Capítulo Enigmas Parte III

No caminho para o hospital, cheguei a conclusão de que não havia possibilidade de Isy conhecer Cygne. Se assim fosse, elas estariam próximas no jogo em Madrid. Cygne estava só. Bom, certa vez ouvi o sheik dizer que tinha um filho fazendo testes no Liverpool. Pode ser que este filho seja conhecido de Hale, por isso Hale passou na residência do sheik. Só há essa explicação para tantas coincidências, convenci-me.

Ao entrar no quarto de James no hospital, encontrei o sheik abraçado à minha mãe mais duas pessoas que eu não esperava. Rose e Emmett.

—Oi, Edward.— O sheik deu um passo até mim e me cumprimentou.

—Como vai?— Apertei sua mão desconfortável. Além de ele ser o noivo de Isy, estava envolvido com minha mãe. Isso me deixava pé atrás.

—Tudo bem. Parabéns pela ida para o Real.— Felicitou com um tapinha amigável em meu ombro.

—Obrigado. — Agradeci reservado e me aproximei de Rose. —Que bom que veio, Rose.— Eu a abracei, ela sorriu triste.

—Ele é minha família.

—Como ele está, mãe?— Perguntei ao sentar no sofá e ler parte do relatório da enfermagem.

—Na mesma. Sem previsão.

—Você devia ter me ligado, Esme. —O sheik ralhou. — Eu teria voltado imediatamente de viagem. — Ele pegou suas duas mãos, fechou-as e as levou até a boca. Observei-os. Então o sheik estava viajando? Isy esteve livre a semana toda?

—Eu não queria te preocupar.— Ela justificou carinhosa.

—Não justifica. Amigo é para essas coisas. —Voltou a dizer, olhando-a como se no mundo só existisse ela. —Você vai à minha casa hoje à noite?— Ele questionou, beijando a ponta dos dedos dela.

—Sim.— Assentiu corada. Argh! Eu precisava ver isso?

—Então eu vou te esperar. — Sorriu. —Preciso ir, querida. Desde o início da semana não apareço em casa.

Ele se despediu de todos e saiu acompanhado por Rosalie e Emmett. Aproximei-me de minha mãe.

—Mãe, o que está acontecendo entre vocês e o seu amigo?— Inquiri. Ela desviou o olhar. —Ele é noivo. Não pega bem essa amizade colorida de vocês.

Ela virou-se de costas e moveu as mãos nervosamente.

—Edward, esse não é um assunto seu. Antes de você nascer nós já éramos amigos. —Defendeu-se.

—Não sei se a senhora sabe, mas a noiva dele é minha amiga. Eu não gosto de vê-la enganada.

—Tem muitas coisas sobre você que eu não sei, filho. Você está muito fechado. E não é só depois do acidente com seu irmão. Você não conversa, não brinca, não se abre. Quero saber o que está acontecendo com você.— Cobrou, incisivamente.

—Você está desviando o assunto. — Resmunguei na defensiva.

—Não. Não estou. Você é tão evasivo que eu só descobri que a amiga da Alice que estava lá em casa era sua... Como vocês chamam...?

—Minha garota. — Interrompi distraído, registrando que não tratei Bella com consideração. Nem mesmo a apresentei à minha mãe. Alimentei-a no quarto como meu bichinho de estimação. Mantive-a reservada, única e exclusiva para meu egoísta prazer.

—Eu só descobri porque Alice me avisou que você tinha companhia. —Continuou. — É justo que eu tenha sido a última a saber? Eu nunca conheci uma garota sua!

—Eu nunca tive uma garota antes. —Defendi. —E desculpe, mãe. É que ainda estamos nos acertando. — Inventei uma desculpa. Não podia explicar nosso relacionamento incerto.

—Sei.— Ela assentiu. —Eu também gosto de espaço, filho.

—Eu entendi. —Suspirei rendido. — Cada um na sua.— Ressaltei. Éramos adultos. Eu não devia bancar o filho ciumento agora.

À noite, vesti uma Calvin justa de brim preta, camisa, sapato e jaqueta Armani e esperei minha mãe no sofá do foyer. Não tive pique para comemorar com Rilley e meus colegas. Jantar na casa do sheik com minha família foi a melhor forma de comemorar meu aniversário. Principalmente por saber que teria a companhia de Isy.

—Cadê Alice, mãe?— Perguntei quando ela desceu num vestido de alças pretos que ressaltava seu cabelo mogno, corpo encima e busto avantajado. Mães deviam vestir-se mais comportada, não?

—Saiu com o namorado. —Contou. —Já Rosalie veio aqui, pegou uma roupa e saiu de novo. Ela se sente culpada por causa de James.

—Hmmm... — Assenti. Todos imaginavam que James lutava entre a vida e a morte por causa de Rosalie. Não sabiam da minha parcela de culpa ao ter me envolvido com alguém abominável para ele. Isy.

—Então vamos? —Estendi o braço para ela e encaminhamos para garagem.

Nos últimos tempos eu tinha relaxado um pouco com os serviços dos seguranças. Como eu iria mudar de cidade, dispensei-os. O percurso até a casa do sheik seguiu-se ao som de Adele. Esme parecia nervosa. Após passar pela guarita e me identificar aos seguranças de língua árabe, estacionei o Bugatti ao lado do Land Rover do Emmett. Ergui o olhar para a imponente mansão de dois pavimentos branca, padrão luxuoso, estilo moderno. Revelava um dono poderoso e ostentador nos mais de 2000m de área construída. Meu pai diria novo rico. Lógico, herdeiro de jazidas de petróleo!

Meu único motivo de vir a este compromisso era ver Isy antes de viajar. E como minha mãe veio, o sheik lhe dispensaria atenção. Por óbvio, sobraria tempo para usufruir da companhia de Isy.

Fui conduzido à sala por um mordomo moreno, de bigode, também árabe. Olhei em volta perplexo com a ousadia da arquitetura nas colunas espelhadas, na obra artística do teto repleto de luzes LEDs em formatos de paisagens, nos móveis modernos, tudo muito branco.

—Oi, tia!— Rosalie cumprimentou-a vestida numa estranha saia longa rosa cheia de pedras, blusa da mesma cor e parte da barriga fora, além de um lenço sobre o ombro. Hilário.

Eu ri.

—O que é isso? Passou alguns dias aqui e já se converteu ao islamismo?— Zombei quando a abracei.

—Para de ser bobo, Edward!— Ralhou com um tapinha em meu braço. —Emmett não é muçulmano, para que eu me converteria?

—E pra que essa roupa?— Apontei para ela. —Por um acaso a aniversariante vai sair de dentro de um bolo e dançar a dança do ventre?

—Quase isso.— Ela sorriu conspiradora, pegou meu braço e o de Esme e nos levou a outra sala. O sheik desceu as escadas acompanhado de duas mulheres vestidas em nicabs pretos.

—Boa noite.— O sheik nos cumprimentou e parou em frente à minha mãe. —Desculpe não tê-los recebido. —Beijou a mão dela, pôs o braço dela sobre o seu e seguiram para mesa. Uma das muçulmanas, a de olhos castanhos, olhou-me rapidamente e moveu a cabeça num aceno. Isy. Ela seguiu atrás do sheik.

O jantar foi servido, comida árabe. Isy sentou ao meu lado, entre eu e outra muçulmana. Isy estava esquiva. Sua mão parecia tremer.

—O que há com você?— Inclinei-me e sussurrei enquanto comia kibi.

Ela não respondeu. Não tinha caneta, então não podíamos conversar. Fiquei frustrado, culpando-a por não ter priorizado nosso meio de comunicação; mais ainda por ela até hoje não conversar oralmente comigo. Eu esperava sua iniciativa. Religião não podia ser mais uma desculpa para não falarmos. Era imprescindível que eu conversasse com ela hoje. Eu precisava falar sobre Cygne. Iria revelar que Cygne passou a semana comigo, falar da minha vulnerabilidade e paixão platônica. Eu tinha que ser sincero.

Quando a sobremesa foi servida Isy colocou disfarçadamente uma caixinha em minhas mãos por baixo da mesa e um bilhete obviamente escrito antes dela descer.

Há bilhetes nesta caixinha que precisam ser lidos antes de conversarmos seriamente sobre nós. Só abra ao sinal.

Terminei de ler e apertei a caixinha na mão, curioso.

Comi damascos vagarosamente. Isy mantinha a cabeça baixa. Olhei de relance a outra muçulmana que até agora eu não tinha dado um segundo olhar e tive um vislumbre de intensos olhos azuis. Ela baixou a cabeça. Nenhum de nós envolveu-se em conversa nos instantes seguintes. Isy parecia engessada, inexpressiva, seus gestos não passavam nenhuma emoção. Nem os ombros ela movia. Parecia sem vida. Eu queria minha Isy de volta.

—Bom, eu tenho uma surpresinha para vocês. — Rosalie avisou animada e levantou após o café. —Venham, meninas.— Ela pegou na mão de Isy e da outra muçulmana de olhos azuis e lhes puxou eufórica. —Esperem a gente próximo ao bar.— Ela instruiu, deu uma piscada a Emmett e saiu com as duas mulheres.

Emmett sorriu.

—Vamos ver o que ela vai aprontar.— Ele comentou e nos levantamos da mesa.

—Você vai, Carlisle?— Ele questionou ao sheik na ponta da mesa. Só então o sheik pareceu perceber que existia um mundo a sua volta, tamanha era sua concentração em minha mãe. Rolei os olhos crítico.

—Não. Vou aproveitar e mostrar a casa a Esme.— Ele explicou e estendeu a mão para minha mãe. Rá, mostrar a casa!

Segui Emmett até outro ambiente, ele parou atrás do balcão do bar e preparou vodka com energético.

—O que Rosalie vai fazer?— Perguntei ao sentar em frente ao balcão.

—Não sei. Sei que elas passaram horas trancadas, cheias de segredinhos. — Ofereceu o copo. —Muitos anos de vida a vocês, Cullen.— Ele desejou e propôs um brinde com seu copo no ar.

Assenti, bebi umas doses e conversamos sobre futebol, contratações de alguns times internacionais, jogadores de futuro, melhores seleções. Cerca de trinta minutos depois e três copos de vodka, as luzes foram apagadas e uma música se iniciou.

—Ops! Quem apagou as luzes?— Eu sorri alegre. O álcool subiu rápido devido a minha falta de costume com bebida forte. Emmett apontou sorrindo para um ambiente com piso elevado iluminado com projetor elipsoidal, laser e uma série de luzes computadorizadas.

Três mulheres subiram com lenços cobrindo rostos, posicionaram-se de costas para nós e iniciaram uma dança ao som de Shakira. Uma delas era Isy, fato inquestionável. Outra era Rosalie. Uma era loura, uma ruiva e outra morena. As cabeças cobertas por lenço em forma de nicab deixavam expostos três longos cabelos. Usavam saias e mini-blusas justas. Segurei na borda da banqueta e apertei os cantos, tenso ao perceber que uma das costas e braços nus era de Isy.

Elas moveram o corpo sensualmente, dança do ventre. Examinei-as detidamente para decifrar qual delas podia ser Isy. Meus olhos se dividiam entre a morena e a ruiva. Involuntariamente enrijeci tenso de antecipação com o mistério e sensualidade dos movimentos.

—Cullen, o momento é agora.— Emmett avisou. Eu arqueei a sobrancelha, incerto. Ele concluiu. —Ela me pediu para te avisar a hora.— Esclareceu e voltou os olhos a pista, sorrindo aprovador em direção a minha loiríssima prima.

Observei a caixinha semelhante à caixa de lenço e puxei o primeiro papel.

Duas escolhas. Verdade ou mentira. Quem escolher? A ilusão ou a realidade?

A mentira não te exige nada de volta. Ela vive o momento. Ama a imagem que você passa, não quem você é.

Um dia ela irá sumir e será somente uma ilusão do passado.

Franzi o cenho confuso com o enigma. Do que ela falava? De Cygne? Possivelmente. Cygne era a ilusão que sumia e aparecia de minha vida. Será que Isy me pressionava a ver a mentira que era Cygne?

Direcionei o olhar ao palco. Elas mudaram a posição e dançavam de frente a nós. Arregalei os olhos e as apreciei. Tomei mais um copo de vodka, ansioso. Os jogos de luzes me impediam ver claramente. Não podia ver os rostos cobertos, só os belos corpos magros.

Baixei o olhar e peguei outro bilhete.

A verdade é difícil, dura de entender. A realidade tem riscos e incerteza. Porém, a verdade é baseada em amor real, em amizade contínua. Não baseada na ilusão, na atração física. É o que existe. Mas a verdade exige escolha... Enfrentar ou esquivar-se?

Confuso com suas palavras, observei-as girar sobre o eixo rebolando. Isy era uma incógnita. Não podia distingui-la, embora o corpo e mover de quadris da mulher de longos cabelos castanhos me hipnotizassem.

Tirei o último bilhete.

Se você pensa que não tem escolhas, você é o único que tem. Você está disposto a compromisso? Compromisso que leva à verdade? Compromisso que exige mais que montar um apartamento ou assumir uma namorada? É confiança incondicional, entrega. É estar disposto a enfrentar julgamentos e abdicar de prioridades.

Se está disposto a conhecer a verdade, encontre-me na cobertura... Se a ilusão for seu alvo, continue aí. Eu saberei a sua resposta.

Soltei o ar ao terminar de ler o último bilhete. Isy me colocava contra a parede cobrando uma decisão. Droga, não havia o que escolher. Cygne foi única. Única garota que durou mais de quatro meses, minha obsessão, vicio. Todavia, a confiança entre nós é inexistente. Há sempre o temor de ficar só, se ela irá sumir. Ficou claro que ela não está disposta a futuro. Ela não tem vínculos ou profundidade. Um sentimento sem amanhã, ameaçado extinguir.

Por outro lado, Isy... Olhei para as garotas que dançavam... Isy é companheira, amiga, é transparente, objetiva, compassiva. Cygne seria minha escolha por causa do nosso envolvimento, mas Isy quem está aqui e me dá a opção de escolher.

Eu preciso saber o que Isy me oferece.

A música terminou, Emmett bateu palmas e me despertou do mar de dúvidas. Isy seria a ruiva ou a morena? Se fosse a ruiva seria coincidência. Cygne também é ruiva. Entretanto, a mulher de cabelos castanhos era quem meus olhos fixavam e exigiam. Algo nela me chamava atenção. Seu corpo era quase... Familiar? Será que bebi demais?

As luzes foram acesas. Registrei que a mulher de cabelos castanhos não podia ser Isy. Os dez metros de distância e lenço no rosto não ocultavam seus olhos azuis. Bem, leãozinho deixou de ser seletivo. Ele agora se acendia para Cygne, para Isy, e obviamente para qualquer pessoa. Insistia em apontar o dedinho para morena de olhos azuis... Argh, leãozinho é cego!

Esperei que duas saíssem por uma porta e me virei para Emmett.

—Como faço para chegar à cobertura?— Perguntei em dúvida. Emmett deu um sorriso de quem sabia tudo.

—Siga até o fim desse corredor. Lá tem uma escada.— Instruiu.

Traguei ar para clarear o cérebro ligeiramente tonto e segui até o fim do corredor. Subi dois lances de escadas, deparei com uma porta branca que mais parecia entrada de serviço e abri. Luzes apagadas me impediram ver com claridade. Caminhei cautelosamente para não tropeçar, o coração galopando de ansiedade. Bati o joelho num sofá e parei, nervoso.

Um vulto deslizou no escuro e seguiu minha direção. Esperei. Ela parou em minha frente. Ergui a mão para tocá-la. Ela usava o lenço no rosto. Minha pulsação acelerou ao notar cabelos lisos. Esta não era a ruiva. A ruiva tinha cabelos cheios e repicados. Esta era a morena de olhos azuis.

—Isy?— Questionei incerto. Ela assentiu movendo a cabeça e deu outro passo a frente, o seio encostado ao meu peito. Inalei profundamente ao sentir seu perfume. —Não era você sentada ao meu lado na mesa. — Acusei atordoado. A mulher que me entregou a caixinha tinha olhos castanhos. Mas a mulher que dançou de olhos castanhos tinha cabelo ruivo e cheio. Nossa, que confusão!

Ela moveu a cabeça em negativa. Não. Não era ela.

—Se você é a Isy, por que está usando lente?

Ela estendeu a mão e acariciou a minha nuca, com luvas até o antebraço. Seu silêncio era outra forma de gerar mistério e expectativa. Desconfiado, inclinei o rosto e pousei o nariz em seu pescoço para conferir seu cheiro. O perfume era de Isy. Ela deitou o pescoço num mudo oferecimento, eu abri a boca ousadamente e experimentei o gosto. Minha mente bêbada não tinha nada em ordem, só queria explorar. Ela arfou.

A antecipação em levantar o lenço e ver seu rosto deixou-me ofegante. Eu retardei o tempo beijando vagarosamente do pescoço ao ombro. Deslizei a mão em sua cintura, acariciei a barriga com o polegar. Ela estremeceu.

—Que dança sensual aquela! —Comentei aprovador. —Eu me senti um sultão. — Murmurei com a voz rouca. Ela pôs a mão em meu peito para que eu andasse para trás. Minha perna encostou-se ao sofá redondo e franzi o cenho confuso ao ser conduzido a sentar, e ela sentar-se em meu colo de frente. O que ela queria afinal? Isy costumava ser mais comportada.

Ela beijou meu pescoço. Beijos grandes, mordidas. Arregalei os olhos surpreso. Leãozinho levantou-se em tributo à sua atitude. Afastei seu lenço atrapalhador e ataquei-a de volta com mordidas e sugadas no pescoço. Sem que eu previsse, ela entrou com a mão por baixo da camisa e acariciou meu abdômen. Suas mãos tremiam. Ela parecia nervosa e temerosa.

Droga, não era para aquilo estar acontecendo. Estava rápido demais, perigoso demais. Alguém poderia vir. Eu queria ser romântico, não apressado. Não queria agir como fiz com Cygne no primeiro beijo.

Ela abriu o zíper da minha calça como se fosse familiarizada e acariciou a cabeça de leãozinho. Estremeci indefeso. Deus, se a iniciativa foi dela, eu não podia negar. Eu queria experimentar o errado. Forcei o lenço a levantar ao lado, beijei da mandíbula a orelha e desci a mão para sua saia rodada, onde desabotoei dois botões. Reproduziu-se atrás de meus olhos a imagem de minha garota em minha cama nos últimos dias. Parei culpado. Isso aqui estava errado. Não podia ir adiante quando tive outra mulher em minha cama esta manhã. Pior ainda sendo a mulher que estava grafada em minha mente, corpo e coração.

Minha relação com Isy devia ser baseada em confiança, não em sexo sem sentido.

Diminuí o viço e suspirei, mas Isy acelerou o processo e desfez dos restos dos botões da saia, que caiu. Arregalei os olhos. Ela desabotoou sua blusa atrás. Segurei-a pela frente antes que caísse.

—A gente não tem que começar as coisas assim...— Ponderei a despeito da mente ébria. Palavras não condiziam com minha excitação, todavia um Edward cristão queria sobressair. Subi a boca em sua garganta e mordi queixo por baixo do lenço. —Podemos fazer tudo devagar. — Sugeri. Ela puxou a blusa que eu segurava e seus seios apontaram. Segurou suavemente minha mão e pôs em concha sobre eles. Foi o estopim para que eu perdesse o controle. Inclinei a cabeça e abri a boca famintamente no seu seio, girando a língua no bico preso nos dentes.

O álcool devia cobrar seu efeito. Eu sentia a forma dos seios de Cygne, o peso do corpo de Cygne em minhas mãos. Meu cérebro traidor insistia em projetar seu gosto, seu suspiro. Inferno, eu estou malditamente bêbado. A lembrança de Cygne desencadeou atos impensados. Como se fosse familiarizado com o corpo de Isy, desci a mãos para sua coxa e entrei em sua calcinha. Úmida. Como Cygne sempre era.

—Diz para eu parar.— Sussurrei desolado e acariciei-a nas malhas protetoras da intimidade. Ao contrário do que eu pedi, ela abriu botão por botão da minha camisa, beijou meu peito e insinuou o quadril pra frente sobre minha ereção semi liberta.

Querido Deus, eu não podia voltar atrás. Ergui o quadril do sofá e baixei a calça e cueca libertando meu impaciente membro. Ela subiu com a língua cheia de luxuria à orelha. Essa não parecia ser Isy... Pelo menos não tinha a atitude que eu esperava da Isy. Isy foi sempre tão comedida!

Eu não podia parar. Não podia. Ela me intimava a ir em frente com seus gestos decididos. E afinal, eu sou homem. Ativo. Caçador. Será que devia usar preservativo? Ela esfregou-se impaciente. Eu queria entrar sem. Sentia falta dessa liberdade. Cygne regulou a semana toda!

Afastei sua calcinha e me posicionei na entrada. Ela segurou o ar em expectativa. Eu subi a mão para seu pescoço, desfiz de um fecho do lenço e cobri sua boca com a minha, ao tempo que a forcei gentilmente a sentar. Gememos juntos com a completa penetração, seus músculos internos se fechando contra minha rigidez invasora. Tudo virou cores e borrões em meu cérebro. Minha mente só processava um nome... Bella. E eu a apertei forte, registrando que ela não era virgem como eu imaginava que fosse. Isso me frustrou, acho.

Eu devia estar fodidamente alcoolizado, muito apaixonado por Bella ou muito louco, pois até seus pequenos gemidos pareciam de Bella. Leãozinho também estava muito confuso. Ele a devorava com desespero, pensando ser Bella, um sexo rápido e sem reservas. E me senti culpado por esse erro. Abri os olhos para abrandar a euforia e pisquei expulsando a imagem de Bella nas sombras da noite sem lua. Ela chupou minha língua e moveu-se para cima e para baixo com o joelho no sofá.

—Eu te amo, leãozinho.— Sussurrou em minha boca.

Perdi o ar como se tivesse levado um soco no estômago e parei nossos movimentos.

—Bella! —Sai de dentro dela com horror e descrença como se visse um fantasma. —O que você está fazendo aqui?— Entrecerrei os olhos e balancei a cabeça, expulsando a capa de alucinação. O que colocaram na minha bebida?

—Expondo a verdade.— Ela respondeu simplesmente.

Afastei-a do meu colo para sentar ao meu lado e cobri-a com suas roupas. Guardei meu duro membro, frustrado e incomodado. Leãozinho ficou tonto como se tivesse levado uma batida na cabeça, vendo estrelinhas, sem entender nada.

—Como você entrou aqui? —Questionei atordoado. — Por que fingiu que era a Isy? Que brincadeira é essa?— Disparei, ainda com a euforia sexual me atormentando.

Ela respirou fundo, vestiu a blusa e olhou para o chão. —Eu preciso mesmo falar?

—O quê, exatamente?— Abotoei sua blusa atrás, prestativo. Ela respirou nervosamente.

Minha mente trabalhava letárgica, sem entender o que significava isso. Ela vestiu vagarosamente a saia, parecendo querer ganhar tempo. Entrecerrei os olhos impaciente, segurei seu queixo e a obriguei a olhar para mim. Ela desviou o olhar. Ainda que eu quisesse culpar o álcool, a pessoa que eu via era Bella maquiada como Isy, com o perfume de Isy, com as roupas de Isy, na casa de Isy...

—O que está acontecendo?— Pressionei e levantei do sofá, tentando montar o quebra cabeça mental. —O que você quer, Bella? Cadê a Isy?

Ela manteve seu olhar desviado do meu enquanto eu olhava sua saia com vários botões ainda abertos. Ergui a mão e toquei a cicatrização do seu corte na perna, fato que evocou a lembrança do dia que Cygne caiu e ao dia que James cortou Isy na cobertura.

—Bella, diz que a Isy não tem nada a ver com isso. —Pedi nervoso. — Diz que você a manipulou na brincadeira. — Acusei e andei de um lado ao outro, ansioso. Isy não me magoaria desse jeito. Obviamente Isy foi manipulada.

Cygne levantou o queixo e encarou-me séria.

—Você não enxerga um palmo à frente, Edward! Está tão distraído consigo mesmo que a verdade está clara e você não quer ver. EU SOU A ISY!— Aumentou o tom apontando para si.

—Não. Não é!— Rebati relutante. Virei de costas para ela. Não queria vê-la.

—Sou eu, Edward.— Ela se aproximou e levou a mão à minha nuca.

Segurei seu pulso irado e neguei outra vez, o ar pesado fazendo meu tórax subir e descer.

—Não pode ser verdade... O que aconteceu com o seu cabelo?— Segurei mechas na mão, resistente. Um sentimento opressivo de terror comprimiu meu estômago, eu sentia náuseas.

—Pintei e fiz escova hoje à tarde.— Explicou constrangida. —Eu precisava me mostrar como sou.

Afastei-me dela consternado. O enjôo aumentou.

—Por que está fazendo isso comigo?— Acusei ainda sem aceitar que a pessoa que eu creditei minha fé mentia.

—Eu não planejei ser quem sou... Não tive escolhas.— Justificou e virou de costas, com os ombros caídos.

—COMO NÃO TEVE ESCOLHAS!?— Alterei o tom com o maxilar travado de ira pelo choque de realidade. —Diz que é mentira. Diz que estão brincando, por favor.— Caminhei até o sofá e sentei, a cabeça entre as mãos.

Resistia em acreditar. O mundo que construí não existia? Eu não tinha uma amiga, não tinha alguém em quem confiar, não tinha uma pessoa neutra, compassiva e transparente?

Maldita Cygne. Maldita Isy.

Ela aproximou-se do sofá e sentou-se no chão em minha frente, posição indiana.

—Não existe a muçulmana Isy Zaynah.— Ela sussurrou, e lágrimas desceram de seus olhos. —Deixe-me te falar a verdade. —Implorou.

—Não pode ser. —Neguei. —Você não pode ser ela... Vocês estavam, as duas, em meu jogo na Espanha.— Ressaltei relutante. Aceitar que Isy não existia e que fui manipulado em uma brincadeira era muito dolorido. Por que eu?

—Era a Rosalie. —Ela explicou entre lágrimas. — Eu precisava distrair o sheik.

Incrédulo, levantei o seu rosto e o segurei entre minhas mãos.

—Prove que é a Isy. Tire as lentes. Mostre que seus olhos são marrons. — Exigi obstinado. Tinha que me apegar a algo.

—Não tem como eu tirar as lentes. Estes são meus olhos. —Explicou humilde.

—Então quem era aquela mulher de olhos castanhos que estava ao meu lado na mesa do jantar?

—Victória. Ela é minha criada muçulmana. Foi ela que me ensinou os costumes e comportamentos de mulheres muçulmanas.

Suspirei e passei a mão no cabelo, aceitando aos poucos a realidade. Meu peito doeu, a dor transformou frustração e impotência em umidade nos olhos. Medo percorreu minha espinha dorsal ao aceitar essa revelação escura que parecia tão ameaçadoramente verdadeira.

—Agora eu sei que não posso confiar em ninguém? A única pessoa com quem fui aberto me enganou duplamente, sorriu às minhas custas?— Murmurei derrotado, assombrado com a verdade. Como não enxerguei? —Por que eu?

—Eu não escolhi isso.— Sussurrou entre soluços.

—Como não escolheu? — Acusei amargo. —Obviamente você queria brincar, enganar, contar para as amigas como o Lyon podia ser trouxa.

—Droga, Edward, me ouça. Eu não planejei isso. — Disse decidida. —Foi você que me perseguiu! Foi você que me cercou na universidade e nas festas!— Enfatizou na defensiva.

Ela caminhou até um interruptor perto da porta e acendeu uma luz fraca em um poste. Eu a segui.

—Você não pode ser a Isy. Ela não é como você.

—Você não quer ver. Não merece saber a verdade. — Disse impaciente. —Há tempos venho te dando dicas, mas você nunca quis enxergar. Conhece o Jasper Hale?— Ela citou determinada. Eu entrecerrei os olhos confuso com sua repentina frieza. —Hale é o nome do filho do sheik que joga com você e que leva a sua garotapara as festas.— Esclareceu séria.

Balancei a cabeça atordoado com mais essa elucidação.

—Se você se interessasse pelo menos pelo nome das pessoas ao seu redor, você saberia quem era o filho do sheik que jogava com você.

—Merda, que estúpido! —Bati a palma em minha testa. Cada revelação provocava mais consciência e horror.

—Eu não diria estúpido. —Ela considerou. — Diria que é desatento e egoísta. Você que nunca quis enxergar. Tudo esteve na sua cara.

Dei dois passos atrás para diluir tudo na minha mente perturbada. Não tinha como negar a verdade. Cygne realmente era Isy. Tantas coincidências não existiriam em uma só pessoa. Virei de costas e esfreguei a testa, decepcionado comigo por não ter visto o que esteve claro e decepcionado com ela por ter me feito de otário.

—Você é uma completa mentira.— Ataquei desgostoso, sentindo uma nova dor atravessar minha espinha. Depois de descobrir que eu tinha um coração e poderia me apaixonar, recebi um golpe traiçoeiro da pessoa que entreguei meu coração e confiei. —O que é verdade em você?— Perguntei baixo, com a fúria amarga da traição e dúvida agonizante me espicaçando.

—Quase nada.— Sussurrou tímida.

—Você é francesa?— Inquiri e repassei na memória todas às chances ela teve de me falar.

—Não. — Admitiu encolhida.

—Por que me disse que seu nome era Cygne, um nome francês?— Questionei forçando tranquilidade na voz.

—Pelo óbvio. Não podia revelar meu verdadeiro nome.

—Hmmm.— Suspirei. —Então seu nome não é Cygne... É Bella, pelo menos?— Pus a mão no bolso e olhei de esguelha para ela. Ela não respondeu, parecia frustrada com algo. —Por que hoje? Por que resolveu revelar a brincadeira hoje? Cansou de brincar com a minha cara?— Espetei acidamente.

—Porque eu não aguentava mais. Doía em mim te enganar. —Justificou pesarosa.

—Eu não preciso de sua pena, garota.— Cortei secamente.

—Bella. — Ciciou.

—Tanto faz. Pode ser Bella, Cygne, mentirosa, falsa, dissimulada. Qualquer nome serve.— Atingi-a para minorar a amargura da frustração. —Quando se é uma mentira, o nome é o que menos importa.

—É, depois não diga que eu não tentei conversar. —Ergueu os ombros orgulhosa. Ela recebia iluminação direta da luz. Tanta exuberância e sensualidade desperdiçada. Suspirei contemplativo. Ela não era mais minha. —isso mesmo que eu sou, Edward. Eu sou uma mentira. Agora, por favor, você não tem maturidade para entender. Então desça as escadas e vá embora. A mentira acabou.

Abri a boca cético com seu show de dignidade ferida.

—Você só pode estar brincando. Eu sou a vítima aqui, não você, senhorita cheia da razão!— Ataquei censurador.

—Eu não disse que tenho razão, porque eu realmente não tenho. Eu não devia nunca ter me deixado envolver por você. Não devia ter me iludido com sua mudança. —Defendeu-se segura. —Mas não vou permitir que você me ofenda depois de tudo pelo que eu tenho que passar.— Destacou com o queixo erguido, o olhar sério. Essa era uma das horas que sua insolência me irritava... Irritava e excitava.

Neguei os sentimentos fracos, aproximei-me dela e segurei seu queixo.

—Quem é você?— Perguntei entre dentes. —Eu exijo saber.

Ela tomou ar, piscou longamente e encheu-se de determinação.

—Meu nome é Isabella Marie Swan. Tenho 22 anos. Não tenho pais. Sou protegida pela Inteligência Britânica por ser testemunha em um crime que matou representantes de vários países que intermediavam a paz entre países do Oriente Médio. Genocídio.— Disse em um fôlego só.

Soltei seu queixo como se tivesse levado um choque e dei um passo atrás, assustado.

Ela continuou.

—Eu me graduei em E.N. no Canadá e me especializei em explosivos. O nome Cygne é meu sobrenome em francês. Não o usei com você deliberadamente. Fiz por costumar ser chamada assim entre minhas colegas de curso... Cygne, Swan é o que eu era... Hoje não tenho mais nome.

Arregalei os olhos em mudo estupor. Ela se afastou e sentou-se no sofá, derrotada.

—Nunca quis mal a você, Edward. Evitei ao máximo me expor ao seu lado, pois não queria te por em perigo, uma vez que sou procurada pelas pessoas que delatei!— Ela suspirou e levantou o olhar, encontrando meus olhos céticos. —Essa é a verdade sobre mim. Você acredita?— Perguntou insegura. Eu não conseguia raciocinar, muito menos responder. —Era disso que eu queria te proteger todo o tempo que tentei te manter longe de mim.— Adicionou com postura vencida.

Olhei-a horrorizado durante um tempo. O riso histérico começou baixo em meu peito. Que mentira descabida! O riso cresceu e a gargalhada explodiu em minha garganta. Essa mulher era louca! Inclinei-me com a mão na barriga incapaz de conter o som das gargalhadas.

—Deus, como a sua mente é fértil!— Zombei divertidamente. —O que mais vai me dizer agora? Que tem super poderes?

Ela segurou o olhar abatido e sussurrou:

—Na mentira foi fácil acreditar. Por que é difícil acreditar na verdade?— Torceu os lábios numa careta frustrada, como se todos seus sonhos fossem esmagados.

—Por quê?— Desviei o olhar, com uma nova luta interna travada no peito. Ao vê-la tão devastada em sua mentira, aos poucos a raiva arrefecia e uma assombrosa quebra de onda de ternura me comovia, como um bálsamo doce depois da raiva. A vontade de esquecer a mentira era maior que o orgulho... Eu queria que tudo voltasse a ser como antes ─ época em que ela aparecia e sumia ─, mas que ao menos podia esperá-la para viver o momento. Eu gostava de viver na mentira. Ela era uma febre. Um vício. Uma sede desesperada. Sim, foi melhor viver a ilusão.

—Porque sua verdade é fábula. —Voltei a dizer. — Não sou otário para acreditar nisso. lendo muita ficção, gatinha. —Zombei, depois encarei-a sério. —Eu não quero saber de porra de teoria da conspiração. Prefiro acreditar que tudo foi uma armação e uma brincadeira.

—Hmmm, bem a sua cara fugir da realidade se enganando. —Acusou sardônica, mas sua postura era desiludida. Como se tivesse desistido de ir em frente.

—Quando eu fiz isso?

—Desde que seu pai morreu, há quase um ano. Ou quando você não enxergou seu irmão definhando.— Salientou ausente.

Olhei-a com olhar acusador.

—Quem é você para me acusar? A mestre em enganar aqui é você.

—Não tanto quanto você, que engana você mesmo.— Ela atacou, com um riso lânguido.

—No que eu menti?— Arqueei uma sobrancelha desentendido de seu tom malicioso.

—Que não me quer, mesmo assim.— Ela ergueu a mão ao meu rosto e tocou minha mandíbula.

Balancei a cabeça cético.

—Eu não disse que não te quero.— Uma comichão quente rastejou em minha pélvis. Desci as mãos para sua cintura e a encostei a mim, prontamente duro. —Eu disse que você é uma mentirosa, que é falsa, dissimulada... — Ri de canto, ofensivo.

—Uma falsa que você não dispensa uma despedida. —Salientou presunçosa e rodeou meu pescoço com os braços. Inclinei e mordi sua orelha, gostando do perfume da Isy nela. Acorda, Edward. Isy é uma mentira asquerosa. Restou somente o corpo, a química, a atração.

—Sim. Uma despedida.— Mordisquei devagar sua mandíbula. —... Você ser mentirosa não reduz o fato de ter sido a garota mais gostosa que tracei. —Mordi sua bochecha. — É óbvio que podemos repetir. Você pode até trazer sua amiga muçulmana. —Sugeri zombeteiro. — Fiquei com certo fetiche por comeruma muçulmana de verdade.— Acrescentei perversamente, procurando um jeito de atingi-la, já que ela tinha me machucado tanto.

—Sa-ia da-qui, seu infantil.— Pontuou enfática em meu ouvido.

—É isso mesmo que você quer?— Mordi seu pescoço, apertando suas costas.

—Você tem dúvidas?

—Você mente. Não posso acreditar no que você diz.

Ela empurrou meu peito com superioridade.

—Eu quero que você vá.— Apontou para fora, mas não fez esforço para soltar de meus braços.

—Vamos ver se quer. —Desafiei. — Só tem um lugar seu que não mente.— Enfiei a mão entre os botões da saia e inseri os dedos ousadamente dentro de sua calcinha. Eu tinha intimidade para isso. Ela enrijeceu. —Hmmm, você não quer que eu vá.— Destaquei com presunção masculina. —Mesmo brigando, eu te excito. —Invadi sua boca com lábios exigentes que intimavam, possuíam, empurrei-a de costas e caímos no sofá redondo, eu por cima dela. Voltei toda minha perícia contra ela para castigá-la e marcá-la para sempre. Em meio a tanta mágoa, mentira, pesar, eu tinha fome dela. Saber disso era desesperador. Ela não me merecia, mas eu me rendi à obsessão, mesmo magoado por ter sido usado numa brincadeira maquiavélica de autoafirmação.

Tomei-a com raiva, pesar, pânico por estar indo embora, dor por me sentir traído, ainda assim, não foi sexo, foi mais que paixão.

...

—Me fala alguma verdade em você.— Eu pedi uma hora depois, deitado no sofá com metade de seu corpo sobre meu peito numa confusão de roupas.

Ela torceu os lábios em um sorriso ausente.

—Eu era virgem até uns dois meses atrás.

—Disso eu já sabia.— Sorri abrandado e suspirei. A euforia sexual passou, o álcool passava e ficava só a dúvida e medo. Afastei-a e toquei a maquiagem muito escura sobre seus olhos. —Essa história sobre a Inteligência é verdade ou mentira?— Dei uma última chance. Ela fechou os olhos e suspirou, como se travasse nova luta interna. Se não fosse tão mirabolante, essa seria uma justificativa plausível para suas mentiras.

Ela deslizou os dedos em meu rosto, pesarosa.

—Mentira.— Sentenciou após um longo tempo, os olhos desviados dos meus. Algo me dizia que ela tinha intenção de afirmar e voltou atrás.

—O seu noivado com o sheik é verdade ou mentira?

—Necessário.

Um muro de distanciamento mental era erguido entre nós. Sexo foi tudo que restou entre nós, além do vazio, desesperança e mágoa.

—O seu amor declarado por mim era verdade ou mentira?— Busquei por um último fio de esperança. Ela só precisava dizer que sim para que, apesar da mentira, eu esquecesse tudo e nunca mais a deixasse sair da minha vida.

—Amar é mais que querer. Amor se inventa. E nosso amor é físico. — Recitou robotizada. Eu respirei fundo, decepcionado com sua resposta. Não havia chances. Eu tinha que desistir dessa mulher que só me destruía.

—Então, foi bom te conhecer. — Despedi sem emoção, tentando soar adulto. Não era assim que bons rapazes terminavam uma relação? —Foi bom enquanto durou, embora seja difícil confiar em alguém daqui pra frente.— Enfatizei e mudei nossas posições.

—Você vai viajar que horas?— Ela questionou, ignorando o comentário.

—O treino só começa terça, mas eu vou amanhã de manhã. Tenho que começar a procurar um apê.

—Ah, torço que se dê bem. Como vai fazer para estudar?— Deslizou os dedos em meus cabelos. Se ela ao menos não fosse tão cativante, eu sentiria menos sua falta... Ela parecia me amar, mas por que ela me enganou tanto?

—Vou vir todas as segundas entregar trabalhos e fazer provas. Talvez no próximo semestre, como é o último, eu faça uso do que os mestres sempre me propuseram: que eu tivesse uma vida mais fácil na universidade como aluno especial por ser jogador.

—Você tem que aproveitar mesmo. Você é mais jogador que estudante! —Encorajou animada. — Adoro você em campo. Adoro seus gols.— Elogiou carinhosamente. Eu lembrei saudoso da conotação que ela usava para gols.

Sorri estimulado por suas palavras e me projetei em pensamento para o futuro próximo.

—Sabe que estou sonhando em ir? É outro mundo. Eles são a elite do futebol.

—Ah, leãozinho, torço por você. Espero que você alcance sua realização pessoal. Torço ainda que você encontre alguém que goste verdadeiramente de você, que se encaixe em seu mundo. Alguém que possa viajar, posar para fotos com você. — Desejou fervorosamente, acariciando minha boca com a ponta dos dedos. Ela olhava-me como se eu fosse seu tudo. Isso me tirava o ar e quase me levou a implorar novamente para só ficarmos, sem conversa, sem promessas. —Torço que ncontre alguém que ame você de verdade e que você possa confiar.

—Obrigado.— Agradeci incerto se sofria sua autoexclusão ou se aceitava sua incapacidade de se dar, rejeitando assim essa dor que me rasgava com a despedida. Eu não queria doer, droga. Ela não merecia minha dor.

Relutante em deixá-la, abracei sua cintura e deitei o rosto em seu colo, explorando o cheiro do vão nos seios. Não queria enfrentar a realidade ainda.

Eu não tinha uma amiga, isso doía, muito mais pela mentira. Não tinha minha garota, situação notavelmente irreversível, tanto por ela, como por mim. O que me trazia esperança era que em breve minha vida se reiniciaria diferente. Quem sabe, quando eu não estivesse desiludido e magoado assim, eu realmente conseguisse encontrar essa outra pessoa; se ela existir.

*Genocídioé definido como o assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e (por vezes) políticas.

Bem leitores, o próximo pov será da Bella para que ela explique a furada que se meteu.

Bjks

Obrigada por ler e por comentar.