Capítulo Enigma parte I

Antes de o sol nascer, eu buzinava em frente à casa do Rilley apressando-o para descer. Viajaríamos no Ranger Rover luxuoso que recebi dias atrás de presente da montadora como meio de ter marketing grátis. Um SUV confortável e seguro para as trilhas e montanhas que enfrentaríamos até a fazenda na Escócia.

—Calma!— Rilley abriu a porta traseira e pulou dentro. —Dormiu de calça jeans?— Espetou brincalhão. Ignorei-o e dei partida. Ele pegou a mão de Bella e beijou-a no dorso. Ela riu. —Oi, Bella. Pelo jeito leãozinho não está com o humor muito bom. — Ele comentou e bagunçou meu cabelo.

—O que fez ontem, Rilley?— Bella desviou o assunto.

—Ah, fui a um karaokê com a turma. Foi legal.

—Ah, é? Você canta?— Ela perguntou animada.

—Sim. Canto Elvis, Michael Jackson... Sou bom em mais isso. —Piscou brincalhão.

—Eu gosto de Karaokê. Usava a música para aprender várias línguas. Japonês, russo, espanhol. — Comentou enquanto folheava uma revista de Ciência e Tecnologia. Examinei a capa achando bizarro ela gostar de ciência. Será que ela lia isso para me impressionar por eu fazer E.N? Ou realmente era uma garota intelectual? —Gosto das músicas latinas. —Continuou. — Shakira é minha preferida.

Eu olhei-a de viés e, ao ver seu ar animado, estendi a mão e seqüestrei a sua. Como era frustrante não a conhecer. Pior, eu evitava desfiar questionamentos sobre ela. Pensar exigiria respostas, e algo em mim fugia de complicações. Fechei os vidros e segui viagem em silêncio reflexivo. Os dois conversaram um tempo, depois ela se dedicou à leitura. Três horas depois fomos recebidos por uma camponesa em frente ao casarão.

—Oi, Bree!— Rilley a cumprimentou e levantou-a nos braços. —Nossa, como você cresceu!— Olhou-a avaliativo, ela sorriu timidamente. —Essa é Bella, garota do Edward. Lembra dele, ?

—Oi, Bella. Oi, Edward. Lembro sim. —Sorriu receptiva e nos conduziu ao casarão. De certo, Rilley tinha avisado que viríamos, pois fomos recebidos com uma farta mesa de café da manhã recheada com pães, queijos, bolos, patês, frutas.

Terminado o lanche, Rilley mostrou à Bella as grandes plantações de cevada. Em meio ao sol tímido, o vento frio implicava com os cabelos de Cygne, jogando-os no rosto. Ela levantou o capuz da blusa para proteger-se e ouviu atenciosa as explicações de Rilley do processo de produção de uísques. Acompanhei-os a passos distantes, com as mãos nos bolsos da calça. Ela parecia fascinada com a mecânica dos maquinários.

—Não vai me dar atenção hoje, não?— Reclamei carente quando a surpreendi mais tarde colhendo uvas distraída num pomar isolado das plantações de cevada.

Ela sorriu maldosa e pegou mais um cacho.

—Eu dei. Você que está muito distante e calado. — Salientou, mudou o corpo e trouxe uma uva aos meus lábios. Abri a boca e mordi seus dedos, brincalhão. —Ai. — Resmungou manhosa e puxou a mão, balançando-a no ar.

Sorrindo, enlacei sua cintura e descansei o rosto em seu ombro.

—Eu quero mais atenção. — Exigi matreiramente. —Já disse hoje que você é minha?— Abri a boca em seu pescoço, mordiscando.

—Não. — Fez um bico presunçoso.

Enfiei os dedos em sua nuca e a acariciei. —Você é minha. Só minha.

—Eu sou. — Concordou manhosa, com os dedos deslizando em meu cabelo.

Abracei-a forte. Ela pousou o nariz em meu pescoço e passou os braços em volta da minha cintura.

—Sou só sua. Todavia não há possibilidade de você ser só meu. —Adicionou reflexiva. Abri a boca para refutar, mas fomos interrompidos por Rilley, que apareceu no pomar de short e chuteira.

—Edward, a Bree está me propondo um futebol de mulheres contra homens. —Ele expôs. — Algo bem café com leite. O que acha?

Quando éramos mais novos, costumávamos brincar de toque e deixar Bree de bobinha. Pelo jeito ela não esqueceu.

—Bella que sabe. —Apontei para ela. Seria divertido vê-la tentar conquistar a bola sem nenhuma chance contra nós.

Ela me soltou do abraço e caminhou até Rilley.

—Isso é meio injusto, não? — Torceu os lábios com desagrado. —Só jogo se for um jogo sério, não café-com-leite. Para ficar equilibrado e imparcial, joga Edward e Bree contra eu e você. — Propôs com praticidade.

—Fechado!— Rilley levantou a mão no ar e bateu na mão dela.

Concordei e fui ao meu carro buscar uma bola. Todo jogador viciado tem que ter uma para emergências. Tirei a calça jeans e peguei um short na minha mochila. Cygne vestiu um short branco que se encaixaria com salto fino, não com futebol. Seguimos para um campo gramado pequeno. Ela deu uns pulinhos para aquecer-se enquanto eu me alongava, e convenci Rilley a jogar descalços para não machucá-las com nossas chuteiras. Iniciada a brincadeira, eu rolei a bola e vi de esguelha Rilley empurrar Bella para ela vir me tomar. Ela veio com sede.

—Calma, gatinha. Aqui você não tem vez. — Zombei. Ela mirou a bola, errou o alvo e chutou meu calcanhar. —Hmmm, gosta de violência, é? —Driblei-a malicioso, girei no pé, passei a bola por cima de sua cabeça, e ela me abraçou de lado, tentando me afastar da bola. —Isso, tira uma casquinha, vai. — Segurei a bola no pé, com ela puxando minha blusa; passei, brincando, a bola por baixo de sua perna e girei o corpo para seguir para o gol. Porém, Rilley esperava por esse drible, se adiantou, roubou a bola do meu pé e correu rumo ao seu campo, onde fez um gol. Filho da puta trapaceiro.

—Ae, parceira!— Ele correu até ela e a levantou do chão em um abraço empolgado.

Parei revoltado por ter perdido a bola, pus a mão na cintura e observei boquiaberto os dois comemorando.

—Vamos lá! —Ele chamou. — Acertamos a mina. A estratégia é essa... — Cochichou no ouvido dela e sorriram alto.

Rilley saiu com a bola, tocou para Bella, e Bree correu, tentando tirar a bola de Bella. Eu deixei que as duas se resolvessem. Não queria entrar na bola e correr o risco de machucá-las. Bella segurou a bola no pé, tocou para Rilley e, finalmente, eu fui até ele, tentando tirá-la dele. Ele voltou a bola por cima para Bella, que brigou por ela com Bree, a sobra ficou para Bella, que correu, mirou o gol e marcou mais um. De novo, Rilley foi até ela e a abraçou, rodando ela no ar.

Balancei a cabeça indignado. Depois disso, marcaram sete gols. Todas às vezes que eles marcavam eu já me preparava psicologicamente para a cena ofensiva de comemoração.

O jogo continuou. Não era da minha natureza desistir enquanto não virasse. Observei que a estratégia de Rilley era deixar a bola com Bella, já que ele previa que eu não iria atacar quando a bola estivesse com ela. Registrei isso e quando Bella correu com a bola rumo à baliza, calculei malignamente a distância, corri atrás dela, atravessei o pé em sua frente e estendi a mão para segurá-la, contando que ela desequilibraria. Todavia, não calculei a força e velocidade e, antes que eu a aparasse, ela caiu de bruços no chão e derrapou metros.

—Ai. — Ela gemeu. Eu congelei em mudo horror. Rilley estava ao seu lado antes que eu me movesse.

—Porra, Edward, isso era só uma brincadeira!— Ele a ajudou a sentar. Ela fez careta de dor ao ver o joelho ralado. Agachei ao seu lado desconcertado. Rilley continuou reclamando. —Puta que pariu, você não sabe perder mesmo! —Apelou.

Bella espanou o resto de grama na pele, e eu vi um pouco de sangue aparecer na altura da coxa, sujando short.

—O que é isso?— Toquei a aba de seu short para inspecionar o machucado, mas ela encolheu a perna e tampou a mancha com a mão. —Não é nada. Foi só uma pedra. — Resmungou na defensiva e levantou. —Bree, me leva para algum lugar para eu lavar minha perna e trocar de roupa. Rilley, pega minha bolsa no carro pra mim. — Pediu e acompanhou Bree ao casarão. Vi-a afastar-se me autocensurando por minha infantilidade, depois a segui.

Elas subiram as escadas e entraram num quarto. Abri a porta, e as duas estavam no banheiro, ambas de costas. Não advertiram minha presença.

—Ele é seu namorado?— Bree perguntou quando Bella tirava a blusa.

—Não.

—Ele estava morrendo de ciúme de você com Rilley. — Comentou sorrindo.

—É, ele é assim mesmo. Possessivo. — Bella resmungou e tirou o short, depois puxou a mangueirinha e começou a lavar o corpo, vestida somente com calcinha de algodão. Deliciosa.

—Nossa, esse machucado está feio. — Bree comentou, eu me alarmei. Aproximei-me em silêncio, toquei o braço de Bree e sinalizei que ela saísse. Ela saiu, e eu fechei a porta do banheiro. Bella passou sabonete na perna distraída, ainda de costas.

—Desculpe. — Eu sussurrei, cruzei os braços e me encostei à parede.

Ela olhou surpresa para trás e deu de ombros.

—Sem problema.

—Machucou muito? —Apontei para sua perna envergonhado.

—Não. Eu estou bem. —Sorriu tranqüilizadora.

Voltei até a porta do banheiro, abri um pouco, e Rilley e Bree conversavam no quarto.

—Rilley, me dá a bolsa dela. — Pedi, ele trouxe juntamente com minha mochila.

Abri sua bolsa sobre a bancada de mármore, peguei a toalha e esperei-a terminar. Ela fechou a ducha e virou-se para mim. Automaticamente baixei o olhar para sua coxa.

—Nossa!— Ofeguei chocado. —Ficou feio... Uma quedinha daquela!— Comentei sem jeito e enrolei a toalha em sua volta. —Sua pele é frágil, não é?— Eu não sabia o que falar e comecei a tergiversar.

Ela enlaçou o meu pescoço e sorriu.

—Não se preocupe. — Deu-me um beijo no rosto. —Valeu ter ganhado de você. — Arreliou com um sorriso zombeteiro e caminhou em direção a bancada. Olhou-me de canto sedutoramente, e não disfarcei meu olhar ávido de predador. Leãozinho sugeria que eu puxasse a toalha dela, beijasse-a e a traçasse nas paredes.

Abracei-a por trás, e ela me encarou com um olhar provocativo pelo espelho. Levantou um pouco a toalha lateralmente e começou a deslizar a calcinha. Se eu já estava duro desde que a vi tomar banho, enrijeci mais e desci a mão para acariciar seu baixo ventre. Ela respirou fundo, encostou as costas ao meu peito e deixou que a calcinha caísse ao chão. Mordisquei sua orelha, baixei a mão para sua região íntima, e ela estremeceu. Movi meus dedos persuasivamente, espalhei a umidade, mordisquei seu ombro, e ela se empinou, arrastando o bumbum na cara de leãozinho. Desci a mão esquerda, apertei forte sua coxa e a puxei contra mim.

—Ai. — Reclamou rígida. Eu me dei conta que tinha apertado o machucado.

Parei as carícias e a virei de frente.

—Desculpe, Bella. Eu juro que não tinha intenção de te derrubar. — Expliquei contrito e passei o indicador cautelosamente em cima do machucado.

Foi automática a lembrança que tive de Isy na cobertura no dia anterior, do corte no mesmo lugar. Inferno. Minha situação era desesperadora. Eu estava abraçado a Cygne com ela nua, louco de desejo de pegá-la naquela bancada, no entanto, Isy me aterrorizava em lembrança. A culpa por pensar nela foi um balde de água fria.

Fechei os olhos para me concentrar e domei o ardor. Só teria intimidade com Cygne quando estivesse resolvido

—Vou tomar banho depois descemos para comer alguma coisa, ok?— Propus e me afastei, beijando antes suas pálpebras. —Eles já devem ter servido o almoço.

—Tudo bem.

Ela virou de lado, meio pensativa, escolheu uma roupa quente em sua bolsa e se vestiu. Desviei o olhar quando ela se vestia. Evitaria intimidades enquanto meu emocional estivesse essa confusão, repeti. Não adiantava ter um compromisso sério e assumi-la financeiramente estando tão indeciso.

Segui para o banho e, enquanto esfregava meu corpo, Bella me observava silenciosa e pensativa, sentada na bancada. Meu humor não era dos melhores para brincar de me exibir como das outras vezes; terminei rápido e vesti um conjunto de moletom da Adidas.

Antes de sair do quarto, peguei sua mão, trouxe até minha boca e beijei a palma gelada. Vestida num cardigã salmão e calça de algodão branca, ela me olhou inexpressiva, como se me estudasse. Fugindo do exame, puxei-a para fora e, para nossa surpresa, quando chegamos ao hall da escada, Rilley tentava beijar Bree no sofá. Parei surpreso. Ela era filha única do caseiro e seu pai estava na casa! Sorri apologético para Bella e seguimos discretamente para a escada.

Após deixar as bolsas no carro, fomos chamados para almoçar e sentamo-nos à mesa sozinhos.

—Por que está tão calada depois que saímos do banho?— Acariciei seu rosto bajulador.

—Estou tentando te entender. — Explicou e levou, desatenta, batatas fritas aos lábios.

—Está muito difícil?— Instiguei, pensando que nem eu conseguia me entender.

—Sim.

Rilley chegou com Bree, sentaram-se à mesa separados e serviram-se.

—A Escócia é perto de Liverpool, mas o costume de alimentação é bem diferente. — Rilley comentou e serviu-se de sopa de bacalhau com batatas. —Vocês costumam tomar cerveja com comida na sua casa, Bella?

—Não. —Fez uma careta para cerveja escura que Rilley tomava acompanhado da sopa. — Não gosto dessas misturas diferentes. Embora ultimamente tenha aprendido a comer esfirras, quibes, lentilhas com arroz, carne de carneiro. — Enumerou, juntou salada de picles e comeu.

—Ah, é? São comidas típicas do Oriente Médio, ?— Bree perguntou curiosa.

—Sim. Os empregados da minha casa são... — Parou repentinamente, pigarreou e começou a tossir, parecendo engasgada. Solícito, dei um tapinha em suas costas. Ela sorriu grata e voltaram a conversar.

—Eu vinha muito à fazenda quando pequeno. —Rilley estava dizendo. — Vi Bree crescer. A última vez que eu vim aqui ela tinha uns quatorze anos. — Ele olhou Bree carinhoso. —Ela vivia repetindo para mim que quando crescesse iria casar comigo. — Ele pegou em sua mão. —Está pronta para casar, Bree? —Provocou zombeteiro.

—Não!— Bree respondeu horrorizada. Ele riu.

—Pode não estar pronta para casar, mas já tem 17. Então poderia ir morar na cidade para se preparar para faculdade. — Ele propôs sério.

—Não. — Negou decidida, ele olhou-a estranhamente e deu de ombros.

Após o almoço, Rilley foi passear com Bree, e eu deitei em uma rede de junco acolchoada na varanda com Bella. Tudo estava muito quieto em volta, típico ar do campo. Ela tinha os olhos distantes. Eu a acariciava preguiçosamente na coxa, sobre a calça.

—Não gosto de você calada comigo. — Encaixei nossa posição conchinha e a fiz cativa com meus braços em sua volta.

—Eu é que não gosto de você calado. — Ela resmungou aborrecida. —Parece que... Deixa pra lá...

—Fale. — Levantei seu cabelo atrás e beijei sua nuca.

—Você está estranho... Parece arrependido de ter me convidado. — Suspirou, olhando para o horizonte que sumia em plantações.

Abri a boca perplexo com sua dedução. —Tolinha. —Brinquei, pus minha mão dentro de sua blusa e acariciei sua barriga. — Eu nunca apreciei tanto um passeio ao campo como hoje. — Afastei mais seu cabelo e mordisquei seu pescoço.

—Então você podia voltar ao normal, tipo falar bobeiras igual ontem quando nos encontramos. —Exigiu.

—Tudo bem. Vamos conversar sobre você. — Peguei uma mecha de seu cabelo e trouxe ao nariz. —Seu cabelo é natural?

Ela riu incrédula do assunto.

—Não.

—Qual a cor deles?

—Fui loura platinada até os onze anos. Depois ele foi escurecendo.

—Com Rosalie aconteceu isso também. Era loura natural quando criança, agora precisa pintar. Acho que vocês ficariam bem de cabelos naturais.

Ela se virou frente a mim e encostou a cabeça em meu peito, colocando uma perna sua entre as minhas.

—Você está sugerindo que eu desfaça do ruivo?— Ela questionou e esquentou a mão gelada dentro da minha camiseta, deslizando as pontas dos dedos em minha barriga.

—Você é linda de qualquer jeito. —Abracei-a. — Linda, gostosa. Mas eu gosto de variar. — Pisquei brincalhão. Ela balançou a cabeça me repreendendo fingidamente, depois fechou os olhos, encostou o nariz sob meu queixo e inalou profundamente.

—É uma pena eu não ser como você: alguém que goste de variar. — Ela lamentou, e não parecia ser uma brincadeira. —Quero saber como vou me desintoxicar de você.

—Rá, como se o obcecado aqui não fosse eu! Não posso ficar um fim de semana sem você!— Reclamei e abracei-a mais forte. —É tão novo, estranho e bom estar deitado abraçadinho no domingo em frente a essa paisagem idílica, sentindo o cheiro das plantações, comportando como um casal normal.

Ela sorriu calidamente, parecendo encantada com o comentário e beijou meu peito por cima da camiseta.

—Te adoro. E farei tudo para que seja único enquanto dure. — Prometeu sombriamente, eu guardei para pensar em seu comentário depois. Estiquei o braço, puxei uma manta xadrez dobrada numa mesinha e estendi sobre nós. Ela tinha os olhos fechados.

—Vai dormir?

—Só um pouquinho. —Respondeu preguiçosa e se encolheu mais. —Você é tão quentinho e forte. Dá a sensação de que estou segura... Faz-me esquecer tudo. — Comentou sonolenta. Eu tive uma estranha sensação de que ela realmente necessitava segurança. Arrumei a posição, protegendo-a da brisa e suspirei feliz em tê-la aconchegada em meus braços. Uma sensação quente ardia no meu peito. Talvez felicidade. Beijei sua testa e relaxei na rede.

Despertei por volta de cinco da tarde ouvindo resmungos e sentindo-a tremer. Abri os olhos, e ela pareceu estar sonhando.

frrrio. — Gemeu, de olhos fechados. O tempo tinha esfriado mais, e eu a cobri com a manta. —Não, não, por favor... Não me deixe aqui. — Ela choramingou e soluçou baixinho. —Oh, Deus, me perdoe... Eu sou má... Foi minha culpa. — Parecia ter um pesadelo.

Preocupado, enfiei os dedos em sua nuca, beijei sua testa e tentei acordá-la: — Shhh, acorda, Bella. Vamos entrar. Lá está mais quente. — Cobri sua bochecha com minha mão, notando-a quente. Ela quietou, porém continuou encolhida, batendo os dentes. Peguei-a no colo e entrei.

—Você está febril. — Comente ao notar sua pele queimando.

—Não. — Resmungou, mas não abriu os olhos.

Sentei no sofá com ela no colo e toquei sua testa.

—Bella, você está febril, sim. —Teimei alarmado.

Rilley e Bree jogavam xadrez próximos e viraram os rostos atentos.

—Eu vou buscar um antitérmico. — Bree prontificou-se, foi à cozinha e voltou com água e remédio.

—Tome, Bella. — Entreguei. Ela ergueu o tronco letárgica e tomou. —Vamos deitar aqui. — Deitei com ela no sofá, Acariciei sua nuca e observei-a. Ela tinha o olhar distante, no teto. —Sobre o que era o sonho?— Perguntei. Ela abriu bem os olhos.

—Nada importante... Já fazia algum tempo que eu não os tinha. — Disse distraída.

—O que você sonhava?— Pressionei e acariciei sua bochecha. Ela suspirou e fixou os olhos em mim.

—Com um lugar frio, escuro... Uma arma apontada para mim... Um deles ameaçando me machucar... — Explicou condoída e estremeceu.

—Foi um delírio por causa da febre. — Tranquilizei-a e lhe dei um selinho.

—Não. A febre foi por causa do sonho. — Ressaltou.

Durante a viagem de volta, eu sentia pesar por estar encerrando o fim de semana. Mas no íntimo, uma ansiedade vibrava no estômago por prever encontrar Isy no dia seguinte.

—Obrigada pelo dia, Edward. — Disse Bella ao descer do carro e enlaçar meu pescoço, na garagem da minha casa.

Apertei sua cintura e encostei-a ao carro. Droga, não queria que ela se fosse ainda. —Dorme comigo. — Pedi manhoso e lhe dei selinhos.

—Não posso. —Lamentou e acariciou meu cabelo.

—Então tenho uma proposta: viaje semana que vem comigo para Espanha. Meu time vai jogar a final lá e você poderia ir para curtirmos Madrid após o jogo.

—Ah, também não posso. — Baixou o olhar, triste.

—Ok. Sem problemas... Por enquanto. — Deixei a controvérsia de lado. Tomaria este tempo para pensar.

—Será que você volta?— Quis saber interessada. —Imagino que você já fique de vez no time de lá.

Afastei-a um pouco, curioso.

—Como sabe sobre isso? Você leu sobre as negociações nos jornais?— Arqueei uma sobrancelha.

Ela hesitou antes de responder: —Sim.

Passei a mão no cabelo lamentando não ter conversado sobre isso com ela. Talvez porque não soubesse ainda o que dizer sobre nós dois caso realmente fosse.

—Minha mãe tem que ver com Jacob como estão as negociações. — Justifiquei. —Parece que a negociação final será quinta-feira.

Ela enlaçou novamente meu pescoço e encostou o corpo ao meu.

—Eu fico feliz pelo seu sucesso. Vou continuar sendo sua fã sempre. — Ela disse solenemente.

Com uma aflição repentina por sentir seu ar tranquilo de despedida, segurei seu rosto em minhas mãos e olhei dentro de seus olhos, tentando por firmeza nas minhas próximas palavras. —Você vai comigo. — Decretei.

Ela balançou a cabeça negando. —Não vou, Edward. Sem amarras, lembra?

—Estamos juntos, Bella. Você vai comigo. Nem que eu vá na frente e venha te buscar depois. —Quase implorei ao vê-la escorregar para distância emocional.

Ela sorriu triste, fugindo do meu olhar.

—Eu não quero estragar o dia, leãozinho. Mas você sabe que não quer isso. — Ressaltou baixinho. Suspirei e olhei para o teto, chateado comigo por ter dúvida e ainda deixá-la perceber. Ela continuou. —Hoje mesmo você disse que gostava de variedades, então por que assumir esse tipo de relacionamento sério comigo?

Não tive palavras. Eu tinha mil respostas, como por exemplo: porque ela é linda, beija gostoso, tem o corpo que me fascina. Porque ela abraça-me como se eu fosse seu tudo, olha-me como se me conhecesse de sempre... Porque ela me faz feliz, quente, satisfeito, vivo.

Se essa pergunta fosse feita há uma semana, certamente eu teria firmeza na resposta. Hoje a dúvida era maior que minhas certezas.

Ela leu a minha dúvida, apertou meu queixo e olhou-me com olhos frios e sem emoção.

—Edward, não pense que eu vim esse fim de semana por pensar que temos algo sério. Eu realmente...

Antes que ela completasse, dei um passo à frente e tampei sua boca com minha mão.

—Sem essa. — Calei-a, afastei minha mão e a substituí por selinho.

—Você não tem que ficar comigo... — Ela voltou a argumentar. Ignorei-a e continuei beijando-a. —Eu também estou curtindo, Edward. Eu estou vivendo o hoje. Não sinta obrigações comigo.

—Eu já falei para parar, Bella. —Ameacei.

—Eu te entendo... — Ela suspirou melancólica.

—Entende o quê? —Afastei-me impaciente.

—Er, eu sei que você perdeu o interesse. Não posso te dar o que as outras te dão. —Enumerou tranquila, como se o assunto não fosse eu, e como se ela não desse a mínima para me perder.

—Não dão, davam. — Corrigi, querendo saber aonde ela queria chegar.

—Davam, dão, o tempo não importa. O que importa é que você precisa saber que não está preso a mim. —Acariciou minha mandíbula. —Você é lindo, Edward. É jovem. Sua vida está só começando. Em Liverpool você não viveu metade do que vai viver em Madrid. Não tem que pensar em ficar comigo só para provar que não queria só sexo... O fascínio acaba, eu entendo. E não te julgo ou culpo. Foi bom para mim.

Balancei a cabeça incrédulo.

—Do que você está falando? Tivemos um dia ótimo hoje, por que está me dispensando?— Encarei-a ofendido.

—Não é o caso de dispensar, leãozinho. É um caso de sensatez. Estou falando de amanhã. — Esclareceu cansada.

Algo torceu em meu estômago, uma ansiedade repentina que fez meu coração acelerar antecipando a perda.

—Por que esse ar de despedida agora? —Acusei-a perdido.

—Por tudo, Edward. Analisa os outros fins de semana e este. Depois que você provou para mim que é irresistível, acabou o interesse sexual. Não sou mais novidade. Não sou experiente e não tenho como te manter interessado. —Apontou com objetividade. Abri a boca perplexo com seu fatalismo e segurei seus ombros.

—De onde você tirou essa ideia que eu perdi o interesse?

Ela desviou o olhar e mordeu os lábios, nervosa.

—Ontem... Você não quis. — Murmurou hesitante. —Hoje também você não fez a mínima questão de fazer am... Sexo comigo quando eu terminei o banho. Se fossem dias atrás, você não perderia a oportunidade.

Chocado com a gravidade da situação, soltei os seus ombros e dei um passo atrás. A culpa me corroeu por ter feito-a julgar seu poder feminino. Deus, fazer sexo com ela foi minha maior realização sexual! Ela foi naturalmente deliciosa, quente, receptiva. Do meu número. Nenhuma dúvida ou estupidez poderia ter gerado incerteza nela. Não é justo que, por um desequilíbrio meu, por pensar em Isy direto, ela fique autoconsciente.

Sem saber como atuar, mas disposto a desfazer qualquer mal entendido, aproximei-me novamente e surpreendi-a cobrindo seus lábios, partindo sua boca com minha língua. Ela respondeu cautelosa, abriu a boca minimamente e acariciou minha língua com a sua. Não demorou que eu sentisse a eletricidade me percorrer, a excitação rastejar na pélvis.

Encostei-a ao carro, busquei mais espaço em sua boca, ela ofegou, se entregou mais e enfiou os dedos em meu cabelo. Joguei a reserva para o alto, levantei a barra de sua blusa e entrei com a mão, direto para seus seios nus. Ela estremeceu quando fechei em concha e apertei o bico nos dedos.

—Você não precisa provar nada. — Ouvi um som sufocado de seus lábios.

—Preciso sim... E não é sobre mim.

Peguei sua mão e a fiz tocar minha ereção por cima do moletom. Gemi em sua boca quando ela acariciou. Leãozinho, empolgado, contorceu-se em sua mão, reclamando por eu ter perdido-a no fim de semana. Argh, leãozinho não pensava mesmo. Nunca iria entender o motivo por eu ter me mantido reservado.

Ainda beijando-a, abri a porta do carro, empurrei-a para dentro e a fiz sentar, ao tempo que deitei o banco. Ofegante, fechei a porta, apoiei o joelho no banco, ergui a barra de sua blusa e passei por sua cabeça, deixando-a exposta.

—Uh, lindos!—Elogiei com os olhos vidrados em seus seios que subiam e desciam junto à respiração arfante. —Mais lindos ainda em minha boca. — Desci a boca em seus seios e os beijei, um e outro. Chupei o bico, prendi-o em meus dentes e mamei como um gato, massageando o outro com a mão. Ela choramingou e puxou minha cabeça. Entrei uma mão dentro de sua calça e inspecionei sua chana. —Hmmm, sempre quente, Cygne. — Aplaudi rouco, ela contorceu-se e gemeu, empurrando sutilmente o quadril em minha mão. Fechei os olhos para me concentrar.

Droga, leãozinho, estávamos em missão de paz aqui. Não era porque ela estava quente e molhada que a gente iria se enfiar cegamente.

—Leãozinho... —Ela gemeu. —Alguém pode vir na garagem... Empregados.

Expus seu clitóris e persuadi-o com o polegar. Ela arqueou para trás.

—Os vidros são escuros. —Tranquilizei-a, sem conseguir mais pensar em nada, além de que adorava vê-la daquele jeito, ofegante, pedindo para ser pega de jeito. —Você sente o que faz comigo?— Beijei suas costelas e baixei devagar sua calça de elástico. Ela levantou um pouco do banco e deixou a calça descer para seus pés. —Eu sou louco por você, Bella.

—Quero você. —Soprou visivelmente atormentada, com a boca aberta de excitação.

—Não precisa pedir de novo, gatinha. —Aprovei rindo e inverti nossas posições.

Sofrer devia ser um hobby para mim, só pode. Poderia muito bem levá-la para o quarto e traçá-la em minha cama. Entretanto, preferi enfrentar as manobras acrobáticas de um carro.

—Você acha mesmo que eu perdi o interesse em você?— Desci um pouco meu moletom e libertei minha ereção escandalosamente latejante. —Senta aqui que você vai ver. — Ameacei malicioso, afastei sua calcinha de lado, posicionei-me em sua entrada e a esperei roçando a cabeça.

Olhamos juntos para baixo, ela estremeceu e começou a baixar dramaticamente. Travei o maxilar, congelei no lugar e senti seus lábios molhados nos meus, lambendo minha boca, ao tempo que eu me enfiava centímetro por centímetro dentro dela. O prazer de ser enjaulado, domado, amansado em seu interior era inexplicável. Seu sexo espremeu e chupou meu invasor tamanho com terna recepção. Ela grunhiu em minha boca e buscou ar. Cravei os dedos no seu traseiro cheio e impulsionei o quadril acima, entrando totalmente. Trememos com a emoção dos primeiros segundos.

—Sente isso, Bella?—Questionei com dificuldade, rodeei sua cintura com o braço e a fiz rebolar, mordendo agora o seu queixo. — Nada supera essa necessidade primal de você. — Ofeguei e lambi seu pescoço, subindo devagar até atrás de sua orelha. —Você é naturalmente gostosa. Feita exatamente para mim. — Mordi o lóbulo de sua orelha, e ela deu pequenas movidas para frente e para trás. —Isso... Está bem treinada, gatinha. —Aprovei-a e apertei seu seio com uma mão, sentindo profunda ternura, o que ocasionava respostas físicas intensas. —Você não sabe o que faz comigo. — Desci minha mão e cresci os incentivos, dedilhando em seu clitóris, inclinei e abocanhei seus seios novamente, chupando, brincando com a língua no bico. Ela enfiou a língua em meu ouvido.

É louca? Se continuar selvagem assim eu não agüento muito! Tremi, as paredes de seu sexo aferraram-se e me puxaram gulosamente outra vez. Deus. O ar ficou rarefeito. Meu controle se ia. Continuei manipulando-a, entrando, saindo, me esforçando.

Ela estremeceu, seus olhos abriram-se, e ela prendeu o ar enquanto seu sexo contraía, enforcava.

—Isso, vem pra mim. — Cantarolei. Ela gemeu longamente, sacudiu-se e ofegou compulsivamente, apertando minhas coxas com as suas, o corpo inclinado para trás.

Assisti maravilhado seu expressivo orgasmo, e isso foi o estopim para que minha liberação subisse. Meu cérebro ficou em branco, golpeei impaciente, sentindo-a ainda estremecer a cada estocada, abri minha boca sobre seu ombro e fechei os olhos. A explosão de sensações começou nas coxas, o orgasmo entorpeceu o meu cérebro, e eu gemi, subitamente tonto, derramando até a última gota.

Após ter o cataclismo sob controle, beijei preguiçosamente sua boca, deslizando os dedos em sua coluna para confortá-la. Exausta, ela debruçou-se lânguida no meu ombro. O tempo pareceu parar. A certeza de que nós dois éramos certo juntos inundou meu peito.

Preguiçosa, ela se afastou do contato, ocasionando um protesto em leãozinho pela perda do abrigo; sentou no outro banco e começou a vestir a blusa. Como assim? Nada de ficar me alisando pós-sexo, de ficar conversando abraçadinhos? Namorados fazem isso, não fazem?

—Eu vi preservativos no console... Por que não usou?— Perguntou direta.

—Porque não quis. —Esclareci como óbvio. — Você quem vai cuidar das prevenções por aqui. — Ressaltei, fazendo alusão ao meu pedido semana passada de que ela usasse anticoncepcional.

—Mas eu ainda não comecei a tomar. — Informou apreensiva.

—Tudo bem. Tome a pílula do dia seguinte amanhã de novo. — Dei de ombros indiferente e abri o porta-luvas para pegar lenços de papel.

—Er, preciso te falar uma coisa... —Começou hesitante. — Eu não consegui tomar domingo... Eu não pude sair para comprar e não tive coragem de pedir para o Jazz fazer isso.

Fiquei repentinamente tenso e olhei-a alarmado. Ela desviou o olhar. Antes que eu a acusasse, ela continuou.

—Eu tomei umas ervas que minha criad... Empregada me deu para evitar concepção. —Explicou neutra. —Se elas não derem certo, não precisa se preocupar com nada... —Disse evasiva.

—O que você está tentando dizer?— Entrecerrei os olhos desconfiado.

Ela parecia tensa, pegou a calça no chão e vestiu silenciosa para ganhar tempo.

—Nada. Só que daqui uns dias cada um vai para o seu lado, e eu não pretendo te importunar. — Tentou parecer displicente, mas sua voz a traiu, saindo nervosa.

—Bella, do que estamos falando?— Pressionei. Não podia acreditar no que meus ouvidos ouviam.

—Nada, Edward... Não tem possibilidade. Esquece. — Emendou ansiosa.

—Bella, nem pense em fugir do assunto. — Encarei-a sério. —O que quis dizer como esse negócio de não me importunar?

Ela ficou calada um tempo, suspirou rendida e olhou para fora do vidro.

—Er, eu só estava pensando que, como em breve os bens da minha mãe serão desbloqueados - isso se tudo de certo na Justiça -, e eu vou poder ir embora deste país e recomeçar de novo em um lugar diferente, não seria ruim ter uma companhia, de preferência que essa companhia fosse uma lembrança de nós dois; uma prova de que podemos sonhar, de que nós dois um dia existiu. — Esclareceu inexpressiva.

Não prestei atenção ao que ela disse sobre porra de Justiça, só ao que ela disse ao fim. Fechei as mãos em punho e senti meu sangue ferver de irritação, paralelamente uma dor lancinante atravessou meu peito pela traição antecipada.

—Você cogitou a ideia de ter um filho meu sem que eu soubesse?— Questionei entre dentes com olhar perigoso.

Ela alarmou-se e balançou a cabeça em negativa.

—Não. Não é isso!

—Então por que estava dizendo que iria sumir com um filho meu?— Inquiri, ainda encarando-a.

Ela entrou na defensiva e ficou ereta no banco, com postura beligerante.

—Você está falando como se eu tivesse planejado algo assim, e eu não planejei. —Defendeu-se como uma tigresa.

—Como não planejou? Você disse que...

—Edward, é melhor não completar o que está pensando... — Interrompeu desafiadora. —Eu não estou nem aí se esse seu limitado complexo de superioridade te impede de pensar. Não pense que sou como as outras Maria chuteiras que granjeariam seu esperma de ouro no mercado negro para dar golpes da barriga milionários, Lyon! —Cuspiu meu nome ofensivamente. —Não me acuse de ter planejado isso... Podíamos, nós dois, termos comprado a pílula no sábado. Entretanto, você preferiu isentar-se de responsabilidades. Se você não pode ir a uma farmácia, eu também não posso! — Disse nervosa, deu uma pausa e respirou fundo. —Seria um acaso ficar grávida, Edward. Só que eu tenho que ter equilíbrio o bastante para lidar com qualquer probabilidade de erro. Eu sei muito bem que você não cogita a ideia de ser pai, portanto, eu simplesmente assumiria e me viraria com MEU filho. Você não teria nenhuma obrigação de vínculo com ele, assim como você não tem obrigações comigo. — Enfatizou segura.

As palavras travaram em minha garganta. Respirei fundo e esfreguei minha testa. Seu tom depreciativo aludido à minha personalidade doeu. Merda, eu queria que ela depositasse alguma confiança em mim e parasse de me excluir de seus planos. Mas como poderia tranqüilizá-la e me comprometer a ampará-la caso ela ficasse grávida se eu não sabia nada sobre meu futuro? Se não sabia quem eu realmente queria?

Um silêncio opressivo nos envolveu. Fui puxado do meu distanciamento quando a ouvi discar um número.

—Oi... Você pode vir me buscar?— Sussurrou com a voz triste — Na casa dele... Se você puder, eu prefiro agora... Não fala assim dele, Jazz... Quando você chegar, conversamos. — Ela desligou, e eu olhei atentamente para ela.

—Qual é a do Hale comigo?

—Não é você. Sou eu. —Defendeu-o e deitou a nuca no encosto de olhos fechados, isolando-se da minha presença.

Dez minutos depois de distância entre nós, um Audi chegou cantando pneu e uma Alice irritada desceu.

—Que droga, Edward! Pensei que você tivesse mudado e parado de brincar com a cara das meninas! — Alice culpou quando desci. Bella desceu pela porta do motorista.

—Cuida da sua vida, Alice!— Ataquei e segui Bella.

—Deixa ela, Cullen!— Hale protestou quando peguei no braço de Bella para impedi-la de sair do portão. —Se não soltá-la, vou te quebrar!— Ameaçou hostil.

Bella se soltou da minha mão e se aproximou dele alarmada.

—Para, Jazz. —Pôs-se entre nós dois.

—Bella, você disse que iria só se divertir, e isso não é mais diversão. —Apontou para nós dois. — Todos os dias que vocês se vêem você fica arrasada!— Discutiam como se não tivessem platéia.

—Ele não tem culpa se eu me envolvi. — Ela puxou o braço dele e caminharam rumo ao carro. Antes que ela entrasse no lado do passageiro, alcancei-a e a segurei novamente pelo braço, encostando-a bruscamente contra a porta.

—Pelo amor de Deus, você quer me enlouquecer?! —Eu rosnei alterado. —Essa relação está me deixando louco!— Acusei. Ela baixou o olhar. Suspirei e segurei sua nuca.

—Solta ela, Cullen. — Hale ligou o carro e acelerou forte, fazendo o motor roncar alto.

Alice assistia a cena do portão, de braços cruzados. Levantei o queixo de Bella e encostei nossas testas.

—Só você que não percebeu ainda, Bella. Eu não vou deixar você escapar de mim. —Declarei inundado de convicção. — Queira o mundo ou não, você já é minha. Não vou permitir que nada me distancie de você. — Encostei meus lábios nos seus e dei alguns selinhos, conciliador. —Outra coisa, se você quer um filho meu, eu não me importo. Só acho muito cedo. Porém, se vier, será nosso, não seu. — Ressaltei de guarda baixa. —Se não vier agora, podemos continuar fazendo um pedacinho dele por dia... —Brinquei e arrastei cheio de promessas minha pélvis na sua. —Inclusive, se você dormir comigo, podemos subir e fazer os pezinhos. — Propus solene. Ela rendeu-se e riu. —Agora vou te falar o mais importante. E isso não é um pedido, é uma ordem— Segurei seu rosto em minha mão. —Aprenda a se despedir do seu pinto de ouro aqui. Você usa e abusa de mim depois vai embora como se eu fosse uma puta que se come na beira de estrada! Nada disso. Eu quero beijos quentes na sua chegada e na sua saída, quero declarações de saudade e despedidas melosas. — Exigi, abri sua boca com minha língua, e ela sugou devagar, sorrindo em meus lábios. —O que é tão divertido?

—Te adoro exatamente assim. —Ela declarou mansa.

Apertei suas costas, encostei-me ao seu corpo, e ela buscou fervorosamente meus lábios.

—Eu te quero, minha gata teimosa que adora mostrar as unhas. —Dei selinhos no canto de sua boca. —Tenha uma boa semana. Assista seu ídolo gostoso jogar sábado porque quando eu fizer um gol vou mandar um beijo para você. — Prometi. Hale desligou o carro e desceu ao ver nós dois grudados e reconciliados. Continuei com minhas imposições. —Vou te ligar na semana e você vai atender. Isso também não é um pedido. Você vai me mandar mensagem todos os dias dizendo que rolando na cama e esfregando a bichana pensando em mim. —Rimei zombeteiro.

—Meu Deus, que pervertido! —Ela lamentou com falso horror.

—Sou mesmo. —Admiti orgulhoso. —Continuando, você vai dizer que beijando meu pôster pensando em mim, ou melhor, nele. — Apontei para baixo. —E eu não estou brincando, gatinha. Se você não fizer o que eu estou mandando, vou te castigar e te deixar sem seus recém descobertos orgasmos. E nem adianta trapacear e tentar sozinha. Só o gostosão aqui sabe como te fazer chegar. — Pisquei presunçoso e me afastei. —Agora se despeça de mim do jeito que eu te ensinei. — Exigi, de braços cruzados.

Ela sorriu, fazendo um biquinho, enlaçou o meu pescoço e beijou meu queixo.

—Boa semana, leãozinho. Vou sentir muito sua falta, principalmente do momento em que você faz gol. — Sussurrou maliciosamente, e eu olhei-a sem entender. Será que ela estava usando metáforas de orgasmos com gol? Ela continuou. —Vou torcer a cada segundo para te ver, sentir seu perfume, ouvir sua voz. Vou esperar ansiosamente o momento em que poderei acariciar seu cabelo e beijar sua boca. — Olhou em meus olhos sorrindo. —Você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida.

Depois disso, sorri e encostei meus lábios nos seus, beijando-a por vários minutos. Ela era a mulher que me acendia, me enlouquecia, fazia-me perder a razão e ao mesmo tempo encontrá-la. Fazia-me ter extremos de medo, de insegurança, de dúvida. E era ela que eu queria. Agora tinha certeza.

Ela buscou ar, e eu desviei os lábios para seu pescoço, dando selinhos.

—Boa semana, gata. — Abracei-a forte. Enfim tínhamos uma despedida de verdade.

—Boa semana, leãozinho. — Ela me deu um último beijo, e eu abri a porta do carro para que ela entrasse.

Dormi sorrindo como um gato ao sol, abraçado ao travesseiro que ainda tinha resíduo do perfume dela do dia anterior. Acordei ansioso, imaginando como seria o dia perto de Isy depois do ocorrido de sexta-feira. Quando estacionei na universidade, o carro de Emmett já estava. Desci impaciente, deixei as meninas para trás e caminhei rápido para sala, temeroso de que Isy me censurasse e me rejeitasse até como amigo por causa de sexta.

Isy sentava no nosso lugar como se pertencesse a ele. Sorri aprovador ao encontrar seu olhar quando atravessava o corredor.

—Tudo bem?— Cumprimentei-a baixo e sentei ao seu lado.

Ela balançou a cabeça em afirmativa.

—Como foi o fim de semana?— Perguntei e coloquei meu bloco de anotações sobre a mesa.

Ela pegou sua caderneta e escreveu: Foi ótimo. E o seu?

Bom, eu poderia dizer que foi perfeito, pensei. Que passei um fim de semana com minha garota. Mas será que era certo falar de Cygne? Melhor não. Não enquanto não esclarecêssemos os pontos.

—Foi bom. — Sorri desajeitado. —No geral, aconteceram muitas coisas boas. — Respondi reticente.

Tem notícias do James?

Não. Alice ligou para ele ontem à noite, mas ele não atendeu. — Estiquei na cadeira, tentando parecer relaxado.

E você? Ligou?

Torci os lábios desgostoso. James era o assunto que eu queria evitar.

—Estou dando um tempo para ligar. Eu não sei o que explicar para ele. —Aleguei uma desculpa.

Fale a verdade. —Aconselhou.

Que verdade?— Arqueei a sobrancelha curioso com sua opinião.

Que aquilo que ele viu sexta foi um erro. Que foi insignificante. —Balançou os ombros.

Não significou nada para você?— Pressionei-a incrédulo. Ela moveu-se inquieta na cadeira.

Não... Você tem sua vida, seu mundo. Eu nem devia estar aqui. Eu sou um erro na sua vida. — Escreveu após um suspiro.

—Você não é um erro, Isy. Você é muito importante para mim. Eu adoro sua companhia.

Tudo bem, pode ser que como sua amiga eu não seja um erro. Porém, sexta não significa nada. Não pode significar. Eu não seria o tipo de relacionamento para você, portanto o ideal é esquecer aquilo.

Olhei-a contrariado, mesmo sabendo que não poderia querer mais que isso.Porém, eu não queria que ela falasse de si com esse julgamento.

—Por que você está falando assim?— Resmunguei chateado.

Você não vê o que eu significo? Eu significo problema.

Inclinei sobre a mesa e apoiei os meus cotovelos para ficar mais perto.

—Eu não me importo com isso. Se eu percebesse que daríamos certo e se... — Hesitei e levantei mentalmente a possibilidade de tudo ser de outro jeito. —Se eu estivesse sozinho agora, eu não ligaria de enfrentar qualquer problema para ficar com você. — Disse sinceramente. Ela me encarou de um jeito familiar.

Edward, não precisa falar coisas para me deixar bem. Eu significo perigo, segredos, frustrações. Nunca serviria para você.

Por que você fala isso? Você sabe muito bem que tenho uma garota que querendo ou não é uma ligação perigosa. Ela tem um cara que a sustenta e caso ele descubra sobre nós, poderia gerar um escândalo. No entanto, eu insisto em tê-la. — Elucidei pausado.

Então se você não a tivesse, você poderia pensar em ficar comigo? Mesmo sabendo o que teria que enfrentar, como: sua família, a sociedade, os jornais, a memória do seu pai?

O que a memória do meu pai tem a ver com você?— Peguei sua mão e acolhi dentro da minha, encaixando as palmas. Eu queria tirar a luva e ter a intimidade de tocá-la.

Ela suspirou e levantou os ombros nervosa.

Seu pai defendia judeus. Ele não aceitaria que você se relacionasse comigo. — Escreveu com tanta convicção que deixou uma sugestão sutil no ar, como se o conhecesse.

Respirei fundo, nostálgico ao lembrar o idealismo do general com relação às guerras religiosas.

—Meu pai mudaria seus conceitos se conhecesse você. —Comentei pesaroso.

O ar ficou pesado. Um muro denso de cultura e história nos separava. Suspendemos a conversa num acordo tácito e direcionamos a atenção para o que o Mestre instruía. Um tempo depois, ela pegou meu bloquinho e voltou a escrever.

Enquanto você quiser uma amiga, eu estarei aqui para você. —Prometeu. Assenti incomodado com a despedida nas entrelinhas. Não gostei disso. Todo mundo ia se despedir de mim agora?

Tudo pareceu voltar ao normal entre nós no decorrer da manhã. A amizade fluía normalmente. Todavia, vez ou outra eu me pegava pensando na textura de sua pele, no gosto, no seu perfume. Culpava-me automaticamente, colocava os pensamentos no lugar e tentava ao máximo vê-la somente como amiga.

À noite, cheguei do treino, tomei banho e deitei na cama com o celular na mão. Uma chamada não atendida de Cygne estava registrada. Com um sorriso, apertei send e liguei de volta.

Oi. — Atendeu no segundo toque com a voz melodiosa.

—Oi, gata. Já beijou meu pôster hoje?— Brinquei.

Não. Queria beijar você. — Respondeu direta.

Deitei de lado na cama contente e abracei o travesseiro, me sentindo um gatinho domado tomando leite em sua mão.

—Posso te beijar todos os dias, se você quiser... — Ressaltei sugestivamente.

Edward, não vamos falar sobre isso. — Pediu carinhosamente. —Deixe o amanhã no amanhã.

—Bella, eu não te entendo. —Repreendi sério. — A única solução para você é aceitar o que eu propus. Eu não vou aceitar muito tempo essa situação de segredos, de relacionamento escondido. Eu queria estar com você agora. — Reclamei.

Por favor, não me faça tomar decisões precipitadas. Deixe-me viver um dia por vez. — Murmurou docemente.

—E eu? Eu queria você aqui. — Pressionei dramático, me sentindo um adolescente teimoso em sua primeira paixão.

Pra quê?

—Você sabe pra quê. — Insinuei maliciosamente. —Iria te devorar pedacinho por pedacinho. Eu não dou viagem perdida.

Mas sábado você deu. — Acusou mordaz. Eu lembrei o porquê, e a culpa cresceu.

—Sábado eu estava... — Não encontrei uma desculpa eficaz e calei.

Leãozinho... — Sussurrou, desviando a atenção. —Eu adoraria dormir com você. Adoraria acordar com seu cheiro em meu nariz, com seu calor em minhas costas. —Declarou simplesmente.

Sorri enternecido. Uma pressão forte em meu peito afirmou meus sentimentos por ela.

—Bom, é lógico que você não teria só meu calor em suas costas. Tem uma pessoa intrometida que fica esfregando a fuça em você de manhã, te adulando. Já sentiu? Ele também adora acordar com seu cheiro no nariz. — Insinuei zombeteiramente.

Ela sorriu alto. —Puxa vida, você não fala uma palavra séria comigo!— Ralhou divertida. Eu sorri adorando o som do seu sorriso. —Que bom que você voltou ao normal hoje. No fim de semana você estava tão quietinho. —Lembrou.

—Eu estava com uns problemas, mas resolvi. — Justifiquei. Pelo menos eu achava que tivesse resolvido agora que Isy deixou claro que aquilo não significou nada e que éramos só amigos.

Você quer falar deles?— Propôs, e eu ponderei por segundos a sugestão. Não me sentia à vontade. Eu não podia falar do meu irmão, nem do que ele tinha presenciado. Não poderia falar da muçulmana em minha vida. Também não poderia falar que minha mãe viajava com um sheik comprometido com minha amiga.

Suspirei.

—Não. Não quero perder você com assuntos insignificantes.

Ah, então tá bom. — Ela bocejou. —Eu estou cansada. Você chega muito tarde. Acho que já vou dormir.

—Ok, valeu pela ligação. Isso é sinal que você está na minha. — Sorri provocador.

Ai, ai, você é um poço de convencimento.

—Está reclamando?

Não. Eu gosto de você assim. Acho que não há nada em você que eu não goste. Só a sua possessão que me deixa irritada.

—Se eu estivesse mais seguro, seria menos possessivo. —Acusei.

Chega. Não vamos começar esse assunto. —Interveio séria. — Foi ótimo falar com você antes de dormir. Um beijo em você. —Bajulou.

—Eu não quero só um beijo. Quero beijos grandes, mordidas, lambidas, chupadas. — Cobrei manhoso, movi de lado na cama e leãozinho me cutucou, acenando que também queria. Rolei os olhos para ele, o ignorando. Eu tinha que ser romântico para ganhar a mina, não hormonal. Assim, amarrá-la-ia em minha cama e eu e ele sairíamos ganhando.

—Então feche os olhos e me imagine ai. — Ela sugeriu com um sussurro sedutor. Leãozinho franziu o cenho. —Eu adoraria te beijar... —Ela adicionou.

Leãzinho saltou com a ideia. Obviamente se eu a imaginasse aqui, ele teria alguma atenção.

Ganancioso.

—Eu não iria só te beijar. — Avisei, desci a mão ao short, libertei meu pervertido amigo e o acariciei. Ele agora não iria me deixar em paz. —Eu iria te beijar todinha, depois iria fazer uma coisa que adorei fazer...

—O quê?— Simulou inocência.

—Iria te demarcar com o leite do leão. Assim macho nenhum nunca mais te beiraria. Estaria reivindicada e fora dos limites. De longe qualquer um saberia que você tem dono. —Liguei o viva-voz do celular, rodeei leãozinho e iniciei uma massagem constante, subindo e descendo a mão. — Faz bem pra pele, sabia? Você podia passar no rosto de vez em quando. —Zombei.

—Hmmm, estou realmente precisando de um hidratante. — Sussurrou provocadora. Dei um gemido ao ler seu tom insinuante.

—Bandida... Você sabe o que eu estou fazendo?

—Não. — Murmurou com falsa ingenuidade.

—Resolvendo com a mão algo que será sua obrigação resolver toda noite.

Ela calou-se. Sempre que eu a pressionava sobre futuro ela retesava. Dei-lhe um minuto e voltei a brincar.

—Agora para entretê-lo tenho que jogar futebol de cinco contra um e duas boas. —Lamentei falsamente. Ela riu deliciada. —Hmmm, ele está em frente à pequena área, sozinho, pronto pra bater o pênalti. —Anunciei descaradamente, um arrepio atravessou minha coluna e apertei os dentes. —Hmmm, delícia. Este gol é pra você, gostosa. Ah... —Meu prazer explodiu. Eu gemi e me contorci, curtindo o torpor delicioso até o último jato.

—Uau... Estou sem fôlego aqui. —Ela disse rouca. —Você não tem vergonha de fazer isso comigo do outro lado da linha, não?— Censurou fingindo recato. Estendi a mão, peguei lenços umedecidos e, depois de me limpar, inclinei para limpar o chão. Não queria que a funcionária subisse para limpar no dia seguinte e visse que agora eu era um pervertido que sujava tudo que era lugar.

—Não. E você devia ficar lisonjeada. Foi um gol pra você.

—Eu não sabia que homens eram assim: tão promiscuo. — Lastimou-se dramática, mas tinha um ar de mofa.

—Eu não era assim, Bella. Você não tem só meus sentimentos e saudade. Você tem meu corpo também.

Ela sorriu. —Já disse que você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida?— Ela declarou com um suspiro contente.

—Sim. —Sorri convencido. —Você não foi. Você é a melhor. — Disse incisivamente.

Ela riu, ainda trocamos algumas palavras carinhosas, depois desligamos relutantemente, com aquele velho clichê de namoradinhos totalmente bobo, mas que eu adorei viver.

Uma nova rotina se estabeleceu. Todos os dias à noite eu passava mais de uma hora ao telefone com Cygne antes de dormir, cada dia mais enjaulado nessa paixão obsessiva. O que me surpreendia era que nunca um assunto profundo saía à superfície. Propositalmente, nem eu inseria, nem ela perguntava.

Com Isy, lamentavelmente a amizade não era mais pura entre nós. Sempre tinha certa tensão quando eu a tocava na mão, no ombro. O desejo de tocar seu pescoço por baixo do nicab formigava meus dedos. Eu reprimia heroicamente. Não podia arriscar a amizade.

Isy preocupava-se com o fato de James não aparecer. Fez-me prometer que o procuraria para me explicar. Porém, além do meu tempo ser escasso, adiava a discussão por não querer lidar com o assunto.

Quarta-feira minha mãe chegou de viagem, perguntou por James, mas pareceu aliviada pela falta de oportunidade de ele saber com quem ela viajava.

Quinta-feira, assisti à aula somente pela manhã. Almocei com Jake, meu agente, com o diretor executivo do Real Madrid e com o técnico. O encontro tinha o objetivo de acertos finais da negociação, valores pecuniários e prazos de transferência. Ao fim da conversa, o técnico sutilmente me chamou em particular para o segundo andar.

—Lyon, qualquer jogador sonha ir para meu time. — Enfatizou com postura relaxada, ao tempo que olhava fotos antigas da cidade na parede do restaurante. —Você é hoje uma das negociações mais caras do mundo... — Pontuou e andou pelo corredor. Eu o segui esperando-o desenvolver. —O negócio é o seguinte: sábado é a final da Champion. E seu futuro time não pode correr o risco de perder esse jogo. — Ele sugeriu enigmaticamente.

Observei-o perdido no primeiro instante. Só segundos depois a proposta assentou.

—Você está sugerindo que... Eu sabote o time?— Ponderei cético.

—Eu não disse isso. — Ele deu um risinho cínico. —Só digo que você tem que vestir a camisa do seu futuro time. —Ressaltou e, depois de lançar a bomba, ele desceu tranquilo. Eu sentei frente à janela sem ar. Foi por esse motivo que exigiram segredo nas negociações e descartaram coletivas para imprensa. Por isso a pressa nas negociações antes da final. Queriam garantir o campeonato. Como Liverpool ia para final com muitos pontos, só uma zebra ou sabotagem o faria perder... Com a compra, o Real resolveu dois problemas de uma vez: compraria um jogador de peso e ganharia o campeonato, caso eu resolvesse colaborar sabotando o jogo.

Desci as escadas correndo, acenei friamente para Jake na mesa com o diretor e segui perturbado para o treino do Liverpool. Jogamos reservas contra titulares num treino que era para ser divertido, com o objetivo de diminuir a pressão da final que enfrentaríamos em dois dias. Porém eu estava tenso demais para relaxar. Em casa, quebrei a rotina da semana e não liguei para Cygne. Só tinha uma pessoa que eu gostaria de conversar neste momento. Por isso acessei minha conta de e-mail e escrevi um texto enorme.

'Boa noite, Isy. Escrevo porque não irei te ver amanhã. Hoje estou de cabeça quente e uma opinião neutra cairia bem. Fechei o contrato com os galácticos, porém para que ele seja considerado, eu tenho que vender minha alma... Eles querem que eu entregue o jogo sábado e... Eu não sei o que fazer. Em qualquer decisão que eu tomar, estarei traindo algum time. O que fazer?'

Enviei, tirei a roupa e segui para o banho. Ao sair, olhei para a tela e piscava uma mensagem. Vesti uma boxer e sentei em frente ao PC. Isy respondeu.

'Boa noite, Edward.

Esta é uma decisão que só o Lyon pode tomar. Eu diria que a vida é feita de escolhas. Ponha em uma balança o que é importante para você. São tantas coisas para se pesar. Quem é o homem que vai jogar sábado? Quem é o homem que vai para o Real? Quem é o homem que está aí, indeciso? Existem diferenças entre eles? Pense em quantas personalidades tem o Edward Cullen. Pense em qual personalidade prevalecerá. O Edward mesquinho, que só pensa em si, que quer tudo para si, possessivo, egoísta... Ou o Edward compassivo, gentil, que já abriu mão de seus paradigmas em favor de outrem, mudou sua rotina em favor de alguém menos favorecida... Sim, porque um deles tem que vencer. Embora você não saiba, existe uma luta interna de dois Edward dentro de você.'

Respirei fundo enquanto lia. Era como se ela desfiasse minha personalidade. Como uma pessoa podia me conhecer tão bem? Nesse instante mesmo, o Edward egoísta falava mais alto. Eu queria muito ir para o Real, sonhava ser o titular nº 10.

Escrevi outra mensagem.

'Se eu pudesse pedir algo, pediria que você fosse. Você me faz ser um Edward melhor... Se tudo sair como eles planejam, provavelmente eu nem volte mais. Depois do jogo vão anunciar minha compra. E se tem algo que vou sentir falta em Liverpool será você.'

Levantei, passei desodorante, olhei por um instante o leão e o cordeiro juntos na prateleira, acariciei distraidamente o cordeiro que ganhei dela, olhei para tela do PC e uma mensagem piscava.

'Irei torcer que sua decisão seja a que faça melhor a você. Obrigada pela confiança. Sentirei sua falta amanhã. Boa viagem.'

Suspirei e sorri para a tela. Uma sensação estranha rastejou quente e inchou meu peito. Eu já sentia falta antecipada dela. E não queria pensar sobre tal sentimento doce. Não podia.

Disposto a abafar a culpa por trair Cygne sentimentalmente e me concentrar em quem eu realmente queria, escrevi uma mensagem de despedida a Isy e sucessivamente disquei o número de Cygne. Chamou cinco vezes e caiu na caixa. Atribuí isso ao fato de estar tarde. Ela devia estar dormindo. Porém, como eu iria viajar as sete da manhã, não sabia se iria falar com ela até sexta. E, como repentinamente uma furiosa saudade começou a doer, insisti e liguei novamente.

Chamou quatro vezes, ela atendeu.

Oi. — A voz saiu nasalada e baixa.

—Oi, gatinha. Acordei você?— Perguntei eufórico e desliguei o PC.

Não. — Sussurrou.

—Está gripada?— Apaguei a luz, sentei na cama e acendi o abajur, em seguida deitei costas.

Não. —Negou monossilábica e distante. Provavelmente estivesse grilada por eu não ter ligado mais cedo.

Resolvi me justificar.

—Eu não te liguei mais cedo porque estava, er...

Eu não estou te cobrando nada, Edward. — Interrompeu incisiva. —Sem cobranças, lembra? —Ressaltou prática.

Merda. A semana toda ela manteve os muros baixos, agora estava na defensiva. Ignorei o comentário e decidi minar suas defesas.

—Eu queria te roubar e te levar comigo. Eu te estragaria te mimando. Deixaria você uma gatinha manhosa, feliz e realizada com o gostosão aqui. — Bajulei apaziguador. Meu Deus, como eu estava vulnerável. Meu coração doía de medo do futuro. E eu nem tinha certeza de quem sentiria mais falta. Era lamentável desejar que as duas fizessem parte da minha vida e nenhuma pudesse. Seu silêncio permaneceu por instantes. —Eu queria te levar para Espanha para fazer uma espanhola com você. — Brinquei para quebrar totalmente o gelo.

Seu silêncio foi interrompido por um sorriso fraco.

Ai, Edward, só você para me fazer rir.

—Você sabe o que é uma espanhola? —Fingi espanto.

Não. Mas imagino que não é uma criança. — Acusou divertida.

—Não, não é. — Sorri alto. —Quer que eu te fale o que é ou quer que eu mostre pessoalmente quando você for morar comigo na Espanha? — Pressionei. Eu precisava empurrá-la a falar de nós.

Ela respirou audivelmente, cansada.

Você sabe que eu não vou... Er, acho que isso ficou bem claro entre nós. — Informou séria.

Suspirei frustrado e fechei os olhos.

—Então realmente você não vai. —Salientei magoado.

Não.

—Você vai preferir a vida que ele te dá... — Supus, mordaz.

Não é questão de preferir. Nunca me foi dado o poder de escolha.

Incorporei na cama revoltado ao ponto de esmurrar algo ou jogar o celular na parede.

—O que você é dele? Alguma propriedade? Ele te comprou?— Ataquei, indo de zero a mil de irritação num segundo e levantei, andando em seguida pelo quarto —É dinheiro? As jóias?— Insultei-a mordaz, com algo contraindo e doendo em meu estômago. Ela não retrucou. — Quanto você vale? Eu compro o seu passe!— Aumentei o tom, exigindo uma resposta. —Eu tenho muito dinheiro, Bella... Fala qual o seu preço?— Provoquei-a para atenuar a dor da rejeição. Ouvi um soluço distante, e a porra do meu peito doeu. Parei encostado à parede, frustrado. Tentei controlar a respiração e abaixei o tom. —Eu faço o que for... Só, por favor... — Sentei no chão e esfreguei a nuca, nervoso. —Pare de brincar comigo, Bella. Dê um porquê lógico desse não... Eu já estou cansado de viver no escuro. — Apertei os olhos, me sentindo um merda, com uma umidade indesejada molhando meus olhos. Lutei contra isso e ficamos calados por segundos, somente a nossa respiração sendo ouvida.

Até mais, Edward. — Murmurou baixinho.

—Bella, se você desligar a porra desse telefone eu juro que sigo o Hale, que está lá em baixo com Alice, e vou até sua casa fazer um escândalo na porta até aparecer a imprensa. É isso que você quer? Eu não me importo de gritar para o mundo que você é minha, porra! Vamos ver se o corno do pai do Hale vai te querer depois disso. — Ameacei sério.

Você não faria isso. — Alarmou-se.

—Você que pensa! — Desafiei.

Ela ficou um tempo calada.

O que você quer?— Questionou vencida.

—Que você se explique, que se abra, que seja sincera comigo.

Ela respirou fundo, trêmula.

Você acha que eu não queria poder ser sincera...? Sim, eu queria... Mas para que eu falaria? —Questionou desolada.

—Para me tirar do escuro. Para eu saber se o problema está mim. —Expliquei vulnerável.

—O problema não está em você, leãozinho... Você é perfeito para mim. Até suas atitudes de homem das cavernas me deixam fascinada, desejando poder viver isso... — Ela suspirou e ficou um tempo calada. —Mas não dá mais certo. Já deu. Nós nos divertimos. Foi bom enquanto durou. Único enquanto durou. Só estávamos adiando o inevitável. E este é o momento. A oportunidade enquanto há tempo. Você agora vai seguir sua vida, eu também vou enfrentar meu destino. —Enumerou imparcial.

—Então é isso. Se eu for embora, nós dois já éramos. — Evidenciei desgostoso. Ouvi somente silêncio do outro lado. —Responde, Bella. — Exigi.

—É isso. — Afirmou.

—E se eu ficar, você fica comigo?— Tentei uma última chance. Deus, era desesperador insistir assim, falta de amor próprio. Mas eu não podia evitar.

—Não. — Negou, e pensei ter ouvido um soluço sufocado.

—Não mesmo?— Murmurei desacreditado. Não podia ser verdade. Nunca fui dispensado!

—Não. —Repetiu convicta.

—Ok— Respirei fundo, ignorando a dor. —Então me deseje boa sorte. — Segurei-me a uma despedida leve.

—Boa sorte, leãozinho. —Desejou cálida, o que me confundiu. — Liverpool vai ficar tediosa sem você. — Declarou docemente.

Puta que pariu, ninguém me alertou que paixão doía assim! Se eu soubesse dessa porra sufocante tinha me protegido.

—Até mais, Bella. A gente se vê.

Desliguei antes que lhe implorasse mais uma vez. Apaguei a luz, deitei de bruços e, pela primeira vez na vida, senti a dor de uma lágrima. Tudo doeu. A mudança, a dúvida, a pressão, rejeição... Principalmente a dor de descobrir que não podia ter tudo que queria...

Quando o dia amanheceu, o Edward antigo acordou e emergiu, visando somente a si e o próprio futuro.

A viagem de avião para Espanha durou duas horas. Por volta de dez da manhã deixamos o hotel em Madrid e fomos treinar no campo do estádio para nos habituar com a grama e clima. Protegido por um muro emocional, em todo o tempo eu observava apático meu time... O time que eu iria trair.

Sábado, o estádio superlotou-se com cores e bandeiras. De um lado a torcida vermelha do Liverpool agitava. Do outro a torcida do Real. No primeiro tempo de jogo eu me senti flutuando na irrealidade. Não sabia quem eu era. Não fiz nada por meu time. Errei lances de propósito.

No intervalo o time esperou que, como capitão do time, eu falasse algo motivador, uma vez que chegamos com vantagem e perdíamos de dois a zero. Eu me calei.

—O que há, irmão, que você está essa mosca morta?— Rilley questionou-me em particular no silencioso vestiário cheio de jogadores cabisbaixos.

—Bella terminou comigo. — Confessei. Era uma desculpa razoável para minha apatia.

—Bola para frente. — Ele bateu em meus ombros. —Mas tudo bem. Eu entendo. Vou tentar buscar esse gol pra nós. Viemos aqui foi pra levar esse título!— Ele me abraçou empolgado e voltamos para o campo.

Ao pisar em campo, meus olhos foram atraídos para cabelos vermelhos na arquibancada. Entrecerrei os olhos e fiz sombra com a mão para proteger do sol.

—Rilley, vê se eu vendo coisas. —Chamei-o. Ela abraçava o próprio corpo, usava óculos de sol, mas não usava capuz. — Aquela pessoa na sexta fileira da área vip é Bella?— Perguntei esperançoso. Ele ergueu os olhos curioso.

—É. — Assentiu sorrindo.

Controlando a súbita euforia, sorri disfarçadamente e voltei a andar para o centro do campo, evitando acenar para ela. Olhei-a novamente de viés, e seu sorriso tímido encheu meu coração.

—Sorriso idiota no rosto vai jogar melhor no segundo tempo agora?— Gracejou Rilley e bateu em minha nuca. Eu sorri sem graça.

—Eu não tenho sorriso idiota. — Fingi contrariedade.

—Não. Não é só um sorriso idiota qualquer. É sorriso idiota apaixonado.

Após o momento de descontração, o juiz iniciou o jogo. A seguir, deparei-me com uma luta interna. Embora tivesse que me manter neutro, não conseguia mais assistir parado meu time perder depois de uma temporada tão vitoriosa. Obedeci meu lado sensato, armei jogadas com Hale e Rilley e fizemos um gol. O jogo esquentou, com ambos os times agitados. E como tínhamos trazido uma vantagem do último jogo, 2x1 nos favorecia. Contudo, nos últimos dez minutos, o Real fez mais um gol, completando 3 x 1. Os pontos na tabela geral ficaram empatados. A partida iria para prorrogação e pênaltis.

A prorrogação gerou estresse e pressão na equipe. Partimos para aos pênaltis numa disputa acirrada, ponto a ponto. Um coro se fez pela torcida do Liverpool no momento em que o goleiro do nosso time agarrou a bola do pênalti cobrada pelo time adversário, lance aquele que nos colocava à frente da final da liga dos campeões da Europa... O próximo e, quem sabe, o último a bater o pênalti seria eu...

A pressão cresceu em meu peito. Se acertasse, o que era 90% de chance, meu time seria o campeão. Se errasse, o Real Madri ainda teria chance de ganhar aquela disputa.

—Vai lá, Capitão!

Os dez integrantes do meu time abraçaram-se ombro a ombro, incentivando-me enquanto eu caminhava rumo ao centro da meia lua, em frente à baliza. Minha pulsação corria, o suor descia lento e frio, e meu estômago se revirava como briga de gato.

Ansioso, virei o rosto e olhei para a arquibancada, encontrando os olhos intensos de Cygne. Sua postura era serena, mas ela roia as unhas em sinal de tensão. Seus olhos azuis fitavam-me como se soubesse qual era o meu dilema, ela parecia ler minha alma, parecia pressentir tudo que acontecia em meu solitário mundo... Mas ela não podia saber. Eu só tinha falado sobre isso com Isy. Suspirei e dei-lhe o meu melhor sorriso, tentando mostrar-lhe o quanto estava grato por ela ter vindo. E depois teria que perguntá-la como ela conseguiu vir. Aliás, não adiantava perguntar. Ela nunca dava uma resposta clara!

Concentrado, fixei meus olhos à frente e deparei-me com o olhar cínico do goleiro do time adversário, que deu um risinho sarcástico de quem contava que eu estivesse comprado e não iria fazer o mínimo esforço para agarrar minha bola.

E eu não queria errar. Queria ser um Edward melhor. O Edward de Isy.

Deus, desejava ardentemente que Isy estivesse ali... Era difícil pensar sobre isso: por que eu queria ter as duas próximas, quando não tinha nenhuma da maneira que eu queria? Mas, e se eu pudesse ficar com alguma delas, quem eu escolheria?

A culpa pela dúvida atingiu-me. O que faltava em uma que era completado pela outra?

Lógico que as duas são intrigantes e misteriosas, porém com diferenças exorbitantes. Uma me deixa louco, possessivo, atiçado; com a outra há cumplicidade e ternura. Ela me transmite paz. É minha confidente e amiga...

Só amiga?

Essa é uma pergunta sem respostas que cada dia mais me deixa confuso. O que posso fazer se as duas inflam meu peito e acendem meu corpo do mesmo jeito, de forma que nenhuma mulher já fez?

Tentando me concentrar no jogo, balancei a cabeça e mirei novamente a trave. Eu sabia o que tinha de fazer, mas assim como minha vida, eu estava em uma encruzilhada.

—Vai lá, Lyon! Depende de você. — O técnico gritou, e todo o time ficou em pé, esperando meu chute certeiro.

E agora? Eu iria trair meu time, meus colegas, minha ideologia em função da proposta bilionária? Iria errar aquele gol, propositalmente? Ou faria aquilo que sabia fazer: mirar o gol e acertar aquele Pênalti?

Se acertasse, iria perder a chance de ir para o time mais bem cotado do mundo, Real Madrid, porém honraria minha camisa e o meu time, além dos meus colegas de time que tanto sonhavam com aquele título.

Novamente, o coro se fez alto na multidão. Levantei mais uma vez o olhar para a arquibancada e algo chamou a atenção dos meus olhos. Meu coração se acelerou mais ainda. Com a burca preta, Isy apertava-se entre alguns torcedores, ao lado do sheik e Emmett. E recebia olhares de desprezo. Eu queria poder protegê-la. Para ela era um sacrifício estar aqui. E obviamente o fez por mim.

De uma distância significante, pude ver que ela olhava em minha direção, porém, naquela maldita roupa completamente fechada, eu não conseguia ver seus olhos, castanhos claros.

Ansioso, segurei o olhar e vislumbrei a encruzilhada da minha vida. Eu tinha que decidir. Eu a queria para mim, ainda que ela fosse noiva. E queria Cygne. Deus! Ela acenou um tímido mover com as mãos enluvadas, e eu sorri, receptivo.

Em seguida, respirei fundo, olhei novamente para frente e, decidido, fixei-me no lance a seguir.

Minha vida era um completo jogo. Estava entre a razão e a emoção... O errado e o proibido...Entre a lealdade e a traição. Duplas decisões. Duplos destinos. Uma decisão. Um futuro.

O barulho aumentou... A multidão gritava e se levantava em ola. Decidido, foquei a área do gol, encarei o goleiro, mirei, respirei fundo, corri e chutei... Enfim eu decidiria parte de minha vida.

Olá, leitores.

Obrigada por ler.

Quem tiver com pressa, passa no meu grupo no facebook que a gente disponibiliza a estória.

Bjks