Lea's POV
O dia tinha sido tranquilo. Agora passava um pouco das cinco da tarde e estávamos todos reunidos no camarim dos meninos. Kevin e Heather estavam gravando ainda, então nós estávamos esperando. Harry falou que um bar novo tinha inaugurado na cidade e ele queria ir. E "lá em casa", é assim: se um quer ir, vai todo mundo.
Eu ainda estava olhando o celular na palma da minha mão esquerda desolada. "Vou passar aí pra te pegar. Quero conversar", tinha acabado de receber por sms. E convenhamos que tudo o que eu não precisava hoje era Theo enchendo o meu saco. Suspirei, estou tão cansada... Eu estava um pouco mais afastada do grupo, mas a minha desculpa de dor de cabeça pareceu caber muito bem pra galera, ninguém me interrogando, como normalmente fariam.
- ... é, cara! Parece que tem tipo umas stripers lá também! – Harry disse entre gargalhadas. Eu não consegui pegar com quem ele estava falando.
- Ah, e eu e as meninas vamos curtir muito um bar com stripers, né Shum?
Amber reclamou, esparramada no puff gigante, entre Chord e Darren. Cory cantarolou "corrente de andromeda" e ouvi que Harry lhe tinha jogado alguma coisa que ele não conseguiu agarrar antes de cair no chão.
- Foi engraçado das primeiras setenta e cinco mil vezes que você fez essa piada, Cory, agora já não é mais. E as meninas eu não sei, Amber, mas eu acho que a Lea vai curtir muito.
Ergui o rosto por fim, o cenho franzido, pra encontrar sete pares de olhos fixados em mim. Sem que percebesse, procurei os castanho-esverdeados, um pouco mais afastados, mas que agora também tinham se voltado a mim.
- A Lea? – Dianna perguntou, fazendo com que a atenção de Mark e Naya, com quem ela fofocava em um canto do quarto, também fossem minhas.
Harry não respondeu, pegou uma dessas revistas que eu não acreditava que valessem um dólar inteiro e estendeu para ela. Ela leu e voltou a me olhar, mas antes que eu me desse conta, Mark tinha tomado a revista de suas mãos e lia a manchete em voz alta: "Relacionamento quente! Lea e Theo em um stripbar". Suspirei, enterrando o rosto nas mãos de novo. Eles me zoariam pro resto da vida. Todo mundo agora se reunia em volta de Mark... e todo mundo, lógico, rindo da minha cara. A reação do cast quanto a suposta traição de Theo não tinha sido tão enérgica quanto a de Dianna, e agora, quase um ano depois, ninguém parecia se lembrar. O meu celular vibrou de novo e eu baixei os olhos pro visor. "Te esperando". Porque você não vai me esperar no inferno, desgraçado? Suspirei resignada, me levantando. Cruzei com Heather ao sair do camarim... ela me olhou... e quando eu tentei me desvencilhar, ela me agarrou pelo antebraço.
- Tá tudo bem?
Forcei um sorriso.-
- Uhum...
- Não vai com a gente?
- Dor de cabeça... avisa o pessoal pra mim?
Ela concordou... ah não, HeMo, não me olha assim... fugi, antes que ela conseguisse me fazer falar. Theo me esperava na saída do estúdio... eu entrei no carro e fomos clicados. Como alguém consegue ser tão subcelebridade a ponto de ligar pros paparazzi avisando que vai buscar a namorada no trabalho?
Ele se inclinou quando eu entrei no carro e me beijou a bochecha... limpei o rosto na mesma hora, ai que nojo...
- Deu, né?
- O que é isso, benzinho? Dia difícil no trabalho?
- Eu odeio você. Muito!
- Também te amo. Vamos pra sua casa conversar...
- Eu não vou, não existe maneira de você me fazer mudar de idéia e eu não tenho nem noção de como foi que uma coisa dessas passou pela sua cabeça. Essa é a décima quinta vez que eu estou te falando isso e se você insistir, eu vou ser obrigada a desenhar pra você entender.
Lea tinha os dois braços cruzados na frente do corpo. A linguagem corporal gritando "LONGE DE MIM", mas ainda assim Theo insistia em lhe tocar e ela se via obrigada a ficar andando pela sala. Só tinha parado agora, na frente dele, para falar o que vinha falando pelas últimas duas horas. Não gostava dele alí. Não gostava nenhum pouco dele ali. Tinha deixado bem claro que aquela conversa tinha acabado tão logo ele terminou o seu longo discurso de como foram feitos um para o outro e que ela deveria se mudar para Nova York com ele, agora que as gravações de Glee entrariam em um intervalo.
O papo que ela tinha lhe dado quinze minutos para concluir, já se estendia por quase quatro horas inteiras e aguentar quatro horas na companhia de Theodore com certeza não era coisa pra gente normal. Assim que ele saísse, Lea procuraria na internet uma camiseta com os dizeres "GUERREIRA" escritos o maior possível.
- Lea...
- Mas será possível? Eu já falei que não!
- Eu te amo...
- Você não ama nem a você. E eu posso te garantir que tenho mais ternura por um cão sarnento que por sua pessoa indigna de qualquer sentimento positivo.
- VOCÊ NÃO ME ESCUTOU? EU ACABEI DE FALAR QUE TE AMO!
Theo gritou, encobrindo o barulho da porta que se abria... Ele parou, olhando para o recém chegado... Lea por instinto acompanhou o olhar de Theo e no mesmo instante se sentiu empalidecer.
- Dianna, ele já...
Ela sorriu. Fria. Uma pedra de gelo. Tirou o casaco, aparentando uma calma sobrecomum que qualquer um estaria muito longe de sentir naquela hora.
- Ah não, Lea... você não me deve satisfação. Vejo que sua cabeça melhorou, não? Boa noite, Theodore.
Disse, a voz tão fria quanto os olhos e a postura aristocrática que ela usava para cruzar a sala, passando entre Lea, que só notara agora que tinha caminhado na direção dela, e Theo. Lea respirou fundo, fechando os olhos, a cabeça rodando. Theo se aproximou... tocou-lhe o ombro direito.
- Meu amor...
Lea esquivou-se do toque dele com irritação, enojada.
- Sai daqui.
Falou ainda de costas. Theo não se mexeu... ela andou até a porta da sala, recém fechada.
- Sai... daqui... – Resmungou entre os dentes, arreganhando a porta.
- Mas...
- SOME DAQUI, STOCKMAN!
Ele arregalou os olhos, a boca entreaberta, assustado. Lea não costumava gritar... mesmo com ele.
- Sai... daqui... – Ela rosnou outra vez, só então erguendo olhos cheios de fúria para o homem à sua frente.
Ele engoliu em seco, pegando o casaco que jogara sobre o sofá quando chegou, e então saiu. Lea bateu a porta atrás dele, trancando-a logo em seguida. Só então se voltou para o corredor. A passos firmes, seguiu para a porta aberta onde sombras da luz na porta do quarto de Lea, indicavam movimento.
Parou no batente, recostando-se e voltando a cruzar os braços. Dianna tinha colocado uma das malas sobre a cama de casal e agora, pegava uma ou outra peça de roupa escolhida do armário, tirava do cabide, dobrava com cuidado e guardava na mala enorme. Extremamente calma, simplesmente não ergueu os olhos para Lea um único segundo, fingindo prestar muita atenção no que fazia.
- Dianna...
Ela não respondeu... simplesmente continuou arrumando as roupas. Nenhuma expressão, nenhum sinal, nada.
- Dianna...
Lea chamou de novo, um pouco mais paciente dessa vez.
- Un?
- Eu...
- Seu namoradinho já foi embora?
- Ele não é meu nam...
- Deve ter ido à farmácia, né? Seus preservativos acabaram?
Lea se sentiu corar até as orelhas. Mordeu o lábio inferior, a indignação ameaçando tomar o controle da situação.
- Eu não vou demorar, só vou pegar umas roupas e...
- E o que? Onde você vai, Dianna?
O tom firme e um pouco mais alto que o comum fizeram que Dianna por instinto por fim se virasse para Lea. Engoliu em seco, sentindo a máscara de indiferença ameaçando ruir a qualquer instante.
- Pra casa do Alex.
Lea baixou os olhos, respirando muito fundo... apertou os dedos em torno dos braços com força, com muita força. Uma tentativa de extravasar a irritação.
- Não, você não vai.
Dianna franziu o cenho. Estava debruçada sobre a mala, ajeitando outra troca de roupas e foi assim que se virou para Lea de novo.
- Perdão?
- Eu falei que você não vai.
- Ah sim, e claro que você está em situação de exigir minha presença nessa casa.
- Dianna...
Dianna por fim caminhou até ela. Os centímetros de diferença na altura nunca ficaram tão evidentes quanto agora. Talvez porque Lea estava descalça e Dianna ainda de botas. Talvez porque estavam muito mais próximas do que na maioria do tempo. Talvez por causa da situação em que se encontravam... E foi assim, meio de cima, que Dianna olhou para ela.
- Se você quer arruinar a sua vida ficando com esse cara... – engoliu em seco, falando entre os dentes – ... é uma escolha unicamente sua. Mas você não pode e nem tem o direito de pedir que eu assista e muito menos participe da sua destruição.
Só quando ela voltou a se afastar, os olhos naquela mistura de raiva e de decepção que Lea aprendera a reconhecer, Lea soltou o ar. Não tinha reparado que tinha parado de respirar até então.
Dianna voltou a dar as costas para Lea, a atenção voltada novamente para o guarda-roupas. Lea pode sentir quando a própria respiração ficou irregular. O maldito nó na garganta de novo... os olhos ardentes dessa vez não puderam ser controlados. Tentou engolir o choro ao sentir a primeira lágrima descendo bochecha abaixo. Lágrima quente, muito quente.
- Pra onde você vai? – perguntou outra vez, tentando disfarçar o tremor da voz.
Dianna não respondeu dessa vez, só continuou a arrumar suas roupas.
- Pra onde você vai, Dianna?
- Já falei que eu vou pra casa do Alex.
Lea respirou fundo, muito fundo, já cansada de brigar com a vontade de chorar.
- Não, você não vai.
- Nós acabamos de ter essa conversa, Lea...
- Você não vai, porque eu não vou deixar.
Dianna parou, ainda de costas. Uma das mãos foi pra cintura, a outra ela enfiou nos cabelos loiros, puxando-os para trás.
- Lea... – Sussurrou... a voz parecendo irritada até mesmo para os próprios ouvidos.
- Eu não vou deixar porque eu não posso deixar você sair da minha vida... Eu... eu não posso deixar... – Dianna franziu o cenho. Lea estaria...
- Você está chorando? – perguntou baixo, só então se virando para Lea.
- ... eu não posso deixar você sair da minha vida assim. Não posso deixar.
Lea ignorou a interrupção. Dianna deu um passo em sua direção... e mais um... quando percebeu, tinha uma das mãos levando uma mecha de cabelos escuros para trás das orelhas, afastando-a da pele molhada da bochecha.
- E eu não posso deixar porque eu te amo... – a voz apenas um fio... em tom de confidência. Dianna recolheu a mão, por instinto, assustada... Lea sentiu o arrependimento bater forte, mas já era tarde.
- Eu... eu sou louca por você. – Segurou a mão de Dianna, impedindo que ela se afastasse mais. Ali, naquela hora, ela precisava de calor... só até enquanto estivesse se confessando... ela sabia que Dianna iria embora tão logo ela terminasse de falar. Mas era tarde para se arrepender agora. Olhando Dianna assim, muito de perto, ela lutou contra o nó que apertava a ponto dela achar que iria sufocar. – Eu sou louca por você... Não sei quando começou. Não sei como começou. Eu... eu só... eu só não posso te perder. Não posso nem pensar em te perder.
Dianna apenas olhava, piscando muito mais rápido que o normal. Lea viu cada uma das mudanças no tom de cor daqueles olhos lindos. Dianna estava confusa, ela podia sentir a onda de insegurança que tomou conta daquele corpo tão amado... a mão que Lea segurava entre as suas tinham um ligeiro tremor e ela se odiou por ser ela a culpada por aquela crise.
- Theo... – Foi a única coisa que Dianna conseguiu murmurar, meio rouca, o tremor das mãos passando para a voz e Lea respirou muito fundo, fechando os olhos com força numa expressão de dor.
- Eu acho que nunca odiei uma pessoa tanto quando odeio Theo... Nós não estamos juntos desde aquela época, mas ele tem me chantageado com um con... – Lea não conseguiu terminar a frase porque lábios exigentes cobriram os seus. Suspirou, ainda de olhos fechados, não conseguindo conter um gemido. Soltou a mão de Dianna, que se enfiou em meio aos fios castanhos e segurou o rosto adorado com as duas mãos, num pedido mudo para que ela não se afastasse. Dianna prendeu o lábio superior de Lea entre os seus, num beijo puramente labial. Lea entreabriu a boca e Dianna entendeu o recado, virando o rosto e procurando o encaixe perfeito dos lábios. Lea buscou a língua de Dianna com a sua, sentindo o corpo todo se arrepiar no primeiro contato. Dianna segurou-lhe a cintura com a mão livre, puxando-a pra mais perto, era ela quem precisava de calor agora. E o beijo tomou um tom desesperado. Lea sentindo a cabeça rodar a cada vez que a língua encontrava a de Dianna, explorava sem pudor nenhum cada centímetro da boca aveludada e desejada por tanto tempo em segredo.
O folego faltou, obrigando que se afastassem pelo menos para respirar. Dianna apoiou a testa na de Lea, ainda de olhos fechados e apertou os dedos da mão enfiada nos cabelos escuros, puxando-a para ainda mais perto. Por fim, escondeu o rosto na curva do pescoço de Lea, respirando com dificuldade. Lea envolveu-lhe o pescoço com os dois braços, se deixando abraçar.
As palavras não eram mais necessárias... ninguém sairia daquele apartamento naquela noite.
