A luz insuportavelmente forte que entrava pela fresta na janela fez com que Lea gemesse na primeira tentativa de abrir os olhos. Parecia que toda a aparelhagem de som da casa noturna que tinha ido com Theo e outros amigos estava dentro de sua cabeça. Puxou a coberta, cobrindo a cabeça também. Meia hora depois, estava preparada psicologicamente para levantar da cama. O café já estava pronto quando Lea chegou à cozinha e uma Dianna nada amigável estava sentada em volta da mesa, mexendo o conteúdo de sua caneca com um pedaço de canela em pau.
- Bom dia...
Cumprimentou Lea, sentando-se de frente para Dianna, no lado oposto da mesa, que mesmo assim não desviou a atenção do que estava fazendo. Lea suspirou, levando a mão direita aos olhos. Apertou-os, numa tentativa de diminuir o incomodo da cabeça que continuava a latejar. O estomago estava com o mesmo humor de Dianna e na boca prevalecia o gosto de cabo de guarda-chuva. Lea arriscou uma outra olhada para Dianna, que continuava a mexer o leite quente, sem pressa nenhuma e ainda ignorando a presença da amiga na cozinha.
- Por que eu estou usando um pijama seu?
Perguntou, com cautela. Por fim, Dianna resolveu encarar Lea. Os olhos vermelhos e lacrimejantes em conjunto com o nariz perfeito dois tons mais vermelhos que a pele extremamente branca fez com que Lea arregalasse os olhos.
- Você está chorando, Di?
- Não, Lea, eu não estou chorando. – A voz saiu nasalada e meio rouca. Suspirou, irritada, e voltou a baixar os olhos.
- O que aconteceu? – Lea perguntou baixo, ainda mais cautelosa.
Dianna riu, um riso sem humor.
- O que aconteceu... você saiu com aquele cara que só te usa de novo. Ele te embebedou e te trouxe pra casa. Tentei te dar um banho e quem acabou levando um banho fui eu. Você dormiu antes de eu conseguir te trocar e quando por fim eu consegui, enquanto eu estava tentando arrumar a bagunça que você fez no banheiro antes de ir dormir, você vomitou na sua cama e consequentemente em você. Tive que te levar pro banheiro de novo, e outra vez eu molhei a roupa que ainda nem tinha trocado. Eu estava irritada, e achei muito mais fácil te colocar uma roupa minha que ficar mexendo nas suas coisas, por isso você está usando um pijama meu, Sarfati.
Dianna falou de um fôlego só. Os olhos enormes de Lea ficaram ainda maiores... a mente só conseguiu processar o nome pelo qual Dianna a chamara... Engoliu em seco... Dianna tossiu e Lea sentiu a garganta apertando de culpa
- E por isso você está chorando?
Dianna suspirou, apoiando a cabeça na mão esquerda e apertando a ponte do nariz.
- Não estou chorando, porra. Gripei, né?
Outra crise de tosse.
- Di, me desculpa...
Foi o suficiente pro humor de Dianna ir pro espaço. Espalmou a mesa com as duas mãos, encarando Lea, extremamente séria.
- Por que eu deveria te desculpar?
Lea engoliu em seco uma vez mais... desviou os olhos dos olhos cor de âmbar. Pigarreou, antes de falar.
- Po-por... porque você está me tra... tratando assim e... e deve estar muito brava. Eu devo ter dado muito tra...
- Por favor, né Lea? Você acha mesmo que o problema foi ter cuidado de você? Que tipo de ser humano você acha que eu sou?
- Eu não enten... – arriscou olhar a amiga então, com olhos baixos.
- Seu pescoço está todo marcado, sabia? As costas também. Aliás, tem uma mordida na sua cintura. – Por instinto, Lea levou a mão até as costelas do lado esquerdo do corpo. – O mais engraçado é que você chegou dizendo que ele gostava de mim. O que foi que ele fez? Pediu pra você me colocar na dele enquanto te beijava? Eu não me surpreenderia. Lea, o que você está fazendo? Você se esqueceu o que esse cara aprontou com você? E por acaso você quer que eu esqueça também? Que convide-o pra almoçar aqui em casa qualquer dia desses de novo, pra ele fazer exatamente o que fez da última vez? – Novamente Dianna falou de um fôlego só.
Lea tentou falar... mas a voz a havia abandonado. Olhava Dianna... e só olhava, com olhos arregalados, fazendo um sinal negativo com a cabeça. Tentando achar pelo menos um pensamento para si que diminuísse um pouco a culpa que tomava conta de si. Mas a única coisa que conseguiu encontrar foram flashes de lembranças muito espaçadas da noite anterior. Contra a verdade, não existem argumentos.
Dianna sustentava seu olhar, distante. Os olhos castanho-esverdeados em um misto de tristeza e decepção que em nada ajudava na luta interna de Lea. Por fim, voltou a espalmar a mesa, levantou-se. A caneca foi abandonada na pia, o leite que antes estava quente quase intacto e Lea a assistiu deixar a cozinha. Então apoiou os cotovelos na mesa... os dedos embrenharam-se em meio aos fios escuros.
- Droga... – praguejou, fechando os olhos.
