Blood Lust

By Dama 9


Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Jéssica, Avalon, Ryana, Abel, Ian, Gwen e Aidan são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.

Este é um trabalho de fã para fã, sem fins lucrativos.

Boa Leitura!


Capitulo 16: Avalon.

.I.

Alongou os braços para cima, sentindo o cheiro da água salgada chegar até si. A balsa cortava as águas com incrível agilidade. Muitas pessoas estavam acomodadas em uma cobertura na balsa, esperando o fim da travessia, mas diferente deles, preferia ficar ali vendo o movimento das ondas e sentindo o balanço do mar sob seus pés. Agora já podia avistar Melyora, mas por ínfimos segundos sua atenção foi desviada para outra ilha não muito distante.

No alto das montanhas verdejantes, erguia-se Dream Village, lar do magnata da tecnologia da nova Era, Axel Considini. O homem era lenda e o mito encarnados. Um verdadeiro titã do mundo empresarial.

Já ouvira muitas histórias sobre a família Considini, inclusive que o clã nascera pouco antes da Idade Média e conseguira sobreviver as maiores revoluções desde então. Mas a maior de todas as evoluções aconteceu em meados de 1897 quando Rafaelle Considini mudara a política empregada em La Rochelle, permitindo que todas as pessoas da ilha, independente de classe social ou não, tivessem acesso à educação e outras coisas que no reinado de seu pai, fora negada ao povo.

Desde então a ilha vinha prosperando cada vez mais, embora a arquitetura e as tradições continuassem as mesmas, Axel também decidiu manter esse padrão e aqueles que chegavam a La Rochelle dificilmente queriam ir embora.

Quem sabe um dia não visitaria a ilha, agora teria mais tempo para esse tipo de coisa; ela concluiu desviando o olhar quando a balsa fez uma curva mais rápida do que o esperado e teve de se segurar no guarde-reio para não cair.

Pouco mais de vinte minutos haviam se passado a balsa atracou em Melyora, porém foi a única a desembarcar, as demais pessoas seguiriam para a próxima ilha, alias, eram poucos os que desembarcavam ali, ouvira falar quando comprara a passagem no porto de Edimburgo.

A Escócia por si só, era tão cheia de lendas e mitos quanto a Grécia, porém o povo ainda temia o poder que as divindades tinham sob suas vidas e preferiam não macular os lugares que consideravam suas 'sagradas moradas na terra'.

Respirou fundo enquanto sentia os pés firmarem sob a madeira do dec. Caminhou pelo ancoradouro simples, vendo um ou outro marinheiro lhe lançar olhares desconfiados.

Melyora era uma ilha pequena em vista das outras que formavam a costa escocesa, mas era uma das mais antigas. Diziam as histórias locais que muitos druidas séculos atrás haviam deixado à Irlanda e migrado para lá, enquanto outros seguiram para Gales e poucos corajosos foram para as Rochosas no outro continente, dando inicio a um clã lendário.

Os Xamãs, guias espirituais, que lideravam seu povo com sabedoria e dedicação, sabiam o valor da terra e o poder da fé, mas também, eram uma ponte de ligação entre esse e o outro mundo.

Agora que estava em Melyora, precisava chegar até a pequena vila do outro lado da ilha, um lado proibido para visitantes, onde encontraria Ryana, pelo menos rezava por isso. A princesa celta era a única capaz de lhe dizer como poderia proteger a armadura.

Alias, fora ela que treinara seu pai durante um tempo, pouco antes dele ser sagrado cavaleiro e lhe ensinara a criar lacres com alquimia. Então, ela poderia lhe explicar como fazer agora; Jéssica concluiu enquanto seguia por uma trilha íngreme e escarpada.

.II.

Deixou os orbes violeta correrem distraidamente entre os rochedos escarpados, às vezes se perguntava o quão alto um homem comum poderia chegar e lembrava-se que mesmo ele, ainda estava longe do topo do mundo; Shion pensou, apoiando-se no batente da janela em seu quarto.

Jéssica já havia partido e o santuário mergulhara na calmaria novamente. Entretanto, Ares e Eraen estavam organizando algumas equipes de busca para voltarem a Romênia atrás de Aidan ou de algum vampiro remanescente que soubesse do paradeiro de Éris.

Agora era imprescindível que o santuário ficasse alerta para qualquer eventualidade. Passou a mão levemente pelos cabelos, impedindo a franja despontada de cair sobre seus olhos.

Se ao menos tivesse alguém de confiança que lhes desse as informações que precisavam; ele pensou.

-Shion de Áries! –uma voz soou atrás de si, fazendo-o se sobressaltar.

Virou-se rapidamente e surpreendeu-se ao ver uma mulher de longos cabelos dourados atrás de si, fitando-lhe com um olhar calmo e controlado. Os orbes eram verde-azulados e tinham um brilho intenso de sabedoria.

-Quem é você? –ele perguntou hesitante.

-Alguém que você desejava encontrar; ela falou calmamente, com um fino sorriso nos lábios.

-Uhn? –o ariano murmurou confuso.

-O tempo de provas esta chegando para essa Terra novamente; a jovem falou com pesar. –O equilíbrio esta para ser abalado e nada podemos fazer quanto a isso, a necessidade de evoluir ainda é prioridade;

-Não entendo; Shion falou.

-Éris rompeu parte do equilíbrio ao fugir do Érebro e voltar a Terra depois de quase um século. Mas agora, nada mais lhe resta que não sua prisão nos confins do mundo onde irá passar todos os seus dias; Astréia falou. –Nem todos os deuses são seus inimigos, ainda existem aqueles que desejam lutar por uma herança mortal;

-Herança mortal, como assim? –ele indagou.

-Sim, uma herança... Ou alguém a quem proteger; a divindade falou. –Eles estão dispostos a tudo para isso, inclusive contrariar as leis do conselho e manter Éris confinada, ela não será um problema para vocês, pelo menos não por alguns anos. Entretanto, ela não é a única com quem vocês devem se preocupar. Infelizmente ainda existem alguns Deuses ambiciosos que não sabem à hora de parar e podem inventar mil e uma formas de causarem problemas, fiquem atentos;

-Obrigado por me avisar; Shion falou. –Mas você ainda na-...;

-Astréia; ela falou antes que ele pudesse completar.

-Lembro-me de você; Shion falou reconhecendo-a finalmente. - Asmita costumava mencionar você quando conversávamos. Agora entendo o que ele queria dizer quando falava que às vezes até mesmo a justiça comete seus erros, mas sempre encontra o caminho certo a seguir; ele completou lembrando-se da lenda referente à Deusa que inicialmente deveria ser a protetora da Terra, mas ao ver tanta dor e desgraças, desistiu de tudo e voltou ao Olímpo.

-Todos nós tropeçamos às vezes, mas é a forma com que nos levantamos é que faz a diferença; Astréia comentou com um olhar calmo. –Nunca se esqueça cavaleiro, vocês não estão sozinhos, então, não percam a fé; ela completou antes de desaparecer.

.III.

Atravessou árvores e trilhas até avistar os telhados das casas simples da vila. Estava começando a se cansar de carregar aquele trambolho nas costas por tantas subidas e descidas.

Aquela parte da floresta de Melyora era coberta por folhagens e galhos, o chão era úmido e propenso a quedas.

Andou mais alguns passos quando duas lanças cruzaram-se a sua frente. Recuou instintivamente, embora o povo da vila fosse pacifico, eles não eram muito amigáveis com estranhos, principalmente depois que alguns saqueadores andaram passando por ali, causando desordem e pânico.

-Quem é você? –um dos sentinelas indagou.

-Jéssica Belmonte, estou procurando por Ryana; a amazona falou diante do olhar desconfiado dos dois homens.

-Ryana não vive mais aqui; o segundo sentinela respondeu.

-Poderia me dizer então, onde ela vive? –Jéssica perguntou, vendo os dois trocarem um olhar hesitante. –Preciso falar muito com ela e agradeceria se me informassem seu paradeiro;

-Creio que você não poderá vê-la, senhorita Belmonte; o primeiro sentinela falou hesitante.

-O que quer com Ryana? –o segundo perguntou com um pouco mais de hostilidade.

-É algo que só posso tratar com ela e não pretendo ir embora até saber do que preciso; ela avisou.

Os guardas trocaram um olhar preocupado, quando o primeiro decidiu falar.

-Ryana não vive mais entre nós, há muito tempo ela partiu desse mundo;

-Como? –Jéssica falou abismada. Não era possível! E agora?

-Mas talvez Avalon possa lhe atender; ele explicou.

-Imagino que seja quem ficou no lugar de Ryana? –ela indagou, mas logo em seguida viu os dois assentirem. –Como posso falar com Avalon?

-Ele já esperava por sua chegada e irá lhe receber; uma terceira pessoa falou se aproximando.

-Ele? – Jéssica indagou confusa, mas não teve tempo de obter uma resposta quando foi cortada.

-Não demore; o terceiro sentinela falou, indicando-lhe uma trilha reta até uma casa simples do outro lado.

Dando de ombros a amazona seguiu em frente, estranho, tive a impressão de que eles falaram 'Ele' para Avalon, mas deveria ter ouvido errado; ela concluiu, chegando em frente a uma casa de madeira.

Embora as construções em Melyora fossem simples, o povo viva com conforto e sempre em sintonia com a natureza. Gostavam da simplicidade da vida no campo e mantinham com todas as forças as velhas tradições.

-Entre; uma voz masculina falou do outro lado.

A casa não tinha porta, apenas uma cortina a cobrir a entrada. Tirou a urna das costas e colocou-a no chão, proxima a porta, antes de bater os pés sobre um tapete e entrar, afastando a cortina cautelosamente.

-Desculpe incomodar; Jéssica falou hesitante.

-Eu já esperava pela sua chegada;

Sobressaltou-se ao ouvir a voz soar a seu lado e virou-se rapidamente deparando-se com um homem de longos cabelos avermelhados e olhos dourados.

-Eu sou Avalon e suponho que você seja a filha de Abel de quem tanto ouvi falar através de Ryana; o rapaz falou calmamente, quando pousou a mão de forma delicada sobre o ombro da jovem, guiando-a pela modesta sala da casa, para próximo a um jogo de mesa e cadeiras em frente a janela.

-Meu pai falava muito de Ryana, mas nunca cheguei a conhecê-la pessoalmente; a amazona respondeu, franzindo o cenho um pouco incomodada com a luz, mas não comentou nada quanto a isso.

-Ele foi um dos poucos que conseguiu completar o treinamento e se tornar um grande alquimista; Avalon falou, tirando de uma prateleira feita de bambus duas xícaras e colocou-as sobre a mesa, enquanto falava. –Minha avó sempre dizia que depois dele, era difícil julgar um pupilo por si só e não compará-lo a Abel;

-Avó? –Jéssica indagou confusa.

-Sou neto de Ryana e fiquei em seu lugar quando ela partiu; Avalon explicou. –Imagino que você tenha chegado aqui imaginando encontrar uma princesa celta, não eu... Não é? –ele falou num tom levemente malicioso.

-Confesso que fiquei surpresa; ela respondeu sem se abalar. –Mas espero que você possa me ajudar, já que Ryana não esta mais aqui;

-Imagino que você queria lacrar a armadura; Avalon falou pegando um bule no canto da mesa e preenchendo as xícaras com um chá, cuja essência pairou sobre eles.

-...; a amazona assentiu.

-Existem vários lacres para armaduras, embora nosso povo tenha pouco conhecimento nessa área; Avalon explicou. –Nós conhecemos a magia da terra e a harmonia da vida. Entretanto, a criação de armaduras é uma ciência muito complexa e tão perigosa quanto às magias antigas que não nos atrevemos a usar hoje em dia;

-Entendo; ela murmurou.

-Mas se você puder ficar um tempo aqui, poderá compreender melhor o que fazemos e saberá como proceder com sua armadura; ele sugeriu gesticulando casualmente e fitando-a com aqueles perscrutadores e intensos orbes dourados.

-Minha prioridade agora é a armadura, se é necessário. Eu posso ficar; Jéssica falou convicta.

-Ótimo; Avalon falou, fitando-a de maneira enigmática. –Agora prove o chá, é feito com as ervas que cultivamos aqui e alem de ser um bom calmante, ajuda a purificar o corpo; ele completou acenando para que provasse.

.IV.

O dia estava chegando ao fim, um fino sorriso formou-se em seus lábios ao ver a senhora de cabelos grisalhos sussurrar uma cantiga antiga enquanto trançava uns fios tão finos quanto teias para sua renda.

A vila era repleta de pessoas simples, em sua maioria pescadores e donas de casa, mas os anciões que ainda viviam ali, mantinham a tradição viva na ilha. No dia anterior Avalon havia lhe apresentado a Gwen, uma das mulheres mais velhas de Melyora, ela conhecera não apenas Ryana, mas lembrava-se com extrema perfeição de seu pai.

Balançou a cabeça levemente para os lados, embora não tivesse pretensões de ficar ali mais do que o necessário, gostava da companhia da senhora e de suas histórias mirabolantes.

Entretanto, escondendo-se sobre a fachada carinhosa e acolhedora, estava à imagem de uma mulher que vira o pior e o melhor do mundo, vinda de uma família tradicional escocesa. Havia sofrido muito no começo da vida, quando a Escócia acabava de sair de uma revolução contra a Inglaterra e a hostilidade era palpável em todos os lugares.

Ela fora uma das tantas mulheres que nasceram à frente do próprio tempo e tiveram que lidar com isso. Se na época das cruzadas e das guerras santas muitas mulheres haviam sido queimadas acusadas de heresia e bruxaria. O que dirá em épocas conturbadas, uma mulher se declarar alquimista?

Suspirou pesadamente, como diria seu pai. Existiam ignorantes por circunstancia e ignorantes opcionais. Ignorantes por circunstancia, eram as pessoas que nasciam em famílias com recursos escassos, ou que não tinham por vezes o incentivo devido para desenvolverem seus potenciais. Ignorantes opcionais, eram aqueles que viam impunidades e injustiças e fingiam que nada estava acontecendo, apenas para não se obrigarem a sentir algum pesar pelo próximo.

-Você esta fazendo de novo; a voz divertida de Gwen chegou até si, chamando-lhe a atenção.

-Uhn? –Jéssica murmurou voltando-se para ela.

-Apertando os olhos desse jeito; a senhora falou imitando-a. –Seu pai costumava fazer isso quando ficava irritado com alguma coisa. Quando não chutava o balde e brandia para os quatro ventos que não concordava com algo e que sua verdade deveria ser a absoluta; ela comentou.

-Bem típico; a amazona falou sorrindo. –Mas estava pensando, dizem que quando pensamos, nosso pensamento voa;

-E estão certos menina, ele voa com asas velozes e indomáveis, mais rápido que o vento, ágil e intenso como as asas flamejantes de uma fênix; Gwen falou sorrindo, deixando a renda de lado e levantando-se com um pouco de dificuldade da cadeira de balanço. –Ontem Avalon me contou que você veio por causa da armadura, já tem idéia do que vai fazer?

-Não; Jéssica respondeu, dando um suspiro cansado. –Avalon me explicou que essa armadura não é como as outras e que um lacre simples não impedira que Éris apareça a qualquer momento e tente se apossar dela;

-Você precisa pensar no equilíbrio também, não pode usar nada que o comprometa;a senhora alertou.

-...; ela assentiu voltando-se para a janela novamente quando viu um grupo de crianças correndo para o centro da vila.

Pareciam ansiosas e agitadas, o que será que estava acontecendo? –ela se perguntou curiosa.

-Todo fim de tarde, Avalon costuma reunir as crianças da vila para contar histórias; Gwen falou aproximando-se da jovem e vendo onde seu olhar recairá.

-Interessante; Jéssica murmurou, enquanto observava distraidamente a forma como o jovem de longas melenas vermelhas falava com as crianças, sempre fitando-lhes nos olhos, de igual para igual, sem intimidá-las com seu tamanho, ou posição na vila.

–Ele é um jovem responsável, gosta de crianças e é bastante caseiro... Alais, sabe cozinhar, o que é uma raridade hoje em dia, mesmo para os homens de Melyora; Gwen falou casualmente.

-É; a amazona murmurou, desviando o olhar e voltando-se para a senhora, mas arqueou a sobrancelha ao vê-la fitar-lhe de maneira perscrutadora. –Algum problema, Gwen?

-Só estava pensando que você poderia estender sua estadia em Melyora, afinal... Você mesma disse que não sente necessidade em voltar tão logo a Arshet; a senhora comentou, antes de se afastar.

-Não, mas ainda existem coisas inacabadas que preciso resolver; Jéssica respondeu, confusa quanto ao ar sombrio que a senhora apresentava agora.

-Deixe tudo acontecer em seu próprio tempo menina, às vezes apressar as coisas só nos trará problemas e não soluções; Gwen falou abrindo a porta do chalé e saindo, rumando para o centro da vila, onde os demais moradores estavam indo, provavelmente como as crianças, para ouvir as histórias; ela pensou.

.V.

Ouvia atentamente os questionamentos da criança a sua frente, mas não pode deixar que seus olhos traidores desviassem a direção, para recairem sobre uma jovem que estava pouco atrás, falando com as senhoras da vila.

Uma semana havia se passado, desde que a amazona chegara a Melyora. No começo, muitos dos moradores ficaram preocupados com a presença de um estranho na ilha, mas aos poucos foram se acostumando e a presença dela entre todos passara a ser freqüentemente requisitada.

Ainda lembrava-se das histórias que Ryana contava sobre a fortaleza de Arshet e o lendário clã de caçadores que remetia a Idade Média. Entretanto, jamais pensou que fosse conhecer um deles, ou melhor, que fosse conhecê-la.

Jéssica não parecia ser alguém cujo perfil definia-se como o de caçadora, aparentava uma calma inabalável que beirava indiferença, menos quando falava com as pessoas, sempre dando-lhes atenção e ouvindo sem se distrair, mesmo quando o assunto era cansativo.

Vendo-a caminhar pela vila, todos os dias, pouco antes do sol nascer, com roupas casuais e tranqüila, o fazia pensar se ela era mesmo uma amazona? Alem do mais, até onde sabia, amazonas do santuário de Athena usavam mascaras, menos ela; ele concluiu, franzindo o cenho.

-Esta assustando o menino, Avalon; uma voz divertida falou atrás de si.

-Uhn? –ele murmurou virando-se ao encontrar o olhar do amigo a lhe fitar.

-Você parecia aborrecido com algo; Ian falou, enquanto distraidamente coçava a barba rola e vermelha.

Como Gewn, Ian era um dos mais antigos moradores da vila, seu amigo fora um dos poucos que lhe apoiara quando Ryana partira e deixara recomendações para que ficasse em seu lugar.

Na época não passava de um garoto assustado, que mesmo conhecendo as leis de seu povo, não se sentia apto a servir de exemplo pra ninguém, muito menos assumir as responsabilidades que lhe atribuíam. Mas Ian fora firme ao ficar a seu lado e não deixar que nada abalasse sua confiança. Tinha a leve impressão de que se alguém lhe conhecia melhor do que a si mesmo, era Ian.

-Só estava pensando sobre algumas coisas que me deixaram inquieto; Avalon respondeu passando a mão pelos cachinhos castanhos da garotinha a sua frente antes de dispensá-la delicadamente para dar atenção ao amigo.

-Imagino que isso nada tenha a ver com uma certa ruiva que chegou a pouco tempo, não? –Ian indagou com um sorriso matreiro.

-Não... Bem, mais ou menos; o jovem falou passando a mão nervosamente pelos cabelos.

-O que esta lhe preocupando? –o amigo perguntou ficando serio.

-Ela não me parece uma amazona, tão pouco uma caçadora; ele resmungou contrariado.

-E isso esta lhe deixando preocupado por quê? –Ian perguntou arqueando a sobrancelha.

-Talvez ela não seja quem diz ser; Avalon falou num sussurro confidencial. –Tudo bem que Ryana disse que ela viria aqui, mas e se for uma impostora?

-Deveria confiar mais em seu sexto sentido, menino. Sua avó ficaria decepcionada ao ouvi-lo falar assim; ele o repreendeu.

-Mas diga se estou errado em me preocupar? Ela parece uma garota normal e-...; Avalon parou no momento que ouviu um grito infantil. Virou-se rapidamente a tempo de ver as crianças saírem correndo quando um estranho apareceu no centro da vila.

-o-o-o-o-o-

-Ora! Ora! Estão foi aqui que a armadura veio se esconder; a voz do desconhecido soou fria e cortante. Os orbes carmesim correram de um por um dos moradores da ilha escocesa.

Não passavam de pessoas simples, seres patéticos e fracos. Pelo menos não haviam cavaleiros de Athena, tão pouco caçadores ali. Levara muito tempo para ter certeza de que Aidan não mais habitava aquele mundo para que pudesse por fim, tomar aquilo que queria.

Durante anos foi seu fiel servidor, teve de suportar a arrogância do lorde vampiro e de sua amante patética. Alem do mais, não fora difícil encontrar Beatriz entre os escombros do castelo e descobrir porque Sire queria tanto a armadura, ou melhor Éris.

-Quem é você? –Avalon perguntou tomando a frente do grupo.

-Stephen D'Lancourt; o vampiro falou voltando-se para a figura imponente que surgira a sua frente.

-E o que você quer aqui? –Ian perguntou aproximando-se com um olhar perigoso.

-Nada com você velho, vim buscar a armadura que o santuário escondeu aqui; Stephen falou.

-O santuário não escondeu nada aqui, por isso vá embora em paz; Avalon avisou.

-Sei que a armadura de vampiro esta aqui e agora que Van Helsing morreu, pelas mãos de Aidan, eu vou reivindicá-la; Stephen falou com os orbes ainda mais vermelhos.

-É uma pena que você esteja tão mal informado; Jéssica falou atravessando o centro da vila e aproximando-se, as pessoas afastaram-se temerosas.

-Você? –Stephen falou surpreso.

-Tanto você como Éris foram muito estúpidos ao acharem que deixaríamos à armadura cair em mãos erradas. Durante séculos temos protegido esse legado e isso não vai mudar agora; a amazona fitando-o diretamente.

-Aidan mandou os vampiros eliminarem os gêmeos, mas...;

-Tsc! Tsc! Tsc! –ela falou balançando a cabeça levemente para os lados, quando um sorriso irônico surgiu em seus lábios realçando os caninos brancos e pontiagudos. –E pensar que você era o braço direito de Aidan, aquele em quem ele mais confiava; Jéssica falou. –Mas no fim, você não passa de um verme sem escrúpulos, que mal esperou ele virar as costas para o trair;

-Aidan não prestava para ser nosso líder, não passava de um idiota sentimentalista; Stephen vociferou eriçando as garras compridas e afiadas.

-Avalon, leve todos daqui; Jéssica falou dando um passo a frente.

-Você não-...;

-Não foi um pedido; a amazona falou voltando-se para ele com os orbes antes castanhos, agora tingidos de vermelho.

-Vamos; Ian falou puxando-o pelo braço e gritando para os demais seguirem com eles.

Voltou-se para a amazona preocupado, mas a mesma mantinha-se de costas para si. Ouviu Ian gritar algo e com pesar foi em frente, tendo de confiar nela, mesmo com tantas duvidas pairando em sua mente.

-Fico imaginando o que o conselho de anciões vai pensar quando souber da existência de um traidor; Jéssica falou casualmente.

-Conselho! Eles nada poderão fazer contra mim quando eu estiver com a armadura; ele falou convicto, porém ficou surpresa ao ver que uma reles humana sabia sobre a existência do conselho, um grupo tão antigo quanto o tempo, que se consideravam os primeiros sob a terra.

-Eu se fosse você, não ficaria tão certo disso; ela avisou. –Não vou permitir que você leve a armadura, tão pouco ferir alguém aqui;

-Você não pode me impedir; Stephen respondeu.

-É o que vamos ver; a amazona respondeu elevando seu cosmo.

-o-o-o-o-o-

-O que vamos fazer? –Wynona, uma das mulheres do vilarejo perguntou aflita, abraçada ao filho pequeno.

-Fiquem calmos; Ian pediu.

-Estão todos aqui? –Gwen perguntou contando um por um.

-Estão, mas onde esta Avalon? –Ian perguntou preocupado, ao notar que ele não estava no grupo.

-o-o-o-o-o-

Manteve-se oculto entre as árvore e sentiu o momento que uma energia muito poderosa manifestou-se, sentiu a natureza se agitar e aos poucos uma nuvem negra cobrir o céu.

-Você não pertence mais a esse mundo, porque se importa com essa armadura. Não passa de um monte de metal enferrujado; Stephen falou aproximando-se perigosamente.

-Então porque a quer tanto? –Jéssica perguntou em tom de provocação, recebendo um rosnando como resposta.

-Você esta brincando com fogo, fedelha e aqueles dois idiotas não estão aqui para lhe proteger; ele avisou.

-No dia que eu precisar de homem ou vampiro, para cuidar de mim. Ai sim, eu terei passado pro outro lado; ela rebateu ferina.

-Oras, sua...; Stephen vociferou partindo na direção dela, mas estancou quando ela desapareceu.

Ouviu um barulho alto de asas batendo e a escuridão aos poucos abraçou o centro da vila.

-Vai fugir, fedelha? –Stephen provocou, porém não obteve resposta.

Viu duas brasas incandescentes acenderem-se no meio da escuridão e não teve nem tempo de reagir quando laminas cortantes trespassaram-lhe o coração e no fim, tudo se apagou.

Sentiu o corpo pesado ir em direção ao chão e nada pode fazer, aquele poder era poderoso demais para ele conseguir conter. Os orbes tornaram-se nublados por uma sombra escura e o frio que sempre sentira após sua transformação, pareceu se intensificar. Segundos depois uma explosão de cosmo trouxe seu fim completamente.

Aos poucos as nuvens que encobriam a luz da lua afastaram-se e a vila foi iluminava novamente. Baixou os olhos para sua mão, vendo as unhas longas e finas completamente cobertas de vermelho.

Sentia o coração bater mais forte e a garganta secar quando seus orbes recaíram sobre o liquido carmesim, o cheiro era tão forte que o sentia em sua boca. Fechou os olhos respirando fundo, mas de nada adiantou quando sentiu os caninos tornarem-se mais salientes quase cortando-lhe os lábios.

Sabia o que iria acontecer se não se controlasse, mas parecia tão irresistível. Tão sedutor quanto os sussurros de um amante, a luz de velas; ela pensou com a mente nublada.

-Concentre-se; uma voz conhecia chegou até si.

Abriu os olhos tingidos de vermelho e viu a sua frente Avalon, queria recuar e encolher-se, mas não conseguiu sair do lugar quando ele se aproximou. Entreabriu os lábios para mandar-lhe se afastar, mas palavra alguma saiu.

-Você não pode evitar a transformação; ele falou calmamente parando a sua frente. –Mas só você tem o poder de escolher aquilo que quer ser;

Desviou o olhar tentando manter a calma, no momento que o viu pegar um lenço e colocá-lo sobre sua mão, pouco a pouco limpando os resquícios de sangue que ali estavam. Ele não tinha medo, era estranho, mas sentia-se reconfortada por isso.

-Por um momento eu não confiei; Avalon falou com um olhar perdido. -Cheguei a duvidar de quem você era; ele explicou mantendo os olhos baixos, enquanto passava para a outra mão, mesmo sentindo a resistência dela. –Como Stephen disse, você não tinha que se preocupar com quem à armadura esta;

-É o legado de minha família; ela respondeu fria.

-Não mais, você sabe que não tem mais essa preocupação; ele falou voltando-se para ela, vendo aos poucos os orbes voltarem a ser castanhos. – Mesmo assim decidiu seguir em frente, contrariando o que o destino tinha lhe reservado;

-Como?

-Quando essas marcas foram feitas; ele começou, indicando os dois pontinhos no pescoço da jovem. –Houve uma troca, quando queremos algo precisamos dar outra coisa de valor equivalente;

-Esse é o primeiro preceito da troca equivalente; Jéssica falou, quando ele terminou e afastou-se um passo instintivamente.

-Você tinha de viver, por isso uma parte dele ficou com você; Avalon falou fitando-a intensamente.

-Não entendo;

-Se quiser manter sua sanidade, você sabe o que não pode fazer. Mas isso não trará sua vida de volta. Você sabe que não é mais humana e precisa encarar isso; ele falou em tom serio. –Mesmo que ele continue batendo; ele completou pousando a ponta dos dedos delicadamente sob o coração da jovem.

-Não vou perder o controle; ela falou esquivando-se.

-Sei que não; o jovem falou com um fino sorriso nos lábios. –Você é muito forte para se deixar corromper. Mas ainda existirão momentos que você ira fraquejar e querer desistir;

-E o que sugere? –ela indagou, vendo aos poucos as pessoas deixarem os abrigos e se aproximarem novamente.

-Vou lhe ensinar o que precisa, não apenas o lacre para a armadura; Avalon falou convicto. –Mas aquilo que Ryana não ensinou a seu pai; ele falou de maneira enigmática.

-Como? –ela perguntou confusa.

-O Lacre de Houren; Avalon falou solenemente. –Uma magia mais antiga do que o próprio tempo, que nem mesmo os mais antigos alquimistas conseguiram suportar tudo que ela representa; ele completou.

Continua...Domo pessoal


Me desculpem a sumida, mas vou continuar assim por pelo menos mais uma semana. Minha vida anda uma loucura ultimamente, não apenas com o trabalho, mas essa semana começa uma feira importante aqui na minha cidade e vou estar trabalhando no evento como expositora.

Todos esses dias venho cuidado das peças que vou levar para a feira (não sei se já comentei, mas alem de desenhar e pintar telas, ainda pinto caixinhas de madeira e afins) e estarei com uma boa coleção na Ceagesp em Flor, por isso não postei nada.

Mas, já fazia um tempo que estava com esse capitulo pronto e graças a uma folguinha que tive, consegui revisá-lo, para mostrar a vocês. Espero sinceramente que gostem e assim que as coisas se normalizarem, eu estou de volta.

Ademais, obrigada a todos que acompanham minhas histórias e tem uma santa paciência, para me agüentar XD.

Um forte abraço...

Dama 9

N/a: Melyora e La Rochelle, ambas são ilhas escocesas fictícias de minha criação e pertencentes a essa saga. Em breve vocês terão a chance de saber um pouco mais sobre cada uma delas.