- Ele vai ficar muito puto...

Dianna não sabia quanto tempo elas ficaram sem se falar, dois mundos diferentes mas ao mesmo tempo interligados entre si. O silencio confortável do qual ela se permitia desfrutar agora, era muito raro, muito precioso... Foi Lea quem o quebrou primeiro, mas não do jeito que deveria ser, não com uma resposta sobre o que Dianna tinha proposto.

Ela sorriu, levou a mão direita até os cabelos loiros, ainda de olhos fechados, puxou-os para trás, com um suspiro... e então riu, absurdamente relaxada quando se levava em consideração a situação em que se encontrava.

- Ele sempre está muito puto... Não sei como eu vou conseguir lidar com isso todos os dias.

O silencio voltou a dominar... e então ouviu Lea suspirar... Nenhuma das duas tinha saído da posição inicial até então, permaneciam deitadas de costas na cama de Dianna, os olhos fechados e a luta com o ritmo dos batimentos cardíacos era vencida pouco a pouco. Sentiu o colchão cedendo ao peso de Lea e por instinto, abriu os olhos para acompanhar o movimento. Lea se deitou de lado... encolheu as pernas, os joelhos chegavam quase a tocar o tórax... e ela tinha dado as costas para Dianna, que franziu o cenho em estranhamento ao comportamento da outra mulher.

- Lea?

Lea suspirou outra vez, abraçando as pernas. Dianna não voltou a falar... mas também não se moveu. Quieta, só observava, confusa.

- O que você está fazendo, Dianna?

Dianna voltou a franzir o cenho, ainda mais confusa.

- Hein?

Outro suspiro de Lea... que se levantou, ainda sem olhar Dianna, sentando-se na beirada da cama. Os dedos passearam pelos cabelos castanhos, numa tentativa de arrumar a bagunça que Dianna havia feito. A dos cabelos ela conseguiria ajeitar... a outra bagunça, já não tinha tanta certeza.

- Você vai se casar.

Lea falou em voz baixa... como se tivesse medo de falar aquilo em voz alta.

Dianna ainda estava deitada na cama. Olhava as costas de Lea... e continuou assim por algum tempo... Lea não se virou... Dianna ergueu os olhos, fitou o teto. Não respondeu. Lea suspirou uma última vez, se levantando da cama.

- Hey... mas... hey!

Dianna protestou erguendo o tronco, usando os cotovelos como apoio, a ponto de ver Lea fechando a porta do próprio quarto atrás de si. E então ela se deixou cair na cama novamente... as duas mãos esfregando os olhos. Que situação...


- Eu já te falei que não podia te atender aquela hora.

- Mas foi você quem me ligou mais cedo!

- Liguei pra avisar que eu não sairia de casa. E você não atendeu.

- Só que vir dormir na minha casa aquele dia foi sua ideia também, Dianna.

- Eu sei, mas...

- Mas nada, cacete! Eu não sou um moleque, me ouviu?

- Um moleque pode não ser... mas é um cavalo, com certeza. – murmurou.

- Hein?

"Droga... será que ele ouviu isso?" Dianna voltou o celular para perto da boca, o tinha afastado para xingar Alex.

- Nada... olha, eu vou ter que desligar, estou no trânsito.

- Eu vou viajar amanhã.

- Eu sei.

- E...

- E...?

- E você não vai querer nem me falar tchau?

- Alex... eu vou ter que repetir que hoje a noite nós temos...

- Uma maldita entrevista daquela sériezinha mixuruca!

Dianna fechou a cara. "Imbecil". Respirou muito fundo. Todos os esforços empenhados em não abrir a boca pra falar a meia dúzia de verdades que chegavam a lhe coçar a garganta agora.

- Tá... tá... desculpa... Mas é que você sempre me deixa por cau...

- É o meu trabalho.

- Mas é que eu vou ficar quase um...

- O problema é única e exclusivamente seu.

- Que bom que você pensa assim, viu?

Dianna abriu a boca pra responder bem como ele deveria ser respondido. Mas a atenção foi desviada pela sirene da viatura de polícia que só agora ela notava atrás de sua Mercedes.

- Alex...

- Un?

- Vai pro inferno.

A voz gelada foi sucedida pelo termino da chamada. O celular foi jogado no banco do passageiro e voltou a tocar logo em seguida... e dessa vez, Dianna ignorou os apelos de Adele, enquanto estacionava o carro. Fechou os olhos e recostou a cabeça no banco com um suspiro irritado. Droga de fim de semana!

A batida no vidro do carro preto, a fez abrir os olhos. Suspirou outra vez, enquanto acionava o botão para baixar o vidro.

- Boa noite, senhora...

- Senhorita.

- Senhorita. – O policial se corrigiu, enquanto olhava para dentro da Mercedes. – A senhorita estava falando ao celular enquanto estava dirigindo. Tem noção do perigo que estava representando para as outras pessoas?

"Ah sim... eu sei o perigo que eu estou representando para as outras pessoas nesse exato momento." Ela não respondeu o guarda. Apenas o olhou enquanto ele apoiava a prancheta na lataria negra.

- Habilitação e documentos do veículo, por favor.

Ela bufou outra vez, se obrigando a ficar calada na tentativa de não ser presa por desacato. Alcançou a bolsa ao lado do celular que tinha recomeçado a tocar. Os documentos pedidos não demoraram a ser entregues para o policial.

- Eu vou ter que te multar. E por favor, um pouco mais de respeito pelas leis do nosso país na próxima.

Ela sorriu, respirando muito fundo logo em seguida pra tentar não acordar o monstro do sarcasmo.

- Eu sinto muito.

Ele lhe estendeu os documentos que tinha acabado de pegar e ela se virou para guarda-los...

- Senhorita Agron... – o guarda pigarreou. Era impressão de Dianna ou ele tinha enrubecido quando ela se virou? – Será que... será que você poderia me dar um autógrafo?

É, Agron... the Lord is testing you!


Lea ouviu quando ela chegou. O corpo todo se arrepiou de imediato... o que não era nenhuma novidade até então... sempre acontecia... um arrepio gostoso, seguido de um frio no estomago e da boca seca. Dizem por aí que é o que um viciado sente quando sabe que está prestes a alimentar o vício. É, talvez pudesse realmente ser isso... Lea pensou enquanto terminava de retocar a maquiagem dos olhos. O delineador sempre lhe dava trabalho e hoje estava especialmente difícil de controlar as mãos. Tivera um pouco de dificuldade para esconder as olheiras da noite mal dormida e o ligeiro inchaço das bolsas embaixo dos olhos.

Ela se levantou bem mais cedo que o de costume... foi correr. Duas horas depois, voltou e Dianna tinha acabado de se levantar. O cheiro que vinha da cozinha era tentador, mas não tão tentador quanto a ideia de poder evitar Dianna por mais algumas horas. Seguiu direto para o banho. Quarenta minutos depois, quando por fim saiu do banheiro, viu que talvez Dianna tivesse tido a mesma ideia que ela e a única evidencia da loira na casa era a fragrância do perfume floral e ainda estava na sala. Lea então se aprontou... passou o dia na casa de Cory com Jenna e Jonathan. Falando sobre nada e sobre tudo. Assistindo Rei Leão e comendo porcaria. A melhor maneira de se aproveitar um domingo... pelo menos enquanto os seus planos fossem evitar pensar no turbilhão que a noite anterior tinha sido.

Lea não costumava fugir das situações... mas beijar o objeto de uma paixão platônica e alguns minutos depois se obrigar a sair daquela cama pra tentar se manter a salvo de um coração despedaçado, não tinha sido fácil. Ela precisava de um tempo.

Não conseguiu evitar um suspiro longo ao se lembrar da sensação do corpo de Dianna sobre o seu... do jeito que ela conseguira lhe imobilizar com apenas uma das mãos e uma chave de coxas. Engoliu em seco... é... pelo menos ela poderia se orgulhar de seu auto-controle.

Dianna passou direto pelo banheiro. Carregada de sacolas de compras e Lea soube por fim onde ela passara o dia todo, sem dar notícias. Segundos depois, Dianna voltava, já sem a calça jeans. Entrou no banheiro parecendo absolutamente a vontade com a própria semi-nudez. Os olhos cor de chocolate foram atraídos para as coxas cor de pêssego como ímã. Lea a olhava através do espelho, enquanto Dianna entrava dentro da banheira vitoriana e ligava a ducha, medindo a temperatura com as costas das mãos. De costas para Lea, lhe dava uma visão privilegiada do modo como as mechas douradas caíam em cascata pelas costas delicadas.

A intimidade que compartilhavam agora não era novidade... A novidade era que Lea sabia que Dianna estava ciente de que Lea a olhava agora. E aparentemente, ela não se importava nenhum pouco em se deixar observar. Ainda de costas, Dianna levou as mãos para a barra da blusa preta que usava e aparentando a maior naturalidade do mundo, puxou-a, tirando a peça de roupa pela cabeça. Lea se obrigou a inspirar... não tinha se dado conta ainda que parara de respirar. Engoliu em seco uma vez mais, conseguiu sentir o coração descompassado... e então Dianna baixou as mãos, agarrou a fita de cetim que prendia a pequena calcinha preta ao corpo. A calcinha desceu apertada e sem pressa pelas coxas fartas. Sim, ela sabia que era observava e se exibia para Lea.

"Demais para o autocontrole de uma mulher... demais... Agron, você não vale nada." Lea largou o lápis delineador sobre o balcão do banheiro e saiu dali, apavorada. Ouviu Dianna rir baixinho, debochada, antes de fechar a porta de seu quarto e se recostar à parede.

Tortura. Era isso que Dianna tinha feito com ela. Tortura.


Dianna entrou debaixo da ducha com um sorriso nos lábios bem desenhados. O humor renovado. A confusão que ameaçou sua sanidade até um pouco antes das quatro da manhã, hora em que ela se obrigou a dormir, tinha fugido do banheiro junto com Lea. Não, Lea não tinha se arrependido... ou talvez tivesse... mas não pelas razões esdrúxulas que Dianna tinha arrumado para que ela tivesse saído de seu quarto daquele jeito na noite anterior. Fechou os olhos, erguendo o rosto para a água morna que lhe acariciava a pele. Alcançou o sabonete líquido, ainda de olhos fechados, e se ensaboou sem pressa. O corpo todo extremamente sensível... A sensação de se mostrar para outra mulher era extremamente nova... Mas ela não hesitaria em fazer de novo... Não se fosse para se sentir desejada como se sentiu quando se virou para Lea e a encontrou olhando daquele jeito, segundos antes dela fugir. "Eu não gosto de mulheres..." A consciência protestou e Dianna a calou recebendo mais água no rosto. Definitivamente não iria pensar naquilo por enquanto. Se a mente protestava, o corpo parecia absolutamente a vontade com o que estava acontecendo... ela pode sentir quando enfiou uma das mãos entre as coxas e foi obrigada a respirar muito fundo para conter um gemido... extremamente excitada. É... o corpo parecia gostar... e era ele quem ela passaria a ouvir. Pelo menos por enquanto. E naquele exato momento, ela chegava a conseguir ouvir cada uma de suas células gritando "Lea Michele".


O cast todo num palco. E pode acreditar, isso é muita gente.

Dianna chegou meia hora depois de Lea, que se recusara a esperar. Quando chegou ao estúdio de gravação, todos já tinham entrado e se acomodado. Aguentou piadinhas sobre ela e Alex estarem se despedindo e sobre ela ter que se sentar no chão enquanto toda a parte masculina da plateia ofereceria o próprio colo de muito bom grado.

Lea sentiu as cores se esvaindo tão logo a plateia começou a gritar... mas foi só o olhar encontrar o de Dianna que as cores todas voltaram imediatamente... voltaram tão rápido que sentiu as bochechas esquentarem. É, Lea Michele, você está rubra como costumava ficar no colégio.

Dianna escolheu o colo de Mark "porque ele é o pai da minha filha" e o público fez festa de novo. Por mais de quarenta minutos o assunto girou em torno da amizade do elenco, de como é difícil conciliar a vida particular com a vida de ator e tudo o mais que eles respondiam em exatamente todas as entrevistas.

Agora, Cory estava no estacionamento do prédio, conclamando a equipe para ir farrear. Afinal de contas, era domingo.

- É, Cory... hoje é domingo e amanhã é segunda. SEGUNDA!

- Exatamente, meu caro amigo Kevin... e quem se importa? Você se importa, tio?

Ryan Murphy ameaçou correr atrás dele gritando "Tio é a senhora sua vovozinha" pra então mandar que fossem gastar o dinheiro que eles arrancavam da Paramount.

- Party! – Cory brindou o nada, e cinco minutos depois, eles se dividiam em três carros: O Mercedes de Dianna, o BMW de Chord e o Audi do próprio Cory. O destino era Trousdale, a boate mais badalada de Los Angeles.