BLOOD LUST

BY DAMA 9

Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aidan e Jéssica são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

Boa Leitura!


Capitulo 7: Gêmeos

.I.

Abriu os olhos lentamente, ainda se acostumando com a escuridão do cômodo. Não se lembrava de ter voltado ao quarto ou de ter deitado na cama, embora suas lembranças houvessem ido até a conversa com Saga no jardim da estalagem.

Virou-se de lado, sentindo a manta de algodão deslizar por seu braço e cair gradativamente no chão. Era melhor levantar e ver como as coisas estavam, nunca pensou que estivesse tão cansada até dormir daquele jeito.

O mais estrado de tudo, é que em dias normais jamais abaixaria a guarda daquela forma, mas porque agora fora diferente? Porque com ele?

-Esta se sentindo bem? –uma voz grave e forte perguntou, fazendo-a se sobressaltar.

Virou-se rapidamente, vendo sentado em uma poltrona no canto do quarto, o cavaleiro de melenas royal, parcialmente oculto pelas sombras.

-Você parecia bastante abatida quando a encontrei; Saga continuou, recostando-se melhor no acento.

-Estou bem, obrigada; ela respondeu um pouco confusa.

Estranho, a voz era a mesma, a aparência também, mas porque tinha a impressão de que estava falando com uma pessoa completamente diferente, da que estivera consigo no jardim? Isso era tão confuso.

-Acho que só estava com o sono atrasado; Jéssica falou, sentindo um silêncio perturbador cair sobre ambos.

-O jantar foi servido, mas como não descemos, a dona da pensão trouxe uma cesta com algumas coisas para comermos aqui, você se importa? –ele indagou casualmente.

-...; negou com um aceno, enquanto sentava-se na beira da cama.

Estava se sentindo ainda tão cansada, que simplesmente decidira não contestar nada do que ele dissesse. Viu-o se levantar, deixando o livro que sempre carregava consigo, na poltrona e foi até uma mesinha, do outro lado do cômodo, onde fora deixada a cesta.

-Que livro você esta lendo? –Jéssica perguntou curiosa, enquanto passava a mão nervosamente entre os fios vermelhos, tentando alinhá-los.

-Um do Alexandre Dumas; Saga respondeu, enquanto tirava o guardanapo de cima da cesta e começava a distribuir as coisas que estavam lá dentro, sobre a mesa.

-Pai ou filho?

-Pai; ele respondeu. –Estou lendo o "Homem da Mascara de Ferro";

-Esse é muito bom; ela respondeu. –Só não concordo com uma coisa;

-O que? –Saga indagou voltando-se para ela.

-Que irmãos gêmeos, têm de ser necessariamente um bom e outro mau; Jéssica respondeu. –Se ser gêmeo representa o equilíbrio entre as forças, quer dizer basicamente que, as habilidades que um tempo, o outro não tem e vice e versa. Mas não que, um tenha de ser o mártir e o outro, o lobo mau. Eu acredito que pode sim haver uma distinção entre gêmeos, porque pela criação e a própria personalidade, um vai ter um gênio mais dominante e hiper-ativo, enquanto o outro pode ser mais tranqüilo, mas não acredito nessa de bom e mau;

-Tem lógica; ele murmurou pensativo.

Se levasse principalmente em conta sua relação com o irmão gêmeo. Não se achava o mártir como ela falava, mas também não era o vilão da história. Entretanto, não conseguia enquadrar Kanon em nenhum dos dois também.

Eram irmãos gêmeos, haviam perdido os pais muito cedo e passaram a depender um do outro para sobreviverem, antes de serem levados por Eraen, para o intenso treinamento, aonde iriam se tornar cavaleiros.

Mas foi uma surpresa para ambos, saber que apenas um seria sagrado cavaleiro e não os dois, como fora a idéia inicial. A relação com Kanon que já era frágil, tornou-se ainda mais delicada depois da declaração da mestra.

Ele tornou-se mais arredio e intensificou a carga de treinamentos, como se houvesse começado a competir e a mostrar que era o mais capacitado para ser o cavaleiro de Gêmeos, mas fora Saga quem ficou com a armadura.

Não entendia o que Eraen quis ao declará-lo cavaleiro de Gêmeos, mas isso destruiu os poucos fios que mantinha unida a relação que tinha com o irmão. Sentia falta da época em que apesar do treinamento, eles não tinham preocupações.

As noites em que se sentavam na areia branca da praia, junto com Aioros e ficavam falando sobre as antigas lendas, vendo a lenha de uma fogueira crepitar, enquanto as estrelas iluminavam o céu, banhando o mar.

É, nenhum dos dois se enquadrava no papel de bom ou mau nessa história, alias, não fazia idéia do que representava nisso tudo afinal.

-Fico imaginando, se como canceriana já deixo um ou outro doido de vez em quando, imagine se eu tivesse uma irmã gêmea; Jéssica comentou, chamando-lhe a atenção.

-Acho que uma Jéssica já é o suficiente; Saga falou, tentando não rir da expressão que ela fez. –Mesmo porque, como você disse, não seriam iguais;

-Ah! Mas certos trejeitos de personalidade são herança de família; ela falou com um sorriso levemente sardônico nos lábios, fazendo-o engolir em seco. Esse tipo de sorriso nunca queria dizer algo bom. –Mas realmente, é bom manter a exclusividade;

-Como assim? –ele indagou.

-Também não sou a favor de mães que ficam vestindo filhos gêmeos com as mesmas roupas. Tudo bem, que isso serve para inibir o ciúme entre eles quando pequenos, mas depois de grandinho, acho que tira um pouco a identidade da criança, num período em que ela esta começando a construir seu caráter e a presença de qualquer estranho em seu meio, gera ciúme e a deixa na defensiva;

-Você deveria fazer psicologia; Saga comentou, depois de alguns segundos, pensando no que ela falara.

-Não, já tenho problemas suficientes que não sei resolver, para tentar resolver os dos outros; ela respondeu levantando-se. –Por falar em problema, vou esganar o Shion quando voltar, esse vestido me sufoca; ela reclamou encaminhando-se até a cômoda onde deixara sua mala.

-É melhor colocar algo mais confortável então, não vamos sair mais daqui hoje; ele comentou desviando o olhar para as frutas que acabara de colocar na mesa.

-...; Jéssica assentir, abrindo a mala e buscando algumas peças lá dentro. –Em que parte do livro você está?

-No treinamento do Filipe; Saga respondeu, ainda pensando na quantidade de vezes que abrira aquele livro e não conseguira sair dessa passagem, tudo porque outra cena bastante perturbadora surgia em sua mente, atrapalhando sua concentração.

-Acho interessante esse livro, fico me perguntando se todos irmãos gêmeos, as vezes trocam de lugar? –ela falou distraída.

-Como assim? –o geminiano perguntou, voltando-se para ela, mas como a jovem estava de costas, não foi capaz de ver sua expressão seria.

-Não sei, aproveitam a semelhança para se fazerem passar um pelo outro; ela falou pensativa. –Seria interessante, acho que para quem não conhece, talvez seria impossível descobrir a troca;

-Talvez; ele murmurou pensativo.

Nunca brincara assim com o irmão, tudo bem que haviam tentando uma vez enganar Eraen com essa jogada, mas a mestra parecia um gato de tão observadora que era, então, o plano foi por água abaixo, já que ela de imediato descobriu quem era quem. Mas era interessante a questão que ela levantara, será que se Kanon estivesse ali, ela saberia a diferente? De quem era Saga e quem era Kanon?

-Bem, vou me trocar, volto logo; ela avisou, entrando no aposento anexo e fechando a porta em seguida.

-Tudo bem; Saga respondeu.

Conteve um suspiro, nunca parou para pensar nisso antes. Talvez pelo tempo que havia vivido isolado devido ao treinamento, tendo apenas o irmão, Aioros e a mestra como companhia, não pensou que talvez essa semelhança gritante com Kanon, pudesse de alguma forma ser estranha no futuro.

Como Jéssica dissera, o fato de serem gêmeos, não queria dizer que eram iguais, nem que um era o bom e o outro o mau, apenas que um tinha habilidades que o outro não possuía, mas que no fim, se completavam.

Às vezes ficava se perguntando se não teria sido melhor o irmão estar em seu lugar, Kanon sempre tivera mais ação, sempre tomava a frente das coisas, mesmo que algumas de suas decisões fossem erradas. O irmão não tinha medo de se arriscar, enquanto ele sempre pensava em pros e contras, antes de agir.

Sentou-se numa cadeira em frente à mesa e distraidamente começou a descascar uma maçã. Não ouviu a porta do banheiro se abrir muito menos a jovem retornar ao cômodo, vestindo apenas uma calça de flanela branca e uma blusinha da mesma cor de alcinhas.

.II.

Sentou-se no batente da janela, fitando a noite estrelada cair lá fora. Já tinha algum tempo que a levara de volta ao quarto, mas a expectativa de saber o que estava acontecendo lá, estava lhe matando.

Não gostava nem um pouco da idéia dela estar com o irmão do outro lado do corredor, embora não soubesse ao certo o porquê disso.

Sabia, por intermédio de Ares, que eles iriam bancar o "casal feliz" de recém casados, no inicio havia deixado claro que estava ali apenas para proteger o irmão, embora soubesse que Saga precisava aprender a se virar sozinho. Só não pensou que ao conhecê-la melhor, as coisas fossem mudar. Mas mudar quanto?

Tinha algo de diferente ali, mas não compreendia o que era? Ou o quanto isso poderia afetar os planos originais? Ir, pegar a armadura, matar o sangue suga e voltar para casa. Assim todo mundo fica feliz e os problemas acabam.

Ledo engano, seus instintos diziam que tudo iria ser o completo oposto e que existiam coisas ali, que não estava preparado para lidar. Principalmente quando o assunto era a jovem caçadora.

Aquela garota petulante e atrevida, mostrara-lhe um lado que não estava pronto para conhecer; ele pensou afastando-se da janela e jogando-se na cama em seguida.

Precisava descansar e manter-se atento ao que iria acontecer assim que amanhecesse, mas de uma coisa tinha certeza, não iria perder aqueles dois de vista por nada.

.III.

Sentou-se na cadeira em frente a ele, vendo o olhar vago do cavaleiro, terminou de prender os cabelos em um baixo rabo de cavalo e notou que ele ainda não havia notado sua presença.

Estranho; ela pensou franzindo o cenho.

-Saga!

-Uhn? –ele murmurou piscando, antes de voltar-se para ela.

-Algum problema?

-Estive pensando numa coisa; o cavaleiro começou, recostando-se na cadeira e cruzando os braços na frente do corpo, sem notar o olhar da jovem acompanhar atentamente cada um de seus movimentos.

-O que? –Jéssica indagou, engolindo em seco. Aquele cavaleiro poderia tentar um santo; ela pensou, desviando o olhar rapidamente.

-Os morcegos; Saga comentou, apoiando uma das pernas sobre o joelho, para ficar mais confortável. –De onde eles vêm?

-Uhn? –ela murmurou arqueando a sobrancelha. –Do que esta falando Saga?

-Aquele dia na arena, quando você lutou com Lucien, de onde vieram aqueles morcegos? –ele indagou voltando-se para ela.

-Eu já dis-...; a amazona parou por um momento. Estranho, tinha uma leve sensação de 'de já vu'. Iria dizer a ele que aquela técnica era um legado da família, como lhe explicara mais cedo, só que, por algum motivo sem explicação aparente, ser questionada novamente por isso lhe deu uma sensação estranhada de novamente não conseguir juntar as peças daquele quebra cabeças. –Herança de família; ela respondeu por fim.

-Todos os que vieram antes de você, usavam essa técnica? –Saga indagou calmamente.

-...; Jéssica assentiu. –Começou com o primeiro e isso vem sendo passado a todos, ao longo dos anos;

-O quanto do "Um Vampiro da Noite" é folclore e o quanto é real? –Saga indagou.

-Como você já deve ter ouvido, sobre a Ordens do Dragão, que começou a muitos séculos atrás, com o primeiro empalador na Romênia; Jéssica explicou.

-Já ouvi falar sobre essa passagem da historia, referente ao primeiro Dracul; Saga comentou.

-É, mas o buraco é ainda mais fundo. Eu particularmente nunca parei muito para pensar quem foi realmente o primeiro. Existem muitas lendas que dizem, que tudo começou no oriente, mas as lendas caminham pelas estradas e é difícil ter certeza; a jovem comentou, enquanto pegava o cálice de vinho que ele acabara de encher e lhe estender. –Mas pelo que sei, Aidan é um dos últimos que se tem noticia. Não sei como ele conseguiu voltar. Dizem que ele bateu um pacto com Hades e assim, foi-lhe permitido voltar a Terra, numa forma não humana para vingar-se, outros dizem que quem o trouxe de volta foi Éris, querendo mais uma vez, trazer a esse mundo uma Era de caos;

-Não sei, mas algo me diz que Éris se encaixa mais nesse perfil; Saga comentou, lembrando-se do que já lera sobre a divindade da discórdia.

-Independente disso ele esta de volta, com a minha armadura; ela falou serrando o punho nervosamente, quase fazendo o cálice partir-se entre os dedos. –E isso eu não vou deixar barato;

-É melhor ir com calma; o cavaleiro falou pousando a mão sobre a dela, fazendo-a baixar o cálice até o mesmo tocar a mesa e ela aliviar a pressão dos dedos. –Como já disse, é melhor manter-se racional e não esquecer seus objetivos; ele falou fitando-a seriamente.

Um pesado silêncio caiu sobre ambos, enquanto os dois apenas se fitavam. Perguntas mudas pairavam sobre o ar, os olhos diziam mais do que seus ouvidos eram capazes de escutar. Havia coisas que jamais seriam ditas em voz alta, mas que fariam toda a diferença no futuro.

-Existem mais deles? –Saga perguntou quebrando o silêncio.

Afastou-se um pouco relutante, voltando a encostar as costas na cadeira, como se temesse aproximar-se demais. As cenas que haviam vivido dentro daquela carruagem ainda eram vivas demais em sua mente, para arriscar um auto-controle que não possuía.

Céus! Para onde fora todo aquele treinamento de concentração, paciência e tranqüilidade que havia feito? Para o lixo com certeza, porque nem mesmo Eraen poderia prever que uma jovem caçadora de melenas flamejantes fosse cair de pára-quedas em sua vida e que ele agora estivesse se agarrando ao pouco de auto-controle que tinha, como um naufrago no meio de um mar repleto de tubarões.

-...; Jéssica assentiu.

Piscou rapidamente, sentindo a mente desanuviar. O que fora aquilo? –ela pensou confusa. Essa sem duvida era mais uma das perguntas que ficariam sem resposta, mas algo nos olhos dele lhe chamou a atenção.

O geminiano tinha os orbes de um azul esverdeado, que em dados momentos eles pareciam completamente azuis e em outros verdes. Mas a cor era o de menos, havia uma sombra que pairava sobre seus olhos que lhe deixou intrigada, o que aquilo queria dizer?

-Não sei quantos, eles se multiplicam como pragas, mas são discretos; Jéssica explicou. –Em Arshet nós tentávamos documentar todos os que apareciam, quem fora criado por quem em que época, mas aos poucos perdemos o controle e eles, muitas vezes pareciam diminuir e outras, aumentar;

-Existe uma fonte? Alguém que possa ser eliminado e acabe com os demais? –ele indagou curioso.

-Não, uma vez mordido, não se pode retardar o processo de transformação; ela explicou. –Embora no livro eles falem que se matar o primeiro, automaticamente se anula o efeito da mordida, mas isso é como um vírus;

-Vai passando e é impossível erradicar?

-Isso; a jovem respondeu levantando-se. –Mas nem por isso eles deixam de ser fascinantes; ela falou aproximando-se da janela. –Eles se movimentam pelas sombras, tem poderes extraordinários, vindos de sabe-se lá onde. Não são vivos, não são mortos. Existem num mundo paralelo, onde vivem como sangue sugas, que precisam disso para se manter em pé. É estranho pensar que eles são incrivelmente poderosos em um aspecto e extramente frágeis em outros;

-Você diz isso com relação à luz do sol, ou é folclore também?- ele perguntou.

-Não, não é... Mas é a parte mais intrigante disso tudo; Jéssica falou virando-se para ele. –Porque o sol?

-Não faço idéia; Saga respondeu confuso. –Talvez seja porque a luz de algum tipo de proteção e a noite, deixe as pessoas mais vulneráveis, você pode agüentar a fome, pode agüentar a cede, mas ao sono você não resiste. Toda a fragilidade que você consegue controlar durante o dia, vem à tona, à noite; ele falou.

-Tem lógica, mas não é justificativa suficiente; Jéssica respondeu. –Mas bem, vou pensar nisso outra hora, ainda tenho pelo menos três dias de sono para recuperar; ela falou indo sentar-se na beira da cama.

-Ahn! Por falar nisso; Saga começou hesitante.

Agora vinha a pergunta de um milhão. Como iriam fazer se estavam bancando o casal e ali, só havia uma cama?

-O que? –a jovem perguntou voltando-se para ele, mas viu-o apenas indicar a si e a cama. –Ah! Se é só com isso que esta preocupado, fique tranqüilo... Não mordo; ela brincou, abafando o riso quando o viu se desequilibrar e literalmente cair da cadeira.

Jogou-se na cama, puxando um lençol até o pescoço, ouviu-o praguejar uma serie de impropérios em grego, dos quais metade não entendeu, mas apenas disse:

-Apague a luz e, por favor, feche a cortina;

-Como quiser, amorzinho; ele falou entre dentes.

Detestava quando ela aparecia com uma dessas provocações, já era estressante demais associar-se a um naufrago, agora aturar isso, era enervante. Deveria ser os hormônios pós-puberdade. Isso! Era a única explicação para estar com os nervos à flor da pele e todo o resto daquele jeito; ele pensou fechando bruscamente as cortinas.

Não era mais nenhum adolescente que não podia ver uma garota na frente, mesmo que não fosse assim tão velho também; Saga pensou irritado. Porque tudo com relação a ela tinha de ser difícil.

Estava começando a pensar que era melhor ela continuar como a garota petulante do começo, porque era pior quando ela parecia sempre ler seus pensamentos ou estar em sintonia com eles, como se, se conhecessem a muito tempo; ele concluiu antes de deitar-se e num movimento rápido puxar o lençol que ela segurava, quase a jogando para fora da cama.

-Hei!

-Elas por elas; ele respondeu dando-lhe as costas, ignorando as reclamações que vieram a seguir.

.IV.

Entrou no estábulo encontrando o cocheiro dormindo como uma pedra, seus passos eram precisos e cuidadosos, tirou um dos cavalos de uma das baias e puxou-o para fora.

O animal ainda estava selado, provavelmente era para alguma emergência. A noite de lua cheia seria perfeita para o que tinha em mente. Iria sondar o terreno, queria saber com o que estavam lidando, já que Ares não fora suficientemente competente ao lhe prevenir sobre o que iria encontrar.

Vampiros!

Puff!

Isso não passava de folclore, tudo bem que as técnicas que a jovem de melenas vermelhas usava eram bastante realistas, principalmente com relação aqueles morcegos, mas precisava saber por conta própria o que iria encontrar.

Montou o cavalo e disparou num trote rápido em direção a cidade vizinha, onde ouvira dizer que localizava-se o castelo. Pelo que ouviu na sala de refeições da pousada, o castelo era tido como abandonado, mas ninguém nunca realmente pisou lá dentro. Era como se uma força maior impedisse as pessoas de chegarem lá. Pelo menos era o que diziam.

Entretanto barreiras assim poderiam ser facilmente feitas, um cavaleiro razoavelmente experiente poderia fazer isso com seu cosmo. Não era algo tão extraordinário.

-E agora? –Kanon resmungou ao ver-se diante de uma encruzilhada.

Direita ou esquerda?

Olhou para todos os lados, buscando uma resposta, se seguisse pela direita, poderia estar pegando o caminho certo, ou não. E ir parar em algum lugar que lhe faria andar a noite toda. Não podia correr o risco de chegar ao nascer do sol na pousada e ser reconhecido.

Voltou-se para a esquerda e o caminho parecia igual ao outro. Respirou fundo, tentando conter a impaciência, puxou as rédeas do cavalo e deu a volta, indo novamente em direção à pousada. Teria a chance de sondar o castelo na próxima noite, até lá, iria ficar de olho naqueles dois e de preferência, manter as mãos do irmão, longe da sua caçadora.

.V.

Os orbes fitavam distraidamente o teto. Por mais estranho que fosse pensar nisso, sentia-se no meio de uma sinuca de bico. Nos últimos seis anos vivera apenas para treinar com a perspectiva de ser um cavaleiro a serviço de Athena.

Eraen dera a ele, ao irmão e a Aioros um treinamento impecável, que permitia a qualquer um dos três, ser o melhor naquilo que fazia, mas ela não os havia preparado para terem emoções mortais.

Será que um cavaleiro podia ter sentimentos como qualquer outra pessoa? Ou o fato de viverem para servir Athena, os colocava em outro patamar, onde emoções seriam consideradas fraquezas indignas da posição que ocupavam no mundo?

Isso era confuso, até um tempo atrás jamais se questionaria sobre um destino que tinha por certo, mas agora era estranho pensar que apenas estando uma semana ao lado daquela garota temperamental tudo aquilo que acreditou em seus curtos vinte anos de idade estava para cair por terra.

-"Onde é que eu fui me meter?"; Saga se perguntou, ouvindo o baixo ressonar da jovem a seu lado.

Ela parecia dormir tranqüilamente, provavelmente alheia ao tormento que lhe acometia. Ela provavelmente deveria estar acostumada a lidar com as pessoas, estar sempre no controle da situação, diferente de si, que passou a vida toda nos arredores do santuário e só deixou Atenas por um período curto de seis anos, para treinar em Hélikos.

Ainda tinha muito do mundo para ver, mas aquela sensação que tinha no momento era inquietante. Não estava acostumado com nada do que estava acontecendo ou sentindo.

Tudo bem, não era idiota a ponto de ignorar os comentários que ouvia no vilarejo, ou até mesmo no santuário, das servas que não poupavam esforços para se aproximar. Sabia que era atraente e desejável, porém não era auto-confiante o suficiente para gritar isso em alto e bom tom, não quando tais atrativos, não pareciam surtir o efeito desejado, sobre sua jovem acompanhante.

Entretanto, nenhuma das outras mulheres que tentara se aproximar das outras vezes evocava em si aqueles sentimentos tão conflitantes e frustrantes. Era como caminhar sobre gelo fino.

Conteve um pesado suspiro, antes de virar-se na cama, precisava dormir, mas não conseguia fechar os olhos e relaxar, não com ela tão perto. Bem, não tão perto como o que acontecera na carruagem, mas o suficiente para lhe perturbar os sentidos.

Com cautela afastou o lençol e levantou-se da cama, precisava de um banho frio, ou iria surtar; ele pensou indo em direção ao cômodo anexo.

.VI.

Abriu os olhos, sentindo-os embasados. Levou uma das mãos aos lábios contendo um bocejo. Será que já amanhecera? –ela pensou, sentindo a pele nua arrepiar-se, aquele lugar era frio demais.

Deixou os orbes correrem pela cripta luxuosamente decorada, não havia janelas ali, o que impedia que luz e calor entrassem no local, deixando-a tão fria quanto seu dono.

Suspirou pesadamente, parecia insanidade ter escolhido esse tipo de vida, mas seus motivos não importavam, alias, ter se tornando amante de alguém como Aidan, era um jogo de risco perigoso, porém altamente lucrativo.

Virou-se de lado, tateando os lençóis de seda negra, encontrando o leito a seu lado completamente vazio. Franziu o cenho, se ele não estava ali provavelmente ainda era noite; ela pensou afastando os lençóis que a cobriam e se levantou.

A cascata de fios dourados caiu pelas costas, enquanto ela buscava um hobby de seda carmesim jogado aos pés da cama. Aidan estava levando a serio demais a idéia de acabar com o último descendente do clã dos caçoadores.

Ele queria garantir o poder para o lado vencedor e ela iria ajudá-lo até o fim, afinal, a recompensa fazia tudo valer a pena. Os orbes cintilaram quando fechou o hobby na cintura e encaminhou-se até uma poltrona do outro lado da cripta, onde estava o vestido que usara no começo da noite.

Precisava manter seus objetivos em mente, não permitiria que Aidan lhe "substituísse" enquanto não conseguisse o que queria. E sim, a imortalidade não era o bastante. Se era para se tornar um ser imortal, protegido pelas sombras da noite como o último Dracul, que fosse em grande estilo, como sua rainha a governar sobre aqueles seres fracos, denominados mortais; ela pensou serrando os punhos.

Mas para isso, teria de fazer Aidan deixar alguns conceitos de lado, principalmente àqueles que o faziam apenas tê-la como sua "amante mortal" e não, dar-lhe o beijo eterno de uma vez por todas.

Ele não iria fugir do pacto que haviam feito e teria que usar de todas as armas para isso; ela pensou.

Continua...