em qual seria a melhor maneira de falar com Draco, contar as crianças. Não seria nada fácil.

hr

"DRACO"

Era assim que a carta começava, e assim que acabava também, pelo menos até àquela hora. Hermione voltara para casa com a cabeça cheia, pesando todos os momentos que vivera com Draco e com Rony, durante as últimas semanas. para ter certeza de que tomara a decisão correta. Depois se sentara à mesa da cozinha e tentara começar a carta que o iniciaria no assunto. Ela só não tinha idéia de que aquilo poderia ser tão difícil, mesmo por carta, ou talvez, principalmente por carta.

Nós não vamos à casa da vovó Weasley hoje mamãe? – Helena adentrou a cozinha ansiosa, toda arrumada para sair.

Não sei por que temos que ir lá quase todos os dias. – Apus entrou em seguida, também arrumado, mas não porque queria sair, só porque já gostava de estar sempre asseado. – Por que não podemos fazer algo diferente? Só nós três? Ou, melhor ainda: por que não voltamos para casa?! – arriscou.

Não vou nem responder à sua última pergunta, Apus, mas até que a idéia de fazermos algo, só nós três, não é ruim. – ela sorriu.

Só nós três vai ser chato! – Helena discordou. – Ainda se o papai estivesse aqui, mas já que ele não está eu quero ir para a Toca ficar com o tio Harry e os tios Weasley.

Hermione não pode deixar de sorrir ao vê-la falar daquela maneira. Talvez não fosse tão difícil afinal, pelo menos não com ela. – Você gostou mesmo deles, não foi? – perguntou colocando-a no colo.

Gostei mamãe! – a menina respondeu entusiasmada. – O tio Harry é muito legal e o tio Rony muito engraçado, mas eu ainda prefiro o papai.

O coração de Hermione pulou em seu peito. Será que estava sendo tão óbvia? – Como assim? Eu não disse que tinha que gostar mais deles!

Eu sei. Falei por falar. – a menina sorriu.

Pois eu não gosto de nenhum deles, só do papai! – Apus falou então, dando a volta na cadeira de Hermione para arranjar também um espacinho no colo dela. – O que é isso? Estava escrevendo para o papai? – ele puxou o pergaminho com a mãozinha.

Hermione deu graças a Deus por não ter começado a escrever nada. – Tentando. – respondeu.

Você também está com saudade dele, não é? – Helena perguntou. – Eu estou. Morrendo de saudade!

Eu também! E é por isso que eu digo que deveríamos ir embora!

Nós não vamos embora, Apus. Convença-se disso! – Hermione insistiu. – E pare de fingir que não está gostando do passeio! Você só está reclamando para não perder o costume, não é? Admita que você sente falta de ter garotos da sua idade para brincar, e aqui você tem um monte!

Preferia estar em casa com o papai! – ele retrucou, indiferente.

Eu ainda não quero voltar para casa, mas queria estar com o papai. – Helena puxou então o pergaminho para perto de si. – Vou escrever para ele de novo, pedindo para ele vir para cá mais uma vez. – ela puxou o tinteiro também e a pena.

Isso! – Apus concordou. – Escreva aí para ele vir para cá nos levar embora!

Eu não vou escrever isso! Quero que ele fique aqui para assistir o casamento do tio Rony conosco! – Hermione prendeu a respiração por alguns segundos. – Escreva sua própria carta.

Eu vou mesmo! – Apus respondeu. Pulou do colo de Hermione e saiu pela casa procurando pergaminho e pena.

Hermione apenas respirou fundo, pensando em como resolveria aquela situação.

hr

Você mandou a carta? – Rony perguntou a ela na primeira oportunidade que teve.

Eles estavam na Toca, para variar, e Rony a convidara para uma partida de xadrez, com a desculpa de descobrir se ela realmente havia aprendido o jogo. Os outros, com a proximidade do casamento, sempre arrumavam algo para fazer, de modo que ambos ficaram sozinhos numa das mesas de madeira do quintal. A vista de todos, mas onde ninguém poderia ouvi-los.

Não pude. Helena e Apus chegaram na hora em que ia começar e se apossaram do pergaminho e da pena para escreverem as próprias cartas para ele. – ela apoiou o cotovelo na mesa e olhou em direção aos filhos.

Helena brincava com bonecas enfeitiçadas em uma mini cidade que havia montado com as novas amigas. Apus sobrevoava a Toca disputando o pomo com os outros garotos que estavam ali.

Eles realmente estão sentindo falta dele. Me dá pena. Ele bem que poderia dar algum sinal de vida, não é? Pelo menos pelas crianças! – desabafou, revoltada.

Eis o verdadeiro Malfoy. – Rony murmurou.

E você? Já falou com a Luna? – ela ignorou o comentário.

Ainda não. – foi a vez dele olhar em volta. Luna estava junto de Gina e da sra Weasley fazendo os últimos arranjos para a decoração da festa. – Toda vez que tento ela vem com alguma novidade a respeito do casamento e aí eu perco a coragem... Mas eu vou falar! – apressou-se. - Só preciso pegá-la num momento em que ela não esteja pensando na cerimônia.

Vai ser meio difícil, não acha? – Hermione perguntou sarcástica. – Você vai ter que aproveitar o gancho do assunto para dizer que não quer mais se casar, ou será que você se arrependeu? – sondou.

Claro que não! – Rony respondeu prontamente. – Tenho plena certeza do que quero. E você? Tem certeza também?

Claro que...

Papai!

O grito de Apus impediu que ela terminasse a frase. Ela ainda tentou se convencer de que poderia ser qualquer um dos outros meninos, mas a cara de Rony olhando para a entrada da casa não deixava dúvidas. Seu coração estremeceu numa mistura de sensações.

Papai! – Helena apenas confirmou a situação.

Apus saltou da vassoura sem medo de se machucar e correu em direção ao pai. Draco estava, na verdade, olhando para mesa em que Hermione jogava com Rony, mas não teve dificuldades em desviar a atenção para sua miniatura que corria com um sorriso enorme em sua direção. Ele sorriu também. Curvou um pouco o corpo apenas para poder pegar o menino no colo e abraçá-lo ternamente.

Helena também abandonou a brincadeira e foi em direção ao pai, nem tão afoita, mas não menos feliz.

Você veio! – exclamou quando chegou perto deles. – Eu estava morrendo de saudades! – contou. – Larga ele, Apus. Também quero um abraço!

Sai pra lá, Helena! – Apus tentou afastá-la com o pé.

Hei, não faça isso com sua irmã, Apus. – Draco pediu. Ajoelhou-se para por o menino no chão e abraçar a filha. – Também estava morrendo de saudades, princesa. – ele disse carinhoso. – Dos dois! – falou logo.

Por que você demorou tanto, papai? Você perdeu um monte de coisas legais por aqui! – Helena falou.

Imagino. – Draco respondeu, irônico, com um sorriso torto nos lábios.

Você veio para nos levar embora, não foi? Quando é que partimos? – Apus perguntou, ansioso.

Ainda não conseguiu gostar do lugar, Apus? – ele perguntou satisfeito.

Ele está só enchendo o saco! Agora mesmo ele estava se divertindo muito com os sobrinhos do tio Rony! – Helena falou.

Tio? – Draco perguntou, desgostoso.

É pai! Mamãe falou que o tio Harry e o tio Rony são como irmãos para ela, então são nossos tios!

Levantou-se e olhou novamente para a mesa em que Hermione ainda permanecia, agora olhando para ele como se não acreditasse no que via. Não foi nada agradável para ele ver Rony e Hermione sozinhos, ainda que diante de tantas pessoas. O ciúme invadiu seu coração, mas ele não se sentia no direito de reclamar diante do que ele achava que havia feito quando ficara sozinho na Alemanha. Tinha esperança de que suas grosserias e a demora em ir se juntar a ela não tivessem feito o amor dela acabar completamente. Estava disposto a retomar o amor que os uniu anos atrás.

Só seus! – Apus resmungou.

Hum... Se ela disse... – ele falou, pouco atento, voltando à atenção para a esposa.

Hermione não tinha mais como evitar. Todos haviam parado para ver a recepção que as crianças haviam feito para Draco, agora esperavam que, naturalmente, sua esposa também festejasse sua chegada. Hermione lançou um último olhar preocupado a Rony e levantou-se, antes de vê-lo derrubar seu próprio rei.

Ela caminhou até Draco, enquanto todos os outros fingiam voltar aos seus afazeres. Era tão estranho vê-lo ali, parado em frente à casa dos Weasley, sorrindo para ela. Seu coração batia acelerado, as mãos começaram a suar. O que ele estava pensando? Que estava tudo resolvido só porque ele havia, finalmente, dado o braço a torcer?

Draco? – ela falou com a voz insegura. – O que você está fazendo aqui?

O que você acha? – ele sorriu sedutor, levando uma das mãos ao rosto dela. – Não agüentei a saudade. – então puxou o rosto dela em direção ao seu e a beijou.

Hermione não teve reação. Perdeu o controle do próprio corpo quando sentiu a mão dele tocar seu rosto. Deixou-se atrair pelas mãos dele e tocou-lhe os lábios com os seus. Seu coração descompassou de vez. Quão bom e quão estranho era sentir de novo os lábios dele, as mãos dele em seus cabelos, o cabelo dele em suas mãos, o perfume dele, tão intenso agora que estavam tão próximos.

Apus e Helena olhavam um para o outro e seguravam o riso, assim como Gina e Luna que agora os observavam ao longe. Harry olhava do casal aos beijos para o amigo, ainda parado no mesmo lugar, olhando a cena com o olhar estático e nervoso.

Quando os dois se separaram Luna decidiu, como anfitriã da festa que aconteceria em poucos dias, ir recepcioná-los. Levantou-se de onde estava e, antes de se aproximar deles, resolveu chamar Rony para ir com ela, mas ele não estava mais à mesa. Na certa havia ido ao banheiro ou algo assim. Luna jamais imaginou que poderia ficar tão contente por ver Draco Malfoy novamente, mas ficou.

Draco! – aproximou-se do casal, animadíssima. – Que bom que você veio!

Draco olhou para ela com estranheza diante de recepção tão calorosa, e mais ainda porque não tinha a menor idéia de quem era aquela loira de traços tão inocentes e grandes olhos azuis.

Loony Lovegood?! – ele perguntou, incrédulo.

Luna! – Rony o corrigiu, ríspido, surgindo do nada, para desespero de Hermione.

Não tem importância! – Luna falou então, estendendo a mão para cumprimentá-lo. – Há quanto tempo. Achei que nunca mais o veria, mas estou realmente feliz que você tenha decidido vir à nossa festa.

Eu não perderia esse casamento por nada, Lovegood. – ele sorriu irônico, olhando para Rony agora, com a mão estendida, disposto a ser educado.

Me chame de Luna. Não há motivos para tanta formalidade. – Luna enlaçou o braço esquerdo de Rony. Seu sorriso ia de orelha a orelha, e não passou despercebido por Hermione.

Draco ainda ficou alguns segundos com a mão estendida antes que Rony, disposto a não bancar o mal educado da vez, aceitasse apertá-la.

Meus parabéns pelo casamento, Weasley! – ele sorriu, provocador. – Desejo que vocês sejam muito felizes. Tanto quanto Mione e eu. – ele passou o braço pelos ombros da esposa e a puxou para mais perto.

Com certeza. – Rony falou apenas, louco de raiva.

Ai! Não chama o tio Rony de Weasley, papai, ou as coisas vão ficar bem confusas! – Helena falou então. – Vem ver o tio Harry, a tia Gi e os vovôs Weasley! – ela falou animada, puxando-o pela mão, louca para mostrar a todos que seu pai estava ali.

Vovôs? – Draco murmurou para Hermione, pouco satisfeito.

Ela apenas balançou os ombros, sem saber o que falar. Rony devolveu o sorriso provocativo. Todos seguiram para o centro do jardim, onde se encontrava a maioria dos Weasley.

Draco não estava nada contente, mas prometeu a si mesmo que ia fazer o melhor que pudesse para ser educado com todos. Sua vontade era a de aparatar dali com Hermione para um lugar onde pudessem ficar sozinhos, mas ele sabia que aquilo não seria possível ainda.

Todos por ali pareciam estar tão dispostos quanto ele a serem muito educados. Todos o cumprimentaram cordialmente e o sr Weasley até o convidou para tomar uma dose de Firewhisky, de ótima qualidade, para espanto de Draco, enquanto contava sobre como iam os negócios na Alemanha. Ele foi obrigado a passar a tarde inteira na Toca, mas estava disposto a qualquer sacrifício para agradar Hermione.

Quando o dia finalmente acabou e Hermione percebeu que não agüentaria mais assistir Draco e Rony se alfinetando discretamente, nem os olhares irritados que Rony lhe lançava cada vez que Draco a tocava e ela não fazia nada, a família, dessa vez completa, pode pegar a chave de portal e voltar para a casa dos Granger.

Eu estou tão feliz que você tenha vindo, papai! – Helena dizia, saltitante, segurando uma das mãos dele.

Eu também! – Apus falou, segurando a outra. – Agora podemos, finalmente, voltar para casa!

Voltar? – Draco perguntou, agora bem humorado. – Não sem assistir à cerimônia! Foi para isso que você vieram, não foi? – ele virou-se para Hermione, sorrindo. – Para conhecer os melhores amigos de sua mãe e ver um deles se casar. E pelo que notei, teremos que voltar logo para ver o Potter se casando também, não?

Quem sabe... – Hermione falou apenas, sentindo-se completamente atordoada.

Vovó! Vovô! Adivinhem quem chegou! – as crianças entraram correndo em casa para contar a novidade.

Oh! Voltaram cedo hoje! – a sra Granger veio da cozinha, de avental, recepcionar os netos. – Oh! – ela se espantou, ao mesmo tempo em que se sentiu envergonhada por receber o genro naqueles trajes. Não por ser seu genro, mas por ser Draco Malfoy. Apesar de não ser bruxa e de ter pouco contato com eles, ela conhecia a história dos Malfoy. Forçou-se a isso quando Hermione contou que ia se casar. – Draco? Que surpresa! – ela secou a mão no avental e estendeu-a a ele.

Como vai, sra Granger? – ele retribuiu o aperto de mão e sorriu, tentando parecer simpático. Apesar de estar casado com uma nascida-trouxa, Draco ainda não conseguia simpatizar-se completamente com trouxas.

Draco Malfoy! – o pai de Hermione surgiu também para cumprimentá-lo. – Pensei que só voltaria a te ver no dia do casamento de um dos meus netos, se é que seríamos convidados. – ele sorriu, irônico, e estendeu também a mão a ele.

Não é por falta de convites que vocês não nos visitam mais vezes na Alemanha. – ele respondeu cordialmente, sorrindo para o sogro que nunca fora com sua cara.

Que bom ver toda família reunida, não é? – a sra Granger, interveio. – O jantar está quase pronto, Draco. Querido ofereça algo para ele beber. Você me ajuda, Hermione?

Claro mamãe. – Hermione respondeu com o mesmo entusiasmo que respondera a tudo a tarde toda.

O jantar foi servido pouco tempo depois. Apus e Helena eram os mais falantes. Pareciam querer descrever as duas últimas semanas de uma vez só durante o jantar. Apesar de ainda não estar exatamente como gostaria, Draco estava se sentindo bem e feliz por estar com eles novamente, e longe de Sophie.

Draco, querido, onde estão suas malas? Não vi você chegar com nada. – a sogra perguntou quando as histórias das crianças pareciam ter se acabado.

Eu as deixei num hotel em Hogsmeade, sra Granger. – ele falou, preparando as milhares de desculpas que daria para recusar a estadia na casa dos Granger.

Um hotel?! Quer dizer que você não vai se hospedar aqui com a Hermione? – ela perguntou espantada.

Eu não queria incomodá-los, sra Granger. – ele começou. – E, além do mais, esperava que Hermione viesse para o hotel comigo. – ele a olhou ternamente e sorriu.

Oras, Draco! – Hermione desviou o olhar do dele. – Por que ficar num hotel se podemos ficar aqui na casa dos meus pais? Além disso, não deixaria as crianças dormirem num quarto de hotel sozinhas.

E quem disse que o convite se estendia a elas também? – o sr Granger interferiu espantando a todos. – Aposto como vocês têm muito que conversar, não têm? As crianças podem ficar aqui conosco.

Hermione e a mãe olhavam para ele sem entender aquela atitude. Era sabido que ele nunca aceitara muito bem o casamento de Hermione. Talvez preferisse mesmo que ele acabasse. Draco sorriu para o sogro, em agradecimento, embora não esperasse receber sorriso nenhum de volta.

O que foi? – o sogro perguntou diante das expressões confusas da mulher e da filha. – Aposto como as crianças concordam que mamãe e papai têm que passar um tempo juntos e sozinhos, não é? – ele piscou para Helena, que piscou de volta.

Nós vamos ficar bem aqui, mamãe! – ela falou.

Eu não quero ficar aqui sozinho. – Apus reclamou.

Você não vai estar sozinho, e amanhã cedo voltamos e poderemos passar o dia inteiro juntos. – Draco tentou convencer o filho.

E por que vocês não podem ficar juntos aqui?!

Porque aí íamos querer ficar acordados até tarde para ficar com o papai e não os deixaríamos conversar! – Helena respondeu, para depois se inclinar para cochichar ao ouvido do irmão. – E também para eles fazerem as pazes, ou você quer que eles continuem brigados?

Eles estão brigados? – o menino perguntou em voz alta, a despeito da descrição que a irmã tentara ter.

Ai! – Helena bateu a mão na própria testa, arrancando riso de todos, até mesmo de Hermione.

Não estamos brigados, meu bem, mas precisamos mesmo conversar. – Hermione pronunciou-se finalmente. – Voltamos para tomar café com vocês, ok?

Não vai adiantar se eu não concordar, não é?! – ele respondeu, mal educado. – Mas amanhã você vai ter que ficar o dia inteiro comigo, papai!

E comigo também! – Helena protestou.

Com você não! Você pode ir para a Toca brincar de boneca!

Eu não quero ir para lá. Também quero ficar com ele!

Crianças, crianças! – Draco as repreendeu. – Vamos passar o dia inteiro juntos amanhã. Os quatro.

Não é justo! Elas nem estavam sentindo sua falta! Só queriam saber de ficar naquela Toca velha e feia! – o menino soltou os talheres sobre o prato e tirou o guardanapo do colo. Levantou-se da mesa, impetuoso, e subiu as escadas correndo.

Que gênio! – Hermione murmurou, revirando os olhos.

É mentira dele, papai. – Helena tratou de se defender. – Nós estávamos sentindo muito sua falta! – ela se levantou também e foi aconchegar-se no colo do pai. – Mas você não estava aqui, então ficávamos na casa da vó Weasley. – explicou, inocentemente.

Eu sei, Lena. Não se preocupe. – ele beijou o rosto dela. – Se me dão licença, vou conversar com ele. – Draco levantou-se e deixou a filha sentada em seu lugar. – O jantar estava ótimo, a propósito, senhora Granger. E esse vinho é realmente ótimo, sr Granger. Foi uma boa escolha.

Obrigado. – o homem respondeu, satisfeito com o elogio. Draco pediu licença mais uma vez e subiu as escadas atrás do filho. O sogro ficou observando-o se afastar. – Ele não é tão mau, afinal!

O senhor também não gostava do meu pai, vovô? – Helena se espantou.

Hum... Não foi o que eu disse. – o homem ficou envergonhado. – Eu só não tive tempo de conhecê-lo direito. Ele e Hermione sumiram para a Alemanha assim que a guerra acabou e ele estava sempre trabalhando nas poucas vezes em que fomos para lá. – olhou para Hermione, acusador.

Se você já terminou, querida, por que não vai se preparar para dormir? – a avó falou, delicadamente, à neta.

Já vi tudo! Uma conversa de adultos, não é? Tudo bem. Estou mesmo com sono. – Helena levantou-se elegantemente da mesa e, depois de dar um beijo de boa noite nos três, subiu as escadas, conformada.

Procure ter paciência com ele, querida. Aposto como ele vai te explicar exatamente por que não veio antes. – a mãe tentou.

Eu sei por que ele não veio antes, mamãe. Porque os negócios e o dinheiro vêm sempre em primeiro lugar para os Malfoy.

Não seja tão dura, Hermione! – o pai ralhou. – Um homem tem que prover o sustento da família. Deixe-o te contar o que aconteceu primeiro, depois tire suas conclusões!

Sinceramente, não estou te entendendo, papai. – ela falou.

Eu vi o jeito como você chegou aqui semanas atrás, e acho realmente que vocês têm muito que conversar. Além do mais, você o escolheu, não foi? – ele baixou muito o tom de voz. - Preferiu ele ao Rony, que todos conhecíamos tão bem. – então voltou ao tom normal. – Casamento não é produto com prazo de validade e nem pode ser devolvido por não ser exatamente o que você esperava.

Seu pai está certo, querida. Sei que você está magoada, mas pense nos seus filhos, e em todos os outros envolvidos nessa história. – a mãe pousou a mão sobre a dela, carinhosamente.

Do... Do que é que vocês estão falando? – Hermione tentou disfarçar a tensão que se apossara dela. Parecia que seus pais sabiam de tudo que acontecera nos últimos dias.

Não somos bobos, Hermione. – o pai sorriu para ela. – Conhecemos bem a filha que colocamos no mundo.

Não sei do que vocês estão falando! – ela se levantou, nervosa. – Vou arrumar minhas coisas para levar ao hotel. Com licença.

Os pais não disseram nada, apenas observaram-na se afastar, com aquela expressão de quem sabe tudo que se passa no coração daqueles que amam.

hr

Estou feliz que tenha aceitado vir comigo para cá. – Draco tentou iniciar uma conversa assim que chegaram ao quarto onde ficariam hospedados.

Hermione não havia dito uma palavra até então, desde que haviam deixado a casa dos pais dela. Ao entrar no quarto apenas colocou sua pequena mala ao lado da cama e ficou olhando o local.

Nunca tinha ouvido falar desse lugar. – falou, indiferente. – Bonito.

É novo. Srta Marins fez as reservas para nós. – ele tirou o casaco e jogou sobre uma cadeira. Teria que estudar a melhor maneira de conversar com ela, diante do gelo que ela estava dando nele.

Hum... – ela encostou-se na penteadeira de frente para ele com os braços cruzados e a cara fechada. Parecia fazer um esforço grande para parecer mais brava do que estava realmente. – Você está tão magro! – exclamou então, não conseguindo esconder certa preocupação.

Draco sorriu ligeiramente ao ver ali a Hermione que cuidara dele anos atrás, quando ainda o odiava. – Passei por dias difíceis lá na firma. – ele sentou-se na cama então, achando que ele teria a chance de se explicar, afinal.

A firma. Sei. Esse foi, então, o único e real motivo para você não ter vindo para cá antes, apesar de seus filhos e eu termos pedido tanto? – perguntou agressiva.

Hermione sei que você não aceita isso, mas eu não podia viajar e abandonar a empresa na situação em que se encontrava. – ele levantou-se e foi até ela, que não deixou que ele a tocasse, afastando-se dele.

Saiba que eu só aceitei vir para esse hotel com você porque precisamos, realmente, conversar seriamente, Draco! – falou, pouco segura, de costas para ele. – Eu tive muito tempo para pensar em nós essas semanas.

E aposto como o Weasley te ajudou muito a pensar, não foi? – ele respondeu, agressivo, não conseguindo se controlar.

Não comece, Draco! – ela virou-se, então, nervosa. – Você sabe que eu nunca precisei de terceiros para tomar minhas próprias decisões!

Ok. Desculpe-me! – ele pediu, começando a sentir o perigo que rondava a situação. – Mas antes de você dizer qualquer coisa ouça o que eu tenho a dizer, pode ser? Eu tenho o direito de me explicar antes que você dê o seu veredicto.

Hermione bufou, cruzou os braços e sentou-se na cama, com cara de poucos amigos. – Estou ouvindo!

Draco puxou uma poltrona próxima e colocou de frente para ela, então começou: - A empresa estava realmente com sérios problemas, Mione. Alguém, tentando reduzir custos, comprou miolos de varinha sem certificação e o Ministério da Magia caiu sobre nós com toda força. Quando conseguimos regularizar isso, pouco depois de vocês terem vindo para cá, eu estava pronto para vir, mas aí recebemos outro golpe: o carregamento que compramos para trocar as varinhas não certificadas por varinhas legais foi roubado. Um azar e tanto! – ele baixou a cabeça lembrando-se da sensação de desespero que se apoderara de todos na empresa. – Nossos clientes começaram a quebrar os contratos, o G. Deucth não queria nos emprestar mais dinheiro, e já não tínhamos nada em caixa para repor o carregamento. Além disso, havia as dívidas que havíamos contraído e esperávamos pagar quando vendêssemos as varinhas sobressalentes do novo lote que fabricaríamos com a carga que foi roubada. – ele sentou-se na pontinha da poltrona para poder ficar mais perto dela. – Estávamos realmente perto de irmos à falência, Mione, e eu não estava pensando só em mim quando dedicava todo meu tempo a resolver esses problemas. Pensava em todos nós, em tudo que perderíamos, a começar pelo estilo de vida. Hermione ia protestar, mas ele a impediu: - Eu sei que você não liga para isso, mas pense nas crianças! Eu não queria que nada faltasse a elas. Não queria ter que negar nada a eles, e não queria voltar a me ver em apuros financeiros, é verdade. Mas você não pode me culpar por isso! Pergunte ao próprio Weasley! Você mesmo dizia que ele se sentia mal por não ter dinheiro para nada. Eu não nos queria na mesma situação.

O olhar dela já havia mudado, ligeiramente, de raiva para preocupação, mas ela não ia ceder tão fácil. – E você não podia ter me contado tudo isso antes? Não podia me deixar a par dos seus problemas, Draco? É para isso que serve uma família, caso você não tenha notado!

Eu sei, eu sei! – ele voltou a se endireitar na poltrona. – Você não sabe o quanto eu me arrependi de não ter procurado me abrir com você antes. Aposto que você teria me dado apoio quando as coisas ficaram realmente críticas, mas você sabe como eu sou. Queria tentar resolver tudo sozinho. Provar que seria capaz disso sem ter que levar meus problemas para casa.

Você deixava seus problemas no trabalho, mas não o Draco empresário! – ela desabafou. – Eu odiava o jeito como você falava comigo quando eu tentava ajudar. Fazia-me lembrar muito do Draco de antigamente! – os olhos dela começaram a marejar. – o da escola.

Eu sei... – ele baixou a cabeça, envergonhado. – Me desculpe por aqueles modos, Hermione. Eu andava nervoso, irritado. Sei que você não tinha nada a ver com aquilo, mas... Quando dava por mim já havia descontado em você os problemas que havia tido no trabalho, e depois não tinha coragem de me desculpar.

Ela suspirou então, secando discretamente uma lágrima que escapara.

Estou pedindo agora. – ele falou, humilde, voltando a se aproximar dela ainda na poltrona. – Me perdoe pelas grosserias que eu fiz, Hermione. Eu nunca tive a intenção de te magoar, ou te menosprezar. Eu só... – ele levantou-se da poltrona para ir sentar ao lado dela na cama. – Eu só estava nervoso demais para controlar minhas próprias palavras.

Ela não respondeu, nem ao menos olhava para ele, e as lágrimas continuavam a rolar, embora poucas. – Se você está aqui então, quer dizer que resolveu os problemas da empresa.

Ele respirou aliviado. – Fiz minha parte, então McCoy me dispensou para que eu viesse me encontrar com vocês aqui.

Ela respirou fundo então, bem mais calma. Refletiu em tudo que ele havia dito até então, em tudo que ele havia passado, e não podia culpá-lo completamente. Ela sabia como as pessoas podiam reagir agressivamente quando estavam com problemas. Quantas vezes Harry e Rony haviam sido duros com ela sem motivo e quantas vezes ela os havia perdoado? Sentia-se na obrigação de dar uma chance para ele. Sentia-se convencida disso, mas ainda havia mais coisas a incomodando.

Foi só isso mesmo, Draco? – perguntou então, num tom bem diferente. – Tudo que estava te afastando de mim era a empresa ou havia algo mais?

Como assim? – ele perguntou, inseguro.

Ela se virou de frente para ele, tomando coragem para fazer a pergunta fatídica e, se preparando para ouvir qualquer resposta. – Você vinha se comportando de maneira tão fria, tão distante comigo e com as crianças... – ela suspirou. – Eu cheguei a pensar que você tivesse outra pessoa Draco. – despejou.

Outra pessoa? – ele forçou um sorriso, desviando ligeiramente o olhar do dela. – É claro que não Mione!

Não era o que parecia. – ela continuou. – Nem na... – ela ficou envergonhada. – Nem na cama você me procurava mais. – falou baixinho. – O que você queria que eu pensasse? Que estava apaixonado por outra pessoa, mas com medo de se separar, por causa das crianças, talvez.

Apaixonado? – ele sentiu-se seguro para ser completamente sincero então. – De maneira nenhuma! – ele se aproximou dela na cama. – Você e as crianças são o que eu tenho de mais importante na vida. Muito mais do que a empresa, mas é dela que nós vivemos, não é? – ele segurou a mão dela. – Não há nenhuma outra mulher na minha vida. Tenha certeza disso. Eu te amo, Hermione. – ele levou a mão ao rosto dela. – Muito. – e se inclinou para beijá-la.

Hermione ficou, por alguns segundos, sem saber o que fazer. Queria beijá-lo, sentir novamente o calor que o corpo dele transmitia para o dela, mas não era aquilo que ela estava planejando. Não planejara perdoá-lo tão facilmente, não queria sentir-se fraca.

i Os lábios dele tocaram os dela de leve, apenas o início do contato. /i Não era aquilo que ela havia prometido a Rony. i Seus lábios estavam completamente unidos agora, e ela sentiu-o abri-los para aprofundar o beijo. /i Mas ele era seu marido, ela não podia desistir dele tão facilmente. i Suas línguas se tocaram, ela gemeu baixinho. Draco colocou a outra mão em sua cintura e levantou o corpo, deitando o dela lentamente. Ela jogou os braços em torno do pescoço dele. /i Ainda o amava.

Ela passou os dedos entre os cabelos dele, enquanto a outra mão massageava suas costas. Seus lábios apenas se separaram para que os dele começassem a explorar outras partes do corpo dela. Não havia mais nada que ela pudesse fazer, e nem ela queria.

Ela concentrou as duas mãos em abrir os botões da camisa que ele usava. Ele parou de beijá-la e sorriu. Havia conseguido-a de volta. Ajudou a tirar de uma vez a camisa e depois tirou a dela também. Beijou seu pescoço enquanto acariciava sua barriga. Subiu a mão até os seios, mas ainda havia o sutiã para atrapalhar. Tirou-o de uma vez e voltou a deitar-se sobre ela, apenas para sentir o toque macio dos seios em seu peito. Beijou-a ainda uma vez antes de descer seus lábios ao colo dela e daí para um mamilo, sugando-o lentamente, enquanto acariciava o outro com os dedos.

Hermione fechou os olhos e mordeu o lábio inferior quando sentiu a língua dele tocar seu corpo. Havia sentido saudade daquela falta de ar que ele lhe causava, do calor que a fazia sentir.

Ainda pouco satisfeita, explorou o peito nu dele com as mãos, antes de deslizá-las até a calça e começar a tirá-la. Draco parou de beijá-la para ajudar. Tirou toda roupa de uma vez, pouco paciente. Hermione riu. Ele sempre se afobava um pouco nessa hora, como um adolescente com os hormônios a mil. Então ela decidiu fazer aquilo que ele menos gostava: enrolar.

Colocou seu corpo por cima do dele quando ele se inclinou novamente. Draco sabia o que ela ia fazer, mas estava disposto a brincar um pouco. Deixou-a beijá-lo à vontade: na boca, no pescoço, no abdome. Sempre muito devagar, passando a língua e sugando de leve. Depois passeava as mãos por seu peito, arranhando aqui e ali, mais forte ou mais fraco. Ela só parou para tirar também o resto de suas roupas. A brincadeira se tornava muito mais interessante quando não havia mais nada que os impedisse de unir seus corpos de uma vez, apenas a vontade dela própria.

Ela voltou a sentar-se sobre ele, esfregando seu corpo de propósito, mas sem deixá-lo consumar o ato. Draco gemia e resmungava ao mesmo tempo. Hermione sorria e o provocava mais ainda, até que os papéis se inverteram. Ele se pôs sobre ela dessa vez, e começou a acariciar suas pernas, do joelho às coxas. Passava a mão lentamente da parte externa para a interna das pernas, mas sem tocar realmente a parte que interessava. Foi a vez dela resmungar e gemer ao mesmo tempo.

Acho que nós já nos torturamos por tempo suficiente, não foi? – ele perguntou, carinhoso.

Ela apenas sorriu e acenou com a cabeça, concordando. Então passou uma das pernas pelo corpo dele e o beijou. Draco entendeu o recado e a penetrou com amor e desejo. Eles eram um só novamente. Seus corpos em total sintonia, se entendendo sem palavras, só por ações e sussurros indecifráveis de prazer.

Draco movia o corpo cada vez mais intensamente quanto mais ela pedia entre gemidos. Ela correspondia mexendo os quadris como ele gostava, arranhando os braços dele, ou murmurando em seu ouvido o quanto estava gostando do que ele fazia.

Hermione teve certeza de que aquele era o Draco por quem ela se apaixonara, com quem se casara, e de quem ela sentiu tanta falta. Draco, por sua vez, teve certeza de que nenhuma outra mulher poderia fazê-lo se sentir daquele modo, apenas a mulher que ele amava. Apenas ela...

A noite passou, o dia chegou e, enquanto ambos dormiam abraçadinhos, felizes, alheios ao resto do mundo, uma funcionária do departamento de turismo no Ministério da Magia, a quilômetros de distância, era abordada por uma mulher de cabelos escuros e batom vermelho sangue. Ela adentrara o recinto muito séria, os sapatos marcando seus passos com barulho, chamando atenção das mulheres pela elegância e dos homens pela beleza.

Preciso da localização exata dos endereços nesse pergaminho e de como faço para chegar até eles. – falou seca, com seu forte sotaque alemão.

A moça pegou o pergaminho e o leu, incomodada pelo ar superior que a mulher emanava. Um abaixo do outro, numa letra bonita, porém, nitidamente apressada, vinha escrito: A Toca (Ottery St. Catchpole), Hotel Royal Unicorn (Hogsmeade), casa dos Granger (Londres trouxa).

N/A: ÊÊÊÊÊ! Consegui terminar mais um capítulo! Nem acredito! Minha inspiração voltou depois de assistir o DVD de HP 5 que eu acabei de comprar. "Só agora?!" Alguns de vocês vão perguntar. Sim. Só agora. Não tenho patrocínio para comprar logo que lançam, então tenho que esperar as promoções. Como fazia tempo que não via mais nada sobre HP estava meio sem idéias, mas aí estão elas de novo. Espero que gostem desse capítulo, e espero que comentem também, por favor. Até o próximo, então!