5. "Seja o que for, vai passar"
Enquanto acabava de se arrumar, Rony pensava que naquele momento ele até que se sentia satisfeito. Ficara completamente surpreso, quando na noite anterior depois de ter voltado do acampamento com Rose, Hermione lhe dissera pra não dormir tarde, pois teria treino de quadribol cedo no dia seguinte. Ele ficou realmente feliz em saber que pelo menos nessa vida, ele havia optado pela mesma profissão, já que no resto, fez tudo diferente. E mais feliz ainda em saber que jogava pelo Chudley Cannons, seu time do coração. E essa novidade era boa também, porque serviu pra distraí-lo um poucos dos problemas.
E lá estava ele, se vestindo depois de uma ducha. O treino havia sido complicado, especialmente para Rony, pelo simples fato de que ele não conhecia quase ninguém do time. Quer dizer, seu eu nessa vida conhecia, mas ele não lembrava. Então tinha sido meio estranho. Mas mais estranho mesmo era Draco Malfoy ser seu companheiro de time e os dois terem um relacionamento amigável. Rony se lembrou de Harry chamando Malfoy de "amiguinho" dele. É claro que durante todo o treino ele teve que se controlar pra não chutar Malfoy ou dizer ofensas a ele, porque nessa vida eles eram amigos. E, obviamente, seria estranho se do nada ele começasse a maltratá-lo. Ainda era difícil de acreditar. Se perguntou como e quando isso havia acontecido.
_ Você ainda não acabou de se vestir, Weasley? Parece até uma mulher_ a voz de Malfoy soou próxima a ele. Falando no diabo... Malfoy estava parado na porta do vestiário, parecendo impaciente E Rony notou desde que falou com Malfoy a primeira vez aquele dia, que apesar da "amizade", eles ainda se tratavam pelo sobrenome. O que era completamente aceitável, e Rony não se imaginava chamando Malfoy de Draco.
_ Você não quer que eu ande por aí descalço, né?_ Rony perguntou, enquanto amarrava o cadarço do seu tênis_ E por que está me esperando?
Ele ouviu Malfoy bufar.
_ Você não disse na sexta que ia comigo buscar o Scorpius hoje na casa daquela criatura?_ Malfoy perguntou impaciente.
Rony balançou a cabeça. Não acreditava que Malfoy tivesse dado ao filho o nome de Scorpius. Era uma maldade. Era tão ruim quanto se chamar Alvo Severo. E Rony sentiu pena do sobrinho nesse momento. Ah, e a criatura a qual Malfoy se referia, era a ex-mulher dele, uma tal de Astoria. Malfoy passou o treino inteiro falando mal dela e em como era horrível ter que ir a casa dela todo começo de semana buscar o filho. Só não tinha mencionado que Rony prometera lhe acompanhar.
_ Por que vou mesmo com você?_ Rony questionou. Ele queria um bom motivo pra fazer isso.
_ Porque da última vez que estive lá, eu quase a azarei, cheguei até a levar a mão à varinha. Você sabe disso, eu te contei. E então você vai comigo pra me lembrar que eu vou acabar em Azkaban se lançar nela uma maldição imperdoável_ Malfoy ia dizendo_ A mulher é um pé no saco. Graças a Merlim, eu abri os olhos à tempo, e me separei dela.
_ Se ela é tão terrível, por que se casou com ela?
Malfoy bufou de novo, parecendo irritado. Rony pegou sua mochila num dos bancos do vestiário e naquele momento, ele só pensava em comer alguma coisa.
_ Foi um casamento de interesse, você também sabe disso. Hoje você tá pior do que de costume, por Merlim.
_ Só estava brincando_ Rony disse, sem graça. Ele sabia que provavelmente estava parecendo um idiota perguntando coisas que as pessoas achavam que ele sabia.
_ Bom, não é engraçado. Então, a senhorita já está pronta?_ Malfoy provocou.
_ Já_ Rony resmungou e seguiu Malfoy para fora do vestiário. Naquele momento ele pensava seriamente em romper aquela amizade. Ainda não conseguia se imaginar sendo amigo de Malfoy. Chegava até a ser engraçado.
_ Vamos aparatar até lá?_ Rony perguntou quando eles já estavam fora do estádio.
_ É claro que não, ela mora a duas quadras daqui. E é melhor irmos andando assim você pode me contar como foi o acampamento. O cabeça rachada foi com aqueles dois pestinhas?
_ É dos meus sobrinhos que você está falando, Malfoy_ Rony repreendeu e depois se deu conta de que estava defendendo crianças que havia conhecido há apenas alguns dias. Era estranho.
_ Justamente por serem seus sobrinhos, você deve saber melhor do que eu que eles são pestes mesmo.
Rony teve vontade de xingá-lo, mas se controlou. Ele não achava que Malfoy tivesse direito de falar mal do filho de qualquer outra pessoa, se o filho dele_ simplesmente por ser filho dele_ provavelmente não era nenhum doce de criança.
_ Bom, eles foram. Foi um monte de gente.
_ Deve ter sido legal.
_ Sim_ Rony concordou, mas ele não tinha certeza se havia sido bom. Quer dizer, a maior parte do tempo ele se sentiu deslocado e depois de conversar com Dumbledore, ele passou o tempo todo pensando na história com Grace e em como havia atrasado a vida de Meg. Então, talvez, não tivesse sido legal_ Por que você não foi?
_ Porque a criatura reclamou. Ela disse que só pode ficar com Scorpius nos finais de semana e que eu estava querendo privá-la disso. Não tenho culpa se ela é uma droga de mãe e a guarda do garoto ficou comigo. Ela que aceite os finais de semana.
_ Que situação chata_ Rony falou sem saber exatamente se isso era o melhor a dizer. Mas ele não se sentia à vontade pra dar nenhum tipo de palpite ou fazer algum comentário sobre a vida de Malfoy.
_ É. Mas me diz, a Collins foi no almoço que sua irmã deu no sábado?_ Malfoy perguntou, enquanto caminhavam.
Rony o olhou confuso. Ele estava se referindo a Grace Collins?
_ Hum, foi_ ele respondeu com cautela.
_ E aí?
_ E aí o quê?
_ Vocês conversaram?
_ Por que está me perguntando isso?
_ É uma pergunta completamente normal levando em consideração o que aconteceu entre vocês.
_ Como você sabe disso?_ Rony perguntou isso alto demais, ele nem se deu conta de que havia parado de caminhar.
_ Ah, eu vi na minha bola de cristal_ Malfoy respondeu com ironia. Ele havia parado de caminhar também_ Por acaso, você está com amnésia, é? Você me contou, seu idiota.
Rony piscou muitas vezes em um espaço curto de tempo. Como assim ele havia contado a Malfoy sobre ele e Grace Collins? Por que ele faria isso? Não é possível que ele confiasse em Malfoy a ponto de se confidenciar com ele. As coisas não deviam ser assim. Simplesmente, não era algo natural. Mas de qualquer maneira, Malfoy sabia.
_ É, é verdade, eu tinha esquecido_ Rony disfarçou, mas tinha noção de que não estava fazendo isso direito, porque Malfoy o olhava daquela maneira estranha, como se tivesse medo que ele fosse começar a comer terra ou alguma coisa assim.
_ Eu hein, você tá esquisito, Weasley.
"É, e vou acabar ficando louco", Rony pensou. Ele passou as mãos pelos cabelos e achou que era melhor recomeçar a andar, antes que Malfoy estranhasse mais. Logo, ele e Malfoy estavam caminhando de novo.
_ Então, vocês conversaram ou não?
_ Mais ou menos. Quer dizer, ela tentou me beijar_ Rony respondeu. Ele não via sentido esconder isso de Malfoy, já que ele sabia o principal.
_ Que safada!_ Malfoy disse, mas tinha um sorriso cínico nos lábios_ Uma dessas nunca aparece pra mim, que injustiça.
_ Se você quiser pode ficar com ela_ Rony falou. Ele passaria o problema para Malfoy com o maior prazer_ Eu posso apresentar vocês_ Malfoy revirou os olhos.
_ Mas então, deu um pé na bunda dela de uma vez?
_ Não_ Rony respondeu meio confuso. Ele estava pretendendo terminar o caso com Grace?
_ Por que não? Você não disse que ia fazer isso na primeira oportunidade?_ Malfoy perguntou exasperado_ Não foi você que semana passada faltou chorar me contando que tinha traído sua esposa? De fato, seus olhos estavam cheios de lágrimas, e não venha com aquela desculpa de novo de que tinha uma goteira bem em cima da sua cabeça, porque se não reparou, agora estamos a céu aberto.
_ Eu quase chorei?_ Rony perguntou chocado.
_ Pare de se fingir de desmemoriado, Weasley. Você estava quase chorando. Eu tive até medo que você fosse querer um abraço.
A boca de Rony despencou, aberta. Ele havia quase chorado por ter traído Hermione. E na frente de Malfoy. E pelo que Malfoy disse, ele estava arrependido, ele ia romper o que quer que tivesse com Grace. Rony teve vontade de rir. Talvez, ele não fosse tão canalha quanto imaginava.
_ Que cara de idiota é essa?_ Malfoy perguntou, erguendo uma sobrancelha pra Rony.
_ Eu... eu não gosto da Grace_ Rony concluiu incoerentemente.
_ Sim, eu sei, você me disse isso várias vezes, enquanto tentava não chorar.
_ Isso é muito bom.
_ É fantástico_ Malfoy falou impaciente de novo_ Então vai falar com ela ou não?
_ É claro.
_ E o Potter, você vai contar a ele sobre você e a Collins?
_ Hum... não, não_ Rony não podia contar a Harry. Conseguia imaginar como o amigo reagiria, e seria difícil ver a crítica nos olhos dele.
_ E vai mesmo me apresentar a ela?
Rony riu. Era engraçado ele entender porque seu eu naquela vida tinha escolhido Malfoy pra revelar aquilo, e não Harry. Era óbvio até. Harry era correto demais, logo ele não entenderia. Ele ficaria decepcionado com Rony, e mostraria isso. Quanto a Malfoy, esse parecia não se importar muito. O que Rony percebeu durante essa conversa, é que Malfoy estava encarando aquilo de maneira descontraída e Harry jamais reagiria assim. Rony já podia imaginá-lo chamando-o de cretino, como fizera na carta na sua outra vida. E ouvir isso seria mais difícil do que ler, com certeza.
Os dois rapazes continuaram caminhando e conversando. Malfoy tentando pensar num jeito bem natural de Rony apresentá-lo a Grace e dizendo que queria isso, porque Grace era safada_ palavras de Malfoy, não de Rony. E Rony o ouvia, dando palpites de vez em quando, se sentindo contente pela segunda vez aquele dia. Dumbledore lhe disse para pensar nos erros cometidos nessa vida. E o deixava satisfeito saber, que seu eu nessa realidade, já estava fazendo isso.
_ Então você foi com o Malfoy buscar o filho dele?_ Hermione perguntou, enquanto o servia com um pouco de salada.
Eles estavam sentados à mesa, na cozinha de sua casa, prontos para o almoço. Rose estava sentada numa cadeira perto de Rony e Hugo_ que já havia tomado sua mamadeira_ dormia tranquilamente no carrinho ao lado de Hermione. Rony havia contado a Hermione onde estava e por que se atrasou um pouco para o almoço. Era estranho, mas ele se sentia à vontade conversando com ela sobre a ida a casa da ex-mulher de Malfoy.
_ Pois é.
_ Por que o Malfoy odeia tanto a ex-mulher?
_ Ah, ela é um saco, Hermione_ Rony disse, se lembrando do comportamento totalmente irritante da tal Astoria_ Hoje eu entendi porque Malfoy a detesta. Ele a chama de criatura.
Os dois riram. E Rony ainda se sentia à vontade. Era parecido com seu passado na outra vida, quando ele e Hermione eram melhores amigos e podiam falar sobre qualquer coisa. E tudo era extremamente confortável entre os dois. Era uma sensação realmente estranha, Rony pensou, mas ainda assim era boa.
_ Você parece bem hoje_ ela comentou, enquanto acabava de servir o prato de Rose.
_ Eu me sinto bem_ ele respondeu com sinceridade.
_ Ótimo. Isso quer dizer que não teremos mais comportamentos estranhos?
Rony deu de ombros e Hermione sorriu. Ele não podia garantir isso. Não enquanto ele estivesse se adaptando.
_ Amor, o que está planejando para o fim de semana?_ Hermione perguntou casualmente.
_ Por quê? Tem alguma coisa especial no final de semana?
_ Você esqueceu, eu não acredito_ ela exclamou.
Rony tentou sorrir, como quem disfarça, mas pela expressão emburrada de Hermione, ele soube que no final de semana provavelmente tinha alguma coisa importante. O aniversário dela, não era, ele pensou. Pelo que ele sabia, era em setembro, o que quer dizer que era no mês que vem. Será que era aniversário de Rose? De Hugo não podia ser. Ele ainda era pequeno pra fazer um ano.
_ É a primeira vez que você esquece_ Hermione resmungou, olhando feio para a comida em seu prato como se ela lhe tivesse feito alguma coisa.
_ Desculpe_ ele disse, desejando que Hermione dissesse de uma vez do que se tratava.
_ Você não faz idéia do que eu estou falando, não é?_ Hermione perguntou o encarando como se estivesse tentando entender algo. Rony desviou o olhar. A maneira como ela o olhava, como se estivesse vendo através dele, o incomodava.
Rony achou que se dissesse qualquer coisa, se encrencaria mais. Como Hermione disse, ele não fazia idéia do que ela estava falando.
_ Na sexta é o nosso aniversário de casamento, Rony_ ela disse, estranhamente calma.
_ Claro que é.
_ Mas você esqueceu.
_ Não, não esqueci_ Rony falou, tentando mostrar confiança_ Você não consegue perceber quando eu
estou brincando?
_ Pare de tentar me enrolar. Você esqueceu. Tinha que ver a cara que você fez quando eu falei do final de semana...
_ Ok, ok, eu esqueci_ ele admitiu. Afinal, não tinha outra escolha_ Eu sinto muito.
_ Eu sabia_ Hermione resmungou. Houve um silêncio, só quebrado pelo barulho de Rose bebendo seu suco num copo amarelo em forma de ursinho.
_ E então, me desculpa?
_ Certo. Dessa vez passa, porque você não tem andado bem esses dias, mas eu espero ser recompensada de alguma maneira. Tem que ser alguma coisa especial. Então, me surpreenda.
Quando Hermione disse aquilo, Rony pensou instantaneamente em coisas materiais, como alguma jóia cara, por exemplo. Porque era disso que mulheres gostavam, não? Mas então ele se lembrou de tudo que sabia sobre Hermione. Ela nunca foi o tipo de mulher ligada nessas coisas caras. Ela sempre foi simples. Um dos motivos pelo qual ele havia se apaixonado por ela, quando eram adolescentes.
_ Ok, você será surpreendida_ ele disse, sem ter idéia do que poderia fazer de especial para ela no dia do aniversário de casamento deles.
Rony não era bom nessas coisas. Ele simplesmente não era bom em coisas românticas. Quer dizer, na sua outra vida, ele teve muitas mulheres, mas eram coisas de uma noite e nada mais, nada nem perto de ser sério. Ele nunca realmente teve que fazer nenhuma delas feliz. Ele nunca lhes dava presentes ou preparava surpresas, a não ser que quisesse uma segunda noite, e mesmo assim não eram presentes especiais. Só que Hermione não era como essas mulheres. Então, não dava pra ele chegar em Hermione com rosas e uma garrafa de champagne, até porque isso não seria nada especial nem surpreendente.
Então o que ele deveria fazer? Um jantar a luz de velas? Foi a primeira coisa em que Rony pensou, mas achou pouco. Eles já deveriam ter feito isso outras vezes, então que graça teria? Talvez, eles pudessem sair pra dançar. Hermione gostava de dançar, Rony sabia. E, bom, ele também. Se lembrou com nostalgia de sua outra vida em Wellington, na Nova Zelândia, de quando saía para as festas de David ou quando ele e Meg iam a alguma boate trouxa por lá. Mas então, ele se deu conta de que isso também não era romântico. E ele achava que Hermione iria querer alguma coisa romântica. Mas o quê?
Foi aí que se viu indagando por que estava tão preocupado em agradá-la, em fazer com que a noite de sexta fosse algo inesquecível pra ela. Simplesmente não fazia sentido.
_ Algum problema, senhor esquecido?_ Hermione perguntou de seu lugar. Rony a olhou e se surpreendeu com o indício de um sorriso no rosto dela.
_ Só estou pensando_ ele respondeu.
_ Na surpresa que vai me fazer?
_ Sim.
_ E já tem alguma coisa em mente?
_ Tenho_ mentiu.
Hermione sorriu. E seu sorriso foi tão brilhante e genuíno que Rony se viu sorrindo de volta, simplesmente porque ele queria. Não era pra disfarçar sua alienação a essa vida ou fingir que entendia o que estava acontecendo a sua volta. Ele tinha noção de que estava sorrindo tão genuinamente quanto Hermione. E tinha noção de que aquele frio na barriga que sentia agora, era só porque ela estava lhe sorrindo tão brilhantemente daquela maneira. E se sentir dessa maneira fazia menos sentido ainda do que querer agradá-la. O que estava acontecendo com ele?
A noite as coisas continuaram iguais. Rony continuou se sentindo diferente em relação a Hermione. Enquanto acabava de colocar o pijama no banheiro do quarto deles, Rony pensava naquele sorriso da hora do almoço. E pensava na maneira feliz como ela pareceu durante quase todo o dia. E em como isso o deixava satisfeito.
Mas não só isso o havia deixado contente. Estranhamente, ele gostou de ajudar Rose a montar um quebra-cabeça naquela tarde. E gostou de colocar Hugo pra dormir há uma hora atrás. Parecia tão estranho que no dia anterior ele estivesse se sentindo tão deslocado no acampamento de pais e filhos. E estranho, deveria ser ele estar se sentindo bem agora. Mas não era.
Rony saiu do banheiro e parou um instante à porta, quando viu Hermione sentada na cama com aquele mesmo sorriso que ela lhe deu no almoço. Ela fez um gesto, batendo com a palma da mão na cama, pra que ele se sentasse ao seu lado. Lentamente, Rony fez isso.
_ E então, vai me dizer?_ ela perguntou.
_ Dizer o quê?
_ Qual é a surpresa para o nosso aniversário.
_ Se eu disser, vai deixar de ser surpresa, não?_ ele tinha até sexta pra pensar em alguma coisa.
_ Nem uma dicazinha?_ Hermione insistiu fazendo uma cara de criança que pede doce antes do jantar. Rony teve vontade de rir.
_ Não. Você vai ter que esperar até sexta.
_ Ah, Rony você sabe que eu vou morrer de curiosidade_ ela reclamou cruzando os braços na frente do corpo, mas sua expressão era divertida.
_ São só alguns dias. Você aguenta até lá_ Rony falou, divertido também.
_ Já que não tem jeito...
_ Não tem.
Eles se encararam por alguns instantes, então Hermione levou uma mão ao rosto de Rony, o surpreendendo. Ele sentiu um frio na barriga novamente. A maneira como ela o olhava era perturbadora e Rony sentiu seu corpo esquentar. Ele vasculhou em sua mente uma explicação lógica para estar se sentindo daquele jeito.
_ É engraçado_ Hermione falou calmamente_ Não mudou nada.
_ O que não mudou?
_ A maneira como eu me sinto em relação à você. Mesmo depois de sete anos, continua tudo igual. E eu sempre soube que seria assim.
_ Por que você está me dizendo isso?_ Rony perguntou um pouco na defensiva. Ele não tinha certeza se queria ouvir aquilo.
_ Porque eu quero que você saiba sempre, que você é tudo pra mim_ Hermione o encarava mais intensamente do que antes e Rony sabia o que viria depois. Ele não precisava que ela dissesse pra que ele soubesse, mas alheia aos pensamentos dele, mesmo assim ela disse_ Eu te amo, Rony.
Aquele era um território perigoso, Rony pensou. Hermione estava se declarando para ele, e Rony não estava de jeito nenhum preparado para lidar com aquilo. O que ele poderia oferecer a ela? Ele não podia dizer um "eu te amo" de volta, porque não seria verdade. Ele tinha consciência de que em pouquíssimo tempo estava se apegando a Hermione e as crianças. Mas aquilo não era amor. Aquelas borboletas voando em seu estômago, a maneira como a pele de sua bochecha estava queimando sob a mão de Hermione... Não era amor.
Ele então desviou o rosto, evitando ter que encará-la, evitando ter que dizer qualquer coisa a ela, porque não sabia mais o que fazer. Mas Hermione puxou o seu rosto para ela, o fazendo olhá-la de novo e se aproximou mais ainda. Tanto que ele podia definir o castanho dos olhos dela. Os olhos dela eram cor de avelã.
_ Rony, eu sei que está acontecendo alguma coisa com você, sei que você anda confuso. E, honestamente, eu não faço idéia do motivo. E não vou pressionar você a me dizer. Mas seja o que for, vai passar_ Hermione lhe disse, e estava tão próxima que Rony podia sentir o hálito quente dela, batendo em seu rosto. Era perturbador_ Vai passar_ ela repetiu.
E Rony não tentou fugir, nem se sentiu inclinado a fazer isso, quando Hermione o beijou. Todos os pensamentos racionais lhe escaparam, como se houvessem buracos em sua mente e nada se sustentasse lá. Nada, além daquele beijo. Além de Hermione.
Isso não é real, ele tentou gritar mentalmente para si mesmo. Mas nem esse pensamento sua mente guardava, porque os lábios de Hermione eram tão quentes e doces... E porque agora, ela estava com os braços envolvidos ao redor do pescoço dele. E Rony se viu a abraçando de volta.
E no momento em que o beijo ficou um pouco mais intenso, Hermione o encerrou. Quando Rony abriu os olhos, ele viu a expressão feliz no rosto dela, como se tivesse acabado de acontecer algo fantástico.
_ Já fazia alguns dias que você não me beijava assim_ ela comentou, ainda sorrindo. E os braços dela, ainda estavam em volta do pescoço dele_ Aliás, já faz alguns dias que você não beija nem assim e nem de jeito nenhum...
Rony então se deu conta do quão errado aquilo era. Aquele beijo, aquela sensação que Hermione o estava fazendo sentir. Há alguns dias atrás, ele ainda estava na sua antiga vida, ele nem sonhava em beijar Hermione, ele nem sequer pensava nela. E agora, ele estava ali em outra realidade, sobre uma cama, abraçado a ela.
Não é real, não é real.
Ele se afastou.
_ Algum problema, amor?_ Hermione perguntou confusa.
_ Acho melhor dormirmos_ Rony respondeu, evitando encará-la. Sem dizer mais nada, ele se enfiou debaixo da coberta.
_ Agora? Você quer dormir agora?
_ Sim, estou com sono.
_ Mas eu achei que nós...
_ Hoje não_ Rony a cortou, antes que ela completasse a frase. Eles não podiam ficar mais íntimos, Rony pensou. De jeito nenhum, isso não podia acontecer.
Hermione ficou parada na mesma posição o olhando, parecendo chocada, durante algum tempo. Rony se sentiu mal por ela. Então, ele fez uma coisa que ele achou que era a coisa certa a ser feita. Ele a puxou pra ele, a fazendo se deitar sobre o seu peito, como na primeira noite dele nessa nova vida.
_ Me desculpe_ ele falou_ Não sei o que está havendo comigo_ naquele momento, ele realmente não sabia o que estava acontecendo.
_ Tudo bem, amor_ Hermione disse e Rony pôde ouvir o suspiro resignado dela. Então, de repente ela deu uma risadinha_ Mas, pelo menos na sexta, no nosso aniversário, você não me escapa. Vamos comemorar muito.
Rony engoliu em seco. O que estava acontecendo com ele? Por que ele se sentia tão confuso em relação aos seus sentimentos por Hermione? Não deveria ser assim. Não fazia sentido ser assim. Ele não era o tipo de cara que suava frio perto de uma mulher. Ele foi esse tipo quando era adolescente em sua outra vida, mas depois de adulto, aquilo não era comum. Mas ele sabia que o problema não era com ele. Era Hermione. Era ela que o deixava assim.
E, pela primeira vez desde que estava naquela nova vida, Rony sentiu um fiapo de arrependimento por ter ido embora para a Nova Zelândia. Mas era apenas um fiapo, e foi breve. Porque ele não podia se imaginar ficando na Inglaterra, não podia se imaginar sem tudo que ele havia construído. Mas e quanto a Hermione e as crianças? E seus pais, irmãos e amigos? Ele podia se imaginar sem isso agora.
Ele então se lembrou do dia em que acordou nessa nova vida. Se lembrou do momento em que viu que seu pai estava bem, e se lembrou da cumplicidade com Harry, uma amizade que nunca pareceu ter se acabado. E pensou no sorriso de Hermione na hora do almoço e de como foi bom brincar com Rose e colocar Hugo pra dormir.
Rony podia se imaginar sem todas essas coisas, agora que ele sabia como era? Ele não tinha mais certeza.
N/A: Só pra esclarecer, Wellington é a capital da Nova Zelândia. E como eu adoro o Malfoy, eu não posso simplesmente ignorá-lo numa fic minha. Espero que vocês gostem da participação dele também. *-*
N/A 2: E aí está o capítulo cinco. Desculpem a demora. Está mais difícil do que eu imaginava postar um capítulo por semana.
N/A 3: Srt Black, você me pediu um pouco de romance na última review, então aí está. Não é nada demais, mas acho que é o suficiente por agora, obrigada pela review. Royal One, o Rony sempre desperta esses tipos de sentimentos mesmo, pelo menos nas minhas fics (rsrs). Obrigada por comentar, Royal. Juli Hale P. Cullen, bom, o início foi aquilo que você já leu. Eu tentei resumir como foi a vida do Rony depois que ele foi para a Nova Zelândia em um pequeno pedaço do primeiro capítulo. E quanto ao futuro com certeza vai estar na fic, mas não agora, ok? Muito abrigada pela review, Juli. Glaucia Potter... prima, só você mesmo pra comentar uma fic que você ainda não leu. Obrigada pelo apoio moral. Eu te amo.
Gente, quero agradecer aqueles que adicionaram a fic aos favoritos. Muito abrigada mesmo.
Então, até o próximo capítulo.
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