Capítulo – Sem Vínculos

Após ter lhe dado uma bronca por ter ajudado a muçulmana sem justificativa convincente, Alice girou por sobre os pés e saiu, chateada, deixando-o sozinho para entrar em sala. Todos os olhos ainda estavam nele, mesmo assim, acostumado a lidar com isso, acenou para alguns um cumprimento e, decidido a ignorar o fato de ter dado um fora público, entrou em sala.

No automático, atravessou a sala rumo à sua mesa e notou pelo canto do olho que a muçulmana acompanhou seus movimentos, virando o pescoço. Suspirou e sentou, enfadado, se perguntando que fixação era essa dele nela, ao ponto de perceber cada movimento. O caso ficava cansativamente repetitivo.

—Bom dia, acadêmicos. Como hoje é o dia mundial de prevenção a AIDS, a universidade está distribuindo preservativos para todos os alunos.— Sra. Coper interrompeu a aula de Física Quântica do Sr. Thompson, e ela trazia junto a si uma caixa nas mãos. —Eu vou passar a caixa e cada aluno pegue o tanto que lhe achar suficiente, passando em seguida para o próximo aluno.— Avisou e colocou a caixa na primeira mesa, de uma menina, que fez cara de repulsa e passou adiante. Os alunos riam e satirizavam conforme a caixa era passada.

—Para cada saída com uma gata eu uso dez.— Mike disse, enchendo a mão de preservativos.

—Só se for para colocar tudo de uma vez e deixar mais grosso.— Ben ironizou e todos da sala gargalharam. Edward ouviu os comentários sem sorrir, notando que a próxima mesa seria da muçulmana e Ben iria passar a caixa para ela. Ele estendeu sorrindo a caixa, e ela, indiferente, não virou o rosto em direção a ele.

—Com quem ela vai usar? — Mike disse. — Ela deve ser tão feia e desdentada que nenhum homem é capaz de lhe fazer essa caridade.— Escarneceu, mesmo assim Ben levantou de sua mesa e colocou a caixa na mesa dela. A princípio, ela permaneceu com o rosto virado para frente, como se ele fosse invisível.

—Ela tanto pode ser feia, como pode ser uma daquelas beldades de filmes que dançam a dança do ventre.— Ben comentou e sentou-se sobre a sua mesa, olhando-a cheia de malicia. —Vai saber o que tem por baixo desse vestido folgado.— Ele riu. —Uma coisa é certeza. Ela é virgem. Dizem que os sheiks compram esposas virgens. —Ela virou o rosto em direção a Ben, e ambos se olharam.

Por algum motivo, Edward se sentiu incomodado com a cena. A maneira como Ben a olhava era ridícula. O silêncio se ampliou, ela abaixou o olhar, parecendo analisar a caixa, em seguida respirou fundo e olhou em direção a Edward, provavelmente calculando a distância para levar a caixa até a sua mesa, uma vez que ela estava no meio da sala e a mesa dele seria a próxima a receber a caixa.

Ao notar sua relutância em ir a sua mesa, Edward levantou-se, planejando com isso desviar a atenção dela.

—Vou pegar logo a minha porque tenho que sair.— Disse casualmente para ela, enfiando a mão na caixa. Até parece que ele usaria esse tipo de preservativo. —Vai pegar alguma?— Perguntou baixo, segurando a caixa nas mãos. Ela ergueu o rosto, certamente olhando para ele, e balançou a cabeça em negativa. Ele pegou a caixa de sua mesa e passou-a para a pessoa que sentava duas cadeiras a frente da sua, para então sair da sala.

Lá fora, deu uma volta pelos corredores, desatento, com as mãos nos bolsos.

—Edward...— Heidi aproximou-se, já o imprensando contra a parede do corredor. As mulheres sempre faziam isso com ele. —Faz tempo que você não tem um tempo para mim.— Sussurrou com a boca em seu queixo, no mesmo instante que passava a mão em sua barriga. —Vamos para o laboratório. Está vazio.

Ele deu um suspiro e acariciou seu rosto, gentilmente, não entendendo por que não tinha apetite. —Hoje não dá. Depois.— Deu um rápido selinho, descolou seus corpos, deu um tapinha em sua nádega e saiu de perto dela.

O corredor estava praticamente vazio, e ao fim dele era a administração acadêmica e a sala dos docentes. Desorientado, apertou os dedos na fronte e se perguntou o que tinha ido fazer lá. Em um átimo, lembrou o motivo e, indignado consigo por continuar se intrometendo, voltou à sala. Quando entrou, a Sra. Coper já tinha saído. Em silêncio, alcançou o fundo, sentou em sua cadeira e respirou fundo, se censurando por não ignorá-la.

Mesmo que o restante da turma não percebesse, alguém mais atento com certeza notaria sua atenção nela, e isso era inaceitável da sua parte, pois ele nunca era atento a ninguém... Ele nunca fez isso antes... Não queria desenvolver esse interesse pessoal, embora talvez já fosse tarde.

Talvez a explicação fosse que, para ele, era, no mínimo, estranho ver alguém sendo hostilizado, imaginar quem ela seria por trás das roupas e imaginar como ela se sentia com as ofensas. Curiosidade. Essa era a explicação. Queria saber como era ser, como ela, exatamente o seu oposto na sociedade. Ele praticamente era o herói, campeão que trazia os títulos. Ela, era tratada como inimiga, principalmente em Liverpool.

O restante da aula da manhã se passou rápido, e como ele estava a fim de faltar às últimas aulas, foi para casa no intervalo com Alice, buscar o carro dela. Ele tinha acordado às seis da manhã para correr, e teria treino às cinco horas da tarde, logo planejava descansar um pouco, ficar um tempo com sua mãe, depois ir para o treino.

—Resolvi vir porque vou dormir um pouco agora à tarde.— Explicou para Alice, assim que estacionou em casa.

—Descanse mesmo. O treinador deve pegar pesado com vocês depois de uma semana de folga.

—Então vou subir.— Deu um beijo na testa dela, deixou o estacionamento e entrou em casa, indo em seguida aos cômodos previsíveis, intencionado a achar sua mãe.

—Esme, onde você está?— Sorridente, a procurou no jardim suspenso, em frente ao quarto dela no segundo piso. Ela se movimentava graciosamente com um borrifador de plantas na mão, pegando cuidadosamente em suas rosas.

—Oi, mãe.— Abraçou-a por trás. —Não ouviu eu te chamar?

Ela virou e ele beijou sua testa.

—Oi, filho. Eu não te ouvi.— Sua voz foi um murmúrio, e logo ele viu lágrimas em seus olhos.

—O que foi, Sra. Cullen? Por que estava chorando?

Ela abaixou o rosto, numa inútil tentativa de esconder as marcas do choro.

—Eu não estava chorando. Foi um cisco.

Ele sentou em um banco de cimento e forçou para que ela sentasse em seu colo.

—Não quero você chorando, dona Esme. —Apertou o seu nariz.

Ela limpou os olhos, saiu do seu colo e sentou no banco, ao seu lado, com as mãos sobre a perna, olhando para o vidro que dava para frente da rua.

—Eu sinto falta dele.— Murmurou. —Eu avisei para ele não se meter... Era como se eu sentisse...

—Ei...— Edward segurou suas mãos. —Chega. Ele foi por escolha própria. Eu não quero que você sofra mais, muito menos aqui, sozinha, com seus filhos na Universidade.— Disse e a abraçou, colocando sua cabeça em seu peito. Ficaram lá, abraçados, então ele resolveu introduzir um assunto aleatório, vendo se assim ela ficava mais animada. —Mãe, tenho uma grande curiosidade. Por que a senhora tem um amigo sheik se as famílias de vocês não tinham contato com muçulmanos?

Ela deu um risinho animado e se afastou do seu peito.

—Coll?— Franziu o cenho e balançou a cabeça. —Ele não é sheik muçulmano nem nada. Na verdade ele era um londrino cristão até onde ele me lembro.— Riu mais.

—Como assim? Ele já estudei sobre islãs. Para alguém ser sheik tem que estudar o alcorão e ser chefe islã.

Ela balançou a cabeça em negativa, com o humor brilhando em seu rosto.

—É uma longa história, mas ele não gosta que ela se espalhe para não perder o nome poderoso que esse título dá. A história real é que a mãe dele teve um romance com um sheik aí das arábias e há três anos o sheik morreu, deixando só ele de filho. Então, apareceu um chefe muçulmano dizendo que Coll estava no testamento do Sheik. Era até um milagre que um pai que nunca lhe dera apoio, mesmo sendo dono das maiores jazidas de petróleo do Iraque, lhe deixasse sua herança. Depois disso, como todos os súditos dele e os homens com os quais negocia são islãs, ele adotou o costume, e dança conforme a música, mas creio que ele não adotou a religião.— Explicou pausado.

—Humm. Vocês são amigos de onde?

—Por que esse interesse, filho?

—Por que eu estudo na mesma sala que a noiva muçulmana dele.— Disse sorrindo como quem contava uma fofoca quente. Ela arregalou os olhos atenciosa.

—Sério? Eu não sabia que ele ia casar.

—Bom, mãe, se ele resolveu não adotar a religião, pelos menos os costumes dos sultões ele adotou por que dizem que ela é donzela.— Piscou ironicamente e sorriu.

—Nossa, tenho que ligar para ele. Somos amigos de adolescência. Ele foi um rolo da sua irmã, mãe da Rosalie.— Ela sorriu e acariciou seu cabelo, completamente recuperada. Ele fechou os olhos e curtiu o mimo. —Faz meses que não nos vemos. Desde que seu pai morreu, ele só me ligou umas quatro vezes, ocupado demais com os negócios.

—Mãe.— Edward a sacudiu pelos ombros. —Ligue para o seu amigo. Encontre seus amigos antigos. Saia de casa. Pelo amor de tudo o que é mais sagrado, a gente não pode morrer junto com ele.

Ela sorriu, assentindo, porém era aquele sorriso forçado para não o magoar.

—Tô subindo para o meu quarto.— Edward avisou e beijou sua testa. —Vou descansar um pouco para o treino.

—Amo você, filho.— Ela lhe abraçou forte.

Depois de ouvir bastante música, tentando relaxar, ele vestiu seu uniforme para frio e saiu de casa, em direção ao clube, acompanhado por um carro de escolta. Seus dois seguranças que o acompanhavam aos treinos. Precisava deles por causa do horário que voltava.

O clube era nada mais que quinze minutos distante da sua casa, porém saiu cedo com intenção de não se atrasar. Ao chegar lá, foi direto para o vestiário no térreo, calçou sua chuteira e subiu, encontrando o time em frente ao vidro que dava vista para o campo gramado.

—Pronto para rolar comigo na chuva, bonitão?— Rilley brincou e beliscou sua nádega.

—Ow, seu veado, eu gosto é de mulher!— Edward pulou longe, com os braços cruzados por causa do frio, já imaginando como o treino seria duro na chuva, afinal, nas segundas e terças não pegavam na bola. Era só corrida e trabalhos físicos forçados.

—Hoje só os peneiras vão fazer o teste na chuva.— O treinador avisou, fazendo com que a turma que estava dispersa se juntasse mais. —Como as moças aqui passaram uma semana sem treino, não vou matar vocês na chuva. Vou esfolar vocês na academia.

Edward olhou pelo vidro do segundo andar e analisou os peneiras que corriam no campo, vendo que os testes na chuva estavam puxados. Havia muita lama no campo, e muitos tombos eram vistos com os movimentos sobre a água. Porém, mesmo chovendo lá fora, Edward preferia mil vezes um treino de três horas na chuva do que as cinco horas que enfrentariam na academia.

—Eu duvido se o bastardinho não vai conseguir o contrato.— Rilley se encostou ao seu lado e comentou.

—Quem é o bastardinho?— Ironizou.

—O Hale. Um cabeludo que está jogando no meio campo.— Apontou.

—Não dá para ver. Está chovendo muito. Mas por que você fala assim? Ele não joga bem?

—Até que joga.— Deu de ombros. —Mas ele só está aqui por que é filho de alguém influente. Tem dois meses que ele está lá e ninguém fica tanto tempo na peneira assim. Estão dando muita chance.

—Cara, já não basta saber da vida de todo mundo do clube, agora sabe até da vida dos peneiras?— Ralhou brincalhão, deu um murro em seu ombro e sorriram.

—Vocês dois estão se achando, né, Batman e Robin. Por que não desceram para academia ainda?— O treinador repreendeu.

—Estamos indo, treinador Marcus.

Edward desceu as escadas correndo, e Rilley veio logo atrás. Antes de ir para a academia, passou no vestiário e trocou o moletom por um short. Já que iam suar, pelo menos tinha que estar com uma roupa mais leve.

Os treinos na academia eram daqueles em que matava ou aleijava. Exagero? Lógico que não. Começava com uma corrida na esteira de duas horas, em seguida faziam mil abdominais no chão, mais mil nos aparelhos. Após isso, tinham um intervalo de vinte minutos, para então recomeçar nos aparelhos de musculação. Eram vinte e cinco jogadores, entre titulares e reservas, suando, enquanto o treinador, os fisioterapeutas e o médico os monitoravam pelos computadores.

—Da próxima vez vou colocar vocês juntos com os peneiras na chuva, moças. Vocês estão aqui no quentinho e estão com essa moleza toda, podem aumentar 30 kg!— Gritou o treinador Marcus, ao ver a maioria dos caras exaustos com somente quatro horas de treino.

Edward ofegou, já sentindo os músculos da coxa queimarem e o suor escorrer livremente em suas costas. Já assoviava o ar pelos dentes, as batatas da perna tremendo pelo excesso de peso que levantava, quando apareceu uma garota de capuz na porta, olhando desorientada para dentro da academia... Ele reconheceria aqueles olhos azuis em qualquer lugar. Mesmo que ela estivesse de moletom e capuz, no momento em que seus olhos assustados encontraram os dele, ele a reconheceu. Ela ficou congelada onde estava, e o treinador andou em direção a ela.

—Pois não, senhorita?— Ele ergueu a sobrancelha e ela abriu a boca, sem desviar os olhos de Edward.

—Conhece ela?— Rilley perguntou, ao ver a troca de olhar. Edward tinha parado os exercícios.

—Com licença.— Ela virou e saiu, andando rápido.

—Conheço.— Soltou os pés do aparelho. —Vou ali.— E saiu da sala, deixando o treinador reclamando. Ele não ia perder a oportunidade de falar com ela. Ele queria saber sobre ela. Se ela era funcionária, conhecida de alguém, ou até mesmo namorada.

Estranhamente, pegou um lado seu rezando que ela não fosse namorada de ninguém. Afinal, era lema do time não mexer com mulher dos outros. Todavia, ela não podia ter namorado. As duas vezes que a tinha encontrado ela dançava sozinha, logo, ele podia despreocupar.

Andou rápido e a encontrou, aparentemente perdida no fim do corredor, olhando para vários lados.

—Perdida, Cygne?— Aproximou ofegante. Ela virou-se lentamente, encontrando seus olhos.

—Vai me perseguir agora?— Inquiriu fria e virou-se novamente, olhando pelo vidro para o campo molhado.

—É você quem me persegue. Se não percebeu sempre você está nos locais em que o meu clube está.

—Então finja que não me vê. Pode ter certeza que eu vou fazer o mesmo com você.— Disse ríspida, virou-se e abriu uma porta que dava acesso ao campo. O vento entrou frio, e Edward sentiu o choque térmico em seu corpo suado. Ela parou embaixo da marquise, esfregando as mãos de frio, provavelmente buscando coragem para enfrentar a chuva.

Ele ficou parado, somente observando-a. Ela suspirou, frustrada, e, lentamente, virou em sua direção.

—Você sabe como eu saio para o estacionamento?— Sua voz saiu sussurrada, insegura, longe da garota arredia que ela sempre se mostrava ser. No instante seguinte, seu olhar caiu sobre o peito dele e foi descendo lentamente, os olhos arregalando e a boca se abrindo. Instantaneamente, ele se sentiu tenso com aquele olhar minucioso em sua barriga - cada vez mais descendo. Ela balançou a cabeça e respirou. —Você é louco! Vai pegar um resfriado.— Disse espantada e voltou o empurrando para dentro com as duas mãos.

Inconscientemente, ele colocou a mão em sua cintura ao ser empurrado para dentro. A respiração dela bateu tão perto que a sentia em seu peito, a tensão da proximidade crescendo nele. Congelou e mentalmente algumas indagações se debatiam em seu cérebro, primeira: o que ele fazia ali? Por um acaso estava mesmo com mania de perseguição? Só por que a menina tinha ido à sala de musculação não lhe dava o direito de ir atrás dela achando que eram conhecidos. E só por que ela falou com ele duas vezes, ressaltando que, hostilmente, não o respaldava achar que eram conhecidos. Afinal, quantas vezes ele ficava com uma menina três, cinco vezes e não lembrava nem seu nome.

Mas o que era pior da situação toda, é que ele realmente não precisava se dar o trabalho de falar com esse tipo de menina que o hostilizava tanto. Nunca precisou disso, nunca precisou ir atrás de menina nenhuma. Ressaltando NENHUMA.

Ainda desfiando questionamentos, sentiu a fragrância que exalava dela, junto com sua respiração, e se condenou por gostar de senti-la tão próxima, mesmo ela sendo tão expressiva em sua repulsa.

Passou a mão na testa e olhou-a na sua frente, ele com uma mão ainda em sua cintura, ela com a sobrancelha arqueada, aparentemente esperando a resposta para a sua pergunta.

—A saída é por ali.— Falou baixinho, apontando para a esquerda.

—Obrigada.— Sussurrou e não se moveu, o corpo a centímetros do seu.

Os olhos dela se fixaram nele, fazendo-o procurar o motivo de sua atenção. Ele estava sem camisa, com o peito levemente brilhando por causa do suor. E ao notar o seu olhar latente, se sentiu o cara. Voluntariamente flexionou o peitoral, sorrindo dissimulado sem que ela notasse. Distraída, ela abriu a boca em uma muda interjeição, a respiração ficando irregular. Conseqüentemente, o seu cheiro foi entrando e afetando o sistema dele.

Hesitando, ela levantou a mão e parou-a a uma distância milimétrica do seu peito, completamente entretida. Ele suspirou e apertou sua cintura, mentalmente torcendo que ela seguisse em frente. A pontinha do dedo dela passou em seu peito, eletrocutando onde passava, tocando o peitoral, estudando o músculo, no mesmo instante em que seus olhos acompanhavam o movimento. Ele estava sendo avaliado e isso o deixava assustadoramente convencido e, involuntariamente, duro.

—Não é photoshop.— Ela murmurou quase sem sons, em transe, com as duas mãos agora em seu peito, descendo lentamente para o seu abdômen, como uma criança fascinada com um brinquedo. Instintivamente a batida dele acelerou, fazendo os músculos do seu corpo enrijecer mais ainda, tremendo por onde sua mão passava. Ela lambeu os lábios, inconsciente de que o objeto de sua avaliação estivesse vivo, ali, sendo praticamente comido com os olhos.

Decidido a fazê-la saber o que pensava sobre toda aquela análise, apertou, excitado, os dedos em sua cintura, encostando ela a ele, mostrando o tamanho do seu músculo em sua barriga.

—Se você quiser, podemos ir para outro lugar e você vai poder estudar TODOS os meus músculos, de preferência com sua boca substituindo sua mão.— Sussurrou, descarado, quando os dedos dela já estavam no V da sua barriga e sua respiração já tinha se descontrolado totalmente. É lógico que ele estava sendo direto e pervertido, mas para uma mulher estar se alisando daquele jeito, ela só podia estar interessada.

Ela olhou em seus olhos, passou a língua nos lábios, lentamente, o fazendo quase perder o controle e atacar sua boca, depois ela simplesmente gargalhou, debochada.

—Espere deitado, Cullen.— E empurrou seu tronco. Mesmo assim, ele não a soltou.

—Espere um pouco... Você trabalha no clube ou conhece alguns dos testandos?— Perguntou porque na sala dos titulares com certeza ela não conhecia ninguém, já que ela não falou com ninguém de lá.

—Cullen...— O modo como a língua dela mexeu ao falar o seu nome o fez pulsar no short. Apertou-a mais. Ela aproximou-se da sua boca e pôs o indicador no seu lábio, olhando-o com interesse. —Você devia perder essa curiosidade sobre mim. Não. Somos. Amigos.— Disse entre dentes e não tinha nem uma ponta de divertimento no seu comentário. Pelo contrário, parecia mais um aviso.

Ele teve os mais incríveis e lascivos pensamentos com aquela gatinha furiosa rosnando para ele.

—Eu nunca disse que éramos.— Sugou seu dedo que estava em seus lábios e passou a língua na ponta. Ela ainda olhou sua boca uns segundos, então, bruscamente, o empurrou, girou nos pés, andou rápido até a porta, abriu e saiu correndo, sem olhar para trás.

Antes de voltar para sala de exercício, ele notou pelo vidro ela correndo na chuva, rumo ao estacionamento. Suspirou, frustrado e voltou, arrastando as pernas, ajustando o incomodo nas calças. Sentou em seu aparelho e Rilley o olhava como se tivesse com um olho a mais na testa.

—O que há, cara?— Perguntou finalmente.

—Sabe quando você tem todas as pessoas na sua cola e quando uma pessoa se mostra inacessível, você quer mostrar para você que é, que você pode ter todas?— Soou desprezível, mas era essa a justificativa para essa atração deslocada.

—Não. Nunca passei por isso. Mas você está falando daquela menina?— Disse com descaso, apontando para a porta.

—Não, Rilley. É só um pensamento alto.— Merda, ele não era de ficar se expondo assim!

—Todos dispensados.— O treinador avisou. —Só o Lyon que vai permanecer mais uma hora de treino por não ter tido coleguismo e ter abandonado o time atrás de uma guria.— Edward bufou irritado. Puta merda, ele só tinha ficado lá fora no máximo dez minutos e agora ia ter que se ferrar uma hora!

Quinta-feira daquela semana, ao entrar na sala, para seu espanto, após dois dias faltando aula, a muçulmana apareceu vestindo roupas normais. Ele atravessou o corredor com a atenção voltada para ela, curioso em vê-la sem a burca, quem sabe descobrir a cor de seus olhos. Porém ela não levantou a cabeça.

Já em seu lugar, ele olhou-a furtivamente várias vezes, analisando-a. Ela vestia uma calça jeans escura, folgada, uma blusa preta de manga longa, também folgada e um sapato fechado. Ela usava as luvas e o lenço. Se sua intenção era se esconder, cumpriu o objetivo, pois se alguém, qualquer pessoa, esperava avaliar seu corpo com a roupa diferente, iria perder a viagem.

Edward notou Ben a olhando de canto, com interesse, mas ela não percebeu. Vez ou outra ela espirrava, o tempo todo com um lenço descartável na mão. Talvez fosse esse o motivo dela ter faltado. Resfriado. E talvez o motivo dela não ter ido com a burca tenha sido exatamente esse, ter acesso ao nariz por baixo do lenço, já que espirrava muito.

Como de costume, em aula de Eletricidade eles tinham uma avaliação prática de três em três semanas e, frustrado, por não conseguir matar a sua curiosidade, ele atentou ao teste que estava sobre sua mesa, que consistia em identificação das alterações ocorridas com os transistores. Colocou o multímetro sobre a mesa e começou os testes.

Notou Mike e Ben sorrindo de algo e, pelo canto de olho, viu que riam e olhavam para a muçulmana. Continuou seus testes, anotando cada alteração, para então ouvir um barulho. Olhou para a fonte do barulho e viu que ao lado de Ben estava a muçulmana toda suja de branco, espirrando e esfregando o olho. Mike ria, mas Ben a olhava com espanto.

—Desculpa.— Ben se aproximou, e ela continuou de cabeça baixa, o lenço e a blusa cheios de pó. Toda a sala parou os olhos neles, e, inquieta, a islã esfregava o olho. Ben se colocou em pé, ao seu lado. —Vamos lá fora lavar que eu te ajudo.— Ele pegou no braço dela, e ela o empurrou, balançando o rosto em negativa. Porém, ela espremia os olhos, com certeza estaria ardendo por causa do NAHCO3. Bicarbonato. —Por favor, foi minha culpa, eu quero ajudar.— Ele estendeu a mão para ela, e ela lacrimejava, provavelmente com as vistas irritadas e embaçadas.

Por um segundo Edward sentiu pena, e ao ver Mike gargalhando teve uma súbita vontade de esmurrá-lo. Hesitante, ela pegou sua bolsa e pôs a mão no braço do Ben. Ele a ajudou a andar pelo corredor, recebendo o olhar de todos os alunos.

—Mestre Fenton, aconteceu um acidente e a Isy vai lavar o rosto.— Ben avisou para o mestre antes de sair, porém não sem antes dar uma olhada para Mike e piscar. Mike sentou em sua cadeira uns segundos, depois levantou, dizendo que ia ao toalete. Por algum motivo Edward suspeitou que tivesse algo errado e, sem que ele se desse conta, em um segundo estava em pé, andando rápido pelo corredor.

—Com licença, Mestre.— Saiu rápido da sala, indo em direção ao corredor.

Ao passar pelos toaletes perto da sala teve certeza que eles não estavam lá, pois estavam vazios e silenciosos. Andou até o fim do corredor, em um local mais isolado, e a primeira coisa estranha que percebeu foi a porta do toalete masculino fechado. Nesse instante teve certeza de que tudo era uma armação dos dois contra ela. Em outros tempos, até acharia engraçado. Mas algo mudava nele. Talvez tivesse com dó, pena por ela tentar se esconder, e por um motivo ou outro ser sempre exposta ou notada.

Ele tentou abrir a porta, mas sentiu um peso atrás. Ouviu alguns resmungos, grunhidos, então se sentiu tenso e preocupado com a menina, ao mesmo tempo impotente. Que porra era essa que ele sentia? Bom, isso não era hora de desfiar questionamentos. Fez força na porta, empurrou, depois de forçar bastante, a porta se abriu e Ben, que estava segurando, caiu ao chão.

—O que está acontecendo aqui?— Tentou mostrar indiferença, mas ao ver Mike segurando a garota pela garganta, ela com os olhos lacrimejando e com uma maquiagem preta borrada em todo o seu olho, não conseguiu controlar a ansiedade.

—Você também pode ver, Cullen. Vamos tirar esse lenço dela e ver o rosto.— Mike colocou a mão dentro da blusa dela, expondo a pele da barriga, que era branca, muito branca, não morena como maioria das muçulmanas. Edward desviou os olhos, sentindo embaraço em olhar. Era como se ela fosse... sagrada ou...proibida. Não se sentiu a vontade. Mike continuou. —Ben apostou que ela é bonita. Eu apostei que ela é feia. Se ela for bonita, Ben é o primeiro.— Ele gargalhou e apertou mais a garganta dela, fazendo-a ficar na pontinha dos pés contra a parede. —Mas não se preocupe. A gente não liga de dividir.— Os olhos dela se arregalaram mais ainda e, como se assistisse a cena de fora do seu corpo, Edward balançou a cabeça, desentendido do que eles diziam.

—Dividir o que?

—Ela. Dizem que ela é virgem. O Ben inaugura e nós dois podemos fazer a festa depois.— Mike disse e se inclinou, chegando com o nariz até seu pescoço.

Inesperadamente, ela deu uma joelhada nele e o fez encolher-se.

—Ah, sua vadia terrorista.— Urrou, e ela olhou para a porta com olhar extremamente assustado.

—Aqui você não passa.— Ben disse, fechando a porta.

Ela lhe olhou apavorada e, naquele instante, Edward se questionou o porquê de ter ido lá e o que iria fazer. Ele se sentiu um débil, indeciso entre se envolver e tira-la de lá ou fingir não ter visto nada.

Ainda questionando os motivos por trás do seu impulso, examinou a garota. Seus olhos fixaram nos dele num grito mudo por socorro. Era repudiável que eles tivessem tal intenção. Violentá-la? E por quê? Mike a encarava como um cachorro raivoso. Ela alternava o olhar, em postura defensiva, para os três. Edward encarava os dois, enojado, mas não disse nada, somente os xingava mentalmente de todos os nomes possíveis.

O silêncio pesou no ar. Após o que pareceu minutos, ela abaixou o olhar, resignada, com a linguagem corporal vencida. Edward observou-a e sentiu outra pontada de piedade. Ele não iria deixar sua confiança morrer.

—Ben, cai fora. Você e o Mike.— Ordenou baixo, com os olhos desviados deles.

—Qual é, Cullen, para de ser estraga prazer.— Relutou e Cullen levantou o olhar para ele, com uma fúria negra que jamais tinha sentido.

—F.o.r.a. Isso se você não quiser sair da universidade direto para a delegacia. Você está louco em fazer isso?— Apontou para ela.

—Véi, era só uma brincadeira. Não apela. Você me conhece há anos.

Edward respirou fundo.

—É por isso mesmo.— Falou mais calmo. —Você não sabe com quem está mexendo.— Disse lembrando o arsenal que viu no Land Rover do lacaio.

—Ok.— Ele abriu a porta. —Eu só queria...

—Fora.

Mike, que estava só ouvindo, saiu logo atrás, ainda com a mão segurando o fundo das calças. Eles não saíram por medo, pois Ben era lutador de artes marciais, mas por respeito. O nome Lyon significava muito.

Edward suspirou e olhou de canto para ela. Ela abaixou o olhar, com choque expresso neles, a respiração ainda ofegante, enquanto segurava sua bolsa contra o peito. Nesse instante, ele atentou aos olhos marrons, típico de asiáticos. Eles eram vagamente familiares.

—Pensei que você iria ligar o seu tamagotchi.— Tentou descontrair, mas foi desconfortável dirigir a palavra a ela amigavelmente pela primeira vez, principalmente depois de ter quebrado seu celular dias atrás. —Era bem capaz de começar uma guerra e até a SWAT aparecer aqui em cinco minutos vindo direto dos EUA.

Ela levantou os olhos, que estavam borrados e sinistros, em seguida os apertou, como se sorrisse.

—Termine de se arrumar que eu te espero lá fora.

Ele saiu e encostou a porta atrás dele. Céus, o que eles iam fazer com ela? Ben, podia ser só curiosidade, mas Mike, seus olhos não eram amistosos. Se ela fosse feia ou bonita ele iria querer descontar todo o seu gênio abusando dela. Só esse pensamento tensionou Edward. Era difícil imaginar se ela ofereceria alguma resistência. Só hoje, vendo-a de roupas normais percebeu que ela era uma garota normal, aparentemente frágil. Era simplesmente uma garota com um lenço cobrindo o rosto.

Ele nunca tinha parado para pensar nos estupros cometidos pelos soldados americanos, franceses e ingleses nos países com mulheres muçulmanas. Então hoje, em plena cidade, em um lugar onde se graduava os futuros cientistas e engenheiros, estes estavam dispostos a violar uma mulher por descaso e preconceito em plena universidade. Mas o pior de tudo é que Mike, sendo filho de político, não ficaria dois dias preso.

Finalmente, ela abriu a porta meio apreensiva e saiu.

—Quer voltar para a sala ou quer dar uma volta?— Deu a opção. Ela levantou o olhar, agora com a maquiagem refeita e forte em volta dos olhos, mas não respondeu. —Vamos ali.— Ele acenou com a cabeça, andou na frente, e ela lhe seguiu mais atrás. Os corredores estavam vazios, e ele foi rumo ao elevador do prédio da administração. Ela continuou seguindo-o, devagar, e por um instante ele estranhou sua nova confiança nele. Entraram no elevador, ele apertou o botão para décimo quarto e a porta se fechou. Ele podia ver pelo canto do olho ela lhe observando. O elevador parou, desceram no décimo quarto e olhou em volta para ver se havia alguém. Ao notar o lugar deserto, caminhou rápido, rumo à porta que dava acesso a cobertura e fez sinal para que ela lhe seguisse. Com o olhar desconfiado, ela lhe seguiu. Era difícil acreditar que uma garota tinha acabado de passar por um apuro confiava nele ao ponto de ir para um lugar isolado. Ela não fazia sentido.

—Costumo vir aqui quando estou entediado.— Ele explicou. A cobertura não tinha nada de especial, a não ser uma grande caixa d'água e tábuas espalhadas. Mas por algum motivo ele gostava de se esconder lá. Era um local aconchegante. Ficou em pé frente ao peitoril, podendo ver grande parte da cidade em movimento. E, hesitante, ela encostou-se à grade de proteção, com as mãos na mesma. Ele cruzou os braços no peito e observou-a, sem discrição, por minutos, se debatendo cegamente sobre ela, a curiosidade lhe perfurando. Ele queria saber como ela se sentia depois de tudo.

—Eu sei como você se sente.— Comentou. —Um peixe fora d'água, não é?— Ansiava amenizar o clima tenso e, talvez, lhe passar algum conforto. Ela não respondeu. —Bom, como você não é nenhum tablóide britânico...— Sorriu, surpreso com sua própria forçação de barra —... Vou te contar um segredo: às vezes me sinto do mesmo jeito.— Sussurrou, como se realmente contasse um segredo. Ela permaneceu sem olhar em sua direção.

Dissoluto, olhou, suspirando, para os carros que passavam nas ruas, com os dedos entrelaçados atrás de sua nuca e esperou o tempo passar. A curiosidade sobre ela lhe pinicava, era uma comichão. Ele não conseguia contê-la

—Por que você está aqui?— Quis saber, ainda olhando os movimentos das ruas —Ou melhor, por que você estuda? Que eu saiba seu noivo é rico e você poderia simplesmente se casar e ficar em casa.

Ela não respondeu. Ele se tocou que estava sendo um tolo, arrogante e abelhudo em perguntar, principalmente quando continuava sem respostas, então resolveu lhe dar um tempo e fingir que ela não estava lá, já que era ignorado por ela. No entanto, para sua surpresa, depois de mais ou menos uma hora calados, ela abriu a bolsa, pegou uma caneta e estendeu a mão para ele.

—O quê? Você quer minha mão?— Perguntou sem entender.

Ela assentiu, movendo a cabeça. Estendeu sua mão e ela pegou-a, colocando sobre a sua, em seguida começou a escrever.

Talvez por que simplesmente eu tenha que viver. Bem ou mal, é melhor continuar vivendo. Por isso freqüento a universidade.Escreveu.

Ele olhou por minutos para ela, tentando decifrar as suas palavras.

—Você não gosta da sua vida?— Inferiu. Ele tinha lido recentemente sobre a infelicidade de algumas mulheres muçulmanas que viviam uma vida de subserviência. Por outro lado, leu também que a maioria gosta, por isso fez a pergunta.

Ela continuou de cabeça baixa, com a sua mão na dela, respirou fundo e voltou a escrever. Eu gosto de viver.

Foi o que ela respondeu e soltou delicadamente sua mão, notoriamente encerrando a conversa. Certamente não era sua intenção elaborar o assunto. De certo, devia ter conversado com ele somente por gratidão pelo seu ato protetor.

Ele sorriu ao observá-la e relaxou, curtindo o momento ao máximo, enquanto o vento batia em seu rosto. De um modo natural, ele se sentia a vontade com ela, embora ambos estivéssemos silenciosos.

Tinha um pensamento pulsando em sua mente, ainda que ele estivesse atrasando debater: Questionava-se o porquê de ter feito isso, não entendia por que a observou ao ponto de ter pressentido a armação. E pior, inevitavelmente, nascia nele agora um sentimento estranho de preocupação por ela, pesar... Esse não era ele.

Ouviram o sino, e ela se assustou, olhando, ansiosa, para o relógio no pulso dele.

—Perdemos a avaliação, mas depois conversamos com o mestre.— Ele aclarou, e ela assentiu. —Está melhor? Quer voltar para a sala?

Ela hesitou, olhando para o chão.

—Você pode dar mais um tempo aqui enquanto os alunos se dispersam e chegam ao refeitório.— Deu a opção ao lembrar seus receios em transitar pelos corredores quando estavam cheios de alunos.

Ela assentiu, balançando a cabeça.

—Er... Vou indo.

Ele passou na lanchonete, comprou um lanche e voltou para a sala, querendo aproveitar o vazio dela durante o intervalo. Sentou e desembrulhou o sanduíche, abrindo em seguida a latinha de coca.

—Oi, Edward. Onde você estava?— Alice entrou na sala e sentou-se em sua mesa, balançando os pés.

—Estava dando uma volta.— Respondeu e deu uma mordida no sanduíche.

—Nossa, o que foi aquilo?— Apontou para a parte coberta de pó.

—Um acidente na aula de Eletricidade.

No mesmo instante a garota muçulmana entrou em sala, caminhando lentamente até o seu lugar.

—Ah, por que não usaram uma bomba eficiente?— Alice ironizou ao perceber que o acidente tinha sido com a muçulmana.

—Alice, você não tem personalidade. É movida pelo senso comum. Você é assim: se todos odeiam muçulmanos, eu odeio; Se todos amam a rainha, eu amo; Se todos odeiam David Cameron, eu odeio.— Imitou-a em tom baixo e bebeu um pouco de coca no canudinho.

—Por que você está falando assim comigo?— Arregalou os olhos ressentida e só então ele se deu conta do que falou. Perplexo com sua própria atitude, mas satisfeito, pensou um pouco, olhou para a garota muçulmana e tomou coragem de falar a verdade para Alice.

—Por que você não tem motivo para tratá-la assim.— Sussurrou. —Ela não está armada. Nunca dirigiu a palavra a você.

—Mas com certeza ela deve fazer parte de uma legião de terroristas. Inclusive, você já se perguntou o que ela faz aqui no curso de Engenharia Nuclear? Ela pode ser a próxima mulher bomba que irá matar seus filhos, ou você. Igual mataram nosso pai.— Disse em um tom mais alto, provocativo, fazendo questão de ser ouvida. Edward olhou para a muçulmana, e ela tinha parado de comer um cookie que tinha pegado em sua bolsa. Edward rolou os olhos, ignorando Alice, em seguida ela comentou baixo. —Ela hoje está com os olhos de fora.— Disse surpresa.

—Nem tinha notado.— Mentiu, deu de ombros e se virou para frente.

Alice ainda olhou para ela por minutos, depois se inclinou, para falar em seu ouvido.

—É um absurdo. Ela usa sapato exclusivo Prada, calça Calvin Klein.

—Pudera. Ela é noiva do sheik. Ele é um dos dez homens mais ricos do mundo.

—Falando em dinheiro, maninho, estou querendo ir a França fazer umas comprinhas. Libera a verba.

—Fala com minha mãe. Diga que eu liberei.

—Ok. Então tchau.— Levantou-se e saiu. —Fica aí com a visão da morte.— Fez careta de desdém em direção a garota e saiu.

Ele esperou Alice sair, para depois comentar baixo.

—Não liga. Ela é uma criança mimada.

A muçulmana não respondeu, sequer olhou para ele. Tudo voltou ao normal.

A aula terminou mais cedo, e quando ele estava se levantando para sair, percebeu Mike e Ben cochichando. A muçulmana sempre era a última a sair. Eles provavelmente soubessem disso. E determinado a não deixá-la só depois do que aconteceu mais cedo, Edward enrolou um pouco. Mesmo assim, Mike e Ben embromaram, fingindo escrever algo.

Edward olhou para ela e fez sinal com a mão para que ela saísse. Ela alternou o olhar dele para Mike, balançou a cabeça em negativa em sinal de chateação e levantou. Quando ela chegou à porta da sala, ele foi atrás, mantendo uma distância segura. Percebeu que ela abriu o caderno, escreveu algo e deixou cair. Inclinou-se e pegou.

Você não é meu segurança particular. Não tem obrigações comigo. Deixe-me com os meus problemas e fique com os seus. I.

Ela tinha razão. Onde ele estava com a cabeça para se intrometer assim em um problema que não era seu? Enfurecido com suas atitudes, acelerou os passos e passou por ela, atravessando, rápido, o portão.

No dia seguinte, ao entrar na sala, olhou para os fundos e ela já estava lá. Por um instante discutiu mentalmente se deveria cumprimentá-la ou não. Para sua frustração, no momento em que fixou seus olhos nela, não pôde ver se ela lhe olhava ou não, pois ela usava a burca novamente. Por algum motivo desconhecido aquela roupa que cobria ela toda lhe incomodava. Talvez a sensação de ter pelo menos os olhos dela acessíveis passasse naturalidade.

Andou pelo corredor de mesas com os olhos fixados nela, ainda indeciso se acenava ou não. Entretanto, em oposição a sua vontade, ela abaixou a cabeça, evitando assim que ele se dirigisse a ela. Com uma esquisita sensação de frustração, sentou e não a cumprimentou. Nem naquela hora, nem em outra.

Duas semanas se passaram desde aquele dia. Tudo discorria normal e fácil a sua volta, com alguns extras em sua vida profissional. Foi convocado para competir pela seleção da Inglaterra nas eliminatórias pela copa, isso lhe tirou de Liverpool por dois fins de semana seguidos. Em casa, sua mãe estava lutando para emergir, saindo mais vezes com Rosalie e Alice.

Na universidade, tudo voltou à rotina, como antes dela aparecer, ou melhor, quase tudo, pois inevitavelmente ele se pegava de quando em vez, distraído, olhando em sua direção. Além disso, ele nunca mais foi o primeiro a sair de sala e vivia inventando desculpas mentais do porquê. Ações essas que o deixavam cada minuto mais louco consigo.

Em sala e pelos corredores, nada de novo aconteceu a ela. E essa era uma forma fácil do mundo correr a sua volta, pois ele realmente não queria se envolver mais nas tramas que a envolvia. Ela mantinha-se abstraída, alheia a tudo, e nunca mais olhou em sua direção. Bom, não podia dizer que não gostava da indiferença dela, porque realmente gostava. Por um instante, depois do fato ocorrido entre ela e os meninos, ficou preocupado dela achar que viraram amigos e assim pegar no seu pé. Mas não. Ela soube lidar habilmente com a situação. E agora parecia que as coisas estavam mais calmas em todos os aspectos para ela na universidade.

Ben Cheney era surpreendente. Ele agora sentava de lado para ficar olhando para ela. Bom, ou ele notou a atenção de Edward sobre ela, ou sentiu remorso com a brincadeira que fez. Se algo dela caía no chão, ele pegava. Se o mestre passava algum trabalho em que o aluno tivesse que se deslocar e buscar algo, ele buscava e colocava na mesa dela. Ela se mantinha impassível, sem nem mesmo levantar o rosto em direção a ele em agradecimento. Mesmo assim, ele era insistente em lhe agradar.

Já Mike sempre a olhava com malícia e interesse, um olhar inescrupuloso, algo que Edward conhecia em homens. Era como se ele a despisse com o olhar. Situação que deixava Edward sempre com vontade de esmurrá-lo. Por um acaso ele não sabia que existia alguém muito mais que corpo por baixo daquelas roupas? Alguém forte, com vontade de viver, com vontade de enfrentar o mundo... Ele não percebia sua linguagem corporal apreensiva, mas ao mesmo tempo guerreira? Ele não percebia suas costas se levantando em suspiros preocupados ou às vezes de alívio? Será que ele não percebia que ela era uma boa pessoa, que nem mesmo cogitou a idéia de delatá-los para a direção da universidade? E nunca, nunca ela ao menos reclamou das brincadeiras que eles fizeram com ela... Céus, ele não via que ela era uma garota muito diferente para querer somente violar o seu corpo?

O professor entrou em sala e o tirou de suas divagações.

—Bom, turma, hoje teremos um trabalho em dupla.— O mestre avisou, abrindo o armário para pegarem os aparelhos de STM. —Peguem os aparelhos, as máscaras e as luvas que hoje iremos trabalhar com pedras de urânio.

Entediado, Edward foi até o armário na frente da sala e pegou o seu aparelho, uma máscara e um par de luvas. Quando voltava, percebeu que ela nem mesmo fez menção de se levantar, mas Ben colocava luvas e máscara na mesa dela.

Curioso, Edward sentou, ainda observando-a. Todos sabiam que ela era uma aluna extra, que por um motivo desconhecido entrou no meio do semestre, logo, na sala não tinham aparelhos suficientes para ela. Conclusão: ou ela sentaria de trio com alguém, ou, em um caso fora de cogitação, teria a opção de sentar em dupla com Edward, pois ele sentava só.

—Isy, você faz o trabalho comigo?— Ele ficou desacreditado quando ouviu esse som saindo da boca do Ben. Era muita cara de pau ele fazer essa proposta. Ela não respondeu de imediato e, surpreendentemente, um misto de preocupação e raiva se passou por Edward ao imaginar que ela teria que se expor sentando perto dele, correndo o risco deles armarem mais alguma brincadeira, e ela acabar sendo sujeita a alguma radiatividade que a pedra pudesse ocasionar.

Um impulso protetor o invadiu, e para não deixar que ela ficasse exposta, ele não conseguiria ignorar os precedentes, isso era óbvio, logo teria que quebrar suas próprias regras r13; o que ele não queria pensar as conseqüências no momento. Assim, agiu sem pensar. Deixaria para pensar no resultado mais tarde. Bem mais tarde.

—Ela vai fazer comigo.— Edward só informou, tentando ser o mais indiferente possível, no instante em que ele ajustava o aparelho, instalando-o no computador da sua mesa. Olhou para ela, e seu rosto virou na direção dele. Edward sentiu a atenção de Ben sobre ele e explicou. —Não tem mais aparelho para ela, o trabalho é em dupla, e você senta com o Mike. Só resta eu para fazer dupla com ela.— Concluiu, dando de ombros.

O professor deixou a frente da sala e caminhou até o fundo, parando em frente à mesa dela.

—Tudo bem para você fazer trabalho com ele? Se você quiser, eu posso ir à outra sala buscar um aparelho.

Ela olhou em direção a Edward por uns segundos, ele moveu a cabeça brevemente, encorajando-a, em seguida ela virou para o mestre e acenou que sim. Edward colocou as luvas, a máscara e ajustou o aparelho, enquanto o professor distribuía as pedras. Mesmo distraído, ele sentiu quando ela sentou ao seu lado, ainda que tenha sido sem sons. Notou porque ela trouxe uma corrente de ar diferente, perfumada.

—Não confie no Ben de novo.— Alertou-a por baixo da máscara. —Ele era legal, mas Mike o influencia.— Disfarçava da turma, ainda ajustando o aparelho.

Ele viu-a, de esguelha, abrir o caderno, em seguida começou a escrever. Não somos amigos. Você não tem que conversar comigo.

Ele leu e encarou-a. Ele sabia que ela olhava para ele, mesmo com os olhos cobertos pela treliça. E realmente ele não precisava manter, mesmo que sutilmente, contato com ela. Ele não tinha amigos por aqui. Nunca quis. Não seria agora.

Ele só percebeu a rudeza do seu ato em encará-la quando ela respirou fundo e desviou o rosto, ofegante.

—Faça você a análise primeiro.— Pediu e se afastou do aparelho. Ela colocou uma luva de silicone por cima de suas luvas pretas, em seguida pôs a máscara que prendia atrás. Ato seguido pegou a pedra minúscula de urânio natural que o professor distribuiu, colocou no aparelho e inclinou para estudá-lo, fazendo anotações na caderneta.

Disfarçadamente, ele inalava profundo quando ela se mexia. Dela exalava um perfume bom. Uma mistura de jardins, conforto e exotismo. Puta merda, ele estava mesmo esmiuçando as essências que compunham o perfume dela? Isso era novo. Não lembrou já ter sido tão boiola ao ponto de reparar em perfume e roupa de mulheres como nos últimos dias. Foi depois que jogou com os veados do Barcelona. Devia ter pegado alguma doença transmissível pele a pele, pois desde lá não tinha dado uma e ainda virou uma bichona com toda essa viadagem observadora. Só podia estar doente. Primeiro começou a reparar nas roupas da Cygne, agora notava até o perfume da muçulmana! Realmente devia estar com hormônios femininos.

—Por que você não usa sempre o lenço?— Não controlou a sua curiosidade e acabou perguntando. —Eu gostei de ver seus olhos.— Saiu sem que ele notasse, só segundos depois se arrependeu, preocupado com a sua interpretação.

Imperturbável, ela continuou analisando a pedra no STM (Microscópio eletrônico de tunelamento), escrevendo as composições na sua caderneta, ignorando completamente sua presença. Logo, desconcertado pelo desinteresse, ele pegou seu caderno e começou a revisar Química Nuclear.

Uma hora mais tarde, quando ele tinha se tocado que o trabalho ia ser individual, ela desviou os olhos do aparelho, respirou fundo e olhou em sua direção, depois arrancou um papelzinho e escreveu nele.

Por, no momento, não ter escolha.

Ele já tinha até esquecido a pergunta, mas então lembrou que estava relacionada aos olhos dela expostos. Ela era tão enigmática, nunca dava uma resposta lógica. Sempre era algo para ser decifrado. Por que ela não tinha escolha? É lógico que ele sabia que devido à religião não havia escolhas, porém, por toda a Inglaterra estava sendo vedado o uso de burca em universidades, só o que era liberado era o nicab, aquela roupa que deixa só os olhos de fora. Como sabia disso? Passou longas horas esses dias lendo. Por que o seu interesse? Nem ele mesmo sabia explicar. Mas voltando aos questionamentos quanto a sua escolha: já que o país persegue o uso da burca, ela poderia usar o nicab, caso ela quisesse, não? Pois sua religião lhe dá essa opção. Mas por que, mesmo com essa opção, ela dizia não ter escolha?

E de novo, se pegou olhando em direção a ela tempo demais.

—Eu sei que estou sendo invasivo, mas sou tão curioso quanto a sua cultura, religião... Fale de você.— Forçou. Não estava acostumado a ter o que queria negado.

Ela apontou para o aparelho, lembrando com o ato que ele tinha que fazer a pesquisa. Ele inclinou e puxou o aparelho para si, em seguida ajustou o scanner e começou a anotar o peso e composição.

—Vai responder?— Ele sorriu, trocando a lente.

Ela pegou o papel para escrever. Eu não devo conversar com você. E isso inclui escrever.

—Onde está escrito isso? Que eu saiba você não pode conversar com homens, e conversar significa falar, e desde que você não está falando.— Brincou.

Ela voltou a escrever e ele olhou para o papel enquanto ela escrevia. Pelo jeito você está bem inteirado. Não precisa de explicações. Acho que o seu mundo é mais interessante que o meu. Fale de você.

—Muito espertinha você.— Sorriu, e notou algumas cabeças viradas em sua direção. No mesmo instante, fechou o sorriso e voltou a se inclinar no aparelho. Ao ver que sua atitude foi capturada por ela, resolveu explicar. —Eu não gosto de atenção sobre mim aqui.

Ela não fez menção de rabiscar a caneta no papel, então ele continuou, agora com as costas encostadas a cadeira, deixando o aparelho de lado. —Acho meio que forçação da parte deles. Quando eu não era famoso, ninguém no ambiente escolar me dava muita idéia, e depois que ganhei alguns títulos, começou isso tudo, então eu preferia que continuasse do modo como era antes.

Ela rabiscou algo e lhe entregou. Você só não gosta de atenção aqui?

—Sim. Acho que sim. Em time sou jogador. Se a atenção não estiver sobre mim é porque estou sendo um jogador ruim. Qual a sua idade?— Ele queria de algum modo descobrir algo sobre ela.

Qual a sua idade? Ela devolveu a pergunta no papel.

—Você não vai responder a nenhuma pergunta minha? —Quis saber. Ela balançou a cabeça em negativa.

—Vinte e dois. —Respondeu. — Você gosta de homens mais velhos?— Ela abriu as mãos num gesto de indagação, e ele explicou. —Uma vez que você vai casar com um homem de mais de quarenta, deve ser por que você gosta.

Ela pegou o papel e riscou. Tenho quarenta também.

Os olhos de Edward se arregalaram involuntariamente, mas ele tentou esconder sua surpresa e até a...frustração? Argh, por que ficou frustrado?

Empurrou o questionamento para a gaveta.

—Er... Interessante alguém vir estudar E.N. com essa idade.— Foi ridículo e até inapropriado o seu comentário. Ele bem sabia que mulheres não gostavam de deduções e associações quanto as suas idades.

Ela pegou o papel e escreveu. Suas costas balançando em uma risada muda. Estou brincando. Seu semblante de choque foi impagável. Rsrsrs. Tenho 22.

Ele estava relaxado na cadeira, esquecendo que deveria terminar as anotações do trabalho. Inevitavelmente, o surgimento da muçulmana mudou a sensação de monotonia do seu dia a dia na área acadêmica.

—Sabia que eu nunca fiz dupla com ninguém em quatro anos que estou aqui?— Disse se inclinando novamente para o aparelho. Ela não escreveu nada, então ele observou mais uma vez a pedra no aparelho, fazendo mais algumas anotações.

Minutos depois ele ouviu o som de rabisco no papel. Por que aceitou fazer dupla comigo?

Ele não consegui formular uma resposta. —Por que não tinha mais aparelho?— Saiu como pergunta.

Mas o professor disse que buscaria em outra sala.

Ele olhou para a pedra, mas não prestava atenção na mesma. Ele não tinha subterfúgios, logo o correto era apelar para a verdade.

—Talvez eu tenha ficado grilado com o último acontecimento, e ter visto Ben tentando se aproximar de você de novo me deixou preocupado. Você poderia cair na lábia dele e a situação poderia ser bem pior.— Respondeu sem olhar para ela, ainda inclinado sobre o aparelho, mas podia sentir que ela lhe observava.

Minutos depois ela rabiscou em sua caderneta. Obrigada por tudo. Eu não te agradeci antes, mas sou muito grata pelo que você fez.

—Não foi nada. Eu já ia lá.— Mentiu embaraçado. —Não podia deixar as coisas acontecerem debaixo dos meus olhos.— Defendeu-se. O clima mudou. E ele fugiu da sensação estranha no peito ao sentir sua gratidão.

—Senhores, amanhã a aula é no laboratório. Nós vamos fazer aquecimento e resfriamento da pedra, portanto todos direto para lá.— Disse o mestre, andando pelo corredor.

Vou para o meu lugar. Terminei faz tempo. Ela lhe entregou um bilhete e se levantou.

Por um tempo, ele ainda continuou estudando a pedra, então terminou de fazer as anotações e olhou para ela. Ela estava com cabeça baixa, compenetrada, escrevendo algo. Olhou-a por minutos, admirado sua rapidez e inteligência nos cálculos. Distraído, só se deu conta que a encarava quando notou Ben olhando curiosamente em sua direção. Se chutou mentalmente e desviou o olhar. Essa obsessão em olhá-la tinha que parar.

Ao chegar em casa, estacionou e desceu rápido, deixando seus irmãos para trás. Entrou, encontrou sua mãe ao pé da escada e se aproximou para beijá-la na testa. —Está com a cara boa, mãe.— Comentou carinhoso.

Ela sorriu docemente. —Tenho uma novidade: liguei para o Coll.— Disse com empolgação, acariciando seu cabelo —Ele vai vir jantar conosco em um mês. E vai trazer a noiva.

Instantaneamente Edward ficou tenso com a informação.

—Mãe, a noiva dele é muçulmana.— Lembrou.

—O quê que tem?— Andou suavemente até uma mesa de canto. Ele olhou para porta e avistou Alice entrar, então ergueu a sobrancelha e apontou o motivo para a mãe.

—Ela precisa conhecer as pessoas antes de julgar. Além disso, seu pai escolheu entrar naquilo. Não podemos culpar todos por uma escolha dele.— Falou sussurrado, disfarçando para que seus irmãos, que estavam entrando, não ouvissem.

—Por mim tudo bem.— Deu de ombros.

Sexta-feira, como em todos os dias, estavam reunidos para o desjejum, em volta de uma mesa farta.

—Primo, o que quer que eu faça com aquele tanto de calcinha e ursos que você recebeu de suas fãs?— Rosalie perguntou, enquanto passava nutella na torrada.

—As calcinhas você lava e usa.— Piscou e ela rolou os olhos. —Os ursos você dá para minha mãe que ela leva para a Instituição.

—Você nem cogita a idéia de guardá-los?— Ela fez careta, censurando.

—Não. Todos os dias chegam de quilos.— Mordeu o pão. —Daqui uns dias não temos mais espaço aqui em casa.— Disse e tomou seu suplemento alimentar preparado pela sua mãe.

—Tudo bem.

—Edward, já escolhi a roupa que você vai usar hoje à noite para sair e a roupa que vai usar amanhã na hora da entrevista.— Alice disse enquanto folheava uma revista sobre a mesa, no mesmo instante em que comia cookies de chocolate.

—Que entrevista vou dar amanhã?— Perguntou para sua mãe.

—World Soccer— Ela pôs uma jarra de suco na mesa e sentou-se ao seu lado.

—Mas amanhã tenho jogo.

—Sim, mas a repórter vem aqui pela manhã e seu jogo é em Manchester. Dá tempo. O ônibus sai do clube as 14h00. Você tem tempo de sobra.

—Ok. Quanto estou pagando mesmo para minhas secretárias?— Sorriu e abraçou sua mãe. —Vocês me mimam demais. Desse jeito nunca vou ser um garoto responsável.— Sorriram.

Naquela manhã, ele tinha aula prática no prédio de James, logo James o acompanhou até o laboratório e entrou em um assunto evitado. Ele disse que estava muito grilado com a notícia que tinha recebido de um informante seu, a qual dizia que a pessoa responsável pelo atentado que matou seu pai tinha uma filha, mas que ninguém sabia o paradeiro.

—...Sabe, Edu, eu queria pelo menos encontrá-la. Ele sei que ela pode não ter nada a ver com o que aconteceu, mas eu queria saber se ela é viciada, se ela tem uma vida infeliz como a minha. Queria saber se ela vive com a lembrança da morte do pai na cabeça, assim como eu.

—James.— Colocou a mão em seu ombro, no corredor do laboratório, onde pessoas passavam por eles. —A Inteligência está investigando. Não podemos fazer nada.

—Eles vão investigar a vida toda e isso vai dar em pizza.— Resmungou, indignado.

—Não, cara. Isso foi um crime internacional. Os responsáveis serão julgados e punidos.

—Eu não quero que eles sejam punidos em uma cadeia. Eles têm que pagar com a vida.— Edward viu lágrimas de intemperança em seus olhos.

—Aqui não é lugar para conversarmos sobre isso.— Disse quando viu a muçulmana passando por eles, e de cabeça baixa entrar no laboratório.

—Quando devemos conversar sobre isso? Você foge desse assunto como o diabo da cruz. Só está preocupado com seu umbigo.— Disse num tom mais alto.

—Lógico que não, James. Só não vou me permitir quebrar como você e a mamãe.— Sussurrou, envergonhado em estar se expondo em público, com o seu irmão quase gritando. —Eu sei que é pedir muito que você fique bem, mas tente levar numa boa, como eu e Alice. Uma hora tudo vai se resolver.

—Só eu sei o que presenciei. Fui eu quem esteve com meu pai nos últimos instantes de sua vida. Vocês são dois fugitivos da vida real. Alice vive de negação, você se afunda no futebol e em mulheres para não sentir.

—Eu sinto.— Sussurrou e respirou fundo, ajustando seus óculos de sol no rosto. —Mas eu não vou me permitir cair. Você devia fazer o mesmo.

—Cullen, já vou começar a instruir a ordem dos experimentos.— O Mestre apareceu na porta e avisou.

—Ok, Sr. Thompson.— Respondeu e virou para James. —Vou indo. Vê se fica bem. Tente se manter firme.

—Ok. Até mais tarde.— Ele saiu rápido para o seu andar.

Melancólico, Edward entrou no laboratório, vestiu seu jaleco, colocou os óculos de proteção, luvas e se direcionou aos aparelhos de experimentos no fim da sala, local em que sempre fez as experiências. O trabalho, como no dia anterior, era para ser em dupla, mas ele estava chateado demais para ficar perto de alguém hoje, principalmente perto da muçulmana, alguém que nem deveria ter entrado em sua rotina.

Ela pareceu perceber sua indisposição em fazer dupla, pois nem olhou em sua direção, ficando a alguns metros de distância dele.

Depois de algum tempo manipulando o seu, ele olhou na direção dela e só então notou que ela não usava a burca que cobria os olhos. Ele desviou o olhar, incapaz de olhar para ela com tanta frustração. Como disse James, se não fosse por causa do seu povo, os islãs, se eles não existissem, seu pai não estaria no local do atentado.

Tinha um vapor embaçando o vidro que resfriava a pedra dela. Notou ela encostar o dedo nele e escrever disfarçadamente.

Conversar?

Ele balançou a cabeça em negativa, desinteressado. Era a primeira vez que ela tomava alguma iniciativa de diálogo com Edward, ele até estranhou o fato, e, mesmo desanimado, sorriu, rabiscou um papel e mostrou para ela

Não somos amigos.

Respondeu exatamente o que ela respondeu no dia anterior. Ela estreitou os olhos e suas costas balançaram, mostrando que ela estava rindo. Ele sorriu também, balançando a cabeça, perdendo momentaneamente a chateação. Assim, a aula se seguiu lentamente, com os dois separados por duas meninas, porém vez ou outra, um olhando em direção ao outro. Era estranho, mas eventualmente ele se pegava, desatento, admirando a maestria com que ela manipulava os experimentos.

Quando a aula terminou, ele enrolou r13; como fazia todos os dias desde aquele dia r13;, e esperou todos saírem. Só quando estavam sozinhos com o mestre, moveu a cabeça em uma despedida discreta, pegou seus materiais e saiu. Alice e James o esperavam na porta, como todos os dias que saíam antes dele. James continuava com o semblante triste, já os olhos de Alice brilharam traquinamente quando a muçulmana passou por eles.

—Como os britânicos são burros. Estão ensinando uma mulher-bomba como fazer a bomba Nuclear.— Ironizou, andando logo atrás dela, falando de uma altura audível. Ela continuou andando, lentamente, como se não tivesse ouvido nada.

Edward balançou a cabeça em censura e se questionou novamente: por que ela agüentava tanta provocação e inospitalidade, sendo que não precisava? Sua resposta na cobertura, quanto aos motivos, foram evasivas... Era como se ela acreditasse em alguma mudança. Só por isso alguém continuaria em um mundo hostil quando era milionária o suficiente para nunca estudar. Tudo bem que ele também estudava, mesmo sendo rico o suficiente e tendo futuro encaminhado, todavia ele não era perseguido. Não negativamente como ela.

Mas o que pulsava desconfiança agora, era o comentário de Alice que era completamente plausível. O que uma muçulmana fazia em um curso de Engenharia Nuclear quando o futuro profissional desse tipo de curso era maioria na área de pesquisas, inteligência ou em órgãos das forças armadas? Qual seria o futuro que ela esperava? Cada questão sobre ela era um frustrante mistério. Ele nunca tinha respostas suficientes e isso às vezes o deixava irritado, além de ficar mais curioso ainda.

Quando chegaram ao portão, o segurança dela estava lá, e ele a conduziu até o Land Rover, olhando atento para todos os lados.

—Vamos.— Edward andou mais rápido. —Tenho que ir para o treino. Hoje é pesado.— Apressou-se para acompanhá-la com o olhar, até que eles saíssem do estacionamento.

Sexta-feira era o dia mais puxado nos treinos, pois após quatro horas de exercícios e treinamentos táticos, aquecendo o corpo até o máximo grau, entravam na piscina de gelo, que objetivava: reduzir a temperatura corporal, aliviar as dores nos músculos que a semana de treinamento trazia e curar eventuais inflamações. Para alguns era tortura, mas como desde quando tinha dez anos Edward treinava profissionalmente, já tinha até se acostumado.

Deitou com a cabeça na borda e relaxou, ao lado de Rilley.

—Eu não disse que o bastardinho ia conseguir o contrato?— Rilley sibilou e Edward abriu os olhos, sentindo os dedos dos seus pés formigando por causa do gelo.

—Quem?

—O Hale. O cabeludinho que vive de rabo de cavalo.

Mesmo sem saber quem era, Edward resolveu dar assunto ao x-9 do Rilley.

—Quanto tempo o contrato dele?

—Dois meses. Mas tenho certeza que ele fica.

—Ele já está aqui há quanto tempo? Não me lembro de já tê-lo visto.— Esticou os dedos, sentindo o gelo queimando os músculos.

—Você nunca vê ninguém, leãozinho.— Revirou os olhos. —Eu não sei há quanto tempo. Só sei que foi o pai dele quem patrocinou os A-5, conversíveis, do pessoal do time, lembra?

Edward tentou associar o nome, o patrocínio, qualquer coisa, mas não lembrava. Só sabia que o carro sua mãe tinha doado para uma instituição de caridade.

—Realmente não sei quem é esse Hale. Outro dia você me mostra ele.— Jogou água em seu rosto, já sentindo seus dedos duros. —Cara, esse negócio de ter passado dois fins de semana com a seleção foi dureza. Acredita que o técnico não nos deixava sair da concentração para pegar mulher?— Comentou indignado.

—Sério?

—Sério. Eu não sei o que tem na cabeça desses caras. Será que eles não sabem que se fizermos sexo antes dos jogos, jogamos muito melhor? Até que se o Jeff estivesse lá podíamos contar com o contrabando de mulheres para dentro do hotel, mas nem isso.— Torceu os lábios em uma careta. —Falando em mulher, onde nós vamos afogar hoje à noite?— Gesticulou com a mão.

—No lugar de sempre.— Rilley respondeu com os lábios roxos. —Você vai levar seu irmão? Nos fins de semana que você estava fora ele não apareceu nas rave por aqui.

Edward suspirou, lembrando que a essa altura James já devia ter cheirado um quilo depois de sua conversa frustrante pela manhã.

—Eu não posso deixá-lo. Se começar a rejeitá-lo ainda vai ser pior. Tenho que tentar lidar com a situação da melhor maneira possível.

—Você está certo. Só tem que tentar manter ele longe de confusão. Mas mudando de assunto, amanhã temos jogo no fim da tarde, então nem vamos poder nos desgastar muito com a mulherada hoje.

—Eu estava pensando justamente nisso. No máximo duas da manhã quero estar vazando.

—Então você não vai ficar tempo nenhum lá. Não vai dar para aproveitar.— Retrucou.

—Dá tempo sim. Só vou traçar alguém disponível e pronto. Acho que três horas dá de sobra para isso.

—Aí, comedor! Tem preferência do cardápio essa noite, para eu dar umas dicas ao Jeff?

—Não. Caiu na rede é peixe. Desde que seja bonita e tenha um bom rebolado pode ser loura, morena, ruiva... Meu coração é grande. Amo todas.— Sorriu e por um instante se lembrou da ruiva que chegava e saía sem mais e nem menos nos locais onde ele estava. —Você fechou para o clube?— Era bom saber isso, pois quem sabe a francesa aparecesse por lá, isso se ela ainda estivesse na cidade.

—Não. Deixei que cada um fosse por si.

—Feche para o clube. Avise agora por aqui, depois você avisa para os funcionários e peneiras.

—Está muito em cima para fechar e sair avisando.— Ponderou. —Só se você fizer algo para ajudar, como por exemplo: avisar aos funcionários.

Edward fez uma careta reprovando a idéia. —Você sabe que eu não me envolvo.— Torceu os lábios no canto, os dentes começando a trincar um no outro de frio. —O máximo que posso fazer é ligar na casa de shows e fechar.

Rilley balançou a cabeça em negativa, com o semblante reprovador.

—Bro, na boa, eu te entendo porque sou teu brother, mas esse lance de não se envolver te põe distante das pessoas. Eu só consigo ser teu amigo porque forço. Mas isso aqui é um time, você não pode estar aqui só com o corpo presente. Temos que ser tua família. Eu particularmente acho você bizarro e nunca sei na real qual é a tua. Você devia mudar. Com certeza se você fosse mais comunicável com o populacho chegaria a ser capitão do...

—Acabou o tempo, moças.— O treinador os interrompeu, e Edward levantou ainda olhando para o rosto sério do Rilley. Em outra ocasião iria rir do seu papo cabeça, mas como hoje teve que ouvir James logo cedo, as palavras do Rilley não foram ao todo ignoradas.

Não demorou a chegar à casa de festas. E, sozinho, precisou dos seus seguranças para passar pelos fotógrafos que estavam fora, esperando alguma oportunidade, uma vez que dentro era proibido foto e filmagem. Pediu que James e as meninas viessem na frente, pois, exausto, aproveitou ter sido liberado mais cedo do treino e resolveu descansar até ás onze. Por isso foi só.

Depois de dar algumas voltas e dançar com algumas garotas na pista sem entusiasmo, se afastou e sentou, enfadado, em uma banqueta no bar. Pediu somente uma água com gás, visto que teria jogo no sábado e não deveria colocar álcool no sangue.

—O que foi, Lyon, que já te mandei três meninas e você dispensou todas?— Rilley abraçou o seu ombro e ele forçou um sorriso.

—Hoje vou embora cedo.— Olhou mais uma vez para a pista, se chutando por estar procurando alguém que não estava lá.

—Mas não foi você mesmo o comedor que disse que ia escolher cardápios variados hoje à noite? Não vai se divertir?

—Não tô com tempo.— Olhou para relógio e fez careta.

—Credo, Lyon, nunca te vi assim.— Bateu em seu ombro. —Vou mandar mais uma garota para você.— Ele piscou.

—Ok.— Mande uma ruiva. De preferência com olhos azuis. Pensou e bebeu a água.

Quando uma morena se aproximou sorrindo, ele viu que realmente nada iria se acender naquela noite. Não só seu corpo estava inerte, mas também seu estado emocional não se equilibrou desde cedo. Primeiro foi seu irmão depressivo, depois as palavras do Rilley o censurando. Tudo lhe desassossegou, e ele não tinha nem chance de se reanimar.

Estudou a morena da cabeça aos pés, avaliando a saia curta e a barriga de fora. Se fosse dias atrás, ele já estaria levando a garota para qualquer canto escuro e, de saia, não levaria meia hora para aliviar suas tensões. Porém, ao invés disso, ele queria dispensá-la, pois não tinha nenhum apetite. Gentilmente, apertou o seu queixo e deu-lhe o seu melhor sorriso. —Na boa, gata, estou esperando alguém.— Era o fora mais sutil que poderia dar. Ele gostava de mulheres. De todas. E não costumava dispensá-las. Mas devia estar com a síndrome do veado enrustido esses dias.

—Ok. Qualquer coisa me procura.— Ela deu uma piscada e saiu.

Decidido a sair da área barulhenta, ele pegou uns Tridente de menta no bar, colocou um na boca e direcionou a saída lateral, que dava no estacionamento vip, lugar rodeado por bancos e jardins. Aliviado com a calmaria, pôs as mãos no bolso e caminhou um pouco, respirando o ar frio de Liverpool misturado com a brisa que vinha do mar.

Ele tinha uma problemática para contemplar, coisa que em tempos não fazia: analisar a sua vida. Não se lembrava de um dia já ter tido essa necessidade, mas as palavras que Rilley disse ainda ressonavam em sua mente, levando-o a refletir. Se observasse amplamente sua vida, ele poderia ver que realmente não tinha vínculo com nada, nem com ninguém. Ele não se envolvia, muito menos se comprometia. Não gostava de cobrança e era completamente egoísta em tudo.

Chutou uma pedrinha, suspirou, passou ansioso a mão no cabelo e sentou em um banquinho, continuando com as divagações.

Ele realmente era um ser fechado em seu mundo. Vivia, saia, tinha fama, sexo, dinheiro, mas não tinha ligação com nada, nem com amigos, nem com a universidade, nem com o time. Em campo, ele teve sorte de ter nascido com algum dom, pois assim conseguia brilhar praticamente sozinho. Ele pouco notava o time e as pessoas que jogavam com ele. Quando estavam juntos, jogavam, às vezes brincavam, dançavam, mas 95% deles ele não sabia nem o nome real, uma vez que o time quase todo tinha apelidos. Ele só sabia o nome do Rilley porque não era apelido.

Mas diferentemente do que qualquer um poderia pensar, esse comportamento indiferente não era porque algo traumatizante aconteceu em sua vida, pelo contrário. Era o filho caçula, e sua mãe, demasiadamente condescendente, sempre o cobriu de manias e mimos. Ela lhe deu tudo. Seus irmãos então, sempre o protegeram. Talvez por isso ele não tivesse criado laços maiores com o mundo ao seu redor. Desde criança, nunca ninguém ousou lhe negar algo, ofender, criticar ou lhe machucar, pois James e Alice sempre o protegeram. Isso além de Rosalie que sempre foi sua cúmplice. Até mulheres, ele sempre teve fácil, bastava estalar os dedos. Talvez essa fosse a explicação óbvia pelo seu estado vago e egoísta.

Enfadado das divagações sobre ele, mas ainda assim, se sentindo bem na sua área de conforto e, com efeito, sem necessidade de mudança, suspirou e olhou para um canto escuro. Logo, algo lá se chamou a atenção. Tinha alguém de sobretudo, encostado em um carro, com a cabeça deitada no teto, olhando para cima. Curiosidade e expectativa cresceram em seus poros, então, esperançoso, levantou e caminhou até lá, questionando agora a sua sanidade.

Poderia ser ela? Ou sua mente estava começando a pregar ilusões nele? Tá, e se fossem ilusões, por que ele as teria? Talvez porque ela se mostrasse desinteressada, e isso o intrigasse. Seria essa a resposta? Essa era a explicação mais óbvia para sua estranha obsessão. Para esse sentimento de saudade antiga. Como se a conhecesse e esperasse por ela há tempos.

O carro que ela estava era o último e pegava a brisa do mar livremente. Ao chegar perto, convenceu-se que era realmente ela. Graciosa, de olhos fechados e respirando longamente, ela estava distraída, aparentemente curtindo o momento. Ele sentiu um pouco de intranqüilidade ao vê-la, com desejo enorme de se aproximar, logo silenciosamente, chegou mais perto, pensando na melhor maneira de iniciar uma conversa.

—Você por aqui.— Comentou casualmente. —Agora você me persegue?— Brincou, usando as mesmas palavras que ela usou no clube, semanas atrás.

Ela abriu os olhos e pareceu surpresa. —Oi.— Sua voz foi um murmúrio sem vida.

No mesmo instante ele desejou saber o motivo de sua aparente tristeza. Prestadio, encostou-se ao carro ao seu lado.

—Não quis entrar hoje?

—Não estou legal.— Ela falou sem sotaque, ele não deixou de notar.

—Quer conversar?— Perguntou em um impulso. Pelo jeito não era só ele que estava em crise.

—Não somos amigos.— Respondeu naturalmente, com os braços cruzados.

Repentinamente, ele sorriu, sorriu alto, e provavelmente ela não entenderia o motivo da sua diversão. Ele ria de sua resposta. Essa frase devia ser um dito popular que ele não conhecia antes, pois as pessoas estavam usando-a muito ultimamente.

Ela olhou para ele com um misto de espanto e incredulidade, provavelmente querendo saber do que ele ria. Ele explicou: —Já está repetitivo esse negócio de não sermos amigos. Acho que já posso ser considerado pelo menos seu quase amigo, uma vez que já nos encontramos quatro vezes, já sei o seu nome e você sabe o meu.— Se colocou em frente a ela, com bastante divertimento, o humor renovado. —Vamos fazer como crianças, liga aqui.— Mostrou seus dois indicadores e sorriu. —Se você ligar, somos amigos, se depois você cortar, cortamos a amizade.

Ela enfim sorriu, um riso forçado, mas era um sorriso. Ela ficava bem sorrindo, ele pensou. Bem melhor do que irritada, como das últimas vezes que a tinha encontrado. Sua boca era pequena e rosada, e por um instante, ele se pegou imaginando como seria o gosto.

Inesperadamente, o sorriso dela morreu e, melancólica, suspirou e olhou para o chão, sem dar continuidade à brincadeira. —Er... Aconteceu de novo com o seu irmão.— Disse em um sussurro. Se ele não tivesse prestando atenção nos movimentos de sua boca não teria entendido o que ela dizia. O sorriso deixou seu rosto e ele ficou tenso, esperando ela continuar. —Eu estava chegando, então o encontrei no corredor e ele tentou me agarrar.

—E?— Franziu o cenho, incitando sua resposta.

—Eu dei uma joelhada nele e o empurrei.

—Ele mereceu.— Disse fechando os punhos, sentindo raiva pela perseguição do James. Ele estava fora de limites. Ela respirou fundo, com frustração, então ele olhou novamente para o seu rosto. —Engraçado... Da outra vez você veio descontar em mim a sua raiva dele, hoje você está, no mínimo... Diferente.— Comentou.

—Eu sei que não é sua culpa.— Disse baixinho, olhando para o chão, e ele quase agiu de impulso e levantou o seu queixo.

Um silêncio desconfortável se fez.

—Por que você está aqui fora?— Ele queria mesmo saber o que tinha ocorrido depois.

—Bom, um segurança viu o que ele fez e veio me perguntar se eu estava com algum problema. Eu lembrei que poderia complicar se eu falasse, e então disse que não...— Ela fez uma careta e olhou para o chão. —Eu não queria prejudicar ninguém... Mesmo assim o segurança tinha visto o suficiente, e falou para seu irmão que se ele chegasse perto de mim, iria colocar ele para fora... Por isso vim para cá. Não queria ser o motivo das coisas ficarem piores para ele do que já são.— Ela sussurrou com pesar, logo Edward não resistiu e tocou o seu queixo, levantando o seu rosto para que ela olhasse para ele.

—Desculpe por isso.— Pediu sinceramente.

Ela sorriu sem vontade. —Nada é sua culpa.

—Em partes é.— Aproximou-se mais. —Entra um pouco comigo. Não perca o resto da sua noite.— Acariciou seu lábio com o polegar, sentindo um estranho formigamento em seu dedo.

Ela lhe encarou por uns instantes. —Edward...— Era a primeira vez que ela chamava seu nome, e ele sentiu uma sensação nova ao ouvir o som sair de sua boca. —Não vai rolar... Não estou mais a fim de ficar lá dentro.— Ela pôs a mão sobre a dele e tirou, sutilmente, de seu queixo, tentando lhe cortar. —Entra você.— Disse sussurrado.

—Por que você foge?— Sem conseguir resistir, colocou a mão em sua cintura.

—Eu não fujo de você. Só não entendo uma coisa...— Ela olhou para os seus lábios, e ele engoliu em seco, se sentindo nervoso como um adolescente. —Por que você escarnou em mim? Você pode ter a mulher que quiser lá dentro. Eu juro que não quero ser grossa com você... Eu só quero ficar só... Eu não devia ter vindo.— Disse brandamente.

—Não combina com você ficar para baixo.— Colocou a mão teimosamente no seu rosto de novo. —Eu gosto mais de você prepotente, altiva, dona de si.— Sorriu torto.

Ela balançou a cabeça em negativa, com um biquinho irônico enfeitando a boca. —Essas são suas técnicas para conquistar uma menina?— Ela sorriu, sobrancelha arqueada, recuperando sua altivez.

—Eu não preciso disso. Um leão não vai à caça. Esse é meu lema. Nunca precisei conversar com ninguém para conquistar.— Brincou, escolhendo as palavras cuidadosamente. —Mas eu gosto de ficar perto de você. Além disso, somos quase amigos. Amigos sabem um do outro, sabia? Poderíamos entrar e você me falar de si.— Forçou.

Ele percebeu ela molhar os lábios com a língua, e, involuntariamente, acreditem, involuntariamente mesmo, ficou duro. Argh, isso lá era hora de ficar duro? Onde estava este apetite mais cedo? A menina era tão arisca que se percebesse o rumo dos seus pensamentos ao ver sua língua lambendo o lábio era bem capaz de correr.

Com a racionalidade lutando contra desejo, empurrou seus pensamentos para trás e acariciou seu rosto gentilmente, tentando agir de modo natural e esquecer o pensamento lascivo que se formava. Quem sabe assim, a convenceria a ficar à vontade com ele.

—Você não quer saber sobre mim, Cullen.— Murmurou, meio triste, desviando o olhar do seu. Ele continuou a olhar para ela, tentando traduzir a expressão ambígua em suas palavras.

—Quero sim.— Respirou fundo, sentindo o seu cheiro, o cheiro de seu cabelo, que mesmo que não estivesse encostado nela dava para sentir.

—Eu não vou entrar...— Afirmou e fitou o vazio. —Sabe, eu gostava de vir aqui... Eu vim aqui uma vez, antes de seu irmão grudar em mim... Foi bom, já que foi a primeira vez que saí por aqui.— Ela sorriu brevemente, olhando para o chão, parecendo refletir. —Também vim nas semanas passadas e vocês não estavam. Foi legal. Eu consegui me divertir... Aqui ninguém nota ninguém, fica cada um na sua... Isso antes...— Resmungou e lhe olhou com os olhos vazios. —Não sei o que seu irmão viu em mim...— Eu sei, Edward pensou. —Mas, então, desista. Eu não pretendo entrar, além do mais, não vou mais estar em lugares que vocês supostamente estarão...— Disse pausado e baixo, mas tinha algum pesar em sua voz.

Ele afastou-se dela, um pouco indignado, até irritado, com o que ela tinha acabado de falar.

—Você não precisa mudar sua vida por causa do meu irmão.

—Isso já aconteceu.— Sua expressão estava vazia, o olhar distante, e a voz saiu mecanicamente.

Ele olhou em seus olhos e viu desilusão. Isso, de uma maneira estranha, o incomodou... Era uma sensação angustiante. Os sentimentos que ela lhe despertava eram confusos.

—Não. Não aconteceu.— Negou convicto. Havia um jeito de melhorar a situação e, assim, ele não ia ficar em dívida com ela por ela estar livrando a cara do seu irmão. —Eu tenho uma solução para isso.— Ela lhe olhou em expectativa. Isso alimentou sua segurança quanto ao plano. —Meu irmão não mexe com garotas minhas. Se eu disser que você é minha garota, ele não vai mexer com você.— Disse de um jeito conspirador.

—Ah, é? E você tem quantas garotas?— Arqueou uma sobrancelha, com interesse.

—De mentirinha e quase amiga, só você.— Sorriu e piscou, tentando deixá-la confortável com a idéia.

Ela olhou para o chão uns minutos. —Eu não quero mais entrar, nem dançar. Acabou o pique.— Murmurou desanimada.

—Já disse que não gosto de você assim.— Segurou seu rosto em suas mãos.

—Você nem me conhece para falar isso, Cullen. Nem sabe se sou realmente assim, como você imagina que eu seja.

—Não importa como você seja. O que importa é que agora você é minha quase amiga e minha garota.— Apertou sua bochecha, sorrindo livremente.

—Hmmm...De mentirinha?— Ela arqueou a sobrancelha e tirou, de novo, delicadamente, a mão do seu rosto.

—Sim.— Piscou, fingindo não ter percebido mais uma tirada.

—Não sei se ainda quero, mas como funcionaria?— Ela desencostou do carro, seu jeito seguro aparentemente se recuperando.

—Bom, eu só preciso fazer isso uma vez. Você só tem que ir para a pista e dançar. Só quero que faça isso.

—Você vai falar algo com o seu irmão?— Perguntou desconfiada.

—Confie em mim. Ele nunca mais vai chegar perto de você com segundas intenções.

E assim, minutos depois, ela dançava na pista, espontânea, e ele sentou no bar, observando-a fascinado, até que o previsível aconteceu. De longe, avistou James olhando-a de braço cruzado no peito, com bastante interesse. Em seguida, ele caminhou rumo a ela na pista. Ela estava a poucos metros de Edward, então, antes que James a alcançasse, Edward levantou rápido e foi ao encontro dela.

Abraçou-a, gentilmente, por trás, envolvendo a mão em sua cintura.

—Cheguei, Cygne.— Sussurrou em seu ouvido e entrou no ritmo dela na música. No instante inicial, ela enrijeceu, mas ao perceber James a menos de dois metros deles, ela não mostrou resistência. Pelo contrário, ela se saiu melhor do que Edward supôs e levantou o braço, enlaçando seu pescoço.

—Estava te esperando, Cullen.— Seu hálito varreu o rosto dele, e ele a apertou, passeando a mão em sua barriga.

Ele não pensou que a proximidade fosse trazer uma devastação mais que a normal pelo seu corpo, mas, inevitavelmente, aconteceu. No momento, ele queria mesmo era esquecer o seu teatro e aproveitar os mínimos detalhes que a ocasião pudesse proporcionar. Logo, ele — que não era bobo —, inclinou o nariz e inspirou no seu pescoço.

Ela ofegou e deitou o pescoço, em um mudo convite que ele continuasse. Assim ele fez. Em outra ocasião, se não tivesse há semanas sem sexo, poderia até manter sua ereção para trás, mas estava extremamente difícil sentir seu pescoço no nariz, ter a mão em sua barriga, um bumbum empinado arrastando nele, e ainda assim se manter indiferente. Só se fosse realmente um enrustido.

—Acho que estamos fingindo bem.— Sussurrou em seu ouvido. Ela sorriu, movimentando e dançando de um jeito bem simples, mas que mesmo assim o deixava louco.

Puta merda, ele sentia uma adrenalina enorme, pra não dizer um tesão. O primeiro pensamento que teve foi nela ofegante, movendo em cima dele, ronronando o seu nome, uma felina domada.

Por que mesmo estava pensando nisso? A menina nem lhe dava trela!

Ela deixou bem claro com suas tiradas que ele não devia forçar, pior ainda agora que tinha conseguido ao menos alguma confiança. Nem ele entendia seu interesse, mas só tinha uma explicação: Quem sabe, se a beijasse, essa fixação passaria...

James parou, os observando minuciosamente. Edward fingiu que não o viu e a virou frente a ele. Ele sabia que se não tentasse o que queria agora, nunca teria outra chance, portanto uma mão ficou em sua cintura e a outra subiu para a sua nuca. Ela ainda se movia lentamente, ao som da música, parecia genuinamente à vontade com ele. Ficou observando-a. Ela parecia desenhada, com uma pele lisa, pouquíssima maquiagem, os cabelos soltos, o suor começando a aparecer em sua testa. Ela era um convite tentador ao sexo bom. Ele a comeria pedacinho por pedacinho. Bem devagarzinho. Aliás, a primeira seria rápido e selvagem. Depois lhe recompensaria.

Notou pelo canto do olho que James se afastou lentamente, ainda os olhando ora ou outra. Dançando e acariciando sua nuca, ele inclinou-se para falar no seu ouvido. —Obrigado pelo que você fez.

—O quê?

—Não ter dito para os seguranças que James estava te importunando.— Disse bem próximo a sua orelha, encostando seu lábio. Tentado demais, não resistiu e sugou o seu lóbulo. Em resposta, ela retesou, colocando a mão em seu peito para afastá-lo.

—Pode ir, Cullen. Acho que não tem mais dívidas comigo.— Sorriu agradecida. Contudo, não satisfeito e decidido a não deixá-la, ele não se afastou, aproveitando que ainda tinha algum domínio sobre ela. Com uma mão em suas costas e outra em seu cabelo, trouxe-a para falar em seu ouvido novamente, colando seus corpos.

—Ainda não...— Sussurrou, passando a língua levemente atrás de sua orelha. Ela forçou a mão de novo para se afastar, mas seu esforço, imperceptível, não iria o conter. Não hoje. Não agora. —Se vamos fingir, tem que ser bem feito.— Condicionou. Certo de que agora era a sua chance, moveu a cabeça dela, vagarosamente, e encostou seus lábios nos dela, roçando suavemente. Ela ficou inerte, com os lábios fechados, quieta. Ele continuou dando selinhos, sugando gentil.

—Não, Cullen...— Ofegou e fechou os olhos, começando a respirar mais difícil.

Ele forçou passagem com a língua, e ela não concedeu, com os dentes trincados. Resolveu esperar ela se soltar, então levou a mão ao seu rosto e acariciou sua bochecha circularmente, no mesmo instante que roçava o rosto no dela.

—Relaxa, vai.— Sussurrou, sentindo sua respiração, beijando o canto de seus lábios. A mão que estava em seu peitoral, tentando o conter, cedeu brevemente, os dedos se abrindo e fechando em uma carícia inconsciente.

—Não precisamos fazer isso... —Ela disse. — Você não precisa fazer isso.— Sussurrou, ainda recebendo seu beijo calmo no canto de sua boca.

—Eu quero.— Disse e encostou a testa na sua.

Ela abriu os olhos, olhando particularmente para a sua boca e sussurrou. —Não quer, Cullen.— Ciciou baixinho. —Você só está intrigado por que quer provar para si que eu sou como todas as garotas que você quer e são fáceis.— Ele sorriu de sua dedução e continuou beijando insistente o canto de sua boca. —Mas eu não sou como elas... Não posso ser como elas.— Disse pausado, enquanto ele arrastava o nariz no seu rosto.

—É só um beijo.— Explicou e mordiscou seu queixo, deslizando sua boca com suaves sugadas. Ela fechou os olhos indecisa, sem ação e isso só o motivou mais a desestabilizá-la, mordendo-a languidamente, enquanto seus dedos massageavam sua espinha e nuca.

Apertou mais ela em ele, sentindo-a soltar o ar ofegante e, determinado, subiu novamente para seus lábios, dando lambidas suaves em sua boca, notando-a estremecer em seus braços. Presunçoso com suas respostas, sorriu mentalmente e lambeu mais sensual, sempre massageando sua nuca, domando-a, tornando-a dócil.

Era tão excitante conquistar o inacessível, ao mesmo tempo erótico, instigante. Ela ofegou e abriu minimamente o lábio, em rendição, aceitando a pontinha da sua língua. Deslizou devagar, cauteloso, com medo de a qualquer momento ela simplesmente o empurrar e sair correndo. Mas para a sua satisfação, ela sugou, não com desejo, mas com hesitação de quem fazia uma concessão.

Gemeu e pressionou-a mais contra ele, com grande risco de quebrá-la, tamanha era a força do seu aperto. Pediu mais passagem e ela cedeu, ainda sugando devagar. Não sabia se pela falta por dias, ou pelo que seja lá o que fosse, sabia que por todo o seu corpo se passava correntes elétricas, com pequenos choques, de um modo que ele não lembrou ter sentido antes. Suas mãos estavam suadas de expectativa. Ele se sentia tenso, cauteloso, com um medo desconhecido dela sumir, mas ao mesmo tempo eufórico, com o sangue bombeando rápido em suas veias. Era novo o prazer de sua boca o aceitando, seu corpo macio o esquentando, e sua mão que, desistindo de se conter, deslizou em seu cabelo, serenamente o acariciando.

O beijo não era voluptuoso, longe disso, mas era tão excitante que se antes ele estava duro, agora estava violentamente pulsante. Ela prendeu sua língua nos dentes, chupou mais forte e ele tremeu, se deliciando com cada sentido aguçado no seu corpo. Ainda estavam na pista de dança, mas há muito não davam nenhum passo que não fosse para se aproximar mais. Depois de minutos, o ar dela faltou, ele deu-lhe espaço nos lábios e desceu para seu pescoço, com mordidas e sugadas leves.

—Me promete uma coisa.— Ela sussurrou com a voz baixa e ele continuou beijando-a lento no pescoço. —Promete que depois de hoje vai agir como faz com todas as meninas.— Ele mordeu sua orelha e a apertou mais. —Promete que vai esquecer meu nome, que vai esquecer meu rosto.— Era uma súplica, estranho até, o modo como soou, mas era lógico que ele iria prometer. Ele é que não precisava de ninguém em seu encalço depois.

—Prometo.— E voltou para os seus lábios.

Ela correspondeu, e não era mais um beijo cauteloso, era o oposto, mais para um beijo desesperado, frenético, onde ele era sugado com fome pela sua boca, cadenciando com sua língua na sua. Entusiasmado pela sua nova atitude, empurrou-a em direção a uma parede, sem soltar os seus lábios. Ele estava desacreditado que tivesse conseguido. Seu ego inflava pela conquista.

Inacreditavelmente ela se abandonou, correspondendo tão ansiosa como ele, então a mão que estava na cintura foi para a coxa, infelizmente coberta por uma meia-calça, logo subiu a mão para o short e encaixou seu quadril minimamente nele. De súbito, sentiu que a mão dela entrou na camiseta, acariciando seu abdômen. Suspirou, já enlouquecido com aquele amasso, e grunhiu em sua boca, se empurrando mais em sua barriga, lembrando que nunca fez isso com ninguém. Nunca tinha beijado alguém mais de vinte minutos sem estar dentro dela. A essa altura ele já estava dolorido pelo sangue acumulado na região inferior.

—Vamos sair daqui.— Ofegou e sua mão entrou na blusa dela, tocando a pele da cintura. Se ela podia passar a mão nele, ele também podia passar nela. Essa era a lei da selva. —Você deve ter alguma droga, garota.— Lambeu seu pescoço, persuasivo, até atrás da orelha e sua mão continuou lhe explorando, acariciando a barriga. Ele gemia, esfregando-a contra a parede. Hmmm, ela podia descer mais a mão, podia abrir o botão, podia o libertar e acariciar, podia se ajoelhar e lhe chupar...ugh! Só esse pensamento o fez subir até a borda.

—Edward...— Murmurou, absorta, e a boca dele desceu para sua clavícula, no mesmo instante que sua mão subiu para o seio, acariciando-o por cima do sutiã. Ela era muito perfeita, tinha o tamanho ideal, imaginou-a debruçada com o seio em sua boca, ele prendendo o bico nos dentes, enquanto ela cavalgava nele. —Edward, pare...— Ela ofegou quando ele invadiu o sutiã com os dedos, acariciando e apertando o bico, no instante em sua língua deslizava no vão do seio, após ele ter aberto um botão. Com a carícia, ela retesou, logo, receoso, parou o movimento dos dedos, olhou seus lábios molhados e voltou novamente para eles, lambendo com luxuria, sugando faminto, lembrando nunca ter provado algo tão apelativo e bom.

Beijando-a, muito excitado, milhares de perguntas gritavam em sua mente: primeira; por que ela não estava de saia? Seria tão fácil, tão fácil, com ela molhada, deslizante, quente como sua boca. Hmmm, no escuro seria fácil, rápido, bom. Ugh, gemeu em imaginar.

Tá, mas já que não estava de saia, por que ela não o deixava pegar em seu peitinho? Todo mudo deixa! Devia ser bom. Por que ela tinha que ser tão difícil, merda! Ofegou, sentindo a excitação borbulhar, chegando ao pico, conforme friccionava nela. Apertou sua coxa e a ergueu minimamente, resfolegando em sua boca, consciente de que a queria agora. Ela não sabia ainda, mas não tinha a mínima chance dela não cair em sua cama.

—Vem comigo.— Abruptamente, enlaçou sua cintura e a empurrou pelo salão, rumo ao estacionamento, ofegante e com impaciência. Atordoada, ela se deixou ser conduzida por ele. Ele avistou seu carro e, apressado, desativou o alarme. No mesmo instante parou e voltou a beijá-la, com a mão possessivamente em sua cintura, fazendo-a andar de costas até o carro.

Decidido a não perder tempo, começou a desabotoar sua blusa, que era de botão, ainda sugando sua língua. Calculou mentalmente como seria a posição, e seu leãozinho já fazia a festa na calça, sabendo que em poucos minutos ele iria estar todo dentro dela. Era capaz de ter uma combustão, se não a provasse.

Sem perda de tempo, abriu a porta de trás e pressionou-a a entrar.

—Edward...— Sentiu a mão dela segurar a sua, restringindo-o, uma vez que já estava no último botão de sua blusa. Agora faltava só o short, a meia calça, a bota, o sobretudo. Argh, tinha roupa demais!

—Eu preciso ir.— Ofegou quando ele desviou de sua boca para a orelha.

Repentinamente, ele ficou aflito, pois sabia que ela estava escorregando, ela iria escapar... Ela não podia escapar.

—Eu quero você.— Ordenou. De preferência de quatro e agora.

Ela estremeceu, quando ele deslizou a língua em seu ouvido, com sua mão em concha dentro do sutiã, apertando a pele macia do seio. De novo, sutilmente, ela colocou a mão sobre a sua, limitando a carícia. Puta merda, ela tinha que parar de lhe restringir. Ela tinha que parar! Era nítido que ela o queria e que estava gostando!

—Era só um beijo... Agora você vai me esquecer... Você prometeu.— Resfolegou, estabilizando lentamente o ar, quando ele ainda beijava sua orelha.

—Não, Cygne.— Implorou. —Você também quer.— Pressionou-a no carro, agora com mais medo dela evaporar.

—Eu tenho que ir.— Ela ficou mais enrijecida, esfriando aos poucos, o ar seguro voltando para o seu rosto, cada vez mais estável.

Merda, merda, merda. O que essa garota queria?

Olhou frustrado para ela, a mão ainda dentro de sua blusa. —Por que você me deixou assim, se não ia transar comigo?— Ofegou, com irritação, depois mordiscou impaciente seu queixo. —Você não é boba. Sabia o que eu queria e o porquê de estar te trazendo aqui.— Disse com mordacidade, puto com seu showzinho de não- me - toque.

Ela lhe empurrou levemente, mas ele não a soltou, as mãos apertando sua cintura contra o carro.

Ela levantou o rosto, com a testa franzida. —Ah, e você ia me jogar no seu carro e me traçar aqui, é isso?— Sorriu, irônica.

Ela lia mentes?

—Sim, gatinha, a primeira, sim.— Piscou cínico e mordiscou a ponta do seu nariz, agora passando os dedos nos cós do short, pronto para abrir seu zíper. —Mas depois eu ia te levar para um lugar legal e teríamos a noite todinha regada a sexo bem feito.— Disse, inclinou e beijou sua bochecha.

—Edward.— Ela segurou o seu rosto entre as mãos. —Quatro coisas para você saber: uma, eu nunca transaria com você num estacionamento.— Disse fria, mas beijou seus lábios novamente, selinhos suaves.

—Duas, você prometeu que era só um beijo e que depois do beijo iria me esquecer...— Ela mordiscou o seu queixo, lentamente, e ao mesmo tempo fechava a blusa.—... Mas para não acabar com a sua autoconfiança, que é muito elevada, que fique bem claro que eu não transaria com você, não porque achasse que não seria bom, pois sei que seria...— Ela desceu mordiscando o seu pescoço, fazendo com que ele se apertasse a ela de novo. —... Mas porque eu não esperei mais de vinte anos da minha vida para ter a primeira experiência com alguém que eu não signifique nada para ele, pior ainda dentro de um carro.— Disse lentamente e continuou mordendo e lambendo seu pescoço, indo até a mandíbula. Ele não conseguia associar suas atitudes com as palavras, mesmo assim, curtia.

—Três: embora você não tenha percebido, não sou uma qualquer. O amasso foi bom, mas eu não sou louca ao ponto de perder meu tempo com um cara como você...— Colocou o indicador em seu peito. —... Que eu não conheço, e que, além disso, põe seu órgão sexual em qualquer lugar. Sai com qualquer uma.— Ela não parou de mordê-lo, e a mão dele entrou novamente em sua blusa.

Suas ações não condiziam com o que ela dizia. Era até plausível sua explicação quanto ao sexo com estranho, pois algumas pessoas ainda tinham isso, não que ele tivesse conhecido alguma. E realmente ele não teria sido tão precipitado quanto ao carro, se soubesse antes de sua situação inexperiente. Mas o que ele não entendeu foi por que ela continuava o provocando, se não ia dar, porra? Ela queria lhe castigar, lentamente o flagelar.

—Quatro: eu só te beijei para ver se você me erra...— Afastou a camiseta dele no ombro e cravou os dentes, em uma mordida que com certeza deixaria hematomas. Ele grunhiu, ridiculamente adorando aquilo. Em seguida, ela lambeu, devagar, com a ponta da língua, no mesmo instante em que acariciava o seu peito.

—... Para ver se você sai do meu pé...— Voltou para o seu queixo, girando a língua nele, em uma lambida tão sensual que o fazia ficar sem pensamentos. Ela era a caçadora e ele a presa. Era assim que ele se sentia. Ele já não conseguia nem explicar o que acontecia com o leão dentro da sua calça. A essa altura ele já rosnava enfurecido, no ponto de sair sozinho e amansar a leoa por conta própria, mostrando quem era o rei da selva.

—... Para ver se me esquece...— Beijou muito leve o seu lábio, aparentemente finalizando a sessão tortura. —... Quero que me esqueça, de preferência, você e sua família...— Ela passou a língua devagar em seu lábio, o que o fez pulsar e contorcer nas calças. —... Eu sinceramente espero que essa mania de perseguição de vocês pare.— Concluiu lenta, dando selinhos em sua boca, olhando em seus olhos com uma pontada maligna no olhar.

Confuso, ele associou suas palavras uma a uma, e subitamente, irritado, apertou seu queixo, trouxe até seus lábios e o mordeu.

—Se não quer, então vaza daqui.— Rosnou.

—Estou indo.— Os braços dela penduraram preguiçosamente em seu pescoço, enquanto ele ainda mordiscava o seu queixo. Ele desceu a mão para a sua cintura, e se encostou mais nela, se é que isso era possível.

Rindo baixinho, ela deitou o pescoço, fechando os olhos, em seguida voltou a acariciar seus cabelos, no momento em que a boca dele deslizou avidamente pelo seu pescoço. Essa mulher apareceu para enlouquecê-lo, agora ele estava ciente disso. Era até uma afronta que mesmo ela tendo acabado de lhe falar que queria que ele saísse do seu pé, ele ainda estivesse morrendo de vontade de arrancar, a força, os seus beijos, colocá-la na horizontal e rasgar suas roupas.

Subiu para os seus lábios, sugou o inferior preso nos dentes, no mesmo instante a roçou nele, empurrando sua sofrida ereção em sua pélvis, expondo assim o que ela estava perdendo.

Intrigado, suspeitou que ela lhe conhecesse muito, detalhadamente, ou, tinha adivinhado que nunca ninguém ousou lhe dizer não, por isso, agora testava o seu domínio, disposta a pisar em sua segurança, massacrar sua auto-estima e destruir seu amor próprio.

Só tinha essa explicação.

Ele queria acreditar que de alguma maneira ela estava intencionada a lhe provocar, a propositalmente lhe minorar, pois do contrário, sua negativa e indiferença realmente eram muito pior.

Beijou seu rosto, que estava com a respiração serena, olhos fechados, e questionou mentalmente quem era aquela garota e qual era a dela.

—Qual o seu primeiro nome?— Perguntou, beijando suas pálpebras, como uma porra de veado carinhoso.

Ela riu. —Sem nomes. Eu nunca quis saber o seu.

—Ah, mas você sabe muito de mim. Por um acaso você é alguma fã obcecada?

Ela gargalhou satiricamente, em seguida, respirou fundo e o encarou séria, com um biquinho irônico.

—Me solta, Cullen. Não sou eu quem está te perseguindo. Não sou eu quem não sai do seu pé.— Disse entre dentes, forçando a mão para que ele se afastasse dela, agora com mais força. Ele não a soltou, pelo contrário, enlaçou seu cabelo, expôs seu pescoço e desceu com os lábios, sugando com tamanha ferocidade que certamente deixaria marcas. Era irracional o que ele sentia... No mínimo, insano. Mas não queria que ela se fosse. Ela poderia falar o que quisesse, poderia dizer mil vezes para ele sair do seu pé, que ele não iria. Não hoje. Não agora. E essa sensação o abalava. Ele não queria se sentir assim. Tudo estava muito confuso e ele só tinha certeza de uma coisa: como um viciado, ele queria beijá-la mais e mais e mais e mais...

Seu melhor lado perdia o argumento... O lado do ego, que queria conservar sua estima. Assim, disposto a não perder mais tempo com suposições e questionamentos, invadiu sua boca novamente, sem piedade, com as línguas enlaçadas, sem ver nenhuma condição no momento de se afastar daquele ser obscuro.

Como se não bastasse o fato dela ser suficientemente gostosa para lhe enlouquecer, dizendo não e sendo difícil, despertou um Edward distinto, que não sabia perder, que não nasceu para perder, que teve tudo que quis, e que agora, mais do que nunca, a queria. Mesmo que fosse para provar que ela era tão acessível como uma outra qualquer.

—Ainda vou ver você suada e ofegante em cima de mim, gritando o meu nome.— Prometeu em sua boca, introduzindo sua língua num leve vai e vem, tremendo só de imaginar aquele movimento dentro dela.

—Aposto que não.— Ela mordeu sua língua, com um sorriso perverso nos lábios.

—Garanto que sim.— Apertou os dedos em sua nuca, sem gentileza, e voltaram a se beijar em uma briga desenfreada, onde a indiferença que saía da boca macia não condizia com as resposta ansiosas dos lábios nos seus.

Ele se conteve, tentando não avançar com carícias ousadas. Se ela queria só beijo, ela teria só beijo, mas em breve, muito em breve, ela iria ceder... Ele não iria cansar de esperar. Ele iria domar essa leoa. Viciante e inacessível gata selvagem. Um instigante e confuso enigma que ele iria desvendar.