O rapaz que aparentava ter crescido demais em muito pouco tempo, cruzou a rua apertando o casaco pesado em volta de si. O frio cortante o fazia se encolher enquanto andava, o que minimizava um pouco a deselegância que tinha adquirido como consequência da altura que tinha chego muito rápido. Ele simplesmente não sabia o que fazer com as mãos, com os braços... mas enquanto mantinha os dedos apertados dentro do bolso do sobretudo, poderia até se passar por um homem que sabia como se mover.
Entrou por um dos becos que ele não se permitia entrar enquanto o sol ainda estava alto. Exatamente por isso que as reuniões com ela eram só durante a noite. Ele ganhara a sorte grande, pensou enquanto desviava de um rapaz que cruzara com ele calambeante, muito provavelmente mais bêbado do que ele próprio conseguia suportar. "Ela é a melhor", continuou na mesma linha de raciocínio, enquanto ganhava a escadaria pobre e que levava à porta do edifício. Tocou a campainha do apartamento 46 e esperou. "A melhor. E pela metade do preço dos outros".
- Hello?
- Stockman aqui. – ele respondeu se inclinando para o interfone recém atendido. A porta não demorou a ser aberta e foi ainda sorrindo que ele adentrou o prédio moribundo.
...
- Você não pode estar falando sério.
- Mas é óbvio que eu estou!
Theo levou as duas mãos para o rosto, deixando-se afundar no sofá que cheirava tão mal quanto o resto daquele projeto de escritóri. A mulher negra à sua frente cruzava as pernas num gesto um tanto quanto exagerado. Ou talvez nem fosse tão exagerado assim, o que o deixava exagerado eram as roupas escandalosas. Mas ele tinha que aceitar que ninguém tinha coragem o suficiente para usar um vestido tão curto e com flores tão grandes com tanto conforto quanto Anya. Ela poderia parecer qualquer coisa naquele momento, menos desconfortável.
- A carreira é sua, docinho. Mas que fique bem claro que eu não quero estar guiando o barco quando você se chocar com o primeiro iceberg que encontrar porque não conseguiu desviar a tempo.
Ele esfregou o rosto outra vez, com as palmas das mãos.
- Mas como eu vou fazer isso? Eu acho que você perdeu o juízo, Anya. Eles não sabem quem eu sou. Afundar o navio seria exatamente se eu concordasse com você.
- Eles não conhecem você, meu amor. Mas... conhecem aquela namoradinha que eu disse pra você arrumar. – Anya descruzou as pernas e voltou a cruza-las outra vez. O cigarro apoiado no dedo direito chacoalhou-se, jogando as cinzas no chão mesmo, o que não ajudava nenhum pouco na aparência do ambiente em que estavam. Tudo cheirava a cigarro. O sofá, a mesa, as cadeiras, as portas e janelas e agora também o chão. A própria Anya cheirava a cigarro. Sempre que Theo ia às reuniões com a agente, voltava para casa se sentindo um filtro de nicotina.
- Theo, não me obedecer é uma opção sua. Mas é para isso que você me paga, não é? Para que eu continue te colocando na mídia?
- ISSO não é bem estar na mídia...
- Mas vai ser, meu bem!
- É extremamente perigoso... Além de ser quase impossível conseguir, né?
- Porque?
Theo jogou as mãos para o alto, num ato exasperado, se levantando logo em seguida. Andou pelo escritório, sendo observado por Anya. A mão direita na cintura, a esquerda puxava o cabelo para trás. Ele se lembrou mais uma vez da insistência da mãe para que cortasse o cabelo... e aquilo realmente lhe parecera necessário agora, testando o comprimento com as mãos.
- Nós não estamos nem juntos mais.
- Ela falou isso?
- Não.
- Ela anunciou isso?
- Anunciou?
- É... em algum site, jornal, revista...
- Não! Obvio que não.
- Então ela ainda é sua namorada, baby. – Anya sorriu, triunfante, cruzando/descruzando as pernas outra vez enquanto se recostava na poltrona que rangeu com peso.
Era uma figura um tanto quanto interessante. A pouca altura e os quilos que visivelmente lhe sobravam, a deixavam meio rechonchuda. Juntando ao coque alto que ela trazia impecavelmente penteado preso ao alto da cabeça e os vestidos sempre muito floridos e coloridos faziam dela no mínimo... peculiar.
- Ela só é minha namorada porque eu caí na pilha que você me colocou com aquele contrato.
- Golpezinho de mestre o meu, não é? Eu sei. Eu sei. Você me ama.
- Lea vai me caçar até no inferno!
- Então eu acho melhor você comprar roupas vermelhas. Dizem que por lá as coisas esquentam um pouco. Se você estiver de vermelho, vai estar camuflado.
Anya sorriu outra vez e Theo bufou, olhando janela a fora. A sensação das mãos de Lea em seu pescoço já eram muito nítidas. Bom... pelo menos ele se acostumaria antes da hora. Talvez ele pudesse treinar o máximo de tempo que ele podia ficar sem respirar... Talvez se treinasse muito, Lea perderia as forças antes dele perder o fôlego e talvez então ele pudesse sobreviver. A mão direita por instinto contornou-lhe a nuca, enquanto ele engolia em seco.
- O que ela pode fazer, Theo?
"Me matar? Matar minha família? Me colocar com a testa debaixo de uma goteira por horas a fio até me ver enlouquecer? Arrancar cada um dos pelos do meu corpo com uma pinça cega? Eu consigo pensar em um monte de coisa que ela pode fazer comigo, viu?"
- Me processar?
- Ah não... isso ela não pode.
Theo franziu o cenho, confuso, só então se voltando para a mulher que estava exatamente às suas costas. Não que ela tivesse se mexido... mas ele tinha.
- Como não?
- Temos o nosso amiguinho, você se lembra?
- E ele cobre esse tipo de exposição?
- Cobre.
- Tem certeza?
Pela primeira vez naquela noite, ele a assistiu vacilar por um instante. Mas a imagem de uma Anya insegura não durou mais do que alguns segundos e logo ela voltava ao normal.
- É óbvio que eu tenho certeza. Eu sou a melhor.
- Ainda assim, Anya. Não tem como eu fazer isso. Ela não vai concordar nunca. Não tem como eu fazer uma coisa dessas sem o consentimento dela.
- Quem disse que não?
E outra vez a mulher sorriu para um Theo desolado.
"You can stay under my umbrela ê ê ê ê ê – I'm singin' on the rain. Just singin' on the rain"
Zach, o coreógrafo, girou no pé direito. Estavam sobre o palco em que a cena iria ser gravada. Era o último ensaio antes da cena final e quando ele se movimentou, a água que inundava o cenário espirrou por todos os lados, porque logo o cast o acompanhava. Ninguém entendia o porquê exatamente de estarem filmando e ensaiando outra vez, já que já tinham feito esse número antes. Bom... Dianna entendia e tentava explicar que era só mais um capricho de Ryan, mas ninguém parecia ouvi-la realmente. Jenna escorregou, atrapalhou-se com os movimentos e eles tiveram que parar uma vez mais. Matthew bufou, irritado e foi encarado por meia dúzia de pares de olhos reprovativos, enquanto Harry ajudava-a a se levantar.
A ideia era a de uma participação especial do "Mr Schue" em um dos shows da turnê que se iniciaria tão logo a série entrasse em hiatus. Aparentemente, Ryan achava que era um gênio. Todo mundo adorava o Mr Schuester, não adorava?
Não.
Dianna se aproximou de Jenna, que ainda se apoiava em Harry para conseguir se manter de pé.
- Acho que não dá. Torci...
Disse para Zach, que também se aproximara. Ele assentiu, olhando para o relógio.
- Foram três horas direto... Acho que você está cansada.
- Você acha? – Jenna respondeu transbordando em ironia. Zach apenas ignorou, dando sinal para o sonoplasta desligar o som.
- Você está bem? – Di perguntou, fungando. Precisava tirar a roupa molhada o quanto antes...
- Está sim... Só preciso descansar um pouco.
- Eu te levo para casa. – Kevin abandonara a cadeira de rodas, aproximou-se e a enlaçou pela cintura, tomando o lugar de Harry.
- Eu acho que também vou te levar para casa... – Dianna ouviu a voz familiar muito perto. Virou-se para encontrar uma Lea que a olhava também de muito perto, enquanto deixava que os dedos se enroscassem nos da loira. Dianna suspirou, erguendo a mão livre para afastar uma mecha de cabelo que caia sobre os enormes olhos castanhos.
- Alguma coisa em mente pra hoje a noite? Uma noite de sexo selvagem a três, talvez. – Harry perguntou, o sorriso de orelha a orelha enquanto vinha na direção do casal de amigas.
- Talvez. Você conhece alguém, Dianna? Eu não consigo pensar em ninguém.
- Olha, talvez eu até conheça. Será que se convidássemos o Cory ele topa? O Chord talvez?
- Ah, mas isso é maldade. – O rapaz colocou as duas mãos no coração, da maneira mais teatral possível, fingindo-se extremamente ofendido.
- Eu não sei do que você está falando. – O que Harry fingia de ofensa, Dianna fingia de inocência. A resposta de Harry foi uma careta de desdém, antes dele finalmente falar, voltando a sorrir.
- Festinha na casa da Amber hoje.
- Ótimo. Jon está vindo de Nova York, não está, Lea? Acho que ele merece uma festa de boas vindas. Outra festa de boas vindas. A nonagésima festa de boas vindas!
Lea assentiu com um gesto de cabeça.
- Eu devo levar roupas extras pro caso da Dianna querer jogar poker e perder tudo de novo?
Lea perguntou. Logo em seguida, Harry observava a morena se encolher enquanto Dianna lhe beliscava a cintura.
- Você roubou, ok?
- Não roubei!
- Roubou!
- Certo. Roubei. Mas era poker e foi por uma boa causa.
Outro beliscão.
- Eu posso brincar também?
- Não. – A resposta foi em uníssono.
- Outra vez vocês estão quebrando meu coração. – Repetiu o gesto teatral de por ambas as mãos no coração.
Dianna espirrou e foi impelida para fora do set encharcado por Lea.
- Eu sei, paixão, mas eu simplesmente não consigo achar aqueles brincos que a gente comprou lá em Toronto. Você estava junto comigo. Se lembra? – Dianna perguntou ao telefone, enquanto pressionava o aparelho celular entre o ombro e a orelha e vasculhava uma vez mais a caixinha de jóias que tinha sobre a cama. Procurava da melhor maneira possível, enquanto tentava equilibrar o vestido preto nos ombros, ainda com o zíper das costas aberto. As botas cano alto esperavam pacientemente ao lado da cama e era sem calçados mesmo que ela andava de um lado para o outro dentro do apartamento. Espirrou outra vez, já tinha perdido as contas de quantas vezes o gesto havia se repetido ao longo das horas que tinham se passado desde que saíra da Paramount.
- Mas você tem certeza que levou eles? Eu sei quais são. – Lea por sua vez, analisava o conteúdo da geladeira pela milésima vez, procurando por alguma coisa que embora ela tivesse se esforçado, ainda não tinha se materializado na geladeira praticamente vazia. Dianna sempre fazia as compras e ela se dava conta do quanto tinha se acomodado com a situação somente agora, quando se dava conta de que ficara praticamente a zero no assunto de provimentos da parte alimentícia.
- Então... não sei. Você pode ver pra mim se eu os deixei com você?
- Claro que eu vejo. – Lea fechou a geladeira, se recostando na mesa de madeira. Suspirou, desolada. Não conseguiu evitar.
- O que houve?
- Você ouviu isso?
Dianna riu, antes de responder.
- Eu te conheço.
- Estou com fome.
- Geladeira vazia.
- ... é...
- Eu desconfiei disso também. – Outra risada por parte da loira. – Passo aí e nós comemos alguma coisa antes de ir.
- Carona e um jantar. Eu tenho realmente o direito de reclamar?
- Não. – Dianna por fim se sentou na beirada da cama, alcançando as duas botas com uma pegada só. Enfiou o pé delicado no primeiro calçado, subindo o zíper e se voltando para o outro pé. Em questão de segundos, já estava calçada.
- Eu desconfiei disso...
- Vai me esperar?
- É óbvio que vou!
- Ótimo... Amor... eu vou ter que desligar. Fechar esse vestido é uma das coisas que eu não consigo fazer sem você aqui.
Dianna ouviu Lea suspirando antes de responder.
- Tortura...
- O que?
- Isso que você está fazendo comigo. Sabe... é até bom que eu não esteja aí, porque com certeza nós não sairíamos de casa se dependesse de eu fechar o seu vestido.
- Boba... – Dianna sorriu, de orelha a orelha, não pode conter, se sentindo corar com violência.
- Eu estou esperando você.
- Estou com saudades...
- Isso é mentira... Estávamos juntas não tem duas horas.
- Tá... Nem tanta saudade assim, vai.
- Não demora tá?
- Beijo. – Foi Dianna quem desligou a chamada, se contorcendo para conseguir subir o tal zíper do vestido. Tarefa por fim concluída, ela pegou a bolsa carteira que esperava pacientemente sobre a mesinha de centro da sala e ganhou a escada para a garagem do prédio. Lea a estava esperando.
Lea guardou o telefone celular no bolso da calça jeans, teimando em olhar o interior do refrigerador uma vez mais. E uma vez mais fechou a porta do eletrodoméstico com um suspiro desanimado. E com um timing sistematicamente perfeito, a campainha tocou exatamente quando a porta se fechou. Lea ergueu os olhos para o relógio na parede exatamente à sua frente. Não... não podia ser Dianna. Ou podia? Não, com certeza não. Seria Jon? Bom... para o porteiro não ter ligado, ou Jon ou Dianna.
Cruzou a sala ajeitando os cabelos castanhos. Hoje ela os traria soltos essa noite. Não conseguiu evitar um sorriso ao se imaginar dividindo a mesa de um restaurante com Dianna... Seria a primeira vez que saiam definitivamente juntas desde que as coisas haviam mudado um pouco.
Mudado quanto?
Muito!
Lea ignorou a vozinha que teimava em lhe dizer que talvez não fosse assim para Dianna. Bem... se fosse assim, que fosse assim. Não ia pressionar. Óbvio que não. Tudo ao tempo dela.
Ainda estava sorrindo quando abriu a porta da sala. Sorriso que morreu aos poucos, dando lugar para uma expressão de imediato desprazer.
- Você?
- Oi benzinho. – Theo sorriu. Um sorriso horrível. Muito diferente do sorriso de menino que ela tinha se acostumado a ver no rosto de traços inocentes. Franziu o cenho, levando a mão que não segurava a porta à cintura.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ah não... Não aconteceu nada.
- O que você quer aqui, Theo?
- Você.
Lea abriu a boca para responder... Mas a resposta que ela tinha na ponta da língua, seja qual fosse, não chegou a ser nada mais que apenas uma ideia. Com movimentos rápidos que Lea teria estranhado se tivesse conseguindo raciocinar, ele pulou para cima dela, tirando a mão direita do bolso. Em uma fração de segundos, Lea se viu com boca e nariz cobertos por um lenço que exalava um cheiro muito forte. Eter? Alcool? Não teve tempo de definir... Também não sentiu quando os sentidos lhe faltaram por completo.
Theo amparou o corpo pequeno quando este desfaleceu. Com certa dificuldade, mais por culpa de sua incapacidade do que por culpa do corpo de Lea, ele a arrastou para o sofá da sala. Deitou-a de qualquer jeito, numa posição que com certeza lhe renderia um torcicolo. Voltou-se para a porta do apartamento, fechando-a com o pé mesmo, enquanto deixava a bolsa pesada no chão da sala. Abaixou-se, mexendo no interior da mala de couro e logo voltou a se erguer outra vez. A pequena máquina fotográfica foi colocada sobre o aparelho televisor. Ele a ligou, conferindo o ângulo de filmagem, antes de por fim se virar para Lea outra vez.
- Vamos trabalhar, meu bem. Nós temos uma sextape para gravar.
O mesmo sorriso que Lea tinha estranhado estava presente outra vez, enquanto Theodore desabotoava os primeiros botões do sobretudo preto.
Dianna estacionou o carro à frente de seu antigo prédio e conferiu as horas no aparelho celular. Olhou em volta, para ver se conseguia achar Lea ali na portaria, lhe esperando. Não conseguiu. Suspirou, resignada, enquanto olhava as horas no celular outra vez. Odiava esperar. Será que Lea ainda não estava pronta? Havia pelo menos uns dez minutos desde que tinham se falado e Lea confirmara que já tinha se aprontado. Por instinto, levou a mão direita à orelha nua, sentindo falta do brinco que queria colocar. Talvez fosse melhor subir, não? É... Com certeza.
O antigo apartamento lhe pareceria familiar demais... Talvez fosse melhor esperar um pouco mais antes de voltar, para se garantir que não voltaria correndo para casa não? Não! Pensamento infantil e romantizado demais para o gosto dela. Desprendeu o cinto de segurança e saiu do carro com a bolsa em mãos. Enquanto se encaminhava para a portaria do prédio, teve a desconfortável sensação de que tinha esquecido as chaves do carro no contato. Parou à meio caminho para olhar a bolsa. E foi exatamente quando parou que sentiu alguém extremamente próximo. O estranho cutucou-lhe as costelas com algo que ela não conseguiu identificar e falou perto demais.
- A bolsa ou eu te corto o cabelo.
Suspirou em alívio ao reconhecer a voz que apesar de manipulada para parecer mais grossa, era inconfundível. Virou-se para encontrar um Jonathan Groff extremamente sorridente. Abraçou-o, retribuindo o sorriso que ela sabia ser sincero.
- Quando você chegou?
- Agorinha. O taxi ainda está ali aliás... Eu só vim ver se a Lea estava em casa. Estou carregado de malas.
- Bom... Eu tenho certeza que ela está. Vou subir pra ver se ela não está de calcinha ou alguma coisa do tipo. Tire seus olhos do que é meu, Jonathan.
Jon gargalhou com vontade, dizendo que da fruta que Dianna gostava, ele fugia que nem o diabo foge da cruz. Dianna seguiu para a portaria, enquanto o rapaz voltava para o carro em busca de seus pertences.
- Boa noite, Jimmy.
- Dona Dianna! – O porteiro cumprimentou sorrindo. E Dianna não pode deixar de notar que quando ele sorria tão abertamente quanto fazia agora, a calvície se acentuava. Reprimiu o pensamento se sentindo a pessoa mais maldosa do mundo.
- A Lea está aí?
Uma pergunta teoricamente retórica.
- Está sim. O seu Theo acabou de subir.
- Theo?
- A senhora conhece o seu Theo, né?
Infelizmente.
- Conheço.
- Vai subir também?
Dianna ponderou... Theo? Em casa? Mas fazendo o que?
- Vou.
O porteiro não respondeu, só sorriu outra vez.
Dianna seguiu para dentro do prédio. O elevador estava no térreo e ela decidiu que Jonathan poderia esperar. Ela não.
Quando chegou ao andar do apartamento de Lea, o silencio sepulcral demonstrava que Lea não parecia estar tratando Theo como da última vez. Quando o encontrara em casa da última vez, os gritos de Lea podiam ser ouvidos ainda do elevador.
Andou com estranheza até a porta do apartamento... Procurou as chaves dentro da bolsa. Lea não tinha se oposto quando Dianna não as devolveu. Chave encaixada na fechadura e forçada por Dianna, não trouxe resultado nenhum. A porta já estava aberta. Dianna levou a mão direita à maçaneta. Por alguma razão que ela não conseguia identificar, tremia um pouco. Apenas estava achando tudo aquilo muito estranho. Abriu a porta com vagar, esperando encontrar a sala às escuras. Mas não, a sala não estava às escuras.
A cena que se seguiu, parecera ter sido feita aos moldes dos piores pesadelos de Dianna.
Ela assistiu tudo em câmera lenta. O cérebro trabalhava em câmera lenta. Dianna via aquilo como quem vê um filme na televisão.
Theo se inclinava sobre Lea. Estava entre as pernas dela. Mesmo ele estando de costas e tampando muito da visão do corpo da moça, Dianna conseguiu ver com muita clareza que ele estava entre as pernas de Lea. A blusa preta jogada no meio da sala mostrava que ela provavelmente estava despida da cintura para cima e Dianna sentiu o mundo rodar. A sensação extremamente incomoda de tontura a fez se agarrar ao batente da porta. E ainda em câmera lenta, Theo virou a cabeça em sua direção.
O terror estava estampado nos olhos que tinham pelo menos três vezes o tamanho original, mas Dianna simplesmente não conseguiu notar.
Então ele pigarreou. Olhou para os lados, pensando se seria doloroso demais pular pela janela antes de Dianna chamar a polícia. O que fazer? Quando ele abriu a boca, só conseguia pensar em uma única saída. E era exatamente a mesma desde que tinha sido pego numa situação que poderia se assemelhar a que se encontrava agora. Claro que sem metade do grau de perversão e horror que a presente tinha.
- Anh... oi... vo-você quer... quer brincar também?
Foi o suficiente. Dianna se sentiu emergir do estado de torpor que a cena lhe colocava. Era um sonho. Era o maldito sonho que a atormentava desde a primeira vez que tinha ouvido aquilo. Se afastou da porta ainda olhando atônita para o interior do apartamento. Theo agora tinha segurado Lea de um jeito firme demais para ser considerado normal, como se ela estivesse pesando pelo menos metade do que pesava normalmente. Mas esse foi um outro detalhe que passou despercebido por Dianna. Sentia o estomago revirar quando por fim conseguiu se virar na direção das escadas que ficavam exatamente ao lado do elevador. Elevador que tinha acabado de chegar outra vez ao andar de Lea.
Dianna cruzou com um Jon carregado de malas enquanto corria na direção das escadas. Desceu como um risco, reprimindo a vontade de vomitar e de gritar em desespero. Ignorou os apelos de Jon, que apesar de gritar para que ela esperasse, não a seguiu.
Jon deixou que as malas caíssem no chão enquanto corria na direção contrária da de Dianna, chegou à porta do apartamento a ponto de ver um Theo descamisado começando a fechar a porta. Espalmou com muita força a porta de madeira, ganhando um olhar de ódio do outro rapaz.
Espiou para dentro da casa. O pouco que viu foi o suficiente para entender a reação de Dianna.
- Lea! – Gritou com raiva.
- Cai fora, mano. – Foi Theo quem respondeu.
- Lea, o que por Deus você está fazendo?
- Eu já falei pra você sair fora, cara. – Theo levou as mãos para o colarinho de Jon que não precisou mais de um chacoalhão para se livrar.
Jon olhou para dentro do apartamento outra vez, com verdadeiro ódio. Lea ainda não o tinha respondido. E olhou a tempo de vê-la caindo sobre o braço direito do sofá. Theo a tinha colocado ligeiramente inclinada para trás, o que facilitou que escorregasse sobre o assento.
- Lea? – Jon chamou uma vez mais, a luz da consciência lhe chegando com dolorosa claridade. A mesma força que tinha usado para evitar que Theo fechasse a porta foi usada novamente, dessa vez contra o peito do rapaz, que pego desprevenido, cambaleou, dando espaço suficiente para que Jonathan adentrasse o apartamento.
Lea continuava sobre o sofá. Deitava-se de maneira dolorida sobre o próprio braço. Uma posição que ninguém que estivesse em consciência conseguiria manter. Jon não demorou mais do que uma fração de segundos para entender que o que ele achava que tinha acontecido, realmente tinha acontecido.
- Desgraçado... – A voz perigosamente baixa foi quase um rosnado, enquanto Jonathan avançava para cima de um Theodore ainda mais aterrorizado do que quando fora pego por Dianna.
Um único soco foi o suficiente para jogá-lo contra a parede. E Jon não parou. Os dedos das mãos incomodavam toda vez que acertava a cara deslavada de Theo. Ele suspeitava que tinha quebrado um ou dois ossos no primeiro movimento, mas simplesmente não se importava. Theo era maior. Mas Jon era visivelmente muito mais forte. Não parou. Não conseguia parar.
Foi Jimmy quem o tirou de cima de Theodore longos três minutos mais tarde... E Theo não teve mais do que alguns segundos para fugir dali. Não levou nada. Nem a dignidade.
Vocês não gostaram muito do último capitulo, né? rs
Ok, ok. Peço desculpas. Mas foi um capitulo necessário.
Chegamos ao climax da história.
Atenção aos detalhes desse capitulo. Vão ser necessários mais para frente.
E eu preciso de vocês, sabe?
Se não tiver a consciencia de que vocês estão lendo, a inspiração simplesmente não vem.
Não me abandonem.
