- Mas você sabe, não sabe? Não é lá uma coisa que você pode se gabar quando a sua festa só é íntima porque não cabe mais do que três amigos seus na sua sala.

Mark se inclinou, espetando um dos morangos na imensa tigela na mesa de centro do apartamento de Dianna. Ainda inclinado, o que fazia com que Naya também se inclinasse numa posição muito desconfortável, mas que ela não parecia se importar tanto assim, Lea analisou enquanto o observava embeber a fruta recém espetada no chocolate derretido dentro do aparelho de fondue, a cabeça recostada ao ombro de Dianna que tinha um dos braços sobre o assento do sofá, numa espécie de semi-abraço uma vez que Lea se aproveitara exatamente dessa brecha para se aconchegar ao seu corpo.

Só olhava, deliciada ao sentir a vibração no tronco de Dianna quando esta respondeu meio a contra gosto que se ele estava tão incomodado assim, um pouco mais de espaço na sala era muito bem vindo. Mark riu, levando a fruta à boca, aproveitando a lamber a ponta dos dedos, não se fazendo nenhum pouco de rogado. Naya o acompanhou na risada, ganhando um beijo estalado nos lábios, reclamou com um gemido da boca lambuzada dele.

Lea continuou a olha-los... a cumplicidade entre os dois era quase palpável e a sensação que ela tinha agora era que os olhava através de um vidro ou algo assim, que o universo em que eles habitavam era único e exclusivo. Dianna murmurou alguma coisa que ela não conseguiu entender. Talvez por estar com a orelha colada ao corpo meio debaixo do seu. Dianna se mexeu, imitando o movimento de se reclinar na direção da mesinha que Mark havia feito. O cheiro doce do morango se fez sentir quando ela a trouxe para a própria boca.

Naya por fim se virou para as duas mulheres à sua frente e Lea desviou o olhar, constrangida por ter sido pega olhando. Como se espiar toda aquela intimidade fosse um crime imperdoável.

- Ele sabe que você pretende voltar pra casa tão cedo? – Falava de Ryan.

Dianna deu de ombros, buscando outro morango.

- Não falei nada. Mas ele mesmo disse que não seria por muito tempo.

Lea acompanhava a conversa entre as duas apenas com o olhar. Não conseguia sequer pensar em uma posição mais confortável do que a que estava. Dianna não a abraçava. Apenas sustentava o corpo. Lea foi quem teve o trabalho de se aconchegar... mas foi só esse trabalho também. Assustou-se quando Dianna trouxe o morango recém pego para a frente de seu rosto. Ligeiramente confusa a ouviu rir, pra só então entender que a fruta era pra ela. Abriu a boca e Dianna enfiou o morango inteiro por entre os lábios entreabertos. Reclamou com um gemido enquanto fechava a boca muito cheia e ouvia Dianna rir. Não demorou a sentir os lábios da loira em sua testa e não conseguiu não sorrir também. Agora era Naya quem as observava, acompanhada por Mark. Ele foi o primeiro a falar.

- Isso foi do nada?

A pergunta veio à queima roupa, pegando-as desprevenidas. Aquele era um assunto que não tinha sido colocado em pauta ainda. Lea sentiu Dianna enrijecer antes de responder.

- Eu cheguei em casa um dia e o Theo estava gritando na minha sala que a amava. Me senti corroer de ciúmes na mesma hora... Sempre me convenci de que aquilo era só cuidado de amiga, que era absurdamente normal. Mas aí ela me disse umas coisas e...

Dianna riu e Lea teve certeza que ela tinha corado. Ergueu os olhos enormes só pra constatar que não estava errada. Dianna esfregava os olhos com a mão livre e Lea também tinha certeza de que aquilo era só a demonstração de que a loira tinha dividido uma memória que não estava preparada pra dividir ainda. Naya também notou e cutucou Mark, que não se deixou influenciar.

- Coisas?

- Eu assumi que estava apaixonada. – Lea interveio, tentando dividir o foco.

- E quando foi que você descobriu?

- Eu... eu não sei.

- Como não sabe?

- Quando foi que VOCÊ descobriu?

Foi a vez dele rir, acompanhado por Naya que gargalhou com vontade.

Lea franziu o cenho, por fim se sentando.

- Bom... – Mark olhou para Naya, e Lea teve a impressão de que também o viu corar. – Você conta ou eu conto?

- Eu quebrei o carro dele. – Ela falou com simplicidade, antes de uma outra gargalhada.

- Que? – Foi Dianna quem deu voz à confusão de Lea.

- Foi assim... Nós estávamos juntos havia quase um mês. Mas nada muito sério. Aí uma noite ele me disse que não vinha para casa porque a avó estava doente. – A risada de Mark ecoou no apartamento e Naya o beliscou, ensaiando um pseudo-ataque de raiva – Aí eu fiquei preocupada. No meio da noite eu liguei e quem atendeu foi uma mulher dizendo que ele tinha esquecido o celular na casa dela, que tinha passado a noite lá. No outro dia eu cheguei na Fox e quebrei os dois faróis traseiros do carro dele.

- Ela me deu uma multa de presente.

- Dei mesmo.

- Eu não percebi. Mas o guarda que me parou com certeza percebeu. Foram quase quatrocentos dólares de multa.

Outra gargalhada de Naya.

- Aí ele veio brigar comigo.

- Chamei ela de louca.

- E de vadia.

Dianna sentiu o próprio queixo cair e se obrigou a fechar a boca.

- Ele te chamou de vadia?

- Chamou.

- E aí?

- Eu bati nele. Óbvio!

- Aí ela chorou.

- E ele me agarrou.

- E eu bati nele de novo.

- E continuou me batendo até eu pedir ela em namoro. Aliás... ela continuou me batendo mesmo depois disso.

- Você aceitou namorar ele mesmo assim?

- Não, né? Mandei ele ir embora. Ameacei chamar a policia.

- E você foi? – Foi Lea quem perguntou.

- Não. Deixei ela gritar comigo até que ela começasse a me xingar de mentiroso.

- Não demorou.

- Não demorou nadinha.

- Aí ele gritou comigo de volta.

- A tal mulher era minha tia.

Lea sentiu a própria sobrancelha se erguendo em desconfiança. Tia?

- Eu fiz ele ligar pra ela na minha frente e no viva voz. Era tia mesmo.

- E aí?

- Aí eu chorei de novo, oras.

- E eu agarrei ela de novo.

- Você tá brincando, né?

- Claro que não. Quando uma mulher quebra seu carro num ataque de ciúmes, a única coisa que você pode fazer é se casar com ela. Só sua mãe vai te amar tanto quanto ela ama.

- E você vai se casar comigo?

- Em Las Vegas, semana que vem. – Mark respondeu ao flerte de Naya sorrindo. Se inclinou, beijando-lhe os lábios com delicadeza. Um selinho casto e abarrotado de carinho.

- Vocês estão me deixando doente com tanto mel. – Dianna falou, revirando os olhos e colocando um tom entediado na voz, só pra provoca-los.

Naya respondeu com uma careta de desdém, voltando a se recostar em Mark que buscou um outro morango sobre a mesa. A latina as olhou por alguns segundos... Só olhou... Lea se recostou no sofá, instintivamente cruzando os braços numa "semiproteção". A sensação que tinha era que Naya estava lendo sua alma naquele instante e ela não sabia se conseguiria lidar com aquilo.

- Ryan vai acabar se acostumando. – Ela falou por fim.

- Eu espero... – Lea suspirou, olhando de soslaio para Dianna que se sentara em uma posição um pouco mais ereta, também parecendo incomodada.

- Você não devia ter saído de casa, sabe?

A voz de Mark tinha um tom um pouco mais sério agora. Foi a vez de Dianna suspirar.

- Eu não soube o que fazer. Só queria que ele parasse de me pressionar.

- Ele foi em cima de você porque a Lea foi irredutível. Você sabe disso, né?

- Não acho que ele tem o direito de interferir nas nossas vidas. - Lea respondeu.

- E você tem razão.

Dianna suspirou, levando a mão direita aos cabelos loiros, puxando a franja para trás olhando para o nada, antes de falar.

- Você sabe que minha agente é minha mãe também, não sabe?

- Tá brincando, né?

- Não. Ela realmente é minha agente.

- Não estou falando disso. – Foi a vez de Naya se sentar melhor, incrédula. – Você não pode estar falando sério sobre ter ficado com medo de que sua mãe descobrisse.

- Não é simples assim.

Lea esfregou os olhos cansados. O assunto estava na mesa apenas a um par de segundos e ela já estava exausta emocionalmente. Não tinha certeza se estava pronta para ouvir Dianna falar sobre não querer contar o segredinho sujo das duas para a família.

- Podemos mudar de assunto? – O pedido foi feito em voz baixa enquanto Lea ainda esfregava os olhos. Dianna sentiu o coração se apertar no mesmo instante. Ela sabia o que ia acontecer quando aquilo viesse à tona e esperava com toda a sua fé que estivessem sozinhas... infelizmente a segunda parte não aconteceu.

- Como não é simples, Dianna? Você está com medo da sua mãe.

- Naya, você já falou pros seus pais que gosta de mulher?

- Eu não gosto de mulher. – Naya respondeu ofendida.

- Então não sabe como eu me sinto. – Dianna disparou e o mal estar pairou sobre a sala no mesmo instante. Dianna suspirou, arrependida, voltou a ajeitar os cabelos para trás num gesto de puro nervosismo antes de voltar a falar. – Olha... me desculpa. Eu... eu só não sei qual vai ser a reação dela. Ela sempre foi minha melhor amiga... Ela nunca se opôs ao que me faz feliz, mas... – Suspirou outra vez e fechou os olhos, parecendo cansada. Lea a olhava de canto de olho, o coração disparado por culpa da declaração implícita e gratuita. Mais tarde a faria confessar aquilo em voz alta. Ah, faria...

- Eu não quero me meter. Mas acho que tudo seria mais fácil se as cartas já estivessem na mesa.

Pratos limpos? Lea teve vontade de rir... mas uma vontade sem vontade, porque o riso naquela situação não teria humor nenhum. Dianna mal sabia o que queria na verdade. Como elas iriam deixar tudo em pratos limpos?

- Não é fácil assim, Mark. Você não entende.

- Os seus pais iriam ser contra também, Lea?

- Meus pais? Ah... Não sei. Traria dinheiro? – Agora sim, ela riu. Mas ninguém a acompanhou.

- Dinheiro?

- Eles não ligam muito pra outra coisa.

- Lea... – Naya tentou... o clima já estava pesado o suficiente para uma única noite.

- Sabe... eu fui meio que a galinha dos ovos de ouro. Desde pequena. Eles me colocaram pra cantar aos quatro. Aos cinco eu fazia aulas de sapateado. Me enfiaram em um musical da Broadway aos oito. Aos oito! Eu não deixaria meus filhos sequer pisarem num palco antes dos vinte e um. – Nenhum dos outros três ousou comentar quando ela parou de falar. Dianna envolveu-a com o braço que antes estava sobre o sofá, a trouxe para perto de si num abraço protetor. Lea não falava sobre a família. Nunca. Os raros feriados em que ela viajava para a casa dos pais nunca eram comentados além do clima ou de como tinha sido o trajeto de ida e de volta. Mary adorava Lea, o que não fazia a solidão um problema, pois levar Lea na bagagem era uma rotina adorada por Dianna nos feriados em família. – Quando se tem uma criança muito talentosa em casa, eu acho que fica meio difícil discernir o que é melhor para você e para o seu bolso e o que é melhor para o seu filho. Eu não nego que eu sempre gostei de cantar. Mas cheguei a pedir a Deus que eu acordasse rouca pra não conseguir me apresentar porque eu simplesmente não aguentava a pressão em cima de mim. Na adolescência isso piorou... porque sempre que eu perdia um papel, era motivo de piada na escola. Eu nunca soube exatamente como eles descobriam os testes que eu ia fazer, mas eu tenho quase certeza que era minha mãe quem contava pras amigas dela, que por consequência eram mães dos meus colegas de classe. Meu pai largou o emprego pra cuidar da minha carreira e minha mãe apoiou. Aos dez anos de idade, era eu quem sustentava a casa. E eu sempre... eu sempre... – Lea não terminou a frase. Só se deixou recostar contra Dianna, que agora a puxava com ainda mais posse para junto de si. Os dedos se enfiaram em meio aos fios castanhos... não tinha certeza se Lea tinha terminado... mas não seria ela quem iria quebrar o silencio que tinha se instalado ali.

- Sempre...? – Foi Mark quem incentivou após alguns pares de segundo sem a continuação.

- Eu sempre fui só um produto que eles vendiam. Então se fosse dar dinheiro, eu acho que eles não se importariam se eu assumisse um romance com aquele cavalo que você chama de cachorro. Eu não tive namorados no colégio, sabe? Eles não deixavam. Diziam que ia me distrair. Mas quando eu consegui o papel em Spring Awakening, eles insistiram que o Jon era um bom rapaz, que talvez eu devesse investir... foi quando eu me toquei do que era na verdade. A primeira coisa que eu fiz depois que eu entendi que eu era importante só porque era a garantia de uma aposentadoria confortável pra eles foi sair de casa. Pela primeira vez na vida eu estava ganhando muito bem, morava sozinha e tinha um melhor amigo gay. Acreditem, foi a melhor época da minha vida. Eu estou contando isso tudo pra que vocês entendam. Enquanto eu morei sozinha, a minha vida toda era uma bagunça. Eu e o Jon fazíamos uma cena de sexo quase selvagem todos os dias em cima de um palco. Nós fazíamos festas e postávamos as fotos por aí, sem medo de ser feliz. Era escândalo em cima de escândalo. Só que o dinheiro estava entrando. Como eu disse, meu pai sempre cuidou das minhas finanças. Antes do meu pagamento vir para mim, passava direto nas mãos dele. Então eles simplesmente não se importavam com o que eu estava fazendo ou deixando de fazer. Então eu... eu simplesmente não acho que seja problema para eles. Desde que o Ryan não cancele meu contrato. – Lea riu. Novamente um riso sem humor, que em nada ajudou para que o clima pesado se dissipasse. Naya olhou para Mark, que lhe parecia tão incomodado quanto ela própria.

- Bom... Se ele te despedir, eu posso cantar no seu lugar. Somos parecidos, não somos? O que você acha, Dianna?

Dianna se inclinou e Mark ganhou um morango nas fuças, enquanto ainda ria.

- Acho que você é um idiota.

- E eu acho que é melhor a gente ir para casa... Tá tarde já. – Naya olhava o visor do celular recém pego, enquanto Dianna ainda rosnava para Mark.

- Me desculpem... é por isso que eu não falo da minha família. – Lea respondeu, também se levantando. Dianna a acompanhou, ainda a segurando pelo antebraço.

- Você nunca me falou dessas coisas... E olha que nós moramos juntas quatro anos. – Dianna ajeitava-lhe uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto falava.

- É... é desconfortável. E olha só, nossa festinha acabou. Foi só eu falar da minha amada família.

- Não, Leele. Tá tudo bem. Pelo menos você se sente a vontade de falar com a gente sobre essas coisas. – Naya estendeu as duas mãos, enquanto dava a volta na mesinha de centro para se aproximar um pouco mais. – Dianna, se você soltar ela, talvez eu consiga me despedir como devo.

Dianna riu, só então se dando conta que ainda segurava Lea.

- É porque tá tarde mesmo. Amanhã a gente tem que trabalhar, né? – Naya sorriu enquanto a puxava para seus braços. Abraçou-a com força. – Deixo você me chamar de mãe se você quiser. – Lea riu outra vez, agora com vontade, ainda sendo abraçada por Naya. Mark aproveitou para beijar-lhe a testa, enquanto pegava o próprio casaco sobre o sofá e vestia-o em Naya.

- A gente se vê amanhã então? – Naya volto a falar, dessa vez se virando para Dianna, que concordou com um gesto de cabeça enquanto acompanhava o casal até a porta do apartamento. Naya assoprou-lhe um beijo, enquanto descia as escadas ajeitando o casaco pesado de Mark nos ombros.

Dianna fechou a porta e se voltou para Lea, que agora se acomodava no único sofá da sala, inclinada para a tigela de morangos. Sentou-se ao lado dela, ainda a olhando.

- Hum? – Lea murmurou enquanto mastigava.

Dianna não falou. Apenas a olhou assim, imaginando se era possível que alguém ficasse ainda mais adorável de boca cheia. Se pegou sorrindo, se sentindo transbordar. Transbordar num misto de admiração, paixão e carinho. Suspirou, sem conseguir se conter, enquanto Lea levava o outro pedaço do morango que ainda tinha em mãos à boca.

- Nossos filhos não vão pisar em um palco antes dos vinte e um.

Dianna disse com simplicidade e Lea piscou, com vagar. Então sorriu, um sorriso puramente labial enquanto ela ainda mastigava. Engoliu antes de se inclinar para a frente, buscando os lábios de Dianna para um beijo delicado, cheio de pura adoração e a única coisa que a loira conseguiu pensar foi que talvez Lea com morango fosse o mais perto que ela já tinha chego do gosto que tem a comida dos deuses.


Eu peço desculpas outra vez (mais uma) pela demora. Tenho trabalhado a morrer.
Estou fazendo o meu melhor, gente. Não tenho muito o que fazer quanto aos meus horarios. Sinto muito.
Esse capítulo tá meio monótono, eu sei... É necessário para que vocês entendam um pouco mais a história e o pefil das personagens.
Não tive tempo de revisar também... geralmente não tenho mesmo, mas esse eu mal li enquanto escrevia. Perdoem os eventuais erros, por favor.