Blood Lust
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Jéssica, Kara e Aidan são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
Boa Leitura!
Capitulo 11: Kara Van Helsing.
Norte da Inglaterra/ 1900...
Molhou a ponta da pena dentro do tinteiro, enquanto com a mão livre abria o livro de páginas em branco. Respirou fundo, sentindo a pluma branca roçar sua face quando inclinou-se sobre o livro, apoiando o braço direito sobre a mesa e começou a escrever.
Estamos no ano de 1900, fazem apenas alguns meses desde que Gabriel e eu chegamos a Fortaleza de Arshet. Embora eu adoro a paisagem do campo, ainda sinto falta das montanhas romenas, sinto falta do cheiro do vento e do balançar das árvores quando uma tempestade se aproxima.
Gabriel diz que isso é devido à mudança recente e o fato da família toda ter ficado na Trânsilvania. Mesmo depois de três anos de casamento, confesso, ainda não me acostumei a não ter minha família e conhecidos por perto, embora Gabriel sabia que existem outros motivos.
Um pesado suspiro saiu dos lábios da jovem, que estendendo a mão à frente, indo molhar a pena novamente no tinteiro. As letras saiam suaves e delicadas. Confiantes!
Há três anos atrás tivemos de dar adeus a uma pessoa muito importante em nossas vidas. Um amigo fiel e carinhoso, alguém que poderia estar ao nosso lado agora se o destino não houvesse sido cruel e o tivesse tirado de nós.
Durante muito tempo, em minha inocência infantil, ignorava porque muitas vezes Abrahn e papai relutavam em permitir que Gabriel, eu e Aidan continuássemos amigos. Era algo estranho, que nem mesmo Gabriel compreendia, mas que logo tornou-se claro como água a alguns anos atrás quando Abrahn se foi.
Se ao menos nós houvéssemos sabido disso antes, talvez muitas coisas pudessem ter sido evitadas, inclusive aquele confronto cruel e ferrenho entre Aidan e Gabriel.
Passou a mão nervosamente pelos cabelos, tirando alguns fios vermelhos que caiam sobre seus olhos e ajeitando-os atrás da orelha novamente. Olhou um pouco nervosa para a porta, como se esperasse que ela se abrisse a qualquer momento.
Aliviada ao ouvir o corredor do outro lado silencioso, voltou a se concentrar no que escrevia. Não queria que outras pessoas alem de si mesma tivessem acesso aquele diário, muito menos que essas mesmas pessoas acabassem se magoando com o que iria relatar ali.
Não é novidade em minha família, que os longos doze anos que estive longe da Romênia foi porque vive no Santuário, sim... O santuário grego de Athena, lar dos 88 cavaleiros e amazonas que protegem a Deusa da Justiça e lutam pela paz na Terra sempre que necessário.
Esse tempo longe me privou de alguns conhecimentos, mas me fez compreender outras coisas que hoje, talvez me deixem um pouco mais conformada.
Antes de deixar completamente o santuário, tive a oportunidade de conversar com Shion, o novo Grande Mestre. Ainda sinto saudades de Christian, apesar de jovem ele sempre foi um homem sábio e a frente de seu tempo.
Como cavaleiro de Gêmeos ele teve a oportunidade de ver todos os lados do santuário, desde as pessoas humildes que viviam no vilarejo, passando todos os seus dias, acreditando em heróis lendários que protegiam a paz na Terra, como os conflitos e guerras insanas que algumas divindades faziam o tempo todo.
Foi uma pena saber que ele havia morrido, como diria meu pai. Ele era um dos poucos homens bons que deveriam se tornar imortais. Entretanto, agora compreendo porque Athena designou Shion para ser o novo Grande Mestre, não apenas por seu um dos únicos cavaleiros de ouro sobreviventes da última Guerra Santa.
Shion, como poucos no santuário, sabem que antes de ser amazona, sou uma caçadora. Ele sabe e acredita que os vampiros que minha família e Gabriel vem combatendo à muitos anos, não são apenas lenda, nem fruto da imaginação de algum escritor, por isso antes de partir, ele me procurou com o único intuito de contar a verdade.
Molhou a pena novamente no tinteiro e respirou fundo, essa era a parte mais difícil de explicar, mesmo porque, levara ainda um bom tempo para assimilar tudo que Shion havia lhe dito.
O Grande Mestre em uma de suas visitas a biblioteca do décimo terceiro templo, encontrara pergaminhos antigos, que haviam sido deixados ali e que estavam prestes a perder-se com o tempo.
Enquanto os organizava, ele encontrou um que relatava a ligação de sua família com o santuário, datando de bem mais que cem anos atrás. O que lhe levou a procurá-la e contar o que descobrira.
Shion me explicou que a lenda que precede os vampiros é tão antiga quanto o tempo. Alias, tão antiga quanto às próprias lendas dos deuses gregos. O que lhe levou a pesquisar mais e descobrir outros tantos pergaminhos, dos quais, um deles, o mais recente, mencionava minha família, a de Gabriel e Aidan.
O pergaminho dizia que a muitos e muitos anos atrás, quando os Deuses ainda reinavam sobre a Terra. Zeus, o Onipotente senhor do Olímpo, entregou a proteção da Terra nas mãos de Athena, a Deusa da Justiça.
Furiosos, Posseidon senhor dos Mares e Hades senhor do submundo, tentaram contestar essa decisão, mas a intervenção de outros deuses os impediu de serem bem sucedidos. Zeus foi irredutível ao afirmar que a Terra agora pertenceria a Athena.
Por motivos desconhecidos, o Onipotente senhor dos Deuses desapareceu algum tempo depois e não foi encontrado em nenhum dos mundos, muito menos na Terra. Sem Zeus para proteger Athena, Posseidon e Hades se rebelaram e ameaçaram destruir a Terra.
Assim, um grupo de valorosos guerreiros mortais aliou-se a alguns deuses e juntos estavam dispostos a sacrificarem suas vidas para o bem da humanidade. Com eles, uma antiga civilização, tão ou mais evoluída que os egípcios, aliou-se a essa causa e com suas habilidades quase sobrenaturais, criaram as famosas Sagradas Armaduras.
Dividindo-as em três categorias. Doze armaduras seriam de ouro, vinte e quatro de prata e cinqüenta e duas de bronze. Entretanto, apenas as doze armaduras deveriam permanecer fixamente no santuário, as demais foram espalhadas pelo mundo, onde cavaleiros experientes deveriam treinar seus guerreiros, para se tornarem capacitados a usarem tais armaduras.
Ao todo formavam oitenta e oito armaduras para oitenta e oito cavaleiros, porém foi criado mais uma armadura e eram poucos aqueles que sabiam de sua existência. A armadura de vampiro.
Dizem os pergaminhos que essa armadura tinha um poder sobrenatural que estava acima da compreensão humana. Por isso era perigosa de mais para ser dada a um cavaleiro mortal ou a uma divindade que poderia se deixar deturpar pelos poderes ocultos da mesma.
Assim, ela foi lacrada no coração da Trânsilvania, num lugar desolado e desprovido de vida e um guardião foi designado para cuidar dela. Ele se chamava Vekell Dracul. Durante anos o legado foi passado de pai para filho e o poder da armadura manteve-se vivo em lendas espalhadas pelo mundo, numa época que vampiros eram apenas mito.
Longos séculos se passaram, guerras e mais guerras fizeram a humanidade estremecer.
Dizem as lendas antigas, que quando o mundo é ameaçado pelas forças do mal, Athena reencarna na Terra, sob uma forma mortal para enfrentar as batalhas junto com seus valorosos cavaleiros. Os cavaleiros de Athena.
Entretanto, as guerras nunca são fáceis, principalmente quando Posseidon e Hades decidiram fazer o mesmo, assim as três divindades a cada duzentos anos se encontram na Terra e a transformam em palco para as maiores e mais ferrenhas batalhas.
Durante os últimos dois mil anos, Athena e seus cavaleiros venceram essas batalhas, a pouco mais de vinte e dois anos atrás o mundo sofreu com a última Guerra Santa dessa Era, porém não quer dizer que estamos a salvo do perigo.
Há alguns anos atrás uma divindade se rebelou contra o poder que Posseidon e Hades exerciam sobre os demais deuses. Ela queria poder e para isso, precisava de aliados fortes que estivessem dispostos as maiores loucuras por si. Inclusive libertar a armadura de vampiro.
Éris, a deusa da Discórdia não admitia que apenas os dois Deuses lutassem pela Terra e aproveitando que Posseidon e Hades estavam lacrados pelo selo de Athena e só despertariam nos próximos duzentos anos decidiu agir e ganhar tempo.
No coração da Romênia ela encontrou um homem capaz de suprir suas necessidades. Alguém que pudesse ser seu campeão. Ele era Vlad Dracul. O mais recente descendente de Vekell Dracul. Entretanto, diferente do primeiro, ele não tinha escrúpulos, guerreava por guerrear, invadia vilas, tirava vidas. Tudo ao seu redor era guerra, destruição e sangue.
Alias, sua sede por sangue era insaciável, ele jamais se cansava de eliminar cruelmente qualquer um que se colocasse em seu caminho. Por isso, tornou-se a pessoa certa para o que Éris queria. Depois de eliminar o último guardião da armadura, ela pensou que ter Vlad como aliado poderia conseguir a armadura.
Apenas não contava que Abrahn Van Helsing, amigo do último guardião, seria designado pelo santuário, a proteger a armadura.
Furiosa, Éris convenceu Vlad a aliar-se a sua causa de dominar a Terra e concedeu-lhe poderes sobrenaturais, capazes de diferenciá-lo dos humanos comuns.
Dizem relatos da época, que uma jovem de um vilarejo próximo ao castelo de Vlad na Trânsilvania, havia se tornado esposa dele, mas por motivos desconhecidos, a jovem havia se matado. O que poucos sabiam era que antes disso, ela havia dado a luz uma criança que foi tirada da Trânsilvania e levada a Gales, onde foi criada até atingir a maior idade.
Com a ajuda de Vlad, Éris criou um exercito sombrio, capaz de fazer frente aos cavaleiros de Athena que aos poucos reerguiam o santuário, após a batalha que quase o devastou.
Entretanto, a Deusa teve seus planos frustrados quando Ares o Deus da Guerra viu nisso a oportunidade de vingar-se de Athena, por um capricho como todos consideravam, mas ele jamais admitiu que a divindade houvesse lhe tomado o titulo de Deusa da Guerra.
Ares queria o exercito de Éris para destruir o santuário e o que sobrou dos cavaleiros, mas a deusa queria a vitória apenas para si. Os irmãos gêmeos não estavam dispostos a ter ninguém se interpondo em seu caminho, muito menos alguém do mesmo sangue. Entretanto, se Éris não tinha escrúpulos, Ares menos ainda.
Assim, pegando a irmã desprevenida, lacrou-a nas profundezas do Érebro, de onde ela jamais poderia sair, a menos que outra divindade a libertasse. O que jamais poderia acontecer.
Com Éris fora do caminho, Ares propôs uma aliança a Vlad, porém o Empalador era ambicioso demais e não estava disposto a dividir a vitória com Ares. Ele queria reinar sozinho sob a Terra e já tinha tecido seus planos de eliminar a Éris viu-se frente de um novo problema.
Irado, Ares o amaldiçoou por tê-lo desafiado. Condenou-o a vagar sob a Terra sem pertencer a nenhum dos mundos e com isso, estendeu a maldição as próximas gerações, mesmo até a criança inocente que vivia em Gales, teria o frágil corpo mortal transformado após a maior idade.
O sol a partir daquele momento ofuscaria-lhe a visão e poderia tirar-lhe a parca vida que possuía, como uma forma de lembrá-lo do erro que cometera ao desafiar um Deus como Ares e também da imensidão de seus poderes divinos.
A noite seria seu único refugio para andar com liberdade. Entretanto, Ares não lhe tirou as dádivas de Éris, como o poder de se transformar em qualquer outro ser, ou de locomover-se pelas sombras, muito menos a sede de sangue que os impelia sempre a frente e que em dados momentos poderia se tornar incontrolável.
Toda uma geração foi condenada pelo erro de apenas uma pessoa.
A mão da jovem tremeu ao preencher a última linha. E essa não era nem metade da história. Com muito custo voltou a escrever, vez ou outra, desligando-se das palavras para concentrar-se nos sons vindos do corredor.
Assim nasceu o primeiro vampiro de que se tinha conhecimento na época, após a morte de Vlad, seus guerreiros espalharam-se pelo mundo, formando seus clãs sanguinários pela Europa Oriental.
Abrahn Van Helsing continuou a cuidar da armadura mesmo após se casar com uma jovem irlandesa e ter seu primeiro filho, que recebeu seu nome.
O tempo passou, até que Ardred, o filho de Vlad retornasse a Trânsilvania. Ele pediu a Abrahn que continuasse a proteger a armadura, porque ele fora mais um que sofrera com a maldição de seu pai.
Ardred tinha esperança de conseguir na Trânsilvania uma forma de quebrar aquela maldição e impedir que seu filho sofresse com isso quando se tornasse maior de idade, mas ele jamais conseguiu isso e em seu leito de morte pediu a Abrahn que cuidasse de Aidan.
Respirou fundo, tentando conter as lágrimas que começavam a cair de seus olhos agora. Voltou a molhar a pena e contendo um soluço sofrido voltou a escrever.
Aidan cresceu na Trânsilvania com Abrahn, sendo criado como seu próprio filho junto com Gabriel. Aidan sabia que um dia teria de proteger a armadura por ser um legado de família, mas jamais lhe foi contado sobre a transformação que ocorreria quando ele atingisse a maior idade. Crescemos todos juntos, éramos amigos inseparáveis, era impossível não se divertir com as trapalhadas de Gabriel que vivia em busca de pequenas aventuras e arrastava a todos consigo, mas Aidan sempre foi um pouco mais retraído, talvez por sempre ouvir as histórias sobre seu avô que ainda causavam temor entre as pessoas, o que na época, como criança, não era capaz de compreender o motivo. Mas isso não foi capaz de extinguir aquele olhar inocente ou a forma carinhosa como tratava a todos.
Ele sempre foi uma criança encantadora, com seus cabelos negros arrepiados na franja como um porco-espinho, os olhos violetas e cintilantes transmitiam profunda sinceridade, era impossível não se encantar. Foi muito doloroso o dia em que Aidan desapareceu, Abrahn e os demais homens do vilarejo formaram grupos de busca e procuraram por ele por toda a Romênia, as buscas prosseguiram por quase dois anos quando todos deram-na por encerrada. Ele foi dado como morto e aos poucos, as pessoas foram se esquecendo dele. Menos eu... Gabriel sempre soube disso e respeitou minha opinião, embora jamais houvesse deixado de insistir em se aproximar, mesmo quando eu retornava para casa poucas vezes desde que me tornei amazona.
Depois de alguns anos as esperanças se foram, eu não tive outra escolha se não me conformar que Aidan jamais voltaria, mesmo que durante todo esse tempo eu ainda me apegasse a uma frágil corda de esperança, para que a qualquer momento ele batesse na porta e dissesse que estava de volta. Confesso que ainda não me acostumei com a idéia de estar casada com Gabriel, nos últimos anos passei me perguntando o que aconteceria se eu tivesse esperado mais um pouco. Mas jamais vou saber... O que nos leva de volta a Éris e toda essa história de maldição. De alguma forma ela conseguiu deixar sua prisão no Érebro e voltou a Trânsilvania disposta a conseguir a armadura de qualquer forma.
Deixou a pena de lado, enquanto cobria a face com as mãos, tentando conter os soluços. Uma brisa suave entrava pela janela, fazendo as chamas das velas tremeluzirem.
Gabriel estava no vilarejo, todo fim de tarde ele descia até a casa de seus visinhos para garantir que tudo estava em ordem e todos estavam devidamente seguros em suas casas, antes de voltar à fortaleza. Tinha mais alguns minutos para terminar de escrever. Precisava terminar e desabafar de uma vez tudo aquilo que vinha reprimindo nos últimos anos.
Éris convenceu Aidan de que Gabriel havia usurpado a armadura, embora isso fosse mentira. Com a morte de Abrahn, Gabriel se tornou o novo protetor da armadura e com a 'morte' de Aidan, ele foi o único guardião em potencial para arcar com essa responsabilidade.
Alem do mais, nos últimos meses antes da batalha muitos vampiros deixaram as Terras Altas e passaram a atacar vilarejos e pessoas simples, que antes viviam em paz. Nós jamais pensamos que tudo isso era por causa de Éris, que ela os estava instigando a deixas as montanhas selvagens e invadir um espaço que antes respeitavam.
Gabriel os caçou de maneira ferrenha, enquanto protegia a armadura. Mas Éris colocou Aidan contra nós. Fê-lo acreditar que Gabriel trairá sua confiança e ainda exterminava seus confrades.
Aidan e Gabriel se enfrentaram numa batalha ferrenha e cruel. Por muito pouco a armadura não foi libertada, mas agora o lacre foi restaurado, sob o peso de mais uma vida que se foi.
Aidan pouco antes de morrer, prometeu a Gabriel que voltaria, disse que exterminaria até o último Van Helsing que caminhar sob a Terra e não duvido que agora ele me incluísse nessa lista.
É, agora sou nada mais nada menos do que Kara Wingathes Van Helsing. Temo pelas próximas gerações que um dia podem se ver a frente com um problema assim. Éris jamais vai desistir da armadura e sofro ao pensar que ela, possivelmente, tentará trazer Aidan de volta apenas para dar seguimento a essa insanidade.
Batinas na porta chamaram-lhe a atenção, assustada, quase derrubou o tinteiro sobre as paginas que acabara de escrever.
-Sim?
-Milorde acabou de chegar e perguntou se a senhora não irá descer para acompanhá-lo no jantar? –uma criada indagou.
-Por favor, peça a Gabriel para esperar alguns minutos, já vou descer Lílian; Kara respondeu, sentindo o coração se acalmar aos poucos.
Ouviu a senhora responder e logo em seguida, afastar-se a passos arrastados pelo corredor. Molhou uma última vez a pena no tinteiro e escreveu a última nota.
Ainda sinto seu olhar a me espreitar, como senti naquele dia em que ele chegou, o mesmo dia que as esperanças caíram por terra e aceitei o pedido de casamento de Gabriel.
Hoje, não consigo saber se o que sinto é arrependimento, ou algo que não compreendo. Talvez se eu tivesse esperado mais um pouco, as coisas tivessem acontecido de outra forma, ou não. Jamais vou saber.
Queria apenas que o destino houvesse sido menos sádico com minha vida, mas agora, peço aos Deuses que o próximo Van Helsing a passar por tudo que nós passamos, tenha força e fé para seguir em frente.
A próxima batalha não será fácil, muitas vidas poderão se perder, mas agora nada posso fazer se não rezar e esperar que o que irei relatar nesse diário, sobre os vampiros, Éris e as batalhas possam ajudar em algo.
Deixou a pena de lado e tampou o tinteiro, ouviu a porta abrir-se com um leve gemido, seu primeiro impulso foi fechar o diário, mas ao ouvir o som de passinhos leves e hesitantes, sorriu.
Virou-se na cadeira, enquanto via a pequena garotinha de dois anos, colocar a cabecinha com cachos cor de fogo para dentro do quarto, os olhos azuis como os de Gabriel cintilaram e um largo sorriso abriu-se em seus lábios.
-Mamãe; ela chamou.
-Venha aqui, querida; Kara falou fechando o diário e guardou-o dentro de uma gaveta na escrivaninha para trancá-la em seguida. Guardou a chave dourada numa correntinha que pendia em seu pescoço, antes de estender os braços para pegar a pequena.
-Então foi para cá que você se esgueirou? –uma voz divertida indagou vinda da porta.
-Papai; a pequena falou agitada, pulando no colo de Kara.
-Eu já ia descer; Kara falou levantando-se com a filha no colo.
-Lílian avisou, mas queria te ver...; Gabriel falou desviando o olhar um pouco hesitante, antes de voltar a encará-la. –Senti uma falta; ele completou, vendo a face da jovem tornar-se levemente rosada.
-Mamãe, fome...; a pequena falou.
-Ela é tão agitada quanto você quando pequeno; Kara falou sorrindo.
-A você também, afinal... Não podemos negar sua herança irlandesa também; ele brincou, enquanto afagava uma mecha de cabelos vermelhos que caiam sobre os ombros de Kara. Tão vermelhos quanto os seus e os da filha.
-Mas Jéssica puxou mais a você, não negue Gabriel; a jovem falou vendo a pequena estender os braços para ele e resmungar chorosa por ele demorar a lhe atender. -Essa menina vai ser um terror quando ficar mais velha;
-Contanto que seja tão linda quanto à mãe; ele completou lançando-lhe um olhar intenso.
-É melhor descermos, Lílian vai ficar aborrecida de por a mesa e nós demorarmos; Kara completou desviando o assunto e abrindo a porta para que os três deixassem o quarto.
Deixou que a esposa seguisse em frente e não pode deixar de lançar um olhar curioso para a gaveta com chave. Sabia que Kara havia decidido escrever um diário, alias, fora sua mãe que a aconselhara a fazer isso depois de toda a tensão que viveram nos últimos três anos.
Em dados momentos tinha curiosidade em saber o que se passava pela cabeça da esposa que desconhecia, mas em outros tinha medo. Sim, o grande Gabriel Van Helsing, o caçador temido, tinha medo de saber o que a própria esposa pensava sobre o casamento que tinham.
Tinha medo de saber que ela se arrependia de tudo que viveram nos últimos anos, inclusive o casamento. Kara amava a filha tanto quanto a si mesmo, mas desconhecia o que ela sentia com relação a si. Se tudo teria sido diferente se Kara houvesse se casado com Aidan, ou se ele jamais houvesse desaparecido anos atrás.
Balançou a cabeça nervosamente para os lados tentando afastar os pensamentos. Aidan não estava mais lá e era ele a estar o tempo todo ao lado de Kara, embora seu orgulho imprestável sempre fizesse questão de lembrá-lo de que isso e nada, dava no mesmo.
-Papai ta fazendo uma coisa estranha com a cabeça; a pequena falou rindo, fazendo Kara deter-se e voltar-se para trás com um olhar indagador.
-Não é nada criança, estava apenas pensando; ele falou pousando um beijo suave sobre a pontinha do nariz da pequena e sorriu hesitante para Kara antes de seguir em frente.
Certas coisas deveriam ficar enterradas no passado daqui pra frente, pois nem mesmo ele, um poderoso caçador, tinha coragem suficiente para enfrentar coisas que ele desconhecia sobre os sentimentos humanos.
Continua...
