Não foi espanto quando Dianna cruzou com Jon no elevador. Naya já tinha comunicado que ficaria para jantar, então Jon também foi convidado pra ficar. Ele pareceu hesitar. Com certeza Lea contara o que tinha acontecido... devia imaginar que pela cabeça dele, elas deveriam conversar sobre o quão bobo era o motivo por terem brigado. Na cabeça dele e na de qualquer outra pessoa normal... O problema na verdade não era o assunto em pauta, era ter que conversar. Expressar-se nunca foi um dom de Dianna.

Naya ignorava com uma maestria invejável o climão que dominava enquanto Dianna e Jon (que não tinha tanto jogo de cintura) cozinhavam e ela e Lea arrumavam a mesa. Um pouco antes das dez, Jonathan tirou o rondelli do forno e se juntou às meninas, na mesa da charmosa cozinha.

Mark veio buscar Naya algum tempo depois... Jon os acompanhou quando se foram. Lea foi quem trancou a porta do apartamento e então voltou para a sala, onde um daqueles filmes alternativos que Dianna (e só Dianna) assistia e ela fingia que via ainda estava pela metade e onde uma moça loira extremamente compenetrada ignorava a existência de qualquer outra coisa que não fosse a televisão, toda esparramada no sofá.

Lea se sentou na outra ponta, encolhida, muito encolhida. Desconfortável, trocou de posição alguns pares de vezes até que Dianna simplesmente se inclinou, deixando que a cabeça descansasse em seu colo. Ela parou de respirar por alguns segundos, com medo até de olhar para baixo e Dianna se mexer. Engoliu em seco...

- Di...

- Un?

- An...

- Não.

- Oi?

- Não, nós não temos e não vamos conversar.

Por fim, Lea baixou os olhos. Dianna agora tinha apoiado a mão esquerda em seu joelho, afrente do nariz. A atenção no filme, aparentemente não diminuiu... Lea sorriu, levando uma das mãos até os cabelos loiros. Sem pressa, deslizou os dedos por entre os fios.

- Sabia que esse filme é um lixo?

Dianna riu, bem baixinho.

- É, eu sei...

- E se nós assistíssemos Dirty Dancing?

- De novo?

- É.

- É uma ótima idéia.


Dianna saiu do elevador e ganhou o hall de entrada que levava ao apartamento que dividia desde o ano passado com Lea. Tinham acabado de filmar a primeira season finale de Glee e todo o elenco estava reunido no salão de festas do prédio. Aparentemente, Kevin tinha bebido demais e alguém precisava arrumar um carro para leva-lo embora. E foi por isso que Dianna subiu, ela sempre era a motorista da rodada. Abriu a porta da sala já levando a mão até o interruptor para acender a luz e a primeira coisa que viu foram costas femininas. Duas, na verdade. A primeira se virou... Lea. Logo a segunda se virou também. Outra Lea. Dianna arregalou os olhos... uma cabeça masculina se fez ver entre as duas moças... Theo.

- Você quer se juntar a nós?

A pergunta continuou ecoando, e ecoando e ecoando e em algum momento Theo também mudara... era agora uma terceira Lea E as três gargalhavam. A gargalhada de Lea. Três gargalhadas de Lea soando juntas, debochadas. Dianna meneou a cabeça, andando para trás, os olhos ainda muito grandes...

- Você quer se juntar a nós?

As três vozes idênticas perguntaram em uníssono. O pavor tomou conta... e a única coisa que conseguiu fazer foi correr, acionou o elevador... e quando ele mais duas Leas pararam de se beijar para rir e perguntar, lá de dentro.

- Você quer se juntar a nós?

E no mesmo instante, o elevador despencou. Sentiu-se cair também, conforme o prédio todo vinha abaixo.

Foi então que ela gritou...


Dianna abriu os olhos, inspirando com muita força. O coração acelerado lhe dava a sensação de estar queimando. A primeira coisa que fez foi levar a mão direita até a testa respingada de suor. A consciência lhe voltava aos poucos e ela se viu em casa de novo, também no sofá da sala, mas estava deitada, como deveria estar mesmo, e estava no colo de Lea, como também deveria estar. Lea também se inquietara com a agitação de Dianna que ainda respirava com dificuldade e encarava o teto. Não era a primeira vez que tinha aquele sonho que ela definitivamente não entendia. Sequer entendia o porquê de ter se deixado envolver tanto por aquela história. Talvez tivesse sido a briga que tivera com Lea por ela não ter acreditado de imediato quando Dianna voltou e lhe contou que Theo estava no apartamento delas com a agente dele e outra mulher que ela não conhecia. Talvez por ter sido ela quem tinha visto... Não estava acostumada com a mania feia da galera do show biz de trocar chifres como quem troca figurinhas. Definitivamente não estava acostumada com aquilo. A questão era que agora, ela encarava o teto, visivelmente transtornada por causa de um maldito pesadelo que a acompanhava desde então.

- Que foi? - Lea perguntou meio rouca e acariciou os cabelos loiros uma vez mais... esfregando os olhos com a outra mão, também recém desperta. Buscou o celular na mesinha ao lado do sofá para ver a hora. Apenas a logo da marca do aparelho de DVD estava no centro da televisão, o que indicava que não estavam dormindo há pouco tempo. Dianna foi a primeira a adormecer... Lea continuou a afagar os cabelos até que ela mesma caísse no sono. 3:17. Ao voltar o celular pra mesa, aproveitou para ligar o abajur... A luz fraca tornou a sala um pouco mais aconchegante. Tornou a realidade mais real... os sonhos mais abstratos... ainda assim Dianna não conseguia respirar normalmente ainda.

- Dianna? Di? Ai Deus... – Lea se inquietou outra vez, debruçando-se sobre a amiga ainda em seu colo. Ergueu-lhe a franja, que a essa altura colava-se a pele úmida de Dianna. Inclinou-se. Eram os lábios que tocavam a pele quente agora. – Você tá ardendo em febre... – Falou baixinho, roçando a boca em um gesto transbordante de carinho. Beijou ali mesmo, antes de se erguer muito pouco, apenas o suficiente para conseguir olhar Dianna. Que ainda olhava para cima, apavorada. Só desfocou o nada e olhou para Lea quando esta mexeu em sua franja outra vez... – Tá tarde... eu vou te por na cama, tá bem?

Dianna concordou com um gesto de cabeça, toda rígida. Se deixou sentar, Lea se levantou, pegou-a pela mão, pedindo que levantasse também... e Dianna foi conduzida então para o quarto no fim do corredor. Afastou o edredon grosso, já se deixando deitar. Lea não demorou a vir com os travesseiros e um cobertor um pouco mais fino.

Cobriu-a, beijando-lhe a testa uma vez mais, antes de ajeitar uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha de Dianna.

- Tudo bem?

Dianna concordou novamente com a cabeça...

- Quer que eu desligue a luz?

Fechou os olhos, engolindo em seco... não... sozinha no escuro não... negou. Um aceno débil, de olhos fechados ainda...

Tentou se controlar. Odiava aquilo... Odiava sentir medo.

Fechou os olhos com ainda mais força... puxando o cobertor pra mais perto do rosto. Fungou, a constipação atrapalhando o ato de respirar. E fungou de novo, não conseguindo mais se conter. A primeira lágrima escorreu pela bochecha e foi secada com irritação... a segunda também. Na terceira, a mão de Lea substituiu a sua...

- Chega pra lá... - Lea pediu baixinho.

Ainda de costas para a beirada da cama e consequentemente para Lea, Diana se arrastou pro meio do colchão. Sentiu quando a cama cedeu ao peso de Lea e logo em seguida se sentiu puxar pro colo dela. Não esboçou reação contrária... só queria dormir. Dormir sem medo.